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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

As dores de um blog

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Este texto é para quem tem um blog, para quem não tem, e para quem, não tendo, gostaria de ter - ou seja, para toda a gente. No entanto, mais especificamente, este texto é para quem não sabe se vale a pena ter um blog.

 

Como podem verificar, publiquei pela última vez há duas semanas. Costumo fazê-lo mais frequentemente, mas a vida tem acontecido, o que quer dizer que não há grande coisa sobre a qual me apeteça escrever. Não tem acontecido nada, que, para quem escreve, costuma significar "não tem acontecido nada disruptivo ou dramático, cá andamos felizes e contentes, porque da satisfação não reza a escrita". Normalmente, tenho andado a escrever sobre livros, livros e mais livros. Já escrevi sobre a adolescência (coisas miúdas e desinteressantes), e depois universidade, universidade e mais universidade, e depois sobre viver na Tailândia, viver na Tailândia e mais viver na Tailândia, e depois desgosto de amor, desgosto de amor e mais desgosto de amor, a par de síndrome do regresso, síndrome do regresso e mais síndrome do regresso.

 

Este blog tem oito anos, celebrados há poucos dias, por isso já passou por várias fases. Quando digo às pessoas que tenho um blog, perguntam-me "um blog de quê?", como se isso fosse pergunta que se faça. Tenho um blog de tudo e mais algum acontecimento de vida, interesse, descoberta, partilha e queixinhas. Não lhe encontro categoria possível, e acabo por preferir a vergonha de responder "é um blog pessoal".

 

Então, talvez lhe devesse chamar "repositório". É como aquelas caixas rijas e coloridas que compramos na loja Viva, que levamos para casa a pensar que vão servir para um propósito particular e acabam a acumular tralhas diversas, amadurecidas com pó e mosquitos mortos misteriosamente presos lá dentro.

 

As dores de um blog são as dores da pessoa que o escreve. Expondo mais ou menos a sua vida fora dos écrãs, quem escreve um blog depende dela para criar conteúdo. Mesmo quando os blogs são temáticos, acabam por captar um pouco do que se passa antes de terem surgido aqueles textos. Tal como os livros, afinal. Quem é que nunca tentou perceber o que iria pela cabeça dum escritor ao escrever aquela história, ou sobre aquele tema específico? Quem é que nunca tentou adivinhar as suas motivações e interesses, ou a relação da ficção com a vida fora das páginas? Com um blog, passa-se o mesmo: conhecemos essas pessoas, mesmo sem nunca as termos visto ou falado com elas.

 

Então, o oposto também é possível: quando não se passa nada (ou, pelo menos, quando o autor pensa que não se passa nada), também não há muito para servir de matéria para a escrita. Não consigo inventar, mas posso-vos dizer que vi uma temporada de 22 episódios x 40 minutos duma série absolutamente irrelevante no Netflix em menos de sete dias, não tenho tido muita concentração para ler e tenho dado e preparado aulas até ter o cérebro dormente. Aliás, passei os últimos dias a arrastar-me, em parte porque ando a beber demasiado chocolate quente e a comer demasiadas gomas.

 

Estranhamente, hoje acordei nesse mesmo estado, mas à medida que a manhã se ia passando, fui-me apercebendo de que esse marasmo é cíclico, que é preciso deixá-lo entrar para depois o ver sair e que não me hei-de deixar deslumbrar por séries de crime e paixão para sempre. Depois de drenado o que estava a apodrecer, deixem entrar as novidades. Treinem o cérebro: um episódio de podcast de cada vez, um capítulo dum livro de cada vez, um artista novo de cada vez, uma resolução de cada vez.

 

A ver se regresso às lides menos procrastinantes e mais edificantes ASAP.

 

Seja como for, regressando ao ponto de partida. Este texto é para quem não tem um blog e não tem a certeza se valeria a pena. Talvez não tenham a ideia cimentada - que tema?, que tom?, que ideia de mim? Assinado ou anónimo? Para partilhar com os amigos e a família ou só para desconhecidos (porque é mais fácil escrever para quem não nos conhece)? Mas, volvidos oito anos, eu continuo a apoiar a ideia de que um blog é o que nós quisermos. Ao longo do tempo, apreciamos as metamorfoses e as dores. As metamorfoses de um blog são as de quem o escreve. As dores de um blog são as de quem o escreve. Independentemente do que procuram, vale sempre a pena ter um blog. É catártico, consola e dá-nos um propósito, nem que seja durante um par de horas por semana.

 

Estão a ler este texto? As dores do meu blog são as minhas. Irrelevantes, em geral, no plano universal. Relevantes, mesmo que descartáveis, para os tantos que por aqui passam e param. Imprescindíveis para mim, que o estou a escrever como exercício meta-coiso de quem pretende reafirmar a identidade do seu blog e um pouco a sua. Esta é a minha linha de escrita actual, se é que isso exista. Ora, se já existiram tantas... mais hão-de existir! Isso de se pensar "se é para escrever, que se escreva bem" é o que temos de combater com exercícios anti-ego. Vamos escrever o que nos apetecer, não interessa se mais alguém vai querer ler o que escrevemos ou não.

 

Como imagem ilustrativa deste texto, deixo-vos com uma paisagem a partir do cimo de Óbidos, que fotografei há algumas semanas quanto lá fui. Não tem nada a ver com o resto do conteúdo, mas acho-a extremamente relaxante, devido à quantidade de verde e azul em toda a sua extensão, extensão essa que por sua vez ilustra a quantidade de procrastinação investida na elaboração deste texto. ... Viram? A qualidade literária deste parágrafo nem sequer existe, nicles, e de certeza que alguém o está a ler e a pensar que valeu mais a pena fazê-lo do que voltar ao trabalho, ver uma série de segunda categoria no Netflix ou ler um capítulo do último Prémio Nobel. Também me diverti a escrevê-lo, por isso é recíproco.

 

(Fora de brincadeiras, muito obrigada aos comentários que por aqui vão deixando. Confesso que sou uma respondedora de comentários bastante ausente e, na melhor das hipóteses, atrasada. Mas eu leio e agradeço. Pratico essa coisa da gratidão. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Prometo continuar a contribuir para a vossa procrastinação por muitos anos, provavelmente mais oito, dez ou trinta.)

Escrever, pôr tudo cá fora: Bullet Journal, journalling, to-do lists e outros estrangeirismos de caneta no papel

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Tenho blocos de notas e ideias desde o primeiro ou segundo ano da faculdade. Ao longo dos anos, fui escrevendo maioritariamente listas de tarefas, pensamentos súbitos, algo de importante que me dissessem, partes de livros que achasse conterem ensinamentos para a vida (a certo ponto, tive a sensação de que teria de copiar todo The Four Loves de C. S. Lewis...). A Inês também desde cedo percebeu o quanto eu comecei a gostar de blocos e bloquinhos, então num Natal ofereceu-me um bloco com uma encadernação tão amorosa que ainda hoje se encontra em branco (tenho pena de o conspurcar com a mundanidade da minha caligrafia desnivelada) e, o que despoletou uma nova mania nos hábitos de escrita, uma caneta Sheaffer que me acompanhou durante dois anos até ter ficado sem tinta e eu me ter conformado à preguiça e esquecimento de comprar uma nova recarga (nota mental: fazê-lo hoje, por fim).


No entanto, perdi um pouco desse hábito quando comecei a viver sozinha e ao mudar-me para o outro lado do mundo. As rotinas ficaram todas trocadas, graças a esse maravilhoso fenómeno de brincar aos adultos e tentar perceber as regras do jogo. Comecei a escrever cada vez menos, até no blog, e a perder pensamentos pelo caminho, sem os anotar e organizar. Não me saía nada, não tinha sequer concentração, apesar de continuar a comprar cadernos, blocos e canetas de forma praticamente compulsiva. Ainda me pergunto de vez em quando se não terá sido essa uma das falhas logísticas que contribuíram para o meu mal-estar. Quem sabe?! No final de 2017, antes de regressar a Portugal, recomecei a escrever, mas em poucos meses essa vontade readquirida voltou a extinguir-se quando a materialização de pensamentos no papel insistia em relembrar-me o quão triste algumas coisas me deixavam e eu preferia não lidar com elas.


Assim, passadas essas fases em que o papel e canetas ficaram arrumados, foi no final de 2018 que recomecei a escrever mais consistentemente à mão e a ter sempre um bloco ou caderno por perto, por influência da ideia do Bullet Journal, o qual conheci através do livro homónimo sobre o sistema.


Apesar de não ter adoptado à risca o sistema original de Bullet Journal, comecei a criar as minhas próprias "colecções" ou secções temáticas. Em primeiro lugar, voltei a escrever e a vigiar listas de tarefas, objectivos e eventos. Três meses mais tarde, também tenho criado repositórios de ideias para projectos pessoais, para o blog e, a pouco e pouco, tento cultivar o hábito de escrever em forma de diário, o que hoje chamam journalling, cujas técnicas mais criativas ainda estou para aprender.


Diz que faz bem à cabeça registar por escrito o que só causa ruído e ocupa espaço desnecessário na memória de trabalho. Diz que faz bem ao coração para diminuir a ansiedade, ganhar distância e, consequentemente, objectividade. Por exemplo, foi-me recomendado pela psicóloga que me começou a seguir fazer listas e mais listas e também um "mapa de emoções", onde registe e me confronte com o que precisa de ser destrinçado, para analisar comportamentos, pensamentos, sentimentos e procurar-lhes padrões e novidades.


É como nas sopas que a minha avó faz: vai tudo lá para dentro, sem receita, é o que houver na altura, o que estiver à mão. Assim escrevo eu no bloco actual. O que interessa é fazê-lo. 

 

***

 

Nota: ao escrever este texto, comecei a procurar outros que ilustram as situações referidas, e é incrível relembrar a longevidade deste blog, o que me levou tão longe quanto 2012 nas minhas recordações, quando parece que escrevi tudo anteontem. Um cliché blogosférico, é o que vos digo!

Ler mais autores portugueses e lusófonos tem sido o meu objectivo literário para 2018

Há muitas pessoas que não conseguem viver sem filmes, outras que não passam sem séries, ou que sentem necessidade de ir ao ginásio todos os dias. Eu preciso de ler, se não todos os dias, muito regularmente. Por isso, tenho tentado ler em maior quantidade e qualidade, porque sei que me faz sentir melhor e mais feliz. Neste caso, decidi investir em ler mais autores portugueses e lusófonos como objectivo literário para 2018.

 

 

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 (O meu desafio anual no Goodreads até agora.)

 

Ler mais autores portugueses e lusófonos tem sido o meu objectivo literário para 2018 por várias razões.

 

Em primeiro lugar, acho que apoiar o que é nacional é uma mais-valia. Não entrando em sentimentos nacionalistas nem "o que é nacional é que é bom", acredito que nos fica bem valorizar o que é feito por portugueses e em língua portuguesa, porque é muito fácil entusiasmarmo-nos mais com o que vem do estrangeiro e tendemos a esquecer-nos das nossas origens e um pouco da nossa identidade. Consumimos imensa cultura inglesa e americana, por exemplo, nem que seja por serem tão "vendidas" pelos meios de comunicação. É-lhes dada imensa visibilidade, o que nem sempre acontece em semelhante proporção quando se trata de criações ou produtos portugueses.

 

Este é o meu caso. Estudei literatura inglesa e americana, tive professores ingleses e americanos, cresci a ver séries da Fox e do AXN (e reality shows do TLC), a ver os Simpsons e comédias românticas de Hollywood, a ler Harry Potter e Crónicas de Nárnia, falo inglês todo o dia, todos os dias, há mais de dois anos, por causa do meu trabalho, refugio-me nessa língua que já considero um pouco minha... por isso sei o quão fácil (e cómodo) é pegar num paperback em inglês (que, ainda por cima, é mais barato) em vez de investir num autor português publicado em capa dura. A certa altura, até os temas são mais familiares. 

 

Por outro lado, eu quero lembrar-me e estar em contacto com todas as minhas tais "identidades" ou "origens". Quero saber tanto quanto possível sobre um povo e sobre o outro (e outro, e outro, e outro). Esse é outro motivo pelo qual quero ler mais autores portugueses. Quando os leio, também me sinto em casa, a beber da nossa língua, pessoas, culturas e mentalidades. É a língua portuguesa que me fascina, até mais do que a inglesa, ou a francesa e a espanhola. Para mim, é um desafio, ainda por cima por achar que os nossos escritores adoptam frequentemente um tom muito nostálgico, triste e insatisfeito através da sua escrita (sei que pode ser cultural, mas...). Assim, tenho tentado encontrar autores que contrariem ou equilibrem essa tendência. Também quero ler sobre gente feliz.

 

Finalmente, leio imenso porque quero aprender a escrever com quem percebe do assunto. Só grandes leitores podem dar, no mínimo, escritores medíocres. Respeito quem o faz bem e sei que têm muito a ensinar-me. O que escreveram os clássicos? O que escreveram autores X e Y? O que andam a escrever os contemporâneos? O que os torna não interessantes? O que os faz ganhar prémios? O que os faz serem tão aclamados pela crítica e pelo próprio público?

 

Até agora, em 2018 ainda só li cerca de oito livros escritos em língua portuguesa. No entanto, tenho feito um esforço por comprar mais e interessar-me pela literatura nacional e lusófona recente e das últimas décadas, tentanto intercalar um livro em português a cada leitura noutra língua (inglês, quase sempre). O mais difícil é explorar novos temas, a que a literatura estrangeira não me habituou. Mas, cada passo a seu tempo, há que começar por algum lado.

 

Também aceito dicas e sugestões de quem esteja a tentar fazer o mesmo que eu, dando uma oportunidade aos autores de língua portuguesa! O que andam a ler? Ou quem? E como são os vossos hábitos de leitura?

Terceira semana a tentar escrever um livro, e ainda não abandonei o barco

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Estou há quase três semanas a tentar escrever um livro, ou o que se possa tornar um, de volta do mesmo projecto, um recorde pessoal que não quero agoirar de forma alguma, mas que, contra todas as probabilidades e hábitos prévios, tenho conseguido levar a bom porto. São só nove páginas no Word, mas fui eu que as escrevi, de forma cuidada, e não simplesmente a pensar "aqui vai disto". Tem pés e cabeça e estou a tentar tranformá-las, um dia de cada vez, no livro que eu gostaria de ler. 

 

Mas tentar escrever um livro custa, como quase tudo o que é bom de alcançar na vida. Esta semana, em particular, cheguei à parte em que, depois de brevemente apresentada a premissa inicial, tenho de começar a dar dimensão às personagens. Já não podem ser só indivíduo X e indivíduo Y, têm de ser pessoas credíveis. Se as encontrássemos na rua e elas nos contassem a sua vida, poderíamos acreditar no que nos contariam acerca da sua família, dos seus amigos e do seu passado. Poderíamos visitá-las no seu local de trabalho e observar as suas rotinas diárias. Poderíamos convidá-las para jantar e notar que X poria a faca entre os dentes do garfo para cortar o bife antes de o molhar na gema do ovo e que Y seria vegetariana por razões médicas, mas não recusaria o paté de sardinha das entradas.

 

Todos os dias, antes de abrir o documento e retomar a releitura ou a escrita, sofro duma fobia que me aterroriza constantemente: e se hoje for o dia em que eu perco o interesse nesta história? Ando nisto há dezassete dias, passeio o computador para todo o lado (costas sofrem), ou seja, tive que enfrentar pelo menos umas dez ou doze oportunidades de insucesso e dissatisfação (houve dias em que nem consegui ligar o computador, preferi ficar a pensar na história sem lhe acrescentar nada). Conheço tão bem essa sensação, a sensação de que ainda não vai ser dessa vez que levo um projecto a bom porto, que há mil e uma desculpas pelas quais o terei de abandonar, ora porque a escrita revela imaturidade, ora porque as personagens são aborrecidas, ora porque o enredo há-de chegar a uma estrada sem retorno, ora porque já centenas de autores que admiro já criaram coisas tão boas, e o que poderia eu trazer ao mundo que se comparasse minimamente, merecedor da sua própria existência...? É toda uma logística mental que me vejo obrigada a equilibrar, antes de entrar em paranóia e deitar tudo a perder, três (quatro, cinco,. .. cem) semanas de luta e conquista pessoal sem resultado.

 

Ainda por cima, ando a tentar escrever um livro ao mesmo tempo que outro texto, para submeter a um concurso em Agosto, cujo tema e rumo tem de ser totalmente diferente e cuja finalidade é mais palpável (um prémio monetário muito atraente, diga-se de passagem). Dito isto, há que ser perseverante. Lutar contra os bloqueios e as desculpas. Pássaro por pássaro, palavra por palavra, página por página. É fácil desistir quando não estabelecemos metas, mas tenho tentado ver a escrita como o meu novo emprego a part-time. Quando não estou a dar aulas, estou a escrever, ou a pensar no que escrever. A minha meta é levar esta empreitada com tanta seriedade quanto for humanamente possível. A criatividade também deve ser disciplinada e treinada, como outras ferramentas de trabalho. Tive sorte, inspiração e pouca auto-censura há uma década e foi assim que comecei, mas agora vejo-me a braços com a necessidade de fazer mais e melhor, tal como fiz quando o copywriting me pagou a licenciatura - escrita disciplinada, com método e um fim prático à vista. Eu até posso não escrever um livro brilhante aos 23 anos, mas, se o terminar, isso significará que serei capaz de o fazer mais vezes, com mais experiência, prática e - muito importante - fé e confiança.

 

Já agora, obrigada a quem deixou dicas no último texto que partilhei sobre o tema! Todas elas são óptimas e, se tiverem mais, avancem e partilhem-nas! 

Pensamentos sobre tentar escrever um livro (outra vez), auto-censura e outras inquietações

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Ando a tentar escrever um livro há anos. Há cerca duma década (portanto, quando era um bebé), ganhei alguns prémios literários revelação a nível nacional, no secundário ganhei outros do município onde estudei, cheguei a escrever um ou dois livros pequenos e muito maus, e, depois disso, parece que fui amaldiçoada por uma praga que me impede de prosseguir além da terceira ou quarta página de seja o que for que tente criar, por muito boa que a premissa inicial seja.

 

Eu sei o nome dessa praga. Aliás, foram várias. Foram as ilusões e desilusões da adolescência. Foi a adaptação à escola pública. A descoberta de autores que eu pensava - e penso - nunca ser capaz de superar. Foram os exames nacionais. A entrada na universidade. Conjugar estudos e trabalho. Viagens, intercâmbios. Foi o fim da licenciatura e o processo de "adultização". Foi o trabalho e os estudos simultâneos outra vez. Foi o meu regresso e as respectivas desventuras. Foi a permanente auto-censura de achar que nunca sou capaz de escrever nada de jeito, ou que não tenho experiência de vida que me credibilize.

 

Mas, na verdade... Sabem o que foi? Sabem o que talvez ainda seja? Falta de concentração. Falta de compromisso. Muitas e variadas desculpas. Socorrer-me da alegria e da tristeza para justificar a minha falta de acção. Ora estou tão feliz que nem tenho tempo para escrever, porque uma pessoa feliz não é tão criativa. Ora estou tão infeliz que não arranjo paciência para pensar nos meus dramas, quanto mais nos das personagens.

 

Entretanto, esgotei as desculpas. Tenho trabalhado muito menos do que alguma vez trabalhei nos últimos cinco anos da minha vida. Ando num período em que não me sinto arrasada por nenhum sentimento positivo ou negativo que me permitam desleixar e entrar num novo ciclo de "não tenho cabeça para escrever".

 

No início da semana passada, recomecei a escrever. Uma coisa é escrever um texto para o blogue, que me costuma levar duas ou três horas a escrever, na loucura, e em que só me preocupo com as minhas inquietações. O registo é informal, é só uma espécie de monólogo. O formato é simples, o enredo vai-se desenvolvendo sem eu ter de puxar pela cabeça, a trama é muitas vezes desinteressante e, em geral, não estou preocupada se vou suscitar vozes críticas ou não.

 

Então, comecei a escrever uma coisa qualquer que tem de ter qualidade literária, gerar interesse e ter o potencial de criar reacções nos outros, de ser relevante para mais alguém além de mim. Quer dizer, não sou do tipo de pessoa que escreve para ficar na gaveta. Ah, e também tenho de o fazer de modo a não olhar para o texto, franzir o sobrolho e pensar, de novo, "mas que grande porcaria, ainda não vai ser desta".

 

Escrever um livro, ou essa coisa qualquer (que não tem outro nome) assim é difícil, porque é um compromisso a longo prazo. Não se escrevem dez páginas num dia. Ontem, por exemplo, escrevi um parágrafo. Noutros dias, se calhar vou só reler e rever. Ou pensar. Vou ter de aguentar esta história que tenho na cabeça por meses. Ou pior, anos. Vou ter de arranjar uma lógica para o que quero contar. Quem são os protagonistas... ainda nem sei bem. Tenho de conhecer essa gente toda. Tenho de lhes dar um propósito na vida e um motivo para existirem na minha cabeça.

 

Quando começo a escrever, sei o que quero contar, mas não como o fazer. Por vezes, só quero que essa narrativa passe a existir, à custa de duas cenas que imaginei e que tenho de encaixar algures. Isto quer dizer que ando a tentar escrever pelo menos uma centena de páginas, somente porque ando a idealizar umas quatro. Não faz sentido, mas sinto-me no dever de as pôr na ordem.

 

Outro factor de censura quanto a escrever um livro é ter medo que alguém que faça parte da minha vida real se reveja nem que seja numa borbulha duma personagem e me venha pedir satisfações. "Olha lá, isto não sou eu?" Já aconteceu e a ideia teve de ficar na gaveta. Neste momento, estou a tentar adoptar uma posição mais neutra, mas também mais discreta. Obviamente, é impossível não incluir detalhes, características ou manias de pessoas que eu conheço (nem que seja alguém que eu tenha visto ou ouvido no comboio, o que também já aconteceu), por isso faço questão de entrar em enormes afazeres mentais para camuflar e misturar tudo o que possa. Se não conseguir fazê-lo por algum motivo, tenciono comunicá-lo a quem o tiver de fazer, se essa altura chegar (afinal, o que escrevo até pode nunca chegar a ver a luz do dia).

 

Deixei-me de censuras e auto-censuras, ando mais num "logo se vê", excepto no que toca a escrever com regularidade e disciplina. Por outro lado, há que ver esta tentativa como um passatempo mesclado de ambição pessoal. Sem pressão... Bem, só  bocadinho. Desde que li o Bird by Bird da Anne Lamott que meti na cabeça que "pássaro a pássaro" é a melhor estratégia. Vamos ver se também funciona comigo. Quão difícil pode ser escrever um livro? Muito. Mas ninguém gosta mais de desafios do que eu. 

 

(Se não for desta, têm permissão para me azucrinar a cabeça.)

Nanozine nº10

Quase não tenho dado notícias, mas continuo por cá. Hoje, venho apenas partilhar uam novidade rápida convosco: saiu por fim o nº10 da Nanozine, o primeiro número desta magazine em que participo. Sinto que o meu trabalho foi mínimo, porque, realmente, quem merece uma salva de palmas é a equipa da direcção (a talentosa Leonor e a procrastinadora Alexandra aka Pantapuff, que já conhecerão doutras andanças), assim como todos os artistas que contribuíram para esta edição - destaco o trabalho da Gabrielle Germano, que tratou da ilustração da capa e da BD do número 10.

 

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Se gostariam de também contribuir para o próximo número da Nanozine, leiam as condições de submissão e enviem os vossos textos, fotografias, desenhos ou o que melhor vos parecer para o e-mail nanozine.web@gmail.com! Visitem igualmente o site da Nanozine em http://nanoezine.wordpress.com para conhecerem melhor o projecto!

 

Facebook: www.facebook.com/Nanozineoficial

Dos outros #40

"Perguntou-me o que é que eu escrevia nos livros. Respondi-lhe que me escrevia a mim. Escrevo-me. Escrevo o que existo, onde sinto, todos os lugares onde sinto. E o que sinto é o que existo e o que sou. Escrevo-me nas palavras mais ridículas: amor, esperança, estrelas, e nas palavras mais belas: claridade, pureza, céu. Transformo-me todo em palavras."

 

José Luís Peixoto, Uma Casa na Escuridão

Olá e adeus, estou mesmo de saída!

Eu bem quero escrever acerca dos livros que tenho lido e comprado, lindos e maravilhosos, umas autênticas pechinchas. Eu bem quero escrever acerca de piadas e curiosidades da vida de todos os dias. Eu bem tento arranjar um espacinho na minha disponibilidade psicológica para estas vontades e quereres, mas não consigo. É muito difícil não sentir o chamamento do blogue.

Por outro lado, está tudo bem. Tem estado tudo mesmo muito bem. Continuo a ter o melhor namorado do mundo, os melhores amigos do planeta, uma família de gritos, a faculdade está lá no sítio, tenho muito trabalho, muito para estudar... Só que tenho tido poucas palavras, pelo menos para escrever aqui.

Na tentativa de colmatar a minha ausência por terras procrastinadoras, aqui seguem alguns textos mais informais que escrevi no mês passado a título não pessoal, mas sim - digamos - profissional, para os blogues dinamizados pela própria empresa:

  1. 5 dicas fundamentais para se tornar num bom aluno
  2. Procura um telemóvel novo? Experimente um Android!
  3. Porquê criar um blogue? Eis algumas razões...
  4. Quais os benefícios de praticar desporto? E onde posso praticá-lo?
  5. (Apenas) 5 breves vantagens se gostar de ler livros
  6. 4 razões para visitar um museu em Lisboa

 

Tenham um bom fim-de-semana e não me odeiem! Ah ah ah!

(Depois digam-me o que acharam dos textos acima mencionados, pode ser?)

Ninguém devia ser obrigado a trabalhar a partir da sua cama, quanta crueldade!

Tenho de escrever dez textos sobre lareiras, salamandras e recuperadores de calor até segunda-feira (2/10, so far). E na semana passada foi sobre contabilidade e cursos de formação. Depois de trabalhar em copywriting, a minha cultura geral nunca mais vai ser a mesma, tenho a certeza! Um dia, a Manuela Moura Guedes tem-me lá à perna no estúdio! Vou ser montes de milionária. 

Actualização de estado

Agora sim, já posso dizer que tenho um novo emprego. Sou paga para escrever, com o rabo alapado no sofá, com as pernas estiraçadas na cama ou a fazer o pino nos transportes públicos. Eu sabia que este dia chegaria, só não sabia que seria já, já, já. O emprego do futuro: copywriter, experimentando técnicas de Search Engine Optimization, ou seja, fazendo com que os sites das empresas sejam mais visíveis nos motores de busca, em particular no Google (e também posso aplicar essas técnicas neste mesmíssimo blogue!). É escrever e comunicar, pronto. É fixe ter arranjado um trabalho em que não tenho de me enfiar não sei quantas horas por dia num cubículo com má iluminação. Obrigada à minha colega que me passou os contactos dos responsáveis. Se ela estiver a ler isto, que tenha a certeza de que estou exultante. Nunca serei tão rápida e competente a fazer estes textos quanto a sua pessoa, mas vou tentando.

 

E eis o texto que oficializa a coisa, o primeiro de muitos, entre aqueles que já escrevi e que ainda virei a escrever: TCHARAAAN!

Soma e segue!