Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procura de identidade, propósito e pertença: Normal People (Sally Rooney)

LRM_EXPORT_11601660460937_20190813_224228010.jpeg

 

Embirro com modas, por isso não acredito logo nos grandes êxitos de vendas e de Goodreads. Costumo fazer um finca-pé insistente e certamente irracional no que toca aos bestsellers. Como refinada snob, orgulho-me de não acreditar nem à segunda, nem à terceira, às vezes nunca. Ainda por cima, tenho evitado ficção nos últimos tempos, porque simplesmente me sinto incapaz de pôr o nariz na vida doutras personagens, já tendo o suficiente no meu prato. No entanto, apesar da hesitação, mais cedo ou mais tarde dou o braço a torcer, principalmente quando pessoas em cujos gostos eu confio começam a falar muito bem dos ditos.

 

Aconteceu com Normal People, de Sally Rooney. Já andava com vontade de o ler, mas a procrastinação da leitura preliminar continuou, e continuou, e continuou. Até que a Rita falou bem dele no nosso último encontro Uma Dúzia de Livros, desmanchando todas as minhas muralhas anti-êxito de vendas. Pronto, está bem, dois dias depois já o tinha na mão, acabei de o ler em menos de 24 horas... Foi um deslumbramento imediato, uma urgência sôfrega, nem tive tempo de me aperceber o que tinha acontecido. Foi um fartote de chapadas e montanhas-russas, apenas comparável ao meu romance pirosão favorito One Day, e mesmo ao amigo de faca e alguidar, Love, Rosie. Ao longo dos anos, já tenho escrito sobre o primeiro e digo-vos: este Normal People é ainda melhor.

 

Porque não é só lamechice. Não é só sobre o desencontro de protagonistas antagónicos durante vários anos. É tanto, mas tanto mais do que uma história superficial sobre dois jovens adultos. Na verdade, mais do que isso, é uma história sobre assimetrias sociais, sobre as relações entre pares, entre famílias e entre a família, a procura de um propósito na vida, a procura da pertença e um lugar no mundo, a transição para a idade adulta e, enfim, é sobre o que significa (querer-se) ser normal. É sobre como a relação que temos com outras pessoas molda quem somos e em quem nos tornamos, para onde vamos, aquilo de que gostamos. Este livro pôs-me a pensar sobre todas essas variantes, condicionantes e temáticas na minha própria história pessoal e das pessoas que me rodeiam. Assim, sem dúvida que vale a pena ler ficção. 

 

Dito isto, o design do livro e a estrutura do romance podem fazê-lo parecer o corriqueiro young adult, mas não se deixem enganar pelas aparências. Tive de pousar o livro várias vezes, de tão incomodada que me sentia, debatendo-me simultaneamente com a vontade de ler mais um página, e outra, e outra. Não querendo brincar com as vossas expectativas, espero mesmo que gostem de ler Normal People, pelo menos metade daquilo que eu gostei. A autora Sally Rooney rendeu-me, fico a aguardar pela série, e em breve darei uma chance a Conversations with Friends.

Os meus amigos conduzem

Os meus amigos conduzem... carros. Viaturas de categoria B, com volante, mudanças, cinco ou sete lugares, tejadilho, porta-bagagens, motor a gasolina ou a gasóleo. Os meus amigos já não andam só de bicicleta, nem de transportes públicos, nem de triciclo. Os meus amigos, da minha idade, já têm carta de condução, mas isso é o menos. Eles conduzem, eles praticam a acção de conduzir além das aulas práticas, eles estacionam o carro à frente da minha casa e dão boleia a quem precisar. Os meus amigos perguntam-me se eu preciso que me levem a algum sítio, mesmo aqueles meus amigos que demoraram três vidas a tirar a carta até os pais lhes pagarem o resto do código e que andam a estudar sinais de trânsito desde o 11º ano.

Isto é tudo muito estranho e ainda me estou a habituar à ideia de que já tenho idade por aí a andar na estrada, como os grandes modelos adultos da minha vida, a minha avó e o meu pai. Na minha cabeça, só os "pais" é que têm carro e carta de condução, só eles podem conduzir.

Eh pá, eu que me livre de não ser a próxima a tirar a carta! Hei-de arranjar a massa para isso, hei-de conseguir, hei-de bulir até marar os miolos!

Votem na Ciclovia da ULisboa!

 

Amigos, 'bora votar no Orçamento Participativo de Lisboa!
Enviem SMS gratuita com o texto "189" para o número 4310, para votarem na construção de novas ciclovias a ligar as faculdades da Universidade de Lisboa (ULisboa).

Para alguns de vós esta alteração não mudará as vossas vidas, não fará qualquer diferença (por acaso, na minha também não, que me desloco de transportes públicos), mas decerto será uma oportunidade a aproveitar por muitos outros colegas, um sinal de que é possível melhorar a qualidade de vida na capital.


Já sabem: "189" para o número 4310, totalmente grátis! Mesmo que não sejam de Lisboa, apoiem a causa. Os alunos da ULisboa agradecem! :)

Os primeiros amores

Dois dos meninos do projecto em que trabalho como monitora, com onze ou doze anos, começaram a namorar depois de andarem a enviar recadinhos por mim, isto tudo entre a semana passada e a presente. São os dois estupidamente fofos, gorduchinhos e simpáticos, sempre com um sorriso pateta no rosto e um abraço para partilhar, mesmo não sendo eu a monitora do grupo deles. Ele até diz que vai oferecer uma toalha de praia com um tigre à sua nova namoradinha (e que não se pode esquecer de pedir 10€ à mãe!).

 

Hoje, o menino não foi e a menina ficou triste. Tentei consolá-la.

 

- Hoje ele não veio, mas foi só um dia. Se calhar está doente ou algo do género.

- Se calhar...

- Sabes, eu também não vejo o meu namorado desde segunda-feira, mas não deixo de gostar dele. Simplesmente não calhou estarmos juntos.

 

Nesse momento, a menina arregala-me os olhos e olha-me com aquele ar de "epá, esta tipa é louca, como é que ela fica três dias sem ver o namorado? como é que essa cena funciona?".

 

Enfim, os primeiros amores comovem-me.

Foi bom enquanto durou

Ontem, fui dispensada do meu trabalho. Não digo que fui "despedida" do meu "emprego" porque, à semelhança de tanta gente por todo o país, o meu estatuto era apenas de "prestadora de serviços", paga a recibos verdes, sem qualquer benefício fiscal (antes pelo contrário, com 25% de descontos para o IRS sobre o dinheiro ganho, além de a maioria das pessoas ter também de descontar para a Segurança Social, de que me escapei devido a ter menos de 25 anos e nunca ter trabalhado).

Recebi a notícia da dispensa, em primeiro lugar, com alívio, por não ter sido eu a ceder à pressão e ter aguentado o máximo de tempo possível na empresa. Não desisti enquanto me foi permitido trabalhar. Chamem-me fraquinha e mal-habituada, por só fazer nove horas semanais e já me queixar, mas só eu sei como ando saturada desta rotina e como, frequentemente, a cabeça me falha - os meus reflexos são menores, a minha disposição anda pela rua da amargura e a minha capacidade de memorização já conheceu melhores dias. Estas são apenas algumas das falhas de que me recordo de imediato, causadas pelo stress e pelo cansaço (soo lamechas, mas é a mais pura das verdades!).

No entanto, aos poucos, acho que fui interiorizando a ideia principal: não há mais cento e poucos euros por mês para ajudar a pagar as despesas da faculdade, nem cartão multibanco à mão, mesmo que para imprevistos. Não há mais independência financeira, por muito reduzida e limitada que a minha fosse. Vai voltar a ser o papá a dar o dinheiro para os lanches e almoços. E é bom que também comece seriamente a pensar em ajudar com as propinas e os transportes, porque o dinheiro que consegui juntar ao trabalhar no Verão e em part-time durante o último mês não é elástico (infelizmeeeeeeeeeeeeeeente!). Vai ser mais uma preocupação para mim e para a minha família.

Eu já sabia que, mais dia, menos dia, teria de ir embora. Estava a trabalhar apenas as tais nove horas semanais e devia ser a mais nova da empresa (logo, sem encargos ou outra experiência profissional). E muito tempo lá fiquei eu! Colegas meus bem mais velhos foram sendo dispensados ao longo dos últimos quase três meses em que me fui safando. A cada nova base de dados de contactos, havia sempre alguém que não podia ficar. Quando se trabalha com um contrato que pode ser cessado em qualquer altura, corremos o risco de poder ser desintegrados da equipa do pé para a mão. As condições de trabalho em Portugal já são precárias e instáveis, quanto mais para os chamados "trabalhadores independentes" ou "prestadores de serviços". Aceitar um posto de trabalho temporário é isto: imprevisibilidade. Um dos meus supervisores garantiu-me que poderiam chamar-me em qualquer altura, caso surgisse outra campanha uma vez que já tenho formação, mas não acalento nenhuma expectativa.

De qualquer modo, não deixei de ficar abalada. Por muito exausta que me sentisse, andava moderadamente motivada. Trabalhava e estudava. Podia não ter toda a disponibilidade de mundo para me distrair, mas sabia que conseguia equilibrar as minhas obrigações e cumprir o meu objectivo.

Agora, recuperei as minhas manhãs e a minha segunda-feira sem aulas. É estranho, devo admitir. Acostumei-me tanto a levantar-me sempre cedo e a ter pouco tempo para estudar ou até "para me coçar" (como diz a minha avó e uma amiga) que já não me é natural pensar que "não há pressa". 

No final, nem pensando na preocupação por ainda não saber se me atribuirão uma bolsa de estudo que me ajude a cobrir o custo das propinas, o único problema resultante de já não trabalhar é... ter perdido qualquer justificação para não ter boas notas.

De hoje em diante, tenho de dar o meu melhor, sem desculpas.

Não me permitirei ser preguiçosa nem procrastinadora (a tentação é muita), nem "deixar andar".

Vou aproveitar e voltar a escrever com mais frequência.

Vou aproveitar e criar um novo projecto pessoal, com novas metas estabelecidas.

Não há melhor oportunidade do que esta para aprender a gerir o meu tempo... pois não?

Espero que mas é que este tenha sido um mal que veio por bem!

A vida é injusta

Com tanta gente a fumar compulsivamente e a viver grandes noitadas cheias de farra bem "regadas", continuando a ter um cabelo lindo, brilhante, resplandecente, esvoaçante ao vento, e uma pele de estrela de Hollywood, tinha de ser eu a andar em dieta de comidinha feita pela avó e um litro de água por dia a ter a guedelha toda esquisitóide, ora no ar, ora oleosa, ora seca, uma guedelha quadripolar que só ela, a combinar com a pele púbere que me dá dores de cabeça desde os nove anos. É caso para dizer: fónix.

Velhos... estamos a ficar velhos!

Aqui me encontram a ter pensamentos de velha. É que nem a minha avó - setenta e um anos em cima daqueles ossos e músculos imparáveis - deve dar por si a tê-los. Como a sua neta. Agora. E durante os últimos dias. Ora fui eu que fiz dezoito anos há umas semanas, ora amanhã é a minha melhor amiga (aquela!, a que conheci no meu primeiro dia na pré-primária), ora é a outra que já vai para o segundo ano da faculdade, e o outro que fez vinte anos na segunda-feira, mais o meu namorado, ainda ontem... Como é que, parecendo tão de repente, chegámos onde chegámos e inaugurámos esses abstractos e enormes conceitos de "futuro" e "projecto de vida"?

 

Porém, a questão principal é esta: a partir de que idade é que ultrapassamos o limite máximo da infância e passamos à idade adulta? Com dezoito, dezanove e vinte anos, continuo a ver-me a mim e aos meus amigos como criancinhas tardias, miúdos e miúdas com vários direitos que ainda lhes são estranhos, assumindo responsabilidades de gente grande, responsabilidades para a vida, mas que continuam a fazer caretas uns para os outros, a berrar no meio da rua, a borrar a cara com gelado, a organizar festas de pijama e a não querer comer os legumes e a sopa. Estamos naquela fase em que, embora já não brinquemos com bonecos, ainda temos vontade de (voltar a) permanecer na ignorância acerca de determinados factos da vida e da sociedade e de continuar a depender do papá e da mamã para isto e para aquilo. Desconhecemos a nossa própria condição.

Este é o momento em que me sinto questionar cada vez com mais persistência o que se seguirá depois do "agora". Calculo que não seja a única. Penso que, no geral, havemos todos de passar por certas ocasiões decisivas para os nossos percursos pessoais em que qualquer alternativa por que possamos optar nos pareça susceptível de ser "a tal". Queremos seguir em frente e descobrir o que aí vem, desejando simultaneamente arranjar tempo para poder tentar e errar e voltar a tentar qualquer uma das opções que se nos apresentem.

É como se voltássemos àquelas reuniões de família aborrecidíssimas em que nos isolávamos por não nos identificarmos com ninguém - nem com os nossos primos mais novos, nem com os nossos pais, tios e avós. Se nos identificarmos, sequer, com as nossas pessoas, já vamos com sorte! Aí é que deve residir a resposta às minhas questões: seremos sempre crianças ou adultos, ou um misto dos dois, enquanto quisermos e quando melhor nos aprouver. No imediato, não encontro outra possibilidade...

"Monstros e Companhia" - depois da infância

Quando a minha amiga Cassandra me disse que haverá um filme dos Monstros na universidade, a primeira coisa que lhe perguntei foi se envolveria muitas miúdas nuas, bebidas e farras à mistura. Ela fez questão de me relembrar que se tratam de desenhos animados para crianças, mas não me impediu de imaginar que a sequela poderia ter como público-alvo os putos que viram o episódio anterior há uns anos e que, entretanto, cresceram. Sei lá, acho que até tenho alguma veia de produtora cinematográfica...