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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

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Uma visita rápida (mas muito prazerosa) à Livraria Déjà Lu

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Gosto de livrarias. Gosto de procurar e encontrar pechinchas. Portanto, gosto de livrarias e de procurar e encontrar pechinchas em livrarias.

 

Por isso, não admira que tenha gostado da Déjà Lu imediatamente, ao primeiro passo. A Déjà Lu é uma livraria solidária em Cascais, que vende livros em segunda mão (já lidos, tal como indica o seu nome), e cuja receita reverte para causas e instituições de apoio a pessoas com Trissomia 21. Por todas estas razões e mais algumas, é uma livraria incrível para os amantes de boas leituras e de um bom cantinho onde as encontrar.

 

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Desde que conheci o João que pensei "agora é que vou conhecer a Déjà Lu !". Ele é de Cascais, então eu ainda achava que teria mil desculpas para ir à Cidadela. Entretanto, já passaram quase dois anos, a pandemia meteu-se pelo caminho, algumas mudanças na vida e na geografia roubaram-nos a atenção e só este fim de semana é que lá fomos, para aproveitar um curto passeio nestes últimos dias de Verão.

 

Finalmente, saciei a curiosidade.

É preciso salientar que, se um dia eu puder ter uma livraria, ela vai ter de ser tão acolhedora quanto a Déjà Lu. Vai ser bem arejada e iluminada, vai ter tapetes, sofás, cores quentes e uma decoração alusiva à paixão pelas viagens, pelos autores, pela escrita, pelo ambiente aconchegante e convidativo.

 

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Eis uma livraria arrumada, com pessoas simpáticas a atender (a quem nem perguntei o nome, agora que penso nisso...), os livros organizados de forma impecável, as sugestões personalizadas a piscarem-nos o olho, variedade e quantidade para todos os gostos (incluindo uma selecção de livros de arte muito jeitosa, que cativou logo o João). Ainda por cima, os preços são realmente justos e acessíveis - o livro mais caro que terei visto custava 8€, salvo erro, mas na secção de livros em inglês encontrei alguns a 3€!

 

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Gostei de tudo e só tive pena de chegar uma hora antes do fecho. Se tivesse tido mais tempo, teria explorado todos os títulos e cantinhos com maior atenção e disponibilidade. Assim, restou-me procurar e perguntar por títulos específicos, dar uma volta mais ou menos apressada pelas três salas que compõem a livraria Déjà Lu e prometer mais visitas para breve.

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Desta primeira visita, trouxe Deixem Passar o Homem Invisível, de Rui Cardoso Martins (6€), um autor português que quero ler assim que possível.

 

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A Livraria Déjà Lu fica na Cidadela de Cascais, no primeiro edifício logo à esquerda de quem entra no forte, no primeiro andar. Se vierem de carro, podem tentar deixá-lo no parque de estacionamento mesmo à entrada, nos parques pagos subterrâneos ali perto ou, como nós, no parque do Cascais Villa, assim aproveitando um passeio a pé mais longo.

Fui à Feira do Livro de Lisboa e já tive de arranjar uma nova estante

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1. Feiroooou! Sim, estou muito contente, e sim, já tive de arranjar outra estante.

2. Sou uma pessoa bastante nostálgica. Depois de Março de 2020, passei a trabalhar exclusivamente em casa, por isso já estava cheia de saudades de Lisboa, onde só voltei umas cinco vezes desde então, todas elas visitas rápidas ou por motivos muito específicos e nunca no centro. Ontem, tinha planos para lá passar o dia. O trânsito na A2 fluía; o céu azul e a brisa fresca indicavam o início deste dia maravilhoso; a ideia de rever amigos queridos deixava-me num estado de entusiasmo leve pelo qual esperei vários meses. No entanto, assim que cheguei ao túnel do Marquês, lembrei-me de que gosto é de conduzir (pouco, muito pouco) fora da cidade, de viver longe de semáforos e lugares de estacionamento duvidosos, e de não ter de apanhar o metro e o comboio todos os dias.

3. Terei sempre Lisboa guardada no coração, principalmente pelas livrarias e pelos amigos. Por uns e por outros, vale sempre a pena regressar.

 

Aproveito para também vos deixar com os livros que comprei na Feira do Livro:

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Já leram algum destes? E têm recomendações do género "crónica (mais ou menos) autobiográfica"?

A propósito, o livro Depois a Louca Sou Eu, da autora Tati Bernardi, é um dos livros da minha vida. Acho que, depois de o ler pela primeira vez, há dois anos, nem me cheguei a aperceber de quanto mudaria a minha vida, a minha própria escrita, a minha forma de ver o mundo. Comprei para oferecer, claro está, agora que tem uma nova edição pela Tinta-da-China.

Mudei-me para o Alentejo

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"No virar do ano, troquei um subúrbio saturado de Lisboa por uma vila alentejana perto da fronteira com Espanha. Uma quantidade de factores contribuiu para a minha mudança, entre os quais se contam poder ficar em teletrabalho, pagar uma renda muito mais baixa por uma casa muito maior, viver longe do stress da cidade, e lançar raízes numa geografia mais amiga de quem quer começar um projecto de vida."

 

Assim começa o meu primeiro texto de opinião na rubrica Mundo Novo, do Sapo24. Faz amanhã um mês que me mudei para Vila Viçosa e esta é a reflexão a fazer sobre a experiência das últimas semanas. Podem clicar no excerto ou aqui.

 

(Spoiler alert: estou a adorar viver nestes lados!)

[O Primeiro Capítulo] Quero escrever-lhes a agradecer, mas já esgotámos todas as palavras boas

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Ontem, tivemos "A Primeira Vez" d'O Primeiro Capítulo, com o convidado-cobaia-amigo Nelson Nunes, e eu ia dizer que foi ideia minha e da Elisa, mas não: já todos os presentes a tinham tido, e finalmente encontrámos a companhia que nos faltava. Confesso que, quando decidimos levar o projecto avante, não me ocorreu que suscitasse tanto interesse. Eu sabia que haveríamos de juntar algumas pessoas curiosas, mas... Mais do que isso: ontem demos as boas-vindas a um grupo como eu nunca tinha visto. Da quantidade de cursos de escrita criativa que já frequentei, dos eventos a que já fui, da licenciatura em Letras e das centenas de alunos que já ensinei nos últimos cinco anos, nunca me tinha deparado com tantos ditos escritores amadores numa só sala (dez!) que escrevessem, tão despretensiosos, de forma tão responsável, sensível.

 

Neste primeiro encontro d'O Primeiro Capítulo, tivemos participantes com formações académicas muito distintas, e quase nunca relacionadas com a literatura ou a escrita criativa (engenharia, arquitectura, finanças, enfermagem, ciência política, sociologia, biologia...). No entanto, todos cultivam um enorme amor e prazer pelas letras, provando que não temos de nos definir exclusivamente pelos empregos que nos pagam as contas, e que os nossos interesses podem divergir imenso, enriquecendo-nos tanto. Somos seres com potenciais tão complexos!

 

No final, restou-me uma sensação particular: fiquei cheia. Não sei bem de quê, porque é um tipo de satisfação indescritível. Devo ter deixado todas as palavras com quem as apanhou. Queria agradecer, e nem sei bem por onde começar.

 

O grupo teve muita química, demonstrámos o interesse comum pela elaboração de textos desafiantes, "com qualidade", e mostrámos vulnerabilidade suficiente para ouvirmos a nossa escrita pela voz doutra pessoa, sem por vezes nunca termos tido uma experiência semelhante. Ouvimos, recolhemos e distribuímos opiniões. Acho que fomos generosos. Queríamos, acima de tudo, ajudar e sermos ajudados, dar e receber, mostrando-nos disponíveis durante algumas horas para integramos um colectivo improvisado. Poucas ou nenhumas eram as pessoas que conhecíamos previamente, mas toda a conversa foi harmoniosa e fluiu pelo dobro do tempo previsto (na verdade, até os vizinhos terem afugentado os últimos resistentes, que doutra forma teriam ficado a conversar noite fora, e não só sobre escrita).

 

Em Novembro há mais! Com os mesmos ou outros participantes, contaremos dar as boas-vindas a mais interessados em partilhar os seus primeiros, segundos ou milésimos capítulos (graças ao apoio d'A Sala, um dos melhores espaços para simplesmente se estar e conviver, em Lisboa).

 

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Há uma frase que a Elisa tem dito nos últimos dias e que eu já referi antes: somos a média das cinco pessoas com quem passamos mais tempo. Elas inspiram-nos, mostram-nos caminhos alternativos e partilham o seu conhecimento connosco. Por isso, obrigada à própria Elisa (que é uma máquina de fazer coisas giras acontecerem), ao Nelson (que deve ser das pessoas mais organizadas que conheço, a julgar pela quantidade de livros que lê e pelos projectos em que se envolve) e a esta dezena de escritores de segunda-feira... por fazerem parte dessa equação maravilhosa, promissora. Estes últimos meses foram uma montanha-russa, e agora que a poeira está a assentar sei que é de pessoas assim que tenho de me rodear.

 

✍️ Em breve, divulgaremos a data e o tema para Novembro, tal como todas as outras informações úteis para quem se quiser juntar a nós! E, além disso, também começaremos a gravar o respectivo podcast O Primeiro Capítulo!

 

Até lá, sigam-nos por aqui:

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O Primeiro Capítulo dum projecto e podcast muito, muito bons!

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Já que não posso começar a rentrée psicológica com o primeiro dia de aulas, venho por este meio lançá-la com um novo projecto para o qual fui arrastada: O Primeiro Capítulo, um encontro por pessoas que gostam de escrever, para pessoas que também gostam de escrever.

 

Desde o início do ano que comecei a ir aos pequenos-almoços mensais das Creative Mornings Lisbon (das quais já vos falei imensas vezes), onde conheci a Elisa Baltazar, a host actual. Parece que a Elisa é uma máquina de fazer coisas acontecer, por isso não foi com grande surpresa que, já não me lembro bem como, decidimos fazer... isto que estamos a fazer! Queríamos escrever, queríamos conhecer mais pessoas que também queiram escrever, e temos vontade de criar uma oportunidade para todos esses escritores de gaveta se encontrarem, trocarem umas quantas ideias e partilharem alguns textos. Acreditamos que esta é uma forma de enriquecimento e crescimento.

 

Sem mais demoras, este é o texto de apresentação do encontro e podcast O Primeiro Capítulo!

 

𝐏𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐠𝐨𝐬𝐭𝐚𝐦 𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐜𝐫𝐞𝐯𝐞𝐫 𝐩𝐫𝐨𝐜𝐮𝐫𝐚𝐦 𝐩𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐠𝐨𝐬𝐭𝐚𝐦 𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐜𝐫𝐞𝐯𝐞𝐫

Dizem que para bem escrever são necessárias duas coisas, ler e escrever.
Concordamos, mas achamos, também , que é necessário optimizar a forma como se lê e a forma como se escreve.
Não é à toa que escritores tão importantes como Bocage, Alexandre Herculano, Almada Negreiros, Fernando Pessoa ou Mário de Sá Carneiro se juntavam em tertúlias onde, entre outros temas politicos e intelectuais, falavam de literatura.
Acreditamos que a interação também inspira, também ensina e também motiva.
Assim, o Primeiro Capítulo é um ciclo de encontros mensais de partilha entre pessoas que escrevem ou querem escrever.

Nestes encontros o objetivo passa, principalmente, por escrever. Escrever todos os meses ou, pelo menos, uma vez por mês. Não mais que 500 palavras sobre um tema que se mostre desafiante.
Uma vez escrito o texto, juntamo-nos e passamos esse texto a alguém para ler em voz alta. Este exercício permite-nos ver como outra pessoa entoa o nosso texto. Ouvir as nossas palavras pela boca de outro pode dar-nos toda uma nova perspetiva sobre a forma como escrevemos. Durante essa leitura não haverá lugar a comentários ou correções. O objetivo é que esta leitura nos dê espaço para repensar a forma como escrevemos.
Depois desta leitura, haverá espaço para comentários. Todos, exceto aquele que o escreveu, terão a oportunidade de comentar aquilo que sentiram falta no texto ou que possa ter ficado menos claro. Finalmente, serão feitas questões ao autor.
Em nenhum destes momentos, o autor terá a palavra. O objetivo aceitar a crítica como construtiva e ter tempo para refletir sobre a mesma.

Finalmente, contaremos também com a presença de um profissional da indústria para partilhar dicas, ideias comentários e, claro, inspirar-nos.

 

Mais concretamente, o objectivo destes encontros é discutir em conjunto textos que tenhamos produzido, sobre o tema lançado cada mês. Também contaremos com convidados especiais em todos esses encontros, que poderão oferecer críticas mais construtivas e algumas dicas relacionadas com o seu trabalho e possíveis obras.

 

Toda a informação pode ser encontrada online, no Instagram e no Facebook d'O Primeiro Capítulo, assim como no site Meetup.

 

Para Outubro, já temos tudo tratado e combinado, e estamos mesmo a aceitar inscrições! O nosso primeiro convidado no dia 7 (segunda-feira) será o Nelson Nunes, um autor de quem já vos falei por aqui, e conhecendo-o há quase uma década e tendo acompanhado a carreira (e a riqueza da estante) dele durante estes anos todos, tenho a certeza de que vamos ter conversas muito interessantes sobre escrita e livros. Para participarem, enviem-me/enviem-nos uma mensagem pelas plataformas e redes sociais sugeridas, ou um e-mail para podcastprimeirocapitulo@gmail.com.

 

Além do encontro, também faremos um podcast d'O Primeiro Capítulo... Mas falarei de tudo a seu tempo! Por agora, gostava muito que acompanhassem este projecto do meu coração, que  hão-de sair daqui belíssimas ideias. E espero ver alguém dos blogs nos nossos encontros! Conto convosco? 💚

Procura-se uma alegre casinha, tão modesta quanto eu

Não é para mim, é para uma amiga, começa assim este texto, da forma mais sincera e menos deslumbrada possível. Já vivi do outro lado do mundo e, quando regressei, não me quis iludir: ter onde viver em ou perto de Lisboa é um luxo hoje em dia. Acabei de ver num grupo de Facebook um lote para venda num parque de campismo nos subúrbios por 20.000€. Vamos rir para não chorar? Na zona da minha casa, o preço de vivendas geminadas aumentou cerca de 50.000€ desde o ano passado, quando também andei atenta; já nem há apartamentos para alugar, só para comprar - eu vivo a quase uma hora e meia de Lisboa. Como é que é possível?

 

A minha família deixou Lisboa e mudou-se para a margem Sul do Tejo há mais de 30 anos. Há menos de 20, um certo ministro chamou à margem Sul "um deserto". Certamente nunca terá passado por Almada, Seixal, Amora, Barreiro, Quinta do Conde... Há muitas décadas que a margem Sul já não é o destino de férias e fins-de-semana dos lisboetas. Com o advento da Fertagus e outras empresas de transportes, o distrito de Setúbal foi recebendo cada vez mais pessoas, Lisboa passou a ser cada vez mais acessível, enquanto os passes a custos reduzidos implementados este ano têm aumentado a procura de habitação na extensa área metropolitana de Lisboa. O trânsito e os carros continuam lá, mas os comboios, barcos e autocarros seguem todos os dias um pouco mais cheios do que no dia anterior.

 

Eu ainda não estou activamente à procura de casa, mas os meus amigos estão. Ora porque vivem demasiado longe de Lisboa para que as viagens diárias sejam sustentáveis, ora porque querem constituir a sua própria família, ora porque querem simplesmente ter o seu espaço - e, neste último grupo, também me incluo - precisamos de viver nalgum lado. 

 

Temos falado várias vezes sobre sair de Lisboa. Não será fácil, mas vemo-nos a procurar emprego noutras zonas do país, onde seja mais barato (quiçá possível) viver, onde não tenhamos de ser mais uma formiga numa lata de sardinhas à qual que chamam transporte público, onde possamos respirar, onde não tenhamos de andar aos encontrões com ninguém, onde não tenhamos de perder tempo de vida dum lado para o outro. Lisboa é uma cidade em franco crescimento, mas com elevados custos para o bem-estar da população, reduzindo-se a qualidade de vida constantemente, quando as infraestruturas e os serviços já não conseguem dar resposta a tantos habitantes (quando temos de tirar senha quatro meses antes para renovar o Cartão de Cidadão; ou quando deixamos de ter vaga para os nossos filhos nos jardins de infância e escolas públicas).

 

Os meus amigos querem encontrar casa, eu quero encontrar um escritório só para mim. Lisboa não tem espaço para nós. Será que Lisboa não nos quer? 

 

Claro que nada é tão simples quanto isto. As leis do mercado imobiliário ditam que os preços podem continuar a aumentar. Ainda há muita procura. No entanto, até alguns estrangeiros que se estão agora a mudar ou a pensar mudar-se para Lisboa começam a fazer contas à vida. Eu sei disso em primeira mão, porque são eles os meus clientes e potenciais clientes. Trabalho e falo com eles todos os dias e sei disto em primeira mão: nem os rendimentos médios americanos, ingleses ou alemães conseguem pagar 2000€ ou 3000€ por um apartamento onde possam construir uma família com o conforto desejado. Investimento estrangeiro my ass. Nem os estrangeiros ficam com vontade de investir os seus rendimentos neste país.  Lisboa chegou a ser cool promovendo o seu baixo custo de vida. Agora... agora nada.

 

O que pagamos em impostos, o que recebemos em salários e rendimentos, versus o que nos pedem por um quarto esconso que seja... São desproporcionais. E não, não queremos viver em quartos para sempre, nem em casa das nossas famílias. Em vez de estarmos a progredir, estamos a regredir. Na geração dos meus pais, além de haver emprego, havia a possibilidade de se ter uma casa própria - um luxo, não é verdade? Agora, vivemos em partes de casa, se calhar até dividimos um quarto com mais pessoas. Sabem quem fazia isso aqui em Lisboa?  Os meus bisavós. Há setenta anos. 

 

(E, já viram...? Se as pessoas que conheço não têm a possibilidade de pagar uma habitação própria, sendo efectivos nas empresas e instituições onde trabalham, ganhando pelo menos 50% mais do que o salário mínimo em início de carreira e tendo um nível académico superior, o que será das pessoas que não cumprem estas condições...? Será esta cidade só para os ricos, mesmo ricos, ostracizando todos abaixo da classe média alta...?)

 

Ah e tal, mas isto é tudo porque Lisboa está a desenvolver-se, ou preferimos ter Lisboa como era antes? Este argumento é tão humilhante para quem constrói a sua vida na capital, que nem merece resposta.

 

Então, e quem vive e trabalha em Lisboa, para o que conta? 

 

Durante as férias, passei por Tomar. Fiquei com vontade de me mudar logo. Espreitei várias montras de agências imobiliárias e babei pelos preços apresentados. Pagando o mesmo que pagaria por um mero escritório de 10m2 sem luz natural em Lisboa, poderia arranjar um T2 ou T3 no centro da cidade de Tomar; poderia andar dum lado ao outro em menos duma hora, teria espaços verdes, parques, restaurantes, livrarias, lojas de roupa, museus, cineclube, escolas, o instituto politécnico... Tudo isto ali, a menos de duas horas de Lisboa (da "civilização"). Quão utópico é querer-se viver, em vez de se sobreviver?

 

Pergunto-me se não começaremos a sair de Lisboa, aos poucos. É isso que a maioria dos meus amigos ambiciona neste momento. Afinal, quem está mal muda-se, não é verdade? Eu provavelmente também não terei vontade de continuar por cá, se tiver oportunidade de viver noutro sítio. Lisboa já não me parece uma cidade sustentável. Vivemos no "demais" constante. Já nem o oásis de viver no meio do pinhal e a 20 minutos das praias me parece suficiente nos tempos que correm, se para lá chegar tenho de passar por provações e agitações que me achincalham os nervos e me cansam mais do que o próprio ritmo diário de trabalho e enriquecimento pessoal e profissional. Perco quase metade dum dia de trabalho a deslocar-me, e o que me salva é trabalhar por conta própria e poder evitar horas de ponta e escolher quantas e a que horas trabalho.

 

Não sou economista, apesar de me interessar por estes temas, por isso não vos sei responder o que seria necessário fazer para melhorar Lisboa, se regular os preços do mercado imobiliário, se aumentar os rendimentos das pessoas, se construir e renovar mais casas na Grande Lisboa, se outra coisa qualquer. E se fosse só isso... Ainda teríamos de pensar nos problemas que surgem duma cidade sobrehabitada e sobreexplorada. Sei que não é assim que os indivíduos que contribuem para o desenvolvimento duma cidade que se diz tão na moda, um exemplo de criatividade, inovação e empreendedorismo, merecem viver. Onde está o retorno? Quando essas pessoas deixarem de ter forças e motivação para contribuir, quem é que quererá cá ficar? 

 

Por agora, procura-se uma alegre casinha, tão modesta quanto eu, mas sem pressão. Pode ainda não ser para mim, pode ser para os meus amigos. Ainda tenho outros planos para o meu dinheiro, mas gostava de ter esperança, de saber, que a liberdade de voltar a ter o meu espaço é uma realidade e não um sonho inconcretizável. Ficarei à espera que esta bolha rebente. Plop.

 

(Entretanto, lembrei-me de que já escrevi sobre este tema... É clicar...)

O primeiro dia da Feira do Livro de Lisboa 2019

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Diziam que, em 2019, a Feira do Livro de Lisboa seria maior, mais sustentável e que teria mais actividades. Ainda só fui ao primeiro dia, estive lá por volta da hora do jantar até ao fecho, e estas são as minhas conclusões acerca do que vi.

 

De facto, a Feira do Livro de Lisboa 2019 está maior. Tem mais bancas, mais editoras e projectos, e não é por causa disso que está mais apertada. Continua a haver espaço para circular e é apenas normal que, de vez em quando, tenhamos que esperar pelo leitor anterior para chegar à bancada seguinte. Para quem já tem uma lista de desejos, penso que vai valer imenso a pena esperar pela segunda semana da feira, quando começar a haver Hora H, ou andar à caça dos Livros do Dia. Os descontos parecem ser simpáticos e todas as desculpas são poucas para lá ir arejar as ideias (ainda por cima, trabalho a cinco minutos a pé, que desgraça!!!).

 

Por outro lado, falta comida... de jeito. E em variedade. Apesar de haver opções vegetarianas, há pouco mais do que hambúrgueres, wraps e pitas. As farturas não faltam, mas não fazem um almoço ou jantar. Tudo o resto, que não é muito, é extremamente caro. O meu conselho é que tentem comer antes de ir à FLL ou, se tiverem fome enquanto lá estão, saiam ou levem um lanchinho (e claro que a comida é importante, porque, se forem como eu, são capazes de lá ficar tempo suficiente para precisarem de sustento pelo meio). Também acaba por ser demorado estar nas filas intermináveis ou à espera de se ser servido. Ontem eu e o meu namorado ficámos vinte minutos à espera duma mísera pita de frango com batatas de pacote, tempo esse que gostaríamos de ter gasto a ver livros, o pôr-do-sol ou simplesmente a descansar.

 

No entanto, acho que a minha maior crítica quanto à bebida e comida é outra. Tudo o que era notícia e anúncio à Feira do Livro 2019 declarava que seria OH! tão sustentável! Mas esqueceram-se do mais óbvio: onde podemos encontrar água? Estamos no século XXI, não conheço quase ninguém que não se faça acompanhar garrafas reutilizáveis. Ainda assim, a FLL não tem nenhum sítio onde ir enchê-las, e como se não bastasse vende garrafas de água a 2€. Sendo um evento onde se vai com a família, onde os aficionados ficam bastante tempo e andam dum lado para o outro, debaixo de altas temperaturas, não aleijaria ninguém haver alguns dispensadores de água, mesmo que pagos, em locais estratégicos do recinto. Pouparia os nossos bolsos e o ambiente, tudo ao mesmo tempo. Serei a única a achar que isto faria maravilhas?

 

Quanto às actividades, tenho pena que a Hora H comece só na segunda semana, mas não sei muito mais, porque ainda é demasiado cedo para comentar e porque não costumo ir à Feira do Livro por causa das actividades (excepto os dois clubes de leitura de que faço parte e que já marcaram os encontros de Junho na FLL). Só espero que consigam atrair leitores e potenciais leitores, que propiciem um ambiente familiar agradável e que tornem a Feira do Livro de Lisboa ainda melhor e memorável para os mais novos.

 

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📚 E por aí, quais as vossas expectativas para a Feira do Livro de Lisboa 2019? Eu portei-me muito bem ontem, não comprei nada e estou-me a guardar para os Livros do Dia e para a Hora H. Não me apetece cair em tentação, por isso já tenho uma lista de compras para a primeira semana, a ver se não gasto por impulso o dinheiro de que vou precisar para fazer tudo o que quero durante o Verão.

 

😈 Aproveitem e deixem as vossas queixinhas nos comentários!

Teremos sempre o Tejo

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Não admira que Camões tenha pedido inspiração às Tágides, porque um rio com uma luz assim só poderia albergar ninfas e vida fantástica, seres míticos e lágrimas de quem viu os seus ir e regressar ao longo de séculos. O rio Tejo tem, para mim, uma aura mágica. Chamem-me romântica ou pirosa, mas não consigo negar que este rio exerce um efeito libertador, relaxante e criativo sobre mim. Consigo estar sentada à beira-mar durante várias horas - algures numa esplanada, no chão, num banco, num muro ou na relva - a pensar, a ler e a escrever. Sinto-me mais leve, mais feliz e produtiva quando o faço. Aliás, alguns textos aqui publicados tomaram forma perto do Tejo. Trabalho perto quase todos os dias e, por vezes, tiro uns minutos para me sentar a vê-lo, aos cacilheiros, aos veleiros e aos cruzeiros. É frequente lá almoçar ou comer um gelado, se estiver sol - tanto melhor.  A margem Sul do outro lado, o Cristo Rei a despontar no meio das nuvens, uma ponte de cada lado a cruzar o horizonte. O Tejo é o meu sítio especial.

 

Como não amar o Tejo? Nos melhores e nos piores dias, tê-lo-emos, sempre.

EU FUI... ao Rock in Rio pela primeira vez

Finalmente, tive outra experiência que me faltava na lista "coisas que eu não fiz quando era adolescente e que me vejo obrigada a fazer, antes que a idade adulta me engula, vingando o meu 'eu' de 15 anos": fui ao primeiro dia do Rock in Rio 2018 (momento de histerismo!!!!!!!!!!!!!!!!!!).

 

Há quatro anos, participei num passatempo dos Blogs do Sapo e ganhei dois bilhetes para o Rock in Rio 2014. No entanto, na altura houve um problema e, em vez de receber os bilhetes, recebi uma recompensa diferente. Ora, até há bem pouco tempo as prioridades não eram gastar dinheiro em festivais (pagar propinas, talvez), depois a vida pôs-se à frente e ultimamente ando a concretizar imensos planos, ideias e futilidades que não tive a oportunidade de viver antes, seja por motivos logísticos ou financeiros. Um deles tinha de ser ir ao Rock in Rio.

 

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Estava eu a dizer que fui ao Rock in Rio no dia 23 de Junho, este último sábado. Partiu tudo duma ideia peregrina que me ocorreu menos duma semana antes, do género "vamos lá cometer uma pequena loucura inesperada na conta bancária", e depois arrastei uma amiga que também andava a precisar de espairecer e sair de casa. 

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Então, no dia, chegámos às 18h, ainda ouvimos um pouco do Diogo Piçarra à distância, sentadas na relva, apreciámos os arredores, arranjámos uma bebida e umas batatas fritas, e fomos ver, em primeiro lugar... a Carolina Deslandes. Não, não tem muito de rock, mas ficámos na fila da frente, onde também encontrámos fãs pré-adolescentes, os respectivos pais e até os namorados das mais crescidas (que aparentavam não saber muito bem como lá tinham ido parar). Foi um máximo, cheio de glamour... ou não! Claro que foi um concerto fofinho, familiar, a acompanhar um final de tarde bastante agradável. Só fiquei ligeiramente desgostosa quando "A Miúda Gosta" (apenas uma das minhas músicas favoritas de sempre) foi cantado em dueto com a Maro, cuja voz acho que não se enquadra na música, mas de resto o concerto foi irrepreensível.

 

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O problema foi a hora de jantar. Por acaso, já tínhamos comido qualquer coisa, mas não conseguimos encontrar mais nenhum sítio onde voltar a comer sem ter de esperar em filas por menos de meia hora. Só alguns stands é que tinham snacks e pouca gente, então jantámos pipocas. Na minha mais humilde opinião, de quem não é letrada nestas lides, o catering ficou muito aquém das expectativas. Havia imensas barraquinhas e construções abismais dos parceiros, para distribuir brindes inúteis e fazer publicidade, mas alimento para o estômago nem por isso. Centenas de milhares de pessoas no recinto, e ficou apenas a lição aprendida de levar farnel numa próxima vez.

 

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Além disso, acredito que ainda haja margem para melhorar o acesso às atracções. Por exemplo, ainda pensámos em ir à roda gigante, mas, mais uma vez, encontrámos uma fila que demoraria três horas a escoar. Outros espaços nem se percebia o que eram, porque nem lá conseguíamos chegar perto. Ficou a impressão de que andam a vender mais bilhetes do que a quantidade de pessoas que têm condições para receber e entreter devidamente. Tendo em conta o preço que pagamos pelos bilhetes...

 

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Outro reparo é a falta de "qualidades verdes" que o RiR se orgulha tanto de ter. Excepto o copo de plástico que podemos voltar a encher e que serve de souvenir, todo o festival deve ter produzido imenso lixo desnecessário em brindes, caixas e caixinhas de comida e até em embalagens dos bilhetes vendidos pela Fnac - separador de cartão, dentro de caixa de cartão, envolvido numa película de plástico - um desperdício.

Por outro lado, os meus mais sinceros parabéns pelas instalações sanitárias, que, mesmo nojentas, existiam em número suficiente para uma pessoa não ficar com as cuecas na mão pelo caminho. 

 

Quanto ao resto dos concertos, ainda ouvimos os Bastille à noite (que foram fraquinhos, e o vocalista passou o concerto a dizer "Obrigada!", só me apetecia romper pela multidão e ir lá dar-lhe uma aula de Português até ele deixar de repetir a mesma coisa - e mal, "é OBRIGADO, que você é um homem!" - para fazer aquilo que lhe competia, cantar) e vimos o fogo-de-artifício antes dos Muse. Foi bonito, sim senhor. Não ficámos para os Muse, mas deve ter sido um concerto excelente, para variar, tirando o facto de que estava lá meio mundo e não se iria avistar grande coisa para o palco, mesmo em cima da colina. Nem quero imaginar como terá sido a noite passada, com lotação esgotada! A manter estas características, não aconselho o RiR a quem tenha dificuldades na mobilidade ou leve a família atrás. 

 

Finalmente, deixo uma dica infalível para quem não dispensa a sua garrafa de água e ainda vai ao Rock in Rio no próximo fim-de-semana. Já que as equipas de segurança nos tiram as tampas da garrafas que levarmos, vocês levem uma tampa suplente escondida algures (super rebeldes). E não se esqueçam da marmita! De nada.

 

Veredicto: ir ao primeiro dia do Rock in Rio 2018 foi uma experiência positiva. Deu para entender a relevância que lhe atribuem, aquilo de que me andaram a falar estes anos todos. Há todo um ambiente a explorar. Vale pelo matar da curiosidade e, quando se vai com amigos, tudo corre bem ou ainda melhor. É um evento descontraído, mesmo não sendo o melhor. Caso haja disponibilidade no orçamento, ir é a melhor solução para tirar as teimas, como eu fiz. Para ver os grandes artistas... é que recomendo que fiquem em casa, porque, na melhor das hipóteses, se não forem de acampar à frente do Palco Mundo às 13h... dificilmente terão boas condições de visibilidade. 

Fui à Feira do Livro 2018 e comprei... um livro (e uma fartura!)

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Lembram-se de 2014? Conseguem ver as diferenças em relação a 2018? 😂Nesse ano, em duas ou três idas à Feira do Livro de Lisboa, devo ter comprado mais de quinze livros. Em 2015, a última FLL a que fui, também não devo ter comprado tantos. Em 2018 - ontem - comprei um. A que se deve esta redução? Talvez já não ande a comprar livros às dúzias só porque sim. Prefiro comprar em qualidade do que em quantidade. Já não compro livros só porque custam 3€ e têm mais de 3,70 estrelas no Goodreads, compro porque os quero mesmo e me interesso pelo que lá espero encontrar. Além disso, já ultrapassei todos os orçamentos quando estive na Escócia e gastei £40 em paperbacks, pelo que também não me falta material de leitura para as próximas semanas. 

No entanto, estou contente com o livro que comprei, A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar, do Ricardo Araújo Pereira. Ainda tive 3€ de desconto em comparação ao PVP normal. Até agora (já vou a meio), ainda não desiludiu. Já o queria desde que soube que ia ser lançado. Aliás, eu só não vou a correr tirar a pós-graduação em Artes da Escrita, da FCSH, onde ele dá aulas (entre tantos outros escritores que admiro), por conflito de horários. 

 

Quanto à FLL... só tenho pena que o tempo - tal como os meus horários malucos de trabalho - não tenha cooperado muito este ano, para lá ter ido mais vezes, nem que fosse comer uma fartura. Fui ontem, comi ontem, já não foi mau. Agora, fica para o ano. Até 2019!