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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

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Qualquer semelhança com a realidade

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Não acredito nos escritores que dizem que as personagens dos trabalhos que escrevem são "mera ficção". Como é que eles se conseguirão relacionar de forma tão profunda, íntima, com alguém que não conhecem, que nunca viram, cujos gestos não estudaram, cujas mãos não tocaram, cujas bocas não apreciaram ou ouviram?

 

Acredito que todas as personagens da ficção existem, na verdade. Serão, porventura, compósitas. Sim, talvez sejam feitas de muita gente que o autor foi observando e sobre as quais foi, mesmo que por acidente, recolhendo dados. No entanto, a ficção acaba por ser uma realidade interpretada, reorganizada: como quando mudamos de casa, mas levamos a mesma mobília. Quem sabe, serei eu apenas ingénua, e venha daqui a uns meses ou anos repor a minha verdade sobre o que é isto de escrever sem contrato de veracidade sobre pessoas questionavelmente fictícias, ou tão materiais como uma unha do pé ou aqueles fios de cabelo presos na escova. Afinal, esteve ali ou não esteve?

 

Um dia que me vejam publicar um texto ficcional, saibam que dificilmente o será. Se me perguntarem se é de "pessoa X" que escrevo, se for mesmo "pessoa X", não me importarei de confirmar tal informação (partindo do princípio de que não devasso a privacidade de ninguém, claro está). Se me perguntarem se falo de "situação Y", é provável que seja, ou que aspire a ser (sem devaneios, sem invenções, é claro).

 

Qualquer semelhança com a realidade jamais seria coincidência. Sou paradoxalmente aspirante a escritora, mas péssima mentirosa. Escrevo exclusivamente a sério, mesmo quando baralho nomes, combino eventos ou exagero impressões. Tudo o que me acontece, tudo o que vejo acontecer e tudo o que me dizem poderá ser sujeito e objecto para escritas futuras. É tudo da minha cabeça; por isso mesmo...

 

Vejamos: o que escrevemos é o produto óbvio do que vivemos, lemos, vemos, sentimos, conhecemos. Não acordamos simplesmente um dia e pensamos que aquele é o conto, o livro ou o ensaio que nos comprometemos a criar. Existe um envolvimento pessoal inegável.

Um livro que não se mede à página: O Senhor Breton e a entrevista (Gonçalo M. Tavares)

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Quão acessória é a centralidade da poesia?

 

Neste primeiro livro que li de Gonçalo M. Tavares, O Senhor Breton e a entrevista (de 2008), fui apresentada a um fio de pensamento errante, acerca do papel do pensamento abstracto, das palavras e da literatura. Na verdade, sei que li cada capítulo pelo menos duas vezes, e continuo a relê-los, insistentemente. Fico uma e outra vez com a impressão de que me escapou um raciocínio qualquer, uma parte do texto, um significado escondido. Por isso,  parece que a entrevista do/ao Senhor Breton vai ser daqueles livros que vou andar a reler pelos anos fora, um clássico na estante pessoal. São 54 páginas como os lençóis e as mantas: desdobram-se e alargam-se(-nos). Há livros que não se medem à pagina.

 

A meio da leitura, apercebi-me de que este livro majestosamente pequeno é parte duma série chamada "O Bairro". Assim, quando me cansar da releitura, começo a arranjar os outros volumes - fácil! Aliás, imediatamente depois de escrever este texto, vou procurá-los.

 

Não, este não é o livro mais fácil de sempre. É um bocado louco, prescrito a quem queira ficar com o cérebro frito. É qualquer coisa entre o demais e o já chega, mas é isso que faz dele tão especial. De vez em quando, gosto de ler livros que me desafiem. O Senhor Breton, sem dúvida, não me facilitou a vida.  A coletânea de dez perguntas meta e metafóricas insiste no desvendar de pensamentos formalmente simples, mas semanticamente complexos.

 

E o mais importante para o leitor, para o escritor, para quem se alimenta de palavras e versos? Depois de ler O Senhor Breton e a entrevista, eu diria que é aceitar que nem todas as perguntas podem ser respondidas, porque é frequente nem ser necessário. Lá no fundo, já sabemos o que nos faz falta.

 

Obrigada, Gonçalo M. Tavares, por me ter impressionado e engolido à primeira leitura.

Dos outros #16

"O ridículo humaniza. Essencialmente, somos ridículos. Reconhecemo-nos uns aos outros, simpatizamos uns com os outros e, sempre que um de nós tropeça na própria inépcia e cai com fragor no silêncio solene dos salões, rimo-nos todos com idêntica alarvidade e aflição."

"Neste jogo de comprar para vender amanhã, não há tempo para construir um escritor. Porque um escritor constrói-se, sim, livro a livro, um pouco como se constrói um edifício - quanto mais alto for, mais profundas terão de ser as suas fundações.
Não há igualmente tempo para encontrar os leitores que todo o livro honesto certamente há-de ter. O que se quer é o escritor pronto a vender, de preferência alguém que já possua um público vasto, ainda que não saiba escrever. Aliás, é preferível que nem sequer saiba escrever. Saber escrever atrapalha bastante."

José Eduardo Agualusa,  O Lugar do Morto