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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Ser mulher e artista: Dear Girls (Ali Wong)

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Quando vi os dois especiais da comediante Ali Wong na Netflix, fiquei logo fã. Ela é duma perversidade e duma inocência contraditoriamente claras, e foi ao ler esta autobiografia que as percebi realmente e passei a admirá-las ainda mais. Dear Girls é para as filhas de Ali Wong, mas - quiçá - também se dirige a todas as mulheres.

 

Queria saber de onde vem esta mulher. Queria saber como se complementam os seus legados culturais. E por que é que as piadas dela têm uma linguagem tão conspurcada pela sexualidade exuberante dos seus primeiros anos enquanto adulta, e como é que a família e as restantes pessoas que a rodeiam convivem com esse lado perverso e cru. Como é que o marido lida e as filhas podem vir a lidar com a fama alcançada de tantas das suas histórias privadas? E como é que se constrói uma carreira em stand-up comedy, e que público foi a Ali tendo longo dos anos, partindo do facto de ser mulher e uma minoria étnica nos Estados Unidos, e de os textos que escreve assumirem marcadamente esses pontos de vista?

 

Tantas, mas tantas perguntas; tantas, mas tantas respostas. Ali Wong é frontal e a sua verdade é enternecedora. Acho-a destemida e hilariante.

 

O livro Dear Girls divide-se em capítulos que são cartas às duas filhas, Nikki e Mari, a quem se dirigem as lições, conselhos e histórias de vida contadas pela mãe, mas que são também reconhecidas logo no início como "desculpa" para que o livro exista e tenha sido escrito. Ali Wong acaba por se dirigir, sem pudor, a um público de leitores bem maior. Do que depender de mim, direi: ainda bem!


Ler este livro é um risco, porque nem todos teremos interesse em ler sobre a vida duma mulher aleatória a viver do outro lado do oceano, uma mulher com raízes tão diferentes das nossas, com um trabalho como poucos têm, com uma visibilidade enquanto figura pública que só uma percentagem dos seres humanos tem (felizmente!).


No entanto, as preocupações e detalhes do dia-a-dia da Ali Wong são também os nossos, tão reconhecíveis. À parte a comediante e actriz, ela é mãe, filha, irmã, mulher, amiga, cidadã e parte das suas comunidades. Tanto nos separa como liga, tanto nos afasta como aproxima.

 

Finalmente, a maior prova de humanidade da estrela, que afinal terá sempre o seu alter ego histriónico e público, reside na última carta: um posfácio escrito pelo marido, Justin Hakuta. Justin poderia ser um anónimo, só que é a grande musa da maioria das histórias contadas nos espectáculos da mulher e também neste livro. Por outro lado, é ele quem mantém a família firme e que assegura a estabilidade necessária à sua cara-metade caótica, criativa e sempre na estrada. É ele que, apesar de ter estudado em Harvard, se orgulha em vender merchandise das tours nas bancas dos espectáculos. É ele quem assume tarefas que ainda são vistas como trabalho feminino no lar. É ele quem escreve uma carta de amor e dedicação total ao bem-estar dos seus nesta carta muito especial. A carta dele é a cola que junta todos os pedaços de vida que lemos até este último capítulo.

 

Se gostam de autobiografias e comédia, e se se interessam pela riqueza dos EUA, esta pode ser uma leitura à vossa medida.

Política americana no feminino: Dear Madam President (Jennifer Palmieri)

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Há livros que esperamos que nos inspirem e nos informem, deixando um call for action ou um testemunho arrebatador. Este era um desses casos: Dear Madam President: an open letter to the women who will run the world, da autora Jennifer Palmieri, antiga directora de comunicações da campanha eleitoral de Hillary Clinton  à presidência dos EUA e profissional com várias décadas de experiência na Casa Branca. Tinha tantas expectativas para este livro!


No entanto, não estava escrito. É que não estava mesmo. Apesar do testemunho que foi sem dúvida interessante para mim, que nunca pisei solo americano e que sigo a vida política dos Estados Unidos a partir da comunicação social portuguesa, redes sociais e apenas algumas páginas estrangeiras online, sinto que Dear Madam President ficou aquém do que eu esperava. Não é um testemunho muito técnico acerca da candidatura de Hillary Clinton à presidência dos EUA, nem um tratado sobre política americana no feminino, mas sim uma data de memórias desorganizadas acerca desses temas e doutros eventos da vida pessoal e profissional da autora.


A exortação do título Dear Madam President, dirigida a uma hipotética futura presidente - mulher - dos Estados Unidos acaba por funcionar como manobra publicitária, mas não me convenceu, pareceu-me forçada. Ainda assim, retirei algumas lições de perseverança e reflexões acerca da presença feminina num mundo criado, definido e adaptado por e para homens ao longo dos séculos, principalmente que há um paradigma implícito acerca do que se espera dum homem que se candidata a um cargo como o da presidência dos EUA, mas que continua a ser difícil perceber o que esperar duma mulher nesse contexto, por ser novidade, pela biologia diferente, pelo comportamento, forma de estar e reagir. Nota-se uma certa desconfiança. Ainda é esperado que a mulher preencha os mesmos requisitos esperados dum homem, e mais qualquer coisa que inevitavelmente lhe faltará ou que também se espera dela por ser... mulher.

 

Com tanto que eu esperava aprender de alguém que teve um papel central na Sala Oval de mais do que um presidente, concluo que Jennifer Palmieri partilhou o suficiente, mas que poderia partilhar muito mais e com mais coerência e coesão. A escrita é muito corrida, eloquente, fácil de entender sem entediar, mas cem páginas cheias de conselhos generalistas para se ser uma mulher numa posição de poder nunca chegariam para me encher as medidas. Contudo, atenção: quem me dera que todo o livro tivesse sido como foram as últimas vinte páginas! Aí sim, penso que foi atingido um bom equilíbrio entre o que é um livro de memórias, uma reflexão política/social e uma confidência entre alguém com muita experiência e os seus leitores.


Tenho a certeza de que há melhores livros sobre isto, que me ensinem mais, embora este não tenha sido um mau começo. Afinal, cem páginas lêem-se rapidamente. Dear Madam President foi uma leitura agradável, apenas pouco surpreendente ou construtiva.

 

The generations of women before us, who made countless, mostly anonymous, sacrifices in the struggle for equality, paved the way for real change. In spite of the long odds against them, they went after the impossible. It is up to us—the women in America today—to finish the job. It’s a thrilling challenge. Go show us what a woman leading us in this new world looks like. We can’t wait to see.