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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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As férias

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Ainda está por explicar o fenómeno psico-meteorológico que me tem afligido a carteira pelo menos uma vez por ano: em época de introspecção, a criatura Beatriz, presidente do clube de fãs do calor e luz lisboetas, ruma a Norte em modo "one woman show" para uns dias de excepcional clarividência e clareza interiores, convenientemente patrocinadas por nuvens baixas, vento agreste e temperatura/precipitação racha-dente. No destino, põe-se a admirar estantes de paperbacks, toda e cada uma das livrarias que lhe aparecem no diretório, os cenários dos seus romances preferidos ao vivo e a cores, descendentes de vikings a beber café aguado, e a sonhar acordada nos espaços verdes extensos e densos, na sombra de cidades industriais. Gosta de beber chocolate quente, de dormir a sesta nos autocarros das tours, de ligar à família a queixar-se da humidade nos ossos e da quantidade obscena de chineses nas atracções turísticas, e de comprar Toblerone a metade do preço. Diz sempre que vai para descansar, e raramente consegue dormir mais de duas horas seguidas à noite no hostel. Diz que vai para ler, e nunca termina um único livro. Diz que vai para escrever, e não escreve mais de três parágrafos. Enfim, por fim, as férias do espécimen. ✈️

Gosto tanto de viajar sozinha!

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Falta uma semana para me pôr daqui para fora... Que é como quem diz... Vou dar uma volta, arejar as ideias. Gosto muito de viajar, e gosto muito de viajar sozinha. De vez em quando, faz-me falta estar só, só porque me apetece. Além disso, para mim, uma viagem marca quase sempre um reinício, porque são mais ou menos férias, mas porque é mais um sítio que se conhece, que dá a conhecer outras sensações e emoções, onde tenho de pôr em prática competências e características que são redescobertas.

 

Desta vez, também é uma cidade nublada. Era suposto voltar à Escócia, mas os vôos estavam muito caros, não tenho muita vontade de ir ao Reino Unido durante a trapalhada que deveria ser o período oficial do Brexit, e assim sempre conheço um país onde nunca estive, mas sobre o qual tenho curiosidade. Há uma aura mística, escura, fria e húmida que me atrai nos países mais a Norte, que anuncia renovação, rejuvenescimento, isolamento necessário para pôr as ideias em ordem e realinhar ambições e crenças, que convida à introspecção, conversas com a própria da minha pessoa, austeridade nos pensamentos, libertação sem pressão... Este tipo de clima é absolutamente contrário ao que me atrai no resto dos meus dias (que eu sou mais do sol e do céu limpo), por isso deve ser o contraste a convidar uma mudança temporária de paradigma, desejada.


Provavelmente, se tivesse companhia, faria esta viagem acompanhada. No entanto, adoro planear viagens sem mais ninguém. Se viajasse acompanhada desta vez, iria quase de certeza planear outra aventura em breve, só pelo prazer de ser deixada em paz por alguns dias. Talvez por ser filha única, e ter sido uma criança solitária, talvez porque simplesmente adoro a minha independência e o meu espaço (mais uma vez, contrastando com a procura de quem me acompanhe na vida a longo prazo), estou tão entusiasmada por, um ano e meio depois de Edimburgo, poder explorar mais uma ou duas cidades, paisagens tão diferentes.


Em suma, gosto de me sentir estrangeira de vez em quando, como uma espectadora do mundo e de quem sou durante o resto do ano. Assim, recomendo a todas as pessoas que dêem um pulinho a um sítio onde se sintam assim, estrangeiros, quando precisam de ganhar objectividade sobre si mesmos e a vida rotineira que levam em solo-casa (desejável e desejada, desde que com peso e medida). Não há nada como sentirmo-nos deslocados para repensarmos no que andamos a ser e a fazer. Curiosamente, as minhas últimas viagens, até dentro do país, sozinha ou com outras pessoas, dão a impressão de separarem diferentes fases que ora terminam, ora começam. É poético q.b., mas também a vida deve ter a sua dose de poesia, como a métrica dum soneto. Há pausas que nos devolvem o fôlego, e eu preciso duma com certa urgência.

 

Let there be light, diz a fachada da Biblioteca de Edimburgo, uma frase que me acompanha desde que lhe pus os olhos em cima. A luz são os livros, as viagens reflectidas, as pessoas que vamos conhecendo, as ambições e o conhecimento que promovemos e criamos. A luz até pode existir no Inverno ou numa cidade na penumbra. Nunca sei muito bem do que vou à procura, mas alguma coisa hei-de encontrar. Tem sido sempre assim, um bocado às claras e às escuras.

 

E agora... Onde vou, onde vou? Para um sítio onde o chocolate quente deve saber ainda melhor, pois claro. ☕

A nécessaire da pessoa com quem fui de férias

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A pessoa com quem fui de férias chega ao quarto e começa logo a arrumar o que tem dentro da mala no roupeiro e gavetas do hotel. No tempo em que eu permaneci estarrecida a apreciar a vista e li uns centímetros de Instagram e Twitter, calças de ganga e t-shirts passadas a ferro, vincadas, ficam no fundo, por baixo dos cabides, que por sua vez penduram três camisolas mais quentes para a noite. A toalha de praia também fica por ali, nem reparei bem, mas tenho a certeza de que tudo encontrou o seu sítio.

 

Perto do espelho por cima do aparador, pousa a nécessaire - e eu nem sabia que haveria à face da terra um homem com nécessaire - preta, sóbria, adulta, sólida, imaculada, lá dentro uma caixa de plástico com a pasta e a escova de dentes, gel de banho e desodorizante, e sei lá mais o que um homem adulto com uma nécessaire preta, sóbria, adulta, imaculada levará para umas férias minúsculas à beira do rio com a namorada que assiste a toda esta ordem sóbria, adulta, sólida, imaculada.

 

Como se não bastasse, pede licença para a mala de viagem ser encostada à janela, do lado da cama que normalmente escolho; e eu finalmente olho em volta do quarto a que chegámos há quinze minutos e percebo que, afinal, a minha avó talvez não me tenha tentado domar nas lides domésticas para que eu viesse a tratar da pessoa com quem fosse de férias, mas sim para eu não me surpreender quando estivesse com um homem que me estendesse o biquíni na varanda depois do banho, que dobrasse as toalhas antes de as pôr no varão e não salpicasse o lavatório quando o usa; para eu não fazer figuras tristes com a minha bolsa (que nem merece ser chamada de nécessaire, denominação fina e por isso inapropriada) de plástico transparente para onde costumo enfiar mil tralhas enquanto lá couberem todas, recolhidas doutros mil cantos do quarto no fim desses dois dias e meio de estadia até ao destino seguinte; para eu parecer menos bicho trapalhão e/ou não ter de levar ninguém ao hospital por causa de alguma queda, ou de volta a Lisboa por causa de simplesmente não ter deixado boa impressão; porque, se eu não namorasse com esta pessoa com quem fui de férias, os meus ténis encardidos teriam ficado no meio do quarto, o meu biquíni teria ficado a demolhar a um canto da banheira e provavelmente teria deixado qualquer coisa pelo caminho ao sair (um par de meias, os chinelos, o lanche da manhã...).

 

Não é que eu me considere muito desorganizada sequer, porque não sou e as últimas linhas são um mero exagero necessário ao assunto da nécessaire, mas faltar-me-ia brio (e vergonha na cara) se não primasse pelos bons exemplos à minha volta, recusando-me a ser melhor do que sou hoje, não pensando em comprar uma nécessaire que não esteja peganhenta de um qualquer condicionador de cabelo vertido há mais de um mês ou não acarinhando a esperança de me rodear sempre de pessoas como aquela com quem fui de férias.

 

*Este texto foi parcialmente escrito na Praia do Alamal, destino fluvial da nécessaire aqui discutida. A fotografia ilustrativa deste post é a tal vista que me distraiu no primeiro parágrafo, aliás tirada durante esse mesmo período de tempo.

O livro que todos precisam de ler nas férias: 'Crónica dos Bons Malandros'

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Caros todos, precisam urgentemente de levar a Crónica dos Bons Malandros, do escritor Mário Zambujal, nas vossas malas das férias! Não interessa se vão para o campo, para a praia, para uma metrópole gigante ou para a santa terrinha, toda a gente precisa de ter um livro para ir folheando antes de ir para a cama, à beira da piscina, nas filas do aeroporto, nos tempos mortos, enquanto as crianças dormem a sesta...

 

Eis os meus motivos para tão efusiva demonstração de apreço pela Crónica dos Bons Malandros.

 

Raramente consigo encontrar livros escritos por autores portugueses ou lusófonos que me façam sorrir, e muito menos rir - isto é, sorrio porque até leio alguns livros muito bons, mas todas as histórias são muito dramáticas, para não dizer trágicas, são de levar uma pessoa à depressão literária. Este ano, já li imensos assim, e finalmente encontrei um livro que me enche as medidas anti-tudo o que me faça ter pensamentos negativos, ainda que sobre realidades completamente ficcionais. Estas Crónicas são O TAL.

 

Não vos quero estragar a experiência com resumos desnecessários, até porque o título diz tudo: esta é a história dum grupo de bons malandros. Como são eles malandros ou quais os seus papéis nestas Crónicas... Deixo-vos a tarefa de o descobrirem.

 

Só para perceberem bem o quanto gostei de as ler, é quase meia-noite, acabei a leitura há cerca duma hora, depois de duas horas e meia intensivas a devorá-lo, com uma única pausa para jantar, e não consigo ir para a cama sem partilhar convosco este grande achado. Têm sido raros os livros que me criam esta reacção, incredulidade, euforia, uma paz imensa por ter lido algo simples, mas genial, em bom português correcto e muito vernacular, que é simultaneamente capaz de fazer o cérebro exercitar-se enquanto relaxa.

 

Não, não descobri a pólvora, o livro tem quase quarenta anos, foi publicado pela primeira vez em 1980, leva-me quinze anos de avanço neste mundo, mas provavelmente muitas pessoas, tal como eu até ao dia de hoje, ainda não ouviram falar dele ou não tiveram oportunidade de lhe pegar.

 

Se o meu entusiasmo não vos convence por si só, aqui vão dois excertos da Crónica dos Bons Malandros que de certeza conquistarão a vossa atenção:

 

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Não posso recomendar demasiadas vezes que levem este livro nas vossas malas das férias. É levezinho (eu tenho uma edição antiga que nem duzentas gramas deve pesar), fininho, enfia-se num saco qualquer, não estorva, tem letra grande, lê-se num par de horas, não é difícil manter o ritmo, os capítulos são de dimensão pequena a razoável, tem diálogos, tem discurso asneirento, tem praguejares tradicionais, é desbragado, pobre em filtros, tem amor e desamor, conflito, palavras raras. Vão por mim e dêem-lhe uma chance!

Os meus sítios favoritos na Tailândia #2: Koh Samet

*Recentemente, tenho partilhado aqui no blogue os meus sítios favoritos na Tailândia, de forma a que eu mesma tenha mais uma fonte para memória futura e possa também deixar online algumas recomendações a quem estiver interessado em visitar o país. Muitos dos meus sítios favoritos na Tailândia são pouco conhecidos ou menos valorizados pelos turistas, por isso nem sempre são as escolhas mais óbvias de quem procura locais interessantes para visitar.

 

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Infelizmente, não consegui visitar nem metade dos locais na Tailândia onde gostaria de ter ido enquanto cá vivi. Não fui a Phuket, nem a Krabi, nem a Chiang Mai ou Chiang Rai, não fui ao Este do país... Não visitei muitos parques naturais, nem visitei uma reserva de elefantes. Não fiz quase nada de turístico fora de Banguecoque, mas, pelo menos, visitei um dos meus sítios favoritos na Tailândia não uma, mas quatro vezes: a ilha de Koh Samet. 

 

 

Fui a Koh Samet pela primeira vez em Julho, com a minha avó*. Desde então, fiquei apaixonada. Já regressei uma vez com os meus colegas de trabalho, outra com o meu pai e outra com a minha tia. Quando um casal de amigos portugueses me visitou, não pude ir com eles porque tinha trabalho, mas não descansei enquanto não os convenci a passarem uma noite na ilha.

 

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Koh Samet é uma ilha a cerca de 200km a sudeste de Banguecoque e tornou-se um dos meus sítios favoritos na Tailândia por muitos motivos. O primeiro é ser considerado um parque natural, por isso os recursos naturais encontram-se bem conservados, não há lixo em lado nenhum, os edifícios são baixos, só vemos verde num lado e azul do outro. Os restantes estão provavelmente relacionados com a beleza desses mesmos recursos naturais, da água que é transparente, calma e morna, da areia que é fina e do nascer e pôr-do-sol inesquecíveis (excepto quando chove, disso é que eu não gosto).

 

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Não, esta foto não tem mesmo filtros nenhuns, o nascer do sol é mesmo assim, com estas cores cinza que se vão levantando a pouco e pouco, para dar lugar ao verde, azul e amarelo.

 

Devido a todas estas condições, uma pessoa fica a sentir-se relaxada, em paz com o mundo. Sempre que vou a Koh Samet, esqueço-me do bulir constante de Banguecoque, do calor húmido insuportável no meio da cidade, do smog, dos gases, das multidões. Na cidade, o sol nem queima, mas, quando saio, sinto a pele e o nariz a desbloquear. Além disso, sente-se uma corrente de fresca a toda a hora que lembra a Primavera em Portugal.

 

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A ilha de Koh Samet só é alcançável de barco, obviamente, mas há varios tipos de barco! Há barcos grandes e lentos, que mais se parecem com barcos de pesca, traineiras, e há speedboats (lanchas) de vários tamanhos (mais caros, mas rápidos). Já experimentei as duas modalidades e gosto sempre da experiência. Podemos ir do continente à ilha em estilo James Bond ou em estilo cruzeiro. Os barcos grandes podem pertencer aos hotéis (deixando-nos "à porta") ou a negócios de transporte (deixando-nos no porto principal, no Norte da ilha). Os speedboats deixam os passageiros onde for necessário.

 

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Devido aos 100km de costa, há praias em Koh Samet para todos os gostos. Mais a Norte, ficam as praias para quem gosta de festas e discotecas. Quanto mais para Sul andamos, mais silenciosas e intocadas as praias se revelam. Já estive numa das praias do Norte (Hat Sai Kaew) com os meus colegas, mas recomendo e vou sempre para a mesma praia (Ao Wong Deuan) com a minha família. 

 

Se visitarem a Tailândia, mesmo que só tenham cinco dias ou uma semana, tirem dois para visitar Koh Samet. Ficarão com a experiência de ver alguma flora do país, recursos naturais, praias paradisíacas (água morna e turquesa, ar fresco, areia clara e fina) e silêncio... para cortar uma visita hipotética a Banguecoque, com todo o buliço incluído. 

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*Há 20 anos, a minha avó foi a Cuba com a minha tia. Durante estas duas décadas, tive de ouvir "Cuba é que foi; quem me dera poder levar-te a Cuba, Beatriz!". Quando a minha avó pôs os pés na água e na areia de Koh Samet, recebi um dos melhores presentes de sempre, que cumpriu uma das minhas missões de vida: ouvi-la dizer "isto é melhor do que Cuba". 

Neste mês de Agosto, não há viagens

Neste mês de Agosto, não há viagens. Talvez haja passeios, talvez haja uma escapadela de um dia a uma cidade portuguesa que eu não conheça, talvez haja alguma praia (e idas de kayaque Setúbal-Tróia com os amigos, finalmente), talvez haja muitas sestas. É que, neste mês de Agosto, não há dinheiro para mais.

Neste mês de Agosto, há livros para ler e um lar para aproveitar, pois quase não tenho cá passado tempo nenhum durante os últimos meses. É para isso que a minha casa fica à beira de um pinhal, tem dois andares, um escritório-biblioteca e um jardim em toda a volta - para que a possamos aproveitar. 

Neste mês de Agosto, há uma formação inicial de formadores em b-learning para eu fazer, pelo que poderei equilibrar o ficar-em-casa com o ir-um.bocadinho-a-Lisboa. Porque até nas férias não devemos deixar de aprender ferramentas novas nem devemos deixar de adquirir conhecimentos que nos fazem falta (nem que seja só mania nossa, esta de querer saber mais).

Neste mês de Agosto, não há muito trabalho, só um bocadinho, que o vício de trabalhar é tão grande quanto o de procrastinar. E uma mão cheia de descanso há-de me calhar - espero eu!

 

Filhos de emigrantes, vocês falem-me e leiam-me em português, fáxavor!

Contextualização: ainda não vos tinha contado no blogue que estou a trabalhar na Bilioteca de Jardim da minha zona. Só está aberta em Julho e Agosto, assim como as Bibliotecas de Praia, e temos livros, revistas, jogos e actividades para crianças e adultos (mas, principalmente, para as últimas). Pertenço à equipa de Julho, por isso só me resta mais uma semana de trabalho! Estou a gostar muito, já agora.

 

E agora passemos ao motivo que me leva a vir fazer queixinhas ao antro de procrastinação...

Uma vez que nos encontramos de momento na época do Verão, é mais frequente os emigrantes regressarem a Portugal para ter férias por volta desta altura. Além deles, vêm os filhos, muitos deles até nascidos em Portugal, no caso dos emigrantes de gerações mais novas.

 

Na Biblioteca, tenho trabalhado com algumas crianças destas e digo-vos já que estou cho-ca-da. Não, não estou chocada com a existência delas, mas sim por algumas características suas.

Dê-se o caso de um menino de quatro anos, que foi viver para Espanha com os pais aos dois ou uma idade parecida. Não é que o miúdo não fala português??? Mas, afinal, o que é que se falará em casa? Não me digam que só falam espanhol (vá, castelhano), que até me cai o maxilar aos pés! Compreender-se-ia que o menino estivesse confuso, ainda por cima com duas línguas tão parecidas a dominarem-lhe a cabecinha tão jovem. Mas nunca na vida eu anularia a um filho meu a possibilidade de ser bilingue! Teria vergonha se ele viesse passar férias com os avós e não soubesse contar até dez em português, na língua materna dos pais!

 

Outro caso: uma menina com (para aí) dez anos, em Inglaterra desde os três, sabe falar português como se cá tivesse vivido a vida toda, mas... que não sabe ler nesta língua, só em inglês. Olhem, eu passo-me com estas coisas. Será que não há um pai ou uma mãe que ensine esta rapariga a ler português? E quem diz o pai ou a mãe também diz o resto da família que cá a recebe. Ou a própria da menina, que já tem idade para ter iniciativa (o problema é a falta de interesse por parte de quem a rodeia, por isso até se entendem as consequências). Ainda tentei convencê-la de que é o máximo poder-se ler em várias línguas, ser-se fluente, e que só há benefícios em aprender a ler numa língua que ela já fala, mas os meus esforços foram em vão.

 

Pergunto-me se os pais destas crianças pertencem àquele tipo de emigrantes que não se importam de perder o contacto das suas raízes, por mero ressentimento ou sentimento de descredibilidade em relação ao país que tiveram de abandonar. Acharão eles que a língua portuguesa é assim tão insignificante que nem merece ser falada? Acharão eles que vale a pena privarem os filhos da possibilidade de serem bilingues e de se tornarem, desse modo, indivíduos mais ricos? Depois admiram-se que as Nellies Furtado e que as Katies Perry deste mundo tenham pais portugueses, mas que não falem nada senão inglês.

 

Enquanto escrevo isto, lembrei-me de que eu mesma sou uma dessas crianças. Não costumo pensar nisso, mas é verdade: a minha mãe é filipina e não foi por causa disso que não deixámos de falar SEMPRE em português (até deixarmos de falar de todo, vá), apesar de não ser a língua materna dela. Onde estão o tagalog/filipino e o inglês na minha vida? O último, aprendi-o na escola, como qualquer outra criança portuguesa; sou (digamos) fluente em inglês porque calha, porque sempre gostei dele, porque leio imenso e vejo muitas séries e filmes sem legendas, porque o estudo. E o primeiro gostava eu de o entender, e sinto que perdi uma oportunidade maravilhosa de conhecer uma língua que nem todos podem ou querem aprender, assim como a cultura que emana, que se lhe encontra subjacente.

 

Uma língua não tem de apresentar uma justificação para ser aprendida. Saber ler e falar outras línguas ajuda-nos a compreender melhor o mundo, a maneira como os seus falantes comunicam e se comportam, como interagem. Ser-se bilingue ou trilingue ou, pelo menos, fluente em línguas estrangeiras até melhora as capacidades e potencialidades do nosso cérebro, ajuda-nos a manter determinadas ligações nervosas activas. Como é que alguém pode ser capaz de negar uma língua praticamente dada a um filho?

 

Tenho uma amiga ucraniana-portuguesa (como gosto de pensar nela), a Solomiya, que veio para Portugal com dez anos, para se juntar aos pais que já cá estavam há cinco. Escreve e fala estas duas línguas, ucraniano e português, como se sempre o tivesse feito, como se tivesse nascido e sido criada cá. O irmão mais novo dela é mais português-ucraniano - ele sim, nasceu cá. A Solly costuma dizer que fala português com sotaque ucraniano e que o irmão fala ucraniano com sotaque português, e em casa falam todos ucraniano entre si, não deixando de ser fluentes em português, até os pais. Falam melhor português que muitos portugueses, mas não deixam que os filhos esqueçam o ucraniano. É a própria Solly que ensina o irmão a lê-lo e a escrevê-lo. E, se os amigos dela quiserem, também já disse que nos ensina a língua. Acho este exemplo maravilhoso.

 

Se eu pudesse, se tivesse disponibilidade, aprenderia todas as línguas criadas na Babel mitológica e respectivas ramificações! Por agora, enriqueço o meu português, faço um esforço por elevar o meu inglês a nível nativo e continuo a aprender francês e espanhol. Já disse que o próximo a entrar na lista será o neerlandês?

O que tem acontecido entretanto

Terminei o segundo ano da licenciatura, mas ainda me vou inscrever a dois exames de melhoria. As notas do segundo semestre foram melhores do que o esperado, por isso fiquei bastante feliz. Terminei os três meses de estágio, apesar de ainda ter algumas tarefas para concluir.

Participei num intercâmbio europeu, semelhante ao projecto de Newcastle no Verão passado, mas desta vez detestei-o. A organização era péssima, ainda que a intenção fosse boa. As idades dos participantes eram demasiado diferentes, alargavam-se entre os 14 e os 21 anos, havia quem não pescasse puto de Inglês, a comunicação entre líderes era nula, o local onde se realizou o intercâmbio não era o mais indicado para adolescentes e jovens adultos (uma escola primária, numa vila pacata e sem movimento chamada Rujiena, que fica a quarenta minutos da cidade mais próxima)... Podia ficar para aqui a enumerar todas as falhas da semana na Letónia, mas pelo menos ainda dei um saltinho de hora e meia a Riga e outro de um dia (enquanto fazia escala entre os vôos de regresso) em Frankfurt.

Fiz vinte anos enquanto estive no intercâmbio, pelo que tive direito a cantigas de "Parabéns" não só em português, como também em letão, turco e sueco. Regressei e juntei quase todos os meus amigos na segunda-feira, para uma festa de aniversário tardia. Não soprei velas nem nada, porque para mim isso é tudo uma mariquice acessória - há quem goste, mas eu não. Nunca me farto de dizer o quanto me faz bem à alma ter estes encontros de come&fala com aqueles com quem tenho crescido nos últimos anos, com alguns desde há largos, largos anos.

Fui sempre lendo Animal Farm, de George Orwell, e fiquei apaixonada. Por favor, leiam-no! É um livrinho pequeno, com cerca de 54 páginas A4 (deixo-vos o link para o ebook). Acabei igualmente de ler Onze Tipos de Solidão, de Richard Yates, a minha única compra na Feira do Livro de Lisboa deste ano (livro do dia da Quetzal, a 5€).

Vi os primeiros quatro episódios da 3ª temporada de Devious Maids. Continuo a ler Ana Karenina.

Chatices comezinhas

Ultimamente, tenho-me envolvido em mais projectos do que devia. Tenho-me cansado mais do que devia. As pessoas perguntam-me se me sinto bem mais vezes do que o costume. É normal, porque costumo ser uma tagarela imparável e impagável e ando simplesmente a ser uma criatura aborrecida, dormente.

Preciso de descanso, por favor! E já tomei uma decisão: apesar de já ter enviado algumas candidaturas para trabalhos de Verão na semana passada, se ninguém me responder a essas, também não me candidato a mais. Este ano, o primeiro de três, decidi que não vou trabalhar fora de casa. Tenho o copywriting e já me chega. Nem que tenha de pedir mais trabalho em freelance, mas vai ser tudo muito mais soft do que nos anos anteriores!

Estou farta de chatices comezinhas, irritantes, gente ignorante, professores desleixados e fracos, pessoas "pequeninas" e mal-amadas, mal-agradecidas e etc e tal. Só falta um mês, só falta um mês e depois tudo isto passa.

Quando chegamos ao ponto de pespegar os olhos no Facebook (eu sei, cheguei ao ponto de avaliar a realidade por uma rede social, que medo) e vemos que o resto do mundo continua a girar, que há vida além-nós, apesar de tudo, apesar de não termos sequer tempo de comer uma sandes, quanto mais de apreciar os arredores à luz do dia, apercebemo-nos de que decerto há qualquer coisa de errado connosco.

Preciso de respirar, porque ontem à noite é que já me faltava o ar. Tenho de me deixar destas maluqueiras!

 

 

Então e vocês, o que têm feito?