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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Dá vontade de dizer "forever and ever"

Quando comecei a namorar à séria, o meu pai garantiu-me que não havia amor como o primeiro. Na altura, eu já tinha tido um pseudo namorado, mas contei sempre essa pseudo relação como um fling adolescente, passageiro, muito sofrido e quase platónico. Dito isto, passei sete anos com essa deixa na cabeça, de que o primeiro amor é que é, principalmente para justificar por que a minha segunda relação foi boa, mas morna, sempre a faltar qualquer coisa sem saber bem o quê. Afinal, o primeiro amor é que tinha sido o melhor e provavelmente nada nem ninguém o iria superar. Conformei-me e acreditei que era este o fado duma relação adulta e desencantada, assente no real e na experiência palpável, sem os unicórnios e arco-íris de algo que começa quando somos tão novos e tudo também é novo e fresco. Se a minha primeira relação começada na idade adulta não tinha fogo-de-artifício nem confettis, era porque nem sequer era suposto. Afinal, duas pessoas que já viveram grandes e pequenas relações já vêm marcadas, têm as suas manias e hábitos estabelecidos, e têm vícios e expectativas goradas - perdão, devidamente alinhadas.

 

No entanto, parece que o meu pai não tinha razão (não é a primeira vez, claro). Talvez haja quem nos traga os confettis, o fogo-de-artifício, os unicórnios e os arco-íris como se fosse a primeira vez que os vemos, quem nos devolva a expectativa dum segundo ou terceiro amor como se fosse o primeiro, porque - aliás - é o primeiro do seu género, entre estas duas pessoas, nestas circunstâncias específicas. E eu olho para ele e acho que é bom demais para existir; e a pessimista que há em mim tentou alertá-lo para o quão desarranjada sou, mas num ápice ele fez-me ver que afinal eu só não tinha conhecido alguém que me fizesse relembrar o quão inteira posso ser; e aquilo que eu imagino que um homem (e um parceiro na vida) deve ser ele é sem lhe ter sido recomendada a lição; e ficamos bem nas fotografias, mesmo quando ficamos muito mal; e ele faz a minha família rir imenso, tanto quanto sinto que a família dele me faz rir; e ele está sempre a guardar as minhas mãos nas dele; e somos tão diferentes e tão iguais (a concordar quase sempre sem grande esforço, sendo eu tão caótica e ele tão comedido) que preenchemos todos os pré-requisitos para nos ser permitido usar clichés quando nos descrevemos forever and ever.

 

Além disso, ontem houve almoço de família e ele trouxe três tipos de pão artesanal, acrescentado ao facto de comer tudo o que a minha avó lhe põe à frente, alinhar na piada e confusão de ter o mesmo nome que o meu pai, e não fazer soar nenhum alarme à minha tia, por isso só pode ser uma excelente pessoa, a adição perfeita à malta lá de casa.

São só fotografias

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Uma das maiores pequenas alegrias que posso ter é entrar numa casa alheia cheia de fotos tiradas ao longo dos anos. É o meu guilty pleasure, derreto-me e amoleço com isto. Sou uma voyeuse de paredes, estantes e de tampos de móveis, gosto de imaginar as histórias por trás das imagens e de reconstruir narrativas familiares através do meu entendimento de visitante. Essas fotografias são a exibição da própria felicidade, das memórias que se querem preservar. Porque estão dentro de casa e não num mural de rede social, não são para os outros, são para quem lá vive - isto é, consistem numa selecção de lembranças preferidas, mesmo que não tenham sido curadas para os olhos dos outros, uma representação do que os habitantes da casa consideram ser o mais importante acerca de si mesmos e que gostam de rever diariamente.

 

E uma família feliz não tem só fotografias das crianças ou dos grandes eventos com pose pensada, tem fotos de tudo e mais alguma coisa: das férias de Verão, retratos da escola, aniversários, casamentos, Natais, momentos de convívio e olhares que saíram fotogénicos. O repertório não se cinge a uma só categoria ou a um grupo de pessoas, não é necessariamente o mesmo que se descarregaria no Facebook, e mais haverá nos álbuns que se imaginam através desta amostra.

 

Não são só fotografias, afinal.

Uma entrevista "Sem Fronteiras" a Carlos Barros: emigração, famílias, bem-estar e muitos sonhos

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Uma das grandes alegrias de trabalhar por conta própria é poder fazer outras coisas que não... trabalhar. Os meus dias raramente são iguais, o que por vezes é assustador, e noutras é uma benção. Tenho tempo e, acima de tudo flexibilidade - tempo e flexibilidade para estudar e aprender, para planear projectos profissionais e outros não remunerados, para escrever no blog, para ler a meio do dia, para ir ter com amigos, para sonhar acordada, para levar a cabo o que ainda me dá mais prazer do que o meu trabalho (que, por acaso, é bastante agradável). Claro que há dias mais ocupados e caóticos do que outros, mas a possibilidade de outros dias de serendipidade deixa-me leve.

 


Então, na semana passada decidi entrevistar o Carlos Barros, um amigo-estrela-cronista-entrevistador-investigador (e excelente cozinheiro de lasanha vegetariana), a propósito do seu primeiro programa de televisão-Internet/projecto de voluntariado social. Fi-lo só porque sim, porque é tão bom elogiar os nossos, mostrar aos outros o que eles andam a fazer, porque idealmente seremos a média das pessoas que nos rodeiam, e eu ficaria satisfeita por ser só um bocadinho do que os meus amigos são. O produto não ficou perfeito, mas foi feito com boas intenções.

 

Já tenho divulgado alguns projectos do Carlos no blogue e nas redes sociais, nomeadamente como cronista no Jornal Económico e no P3, mas agora este programa, que se chama "Sem Fronteiras", acaba por ser uma extensão de tudo o que o Carlos estuda, aquilo que ele sente, aquilo que o emociona e que o move. Foi um projecto em que se envolveu durante as férias, em vez de estar a descansar das mil e uma tarefas que lhe enchem o dia-a-dia, e isso diz tudo.

 

O objectivo do programa "Sem Fronteiras" é dar voz a quem deixou Portugal à procura de melhores condições de vida, em busca doutros sonhos e doutros horizontes. Desta forma, no programa vamos assistir a entrevistas tocantes a emigrantes portugueses, sobre a sua vida lá fora, sobre as suas visitas a Portugal, sobre as suas famílias e, em geral, sobre as suas vidas. É de destacar que a investigação do doutoramento do Carlos se chama Famílias Pelo Mundo, concentrando-se na solidariedade intergeracional e relações familiares, pelo que não haverá ninguém melhor do que ele para este tipo de entrevista. 

 

Além disso, como bem sabem se já acompanham o blog há algum tempo, também eu vivi muito longe de Portugal durante quase dois anos, por isso temas relacionados com a emigração tocam-me de forma especial. Se eu vivi o que vivi e senti o que senti durante tão pouco tempo, nem consigo imaginar o que vive e sente quem se encontra indefinidamente num contexto tão desafiante quanto viver noutro país, cultura, realidade...

 

Saí um pouco do que tem sido o registo do blog, voltando a publicar um vídeo como cheguei a fazer há dois anos, mas espero apresentar-vos um projecto interessante - feito por uma pessoa interessante e de quem gosto muito, e por isso bastante especial. 

 

(Entrevista filmada n'A Sala, apenas um dos meus sítios favoritos em Lisboa!)

As famílias perfeitas não existem: Little Fires Everywhere (Celeste Ng)

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Mais importante do que ser é parecer - aposto que já ouviram esta frase várias vezes. De facto, há quem viva por esse lema e pense que está tudo bem. Mostrar que somos aquilo que idealizamos é que interessa para manter uma imagem estável, agradável e que faça os outros invejar-nos... Será?

 

A primeira vez que fui confrontada com esta (ir)realidade das aparências já aconteceu bastante tarde: devia ter 12 ou 13 anos quando uma colega me contou que os pais estavam separados... mas que era segredo! O pai até tinha outra família, ela tinha irmãos pequenos dessa união. Mas era segredo! Nada de contar no colégio! Que uma adolescente esconda estes factos, ainda por cima numa idade tão complicadinha, é aceitável. No entanto, permitir que um filho faça segredo de tal coisa... Deve ser tão triste permitir que um filho ache que é melhor varrer as imperfeições para debaixo do tapete! O que motivará alguém a fazê-lo?! E, ainda por cima, já na década de 2000... Claro que, pela vida fora, tenho ouvido e visto ainda mais casos semelhantes, famílias e indivíduos com tectos de vidro tão, tão fino...

 

O livro que vos apresento é exactamente sobre isso, sobre os idealismos de trazer por casa, que se passeiam pela rua e se adoptam em prol do dito bem comum e imagem imaculada da sociedade, perante a sociedade: Little Fires Everywhere, da autora Celeste Ng (em português, Pequenos Fogos em Todo o Lado), publicado em 2017. Não me lembro da última vez que um livro de ficção me interessou tanto, que até a andar pela cidade eu continuava a ler, sem olhar para os pés ou para o caminho. Foi tão, mas tão positivo! Tão empolgante! Tão prazeroso!

 

Vejamos... Shaker Heights, no final dos anos 90, é uma comunidade cuidadosa e especificamente criada para albergar um certo tipo de pessoas, isto é, famílias felizes, bem-sucedidas em casa, no trabalho e na escola, preferencialmente de classe média alta, gente bonita, cumpridora, pacífica, solidária, sensível e inclusiva. Assim são os Richardson, uma família de pai advogado, mãe jornalista e quatro filhos que servem de modelo de virtude para a história, contrastando com as inquilinas do seu pequeno apartamento, uma artista (mãe solteira) chamada Mia e a filha adolescente, Pearl.

 

Desde a primeira página que sabemos que estas duas unidades entrarão em contacto e algo de muito mau acontecerá: a filha mais nova dos Richardson pega fogo à casa perfeita da família, depois de Mia e Pearl finalmente abandonarem Shaker Heights. Todo o livro acaba por trazer clareza às perguntas "porquê?" e "como?", o que Celeste Ng considera ser a sua prioridade ao contar uma história. Saber como acaba uma história é fácil; perceber todo o contexto que leva a esse desfecho é que nos mantém agarrados às páginas, nem que seja pela crítica permanente, ao revelar dos pequenos fogos que consomem cada personagem...

 

Little Fires Everywhere é uma história sobre as imperfeições das famílias perfeitas, imperfeições que todos nós gostaríamos de varrer para debaixo do tapete, mas que entram em ebulição quando são evitadas e reprimidas. É um livro sobre idealismos, é a própria autora quem o diz. Eu digo que também é um livro sobre a hipocrisia. Num mundo que se quer ideal e imaculado, há tanto que fica por fazer e dizer. Há tanta podridão. Ouço dizer desde pequena que só quem vive no convento é que sabe o que lá vai dentro e Celeste Ng escreve não só sobre isso, mas também sobre os segredos e pensamentos mais privados de cada personagem.

 

É tão fácil julgar e ser julgado, mas no final todos procuramos o mesmo, que é fazer parte duma comunidade, pertencer, lançar raízes, ser-se amado e respeitado.

 

No podcast em que ouvi uma entrevista a Celeste Ng, foi dito que o seu livro de estreia, Everything I Never Told You (2014), também se passa em Shaker Heights, onde a própria escritora cresceu. Isto deixa-me mesmo muito curiosa, porque gosto muito de autores que escrevem histórias que, não sendo completamente reais, são inspiradas por e acontecem nos locais que melhor conhecem e onde passaram as suas infâncias (em português, temos o caso de José Luís Peixoto).

 

📚 Se procuram um livro de ficção que não vos dê descanso enquanto não o acabam, Little Fires Everywhere é a resposta às vossas preces. Por exemplo, também ando a ler o livro The Science of Storytelling (de Will Storr, do qual vos falarei dentro de alguns dias), e apercebi-me de que todos os ingredientes recomendados para uma história bem contada estão lá, todos usados pela Celeste Ng.

Já agora, esta foi a minha escolha de Junho para o desafio Uma Dúzia de Livros da Rita da Nova!

E sabiam que vai haver uma série baseada nestes pequenos grandes fogos, com a jeitosa da Reese Witherspoon?!

 

📝 Que outros livros de ficção vos deixam assim, tão empolgados?

Pelos direitos das criancinhas

 

Todas as crianças devem ter direito a quem assista às suas necessidades. Devem ter um porto de abrigo. Devem estar rodeadas de exemplos e figuras protectoras. Devem poder estar acompanhadas na sua descoberta do mundo, fazendo uso das suas faculdades em desenvolvimento, nomeadamente imaginação, empatia, perspicácia, inteligência emocional, comunicação interpessoal.

Em vez disso, cada vez me apercebo mais da quantidade crescente de ditas mães, em particular nos transportes públicos, que preferem ter as fuças (que não há outra referência anatómica possível) na porcaria do telemóvel. Temo pelo dia em que os psicólogos deste mundo comecem a divulgar resultados científicos sobre sintomas de abandono precoce por causa de dispositivos tecnológicos terem sido mais importantes para as figuras parentais do que os filhos, futuros pacientes que encherão os bolsos de terapeutas dentro de menos de uma década.

Sim, é verdade que estas mães podem estar cansadas. Podem querer ter um momento de descanso, nem que seja dois minutos de prazerosa indulgência nas redes sociais desta vida, uma palavrinha no grupinho de WhatsApp com as amigas, alguns momentos em que a mulher com vontade própria se sobrepõe ao chamamento da maternidade...

No entanto, deixem-me insistir nesta crítica: vejo mães com as fuças metidas nos ecrãs, com as crianças a apontarem para aqui e para ali, olha ali, um semáforo, olha ali, outro menino, oh mãe, olha que giro, olha ali, o que é aquilo...? Não é uma vez, não são duas nem três, chegam a ser dez minutos de tortura para quem rodeia estas progenitoras obviamente alienadas da natureza. Está quieto, deixa-me em paz, olha as pessoas, estás a ser chato, estou a ficar sem paciência, estás-aqui-estás-a-levar, epá, cala-te, já não te posso ouvir. Primeiro, as crianças rejubilam ao maravilhar-se com o mundo; depois, começam a falar mais baixinho, com cuidado; finalmente, choramingam e conformam-se.

São não só ignoradas, mas admoestadas e silenciadas. E mais: são ridicularizadas. Crianças pequenas, talvez quatro, cinco ou seis anos, a serem ridicularizadas pelas próprias mães, por estarem a ser chatinhas, por não estarem quietas, por não estarem caladas, por estarem a fazer barulho em público! E tudo isto a ser dito enquanto nem sequer as olham nos olhos, sempre com a merda dos narizes enfocinhados para a frente, cegas, frias, embrutecidas como bestas de carga de palas nos olhos.

Ridículo é este modelo de maternidade (não sendo a minha amostra representativa, ainda nunca vi nenhum pai fazer tal coisa). É ridículo e triste. Teremos toda uma geração muito em breve que terá sido preterida em função de caixas de luz com texto e imagens. Se a minha geração perdeu pais para os amantes, para a bebida, para o jogo, para as dívidas e outros vícios que tais, as vindouras perdê-los-ão para a entropia digital dos nossos dias. A indignidade desta realidade crescente revolta-me e só aumenta o meu descrédito nos cidadãos contemporâneos. Correndo o risco de ser injusta, quiçá politicamente incorrecta (uuuuuuh), quem nem consegue criar os filhos, estimular-lhes as capacidades cognitivas, físicas, ou simplesmente por não lhes conseguir mostrar o que é o amor... não deveria receber uma visitinha das entidades competentes?

Ora, vergonha alheia. Toda a gente sabe que as criancinhas só servem para sacar likes no Instagram.

Quanto vale uma educação: Educated (Tara Westover)

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Quanto valor pode ter uma educação? Quase todos nós tomamos tantas vezes a nossa instrução como garantida. Nos meios onde cresci e estudei, entre o fim do século XX e início do século XXI, nunca conheci ninguém que não tivesse nascido sem ter a certeza de que iria à escola, o que não é o caso da protagonista deste livro: Educated, o livro de memórias de Tara Westover (traduzido em português como Uma Educação, pela Bertrand Editora).

 

Nota: este vai ser um texto longo. Desde que comecei a ler o livro até o terminar dificilmente o larguei. Foi assim que Educated me fez sentir: eu tinha de saber como acabava o relato desta rapariga, nem uma década mais velha que eu, mas com uma vida tão complexa e cheia de feitos tão memoráveis.


Educated descreve os primeiros vinte e tal anos de vida da autora americana; perguntarão vocês como é que alguém tão novo terá tanto (quase 400 páginas!) para contar. Ao contrário do que é esperado duma criança num país desenvolvido, Tara não foi à escola até ter entrado na universidade, aos 17 anos. A família, mórmon, crente no Fim dos Dias e em teorias da conspiração sobre a doutrinação do Governo através da escola e do serviço de saúde, manteve-a longe do resto do mundo até Tara ter seguido os passos dum irmão mais velho rebelde e se ter autoproposto e inscrito na Brigham Young University.


Não vos quero contar muito mais do que as outras sinopses da Internet já contêm, mas deixo-vos uma nota de precaução: este não é um livro fácil, emocionalmente. Tara Westover escreve mesmo muito, muito bem, como se já tivesse uma carreira literária longa, por isso conseguiu prender-me a cada novo parágrafo, mas o que lá está escrito não é bonito. Na infância, adolescência e primeiros anos de idade adulta dela houve muita violência, frustração, mentiras, obstáculos físicos e morais, incompreensão, solidão... É uma daquelas leituras que nos encanta e assombra em simultâneo. A certo ponto, o que mais surpreende deixa de ser o facto de Tara ter chegado a frequentar a universidade, mas sim, contra a vontade de toda a gente que a rodeava, ter alcançado um percurso de sucesso de zero a Harvard em menos de dez anos.


No fim, concluí: a curiosidade pelo mundo recém-descoberto, a cada nova disciplina ou pessoa que conhecia, desempenhou um papel muito importante na vida de Tara. Poder aprender numa sala de aula e usufruir duma educação universitária nalgumas das melhores instituições do mundo não foram experiências que pudesse fazer intuitivamente, ao contrário dos seus colegas. Só quase aos trinta anos é que deixou de se sentir isolada e diferente. No entanto, permaneceu a vontade de saber e conhecer mais. Para nós, os leitores, serve-nos de lição ou para refrescar a memória para valorizarmos a nossa escolarização, socialização e oportunidades de fazer mais e melhor. Relembra-nos que ir à escola ou à universidade não é só ouvir um tipo qualquer falar durante hora e meia. Mesmo a informação mais insignificante que nos possam oferecer deve ser tida em conta, porque, tal como Tara, acabamos por aprender algo novo sobre o que é ser humano, algo sobre o mundo, nem que seja um pretexto para procurarmos mais nos livros, na Internet ou para perguntarmos a quem percebe do assunto. Lutar por uma educação é imprescindível. Uma educação não é escolher o curso com mais empregabilidade; é, acima de tudo e simplesmente, poder aprender.

 

The decisions I made after that moment were not the ones she  would have made. They were the choices of a changed person, a new self. 
You could call this selfhood many things. Transformation. Metamorphosis. Falsity. Betrayal. 
I call it an education.


Enfim. É impressionante como uma miúda cheia de medo e um passado doloroso pôde transformar a sua vida por completo, reinventá-la e reinventar-se. Não quero dizer que não teve momentos de fraqueza, mas na minha opinião é preciso ser-se realmente forte para se ser o protagonista duma vida como esta.


Li em muitos outros textos de opinião que Educated é um livro para todos os gostos e confirmo. Não costumo ler muitos relatos autobiográficos, mas este valeu a pena. É muito difícil deixar a meio um livro assim.


Vejam ainda os textos e vídeos que deixei em hiperligações pelo meio do texto.


Boas leituras! 📚

 

(Este é também o livro que li para o mês de Fevereiro a propósito do desafio Uma Dúzia de Livros, da Rita da Nova).

Há um ano em Portugal

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Fez ontem um ano que estou em Portugal e muito do que eu esperava não se concretizou nestes primeiros doze meses a seguir ao regresso. Parte da rede de apoio desmoronou-se, o mestrado com o qual eu tinha andado a sonhar não me entusiasma tanto quanto eu previa, a alegria de voltar para o pé da família e dos amigos reveza-se com contas interiores por ajustar.


No entanto, fecham-se portas e abrem-se janelas. Já não dou aulas numa universidade, mas gosto bastante do que faço e vou gostando do que estudo. A viagem à Escócia, onde prometi voltar a cada novo dia no meio duma cidade de betão, realizou-se. Continuei a escrever, tive tempo e disposição para ler e para fazer planos que me entusiasmam. Conheci quem me inspire e faça bem, nunca me faltaram abraços.


O que eu quero dizer é que a vida aconteceria inevitavelmente lá ou cá, assim ou assado. Não é um sentimento de impotência, mas sim de controlo: a vida não parou, porque me tenho esforçado para que não pare e para que vá seguindo um rumo agradável à navegação. A iniciativa própria tem peso nos eventos; não controlamos tudo, mas aquele bocadinho que aterra nas nossas mãos é um óptimo começo.


Além disso, tem sido um ano de reaprendizagem. Reaprendi a depender um pouco dos outros, reaprendi a estar acompanhada, reaprendi a confiar nas minhas decisões e reaprendi a não me preocupar demasiado por antecipação, mas sim a esforçar-me apenas dando o meu melhor, de acordo com as circunstâncias, não almejando a feitos heróicos e, certamente, irreais. Neste caso, aprendi mesmo, pela primeira vez, que não sou de ferro. Foi um ligeiro passo atrás para poder continuar em frente.


Ao chegar ao aeroporto de Lisboa, após 30h de viagem, deparei-me com esta frase de José Luís Peixoto (que, por coincidência, eu conhecera algumas semanas antes em Banguecoque):

 

Quando chegares, não te esqueças de onde partiste.

 

(Frase esta que eu lera, também algumas semanas antes, no livro O Caminho Imperfeito, que JLP escreveu sobre algumas das suas experiências na Tailândia e sobre viagens.)

 

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De facto, não nos podemos esquecer de onde vamos partindo, seja territorial, mas também profissional ou emocionalmente. É difícil prever o próximo destino, mas costuma-se dizer que devemos, em vez disso, apreciar a viagem. Talvez os clichés tenham razão.

 

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O melhor de 2018 foi a superação

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Ponderei muito se deveria escrever este texto. Ponderei mais um tanto até realmente o escrever - e procrastinei-o. 2018 tem sido um ano que eu não teria vontade de repetir. Houve anos em que cheguei ao fim e pensei "muito bem, este foi dos bons". 2018 não. Passou-se e, se eu tivesse um comando para controlar a visualização dos episódios, repetiria um par de situações e ficaria feliz. Talvez por isso não saiba sequer o que partilhar sobre os últimos meses que não tenha já sido escrito por este blogue fora.

 

Vejamos... Despedi-me do emprego que eu mais queria na vida, deixei um mestrado a meio, regressei de quase dois anos a viver em Banguecoque, renovei amizades e listas de contactos, recomecei, reaprendi a viver em família, defini novos objectivos profissionais, procurei uma nova auto-imagem, não só saí como saltei de pára-quedas da minha zona de conforto, descobri novos interesses, inscrevi-me no mestrado dos meus sonhos (e não fiquei impressionada) e - o mais importante - tive de reconhecer a minha fragilidade face a circunstâncias que não consigo controlar, paralelamente àquilo que me cabe a mim decidir. Já diz o livro, quem mexeu no meu queijo? A certa altura, senti que toda a gente me metia as mãos no meu prato excepto eu, mas no final ficou a lição de que, se nos comem o queijo, temos de ir à procura do fiambre.

 

A sabedoria popular também diz que "o que não arde cura e o que aperta segura". Feitas as contas, podia ser outro lema para o meu último ano. Sei que foi dos melhores anos em lições várias, novidades, descoberta permanente. Estou feliz por isso. No entanto, em 2019 quero menos reboliço.

 

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No lado bom - óptimo! - destaco a minha viagem solo à Escócia, que gostaria imenso de repetir mal seja possível, no mínimo à minha cidade favorita, Edimburgo. Subir o Arthur's seat foi das experiências mais satisfatórias do último par de anos, tanto pela vista panorâmica sobre Edimburgo, como ainda pela superação simbólica de medos e obstáculos. 

 

Destaco as pessoas que conheci. Por vezes sofro de memória selectiva, mas não me lembro de nenhuma pessoa que tenha conhecido sem que a viesse a admirar. Os amigos e a família também não tiveram um papel fácil e o carinho que me dedicaram não tem comparação em palavras.

 

Destaco o blogue. Consegui escrever mais do que no ano passado, o Sapo também o destacou várias vezes, chegaram novos leitores, fui encontrando motivação para cá voltar. Gosto de saber que vos tenho por aqui e que os meus exercícios de escrita e reflexão não ficam apenas para mim.

 

Destaco os livros que li. Embora ache que ainda tenho de aprender a ler melhor, já fiquei satisfeita com a quantidade (desafio do Goodreads superado!), porque também tive de ir lendo outros materiais para a faculdade no último trimestre. Ainda vou publicar o meu balanço livrólico detalhado antes de o ano acabar (antes disso, só tenho de terminar um ou dois livros).

 

De qualquer forma, acabei o ano a fazer aquilo de que gosto, em boa companhia, sem nenhum desejo por concretizar, com planos para novos projectos e talvez uma viagem ou outra. Saldo positivo!

 

2018 superado, que 2019 sirva para continuar a melhorar! (E já nem digo que sirva para escrever um livro, mas começar a tese já não seria mau.)

 

Imagens: Edinburgh Central Library e Calton Hill, Edimburgo, Maio de 2018

5 ideias científicas (e simples) para sermos mais felizes

Recentemente, comecei a seguir um podcast que já recomendei no Instagram e que não me farto de impingir a quem não se importe de me ouvir por trinta segundos sobre ele. Chama-se The Science of Happiness (traduzido fica "A Ciência da Felicidade") e é promovido pelo Greater Good Science Center, da UC Berkeley (EUA). Ouço-o através do Spotify, mas também está disponível no iTunes e no site do centro. Dito isto, fica entendido que a procura da felicidade é elevada a ciência. Sermos mais felizes é uma coisa que se aprende e que vem nos livros - quem diria?

 

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No entanto, mais do que promover a sua procura, este podcast sugere que a felicidade pode ser praticada, tal como qualquer habilidade. Há formas de a exercitar para a tornar mais forte e constante, métodos sobre os quais ouvimos falar de vez em quando, por uma ou outra razão, mas que nem sabemos terem sido investigados com todo o rigor científico. Podemos ser felizes se, tal como estudamos para um exame ou treinamos no ginásio, nos aplicarmos nuns quantos exercícios frequentes, tendo em vista fortalecer a felicidade quotidiana. Em cada epsiódio, é apresentada "a practice designed to boost happiness, resilience, kindness, or connection", com um guinea pig, um entrevistado, que tenta aplicar essa prática no seu dia-a-dia.

 

 

Desta forma, aqui vos recomendo 5 ideias científicas (e simples) para sermos mais felizes - ou seja, 5 métodos explicados em 5 episódios do podcast The Science of Happiness:

 

1. Ouvir como se fosse o primeiro encontro

Neste episódio, o protagonismo é dado à "escuta activa" - isto é, uma técnica de comunicação que visa destacar a importância de ouvir como deve ser, ou escutar atentamente, mostrando-o claramente ao(s) outro(s) interveniente(s). Uma parte importante do processo é olhar as outras pessoas nos olhos enquanto conversamos, uma vez que esse pequeno gesto ajuda à libertação de oxitocina, uma substância química que tem o papel de estimular o sentimento de bem-estar e de ligação aos outros, também conhecida como "a hormona do amor", que obviamente contribui para sermos mais felizes.

 

2. Escrever uma carta de agradecimento a alguém que nos tenha marcado

O objectivo é escrever uma carta de agradecimento, mesmo que esta nunca seja lida ou recebida pela pessoa a quem se destina. O que interessa é quem escreve relembrar a sua importância, o quão feliz e abençoada a sua vida possa ter-se tornado por ter cruzado caminhos com o destinatário. É como pôr os pés na terra e valorizar a influência que outros possam ter tido no seu presente.

 

3. Caminhar regularmente no exterior (com um dos criadores do filme Inside Out, ou Divertida-Mente)

Quando caminhamos, não estamos apenas a fazer algum exercício físico. Desligados de conversas e dos nossos meios habituais, a nossa mente descansa e ganha tempo e espaço para reflectir, para sermos mais felizes com a nossa voz interior - uma óptima prática para bloqueios criativos! Principalmente se estivermos entre a natureza ou cenários agradáveis, o pensamento flui, o raciocínio liberta-se, a pressão sanguínea baixa e o stress também. O objectivo é saborear o momento. Podemos fazê-lo sozinhos ou, por exemplo, ao passear os nossos cães.

 

4. 36 perguntas para nos apaixonarmos por alguém

Esta é uma prática que muitos já devem conhecer desta TedTalk ou deste artigo. São 36 perguntas que, supostamente, nos fazem apaixonar pela pessoa com quem partilhamos o questionário. Contudo, além disso, podem ainda ser usadas para aprofundar uma relação, recuperar alguma intimidade perdida (que é o caso da participante entrevistada neste episódio) ou - veja-se! - quebrar barreiras culturais, sociais e religiosas. E, ao sentirmo-nos mais próximos de alguém, imaginem o que acontece... oxitocina, como sempre. Estabelecendo relações mais significativas e íntimas, sermos mais felizes torna-se uma consequência natural.

 

5. Imaginar que nunca teríamos conhecido a nossa cara-metade

A um grupo foi pedido que descrevessem a forma como tinham conhecido a sua cara-metade; ao outro foi pedido que imaginassem que nunca a tinham conhecido, por algum acaso (ou desacaso) do destino. Chegou-se à conclusão de que os participantes do segundo grupo se sentiram mais satisfeitos nas suas relações algum tempo depois do estudo do que os do primeiro grupo. Pensar como seria a sua vida sem aquela pessoa especial, investir no exercício de counting their blessings, fê-los valorizar as suas vidas em comum, ganhando alguma objectividade.

 

 ***

 

Terminada a lista, será que alguém vai tentar uma destas práticas para ser mais feliz? Ou será que vai ganhar curiosidade em ouvir o podcast? Por que não tentam ouvi-lo agora nas férias, no carro ou na praia?

 

Só tenho pena que ainda não haja nenhum podcast semelhante em português. Até agora, já ouvi todos os vinte episódios disponíveis, tentei três destas práticas que vos sugeri, mais outras quantas de The Science of Happiness, por isso dá para perceber o quanto admiro este projecto.

 

Fico à espera das vossas opiniões e relatos de possíveis experiências para serem mais felizes. 

O que eu não mudaria em 2017

Que ano turbulento. Costuma-se dizer que, quanto maior é a subida, maior é a queda, mas 2017 foi uma série de escadarias, e rampas, e trampolins, para cima e para baixo.

Felizmente, há muita coisa que eu não mudaria.

 

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Não mudaria ter ido viver para outro condomínio. Poupei imenso dinheiro nesta renda duma unidade mais pequena e nos subúrbios, onde consegui encontrar silêncio, risos de criança no jardim, espaço verde e de lazer com fartura. O condomínio no centro de Banguecoque era glamoroso, tinha uma vista de tirar o fôlego a qualquer um, mas as baratas e o barulho estavam a tirar-me do sério. Além disso, era demasiado grande para uma pessoa só.

 

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Não mudaria o quanto trabalhei este ano - tanto enquanto professora, como também enquanto estudante. Custou, mas teve frutos, deu-me experiência, fiquei com calo, testei-me, recebi palavras de reconhecimento e respeito dos meus alunos, dos meus colegas, da minha chefe, fiquei com uma média quase perfeita no mestrado (apesar de incompleto). Os meus alunos escreveram-me mensagens de carinho, ajudaram-me a melhorar, pediram-me para ficar nas minhas turmas até ao momento em que lhes disse que este foi o meu último semestre. Os meus colegas cumprimentam-me efusivamente nos corredores, raramente sinto más energias na minha direcção, fiz amigos (mais ou menos, vá). A minha chefe reconhece o que faço, incluiu-me até num projecto de extrema importância desde 2016 e que culminará em 2018, quando poderia ter pedido a outra pessoa qualquer com mais experiência para a ajudar. Tudo isto é gratificante.

 

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Não mudaria o que trabalhei em quantidade e intensidade, tendo em vista ganhar mais do que o meu salário base. Consegui rendimentos decentes no final de cada mês, que me permitiram proporcionar férias inesquecíveis à minha família, cada vez que me visitaram, principalmente a minha avó, que esteve cá quase dois meses - as primeiras férias em dezoito anos, desde que eu fui lá para casa para ela me criar! Também pude dar-me a pequenos luxos, como adoptar um gato e comer em bons restaurantes.

 

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Não mudaria nada do que tentei dar à minha família. Ao ajudá-los a ter estas experiências, senti que consegui arranjar uma bela desculpa para os arrancar do ciclo de muitos anos negativos e cheios de sacrifício. Sei que estas visitas à Tailândia, mesmo quando curtas, tiveram resultados muito positivos e lhes trouxeram uma forma renovada de ver a vida. Além disso, o orgulho que sentem por mim irradiou ainda mais quando me visitaram.

 

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Não mudaria o quanto protegi o meu namoro de energias negativas, o quão firmes fomos os dois com esta dinâmica de relação a longa distância, o facto de termos feito tudo encaixar e funcionar até este momento, depois de oito meses sem nos vermos e mais dum ano sem realmente convivermos no mesmo espaço sem interferências do jet lag ou agendas familiares apertadas. Não mudaria o facto de ter investido nesta relação como sendo a única aposta viável para uma vida feliz e como a imagino, e de ter insistido que teria de ser mesmo assim.

 

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Em suma, não mudaria o esforço que investi em continuar a ser optimista. Ser feliz nem sempre é fácil e facilmente nos esquecemos de como estar satisfeitos com o que temos. Estou feliz por ter tido a oportunidade de viver no estrangeiro, estou feliz por me ter desenrascado como pude e quase sempre com sentido de humor e uma certa alegria! Esforcei-me muito para acabar este ano com saldo positivo, estou mesmo feliz por estar a acabar, para que novos desafios possam aparecer.

 

Fica um agradecimento eterno no ar a todos os meus amigos, família, namorado, professores, conhecidos e toda, toda a gente que me trouxe sorrisos e com quem partilhei neuras nestes doze meses.

 

Sob sugestão duma ideia da Cláudia (já não me lembro em que post), penso que a minha palavra para 2017 tenha sido "trabalho", sem me ter apercebido. Para 2018, que palavra escolherei?