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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Escrever, pôr tudo cá fora: Bullet Journal, journalling, to-do lists e outros estrangeirismos de caneta no papel

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Tenho blocos de notas e ideias desde o primeiro ou segundo ano da faculdade. Ao longo dos anos, fui escrevendo maioritariamente listas de tarefas, pensamentos súbitos, algo de importante que me dissessem, partes de livros que achasse conterem ensinamentos para a vida (a certo ponto, tive a sensação de que teria de copiar todo The Four Loves de C. S. Lewis...). A Inês também desde cedo percebeu o quanto eu comecei a gostar de blocos e bloquinhos, então num Natal ofereceu-me um bloco com uma encadernação tão amorosa que ainda hoje se encontra em branco (tenho pena de o conspurcar com a mundanidade da minha caligrafia desnivelada) e, o que despoletou uma nova mania nos hábitos de escrita, uma caneta Sheaffer que me acompanhou durante dois anos até ter ficado sem tinta e eu me ter conformado à preguiça e esquecimento de comprar uma nova recarga (nota mental: fazê-lo hoje, por fim).


No entanto, perdi um pouco desse hábito quando comecei a viver sozinha e ao mudar-me para o outro lado do mundo. As rotinas ficaram todas trocadas, graças a esse maravilhoso fenómeno de brincar aos adultos e tentar perceber as regras do jogo. Comecei a escrever cada vez menos, até no blog, e a perder pensamentos pelo caminho, sem os anotar e organizar. Não me saía nada, não tinha sequer concentração, apesar de continuar a comprar cadernos, blocos e canetas de forma praticamente compulsiva. Ainda me pergunto de vez em quando se não terá sido essa uma das falhas logísticas que contribuíram para o meu mal-estar. Quem sabe?! No final de 2017, antes de regressar a Portugal, recomecei a escrever, mas em poucos meses essa vontade readquirida voltou a extinguir-se quando a materialização de pensamentos no papel insistia em relembrar-me o quão triste algumas coisas me deixavam e eu preferia não lidar com elas.


Assim, passadas essas fases em que o papel e canetas ficaram arrumados, foi no final de 2018 que recomecei a escrever mais consistentemente à mão e a ter sempre um bloco ou caderno por perto, por influência da ideia do Bullet Journal, o qual conheci através do livro homónimo sobre o sistema.


Apesar de não ter adoptado à risca o sistema original de Bullet Journal, comecei a criar as minhas próprias "colecções" ou secções temáticas. Em primeiro lugar, voltei a escrever e a vigiar listas de tarefas, objectivos e eventos. Três meses mais tarde, também tenho criado repositórios de ideias para projectos pessoais, para o blog e, a pouco e pouco, tento cultivar o hábito de escrever em forma de diário, o que hoje chamam journalling, cujas técnicas mais criativas ainda estou para aprender.


Diz que faz bem à cabeça registar por escrito o que só causa ruído e ocupa espaço desnecessário na memória de trabalho. Diz que faz bem ao coração para diminuir a ansiedade, ganhar distância e, consequentemente, objectividade. Por exemplo, foi-me recomendado pela psicóloga que me começou a seguir fazer listas e mais listas e também um "mapa de emoções", onde registe e me confronte com o que precisa de ser destrinçado, para analisar comportamentos, pensamentos, sentimentos e procurar-lhes padrões e novidades.


É como nas sopas que a minha avó faz: vai tudo lá para dentro, sem receita, é o que houver na altura, o que estiver à mão. Assim escrevo eu no bloco actual. O que interessa é fazê-lo. 

 

***

 

Nota: ao escrever este texto, comecei a procurar outros que ilustram as situações referidas, e é incrível relembrar a longevidade deste blog, o que me levou tão longe quanto 2012 nas minhas recordações, quando parece que escrevi tudo anteontem. Um cliché blogosférico, é o que vos digo!