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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

11/30 (as mulheres dizem)

As mulheres dizem, os homens negam.

As mulheres dizem que têm medo de andar na rua, de dia ou de noite, os homens negam.

As mulheres dizem que os piropos, assobios e comentários despropositados são atentados contra a sua integridade física e a sua segurança, os homens negam.

As mulheres dizem que são vítimas desde pequenas, os homens negam.

As mulheres dizem que não saíram de relações física ou psicologicamente violentas antes, porque não tinham força, apoio ou sequer noção do que lhes estava a acontecer, e não por falta de desconforto, dor ou trauma, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem ameaçadas por mensagens sexuais não solicitadas que recebem na Internet, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem discriminadas no mercado de trabalho, ora porque ganham menos, ora porque não têm acesso facilitado às mesmas carreiras e oportunidades, ora porque colegas e chefes do sexo masculino as oprimem e adoptam comportamentos no mínimo condescendentes, os homens negam.

As mulheres dizem que há expectativas irrealistas sobre a sua imagem, os homens negam.

As mulheres dizem que ainda são educadas, de modo mais ou menos consciente, para serem subservientes, os homens negam.

As mulheres dizem que têm demasiadas pessoas a meter o nariz na sua vida pessoal, amorosa ou sexual, os homens negam.

As mulheres dizem que a maternidade não é um paraíso e que licença de maternidade não é o mesmo que férias, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem assoberbadas pelo trabalho doméstico e pelas responsabilidades familiares e profissionais simultâneas, os homens negam.

As mulheres dizem que não vivem tão livremente quanto deveriam, os homens negam.

As mulheres dizem que a sociedade não as entende e recusa entender, os homens negam.

As mulheres dizem que há enviesamentos, preceitos e preconceitos invisíveis e enraizados na nossa linguagem e forma de estar, os homens negam.

As mulheres dizem que, no século XXI, até na Europa, ainda vivemos num mundo de homens, e os homens... é claro que negam.

 

Agora, continuem vocês... o que têm as mulheres para dizer?

 

***

 

Ontem, os Fazedores de Letras publicaram um texto da minha autoria que termina assim: Quem sou eu, se mais ninguém estiver a olhar para mim?

 

É um ensaio que, partindo duma reflexão sobre como a mulher é retratada na arte, pretende questionar de que formas ainda é condicionada e vista na vida real. O texto integral pode ser lido AQUI e também vos deixo um excerto:

A mulher do século XXI ainda vive num mundo onde prevalece o olhar masculino, exterior e que não lhe permite olhar para o seu reflexo como se este lhe pertencesse exclusivamente. (...) Mas não interessa se somos mais famosas ou meras anónimas: os padrões, expectativas e pressão existem para todas. Padrões de beleza, de inteligência, de maternidade, de sexualidade, de conjugalidade, de envelhecimento; a pressão e as expectativas sobre a forma como desempenhamos a nossa profissão, a forma como aparecemos na vida pública, a forma como aparecemos nas redes sociais.

Política americana no feminino: Dear Madam President (Jennifer Palmieri)

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Há livros que esperamos que nos inspirem e nos informem, deixando um call for action ou um testemunho arrebatador. Este era um desses casos: Dear Madam President: an open letter to the women who will run the world, da autora Jennifer Palmieri, antiga directora de comunicações da campanha eleitoral de Hillary Clinton  à presidência dos EUA e profissional com várias décadas de experiência na Casa Branca. Tinha tantas expectativas para este livro!


No entanto, não estava escrito. É que não estava mesmo. Apesar do testemunho que foi sem dúvida interessante para mim, que nunca pisei solo americano e que sigo a vida política dos Estados Unidos a partir da comunicação social portuguesa, redes sociais e apenas algumas páginas estrangeiras online, sinto que Dear Madam President ficou aquém do que eu esperava. Não é um testemunho muito técnico acerca da candidatura de Hillary Clinton à presidência dos EUA, nem um tratado sobre política americana no feminino, mas sim uma data de memórias desorganizadas acerca desses temas e doutros eventos da vida pessoal e profissional da autora.


A exortação do título Dear Madam President, dirigida a uma hipotética futura presidente - mulher - dos Estados Unidos acaba por funcionar como manobra publicitária, mas não me convenceu, pareceu-me forçada. Ainda assim, retirei algumas lições de perseverança e reflexões acerca da presença feminina num mundo criado, definido e adaptado por e para homens ao longo dos séculos, principalmente que há um paradigma implícito acerca do que se espera dum homem que se candidata a um cargo como o da presidência dos EUA, mas que continua a ser difícil perceber o que esperar duma mulher nesse contexto, por ser novidade, pela biologia diferente, pelo comportamento, forma de estar e reagir. Nota-se uma certa desconfiança. Ainda é esperado que a mulher preencha os mesmos requisitos esperados dum homem, e mais qualquer coisa que inevitavelmente lhe faltará ou que também se espera dela por ser... mulher.

 

Com tanto que eu esperava aprender de alguém que teve um papel central na Sala Oval de mais do que um presidente, concluo que Jennifer Palmieri partilhou o suficiente, mas que poderia partilhar muito mais e com mais coerência e coesão. A escrita é muito corrida, eloquente, fácil de entender sem entediar, mas cem páginas cheias de conselhos generalistas para se ser uma mulher numa posição de poder nunca chegariam para me encher as medidas. Contudo, atenção: quem me dera que todo o livro tivesse sido como foram as últimas vinte páginas! Aí sim, penso que foi atingido um bom equilíbrio entre o que é um livro de memórias, uma reflexão política/social e uma confidência entre alguém com muita experiência e os seus leitores.


Tenho a certeza de que há melhores livros sobre isto, que me ensinem mais, embora este não tenha sido um mau começo. Afinal, cem páginas lêem-se rapidamente. Dear Madam President foi uma leitura agradável, apenas pouco surpreendente ou construtiva.

 

The generations of women before us, who made countless, mostly anonymous, sacrifices in the struggle for equality, paved the way for real change. In spite of the long odds against them, they went after the impossible. It is up to us—the women in America today—to finish the job. It’s a thrilling challenge. Go show us what a woman leading us in this new world looks like. We can’t wait to see.