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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Leitor e escritor, entre a realidade e a ficção: Autobiografia (José Luís Peixoto)

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Este livro deixou-me com sentimentos contraditórios.

 

Há autores que fazem parte da nossa vida; ora porque nos falaram ao coração e criaram aquilo de que precisávamos, ora porque os lemos em fases críticas no desenvolvimento pessoal e ajudaram a moldar os nossos gostos, ora porque nos deram uma espécie de alimento que aprendemos a digerir e sem o qual deixamos de poder viver.

 

Entre os 15 e os 19 anos, houve três escritores portugueses que me arrancaram do Harry Potter, dos Diários da Princesa e dos romances de cordel: Eça, Saramago e José Luís Peixoto. Os primeiros dois foram sugestão da escola e, ao ler o obrigatório, achei que era pouco e li quase tudo o que me passasse pelas mãos, tivesse em casa ou houvesse na biblioteca. O último foi uma surpresa. Folheei um Abraço no Modelo da Quinta do Conde, e depois acho que fiquei tão fascinada que o pedi pelo aniversário seguinte. Foi, de facto, o abraço literário da minha adolescência.  De vez em quando, abro o livro e escolho uma crónica aleatória para ler. Demorei muitos meses até conseguir terminar todas pela primeira vez, aos 15 ou 16 anos não tinha profundidade para absorver tudo duma vez, mas o que li teve um efeito duradouro. Depois disso, vi o JLP num evento da FLUL, fui ao lançamento de Galveias em Lisboa, conheci-o em Banguecoque e fui a um encontro com outro escritor tailandês na Casa Pessoa no Verão passado.

 

Acho que já só me falta ler dois livros de José Luís Peixoto. No entanto, Autobiografia subiu na lista de prioridades quando soube que teria Saramago como personagem. Não poderia perder a oportunidade de saber mais sobre esse Saramago que JLP, que ganhou o Prémio Saramago quando ainda era bastante jovem, conheceu e que escolheu trazer-nos.

 

Não sei como falar de Autobiografia sem vos contar demasiado sobre o enredo. Vou tentar ser breve: é um texto ficcional de carácter biográfico. Ou, se calhar, não é. De autobiografia tem pouco, excepto do ponto de vista das personagens. Mas são personagens ou pessoas reais? Por que não ambas?

 

Autobiografia é um livro cheio de camadas que nos cabe desbravar. O enredo forma-se a partir do entrelaçamento entre a realidade e a ficção, numa metanarrativa acerca do que significa ser-se escritor e leitor (e, mais uma vez, por que não ambos?). Existe um José, existe um (José) Saramago, existe uma Pilar e outras tantas figuras. A conclusão a que chegamos é que não interessa se são retratadas correspondendo à realidade ou se é tudo da cabeça do autor. Em vez disso, basta sabermos que existem neste livro. No início pode ser um pouco dissonante confrontarmo-nos com esta diluição de fronteiras e dicotomias, mas ao cabo de algumas páginas conseguimos finalmente desprender-nos das amarras dessas expectativas.

 

Quanto à escrita... Esta sim, faz-me ter sentimentos contraditórios. Por um lado, José Luís Peixoto consegue - como sempre - descrever o mundo como uma criança que o descobre pela primeira vez, maravilhando-se com as mais ínfimas (e íntimas) tonalidades da vida. É assertivo, inocente e simples com as palavras, e isso é bonito. Ainda assim, fiquei à espera de mais. Muitas expressões soam a lugar-comum da sua obra. O leigo di-las-á batidas. Não há surpresa, dei por mim a querer mais. Talvez não seja do autor, talvez seja de mim, mas confesso que as minhas expectativas eram bastante elevadas.

 

Esta quinta-feira, dia 18 de Julho, vou à apresentação do livro em Lisboa, por isso estou bastante entusiasmada. Tenho bastante curiosidade em saber o que o autor tem para contar sobre a sua própria obra, assim como outros que lá estarão, porque decerto ajudará a compreendê-la ainda melhor.

 

💡Seja como for, os nossos autores favoritos têm sempre um lugar de honra na nossa estante e na nossa formação informal enquanto leitores. Isso ninguém lhes tira! Acho que fazem muito bem em colocar esta Autobiografia na vossa lista de leituras para as férias de Verão.

A vida normal: Eliete (Dulce Maria Cardoso)

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Este ano tem sido óptimo em termos de leituras. Tenho aprendido a ler profundamente (a chamada deep reading), outra vez, com entusiasmo e voracidade. Em parte, isto só é possível graças à sorte de encontrar ou escolher livros que me conseguem chamar a atenção desde o início.


Um deles foi a Eliete, de Dulce Maria Cardoso. Um gosto ligeiramente "maria vai com as outras", mas a verdade é que lhe confirmo todas as virtudes que já outros lhe atribuíram.


A Eliete podia ser uma de nós - há uns anos, daqui a uns anos ou mesmo agora. Outrora foi jovem, teve sonhos, apaixonou-se, cresceu e viveu em sítios por onde também nós já passámos, muitas das personagens da vida dela são as das nossas, tem pensamentos comuns, sofre de males comuns, leva uma vida comum. O título desta Primeira Parte regista: "vida normal".


O primeiro volume da história da Eliete, de Dulce Maria Cardoso, é um daqueles livros criticáveis, por poder ser datado, por ser escrito com uma voz de mulher, por falar bem e mal dos homens, por trazer à literatura portuguesa temas e episódios tão mundanos quanto a instalação duma aplicação de encontros no telemóvel, os emojis, a alienação dos entes queridos pelo nariz enfiado nos telemóveis, os motéis, as ditas crises de meia idade e o golo do Éder.


Por outro lado, a Eliete há-de servir de espelho da mulher madura na segunda década deste milénio. Vejo nele a expressão do que já é corriqueiro no resto da literatura quando exposto do ponto de vista masculino, mas que se lê cada vez mais do ponto de vista feminino, a referir: o sexo, a família, a traição, a perda, a superação, a relação com e entre o corpo e a alma, a transformação.


A ditadura e o 25 de Abril continuam presentes, à semelhança do que li em O Retorno, e fiquei com curiosidade em perceber o que se seguirá depois desta primeira fase do despertar da Eliete.


Penso que não tenho sequer palavras para vos explicar melhor sobre o quanto este livro me agradou. De facto, senti que desde o início não tinha outra alternativa senão continuar a leitura até ao fim, e só comecei a sentir o ritmo de leitura abrandar quando, quase no final, a Eliete se começou a tornar mais previsível.


É provável que já tenham lido a Eliete, ou que seja um dos vossos livros por ler. Se for esse o caso, espero pelas vossas opiniões!

 

Eu, desmancha-prazeres

Acho piada quando as pessoas dizem coisas como “pareces uma princesa” ou “ele é um autêntico príncipe”, em jeito de elogio. É que, empinando factos históricos, os príncipes, princesas, reis e rainhas, até há sensivelmente dois séculos atrás, eram feios que nem cornos, já para não falar das doenças degenerativas de que padeciam, causadas pelo “acasalamento” de familiares próximos, sem sangue novo a correr-lhes nas veias. Sim, está bem, vocês referem-se, como base de comparação, à Cinderela e a essas meninas em vestido comprido e com pé para a valsa que figuram nos contos de fadas, mas, como é evidente, os irmãos Grimm (benditos sejam os seus nomes e que descansem em paz, xisdê) nunca vieram confirmar as personificações das suas princesas pela Disney. Quem nos garante que, depois do final “felizes para sempre”, a Bela Adormecida não acabou por se aborrecer do seu Príncipe, pediu o divórcio e fugiu com um saltimbanco de origem duvidosa mas que até a apreciava bastante, enquanto o ex passou o resto da sua existência a fazer espectáculos em bares diversos sob o nome fictício de Donna Linda, uma drag queen absolutamente concretizada…? E sabemos lá nós se a Branca de Neve não foi encornada e, tal como a Katy Perry, se decidiu fazer forte e ingressar na tropa, onde chegou a ser a primeira mulher a usar a farda, deixando o traste do marido livre para divagações constantes por corpos alheios! À sua maneira, foram realmente "felizes para sempre". Isto é o que se chama “não ligar às aparências”.

O cisne do Hitler*

Era uma vez, (nunca entendi por que colocamos uma vírgula a seguir de tal expressão) um cisne velho, de penas cinzentonas, que nadava num lago ainda mais escuro e sujo, por causa das beatas de cigarro que os adolescentes atiravam para lá quando iam fumar para a floresta. Este cisne chamava-se Jorge, não usava óculos, mas tinha falta de vista, mais ou menos como eu, 'tão a ver? (AH-AH, entenderam a piada?! Ver, hein?! Ver...?! *cotoveladas*), pelo que julgava continuar a viver no jardim do Hitler, de onde havia sido trazido após o fim do império nazi.
E lá continuava ele a nadar em círculos, dia após dia, há mais de uma década, sem reparar nitidamente no raio que o partisse, tentando lembrar-se da amada que nunca tivera, das bicadas que nunca recebera, ignorando que se encontrava sozinho no meio das cinzas de cigarro dissolvidas na água. De vez em quando, falava com o seu amigo pato que, pelo que lhe parecia, jamais lhe dirigiria a palavra, quanto mais dizer-lhe o seu nome - isto porque, apesar de o Jorge não o saber, o "pato" não passava de um pedregulho de duas toneladas a afundar-se no lago.
Os adolescentes que viam o Jorge ao longe, enquanto fumavam nas margens, gritavam-lhe impropérios, chamavam-lhe maricas e perguntavam-se como seria possível ter nascido na Terra uma ave tão hedionda como aquela. Contudo, o cisne velho, cinzento e feio não percebia a língua dos humanos e permanecia absorto na sua iludida, mas feliz, vivência, sonhando com o dia em que Hitler lhe traria um grande naco de pão rijo para comer.
Certo dia, no início dos anos 60, o Jorge teve uma desavença com o seu amigo "pato", visto este continuar a não lhe ligar nenhuma, e morreu com um traumatismo craniano, ao tentar dar-lhe uma valente cabeçada.


*Ou como adiar o estudo de Geografia C.