Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Li um guia de escrita de ficção: Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão (Mário de Carvalho)

LRM_EXPORT_214256039029302_20181014_161750748.jpeg

 

Se estão à procura de mais um guia de escrita criativa, não leiam Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, de Mário de Carvalho. Este livro não é, sequer, apenas mais um "guia de escrita de ficção". É isso tudo e ainda um ensaio que varia entre o domínio das preferências e opiniões do próprio autor, a referência académica, catálogo de obras e autores, e o entretenimento ligeiro. Já o tinha na minha "to read list" há dois anos e finalmente me convenci (e fui convencida) a arranjá-lo. Valeu a pena!


A escrita criativa parece ser uma actividade com cada vez mais adeptos, seguidores ou meros curiosos. Talvez por causa do aumento da literacia das últimas gerações, escrever acabou por se disseminar como um passatempo respeitado, de exercício intelectual, incitado ainda mais pela Internet, pela popularização de blogues e mesmo pela vaidade em ver e ter obra. Assim, é normal que se publique regularmente sobre o assunto.


No entanto, Mário de Carvalho é considerado um dos melhores escritores vivos em Portugal, pelo que não se esperaria da sua autoria muito menos do que aquilo que se lê nas 276 páginas de Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão. (É verdade que só li A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho há muitos anos, mas a reputação dum autor precede-o.)


Apesar de ser anunciado na capa que se trata dum "guia prático de escrita de ficção", arrisco dizer que até o considero um "guia de leitura". Acho que este livro me demonstrou, além de como poderei tentar escrever, o que posso esperar duma obra com qualidade literária e a repensar muitos dos meus livros favoritos (como a Odisseia e a obra de Eça de Queirós).


Os capítulos tratam de nos aconselhar obras e autores de referência, o que poderá ser a escrita, como começar a escrever, quais os cuidados gerais a ter em conta, a relação do escritor com o leitor, como planear a estrutura e o enredo, como criar títulos, nomes de personagens e as próprias personagens... entre outros assuntos que não me cabe a mim enumerar aqui, mas sim aos interessados descobrir na sua incursão pelo guia.

 

Outro aspecto que distingue este guia de escrita doutros que se encontram nas livrarias portuguesas é o gabarito do cânone seguido por Mário de Carvalho. Como ele mesmo refere, o escritor é que escolhe o tipo de leitor ao qual gostaria de chamar a atenção. Por sua vez, não me parece que os leitores deste livro pretendam escrever (ou aprender a ler, na minha opinião) o próximo bestseller de supermercado. Mesmo que não aspirem ao Nobel da Literatura, talvez possam pelo menos sonhar remotamente com um prémio Leya ou um concurso literário municipal.

 

Antes de terminar, aviso ainda que se devem preparar para a tal quantidade significativa de autores e obras de referência que pelo menos a mim me deu vontade de comprar por inteiro em atacado. Preparem os vossos orçamentos! As recomendações deixadas não sentirão piedade das vossas carteiras!


O resto é convosco. Espero ter-vos entusiasmado tanto para o Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão quanto este livro merece... digo eu!


Boas leituras... E escrita!

Terceira semana a tentar escrever um livro, e ainda não abandonei o barco

IMG_25610721_155130.jpg

 

Estou há quase três semanas a tentar escrever um livro, ou o que se possa tornar um, de volta do mesmo projecto, um recorde pessoal que não quero agoirar de forma alguma, mas que, contra todas as probabilidades e hábitos prévios, tenho conseguido levar a bom porto. São só nove páginas no Word, mas fui eu que as escrevi, de forma cuidada, e não simplesmente a pensar "aqui vai disto". Tem pés e cabeça e estou a tentar tranformá-las, um dia de cada vez, no livro que eu gostaria de ler. 

 

Mas tentar escrever um livro custa, como quase tudo o que é bom de alcançar na vida. Esta semana, em particular, cheguei à parte em que, depois de brevemente apresentada a premissa inicial, tenho de começar a dar dimensão às personagens. Já não podem ser só indivíduo X e indivíduo Y, têm de ser pessoas credíveis. Se as encontrássemos na rua e elas nos contassem a sua vida, poderíamos acreditar no que nos contariam acerca da sua família, dos seus amigos e do seu passado. Poderíamos visitá-las no seu local de trabalho e observar as suas rotinas diárias. Poderíamos convidá-las para jantar e notar que X poria a faca entre os dentes do garfo para cortar o bife antes de o molhar na gema do ovo e que Y seria vegetariana por razões médicas, mas não recusaria o paté de sardinha das entradas.

 

Todos os dias, antes de abrir o documento e retomar a releitura ou a escrita, sofro duma fobia que me aterroriza constantemente: e se hoje for o dia em que eu perco o interesse nesta história? Ando nisto há dezassete dias, passeio o computador para todo o lado (costas sofrem), ou seja, tive que enfrentar pelo menos umas dez ou doze oportunidades de insucesso e dissatisfação (houve dias em que nem consegui ligar o computador, preferi ficar a pensar na história sem lhe acrescentar nada). Conheço tão bem essa sensação, a sensação de que ainda não vai ser dessa vez que levo um projecto a bom porto, que há mil e uma desculpas pelas quais o terei de abandonar, ora porque a escrita revela imaturidade, ora porque as personagens são aborrecidas, ora porque o enredo há-de chegar a uma estrada sem retorno, ora porque já centenas de autores que admiro já criaram coisas tão boas, e o que poderia eu trazer ao mundo que se comparasse minimamente, merecedor da sua própria existência...? É toda uma logística mental que me vejo obrigada a equilibrar, antes de entrar em paranóia e deitar tudo a perder, três (quatro, cinco,. .. cem) semanas de luta e conquista pessoal sem resultado.

 

Ainda por cima, ando a tentar escrever um livro ao mesmo tempo que outro texto, para submeter a um concurso em Agosto, cujo tema e rumo tem de ser totalmente diferente e cuja finalidade é mais palpável (um prémio monetário muito atraente, diga-se de passagem). Dito isto, há que ser perseverante. Lutar contra os bloqueios e as desculpas. Pássaro por pássaro, palavra por palavra, página por página. É fácil desistir quando não estabelecemos metas, mas tenho tentado ver a escrita como o meu novo emprego a part-time. Quando não estou a dar aulas, estou a escrever, ou a pensar no que escrever. A minha meta é levar esta empreitada com tanta seriedade quanto for humanamente possível. A criatividade também deve ser disciplinada e treinada, como outras ferramentas de trabalho. Tive sorte, inspiração e pouca auto-censura há uma década e foi assim que comecei, mas agora vejo-me a braços com a necessidade de fazer mais e melhor, tal como fiz quando o copywriting me pagou a licenciatura - escrita disciplinada, com método e um fim prático à vista. Eu até posso não escrever um livro brilhante aos 23 anos, mas, se o terminar, isso significará que serei capaz de o fazer mais vezes, com mais experiência, prática e - muito importante - fé e confiança.

 

Já agora, obrigada a quem deixou dicas no último texto que partilhei sobre o tema! Todas elas são óptimas e, se tiverem mais, avancem e partilhem-nas! 

a ranhosa da Beatriz

Sr. Pedro Chagas Freitas,

Acho que o senhor só está a complicar o que é simples. Eu nunca precisei dos seus cursos para aprender a usar vírgulas. Bastou a minha professora do 5º ano ensinar-me que só precisamos de nos guiar pela entoação com que falamos para que consigamos escrever um texto gramaticalmente correcto. Se soubermos falar, também sabemos escrever, dizia-me ela. E, se as pessoas não souberem falar, o que será delas nas ocasiões mais banais do dia-a-dia?
Já agora, a sua é uma das piores publicidades que vi nos últimos tempos. Nota-se logo que, com tanta falta de modéstia, quer impingir os seus cursos à força toda a um público que julga minimamente estúpido, dado o discurso que nos prega. Vá mas é pregar para outra freguesia, amigo! Pare de se intitular o "Mourinho da Escrita Criativa", porque ela é isso mesmo: criativa. Se me apetecer encavalitar vírgulas, pontos de exclamação e travessões, isso é cá da minha conta!

E, no entanto, como eu sou muito solidária para com os outros (cof, cof), ainda o ajudo na sua demanda pelas vírgulas, através da minha ranhosice, já viu?

Votos de boa sorte,

Beatriz

a ranhosa da Beatriz


Sr. Pedro Chagas Freitas,


Acho que o senhor só está a complicar o que é simples. Eu nunca precisei dos seus cursos para aprender a usar vírgulas. Bastou a minha professora do 5º ano ensinar-me que só precisamos de nos guiar pela entoação com que falamos para que consigamos escrever um texto gramaticalmente correcto. Se soubermos falar, também sabemos escrever, dizia-me ela. E, se as pessoas não souberem falar, o que será delas nas ocasiões mais banais do dia-a-dia?
Já agora, a sua é uma das piores publicidades que vi nos últimos tempos. Nota-se logo que, com tanta falta de modéstia, quer impingir os seus cursos à força toda a um público que julga minimamente estúpido, dado o discurso que nos prega. Vá mas é pregar para outra freguesia, amigo! Pare de se intitular o "Mourinho da Escrita Criativa", porque ela é isso mesmo: criativa. Se me apetecer encavalitar vírgulas, pontos de exclamação e travessões, isso é cá da minha conta!


E, no entanto, como eu sou muito solidária para com os outros (cof, cof), ainda o ajudo na sua demanda pelas vírgulas, através da minha ranhosice, já viu?


Votos de boa sorte,


Beatriz