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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

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Publicar o Nobel português não é para meninos

A Leya (e, por conseguinte, a Editorial Caminho) vai deixar de publicar as obras de José Saramago. Uma triste notícia, mas espero que, quem quer que venha a comprometer-se a publicá-las, lhes dê o devido valor. Estamos a falar do Nobel português! Ou só gostam é de pontapé na bola e Carnaval em Ovar?

 

Diz assim o artigo:

«O administrador da fundação [Saramago] diz que a instituição está a fazer “diligências no sentido de encontrar uma editora que sirva a Saramago e a quem Saramago sirva”, “uma editora ao nível da grandeza do homem e da obra”.»

 

É uma vergonha uma das maiores editoras em Portugal ter terminado o contrato de publicação de um dos grande vultos (ou vulto) da sua literatura contemporânea. E nem me digam que o problema é não ser rentável, porque é óbvio que tinham ali uma grande fonte segura de rendimento! É só o que tenho a dizer. Que desgostos, este Portugal e estes portugueses...

Dos outros #37

"Diz-se que o tempo não pára, que nada lhe detém a incessante caminhada, é por estas mesmas e sempre repetidas palavras que se vai dizendo, e contudo não falta por aí quem se impaciente com a lentidão, vinte e quatro horas para fazer um dia, imagine-se, e chegando ao fim dele descobre-se que não valeu a pena, no dia seguinte torna a ser assim, mais valia que saltássemos por cima das semanas inúteis para vivermos uma só hora plena, um fulgurante minuto, se pode o fulgor durar tanto."

 

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis

Dos outros #35

"De repente, Fernando Pessoa abriu os olhos, sorriu, Imagine você que sonhei que estava vivo, Terá sido ilusão sua, Claro que foi ilusão, como todo o sonho, mas o que é interessante não é um morto sonhar que está vivo, afinal ele conheceu a vida, deve saber do que sonha, interessante é um vivo sonhar que está morto, ele que não sabe o que é a morte, Não tarda muito que você me diga que morte e vida é tudo um, Exactamente, meu caro Reis, vida e morte é tudo um, Você já disse hoje três coisas diferentes, que não há morte, que há morte, agora diz-me que morte e vida são o mesmo, Não tinha outra maneira de resolver a contradição que as duas primeiras afirmações representavam [...]."

 

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis

Eu, tu e o Saramago

Ontem, a tarde foi assim...

 

Começámos com os deliciosos gelados da Satini do Chiado (laranja e cenoura para a Carolina, chocolate e brigadeiro para mim - porque apenas um tipo de chocolate é para fracos)...
... e depois fomos ver a Sé.
Entretanto, perdemo-nos e, ao fim de muitas voltas, um Google Maps do smartphone e uma paragem para perguntar o caminho, conseguimos dar com as traseiras da fundação (não antes de já lá termos estado, mas sem nos apercebermos do que se tratava)! *Atentem na minha cara de rainha de beleza.*
Afinal, a Casa dos Bicos fica a poucos metros da estação de metro do Terreiro do Paço, quase à beira-rio.
Esta era uma saída já prometida desde há umas semanas atrás. Tanto eu como a Carolina somos leitoras ávidas e sempre à procura de mais bagagem literária e cultural, pelo que não poderíamos descansar enquanto não visitássemos a Fundação José Saramago - eu, por gostar muito da obra do senhor e do que ela representa na literatura portuguesa (e, porque não?, mundial), e ela, pela curiosidade e por querer obter algum incentivo para se aventurar por páginas saramaguianas.
A exposição preenche apenas o primeiro andar, mas chega bem pelo conteúdo. Mal lá entrei, pensei de imediato "pronto, lá vou eu ter que voltar para ver tudo outra vez". E com todo o gosto! Há demasiado para ler, para prestar atenção, esmiuçalhazinhas que não o são, porque fazem parte do percurso pessoal e profissional do Saramago, e que a mim muito me agradam enquanto sua admiradora. Portanto, são imperdíveis. São as centenas de capas das várias edições, nacionais e esrangeiras, dos diversos livros, são os cadernos e caderninhos de apontamentos, as agendas, as distinções, as fotografias, os manuscritos ainda batidos à máquina ou já digitados a computador, todos eles com anotações feitas à mão, o material de investigação para cada história, a correspondência e os e-mails com amigos e colegas, a recriação do seu escritório - são as provas de que esta pessoa, José Saramago, viveu neste mundo, escreveu o que escreveu e merece ter alcançado a glória almejada por qualquer profissional ou artista; são pessoas como ele que inspiram outras e que são capazes de mover "vontades" alheias (sei lá, como a minha!). Apesar de a exposição estar orientada para quem conheça minimamente os seus livros, qualquer um com o mínimo de interesse acerca do assunto há-de conseguir disfrutar igualmente da visita.
Dito isto, tenho meeeeeeeeeesmo que lá voltar sozinha para me poder perder sem arrastar ninguém na onda, digamos assim. No final, só fiquei um bocado revoltada por as edições estrangeiras dos livros do Saramago serem vendidas a um preço bem mais acessível (chegava a ser apenas metade!) do que as edições portuguesas. Compreendo que, tratando-se de maiores tiragens, essa edições ficam mais rentáveis, mas... até na própria Fundação Saramago, no centro de Lisboa???! Porquê? Os portugueses são assim tão ricos que possam gastar vinte e tal euros de uma assentada para poderem ter acesso à sua cultura?
Mas não nos alarguemos mais em devaneios reservados para outras ocasiões.
O que interessa é que os 2€ do bilhete de estudante valem totalmente a pena, ainda se dá um passeio engraçado antes e/ou depois da visita e assim se passa uma tarde engraçada e cheia de sol, em boa companhia (falo por mim, escolham bem a vossa!). Recomendável para quem não quer gastar muito dinheiro sem deixar de se divertir e de (re)conhecer Lisboa. Não se esqueçam de levar uma garrafa de água o mais fresca possível e um lanche leve mas nutritivo (preferencialmente, numa mochila) e pronto, ei-vos preparados!

3 anos sem Saramago

É verdade. Assim, num ápice, já contamos três anos desde a morte do nosso Nobel português, José Saramago, que nos deixou a 18 de Junho de 2010. Connosco, permaneceu a sua criatividade e o empenho que colocou em toda a sua obra, a sua devoção à língua portuguesa como poucos escritores ainda a têm. Jamais se publicará uma obra nova da autoria de José Saramago, jamais faremos fila na Feira do Livro para lhe pedirmos um autógrafo (eu fiz duas vezes... e, incredulamente, não era assim tão grande quanto a imaginaríamos). Jamais este "nosso" Saramago escreverá uma linha que nos ajude a entender o verdadeiro valor do património linguístico que temos e o seu alcance. Jamais Saramago escreverá uma linha que nos faça visitar outras épocas e realidades, do modo como só ele sabia contar histórias. E isso é que é triste.

 

Já lá vão três anos.

 

 

 

 

dos outros #24

"Aprendemos das lições da vida que de pouco nos poderá servir uma democracia política, por mais equilibrada que pareça apresentar-se nas suas estruturas internas e no seu funcionamento institucional, se não tiver sido constituída como raiz de uma efectiva e concreta democracia económica e de uma não menos concreto e efectiva democracia cultural."

José Saramago, O Caderno

Beatriz ♥ Saramago

Memorial do ConventoDas pessoas que conheço, sou uma das excepções que adorou ler o Memorial do Convento. Para mim, foi a oportunidade de conhecer, finalmente, a escrita de Saramago, que tanto via defendida na minha família, mas que eu teimava em adiar para quando tivesse mais maturidade. Tenho dois livros autografados (As Pequenas Memórias, que já estou a terminar, e ainda outro, de que não recordo o nome, sendo o meu pai que o tem), mais uns quantos que fui adquirindo, esperando, um dia, ser capaz de valorizar tais obras. Portanto, foi a partir do Memorial que descobri Saramago e passei a adorá-lo. Desde a construção frásica, tão sui generis, até à narrativa das peripécias das personagens, passando pela caracterização destas últimas, o simbolismo inerente a tudo e a nada, a forma de criticar, tão subtilmente, a sociedade do século XVIII, fizeram-me render totalmente. Apesar de nenhum leitor, em princípio, se conseguir relacionar directamente com os protagonistas, Blimunda e Baltasar, é quase impossível não nos sentirmos atraídos pelo seu bom coração e pelo amor que nutrem um pelo outro. É impossível não nos rirmos de D. João V e da sua corte, não torcermos pelo padre Bartolomeu Lourenço, não simpatizarmos com o "Escarlate" e não termos pena da Infanta Maria Bárbara. Sumariamente, foi impossível não me crescer intensa e abruptamente uma vontade incontrolável de continuar a desbravar a bibliografia de Saramago.