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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Agradecimentos

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Adoro as páginas de agradecimentos dos livros. E adoro as dedicatórias, ainda no início. Ultimamente, dou por mim a imaginar como serão os agradecimentos, caso apareçam no final (o mais comum), enquanto leio o livro. Tento imaginar quem serão as pessoas que contribuíram, directa ou indirectamente, para que a obra como ela é, como eu a vejo, existisse.

 

Penso em tudo o que escrevo como uma folha de acetato entre mim e o leitor. Não é bem assim, mas há sempre uma parte do meu raciocínio que me faz acreditar que deixo transparecer tudo o que sou através da minha escrita. Por isso, imagino que os leitores prevejam facilmente quem serão os protagonistas dos possíveis agradecimentos num hipotético livro que eu publique um dia destes.

 

Os escritores são como quaisquer outras pessoas, mas com uma vida interior rica. Demasiado rica. Demasiado barulhenta. Extravagante? Extravasa para o papel, como é inevitável. É o que tenho aprendido ao ouvir a quantidade de podcasts que ouço e a ler a quantidade de textos autobiográficos que leio. Ainda assim, os escritores têm amigos e têm família. Têm editores e colegas de profissão. Têm montes de gente a torcer para que aquilo que escrevem seja bem recebido.

 

Os escritores são como quaisquer outras pessoas, por isso é natural que sejam permeáveis às vidas que os rodeiam. São influenciados e influenciáveis. A página de agradecimentos é que o confirma.

 

Quando também for altura de eu escrever uma página de agradecimentos, quase não precisarei de agradecer a quem tenho de agradecer. Só será uma formalidade necessária para convencer os leitores menos informados de que eu sou, de facto, a pessoa que rouba nomes, frases, momentos e histórias de vida a quem me rodeia.

 

Sou a pessoa que pega nisso tudo, enfia na máquina da roupa e fica à espera do chocalhar do tambor. As fontes de inspiração, chamemos-lhes assim, saberão qual o agradecimento que lhes cabe, a partir de que parte. Finalmente, quando terminar o ciclo, terei uma mistura de pedaços daqui e dali que perfazem o meu trabalho (o trabalho de montar retalhos, portanto). Haverá, até, quem reivindique agradecimentos indevidos e imerecidos, mas até a esses eu direi: com certeza, agradeço a quem quiser que eu agradeça, que agradecimentos, renovada paciência e generosidade nunca faltarão a quem, por fim, consegue trazer uma obra ao mundo.

 

Mas os agradecimentos escritos vão lá estar, seja como for. Serão comprovativos daquilo e das pessoas que realmente interessam. Serão a tal formalidade necessária para convencer os leitores menos informados de que eu sou, de facto, a pessoa que rouba nomes, frases, momentos e histórias de vida a quem me rodeia.

 

...

 

Na fotografia: a dedicatória em This is Going to Hurt, de Adam Kay.

 

Mais dedicatórias e agradecimentos interessantes aqui.

O fim de um ano sem resoluções

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No início de 2021, não escrevi nem fiz resoluções de ano novo sérias. Penso que foi a primeira vez em muitos anos, uma vez que sempre adorei listas, fazer apontamentos e fazer planos. Fazer planos tem sido a minha forma de vida desde que me lembro, motivada pela minha avó a sonhar e a pensar nas opções para o futuro de amanhã ou para o futuro das próximas décadas - lembro-me de falar com ela todos os dias, quase em monólogo, sobre possibilidades e estrutura.

 

Ainda assim, não planeei o último ano. 2021 podia ser tudo e podia ser... nada. Pareceu-me demasiado arriscado, talvez despropositado, visto que 2019 já tinha sido, para mim, um ano absolutamente improvável, e que 2020 jamais faria parte dos nossos sonhos, pesadelos ou cenários colectivos imaginados mais rocambolescos. Sabia lá eu o que poderia acontecer em 2021!

 

2021 foi um ano improvisado. Eu sabia que não havia alternativa, senão contar com uma dose considerável de aleatoriedade. Aceitei a abundância de variáveis. Aceitei que seria um ano com muita necessidade de fé, sobre o qual eu pudesse encolher os ombros com frequência.

 

Mudei-me para Vila Viçosa, comecei a viver com o João e abandonei convictamente (com todo o gosto) qualquer ambição de voltar a trabalhar ou estudar em Lisboa nos próximos anos. Encontrei uma rede de apoio e carinho nos nossos vizinhos, habituei-me à calma e às dinâmicas de viver numa vila pequena, ganhei tempo (e lentidão) para escrever como nunca escrevi na vida, para deixar de me sentir ansiosa a toda a hora e para ser só eu, no meu espaço.

 

Finalmente, o meu espaço. 2021 foi o ano de fazer duma casa nova um lar, o nosso primeiro lar a dois - ou a quatro. Agora, é um lugar de paz. Depois de termos adoptado a Coffee Bean no final de 2020, vimo-la crescer de cachorrinha mais activa e teimosa de sempre, para jovem adulta esperta, querida e companheira. Lord Ennui continuou a ser o gato mais carismático, falador e impaciente (mas paciente com a Coffee) que nos poderia calhar. Os dois fizeram as delícias de quem passava por baixo dos nossos varandins.

 

Li 42 livros, entre os quais se encontram algumas releituras, vi poucos filmes e vi mais séries do que esperava. Quase não saí de casa, procrastinei imenso e decidi cometer a loucura de fazer uma pós-graduação ao mesmo tempo que o mestrado. Concorri a três prémios literários; ganhei o 3º lugar num e fui finalista noutro, que tive a oportunidade de apresentar num evento especial. Escrevi quase um livro inteiro, um sem número de contos e desafiei-me a publicar mais no blog. Dei aulas a pessoas extremamente interessantes, com os meus alunos aprendi muito sobre a língua portuguesa.

 

Descobri que trabalho demais e que preciso de ser mais branda nas expectativas sobre mim mesma. Descobri que me esqueço de descansar.

 

Comecei o ano a matar plantas e acabei o ano a gostar de as manter vivas. Passei o verão a fazer mantas em crochet para as minhas sobrinhas emprestadas, descobri que sou daquelas pessoas que sabem cozinhar por puro acaso, sem esforço, e ouvi montes de podcasts enquanto me dediquei a essas actividades. Fiz terapia semanalmente, remendei muitos buraquinhos na minha cabeça e aceitei que o que faz sentido para mim é viver numa espécie de caos organizado (e contido pelo João).

 

Pelo meio, conheci imensas pessoas (algo surpreendente para quem ficou muito tempo em casa). Fiz amigos e mantive amigos. E tanta coisa se passou na vida dos meus amigos, tal como na minha! Emocionei-me tantas vezes!

 

2021 não foi planeado. Fiz tudo de improviso e por intuição. Por isso, 2022 vai ser um ano um pouco mais regrado e pensado, que é para haver equilíbrio. Claro que já fiz uma lista e preparei o espaço para outras. 2022 tem de se tornar um ano com estrutura.

 

Estes são alguns dos meus 24 desejos para 2022:

1. Escrever um daily log;

2. Ver 30 filmes;

3. Ler 40 livros;

4. Fazer uma viagem sozinha;

5. Fazer escalada interior;

6. Começar a escrever a tese de mestrado;

7. Criar o podcast que tenho na cabeça há quase 2 anos.

 

Terminou um ano sem resoluções. O próximo será diferente, completamente diferente.

Sugestões de livros para cabeças cansadas

 
 
 
 
 
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Uma publicação partilhada por BeatrizCM (@beatrizcanasmendes)

 

Há dias em que, realmente, não há pachorra. O cérebro não obedece, os olhos teimam em fechar-se, ou só vêem formigas no papel. Vai na volta que as vozinhas cá de dentro começam a divagar, a fazer contas à vida, a lista do supermercado e o inventário de moscas na parede. Nisto, o livro que temos na mão ou no colo passa a ser objecto decorativo, aspiracional, mas nada inspirador. Como contrariar esta maldita preguiça mental?! Ou como conciliar o cansaço do dia com uma biblio-reanimação, coisa leve (só em peso e papel, claro), mas não menos agradável e enriquecedora?



Foi a pensar em tais momentos de pasmaceira intelectual que elaborei este simpático montinho de livrinhos (e outros mais a atirar para o calhamaço). Aqui encontram principalmente livros de crónicas, ensaios e contos, mas também romances curtos e/ou divididos em capítulos e subcapítulos minúsculos, que são excelente companhia para quem não nasceu endinheirado e/ou desocupado, e já maçou e matou os neurónios noutras actividades necessárias à sobrevivência, ainda assim amando boa literatura. Bem sei o que isso é.



Neste montinho, também incluí alguns dos meus livros favoritos, sobre os quais já escrevi no blog.



Dito isto, espero que apreciem a presente publicação, que é a mais elaborada do meu perfil de Instagram até à data. Mais sugestões semelhantes agradecem-se (já estou a esgotar o meu próprio stock e o meu limiar de atenção continuará curto, e cada vez mais curto).



Nota: os livros que recomendo não são sempre leituras fáceis. Estão escritos, sim, de forma a podermos ir lendo um bocadinho agora e outro bocadinho daqui a dez minutos. Os temas nem sequer são sempre os mais divertidos ou levezinhos (até são bastante sérios). Ainda assim, acredito que estas são boas sugestões para quando nos falta traquejo para ler romances e tratados de física que nunca mais acabam. Contos, crónicas e capítulos mais curtos mantém o ritmo da leitura.

 

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Ser escritor é profissão, passatempo, estatuto ou mania?

Sou pequena, mas já demasiado alta. Sou desengonçada, distraída do resto do mundo e até da minha própria existência. Passo os dias a imaginar não estar ali, seja ali onde for, porque é sempre ali que não quero estar, onde me sinto presa e demasiado borbulhenta e oleosa entre as mesmas pessoas que conheço desde os 5 anos.

 

Durante as aulas, leio e ouço música com um só fone. Com o outro ouvido, posso ouvir se chamarem o meu nome para responder a alguma pergunta. E, para minha enorme surpresa mais de uma década volvida, respondo sempre com a resposta correcta.

 

Por vezes, escrevo. Lembro-me de ideias que escrevo em papel ou que repito mentalmente, apenas para meu deleite e vaidade. "Que bem que soa!", haveria de pensar. Mas, logo a seguir, acho a frase parva e faço por esquecê-la.

 

Desde a primária que sou batoteira. Ninguém sabe, mas eu escolhia sempre as actividades do Plano Individual de Trabalho que envolvem escrever ou, na pior das hipóteses, ler. Ficava muito frustrada ou aborrecida quando era obrigada a fingir que o facto de me calhar sempre isso era pura aleatoriedade, e lá tirava um pequeno cartão ou folha de papel com instruções para realizar uma operação matemática sem qualquer entusiasmo, um sacrifício necessário.

 

Enquanto sou pequena, apesar de já passar a minha avó em altura, a Professora Antónia inscreve-me no meu primeiro concurso literário, da Editorial Caminho, alusivo à colecção d'Uma Aventura. Nesse concurso, ganho menções honrosas dois ou três anos seguidos. Depois, começo a perceber que o Google não serve só para procurar informação sobre os livros e os filmes do Harry Potter, e passo a inscrever-me em todos os concursos que encontro que permitem a uma miúda de treze ou catorze anos concorrer. A minha avó diz, a brincar:

- Um dia, deixas de ter paredes para tantos diplomas e certificados!

 

Ela está a brincar, mas eu sei que também está a falar a sério, porque ela sabe que isso pode ser um desafio para mim.

 

Com o dinheiro dos prémios, compro CDs dos Jonas Brothers, roupa na Bershka e na Pull&Bear do Rio Sul Shopping, livros da saga Crepúsculo e uma máquina fotográfica de 12MP. Afinal, sou uma adolescente bastante igual às outras, e com esse dinheiro tento remediar um bocadinho do fosso que existe entre o orçamento da minha família e o orçamento das famílias da maioria dos meus colegas no colégio para traquitanas fúteis, às quais alguns parecem ter acesso ilimitado.

 

Nos últimos anos da adolescência, também guardo o dinheiro para pequenas despesas e para as propinas da faculdade. Orgulho-me dessas conquistas e desse talento: eu escrevo. E escrever deu-me dinheiro para ser uma adolescente fútil entre os 13 e os 18 anos.

 

Aos 18, começo a trabalhar e escolho estudar Letras. Quero ser jornalista, apesar de ter um biscate a escrever publicações para blogs publicitários de terceira categoria, mas curiosamente deixo de escrever aquilo de que eu realmente gosto, à excepção deste blog. Não tenho tempo para mais.

 

Mesmo que tivesse esse tempo, estudar literatura mata-me o bicho. Tantos gigantes já vieram antes de mim e escreveram tanto e com tão melhor qualidade. Afinal, para que escreveria eu? Aprender a ler é um presente envenenado, que contamina a admiração que tinha por mim mesma e pelas minhas palavras, pontapeando qualquer esperança de um dia poder ser como esses autores. 

 

Faço o penúltimo semestre da licenciatura na Universidade Católica e escolho a electiva de Escrita Criativa. Conheço a Daniela, a primeira pessoa que conheço que escreve e lê como eu, na mesma quantidade, com o mesmo amor. O nosso professor é o Jorge Vaz de Carvalho, e graças a ele confirmo que afinal não escrevo mal; por outro lado, graças a ele também deixo de ler com prazer durante um par de anos, sempre atenta às falhas dos escritores, mesmo aqueles de quem gosto tanto. Nunca mais perdi completamente esse olhar incansável cheio de julgamento até por quem admiro, mas felizmente vou aprender a geri-lo até ao dia em que escrevo este texto, por fim mais reconciliada com a imperfeição da escrita e da leitura - as minhas e as dos outros.

 

Os meus vinte e poucos anos passam numa nuvem de descobertas, de alegrias profundas e de desgostos inesquecíveis, de lições e de muitos, muitos livros. Já não compro CDs, mas subscrevo o Spotify. Não me tornei na jornalista que queria (mas a Daniela conseguiu), porque me tornei na professora que afinal andava a esconder debaixo da pele e porque já não tenho dúvidas: o que me interessa é escrever. Depois de conhecer a Daniela, conheci o Rui. Depois de conhecer o Rui, conheci a Elisa. Pelo meio, surgiram outras amizades mais passageiras, e não me lembro de quase nenhuma que tenha sido imensamente importante e que não tenha partido pelo menos de uma pergunta ou de um comentário sobre livros e escritores. Estas foram as pessoas que, depois da minha família, me convenceram a continuar a escrever, que insistiram e fizeram questão de ler os meus textos.

 

Se escrever é uma vocação que não depende de prémios (nunca mais ganhei nenhum depois dos 17 anos) ou de títulos (olho com sobranceria para quem se acha escritor por auto-nomeação), eu escrevo. Preciso de escrever, até nos dias em que acho que a minha necessidade frequentemente obsessiva de palavras e clareza vocabular e verbal é mais um entrave do que uma benção. Sofro dos nervos, há dias em que podia rebentar com pânico, mas ter de escrever é uma inevitabilidade.

 

No podcast "10 000 horas", Afonso Cruz explica que escrever é a transpiração do que lê - em primeiro lugar, Afonso Cruz diz-se leitor.

É certo que há suores mais refinados do que outros, por isso não há grande surpresa ao constatar que o meu é inodoro e invisível, mas extremamente pastoso e incontrolável, um pouco como o chichi de um bebé, que é incontinente, inconveniente e desagradável, por muito fofo que também nos pareça.

 

Eu acredito mesmo que quem quer ser escritor ou quem se torna escritor em alguma fase da vida, e sobretudo na infância, foi posto um bocadinho de lado. E, sendo posto de lado, foi possível olhar as coisas de fora [00:05:30].

 

Assim o diz Filipa Melo - escritora, jornalista, crítica literária e, entre todas essas ocupações e mais algumas, também professora da pós-graduação que vou começar este mês, em Escrita de Ficção. (Assistam à conversa completa no vídeo que se segue!)

 

 

Alguns minutos depois, ainda no início da conversa, continua:

Acho que a identidade de todo o artista vem de um certo sofrimento de não pertencer completamente ao mundo dos outros e ficar numa posição de observador. [00:08:49]

 

Ouvir estas declarações é, para mim, como encontrar um cadeirão de braços num cantinho com lareira, onde posso encolher-me a dormitar no meio do Inverno mais frio. Rodeada de adultos, única criança na família, com falta de jeito para fazer amigos, elogiada por ser contida e ter sempre o comportamento adequado e as frases certas na ponta da língua, lembro-me de ensaiar alternativas e outras formas de ser, de pensar, de imaginar e de me fazer entender.

 

Também tenho pensado muito nessa questão: quem é um escritor? Ou melhor: o que é um escritor?

 

A alfabetização crescente e o acesso aos meios de promoção de obras em nome próprio têm gerado o fenómeno dos escritores autopublicados, que procuram ferramentas e formas de distribuir as suas criações . Estes também costumam ser, em simultâneo, os escritores autonomeados. Já vos contei da minha aversão à vaidade das comunicações que recebo por e-mail e pelas redes sociais? Crucifiquem-me!, mas só porque eu faço bolos isso não faz de mim pasteleira. Escrever também não fará de ninguém escritor sem as credenciais e o reconhecimento necessário dos leitores, por isso não me compenetro com a penetração insistente de mensagens na minha inbox de Fulano Etc e Tal | Escritor e Poeta que só vende livros à mãe, ao pai, aos avós e aos padrinhos, mas que se ofende gravemente quando perfeitos desconhecidos não lhe fazem sequer like no perfil de Instagram.

 

Seja como for, eu sei quem não é escritora: eu. E também sei o que não é ser escritora: não escrever e ficar com o texto na cabeça até se evaporar da memória, como eu costumava fazer, só por ter medo que não seja a frase perfeita. Não sendo escritora, ainda assim, escrevo. Sem alternativa, escrevo. Com medo de perder o fôlego pelo caminho um dia destes, volto a estudar literatura e escrita para me forçar a continuar a aprender e a melhorar.

 

Escrever é uma maratona. [00:44:15]

 

É Dulce Maria Cardoso quem o afirma, no programa de rádio de Luís Caetano, "A Ronda da Noite". Logo eu, a quem não é aconselhada a corrida por causa da escoliose, sou obrigada a investir noutros desportos radicais, como passar horas a bater com os dedos no teclado ou a apontar ideias inconsequentes em blocos de notas em papel e no telemóvel. E a evitar a procrastinação por medo, quando não me serve para nada adiar o carácter inadiável da escrita como prioridade na minha vida.

 

Ainda não sei se ser escritor é profissão, passatempo, estatuto ou mania. Nem me interessa, por agora, porque eu sou muitas coisas, entre as quais uma pessoa muito teimosa e obstinada que, por acaso, tenta escrever umas coisas entre ataques de pânico, metades de Victan e muito colo. Na pior das hipóteses fico para professora (quem não faz ensina!, dirá quem merece arder no inferno dos castigos virados para a parede), e isso é outra inevitabilidade muito feliz da minha vida sobre a qual vos posso maçar noutra altura.

 

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Fotografia tirada em Abril de 2021.

Escrevo quase tudo o que lêem neste blog na companhia da Coffee, que ora dorme, ora me corta o raciocínio porque quer brincar, ora está simplesmente perto de mim - de preferência, subornada com um osso.

Vocês sabem quem é A Louca da Casa?

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Primeiro, adorei. Depois, estranhei. Finalmente, entendi.

 

A Louca da Casa não é um livro fácil, desafiando convenções do que é um género literário, ora registo autobiográfico, de memórias; ora ficção, invenções sem fim, enredos românticos e romanceados; ora ensaio sobre a vida de escritora, a escrita, o mistério da criatividade e imaginação (a tal "louca da casa").

 

Passei a leitura das duzentas e tal páginas a querer confiar em Rosa Montero, a querer que ela me dissesse: isto aconteceu mesmo, isto não. Mas não foi possível arranjar caixinhas. O objectivo de Rosa Montero foi quebrar essa definição tão rígida e explorar as potencialidades de géneros que podem ser distantes, mas que são mais próximos do que os julgamos.

 

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Afinal, o que nos garante que uma autobiografia é isenta e que conta tudo tal como aconteceu? Aliás, como cheguei à conclusão através da leitura, ao ouvir outras pessoas e na minha própria terapia: cada vez que tentamos contar uma história, acabamos por contar uma história diferente. É sempre, idealmente, a mesma história, só que a vida muda, a nossa perspectiva muda, acrescentamos um ou outro detalhe, real, imaginado ou tão bem fabricado que achamos verídico. A autora prova-o, por exemplo, usando a história de como conheceu M., um actor famoso. Não direi mais nada, para que possam descobrir do que se trata ao vosso ritmo.

 

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Ao longo deste livro, somos lembrados de que, até quando queremos contar a verdade mais pura sobre as nossas vidas, é inevitável contarmos outra coisa qualquer, e que os escritores contam a verdade sem querer, enquanto podem não ser totalmente verdadeiros quando tem de acontecer de propósito. Sem o leitor saber, e até sem eles mesmo se aperceberem, podem embelezar as suas histórias de vida, puxar a brasa à sua sardinha, tornar os pormenores mais interessantes, concentrar-se mais no que lhes convém e esquecer agruras várias que poriam em causa a opinião alheia e a sua reputação.

 

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Assim sendo, o leitor é convidado a sentir incómodo à conta da exploração do conceito de verdade. Queremos, sempre, a verdade. E nada mais do que a verdade, mesmo que ela seja uma verdade só de boca, irremediavelmente coxa, apenas idealizada e não necessariamente isenta. Por isso, temos de aprender a conviver com a inquietação e a dúvida, aceitando que os limites entre o mundo real e o mundo irreal numa obra literária de cariz (supõe-se) autobiográfico se encontram naturalmente esbatidos, nebulosos.

 

Quanto a mim e à minha experiência de leitora, fiquei especialmente intrigada com os acontecimentos da vida de Rosa Montero, uma vez que me ando a interessar por ler e ouvir sobre vidas de mulheres escritoras, qual a sua experiência de vida enquanto artistas. Por isso, tive, também eu, de aprender a aceitar que as partes mais inventadas poderiam ser tão verdadeiras, à sua maneira, quanto as outras. Que também elas são capazes de revelar o que há de mais íntimo para contar, apenas não do modo literal que eu pretendia.

 

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No final, este é o livro certo para quem procura uma exploração e divagação (sim, uma longa e intricada divagação!) sobre o poder das palavras e o ofício que é escrever.

 

Este livro é um trabalho um pouco meta e metafórico, sem deixar de nos impelir a ler um e outro capítulo, mesmo quando já nos sentimos prontos para fazer uma pausa. Não há muitas pausas possíveis, porque, tal como a escrita, a leitura é de igual forma um acto que absorve, consome e agarra quando assim tem de ser. Chega o momento e precisamos de entender, estudar e tentar convocar a louca da casa, com a ajuda deste A Louca da Casa.

 

Não acho que as opiniões sejam unânimes, mas, feitas as contas, gostei disto a valer.

 

Nota: preparem-se para ir apontando as referências a outros livros e autores extremamente interessantes, para sublinhar e para ir relendo as páginas anteriores.

 

Nota 2: este livro é mencionado neste episódio do podcast "Meu Inconsciente Coletivo", criação da escritora mais mencionada neste blog, Tati Bernardi.

 

Nota 3: já repararam na associação constante da loucura à criatividade artística, nomeadamente à criação literária? Entre os meus podcasts favoritos, encontra-se "Louco Como Eu" (entrevistas a escritores, com Susana Moreira Marques). A própria Tati Bernardi escreveu o livro Depois a Louca Sou Eu. E, em geral, os meus escritores favorito são quase todos, se não loucos, pelo menos neurodivergentes.

Ser uma eterna estudante

Quando me pedem uma descrição sobre mim mesma, hesito sempre. O que devo incluir, o que é mais importante, o que pode dar um toque divertido ou diferenciado, o que melhor me define, o que me torna eu?

 

Hesito em quase tudo o que teria para mencionar, porque há tanto que eu tenho feito, faço e quero fazer, há ainda mais para contar sobre quem fui, sou e quero ser... Como é que se define uma pessoa que se conhece tão bem, como nos conhecemos a nós mesmos (idealmente)? E como é que se define alguém em poucas linhas, como se de uma fotografia se tratasse, quando essa pessoa está, como todos os organismos vivos, em constante mudança, inquietação, transformação e desenvolvimento?

 

Estas são algumas das questões que me preocupam em tal cenário. No entanto, de uma única coisa tenho sempre a certeza: sou uma eterna estudante. Ultimamente, tenho-me apercebido de que essa linha nunca pode faltar na minha nota biográfica. Sou professora, e escrevo sem me considerar escritora, mas não é de menor relevância mencionar que estudar é, por agora, outra parte indispensável da minha actividade, mas também da minha identidade.

 

É verdade que as circunstâncias da vida e as escolhas dos últimos anos me levaram a não concluir nem o primeiro, nem o segundo mestrado que comecei. Em 2020, comecei mais outro, e este é aquele que hei-de concluir - seja daqui a dois, três ou quatro anos, nem que chovam aranhas a partir de amanhã... prometo. Aliás, é o mestrado por onde devia ter começado desde sempre, porque não há muito que faça mais sentido para mim do que estudar Literatura. Andei a evitar o inevitável, e agora vejo-o ainda mais claramente.

 

Por outro lado, enquanto tirei algum tempo para pensar no que gostaria mesmo de continuar ou vir a fazer profissional e academicamente, como se fosse uma espécie de intervalo ou interregno num caminho que andava a levar demasiado a sério, decidi fazer algo completamente diferente. Faz agora dois anos que decidi inscrever-me na pós-graduação em Psicologia Positiva Aplicada, no ISCSP (Universidade de Lisboa). Foi uma experiência de um ano que me relembrou como é gostar de estudar só pelo prazer de estudar e aprender, porque me apeteceu. Além disso, foi um momento de introspecção, de clareza, ora pelas experiências que a pós-graduação me proporcionou (tive professores e colegas maravilhosos, e as matérias estudadas eram fascinantes), ora pelo que aprendi e que é tão útil na vida de todos os dias.

 

Desde então, tenho-me esforçado para manter essa atitude descontraída quanto aos estudos. Actualmente, não preciso de mais credenciais ou diplomas para continuar a trabalhar naquilo em que trabalho, por isso resta-me estudar por diversão, porque é preciso sonhar, e porque sinto que este pode ser o único momento certo para fazer aquilo que me agrada, por puro luxo e privilégio momentâneo, porque posso e porque o devo a mim própria. As condições podem não se repetir, os astros podem não se voltar a alinhar desta forma, outros desafios poderão aparecer...

 

Dito isto, no próximo ano lectivo, estarei a frequentar a pós-graduação em Escrita de Ficção, da Universidade Lusófona! A eterna estudante também é uma estudante inquieta. 🙂

 

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28/30 (deixar coisas a meio)

Deixar de sentir culpa. Abandonar quando deixa de fazer sentido, retomar quando chega o momento. Aprender a escolher, ser sensata, prestar atenção. Apanhar-me desprevenida a meio de complicações. Não usar métricas aleatórias, nem olhar para o lado. Não espreitar, nem nada.

É como se ficasse sempre a dever alguma coisa a alguém, mas quem será o credor?

 

Na escrita, tem-me acontecido isso, e noutros interesses também. Mesmo assim, com a chegada do Verão, com a vida em velocidade de cruzeiro, com o fim do semestre, com o trabalho assegurado, com as férias tiradas, regressa a expectativa de fazer um melhor malabarismo que me permita não ficar em dívida, porque a verdade é que tenho sempre as contas em dia. Ninguém está, sequer, a contar. Então, porque é que eu teria de me preocupar tanto com as matemáticas de números imaginários, frutos da ansiedade, do tal lado tirano que a minha psicóloga me manda adormecer? Ainda por cima, são tudo letras, senhores, são tudo letras. E palavras, tanto as que me maçam, como as que sinto, constantemente, faltarem.

 

Deixar coisas a meio não é falhar. Também não tem de ser sinónimo de sucesso, mas talvez consista, acima de tudo, em parar para respirar e recuperar o fôlego, para olhar e observar o que se passa à nossa volta, para olhar para o mapa - uma tomada de decisão muito necessária quando o caminho é longo. Deixar coisas a meio não nos impede de lá voltar.

25/30 (os escritores e as suas personagens)

 

"The truth is that every character has a bit of me. Perhaps an obsession, or a sadness or a dilemma. It could be some kind of wistfulness or definitely a need to know a rootedness in history. So the characters are not really me." É assim que, na plataforma Masterclass, Amy Tan apresenta a relação com as personagens que cria nos seus trabalhos de ficção.

 

Este testemunho consolou-me. Há poucos dias, acabei de escrever um conto sobre o qual tenho pensado mesmo muito e cujas personagens são, sem dúvida, uma mistura de quem eu sou, de quem eu poderia ser, de pessoas à minha volta, de quem elas poderiam ser... e, em geral, as personagens são elas mesmas, como é evidente.

 

Há uma certa fixação dos leitores no que toca a apontar dedos. "Isto é sobre mim? É sobre ti? Quem é esta personagem, afinal?" Quanto mais próximos do escritor, mais as águas se agitam: é uma questão de ego, saber se algo foi escrito sobre si, o que se insinuou, a que luz terão sido retratados. Com essa fixação, surge também a impaciência de parte a parte. Amy Tan diz que, quanto mais receio alguém tem de ter sido retratado (a bem ou a mal, intencional ou não intencionalmente), menos a razão estará do seu lado. Os leitores continuam a procurar resquícios de realidade na ficção, enquanto os ficcionistas pensam no óbvio. Que maçada!

 

Como Dulce Maria Cardoso já tem mencionado em entrevistas, não precisou de alguma vez ser gorda para entender o que uma pessoa como a sua personagem Violeta sente, que dúvidas, inquietações ou pensamentos é que tem. O que interessa, diz a escritora portuguesa, é ter empatia.

 

As personagens que são inventadas por alguém que escreve são o seu autor, ao mesmo tempo que não o são. Apesar de não surgirem do vazio, precisando de ter a sua génese em qualquer plano real, não têm de ser nem o seu autor, nem ninguém à sua volta. A tentativa de identificação é infrutífera.

 

Como tal, as minhas personagens são compósitas (de tudo e mais alguma coisa), para o bem e para o mal. No ano passado, escrevi outro texto cujo protagonista é uma pessoa que conheço. Disse-lhe mesmo que tinha escrito algo baseado na sua pessoa e até na nossa relação; mas a verdade é que esse não deixa de ser um trabalho de ficção. A protagonista não é essa pessoa e, mesmo que fosse... não seria, mesmo assim! Seria uma personagem inevitavelmente misturada doutras impressões, experiências ou indivíduos que eu conheço.

 

O último texto que escrevi é um conto, e só alguns dias depois de o terminar é que concluí: eu aproveitei muitas características minhas e doutros com quem tenho contactado, além de que criei uma personagem que, apesar de morta à partida, é a que mais facilmente identificariam como sendo eu. Mas não sou. E não, eu não tenho vontade de ser a mulher feita de palavras que criei. Nem tenho vontade de ser nenhum dos sujeitos da minha cabeça que transcrevi em texto! Para isso é que a criação serve: para extravasar, para ensaiar ou inventar o que se quiser, sem nos ser cobrado ou questionado qualquer aspecto.

 

A obra é o que é. A obra não é o autor.

22/30 (quando as palavras se esgotam)

Tenho tentado cumprir o desafio do texto diário, mas tem sido complicado. Entre enxaquecas, sinusite e alergias que me impedem de me concentrar, outros textos aos quais me ando a dedicar de forma mais urgente, fazer as tarefas que me competem em casa, e o trabalho e o mestrado que têm de ser as minhas actividades principais, poucas palavras restam para espremer.

 

No entanto, eu sei que é importante escrever um pouco todos os dias. Obrigar-me a escrever, ou adormecer a tentá-lo (o que já aconteceu) tem-me ajudado a levar a cabo o lema de que a persistência é o melhor caminho. Não há talento que subsista sem dedicação, atenção, tempo e pelo menos a promoção d oportunidade para criar. É importante sentarmo-nos para podermos dar prioridade ao que mais tencionamos valorizar. Afinal, sempre se disse que de boas intenções está o inferno cheio. Escritores que admiro repetem essa ideia: o que diferencia um escritor promissor no seu início de carreira, mas que acabou por não escrever grandes obras, de um escritor que conseguiu ao fim de um certo tempo estabelecer-se no meio pode ser, só e apenas, o segundo ter continuado a insistir até conseguir produzir o trabalho desejado, depois de se frustrar, de se sentir um impostor, de trabalhar noutras áreas e de ter investido tempo a praticar e a experimentar. Claro que há outras variantes a considerar (a sorte, a liberdade financeira e intelectual, as circunstâncias da vida em geral), mas é fácil concluir que escrever não é só chegar lá e já está.

 

Por isso, insistirei até chegar aos 30 textos diários, mesmo que não sejam consecutivos. Quando as palavras se esgotam, continuamos a escrever, nem que seja a última palavra conseguida. Pelo menos, foi isso que aprendi sobre a estratégia da escrita por fluxo de consciência. É continuar lá, marcar o ponto, até que a água da inspiração (e, acima de tudo, da perspiração) volte a jorrar.

21/30 (mentores e autobiografias)

Hoje, escrevo em continuação ao que escrevi anteontem antes de adormecer (e sim, sei bem que falhei um dia do desafio, mas aqui continuo, em direcção às trinta publicações prometidas).

 

Como rematei, não encontro mentores no mundo imediato ao meu, ou com quem possa ou me sinta à vontade para falar, mas encontro palavras: autobiografias, artigos, crónicas, ensaios, testemunhos. Ultimamente, sinto que me vão guiando, que me vão enchendo as medidas do necessário.

 

Os blogs funcionam mais ou menos assim, já agora. São espaços simultaneamente egocêntricos e de partilha, um espaço criado porque o "eu" tinha algo para dizer, mas com a condição de que haja alguém para ler. Procuramos a experiência de pessoas com quem temos, ou talvez com quem queiramos ter, algo em comum. Ou através das quais possamos viver por contágio escrito-lido.

 

E não, não precisamos de ter precisamente a mesma vida dos autores dos textos que lemos. Talvez procuremos apenas consolo, manuais de instruções para existências múltiplas e alheias, soluções imaginadas para um mundo de possibilidades imaginadas, formas de ser, estar e sentir que poderiam ser as nossas e que só não o são por acaso.

 

E se...? E caso..., será que...? O que diz o outro sobre si, que lá no fundo também poderia ser sobre mim?