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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Quanto vale uma educação: Educated (Tara Westover)

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Quanto valor pode ter uma educação? Quase todos nós tomamos tantas vezes a nossa instrução como garantida. Nos meios onde cresci e estudei, entre o fim do século XX e início do século XXI, nunca conheci ninguém que não tivesse nascido sem ter a certeza de que iria à escola, o que não é o caso da protagonista deste livro: Educated, o livro de memórias de Tara Westover (traduzido em português como Uma Educação, pela Bertrand Editora).

 

Nota: este vai ser um texto longo. Desde que comecei a ler o livro até o terminar dificilmente o larguei. Foi assim que Educated me fez sentir: eu tinha de saber como acabava o relato desta rapariga, nem uma década mais velha que eu, mas com uma vida tão complexa e cheia de feitos tão memoráveis.


Educated descreve os primeiros vinte e tal anos de vida da autora americana; perguntarão vocês como é que alguém tão novo terá tanto (quase 400 páginas!) para contar. Ao contrário do que é esperado duma criança num país desenvolvido, Tara não foi à escola até ter entrado na universidade, aos 17 anos. A família, mórmon, crente no Fim dos Dias e em teorias da conspiração sobre a doutrinação do Governo através da escola e do serviço de saúde, manteve-a longe do resto do mundo até Tara ter seguido os passos dum irmão mais velho rebelde e se ter autoproposto e inscrito na Brigham Young University.


Não vos quero contar muito mais do que as outras sinopses da Internet já contêm, mas deixo-vos uma nota de precaução: este não é um livro fácil, emocionalmente. Tara Westover escreve mesmo muito, muito bem, como se já tivesse uma carreira literária longa, por isso conseguiu prender-me a cada novo parágrafo, mas o que lá está escrito não é bonito. Na infância, adolescência e primeiros anos de idade adulta dela houve muita violência, frustração, mentiras, obstáculos físicos e morais, incompreensão, solidão... É uma daquelas leituras que nos encanta e assombra em simultâneo. A certo ponto, o que mais surpreende deixa de ser o facto de Tara ter chegado a frequentar a universidade, mas sim, contra a vontade de toda a gente que a rodeava, ter alcançado um percurso de sucesso de zero a Harvard em menos de dez anos.


No fim, concluí: a curiosidade pelo mundo recém-descoberto, a cada nova disciplina ou pessoa que conhecia, desempenhou um papel muito importante na vida de Tara. Poder aprender numa sala de aula e usufruir duma educação universitária nalgumas das melhores instituições do mundo não foram experiências que pudesse fazer intuitivamente, ao contrário dos seus colegas. Só quase aos trinta anos é que deixou de se sentir isolada e diferente. No entanto, permaneceu a vontade de saber e conhecer mais. Para nós, os leitores, serve-nos de lição ou para refrescar a memória para valorizarmos a nossa escolarização, socialização e oportunidades de fazer mais e melhor. Relembra-nos que ir à escola ou à universidade não é só ouvir um tipo qualquer falar durante hora e meia. Mesmo a informação mais insignificante que nos possam oferecer deve ser tida em conta, porque, tal como Tara, acabamos por aprender algo novo sobre o que é ser humano, algo sobre o mundo, nem que seja um pretexto para procurarmos mais nos livros, na Internet ou para perguntarmos a quem percebe do assunto. Lutar por uma educação é imprescindível. Uma educação não é escolher o curso com mais empregabilidade; é, acima de tudo e simplesmente, poder aprender.

 

The decisions I made after that moment were not the ones she  would have made. They were the choices of a changed person, a new self. 
You could call this selfhood many things. Transformation. Metamorphosis. Falsity. Betrayal. 
I call it an education.


Enfim. É impressionante como uma miúda cheia de medo e um passado doloroso pôde transformar a sua vida por completo, reinventá-la e reinventar-se. Não quero dizer que não teve momentos de fraqueza, mas na minha opinião é preciso ser-se realmente forte para se ser o protagonista duma vida como esta.


Li em muitos outros textos de opinião que Educated é um livro para todos os gostos e confirmo. Não costumo ler muitos relatos autobiográficos, mas este valeu a pena. É muito difícil deixar a meio um livro assim.


Vejam ainda os textos e vídeos que deixei em hiperligações pelo meio do texto.


Boas leituras! 📚

 

(Este é também o livro que li para o mês de Fevereiro a propósito do desafio Uma Dúzia de Livros, da Rita da Nova).

Há um ano em Portugal

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Fez ontem um ano que estou em Portugal e muito do que eu esperava não se concretizou nestes primeiros doze meses a seguir ao regresso. Parte da rede de apoio desmoronou-se, o mestrado com o qual eu tinha andado a sonhar não me entusiasma tanto quanto eu previa, a alegria de voltar para o pé da família e dos amigos reveza-se com contas interiores por ajustar.


No entanto, fecham-se portas e abrem-se janelas. Já não dou aulas numa universidade, mas gosto bastante do que faço e vou gostando do que estudo. A viagem à Escócia, onde prometi voltar a cada novo dia no meio duma cidade de betão, realizou-se. Continuei a escrever, tive tempo e disposição para ler e para fazer planos que me entusiasmam. Conheci quem me inspire e faça bem, nunca me faltaram abraços.


O que eu quero dizer é que a vida aconteceria inevitavelmente lá ou cá, assim ou assado. Não é um sentimento de impotência, mas sim de controlo: a vida não parou, porque me tenho esforçado para que não pare e para que vá seguindo um rumo agradável à navegação. A iniciativa própria tem peso nos eventos; não controlamos tudo, mas aquele bocadinho que aterra nas nossas mãos é um óptimo começo.


Além disso, tem sido um ano de reaprendizagem. Reaprendi a depender um pouco dos outros, reaprendi a estar acompanhada, reaprendi a confiar nas minhas decisões e reaprendi a não me preocupar demasiado por antecipação, mas sim a esforçar-me apenas dando o meu melhor, de acordo com as circunstâncias, não almejando a feitos heróicos e, certamente, irreais. Neste caso, aprendi mesmo, pela primeira vez, que não sou de ferro. Foi um ligeiro passo atrás para poder continuar em frente.


Ao chegar ao aeroporto de Lisboa, após 30h de viagem, deparei-me com esta frase de José Luís Peixoto (que, por coincidência, eu conhecera algumas semanas antes em Banguecoque):

 

Quando chegares, não te esqueças de onde partiste.

 

(Frase esta que eu lera, também algumas semanas antes, no livro O Caminho Imperfeito, que JLP escreveu sobre algumas das suas experiências na Tailândia e sobre viagens.)

 

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De facto, não nos podemos esquecer de onde vamos partindo, seja territorial, mas também profissional ou emocionalmente. É difícil prever o próximo destino, mas costuma-se dizer que devemos, em vez disso, apreciar a viagem. Talvez os clichés tenham razão.

 

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O melhor de 2018 foi a superação

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Ponderei muito se deveria escrever este texto. Ponderei mais um tanto até realmente o escrever - e procrastinei-o. 2018 tem sido um ano que eu não teria vontade de repetir. Houve anos em que cheguei ao fim e pensei "muito bem, este foi dos bons". 2018 não. Passou-se e, se eu tivesse um comando para controlar a visualização dos episódios, repetiria um par de situações e ficaria feliz. Talvez por isso não saiba sequer o que partilhar sobre os últimos meses que não tenha já sido escrito por este blogue fora.

 

Vejamos... Despedi-me do emprego que eu mais queria na vida, deixei um mestrado a meio, regressei de quase dois anos a viver em Banguecoque, renovei amizades e listas de contactos, recomecei, reaprendi a viver em família, defini novos objectivos profissionais, procurei uma nova auto-imagem, não só saí como saltei de pára-quedas da minha zona de conforto, descobri novos interesses, inscrevi-me no mestrado dos meus sonhos (e não fiquei impressionada) e - o mais importante - tive de reconhecer a minha fragilidade face a circunstâncias que não consigo controlar, paralelamente àquilo que me cabe a mim decidir. Já diz o livro, quem mexeu no meu queijo? A certa altura, senti que toda a gente me metia as mãos no meu prato excepto eu, mas no final ficou a lição de que, se nos comem o queijo, temos de ir à procura do fiambre.

 

A sabedoria popular também diz que "o que não arde cura e o que aperta segura". Feitas as contas, podia ser outro lema para o meu último ano. Sei que foi dos melhores anos em lições várias, novidades, descoberta permanente. Estou feliz por isso. No entanto, em 2019 quero menos reboliço.

 

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No lado bom - óptimo! - destaco a minha viagem solo à Escócia, que gostaria imenso de repetir mal seja possível, no mínimo à minha cidade favorita, Edimburgo. Subir o Arthur's seat foi das experiências mais satisfatórias do último par de anos, tanto pela vista panorâmica sobre Edimburgo, como ainda pela superação simbólica de medos e obstáculos. 

 

Destaco as pessoas que conheci. Por vezes sofro de memória selectiva, mas não me lembro de nenhuma pessoa que tenha conhecido sem que a viesse a admirar. Os amigos e a família também não tiveram um papel fácil e o carinho que me dedicaram não tem comparação em palavras.

 

Destaco o blogue. Consegui escrever mais do que no ano passado, o Sapo também o destacou várias vezes, chegaram novos leitores, fui encontrando motivação para cá voltar. Gosto de saber que vos tenho por aqui e que os meus exercícios de escrita e reflexão não ficam apenas para mim.

 

Destaco os livros que li. Embora ache que ainda tenho de aprender a ler melhor, já fiquei satisfeita com a quantidade (desafio do Goodreads superado!), porque também tive de ir lendo outros materiais para a faculdade no último trimestre. Ainda vou publicar o meu balanço livrólico detalhado antes de o ano acabar (antes disso, só tenho de terminar um ou dois livros).

 

De qualquer forma, acabei o ano a fazer aquilo de que gosto, em boa companhia, sem nenhum desejo por concretizar, com planos para novos projectos e talvez uma viagem ou outra. Saldo positivo!

 

2018 superado, que 2019 sirva para continuar a melhorar! (E já nem digo que sirva para escrever um livro, mas começar a tese já não seria mau.)

 

Imagens: Edinburgh Central Library e Calton Hill, Edimburgo, Maio de 2018

5 ideias científicas (e simples) para sermos mais felizes

Recentemente, comecei a seguir um podcast que já recomendei no Instagram e que não me farto de impingir a quem não se importe de me ouvir por trinta segundos sobre ele. Chama-se The Science of Happiness (traduzido fica "A Ciência da Felicidade") e é promovido pelo Greater Good Science Center, da UC Berkeley (EUA). Ouço-o através do Spotify, mas também está disponível no iTunes e no site do centro. Dito isto, fica entendido que a procura da felicidade é elevada a ciência. Sermos mais felizes é uma coisa que se aprende e que vem nos livros - quem diria?

 

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No entanto, mais do que promover a sua procura, este podcast sugere que a felicidade pode ser praticada, tal como qualquer habilidade. Há formas de a exercitar para a tornar mais forte e constante, métodos sobre os quais ouvimos falar de vez em quando, por uma ou outra razão, mas que nem sabemos terem sido investigados com todo o rigor científico. Podemos ser felizes se, tal como estudamos para um exame ou treinamos no ginásio, nos aplicarmos nuns quantos exercícios frequentes, tendo em vista fortalecer a felicidade quotidiana. Em cada epsiódio, é apresentada "a practice designed to boost happiness, resilience, kindness, or connection", com um guinea pig, um entrevistado, que tenta aplicar essa prática no seu dia-a-dia.

 

 

Desta forma, aqui vos recomendo 5 ideias científicas (e simples) para sermos mais felizes - ou seja, 5 métodos explicados em 5 episódios do podcast The Science of Happiness:

 

1. Ouvir como se fosse o primeiro encontro

Neste episódio, o protagonismo é dado à "escuta activa" - isto é, uma técnica de comunicação que visa destacar a importância de ouvir como deve ser, ou escutar atentamente, mostrando-o claramente ao(s) outro(s) interveniente(s). Uma parte importante do processo é olhar as outras pessoas nos olhos enquanto conversamos, uma vez que esse pequeno gesto ajuda à libertação de oxitocina, uma substância química que tem o papel de estimular o sentimento de bem-estar e de ligação aos outros, também conhecida como "a hormona do amor", que obviamente contribui para sermos mais felizes.

 

2. Escrever uma carta de agradecimento a alguém que nos tenha marcado

O objectivo é escrever uma carta de agradecimento, mesmo que esta nunca seja lida ou recebida pela pessoa a quem se destina. O que interessa é quem escreve relembrar a sua importância, o quão feliz e abençoada a sua vida possa ter-se tornado por ter cruzado caminhos com o destinatário. É como pôr os pés na terra e valorizar a influência que outros possam ter tido no seu presente.

 

3. Caminhar regularmente no exterior (com um dos criadores do filme Inside Out, ou Divertida-Mente)

Quando caminhamos, não estamos apenas a fazer algum exercício físico. Desligados de conversas e dos nossos meios habituais, a nossa mente descansa e ganha tempo e espaço para reflectir, para sermos mais felizes com a nossa voz interior - uma óptima prática para bloqueios criativos! Principalmente se estivermos entre a natureza ou cenários agradáveis, o pensamento flui, o raciocínio liberta-se, a pressão sanguínea baixa e o stress também. O objectivo é saborear o momento. Podemos fazê-lo sozinhos ou, por exemplo, ao passear os nossos cães.

 

4. 36 perguntas para nos apaixonarmos por alguém

Esta é uma prática que muitos já devem conhecer desta TedTalk ou deste artigo. São 36 perguntas que, supostamente, nos fazem apaixonar pela pessoa com quem partilhamos o questionário. Contudo, além disso, podem ainda ser usadas para aprofundar uma relação, recuperar alguma intimidade perdida (que é o caso da participante entrevistada neste episódio) ou - veja-se! - quebrar barreiras culturais, sociais e religiosas. E, ao sentirmo-nos mais próximos de alguém, imaginem o que acontece... oxitocina, como sempre. Estabelecendo relações mais significativas e íntimas, sermos mais felizes torna-se uma consequência natural.

 

5. Imaginar que nunca teríamos conhecido a nossa cara-metade

A um grupo foi pedido que descrevessem a forma como tinham conhecido a sua cara-metade; ao outro foi pedido que imaginassem que nunca a tinham conhecido, por algum acaso (ou desacaso) do destino. Chegou-se à conclusão de que os participantes do segundo grupo se sentiram mais satisfeitos nas suas relações algum tempo depois do estudo do que os do primeiro grupo. Pensar como seria a sua vida sem aquela pessoa especial, investir no exercício de counting their blessings, fê-los valorizar as suas vidas em comum, ganhando alguma objectividade.

 

 ***

 

Terminada a lista, será que alguém vai tentar uma destas práticas para ser mais feliz? Ou será que vai ganhar curiosidade em ouvir o podcast? Por que não tentam ouvi-lo agora nas férias, no carro ou na praia?

 

Só tenho pena que ainda não haja nenhum podcast semelhante em português. Até agora, já ouvi todos os vinte episódios disponíveis, tentei três destas práticas que vos sugeri, mais outras quantas de The Science of Happiness, por isso dá para perceber o quanto admiro este projecto.

 

Fico à espera das vossas opiniões e relatos de possíveis experiências para serem mais felizes. 

O que eu não mudaria em 2017

Que ano turbulento. Costuma-se dizer que, quanto maior é a subida, maior é a queda, mas 2017 foi uma série de escadarias, e rampas, e trampolins, para cima e para baixo.

Felizmente, há muita coisa que eu não mudaria.

 

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Não mudaria ter ido viver para outro condomínio. Poupei imenso dinheiro nesta renda duma unidade mais pequena e nos subúrbios, onde consegui encontrar silêncio, risos de criança no jardim, espaço verde e de lazer com fartura. O condomínio no centro de Banguecoque era glamoroso, tinha uma vista de tirar o fôlego a qualquer um, mas as baratas e o barulho estavam a tirar-me do sério. Além disso, era demasiado grande para uma pessoa só.

 

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Não mudaria o quanto trabalhei este ano - tanto enquanto professora, como também enquanto estudante. Custou, mas teve frutos, deu-me experiência, fiquei com calo, testei-me, recebi palavras de reconhecimento e respeito dos meus alunos, dos meus colegas, da minha chefe, fiquei com uma média quase perfeita no mestrado (apesar de incompleto). Os meus alunos escreveram-me mensagens de carinho, ajudaram-me a melhorar, pediram-me para ficar nas minhas turmas até ao momento em que lhes disse que este foi o meu último semestre. Os meus colegas cumprimentam-me efusivamente nos corredores, raramente sinto más energias na minha direcção, fiz amigos (mais ou menos, vá). A minha chefe reconhece o que faço, incluiu-me até num projecto de extrema importância desde 2016 e que culminará em 2018, quando poderia ter pedido a outra pessoa qualquer com mais experiência para a ajudar. Tudo isto é gratificante.

 

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Não mudaria o que trabalhei em quantidade e intensidade, tendo em vista ganhar mais do que o meu salário base. Consegui rendimentos decentes no final de cada mês, que me permitiram proporcionar férias inesquecíveis à minha família, cada vez que me visitaram, principalmente a minha avó, que esteve cá quase dois meses - as primeiras férias em dezoito anos, desde que eu fui lá para casa para ela me criar! Também pude dar-me a pequenos luxos, como adoptar um gato e comer em bons restaurantes.

 

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Não mudaria nada do que tentei dar à minha família. Ao ajudá-los a ter estas experiências, senti que consegui arranjar uma bela desculpa para os arrancar do ciclo de muitos anos negativos e cheios de sacrifício. Sei que estas visitas à Tailândia, mesmo quando curtas, tiveram resultados muito positivos e lhes trouxeram uma forma renovada de ver a vida. Além disso, o orgulho que sentem por mim irradiou ainda mais quando me visitaram.

 

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Não mudaria o quanto protegi o meu namoro de energias negativas, o quão firmes fomos os dois com esta dinâmica de relação a longa distância, o facto de termos feito tudo encaixar e funcionar até este momento, depois de oito meses sem nos vermos e mais dum ano sem realmente convivermos no mesmo espaço sem interferências do jet lag ou agendas familiares apertadas. Não mudaria o facto de ter investido nesta relação como sendo a única aposta viável para uma vida feliz e como a imagino, e de ter insistido que teria de ser mesmo assim.

 

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Em suma, não mudaria o esforço que investi em continuar a ser optimista. Ser feliz nem sempre é fácil e facilmente nos esquecemos de como estar satisfeitos com o que temos. Estou feliz por ter tido a oportunidade de viver no estrangeiro, estou feliz por me ter desenrascado como pude e quase sempre com sentido de humor e uma certa alegria! Esforcei-me muito para acabar este ano com saldo positivo, estou mesmo feliz por estar a acabar, para que novos desafios possam aparecer.

 

Fica um agradecimento eterno no ar a todos os meus amigos, família, namorado, professores, conhecidos e toda, toda a gente que me trouxe sorrisos e com quem partilhei neuras nestes doze meses.

 

Sob sugestão duma ideia da Cláudia (já não me lembro em que post), penso que a minha palavra para 2017 tenha sido "trabalho", sem me ter apercebido. Para 2018, que palavra escolherei?

Solidão no meio de dez milhões

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Foi em Bangkok que me senti só pela primeira vez. Custa muito admitir que nos sentimos sós, porque é mais fácil estarmos em negação. Quando cheguei ao ponto de o reconhecer, já tinha passado por muitas fases.

 

A primeira fase foi arranjar sempre algum bode expiatório para o descontentamento. No início, não podia ir a casa no Natal. Depois, arranjei uma forma e fui. Dois meses depois, mudei de apartamento, culpando as baratas debaixo da bancada da cozinha que me comiam o jantar, o lixo à saída do condomínio e a má gestão do edifício. No novo condomínio, sentia falta dum animal de estimação. À revelia das regras - ainda que à semelhança da prática de tantos outros vizinhos - arranjei um gato. Depois do gato, veio a minha avó. Por dois meses, senti-me acompanhada, mas sabendo que não iria durar para sempre.

 

Entretanto, a fase de estar triste sem saber porquê. Uma melancolia imensa, um vazio e muita inquietação.

 

Por fim, a consciência de que me sinto... de que me tenho sentido só. Do outro lado da linha, chegam-me palavras cheias de amor, mas essas só se ficam pela metade. É pela falta delas que me sinto assim, é por, como acontece com os fantasmas, as poder ouvir e ver, sem lhes tocar, que me sinto isolada neste mundo que é o mesmo, parecendo uma realidade paralela.

 

Não sei se é assim que todos se sentem quando se mudam para outro país. Espero que não. Talvez eu sinta, por acréscimo, todo o isolamento cultural, geográfico, visual como consequência de estar tão longe.

 

Bangkok é uma cidade com dez milhões de pessoas, mas nunca me senti tão sozinha antes, nem quando vivia num sítio com uns poucos milhares de pessoas.

 

Tenho amigos em Bangkok, mas cada um está na sua vida, cada um vive noutra ponta da cidade. Estar longe da família e daqueles que amamos tem disto. Não há ninguém à nossa espera em casa, raramente há quem se disponha, à última hora, a acompanhar-nos seja onde for. Não há certezas de nada. Não há ninguém que possamos alcançar à distância duma chamada.

 

Mas, se eu precisar dalguma coisa, é só ligar - dizem eles.

Do que eu preciso é de não ter de ligar.

Sim, o dinheiro traz felicidade

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Há poucas sensações tão boas quanto esta: entrar num restaurante, numa loja, ir de férias, com uma pessoa de quem gostamos e poder dizer "escolhe o que quiseres, não olhes para os preços, sou eu que pago".

Quem diz que o dinheiro não traz felicidade é hipócrita. Dinheiro que seja gasto em experiências, para mim, é dinheiro que me faz muito feliz.

Não pretendo ter um salário X para poder esbanjá-lo todo em coisas inúteis, mais porcarias e bugigangas, mas sim para poder mimar-me a mim e aos meus de vez em quando. No futuro a longo prazo, poder ter uma casa onde não falte nada, um carro que não me traga dissabores, férias fora do habitual todos os anos, ter um bom seguro de saúde para toda a minha família, dar à minha avó um resto de vida de papas e descanso, oferecer aos meus hipotéticos filhos uma educação que lhes abra os olhos e as portas para o futuro.

Por agora, é só isto: levar a minha avó e o meu pai ao melhor resort que há numa ilha tailandesa, mesmo que por apenas uma noite, entrar num restaurante e não olhar demasiado para os preços, viajar pelo país, proporcionar-lhes mudanças radicais De cenário, ser eu a pagar, poder partilhar o que tenho - basicamente, ter dinheiro suficiente para não ter de pensar... em dinheiro.

A importância dos bastidores na vida real (ou a questão do mérito invisível)

Gosto de pessoas agradecidas pelo que têm na vida, por isso eu mesma gosto de dar graças pelo que tenho, material e imaterialmente. O Dia de Acção de Graças americano já passou, mas todos os dias são dias de reconhecer que, muitas das vezes, o que nos acontece de bom pode ter tanto de mérito pessoal quanto de mérito colectivo, ainda que não se veja de imediato até que ponto isso acontece.

O que eu quero dizer é que não vim parar a Bangkok só porque sim. Na altura em que fui aceite como estagiária, não tinha verba nem para as viagens, nem para a comida do primeiro mês e muito menos para andar a conhecer a cidade. A minha família aconselhou-me a não desistir e que, se fosse necessário, alguma coisa haveria de surgir até ao último momento para que eu pudesse sustentar-me. Bem dito, bem feito: mesmo antes de ter de comprar as viagens, recebi um prémio simbólico por ser a melhor aluna do meu curso, caído do céu. No entanto, continuava a precisar de mais dinheiro. E a minha família, com enormes sacrifícios que só eles saberão o quão custosos foram, disponibilizou-me o restante.

Quando fui contratada como leitora na universidade onde estava a estagiar, tive de escolher deixar o país para viver a 13 000 km de distância. Antes de mais, eu podia ter escolhido não aceitar o convite, agradecer educadamente e seguir a minha vida. Poderia ter pesado os prós e os contras de deixar a minha família, o meu namorado poderia não ter aceite bem a ideia, podia ter dado ouvidos a alguns dos nossos amigos que acharam que me estava a precipitar, e eu poderia até ter ficado cá a trabalhar com todas essas condicionantes, logo sem qualquer apoio. 

Contudo, depois de mil e uma conversas à distância e presenciais quando estive em Portugal por três semanas, depois de chorarmos e de nos preocuparmos por antecipação com aquilo que poderia vir a suceder, os três núcleos mais importantes da minha vida (família, namorado, amigos) ficaram em paz com a minha decisão. Principalmente, eu fiquei em paz com a minha decisão.

 

No primeiro mês depois de me mudar definitivamente para Bangkok, tive imensos problemas a pagar a renda e o depósito do apartamento, de repente surgiram três milhões de despesas imprevistas ligadas à emssão dum visto e à minha legalização na Tailândia e eu, que já tinha um orçamento curto para os primeiros tempos, entrei em desespero. Felizmente, quem é que mais me ajudou na altura? A minha família. Sem eles, eu teria passado muito mal - ou não tratava dos meus assuntos ou não comia. Foi também um período de adaptação para o meu namorado e houve alturas em que a nossa relação e a nossa amizade foram testadas, por isso tivemos de estabelecer novas maneiras de nos mantermos à distância. Mas, no final do dia, a nossa relação continua saudável, não há discussões nefastas, não há dramas, só muita compreensão. Por outro lado, os meus amigos não se queixaram da minha falta de vontade para conversar e só agora é que começo a dar-lhes atenção outra vez. O que mais poderia eu desejar?

 

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 Faculty of Liberal Arts, King Mongkut's Institute of Technology Ladkrabang

 

Mas por que é que eu senti necessidade de escrever isto?

 

Quando me dão os parabéns pelo que consegui, a maioria das pessoas só vê o que está à frente, que sou eu a ser convidada para trabalhar noutro país a fazer aquilo que tinha estebelecido como meta para a próxima década, só que logo que acabei a licenciatura. Só me vêem a ser leitora numa universidade aos 21 anos.

A maioria não vê que muito do que consegui só se tornou possível por causa do trabalho dos bastidores. Por uma questão de justiça divina, decidi partilhar a minha (a nossa) situação, para que outros se possam sensibilizar quanto à importância das pessoas que nos rodeiam.

Raramente é possível fazermos seja o que for sozinhos, por nossa conta. Se enchermos a nossa vida de gente positiva e que nos faça bem, acabamos por criar uma rede por baixo dos nossos pés, que nos há-de amparar as quedas e fazer-nos saltar mais alto. Se não for a família, que seja a cara-metade. Se não for a cara-metade, que sejam os amigos. Se não forem os amigos, que sejam os colegas de trabalho. Provavelmente, falo de boca cheia, mas falo de boca cheia com muita gratidão e humildade perante a minha condição.

Trabalho todos os dias para provar que mereço o emprego que me deram, tenho sempre tido uma dose de sorte e felizes acasos que me dão uma ajudinha, e calhou-me ter nascido numa família cheia de vontade de me ajudar a concretizar as minhas ambições e ter conhecido os professores, os amigos e o namorado certos ao longo dos anos.

Sinto que quando me elogiam também elogiam, sem saberem, quem está por trás a manter tudo em ordem. Poder partilhar a minha felicidade e os meus feitos com outras pessoas é uma bênção. O "meu" mérito é de muita gente em simultâneo.

 

Espero que também vocês tenham quem vos apoie desta forma e a quem possam agradecer por serem parte da vossa identidade. Rodeiem-se de amor, esqueçam o que é tóxico e acreditem no que são capazes de fazer, tanto quanto quem vos garante que sim, vocês são capazes. Não tenham vergonha de ter falhas nem de pedir ajuda, desde que mais tarde possam pagar na mesma moeda, caso seja necessário. É para isso que as comunidades, desde os mais pequenos núcleos familiares até às sociedades e às nações, existem - para que nos possamos ajudar mutuamente.

Pode parecer que vos estou a encher a cabeça de clichés, que daqui a nada este blogue vira página lamechas, mas não me levem a mal: neste momento, sinto que tenho motivos de sobra para assumir a voz mais pseudo-motivacional de sempre. Não se preocupem, isto passa.

Judite de Sousa no telejornal, ou não

Das memórias que tenho, não me lembro de alguma vez ter gostado particularmente da Judite de Sousa. Compreendo que chegou a uma posição profissional muito favorável na televisão portuguesa, mas não a considero uma jornalista. Considero-a uma apresentadora, e a um nível inferior ao da Júlia Pinheiro ou da Fátima Lopes nos últimos meses.
Desde que lhe faleceu o filho que o profissionalismo da Judite de Sousa tem caído desmesuradamente. De facto, admiro-lhe a força de vontade para se manter activa, apesar da tragédia que lhe aconteceu e que não se deseja a ninguém, mas muitas das suas qualidades profissionais encontram-se (especialmente) desaparecidas desde então, o que não me parece positivo nem para ela, nem para a TVI, nem para os telespectadores.
Depois da morte de um filho, ainda por cima único, é previsível que uma pessoa se sinta em baixo, baixo, baixo. Que a sua imagem se degrade e que a pessoa envelheça. Que perca muita da sua força.
E por isso é que não consigo encontrar nenhuma justificação para a insistência da TVI em manter a Judite de Sousa como pivot do telejornal da noite. Ainda há uns meses fez as capas de imensas revistas por ter sido "internada em estado grave". Em emissão, a voz quebra-se-lhe frequentemente, o seu aspecto físico mostra uma mulher debilitada, o discurso não é fluente. Inclusivamente, ontem, ficou emocionada durante a entrevista que fez a Simone de Oliveira. Aliás, a entrevista depressa se transformou numa sessão de aconselhamento, em que a entrevistadora Judite decidiu perguntar (de forma naaada explícita) à entrevistada Simone de que forma é que sobrevivera e conseguira arranjar motivação para superar os momentos mais duros da sua vida. E ainda colocavam em questão a credibilidade jornalística do telejornal da TVI por causa dos 20 minutos de Ricardo Araújo Pereira??? Pois agora é a minha vez de a desafiar com a hora e meia de Judite de Sousa. Ou será que aquela conversa fiada e mais infeliz não poderia ser guardada para os bastidores? Por que motivo é que os telespectadores são convidados a assistir ao drama alheio? Não chegam as telenovelas?
Por muito tristes que sejam os motivos desta ausência de profissionalismo, há que estabelecer limites. Precisar de trabalhar para superar uma perda de modo menos dramático não implica obrigatoriamente que a pessoa se vá mostrar em plena forma no desempenho das suas funções. Muito pelo contrário. Especialmente porque ocupa uma função que lhe garante muita visibilidade pública, para o bem e para o mal, Judite de Sousa devia ser afastada dos ecrãs durante mais algum tempo. Não digo que tenha de deixar de trabalhar, mas sim que poderia começar a fazê-lo mais atrás das câmaras do que à frente delas. Ah e tal, mas à frente é que ela se sente bem, a fazer aquilo em que é melhor profissional. Então, nesta altura do campeonato, imagine-se o que fará de pior.
Esqueçam os sentimentalismos de blogosfera. Nada de "coitada, morreu-lhe o filho, não lhe podemos tirar a última coisa positiva na sua vida". É do desempenho de uma profissão que estamos a falar.