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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

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29/30 (semear e cuidar)

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Durante os últimos meses, tenho-me apercebido do interesse por plantas que muitas pessoas têm, principalmente quando se mudam para uma nova casa. À minha volta, tal como arranjam gatos, também arranjam plantas.

 

Eu, que também adoptei um gato quando vivia sozinha, e que adoptei uma cadela quando me mudei para esta casa há meio ano com o João, reconhecia-me na primeira parte, mas nunca me tinha passado pela cabeça ter plantas, nem que fosse pela naturalidade com que a minha família cuida do jardim da casa onde cresci. Para mim, as plantas quase apareciam por geração espontânea, e nunca me demorei a pensar nelas.

 

No meu aniversário, no ano passado, a minha amiga Daniela deu-me um vaso. Disse que era para me incentivar a ter plantas, um interesse que ela também havia descoberto algum tempo antes, e que lhe trazia muita alegria. Ela e outras amigas começavam a falar-me de plantas pelos seus nomes pomposos em latim, sabiam quais eram as venenosas para os animais domésticos, e quais eram as esquisitinhas, que morriam ao primeiro descuido. Enquanto isso, eu ia enchendo o meu novo vaso com tralhas várias, tralhas inanimadas, como comida do gato, moedas soltas ou clips perdidos que por algum motivo não cabiam em cima da secretária. Algum tempo depois, outra amiga convertida às hortas urbanas, a Elisa, ofereceu-me um vaso de malaguetas, mas deixei-a no parapeito da cozinha, e até hoje ficou a pertencer à minha avó, acolhido entre ervas aromáticas.

 

Os meses passaram, eu mudei de casa, mudei de distrito, mudei de região, mudei de vida. Ainda por cima, mudei-me para um dos sítios mais floridos onde alguma vez estive. Em Vila Viçosa, há poucos parapeitos sem flores, seja Verão ou Inverno. Todas as casas, caiadas: pintalgadas de todos os tons que se possam imaginar, como numa Primavera perpétua, debaixo de chuva ou de sol.

 

Antes, já tinha lido um texto de Jia Tolentino a discorrer sobre este interesse súbito por plantas, por pessoas da minha geração. Mas acho que fiquei realmente convencida depois de, com os parapeitos dos meus vizinhos no horizonte, ter lido o ensaio "The Rosary", de Alexander Chee.

 

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Após essa leitura, e certamente influenciada pelos canteiros alheios, não demorei muito até comprar uns vasos de flores (cuja espécie desconheço) no Lidl. Custavam 4€, quatro vasos pequenos, e parecim ser daquelas "rafeiras" que aguentam com intempéries e falta de rega. Achei-as capazes de aguentarem a minha potencial negligência, e assim foi. Ao fim de duas semanas, imbuída da confiança de as ver sobreviver e florir ainda mais, comprei um saco de terra e sementes para mais flores doutras espécies, isto é, das que vêm nos saquinhos mais baratos que encontrei.

 

E, dias mais tarde, fui de férias, por isso não semeei nada nessa altura. A minha vizinha, com a qual partilho o meu parapeito, virado para a sua esplanada, cuidou das minhas flores, que acabam por ser um bocadinho "nossas". Voltei e, apesar de ligeiramente queimadas pelo sol, continuam a crescer. Foi mais um desafio que superaram, as fortes.

 

Por isso, lá decidi dar uma oportunidade às tais sementes. Semeei-as na segunda-feira, num impulso, sem vasos mas dentro de canecas decorativas que tinha no escritório. Levei muito tempo a fazê-lo, por achar que não seria uma actividade "produtiva", ou útil, como se semear e cuidar de uma planta, de um animal, ou de uma pessoa não fosse uma tarefa com valor. Lá deixei de pensar em perdas de tempo, porque a maior perda seria não ter parapeitos floridos, que me animem a mim e a quem mais olhar para eles ao passar. Resta-me esperar que germinem. No final, é só isto: a beleza.