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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Escrever em tempos de isolamento

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Escrevo - não porque já não tenha nada para fazer, mas sim porque não há mais nada com que preferisse ocupar o meu tempo, este tempo, neste momento; este momento em que sufocamos, mas em que também aprendemos outras formas de respirar.


Escrevo por necessidade, por fôlego, como um peixe que precisa de nadar às profundezas para, aí sim, sobreviver. Preciso de escrever, preciso, mesmo quando não consigo. Deve ser muito triste a vida sem esta forma de expressão, para quem depende tanto de palavras. Preciso de escrever para me materializar, para me pensar, para me construir, para me concretizar inteira.


Escrevo para que o raciocínio tome consistência. Enquanto escrevo, organizo, arrumo, descubro novos espaços onde viver. Durante este isolamento, que as palavras que escrevemos sejam a janela ou a varanda com vista para o resto do mundo! Que sejam a rua que caminhamos sem restrições! E que, se assim o desejarmos, seja o encontro e reencontro com quem nos deseje ler!


Escrevo, e quem me dera que outros também possam escrever para se sentirem menos ansiosos, nervosos, inseguros. Eu escrevo, para fugir das conversas repetidas, do fluxo de informação insistente e da iminência duma vida ainda desconhecida. Eu escrevo, porque, ao fazê-lo, só interessa o presente; este momento em que já não sufoco. E, no meio da cacofonia, interessa a minha voz, a única que monta este texto, que o dita. Não é silêncio, mas é poder.


Por isso, escrevam:

Escrevam em papel, nos cadernos e diários, ou na página branca e regrada do computador. Escrevam rascunhos, adágios, canções, listas e listinhas, diálogos, descrições, ficção e não-ficção, a vossa história ou a história de outros; escrevam porque escolhem, porque escrever faz sentido.

 

Aproveitem o desafio do confinamento para quebrar paredes e barreiras. Escrevam para se conhecerem melhor, para conhecerem os outros melhor, para crescer.

 

Escrever acalma e ritma a inconstância dos pensamentos. Subjuga-os à nossa vontade, diminui o stress e a ansiedade, diminui a dor, reduz a insegurança, alarga as perspectivas.


Eu escrevo, porque confio: hei-de sair mais construída, e mais construtiva, deste tempo que se apresenta como um presente, não sabemos se doce ou envenenado. Eu escrevo, ora para mim, ora para os outros, nos meus blocos de notas, no blog, no telemóvel, textos que guardo ou que me fogem, que partilho ou que escondo.


Escrever é grátis. Pode ser feito em qualquer lado - em casa também. Escrever leva-nos onde quisermos, sempre na ponta dos dedos, como quem afaga um gato adormecido, ou como quem se prende fortemente ao desfiladeiro.

Vamos escrever?

Qualquer semelhança com a realidade

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Não acredito nos escritores que dizem que as personagens dos trabalhos que escrevem são "mera ficção". Como é que eles se conseguirão relacionar de forma tão profunda, íntima, com alguém que não conhecem, que nunca viram, cujos gestos não estudaram, cujas mãos não tocaram, cujas bocas não apreciaram ou ouviram?

 

Acredito que todas as personagens da ficção existem, na verdade. Serão, porventura, compósitas. Sim, talvez sejam feitas de muita gente que o autor foi observando e sobre as quais foi, mesmo que por acidente, recolhendo dados. No entanto, a ficção acaba por ser uma realidade interpretada, reorganizada: como quando mudamos de casa, mas levamos a mesma mobília. Quem sabe, serei eu apenas ingénua, e venha daqui a uns meses ou anos repor a minha verdade sobre o que é isto de escrever sem contrato de veracidade sobre pessoas questionavelmente fictícias, ou tão materiais como uma unha do pé ou aqueles fios de cabelo presos na escova. Afinal, esteve ali ou não esteve?

 

Um dia que me vejam publicar um texto ficcional, saibam que dificilmente o será. Se me perguntarem se é de "pessoa X" que escrevo, se for mesmo "pessoa X", não me importarei de confirmar tal informação (partindo do princípio de que não devasso a privacidade de ninguém, claro está). Se me perguntarem se falo de "situação Y", é provável que seja, ou que aspire a ser (sem devaneios, sem invenções, é claro).

 

Qualquer semelhança com a realidade jamais seria coincidência. Sou paradoxalmente aspirante a escritora, mas péssima mentirosa. Escrevo exclusivamente a sério, mesmo quando baralho nomes, combino eventos ou exagero impressões. Tudo o que me acontece, tudo o que vejo acontecer e tudo o que me dizem poderá ser sujeito e objecto para escritas futuras. É tudo da minha cabeça; por isso mesmo...

 

Vejamos: o que escrevemos é o produto óbvio do que vivemos, lemos, vemos, sentimos, conhecemos. Não acordamos simplesmente um dia e pensamos que aquele é o conto, o livro ou o ensaio que nos comprometemos a criar. Existe um envolvimento pessoal inegável.

Um livro que não se mede à página: O Senhor Breton e a entrevista (Gonçalo M. Tavares)

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Quão acessória é a centralidade da poesia?

 

Neste primeiro livro que li de Gonçalo M. Tavares, O Senhor Breton e a entrevista (de 2008), fui apresentada a um fio de pensamento errante, acerca do papel do pensamento abstracto, das palavras e da literatura. Na verdade, sei que li cada capítulo pelo menos duas vezes, e continuo a relê-los, insistentemente. Fico uma e outra vez com a impressão de que me escapou um raciocínio qualquer, uma parte do texto, um significado escondido. Por isso,  parece que a entrevista do/ao Senhor Breton vai ser daqueles livros que vou andar a reler pelos anos fora, um clássico na estante pessoal. São 54 páginas como os lençóis e as mantas: desdobram-se e alargam-se(-nos). Há livros que não se medem à pagina.

 

A meio da leitura, apercebi-me de que este livro majestosamente pequeno é parte duma série chamada "O Bairro". Assim, quando me cansar da releitura, começo a arranjar os outros volumes - fácil! Aliás, imediatamente depois de escrever este texto, vou procurá-los.

 

Não, este não é o livro mais fácil de sempre. É um bocado louco, prescrito a quem queira ficar com o cérebro frito. É qualquer coisa entre o demais e o já chega, mas é isso que faz dele tão especial. De vez em quando, gosto de ler livros que me desafiem. O Senhor Breton, sem dúvida, não me facilitou a vida.  A coletânea de dez perguntas meta e metafóricas insiste no desvendar de pensamentos formalmente simples, mas semanticamente complexos.

 

E o mais importante para o leitor, para o escritor, para quem se alimenta de palavras e versos? Depois de ler O Senhor Breton e a entrevista, eu diria que é aceitar que nem todas as perguntas podem ser respondidas, porque é frequente nem ser necessário. Lá no fundo, já sabemos o que nos faz falta.

 

Obrigada, Gonçalo M. Tavares, por me ter impressionado e engolido à primeira leitura.

Quem é que escreveu o teu texto?

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Nos dias que correm, parecemos ser todos produtores de conteúdo instantâneos. Independentemente da faixa etária, utilizamos a Internet e aplicamos  asnossas competências digitais de forma inata, porque nascemos com cada vez mais dispositivos electrónicos à nossa volta e são-nos dadas cada vez mais comandos, telemóveis, computadores, tablets e mil engenhocas para as mãos quando somos cada vez mais novos. Por isso, a possibilidade de produzir conteúdo para um público vasto é um dado adquirido, ainda por cima num país como Portugal, onde facilmente nascemos com veia de escritor (até aqueles que pouco lêem). 

 

Tenho passado algum tempo no LinkedIn e, nesta rede social em particular, fico assoberbada pela quantidade do que por lá se escreve, a rodos. Fica a impressão de que há sempre algo para contar, toda a gente tem algo a contar, toda a gente é inspiradora e toda a gente conhece outro alguém com uma história inspiradora. Atenção: os textos que por lá se lêem nem são maus; são só "poucochinhos". A democratização das técnicas de storytelling (meras fórmulas) não traz necessariamente histórias que interessam, sem criar mais ruído. À parte a prática do amor próprio e ao próximo, que muito admiro e prezo, olho para esta entropia de histórias com pesar e cepticismo. A verdade é que quantidade não é qualidade, e muito menos novidade.

 

Felizmente, há histórias bem contadas e textos muito bons, que perfazem uma boa fatia do que tenho lido. E o que é uma história bem contada ou um texto muito bom? Claro que este meu próprio texto resulta de um exercício de altivez propositado, e que haverá critérios para todos os gostos. Assim, atrevo-me a apontar que, para mim, acima de tudo, um bom texto é um texto em que consigo ler a voz do autor. É um texto que não se parece com outros, seja pelo género, registo, tema, conteúdo, forma, respeito ou desrespeito pelas regras gramaticais... É um texto onde (sobre)vive alguém, e onde se nota um esforço de inovação e de permanência de uma tal voz autêntica, que não se copia. Quem escreveu o teu texto? Quem é que habita o teu texto? Quem é o autor assumido do teu texto? Foste tu a escrevê-lo ou poderia ter sido outra pessoa qualquer?

 

Como resposta a estas perguntas, não há mesmo fórmulas possíveis. Não há "princípio-meio-fim", título cativante ou primeira frase cheia de impulso que salve um texto. Estes são só o ponto de partida para algo que pode ser nosso, se o deixarmos acontecer, porque há mais além manuais de escrita criativa. Há pessoas.

[O Primeiro Capítulo] Quero escrever-lhes a agradecer, mas já esgotámos todas as palavras boas

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Ontem, tivemos "A Primeira Vez" d'O Primeiro Capítulo, com o convidado-cobaia-amigo Nelson Nunes, e eu ia dizer que foi ideia minha e da Elisa, mas não: já todos os presentes a tinham tido, e finalmente encontrámos a companhia que nos faltava. Confesso que, quando decidimos levar o projecto avante, não me ocorreu que suscitasse tanto interesse. Eu sabia que haveríamos de juntar algumas pessoas curiosas, mas... Mais do que isso: ontem demos as boas-vindas a um grupo como eu nunca tinha visto. Da quantidade de cursos de escrita criativa que já frequentei, dos eventos a que já fui, da licenciatura em Letras e das centenas de alunos que já ensinei nos últimos cinco anos, nunca me tinha deparado com tantos ditos escritores amadores numa só sala (dez!) que escrevessem, tão despretensiosos, de forma tão responsável, sensível.

 

Neste primeiro encontro d'O Primeiro Capítulo, tivemos participantes com formações académicas muito distintas, e quase nunca relacionadas com a literatura ou a escrita criativa (engenharia, arquitectura, finanças, enfermagem, ciência política, sociologia, biologia...). No entanto, todos cultivam um enorme amor e prazer pelas letras, provando que não temos de nos definir exclusivamente pelos empregos que nos pagam as contas, e que os nossos interesses podem divergir imenso, enriquecendo-nos tanto. Somos seres com potenciais tão complexos!

 

No final, restou-me uma sensação particular: fiquei cheia. Não sei bem de quê, porque é um tipo de satisfação indescritível. Devo ter deixado todas as palavras com quem as apanhou. Queria agradecer, e nem sei bem por onde começar.

 

O grupo teve muita química, demonstrámos o interesse comum pela elaboração de textos desafiantes, "com qualidade", e mostrámos vulnerabilidade suficiente para ouvirmos a nossa escrita pela voz doutra pessoa, sem por vezes nunca termos tido uma experiência semelhante. Ouvimos, recolhemos e distribuímos opiniões. Acho que fomos generosos. Queríamos, acima de tudo, ajudar e sermos ajudados, dar e receber, mostrando-nos disponíveis durante algumas horas para integramos um colectivo improvisado. Poucas ou nenhumas eram as pessoas que conhecíamos previamente, mas toda a conversa foi harmoniosa e fluiu pelo dobro do tempo previsto (na verdade, até os vizinhos terem afugentado os últimos resistentes, que doutra forma teriam ficado a conversar noite fora, e não só sobre escrita).

 

Em Novembro há mais! Com os mesmos ou outros participantes, contaremos dar as boas-vindas a mais interessados em partilhar os seus primeiros, segundos ou milésimos capítulos (graças ao apoio d'A Sala, um dos melhores espaços para simplesmente se estar e conviver, em Lisboa).

 

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Há uma frase que a Elisa tem dito nos últimos dias e que eu já referi antes: somos a média das cinco pessoas com quem passamos mais tempo. Elas inspiram-nos, mostram-nos caminhos alternativos e partilham o seu conhecimento connosco. Por isso, obrigada à própria Elisa (que é uma máquina de fazer coisas giras acontecerem), ao Nelson (que deve ser das pessoas mais organizadas que conheço, a julgar pela quantidade de livros que lê e pelos projectos em que se envolve) e a esta dezena de escritores de segunda-feira... por fazerem parte dessa equação maravilhosa, promissora. Estes últimos meses foram uma montanha-russa, e agora que a poeira está a assentar sei que é de pessoas assim que tenho de me rodear.

 

✍️ Em breve, divulgaremos a data e o tema para Novembro, tal como todas as outras informações úteis para quem se quiser juntar a nós! E, além disso, também começaremos a gravar o respectivo podcast O Primeiro Capítulo!

 

Até lá, sigam-nos por aqui:

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O Primeiro Capítulo dum projecto e podcast muito, muito bons!

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Já que não posso começar a rentrée psicológica com o primeiro dia de aulas, venho por este meio lançá-la com um novo projecto para o qual fui arrastada: O Primeiro Capítulo, um encontro por pessoas que gostam de escrever, para pessoas que também gostam de escrever.

 

Desde o início do ano que comecei a ir aos pequenos-almoços mensais das Creative Mornings Lisbon (das quais já vos falei imensas vezes), onde conheci a Elisa Baltazar, a host actual. Parece que a Elisa é uma máquina de fazer coisas acontecer, por isso não foi com grande surpresa que, já não me lembro bem como, decidimos fazer... isto que estamos a fazer! Queríamos escrever, queríamos conhecer mais pessoas que também queiram escrever, e temos vontade de criar uma oportunidade para todos esses escritores de gaveta se encontrarem, trocarem umas quantas ideias e partilharem alguns textos. Acreditamos que esta é uma forma de enriquecimento e crescimento.

 

Sem mais demoras, este é o texto de apresentação do encontro e podcast O Primeiro Capítulo!

 

𝐏𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐠𝐨𝐬𝐭𝐚𝐦 𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐜𝐫𝐞𝐯𝐞𝐫 𝐩𝐫𝐨𝐜𝐮𝐫𝐚𝐦 𝐩𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐠𝐨𝐬𝐭𝐚𝐦 𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐜𝐫𝐞𝐯𝐞𝐫

Dizem que para bem escrever são necessárias duas coisas, ler e escrever.
Concordamos, mas achamos, também , que é necessário optimizar a forma como se lê e a forma como se escreve.
Não é à toa que escritores tão importantes como Bocage, Alexandre Herculano, Almada Negreiros, Fernando Pessoa ou Mário de Sá Carneiro se juntavam em tertúlias onde, entre outros temas politicos e intelectuais, falavam de literatura.
Acreditamos que a interação também inspira, também ensina e também motiva.
Assim, o Primeiro Capítulo é um ciclo de encontros mensais de partilha entre pessoas que escrevem ou querem escrever.

Nestes encontros o objetivo passa, principalmente, por escrever. Escrever todos os meses ou, pelo menos, uma vez por mês. Não mais que 500 palavras sobre um tema que se mostre desafiante.
Uma vez escrito o texto, juntamo-nos e passamos esse texto a alguém para ler em voz alta. Este exercício permite-nos ver como outra pessoa entoa o nosso texto. Ouvir as nossas palavras pela boca de outro pode dar-nos toda uma nova perspetiva sobre a forma como escrevemos. Durante essa leitura não haverá lugar a comentários ou correções. O objetivo é que esta leitura nos dê espaço para repensar a forma como escrevemos.
Depois desta leitura, haverá espaço para comentários. Todos, exceto aquele que o escreveu, terão a oportunidade de comentar aquilo que sentiram falta no texto ou que possa ter ficado menos claro. Finalmente, serão feitas questões ao autor.
Em nenhum destes momentos, o autor terá a palavra. O objetivo aceitar a crítica como construtiva e ter tempo para refletir sobre a mesma.

Finalmente, contaremos também com a presença de um profissional da indústria para partilhar dicas, ideias comentários e, claro, inspirar-nos.

 

Mais concretamente, o objectivo destes encontros é discutir em conjunto textos que tenhamos produzido, sobre o tema lançado cada mês. Também contaremos com convidados especiais em todos esses encontros, que poderão oferecer críticas mais construtivas e algumas dicas relacionadas com o seu trabalho e possíveis obras.

 

Toda a informação pode ser encontrada online, no Instagram e no Facebook d'O Primeiro Capítulo, assim como no site Meetup.

 

Para Outubro, já temos tudo tratado e combinado, e estamos mesmo a aceitar inscrições! O nosso primeiro convidado no dia 7 (segunda-feira) será o Nelson Nunes, um autor de quem já vos falei por aqui, e conhecendo-o há quase uma década e tendo acompanhado a carreira (e a riqueza da estante) dele durante estes anos todos, tenho a certeza de que vamos ter conversas muito interessantes sobre escrita e livros. Para participarem, enviem-me/enviem-nos uma mensagem pelas plataformas e redes sociais sugeridas, ou um e-mail para podcastprimeirocapitulo@gmail.com.

 

Além do encontro, também faremos um podcast d'O Primeiro Capítulo... Mas falarei de tudo a seu tempo! Por agora, gostava muito que acompanhassem este projecto do meu coração, que  hão-de sair daqui belíssimas ideias. E espero ver alguém dos blogs nos nossos encontros! Conto convosco? 💚

As dores de um blog

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Este texto é para quem tem um blog, para quem não tem, e para quem, não tendo, gostaria de ter - ou seja, para toda a gente. No entanto, mais especificamente, este texto é para quem não sabe se vale a pena ter um blog.

 

Como podem verificar, publiquei pela última vez há duas semanas. Costumo fazê-lo mais frequentemente, mas a vida tem acontecido, o que quer dizer que não há grande coisa sobre a qual me apeteça escrever. Não tem acontecido nada, que, para quem escreve, costuma significar "não tem acontecido nada disruptivo ou dramático, cá andamos felizes e contentes, porque da satisfação não reza a escrita". Normalmente, tenho andado a escrever sobre livros, livros e mais livros. Já escrevi sobre a adolescência (coisas miúdas e desinteressantes), e depois universidade, universidade e mais universidade, e depois sobre viver na Tailândia, viver na Tailândia e mais viver na Tailândia, e depois desgosto de amor, desgosto de amor e mais desgosto de amor, a par de síndrome do regresso, síndrome do regresso e mais síndrome do regresso.

 

Este blog tem oito anos, celebrados há poucos dias, por isso já passou por várias fases. Quando digo às pessoas que tenho um blog, perguntam-me "um blog de quê?", como se isso fosse pergunta que se faça. Tenho um blog de tudo e mais algum acontecimento de vida, interesse, descoberta, partilha e queixinhas. Não lhe encontro categoria possível, e acabo por preferir a vergonha de responder "é um blog pessoal".

 

Então, talvez lhe devesse chamar "repositório". É como aquelas caixas rijas e coloridas que compramos na loja Viva, que levamos para casa a pensar que vão servir para um propósito particular e acabam a acumular tralhas diversas, amadurecidas com pó e mosquitos mortos misteriosamente presos lá dentro.

 

As dores de um blog são as dores da pessoa que o escreve. Expondo mais ou menos a sua vida fora dos écrãs, quem escreve um blog depende dela para criar conteúdo. Mesmo quando os blogs são temáticos, acabam por captar um pouco do que se passa antes de terem surgido aqueles textos. Tal como os livros, afinal. Quem é que nunca tentou perceber o que iria pela cabeça dum escritor ao escrever aquela história, ou sobre aquele tema específico? Quem é que nunca tentou adivinhar as suas motivações e interesses, ou a relação da ficção com a vida fora das páginas? Com um blog, passa-se o mesmo: conhecemos essas pessoas, mesmo sem nunca as termos visto ou falado com elas.

 

Então, o oposto também é possível: quando não se passa nada (ou, pelo menos, quando o autor pensa que não se passa nada), também não há muito para servir de matéria para a escrita. Não consigo inventar, mas posso-vos dizer que vi uma temporada de 22 episódios x 40 minutos duma série absolutamente irrelevante no Netflix em menos de sete dias, não tenho tido muita concentração para ler e tenho dado e preparado aulas até ter o cérebro dormente. Aliás, passei os últimos dias a arrastar-me, em parte porque ando a beber demasiado chocolate quente e a comer demasiadas gomas.

 

Estranhamente, hoje acordei nesse mesmo estado, mas à medida que a manhã se ia passando, fui-me apercebendo de que esse marasmo é cíclico, que é preciso deixá-lo entrar para depois o ver sair e que não me hei-de deixar deslumbrar por séries de crime e paixão para sempre. Depois de drenado o que estava a apodrecer, deixem entrar as novidades. Treinem o cérebro: um episódio de podcast de cada vez, um capítulo dum livro de cada vez, um artista novo de cada vez, uma resolução de cada vez.

 

A ver se regresso às lides menos procrastinantes e mais edificantes ASAP.

 

Seja como for, regressando ao ponto de partida. Este texto é para quem não tem um blog e não tem a certeza se valeria a pena. Talvez não tenham a ideia cimentada - que tema?, que tom?, que ideia de mim? Assinado ou anónimo? Para partilhar com os amigos e a família ou só para desconhecidos (porque é mais fácil escrever para quem não nos conhece)? Mas, volvidos oito anos, eu continuo a apoiar a ideia de que um blog é o que nós quisermos. Ao longo do tempo, apreciamos as metamorfoses e as dores. As metamorfoses de um blog são as de quem o escreve. As dores de um blog são as de quem o escreve. Independentemente do que procuram, vale sempre a pena ter um blog. É catártico, consola e dá-nos um propósito, nem que seja durante um par de horas por semana.

 

Estão a ler este texto? As dores do meu blog são as minhas. Irrelevantes, em geral, no plano universal. Relevantes, mesmo que descartáveis, para os tantos que por aqui passam e param. Imprescindíveis para mim, que o estou a escrever como exercício meta-coiso de quem pretende reafirmar a identidade do seu blog e um pouco a sua. Esta é a minha linha de escrita actual, se é que isso exista. Ora, se já existiram tantas... mais hão-de existir! Isso de se pensar "se é para escrever, que se escreva bem" é o que temos de combater com exercícios anti-ego. Vamos escrever o que nos apetecer, não interessa se mais alguém vai querer ler o que escrevemos ou não.

 

Como imagem ilustrativa deste texto, deixo-vos com uma paisagem a partir do cimo de Óbidos, que fotografei há algumas semanas quanto lá fui. Não tem nada a ver com o resto do conteúdo, mas acho-a extremamente relaxante, devido à quantidade de verde e azul em toda a sua extensão, extensão essa que por sua vez ilustra a quantidade de procrastinação investida na elaboração deste texto. ... Viram? A qualidade literária deste parágrafo nem sequer existe, nicles, e de certeza que alguém o está a ler e a pensar que valeu mais a pena fazê-lo do que voltar ao trabalho, ver uma série de segunda categoria no Netflix ou ler um capítulo do último Prémio Nobel. Também me diverti a escrevê-lo, por isso é recíproco.

 

(Fora de brincadeiras, muito obrigada aos comentários que por aqui vão deixando. Confesso que sou uma respondedora de comentários bastante ausente e, na melhor das hipóteses, atrasada. Mas eu leio e agradeço. Pratico essa coisa da gratidão. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Prometo continuar a contribuir para a vossa procrastinação por muitos anos, provavelmente mais oito, dez ou trinta.)

Escrever, pôr tudo cá fora: Bullet Journal, journalling, to-do lists e outros estrangeirismos de caneta no papel

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Tenho blocos de notas e ideias desde o primeiro ou segundo ano da faculdade. Ao longo dos anos, fui escrevendo maioritariamente listas de tarefas, pensamentos súbitos, algo de importante que me dissessem, partes de livros que achasse conterem ensinamentos para a vida (a certo ponto, tive a sensação de que teria de copiar todo The Four Loves de C. S. Lewis...). A Inês também desde cedo percebeu o quanto eu comecei a gostar de blocos e bloquinhos, então num Natal ofereceu-me um bloco com uma encadernação tão amorosa que ainda hoje se encontra em branco (tenho pena de o conspurcar com a mundanidade da minha caligrafia desnivelada) e, o que despoletou uma nova mania nos hábitos de escrita, uma caneta Sheaffer que me acompanhou durante dois anos até ter ficado sem tinta e eu me ter conformado à preguiça e esquecimento de comprar uma nova recarga (nota mental: fazê-lo hoje, por fim).


No entanto, perdi um pouco desse hábito quando comecei a viver sozinha e ao mudar-me para o outro lado do mundo. As rotinas ficaram todas trocadas, graças a esse maravilhoso fenómeno de brincar aos adultos e tentar perceber as regras do jogo. Comecei a escrever cada vez menos, até no blog, e a perder pensamentos pelo caminho, sem os anotar e organizar. Não me saía nada, não tinha sequer concentração, apesar de continuar a comprar cadernos, blocos e canetas de forma praticamente compulsiva. Ainda me pergunto de vez em quando se não terá sido essa uma das falhas logísticas que contribuíram para o meu mal-estar. Quem sabe?! No final de 2017, antes de regressar a Portugal, recomecei a escrever, mas em poucos meses essa vontade readquirida voltou a extinguir-se quando a materialização de pensamentos no papel insistia em relembrar-me o quão triste algumas coisas me deixavam e eu preferia não lidar com elas.


Assim, passadas essas fases em que o papel e canetas ficaram arrumados, foi no final de 2018 que recomecei a escrever mais consistentemente à mão e a ter sempre um bloco ou caderno por perto, por influência da ideia do Bullet Journal, o qual conheci através do livro homónimo sobre o sistema.


Apesar de não ter adoptado à risca o sistema original de Bullet Journal, comecei a criar as minhas próprias "colecções" ou secções temáticas. Em primeiro lugar, voltei a escrever e a vigiar listas de tarefas, objectivos e eventos. Três meses mais tarde, também tenho criado repositórios de ideias para projectos pessoais, para o blog e, a pouco e pouco, tento cultivar o hábito de escrever em forma de diário, o que hoje chamam journalling, cujas técnicas mais criativas ainda estou para aprender.


Diz que faz bem à cabeça registar por escrito o que só causa ruído e ocupa espaço desnecessário na memória de trabalho. Diz que faz bem ao coração para diminuir a ansiedade, ganhar distância e, consequentemente, objectividade. Por exemplo, foi-me recomendado pela psicóloga que me começou a seguir fazer listas e mais listas e também um "mapa de emoções", onde registe e me confronte com o que precisa de ser destrinçado, para analisar comportamentos, pensamentos, sentimentos e procurar-lhes padrões e novidades.


É como nas sopas que a minha avó faz: vai tudo lá para dentro, sem receita, é o que houver na altura, o que estiver à mão. Assim escrevo eu no bloco actual. O que interessa é fazê-lo. 

 

***

 

Nota: ao escrever este texto, comecei a procurar outros que ilustram as situações referidas, e é incrível relembrar a longevidade deste blog, o que me levou tão longe quanto 2012 nas minhas recordações, quando parece que escrevi tudo anteontem. Um cliché blogosférico, é o que vos digo!

Ler mais autores portugueses e lusófonos tem sido o meu objectivo literário para 2018

Há muitas pessoas que não conseguem viver sem filmes, outras que não passam sem séries, ou que sentem necessidade de ir ao ginásio todos os dias. Eu preciso de ler, se não todos os dias, muito regularmente. Por isso, tenho tentado ler em maior quantidade e qualidade, porque sei que me faz sentir melhor e mais feliz. Neste caso, decidi investir em ler mais autores portugueses e lusófonos como objectivo literário para 2018.

 

 

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 (O meu desafio anual no Goodreads até agora.)

 

Ler mais autores portugueses e lusófonos tem sido o meu objectivo literário para 2018 por várias razões.

 

Em primeiro lugar, acho que apoiar o que é nacional é uma mais-valia. Não entrando em sentimentos nacionalistas nem "o que é nacional é que é bom", acredito que nos fica bem valorizar o que é feito por portugueses e em língua portuguesa, porque é muito fácil entusiasmarmo-nos mais com o que vem do estrangeiro e tendemos a esquecer-nos das nossas origens e um pouco da nossa identidade. Consumimos imensa cultura inglesa e americana, por exemplo, nem que seja por serem tão "vendidas" pelos meios de comunicação. É-lhes dada imensa visibilidade, o que nem sempre acontece em semelhante proporção quando se trata de criações ou produtos portugueses.

 

Este é o meu caso. Estudei literatura inglesa e americana, tive professores ingleses e americanos, cresci a ver séries da Fox e do AXN (e reality shows do TLC), a ver os Simpsons e comédias românticas de Hollywood, a ler Harry Potter e Crónicas de Nárnia, falo inglês todo o dia, todos os dias, há mais de dois anos, por causa do meu trabalho, refugio-me nessa língua que já considero um pouco minha... por isso sei o quão fácil (e cómodo) é pegar num paperback em inglês (que, ainda por cima, é mais barato) em vez de investir num autor português publicado em capa dura. A certa altura, até os temas são mais familiares. 

 

Por outro lado, eu quero lembrar-me e estar em contacto com todas as minhas tais "identidades" ou "origens". Quero saber tanto quanto possível sobre um povo e sobre o outro (e outro, e outro, e outro). Esse é outro motivo pelo qual quero ler mais autores portugueses. Quando os leio, também me sinto em casa, a beber da nossa língua, pessoas, culturas e mentalidades. É a língua portuguesa que me fascina, até mais do que a inglesa, ou a francesa e a espanhola. Para mim, é um desafio, ainda por cima por achar que os nossos escritores adoptam frequentemente um tom muito nostálgico, triste e insatisfeito através da sua escrita (sei que pode ser cultural, mas...). Assim, tenho tentado encontrar autores que contrariem ou equilibrem essa tendência. Também quero ler sobre gente feliz.

 

Finalmente, leio imenso porque quero aprender a escrever com quem percebe do assunto. Só grandes leitores podem dar, no mínimo, escritores medíocres. Respeito quem o faz bem e sei que têm muito a ensinar-me. O que escreveram os clássicos? O que escreveram autores X e Y? O que andam a escrever os contemporâneos? O que os torna não interessantes? O que os faz ganhar prémios? O que os faz serem tão aclamados pela crítica e pelo próprio público?

 

Até agora, em 2018 ainda só li cerca de oito livros escritos em língua portuguesa. No entanto, tenho feito um esforço por comprar mais e interessar-me pela literatura nacional e lusófona recente e das últimas décadas, tentanto intercalar um livro em português a cada leitura noutra língua (inglês, quase sempre). O mais difícil é explorar novos temas, a que a literatura estrangeira não me habituou. Mas, cada passo a seu tempo, há que começar por algum lado.

 

Também aceito dicas e sugestões de quem esteja a tentar fazer o mesmo que eu, dando uma oportunidade aos autores de língua portuguesa! O que andam a ler? Ou quem? E como são os vossos hábitos de leitura?

Terceira semana a tentar escrever um livro, e ainda não abandonei o barco

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Estou há quase três semanas a tentar escrever um livro, ou o que se possa tornar um, de volta do mesmo projecto, um recorde pessoal que não quero agoirar de forma alguma, mas que, contra todas as probabilidades e hábitos prévios, tenho conseguido levar a bom porto. São só nove páginas no Word, mas fui eu que as escrevi, de forma cuidada, e não simplesmente a pensar "aqui vai disto". Tem pés e cabeça e estou a tentar tranformá-las, um dia de cada vez, no livro que eu gostaria de ler. 

 

Mas tentar escrever um livro custa, como quase tudo o que é bom de alcançar na vida. Esta semana, em particular, cheguei à parte em que, depois de brevemente apresentada a premissa inicial, tenho de começar a dar dimensão às personagens. Já não podem ser só indivíduo X e indivíduo Y, têm de ser pessoas credíveis. Se as encontrássemos na rua e elas nos contassem a sua vida, poderíamos acreditar no que nos contariam acerca da sua família, dos seus amigos e do seu passado. Poderíamos visitá-las no seu local de trabalho e observar as suas rotinas diárias. Poderíamos convidá-las para jantar e notar que X poria a faca entre os dentes do garfo para cortar o bife antes de o molhar na gema do ovo e que Y seria vegetariana por razões médicas, mas não recusaria o paté de sardinha das entradas.

 

Todos os dias, antes de abrir o documento e retomar a releitura ou a escrita, sofro duma fobia que me aterroriza constantemente: e se hoje for o dia em que eu perco o interesse nesta história? Ando nisto há dezassete dias, passeio o computador para todo o lado (costas sofrem), ou seja, tive que enfrentar pelo menos umas dez ou doze oportunidades de insucesso e dissatisfação (houve dias em que nem consegui ligar o computador, preferi ficar a pensar na história sem lhe acrescentar nada). Conheço tão bem essa sensação, a sensação de que ainda não vai ser dessa vez que levo um projecto a bom porto, que há mil e uma desculpas pelas quais o terei de abandonar, ora porque a escrita revela imaturidade, ora porque as personagens são aborrecidas, ora porque o enredo há-de chegar a uma estrada sem retorno, ora porque já centenas de autores que admiro já criaram coisas tão boas, e o que poderia eu trazer ao mundo que se comparasse minimamente, merecedor da sua própria existência...? É toda uma logística mental que me vejo obrigada a equilibrar, antes de entrar em paranóia e deitar tudo a perder, três (quatro, cinco,. .. cem) semanas de luta e conquista pessoal sem resultado.

 

Ainda por cima, ando a tentar escrever um livro ao mesmo tempo que outro texto, para submeter a um concurso em Agosto, cujo tema e rumo tem de ser totalmente diferente e cuja finalidade é mais palpável (um prémio monetário muito atraente, diga-se de passagem). Dito isto, há que ser perseverante. Lutar contra os bloqueios e as desculpas. Pássaro por pássaro, palavra por palavra, página por página. É fácil desistir quando não estabelecemos metas, mas tenho tentado ver a escrita como o meu novo emprego a part-time. Quando não estou a dar aulas, estou a escrever, ou a pensar no que escrever. A minha meta é levar esta empreitada com tanta seriedade quanto for humanamente possível. A criatividade também deve ser disciplinada e treinada, como outras ferramentas de trabalho. Tive sorte, inspiração e pouca auto-censura há uma década e foi assim que comecei, mas agora vejo-me a braços com a necessidade de fazer mais e melhor, tal como fiz quando o copywriting me pagou a licenciatura - escrita disciplinada, com método e um fim prático à vista. Eu até posso não escrever um livro brilhante aos 23 anos, mas, se o terminar, isso significará que serei capaz de o fazer mais vezes, com mais experiência, prática e - muito importante - fé e confiança.

 

Já agora, obrigada a quem deixou dicas no último texto que partilhei sobre o tema! Todas elas são óptimas e, se tiverem mais, avancem e partilhem-nas!