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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

gosto #1

(Escrito em Agosto; na altura, esqueci-me de o publicar.)




   Gosto de escrever, falar, comunicar, argumentar, enfim, gosto de me expressar. Gosto do fluir da caneta no papel ou do insistir das teclas que registam cada pensamento como se fosse o último, quando a musa o permite, e de medir o tamanho das minhas ideias pela quantidade de palavras.


   Gosto de barras de chocolate, de cereais de chocolate, bolos de chocolate e gelados de chocolate, principalmente quando comidos à beira-mar ou na companhia dos meus amigos.


   Gosto dos meus amigos e de os ter por perto, gosto de os ver sorrir. Gosto que eles sintam que os quero apoiar e proteger, apesar de nem sempre ser possível. Gosto da minha família de sangue, das minhas famílias emprestadas e dos meus animais de estimação – três cães, dois gatos e uma tartaruga – tal como gosto de ser a prima mais velha e encher os mais novos de mimos, antes que eles cresçam e passem a rejeitá-los.


   Apesar de gostar das férias, também gosto muito do tempo de escola, porque tenho gosto em aprender e em sentir-me motivada e valorizada. Gosto de voleibol, de basquete e de dança, mas vivo bem sem a ginástica ou o futebol.


   Há livros de que gosto mais e outros que dispenso. Gosto de crónicas, blogues, sarcamos, ironias, de pessoas normais que escrevem como génios e de génios que escrevem como pessoas normais. Gosto de José Luís Peixoto, de José Saramago, de Inês Botelho e de Rui Zink. Gosto ainda da J. K. Rowling, da Stephenie Meyer, do C. S. Lewis, do Christopher Moore e da Meg Cabot.


   Gosto da minha maneira de ser e do meu irritante optimismo. Gosto de saber que sou a amiga parva e absurdamente extrovertida que é capaz de fazer figuras no meio de qualquer sítio. Gosto mesmo de as fazer! Gosto de ser criança e de, aos poucos, ir assumindo responsabilidades, direitos e posturas de adulta, tal como de ver o futuro de uma perspectiva risonha, apesar dos tempos difíceis por que estamos a passar.


   Gosto de ter cuidado antes de atravessar a rua, quando desço escadas ou quando me apaixono. Gosto de gostar de alguém, mesmo que não valha a pena por não ser correspondida, porque a lamechice de que sou vítima sempre rende alguns textos. Gosto de me sentir protegida, pelo que é óbvio que gosto de abraços, em grau de preferência consoante o “abraçador”. Acho que também gosto de beijos e beijinhos, principalmente se forem completamente inesperados. E de dar a mão.


   Gosto de palavras ditas com boas intenções, de declarações inesperadas e, por vezes, de surpresas. 

gosto #2

   Gosto do Inverno. Gosto de estar perto do aquecedor e aí permanecer, sem um objectivo em vista, e gosto de não ter as mãos geladas, como sempre acontece seis meses por ano. Gosto de ficar na cama a ler ou a escrever ou, quem sabe, até sem fazer nada. Gosto de estar, somente.

 

   Gosto do céu escuro e enevoado, em tons de cinzento, como se alguém o tivesse sujado com pegadas gigantes, enquanto o observo pela janela. Talvez chova, e eu gosto da chuva que cai a menos de um metro da minha cabeça, no telhado, porque a ouço crepitar e escorrer. Gosto que o meu quarto seja no sótão.

 

   Gosto do tamanho da minha casa que, em comparação à maioria das casas que conheço, até é grande. Gosto de saber que é espaçosa e que, um dia, talvez os meus filhos brinquem onde eu escrevo estas palavras, neste preciso instante, a determinada altura da minha adolescência.

 

    Mas, por agora, gosto de ter a minha idade, os meus sonhos e os meus pseudo-problemas. Até chego a gostar dos dramas desnecessários que, por vezes, crio! Fazem parte do momento… Gosto de não ter preocupações maiores, gosto de imaginar o futuro e, simultaneamente, adorar o presente, mantendo aceso o passado.

 

   Gosto de ter o tempo de que preciso para ser feliz. Gosto de sentir que poucas são as vezes em que não estou satisfeita comigo mesma e que não tenho o que quero. Eu gosto de alcançar aquilo para que luto, eu gosto da sensação de ser recompensada pelo meu esforço e gosto de ser elogiada – afinal, quem não gosta? Gosto de ficar a olhar para um trabalho quando o acabo e de me congratular pela minha persistência, tal como gosto de perder e saber que, mesmo assim, ganhei. Gosto de dizer isso às pessoas e de as incentivar a serem positivas.

 

   Gosto de não ser pessimista, apesar de não me considerar completamente optimista. Gosto, de vez em quando, de não ser realista. Enfim, gosto do ânimo que uma fantasia me consegue trazer.

 

   Sem nenhum motivo específico, porque motivos não me faltam, gosto de me orgulhar de mim própria, da minha família e dos meus amigos. E gosto de não ser sempre orgulhosa! Mas também gosto dos meus momentos de egocentrismo, porque eles fazem bem ao ego! (E gosto da elasticidade do meu, que passa a vida a esticar e a encolher, conforme as exigências exteriores.)

 

   Gosto do meu blogue e dos comentários que me enviam. Gosto de escrever, sabendo que alguém lerá e apreciará o que faço. Ao final de um qualquer dia, mais ou menos satisfatório, gosto de verificar o meu contador de visitas e saber que X pessoas passaram um segundo da sua vida que fosse a olhar para o cabeçalho – “procrastinar também é viver”. Estariam elas próprias a procrastinar?

 

   E, como é óbvio, gosto muito de pessoas. Poderia dizer que as adoro, mas não é esse o título. Gosto de as observar, de as perscrutar e de as conhecer. Depois, gosto de saber no que pensam e o que esperam da vida. Jamais deixarei de gostar de pessoas. É delas que gosto mais, acima de tudo.

não gosto!

Inspirado na crónica com o mesmo nome de Margarida Rebelo Pinto




   Não gosto! Não gosto de acordar antes das oito, não gosto de me deitar antes das onze, não gosto quando não tenho margem de tempo para ficar a pensar e a repensar em inúmeros pensamentos estapafúrdios antes de adormecer, porque tenho de me levantar cedo na manhã seguinte. Não gosto que me venham acordar à cama, mesmo com sussurros carinhosos e suaves (avó) e ainda gosto menos que me tentem arrancar de lá  antes das nove, aos fins-de-semana, contra a minha vontade.


   Não gosto de sentir que não tenho motivação para escrever, nem que me chantageiem emocionalmente para ler o que escrevo – se eu quiser, mostro-o de imediato, de livre vontade; se não quiser, se eu própria não vos passar o papel/computador para a mão, mais vale nem se atreverem a pedir.


   Não gosto de dormir com peluches e não me lembro de alguma vez ter gostado. Não gosto de sentir o pó que largam, uma vez que sou alérgica (limpezas também não são comigo, apesar de gostar de arrumações), e também não gosto da sua textura contra o meu corpo, mãos, cara.


   Não gosto de discussões, sejam elas familiares, entre amigos, com amigos, nos livros, nas séries ou nos filmes, na casa dos vizinhos ou comigo mesma. Não gosto quando as pessoas com quem me relaciono não sabem resolver os (nossos ou seus) problemas através da comunicação verbal, preferindo calar-se e absorver tudo, até que, um dia, rebentam, nem quando me culpam pelo que tenho a certeza não ser culpa minha. Não gosto quando não me sinto valorizada pelos que me são próximos e pelo que faço por eles, não gosto de chegar à conclusão de que dou mais do que recebo.


   Não gosto de praia sem dar um mergulho, de Junhos chuvosos, Fevereiros de bater o dente ou vésperas de Natal sem abrir os presentes até duas horas depois do jantar (meia-noite é para os fortes, eu sou fraca  e a curiosidade é mais que muita).


   Não gosto das sombras dos olhos que saltam para as pestanas sem aderir à pálpebra, não gosto do lápis preto que não se aguenta no olho durante mais de cinco minutos. Não gosto de glosses com textura peganhenta que me prendem os cabelos aos lábios em dias de maior ventania. Não gosto dos vernizes que saem das unhas menos de quarenta e oito horas após a aplicação.


   Não gosto de não ser levada a sério, não gosto que pensem que não tenho maturidade suficiente (mesmo que eu saiba que não a tenho), não gosto que façam jogos psicológicos comigo, não gosto que me enganem, não gosto que me preguem partidas (na verdade, DETESTO), não gosto que me deixem pendurada numa conversa na Internet, sem me darem uma justificação, um “até já” ou que demorem três vidas a responder porque estavam a fazer outra coisa qualquer.


   Não gosto de finais não felizes na ficção, excepto quando devidamente fundamentados, porque me habituei aos clássicos infantis, em que as princesas e os príncipes acabam “felizes para sempre” e porque, para tristezas, já nos chega a realidade, muitas das vezes.


   Não gosto de procrastinar, apesar de o fazer imenso, ao ponto de ter incluído essa palavra no título do meu blogue, não gosto de ter daqueles momentos iluminados em que me apercebo que passo mais tempo no computador ou a olhar para o infinito do que a ler, escrever, passear os cães ou estar com a família.


   Não gosto de dizer “gosto muito de ti”, “adoro-te” ou “amo-te” sem que mo respondam de volta, seja de que maneira for, tal como também não gosto de me sentir emocionalmente presa a alguém ou de me sentir sozinha, quando, na verdade, tenho óptimos amigos do meu lado (figurativamente, como é óbvio, pois seria uma seca andar com todos eles atrás de mim durante a minha vida quotidiana).


   Não gosto de bloqueios criativos, não gosto de fazer o que não gosto, não gosto de ter má nota a Filosofia quando, no final de contas, até aprecio bastante a matéria, não gosto de professores que não representam exemplo nenhum para os alunos, não gosto de alunos que não sabem ser alunos, não gosto de colegas que de colegas não têm nada, mas, acima de tudo, não gosto de nadas que se acham grandes tudos.