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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Porque escrevemos?

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Porque escrevemos? De onde surge esta necessidade de traduzir pensamentos efémeros em letras, palavras, textos que acabam registados no papel (ou num ficheiro digital)?

 

Na próxima terça-feira, dia 29 de Setembro, às 21:00, vou mediar uma discussão com o tema "Porque escrevemos?" (cliquem para mais informações)

Por exemplo, José Luís Peixoto diz que escreve para tentar encontrar sentido no caos. João Tordo escreve para compreender os outros e para se compreender a si mesmo. Joan Didion explica no seu artigo "Why I Write" que precisava de escrever para descobrir os seus pensamentos - afinal, se alguma vez tivesse tido acesso à sua própria mente, não teria sentido falta da escrita.

E da vossa parte, o que responderiam?


Nesta discussão mediada por mim, iremos partilhar as razões pelas quais escrevemos. Assim, relembraremos o que nos motiva a voltar a pegar no caderno ou a abrir o processador de texto, o efeito que a escrita tem nas nossas vidas e como podemos aprender e viver tanto através dela.

 

 Se se quiserem juntar, enviem-me o vosso e-mail para olaescritacriativaportugal@gmail.com. Até lá!

Como ler um livro - manual de utilizador

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É essencial fazer as perguntas certas, mesmo quando as achamos demasiado fáceis. Aliás, são essas as perguntas mais importantes, que frequentemente deixamos de fazer por comodismo, inércia ou habituação. Então, hoje abri um novo livro no qual quero mergulhar nos próximos dias e, pela primeira vez em muito tempo, questionei-me agitada: afinal, como é que se lê um livro?

 

Um livro parece ser um objecto com o qual todos lidamos de forma intuitiva. Pegamos-lhe, abrimos na primeira página, e começamos a ler. No entanto, há tantas questões a considerar. Por exemplo… Haverá alguma forma mais acertada de ler um livro? Ou algum passo que devamos seguir antes de qualquer outra acção? E se preferirmos começar pela última página? Neste sentido, quero partilhar algumas das minhas impressões sobre como ler um livro.

 

Pego num livro – e agora? Em primeiro lugar, no caso dos livros físicos, gosto de me sentar com eles, apreciá-los, pousá-los na estante, agarrá-los de novo, folheá-los, cheirá-los – habituar-me a eles e à forma como se adaptam à minha mão. Em segundo lugar, procuro índices, listas, epígrafes ou dedicatórias (além da sinopse e da biografia do autor), que são óptimas referências para entrar no espírito da obra, assim como fazer uma análise breve ao tipo de letra, capítulos ou outras particularidades gráficas.

 

O passo seguinte é ler a primeira frase com muita atenção. Seja ficção ou não-ficção, a forma como um autor escolhe apresentar o seu trabalho pode contribuir para uma primeira impressão mais completa, quiçá promissora, ou por outro lado desapontante. E também há quem escolha avaliar uma frase aleatória no meio do livro, que sirva de amostra do resto.

 

Após este ritual, ainda é comum ter alguma dificuldade em concentrar-me: a primeira página é o contacto inicial com uma nova realidade, uma nova narrativa, uma nova história, um novo tema. Por isso, normalmente levo algum tempo a situar-me e a encontrar um significado para a mancha de letras e palavras.

 

O trajecto vai-se tornando mais fácil de navegar a partir daí, mais suave. Nem sempre é intuitivo voltar a pegar no livro, de tantas distracções e interesses que existem fora das páginas. Talvez a primeira impressão não tenha sido óptima, por isso custa-nos retomar. Mas acredito que existe sempre um livro qualquer por perto que nos irá entusiasmar sem sequer nos apercebermos. Há sempre um livro capaz de nos levar por aí fora até à última página, de forma consistente e constante. Se forem como eu e gostarem de tirar notas, apreciarão a companhia dum lápis, dum marcador e de um caderno.

 

Ora, mas também não nos podemos esquecer da preparação: ainda antes de apreciar o livro, de o analisar, de prestar atenção à primeira frase ou de tirar notas, gosto de começar a leitura num sítio acolhedor, apesar de a continuação poder acontecer em quaisquer condições. Talvez comece num sofá confortável, talvez aconchegada debaixo de mantas, talvez esticada na cama a meia-luz, sempre em silêncio, ao som do meu gato a ressonar ou com uma música de fundo que inspire a concentração e a fruição da palavra escrita.

 

No fundo, o que interessa é sentirmo-nos à vontade. O que interessa é estarmos confortáveis perto de livros e deixá-los entrar nas nossas vidas, perceber como nos podem enriquecer ou pelo menos entreter. O que interessa é ler, e o “como” vai-se descobrindo. Portanto, agora é a tua vez de tentar.

 

Pegas num livro – e agora?

A felicidade da escrita

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Pega na caneta. Pega no caderno. Escreve. Talvez prefiras o computador ou o telemóvel. Talvez gostes de guardar o texto para ti ou de o partilhar com os teus amigos, talvez na Internet. O que interessa é que escrever te faz feliz, não é? Por que será? Que magia tem a palavra materializada no papel?

 

A verdade é que escrever não é coisa de adolescentes, nem de artistas, nem de gente sentimental. Escrever é das terapias mais baratas de sempre, é gratuita. Escrever faz realmente bem à saúde. Ainda por cima, podemos fazê-lo em qualquer lado, a qualquer hora, sozinhos ou acompanhados, na cama antes de dormir, à hora de almoço no meio da cantina, no nosso diário predilecto ou no verso duma folha de rascunho.

 

Tal como a confissão oral, pela conversa ou pelo desabafo, também a confissão escrita tem benefícios para o nosso bem-estar e, mais do que isso, efeitos surpreendentes na condição física humana. Somos mais saudáveis quando nos expressamos, mesmo se o fizermos exclusivamente na nossa própria companhia. Pode ficar tudo só para nós, e mesmo assim sentimos todos esses efeitos.

 

Há mais de 30 anos que se estuda a escrita expressiva: o acto de escrever sobre emoções, pensamentos, eventos, quiçá traumas, ajuda-nos a reorganizar a narrativa pessoal, diminui a sua intensidade emocional (aquele fulgor, aquela obsessão que nos assombra ou que tentamos reprimir) e permite-nos conhecer melhor a nós mesmos. Enquanto pensamos nas melhores palavras, racionalizamos, revisitamos e ordenamos ideias. Escrever é como uma conversa privada em que nos exploramos. Quem somos? O que sentimos? Como o sentimos?

 

James Pennebaker foi o primeiro a descobrir que estes exercícios de escrita diminuem o stress, aliviam a ansiedade, reforçam o sistema imunitário e, por isso, previnem o aparecimento, progressão ou reincidência de certas patologias - por exemplo, tensão alta, cancro, artrite ou ataques cardíacos. Outros investigadores seguiram as suas pisadas (como Laura King e Megan C. Hayes), e agora temos a certeza de que escrevermos sobre emoções, pensamentos e eventos - negativos e também positivos - nos traz um boost ao bem-estar, à semelhança dum bom sumo vitaminado ao pequeno-almoço.

 

Expressar e fazer sentido do que nos vai na mente é o melhor remédio para pararmos de ruminar, resolvermos problemas, dilemas ou simplesmente para apreciar e relembrar os melhores momentos da nossa vida. Afinal, as emoções positivas e a diminuição do stress potenciam a aprendizagem, a atenção, a criatividade e a resiliência.

 

Depois de lerem este texto, convido-vos ao seguinte: peguem na caneta, peguem no caderno, ou liguem o computador ou o telemóvel. Escolham uma (ou várias) propostas que vos deixo aqui: mas escrevam. Escrevam sobre a vossa recordação favorita ou sobre a maior lição de vida que já aprenderam. Escrevam sobre o amor que sentem por alguém. Escrevam sobre o que mais vos inspira. Escrevam sobre a serenidade, a esperança, o orgulho ou a gratidão. E, se não acreditarem que escrever tem este poder incrível, sempre podem pensar que "mal não faz". Vamos a isso?

 

***

 

Para o próximo dia 10 de Outubro (Sábado), eu e a Andreia Esteves estamos a preparar um workshop de Biblioterapia e Diário Positivo. Se estiverem interessados, encontrem toda a informação aqui e inscrevam-se aqui. Também temos um evento no Facebook e no Meetup.

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Hotel do Parque, Curia - o destino ideal para uns dias a ler e a escrever

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O Hotel do Parque, na Curia, foi inaugurado em Julho de 1922. Aos 98 anos de idade, dá-nos o conforto dum bisavô meio esquecido do passado, sonolento, enrugado, mas cheio de histórias, ou não fosse a sua decoração ao estilo Belle Époque, como nas séries Downton Abbey e A Espia (na verdade, esta última foi mesmo gravada no Hotel do Parque).

 

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Situado numa rua cheia de hotéis, incluindo o Hotel Termas da Curia, o Hotel do Parque destaca-se por ser o mais pequeno dos edifícios, parcialmente coberto de hera nas paredes exteriores e rodeado de árvores e arbustos por todos os lados. Quando passámos à sua frente pela primeira vez, ainda perdidas e abandonadas pela falta de sinal do GPS, a minha avó exclamou a brincar “é esta casa que eu vou comprar”. E não é que foi precisamente aqui que passámos estes últimos cinco dias?

 

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Inicialmente, escolhi o Hotel do Parque por me parecer o sítio ideal para vir sozinha escrever, ler e descansar, baseando-me numa recomendação blogosférica. Entretanto, a minha avó decidiu também vir comigo, alterei a reserva de uma para duas pessoas e ambas confirmamos: o Hotel do Parque fica numa zona calma, bonita, verde, silenciosa, central. Felizmente, os hóspedes com quem nos cruzámos respeitavam o espaço uns dos outros e conseguimos estar horas e horas na piscina ou no salão sem mais ninguém.

 

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(Tenho ainda a destacar que, nestes tempos em que o distanciamento social é necessário, o Hotel do Parque tem todas as condições e segue todas as medidas de prevenção ao contágio por coronavírus - assim como os restaurantes e pequeno comércio e restaurantes muito acessíveis e variados.)

 

Ao pequeno-almoço, comemos no buffet incluído no preço da estadia, do qual recomendo especialmente o pão de cereais e os bolos feitos pela proprietária, a D. Maria João. Ao almoço e jantar, ora comemos num restaurante a três minutos a pé (com pratos do dia bem confecionados e baratos), ora comemos no próprio hotel, onde é servida comida mais leve, como tostas, saladas, hambúrgueres, bebidas e outros snacks.

 

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Quanto aos espaços, todos são preciosos. Os corredores nos dois pisos são uma caixinha de surpresas para os apreciadores de loiça antiga; o salão (sem televisão) é o poiso ideal para ler e escrever nas horas de maior calor e depois do jantar; a piscina e o jardim entretêm miúdos e graúdos; os quartos são frescos, fofos e acolhedores para boas noites de sono. A cada esquina, embarcamos numa viagem de regresso ao passado, onde reina o saudosismo e uma atmosfera romântica do início do século.

 

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Pela sua antiguidade, o hotel precisaria de uns arranjos aqui e ali, o que justificará não ter mais estrelas do que 2*. Os canos são mais ruidosos, o papel de parede descola nalgumas pontas, o soalho e os armários rangem, as colchas têm buraquinhos… Só que, tal como se ele fosse uma pessoa, gosto ainda mais deste hotel vivido, imperfeito e com vestígios dos anos, do que se tudo fosse previsivelmente perfeito.

 

Last but not least, o Hotel do Parque colecciona uma data de pormenores curiosos, mas o meu preferido é a tentativa de preservação do património histórico, mas também familiar. O Hotel do Parque pertence à mesma família há quatro gerações, três das quais servem e convivem com os hóspedes ainda hoje – a D. Maria João, que nos recebe e está sempre atenta aos nossos pedidos e perguntas; o filho Zé Pedro, que acumula funções de cozinheiro, restaurador, handy man e cuidador da horta; e a mãe, D. Alda, que vamos vendo pela sala ou pelo jardim. O resto dos funcionários do hotel, incluindo a Joana, as senhoras que servem o pequeno-almoço e as que fazem as limpezas, só nos confirmam o quão agradável é estarmos neste cantinho e nem sentirmos necessidade de sair.

 

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Sentimo-nos muito bem acolhidas e aconchegadas, por isso todas as nossas recomendações são poucas. Nem o facto de termos de fazer 300km de estrada será suficiente para não voltarmos cá assim que possível, agora que descobrimos o Hotel do Parque. As estadias por noite rondam os 30€ poe quarto individual, 50-60€ por quarto duplo, ou 60-70€ por quarto triplo.

 

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(Ainda por cima, ficámos de ir ao Buçaco, ao Luso, Aveiro e Coimbra nas próximas visitas, já que acabámos por permanecer sempre no hotel.)

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A leitura na era digital: Reader, Come Home (Maryanne Wolf)

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Comecei a ler Reader, Come Home - The Reading Brain in a Digital World (da investigadora Maryanne Wolf) no âmbito das minhas incursões recentes à literatura sobre cognição e a forma como o cérebro lê - ou seja, como nós, seres humanos, lemos. Eis a minha opinião e o resumo das ideias sobre este livro que me encheu as medidas.

 

Mais uma vez, o cérebro. A literacia digital e em papel. O conceito empatia, que tem alcançado algum destaque ultimamente, na academia e fora dela. A leitura (uma invenção cultural e para a qual o cérebro dos homens nem sequer nasce preparado) como meio de tornar as crianças de hoje em dia e dos próximos anos em cidadãos responsáveis, informados e críticos.


Maryanne Wolf tem dedicado a sua carreira académica a estudar o cérebro e a influência da leitura a nível neurológico, em termos interiores e exteriores. Afinal, mudanças causadas pelo exterior ao interior também provocam consequências exteriores. E por aí fora. A criação de hábitos de leitura sólidos desde cedo promove o desenvolvimento da inteligência, da memória, da atenção e do sentido crítico.


No entanto, este seu livro mais recente, Reader, Come Home, é mais um "sinal dos tempos", concentrando-se na passagem da leitura em papel, mais paciente e prolongada, para a leitura digital, facilmente interrompida pelas distrações doutras fontes ou mesmo que estão presentes em recursos do próprio texto (como os e-books para crianças ou até notícias online com hiperligações e pop-ups).

 

Nesta era digital, a própria autora deu por si a debater-se contra a sua incapacidade de apreciar os livros da sua infância e juventude, clássicos da literatura que moldaram a sua vida, mas que agora se apresentavam como obstáculos intransponíveis. Maryanne Wolf tinha perdido a capacidade de se concentrar em leituras mais desafiantes, que lhe pediam paciência e perseverança. Então, tanto a própria autora, quanto o "leitor" que ela interpela, são convidados a regressar à "casa" ou ao "lar" que é a leitura prazerosa, imersiva e prolongada que nos retira deste mundo. Certamente que todos nós que gostamos de ler desde pequenos nos lembramos de ser engolidos por um livro e, provavelmente, ainda hoje guardamos saudades dessas memórias.


Por estas razões, a investigadora da Tufts University, nos EUA, decidiu estudar a alteração nos seus hábitos de leitura e, consequentemente, nos hábitos de toda a gente, em particular de crianças, e o que fazer quando chega a altura de as expor a livros e/ou dispositivos electrónicos. 


Apesar de Reader, Come Home deixar mais hipóteses, preocupações e questões do que respostas empíricas, acho que me fez pensar sobre o que poderá ser feito no futuro para nos asseguramos de que criaremos cidadãos com literacia dupla, bilingues no que toca à leitura em papel e leitura digital, capazes de retirar de cada uma delas os melhores proveitos, atributos e capacidades cognitivas, não desprezando nem uns nem outros meios, mas sim navegando facilmente entre ambos os tipos.


Na minha opinião, Reader, Come Home é um livro para todos aqueles que se interessam pelo futuro dos livros e da leitura. Ler não é um processo cognitivo a que nos expomos "só porque sim". Ler mais deve, idealmente, aguçar a nossa reflexão e empatia, através do conhecimento e compreensão doutras vidas, assuntos que antes ignorávamos, articulação cuidada de pensamentos doutras pessoas. Ler bem, em geral, é uma necessidade e obrigação dos cidadãos que vivem numa democracia.

 

E vocês, ainda sabem o caminho de volta "a casa"?

Sabe tão bem comprar um livro novo!

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Uma das coisas que a minha família raramente me recusou até eu começar a trabalhar foi a compra de livros. Comprar um livro novo nunca fez mal a ninguém! Nunca tive todos os brinquedos que quis, nem todos os CDs e DVDs, muito menos consolas de jogos. Nem sempre podia ter a roupa que estava na moda, ou incorrer em gastos supérfluos só porque sim. 

 

Por outro lado, até era incentivada a comprar um livro novo de vez em quando. Se não ia eu à livraria, alguém me ia trazendo um ou outro consoante os meus gostos. Lembro-me de a minha tia me trazer muitos livros d'Os Cinco, d'Uma Aventura e daqueles cheios de pop-ups e relevos. Já em pequena queria ter os livros, não apenas para os ler, mas porque gostava de os ter, do entusiasmo de papel a cheirar a novo, das lombadas e capas intocadas, sem vincos, sem vestígio de pó, humidade ou outra humanidade, porque gostava de lhes tocar e de os ver na estante, sabendo que eram meus. Claro que também ia à biblioteca e trazia de lá muitos livros, claro que lia os livros da escola, mas comprar um livro novo era todo uma outra experiência. E a Feira do Livro?! Mais um hábito ao qual fui iniciada desde bem pequena, com repercussões para o resto da vida. É raro o ano em que não vá lá, pelo menos para comprar um livro simbólico.

 

Farto-me de comprar livros, pelo que nem sempre consigo ler todos. No entanto, a promessa de que os poderei ler quando bem me apetecer não tem comparação. Olho-lhes para os títulos, organizo-os na estante, imagino-me a conhecer essas palavras que ainda me são desconhecidas. Não me lembro dalguma vez ter sido doutra forma. Se me dissessem que já veio gravado no meu código genético, eu acreditaria.

 

Por estes motivos, uma das minhas actividades favoritas é visitar livrarias (por motivos estratégicos e de variedade de oferta, a Fnac tem sido a minha predilecta). Gosto de pegar em vários livros que me pareçam interessantes, amontoá-los no colo e sentar-me a dar-lhes uma vista de olhos. Ultimamente, de forma a reduzir desilusões, antes de comprar um livro novo tenho tentado ler as primeiras páginas. Também costumo analisar o que os meus contactos do Goodreads com gostos semelhantes tenham opinado. Perco algum tempo por semana nesta selecção, cujo objectivo oscila entre uma compra hipotética ou um sonho-acordado. Nem sempre tenho orçamento para comprar o que quero, nem sempre os livros em análise parecem justificar o gasto. Mas esse contacto inicial ninguém me tira!

 

Hoje de manhã encomendei um livro que ainda há-de demorar uns dias ou semanas a chegar. Em situações como esta, o mais difícil é a espera. A expectativa. O entusiasmo. A contagem decrescente. O prazer e a vontade de lhe pegar que se encontram suspensos pelo processamento, expedição, envio... Eu até consigo arranjar o livro em formato digital, "mas não é a mesma coisa". Se eu pudesse, se eu tivesse dinheiro e logística, tinha tudo em papel. Tudo em estantes que nunca mais acabam. 

 

É tão bom comprar um livro novo, não é?

Ler mais autores portugueses e lusófonos tem sido o meu objectivo literário para 2018

Há muitas pessoas que não conseguem viver sem filmes, outras que não passam sem séries, ou que sentem necessidade de ir ao ginásio todos os dias. Eu preciso de ler, se não todos os dias, muito regularmente. Por isso, tenho tentado ler em maior quantidade e qualidade, porque sei que me faz sentir melhor e mais feliz. Neste caso, decidi investir em ler mais autores portugueses e lusófonos como objectivo literário para 2018.

 

 

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 (O meu desafio anual no Goodreads até agora.)

 

Ler mais autores portugueses e lusófonos tem sido o meu objectivo literário para 2018 por várias razões.

 

Em primeiro lugar, acho que apoiar o que é nacional é uma mais-valia. Não entrando em sentimentos nacionalistas nem "o que é nacional é que é bom", acredito que nos fica bem valorizar o que é feito por portugueses e em língua portuguesa, porque é muito fácil entusiasmarmo-nos mais com o que vem do estrangeiro e tendemos a esquecer-nos das nossas origens e um pouco da nossa identidade. Consumimos imensa cultura inglesa e americana, por exemplo, nem que seja por serem tão "vendidas" pelos meios de comunicação. É-lhes dada imensa visibilidade, o que nem sempre acontece em semelhante proporção quando se trata de criações ou produtos portugueses.

 

Este é o meu caso. Estudei literatura inglesa e americana, tive professores ingleses e americanos, cresci a ver séries da Fox e do AXN (e reality shows do TLC), a ver os Simpsons e comédias românticas de Hollywood, a ler Harry Potter e Crónicas de Nárnia, falo inglês todo o dia, todos os dias, há mais de dois anos, por causa do meu trabalho, refugio-me nessa língua que já considero um pouco minha... por isso sei o quão fácil (e cómodo) é pegar num paperback em inglês (que, ainda por cima, é mais barato) em vez de investir num autor português publicado em capa dura. A certa altura, até os temas são mais familiares. 

 

Por outro lado, eu quero lembrar-me e estar em contacto com todas as minhas tais "identidades" ou "origens". Quero saber tanto quanto possível sobre um povo e sobre o outro (e outro, e outro, e outro). Esse é outro motivo pelo qual quero ler mais autores portugueses. Quando os leio, também me sinto em casa, a beber da nossa língua, pessoas, culturas e mentalidades. É a língua portuguesa que me fascina, até mais do que a inglesa, ou a francesa e a espanhola. Para mim, é um desafio, ainda por cima por achar que os nossos escritores adoptam frequentemente um tom muito nostálgico, triste e insatisfeito através da sua escrita (sei que pode ser cultural, mas...). Assim, tenho tentado encontrar autores que contrariem ou equilibrem essa tendência. Também quero ler sobre gente feliz.

 

Finalmente, leio imenso porque quero aprender a escrever com quem percebe do assunto. Só grandes leitores podem dar, no mínimo, escritores medíocres. Respeito quem o faz bem e sei que têm muito a ensinar-me. O que escreveram os clássicos? O que escreveram autores X e Y? O que andam a escrever os contemporâneos? O que os torna não interessantes? O que os faz ganhar prémios? O que os faz serem tão aclamados pela crítica e pelo próprio público?

 

Até agora, em 2018 ainda só li cerca de oito livros escritos em língua portuguesa. No entanto, tenho feito um esforço por comprar mais e interessar-me pela literatura nacional e lusófona recente e das últimas décadas, tentanto intercalar um livro em português a cada leitura noutra língua (inglês, quase sempre). O mais difícil é explorar novos temas, a que a literatura estrangeira não me habituou. Mas, cada passo a seu tempo, há que começar por algum lado.

 

Também aceito dicas e sugestões de quem esteja a tentar fazer o mesmo que eu, dando uma oportunidade aos autores de língua portuguesa! O que andam a ler? Ou quem? E como são os vossos hábitos de leitura?

Observações sobre os hábitos de leitura dos escoceses - ao sol

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Princes Street Gardens, Edimburgo

 

Durante a minha viagem à Escócia, que está prestes a terminar enquanto vos escrevo isto, fiquei maravilhada com o seguinte: os escoceses lêem imenso. Não posso falar pelo resto do Reino Unido, porque só estive no Norte de Inglaterra há quatro anos, mas tanto em Edimburgo quanto Glasgow  (e nos comboios entre as duas cidades) fui notando que há imensa gente com livros na mão, seja onde for: na fila para o autocarro, nos transportes públicos em geral, nos parques, nos cafés... Coisa linda de se ver. Até me senti mais inspirada para ler (e, ao contrário de todas as minhas auto-promessas, comprei cinco - CINCO! - livros nos últimos três dias de viagem, quando finalmente sucumbi à pressão da disponibilidade imediata de paperbacks com cheiro a papel reciclado intocado. Adoro paperbacks. Não há como não fazer todos os esforços humanamente possíveis para que caiba mais um, e mais outro, na mala de cabine. Ou na mochila. Ou em sacos extra.

 

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 Kelvingrove Park, Glasgow

 

Parece-me que este é um povo com hábitos de leitura - mais uma achega a contribuir para o meu amor por este país. Além de verde e cheia de história, a Escócia tem livros por todo o lado e gente que gosta deles.

 

Enterneceu-me especialmente o facto de também os escoceses adorarem livros e verde. Nos dias em que fiquei em Glasgow e Edimburgo, esteve quase sempre sol (apesar dum frio bem irritante, mas uma pessoa desculpa o Mar do Norte), por isso os parques públicos, os jardins e os jardins botânicos (mais especificamente, todos os bancos ou bocadinhos de relva disponíveis) estavam sempre cheios de pessoas a comer, a passar tempo com a família e os amigos, a jogar, a dormir a sesta... e a ler. Mal se via um raiozinho de sol... os relvados inundavam-se de pessoas de t-shirt (enquanto eu, friorenta do burgo, fazia frente à brisa cortante com uma camisola interior, uma sweat-shirt e um casaco de Inverno). 

 

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 Jardim Botânico de Glasgow

 

Fico mesmo com vontade de importar estes hábitos saudáveis para Lisboa. Já! Imediatamente! Mal eu aterre hoje à hora de jantar!

"Bird by Bird": 10 instruções sobre a escrita (e sobre a vida), segundo Anne Lamott

Há poucas semanas, li um livro que me pôs a rir duma forma como nenhum me tinha feito nos últimos tempos. Li e ri, mas também li e pensei que, realmente, a escrita e a vida são para ser vividas mesmo assim: pássaro por pássaro.

 

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Bird by Bird: Some Instructions on Writing and Life, assim se chama o livro miraculoso que me relembrou que, tal como joelhos esfolados em gravilha, também os assuntos do coração não se resolvem no momento em que tentamos tratar a ferida. Às vezes, tem mesmo de apanhar ar. Ou, pacientes, temos de ir recolhendo um e outro pássaro. O que interessa é irmos tentando. Como acontece na escrita...

 

A partir do momento em que comecei a ler este livro, passei a adoptar esta forma de viver os obstáculos que vão surgindo. Os imprevistos. As desilusões. Há que conquistá-los um por um. (Na verdade, essa filosofia bird by bird tem origem num trabalho da escola sobre pássaros que o irmão da autora procrastinou até ao último dia quando era criança, mas divago.)

 

Assim, Anne Lamott, esta senhora fantástica que muitos conhecem duma TED Talk, vai-nos apresentando imensas lições sobre a vida e sobre a vida dos escritores. No entanto, o que partilha connosco poder-se-ia aplicar a qualquer profissão ou pessoa, qualquer contexto.

 

Gostei muito das seguintes 10 instruções sobre a escrita (e sobre a vida) que Anne Lamott nos deixa por escrito. Não se encontram necessariamente pela ordem do livro, nem são apresentadas pela autora desta forma. Estas foram seleccionadas e destacadas por mim, nem que seja por serem as que fazem mais sentido para o meu caso pessoal e de escritora amadora a fazer um esforço por voltar a competir e/ou publicar.

 

1. Um escritor é alguém que tem de recuperar o poder de observação, o deslumbramento e a inocência da infância, para poder captar o que os outros podem não ver ou sentir explicitamente;

 

2. A melhor maneira de começar  escrever é em quantidade, mas não necessariamente em qualidade. A partir daí, do exercício de escrita livre, podem surgir pequenos pedaços de informação ou texto que sirvam para começar um rascunho. É ao escrever e a deitar fora que vamos descobrindo o que queremos escrever (um pouco como na vida, digo eu - se nos fecharmos em casa à menor contrariedade, nada nos irá acontecer; já o contrário...);

 

3. Os primeiros rascunhos vão ser sempre maus, por norma, pelo que nunca se deve ter as expectativas elevadas. Até se entregar uma versão final a quem de respeito, o trabalho de edição pode revelar-se o mais moroso;

 

4. Mesmo que não nos sintamos "inspirados" ou com vontade de escrever, é importante que tiremos tempo suficiente para apenas nos sentarmos com disponibilidade para escrever. Pode acontecer que, nesse entretanto, as personagens comecem a querer falar-nos ou que nos occorra uma ideia que complete o texto/enredo e que lhe dê sentido. É como dançar, diz a escritora, parando a mente racional. Quando dançamos, não olhamos para os pés para confirmar se o estamos a fazer bem, apenas dançamos (e, na vida, é não olhar demasiado também);

 

5. Quando não houver motivação para escrever, podemos tentar escrever um livro para alguém, como um filho, um pai ou um amigo. Podemos escrever para lhes dar como presente. No meu caso, mesmo quando não consigo continuar o livro que estou a tentar escrever, escrevo-vos aqui;

 

6. É importante anotar tudo o que for possível. Tudo pode tornar-se material para escrita, detalhes da vida quotidiana. Fazer listas ou ter sempre post-its à mão pode ser útil para anotar ideias súbitas. É provável que a maioria desses itens seja absurdo e que não venha a ser utilizado, mas alguns podem tornar-se centrais para encontrar o sentido do que tentemos criar;

7. Obter diálogos verosímeis pode revelar-se uma tarefa hercúlea, mas resulta da investigação sobre como as pessoas falam na realidade, através da mera atenção que prestamos a quem nos rodeia, por notas ou gravações.

 

8. Escrever em grupo ou encontrar alguém com quem se possa ir trocando ideias é construtivo. Muitas vezes, a crítica da outra pessoa, seja amigo ou colega na criação, pode ser feroz, mas é melhor do que se viesse dum editor. O mesmo pode ser retribuído, para que haja sempre motivação de se escrever qualquer coisa. Idealmente, devem ser estabelecidas datas para esses encontros em que se trocam textos;

 

9. Mesmo que um escritor não seja publicado, o presente da escrita vale por si, por ter sido algo a que se pôde entregar de coração, que importa por causa do espírito e da dedicação. Além disso, escrever diminui a sensação de isolamento, porque, quando escrevemos, fazêmo-lo sempre tendo em conta algum leitor ou grupo;

 

10. Devemos escrever pelo prazer que é. Claro que o objectivo de um escritor é, por norma, chegar aos seus leitores. No entanto, tal como um farol não vai atrás de barcos para salvar, um escritor também deve escrever os seus livros para que existam, mas sem esperar a fama.

 

***

 

E assim ficou a minha lista de lições sobre a escrita e, já agora, sobre a vida. Na minha opinião, é impossível não gostar da Anne Lamott. Tem sentido de humor, aparentemente teve uma vida cheia de peripécias, escreve como quem conversa, fala aos corações. Depois, digam-me o que acharam da lista de lições e do que poderão ter ouvido sobre a autora e a sua obra!

As pessoas não se sentam para beber café

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As pessoas não se sentam para beber café. Esta constatação ocorreu-me enquanto eu, sentada a beber café, percebi que a maioria dos clientes se ficava pelo balcão. Um café. Um café e um pastel de nata, por algum golpe do acaso. Até há quem leve o café num daqueles copos de plástico ou cartão para "ir bebendo".

 

Estas pessoas não se sentam para beber café. Então, pergunto-me: quão triste ou sintomático é este facto? Não há tempo a perder. Não há tempo para beber café. Alguns só se sentam para tomar o pequeno-almoço, mas não os vejo permanecerem no mesmo lugar por mais do que o estritamente necessário. É tudo à pressa.

 

Não há tempo para apreciar o momento. Não há tempo para as pessoas se sentarem a beber café. É tudo a correr.

 

Para mim, não há melhor do que me poder sentar, nem que seja por dez minutos, a beber café e a ler (ou a escrever, que é o que estou a fazer neste instante, como podem conferir nestas palavras).

 

Só há tempo para trabalhar. Dá-se o nosso tempo aos outros, mas não de forma directa. Troca-se tempo por um rendimento e não há oportunidade para se trocar esse tempo por memórias em família, enriquecimento pessoal, saídas com amigos, sítios novos, um café e um livro.

 

Esta é uma das minhas dores do crescimento. Tenho uma fobia enorme a ser também contagiada por esta falta de dez minutos para parar e pensar. Ou, apenas, desligar.

 

Fotografia ilustrativa não patrocinada, infelizmente.