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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Fui à Feira do Livro 2018 e comprei... um livro (e uma fartura!)

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Lembram-se de 2014? Conseguem ver as diferenças em relação a 2018? 😂Nesse ano, em duas ou três idas à Feira do Livro de Lisboa, devo ter comprado mais de quinze livros. Em 2015, a última FLL a que fui, também não devo ter comprado tantos. Em 2018 - ontem - comprei um. A que se deve esta redução? Talvez já não ande a comprar livros às dúzias só porque sim. Prefiro comprar em qualidade do que em quantidade. Já não compro livros só porque custam 3€ e têm mais de 3,70 estrelas no Goodreads, compro porque os quero mesmo e me interesso pelo que lá espero encontrar. Além disso, já ultrapassei todos os orçamentos quando estive na Escócia e gastei £40 em paperbacks, pelo que também não me falta material de leitura para as próximas semanas. 

No entanto, estou contente com o livro que comprei, A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar, do Ricardo Araújo Pereira. Ainda tive 3€ de desconto em comparação ao PVP normal. Até agora (já vou a meio), ainda não desiludiu. Já o queria desde que soube que ia ser lançado. Aliás, eu só não vou a correr tirar a pós-graduação em Artes da Escrita, da FCSH, onde ele dá aulas (entre tantos outros escritores que admiro), por conflito de horários. 

 

Quanto à FLL... só tenho pena que o tempo - tal como os meus horários malucos de trabalho - não tenha cooperado muito este ano, para lá ter ido mais vezes, nem que fosse comer uma fartura. Fui ontem, comi ontem, já não foi mau. Agora, fica para o ano. Até 2019!

Uma terra para gente mesmo muito rica

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Tenho andado a evitar politiquices aqui pelo blogue, mas há um tema actual que me mexe com os nervos e que eu também sinto necessidade de partilhar convosco, para que mais vozes se possam juntar e mais cabeças possam pensar. Vamos falar sobre o preço das rendas em Lisboa e arredores, vamos falar da impossibilidade de viver em Lisboa ou num raio de 50km, vamos falar sobre a eminência daquela voz que nos diz - a nós, gente miúda quase graúda que quer sair de casa dos papás - que nunca iremos passar da cepa torta, porque tudo aponta para que nunca tenhamos dinheiro para ir viver sozinhos, ou mesmo com as caras metades, ou amigos, ou sequer constituir família.

 

Porque isso, viver em Lisboa, em 2018, é só para ricos. Mas gente mesmo muito rica. 

 

Neste momento, é cada vez mais difícil para qualquer pessoa encontrar uma casa para arrendar em Lisboa e arredores. O preço das rendas (e dos imóveis para venda) é superior aos salários e reformas dos cidadãos, há até quem se veja despejado da casa onde morou toda a vida por causa da actualização do contrato (sempre com valores a apontar para cima) ou porque o proprietário quer vender. Poder ter um tecto em Lisboa é um luxo. 

 

Para alguém da minha geração, é impossível entrar no mercado imobiliário; para as restantes gerações, é impossível ficar. Mesmo com rendimentos superiores ao salário mínimo, com 1000€ ou 2000€...

 

Como é que alguém com um salário líquido de 1000€ consegue pagar um T0 a 500€ em Lisboa? Ou um T2 a 1300€? Ou um T3 a 2000€? Até no concelho onde eu resido, a 30km de Lisboa, um apartamento T2 custa 400€ e os preços têm estado a subir constantemente nos últimos dois anos, porque muitas famílias se têm mudado ainda mais para Sul desta Margem. Soma-se o passe combinado de transportes públicos, 100€, três horas na deslocação diária, e aí está a Matemática feita.

 

Por causa destas rendas ridículas - e rendimentos ainda mais incompatíveis com todo o cenário nacional - pessoas como eu e até as restantes pessoas que vivem comigo não conseguem deixar de viver todas num agregado familiar gigante e, apesar de unido, cheio de incompatibilidades que vão surgindo por causa dessa condição. Em alternativa, estamos condenados a ter roommates para sempre. 

 

E eu... 

Como todas as pessoas, quero ter um espaço só meu, sobre o qual se possa dizer que fui eu que conquistei. Pode não ser agora. Contudo, um dia, talvez daqui a um par de anos, cinco, aos trinta, aos trinta e cinco...

 

Se arrumei, arrumei; se desarrumei, desarrumado estará. Se cheguei tarde, seja. Cedo, ainda bem. Convidar alguém sem pedir licença, entrar e sair porque sim, gerir o que é mesmo meu.

 

Todos têm direito a ter um tecto sobre as suas cabeças, a formarem família, a tornarem-se independentes, a deixarem os pais gozar a sua própria independência depois duma vida a criarem-nos.

 

Nem sei porque me estou a justificar.

 

No outro dia, pensei "nunca vou conseguir sair daqui [da casa da minha família]". É triste, mas uma verdade que se aproxima a passos largos da minha vida. 

 

Quando é que esta bolha vai abrandar? Ou rebentar? 

 

E há quem ache mal a minha geração gostar de lanchar nos cafés da moda... é das únicas coisas que [ainda] nos resta! 

Não gostei do LxFactory, não gostei da livraria Ler Devagar, mas percebo o seu charme

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Talvez tenha sido por causa da chuva, talvez tenha sido por causa do frio, mas não gostei do LxFactory (também não gostei da livraria Ler Devagar, mas já lá iremos). Depois duma vida inteira a viver perto de Lisboa e de muitos anos a lá estudar, fui para a Tailândia em pleno desconhecimento deste sítio in

Agora que voltei, estabeleci como objectivo visitar todos os locais que ainda não conheça em Lisboa e que eu sinta que me possam surpreender. Foi mesmo com isso na mente que fui visitar o LxFactory. Até combinei um plano completo com a minha amiga Carolina, para poder experimentar todas as variantes possíveis do dito spot. Almoçámos lá, visitámos todos os tipos de loja e quase nos aventurámos numa sobremesa.

 

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Aqui seguem algumas impressões...

 

Ora, ponto número 1: os preços no LxFactory encontram-se inflaccionados pela taxa do "ser da moda", isto é, quem lá vai deve estar normalmente disposto a gastar mais dinheiro do que se fosse a outro sítio qualquer. Começou com o preço do almoço. 3€ por uma sopa numa taça minúscula, por onde se poderia beber chá, mais 3€ por um crepe de legumes com 5cmx2cm. Por pessoa, tudo isto. Ah, e um litro de água custou 3,50€ (a dividir pelas duas). Eu sei que Lisboa não é a cidade mais barata do mundo, mas achei isto uma roubalheira. Pelo menos, as doses poderiam ser mais simpáticas. Todos os outros restaurantes tinham menús completos por uma média de 15€. Oh. Meu. Deus. Tentámos as sobremesas, mas, pelo menos a mim, pareceu-me um excesso pagar quase quatro euros por uma fatia de bolo (disclaimer: depois de sairmos do LxFactory, fomos a uma pastelaria local, mesmo à saída).

 

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Ora, ponto número 2: o sítio não é assim tão bonito, nem agradável. Está bem, na semana passada esteve sempre a chover, o piso estava molhado, o céu nublado, as pessoas tristes e os cabelos ao vento. Mas não senti vibrações positivas enquanto estive no LxFactory, só senti um ambiente de coolness forçada. Não senti sequer que fosse um sítio tão artístico como tanta gente diz em todo o lado. Salvaram-se alguns graffitis interessantes, uma e outra mensagem curiosa, mas é só. Sem ser as esplanadas dos restaurantes, nem havia muitos bancos para os visitantes se poderem sentar e apreciarem as vistas.

 

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Ora, ponto número 3: depois de almoço, fomos à livraria Ler Devagar. Obviamente, eu estava entusiasmadíssima, poderia dar pulos de alegria por finalmente visitar esta livraria santificada nos blogues. Felizmente, também tinha um certa noção de que me poderia vir a desiludir. Pois, desiludi-me. Tem uma boa seleccção de poesia - devo reconhecer - mas o resto dos livros fica áquem das expectativas, não porque seja maus, mas sim porque são os mesmos livros que encontramos em qualquer outra livraria. A forma como estão organizados também não é nada de jeito, até me pareceu que estavam misturados autores portugueses com estrangeiros, não-ficção com ficção, géneros distintos com outros. Promoções... poucas, nem os preços me cativaram. Ficam no olho os mecanismos suspensos e alguns outros detalhes fofinhos, por exemplo, nos cafés dentro da livraria.

 

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Ora, ponto número 4: só encontrei uma casa-de-banho em todo o recinto. Sublinho, até: uma sanita. E tive dores de barriga. E tinha três pessoas atrás de mim, à espera que eu saísse. Não, não foi o momento mais confortável da minha vida, tive de apressar os meus assuntos e isso não me deixou muito feliz. (Se calhar, até havia mais casas-de-banho, mas o facto de eu não as ter encontrado também diz muito.)

 

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Ora, ponto número 5: safam-se mesmo os graffitis e a decoração de certas lojas. Pagam-se preços inflaccionados em todo o LxFactory, mas ao menos enchemos o olho nalguns (repito - alguns) sítios. Ainda assim, penso que esses pormenores são mais bonitos em foto do que ao vivo. Pronto, digamos que o LxFactory é um sítio fotografável,giro para o Instagram. 

 

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Após reflectir sobre a minha experiência, tive mesmo de chegar à conclusão de que não gostei do LxFactory. Fiz por tudo para não ser do contra, tentei procurar pontos positivos, mas concluí sempre que, com tantos locais lindos e maravilhosos em Lisboa, com uma área tão extensa e felizmente renovada à beira do Tejo, com prédios de todos os séculos e mais alguns que não encontramos em mais nenhuma cidade, com tanto espaço verde e urbano onde dá para lavar os olhos e também a alma... O que é que o LxFactory tem de especial? Bem... publicidade? Bom nome? É giro ir-se lá uma vez, ver como é e tal... e pronto. Não lhe consigo achar piada, principalmente quando penso no resto de Lisboa, na paz, beleza, tradição e inovação que esta cidade combina.

 

Contudo, fico humildemente à espera dos vossos comentários! Acham que estou a exagerar? Que deveria ter visto coisas que não vi, para as quais não olhei como deve ser? Que ainda me posso vir a surpreender se lá voltar mais uma vez? Veremos.

 

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Lisboa com chuva

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É uma desolação, Lisboa com chuva. Esta cidade que, por norma, se apresenta sempre solarenga, com o céu cor de Tejo... Só apetece hibernar. Quando vivia em Banguecoque, havia meses em que chovia todos os dias, mas raramente me sentia tão vazia e com tão pouca energia quanto me sinto quando chove aqui em Portugal. Ainda por cima, está frio. Felizmente, já me voltei a habituar ao Inverno português, depois de ano e meio quase seguido de Verão eterno. Sinto-me três vezes mais infeliz, ou três vezes menos feliz, quando vejo as calçadas alagadas e as esplanadas vazias. Dá vontade de gritar o quão injusto é ver Lisboa assim. Espero que os santos meteorológicos tenham piedade de mim e do meu desconsolo, ao ver-me debaixo dum céu cinzento e escrava de chapéus-de-chuva.

 

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Ser feliz longe de Portugal

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Para mim, ainda é difícil ser totalmente feliz longe de Portugal. Há muitos momentos em que me pergunto o que ando a fazer tão longe. Será mesmo necessário para a minha experiência de vida? Será que essa experiência fará diferença na minha felicidade a longo prazo? E trabalhar e obter um diploma do estrangeiro fará diferença para encontrar um bom emprego em Portugal no futuro? É possível ser feliz longe da família e dos amigos? Por que parece tão difícil estabelecer novas relações? O que é que me poderá fazer feliz, da maneira como eu era no meu país?

 

Para mim, ser feliz longe de Portugal passa, em grande parte, por ignorar que estou longe de Portugal. Encontrar semelhanças entre a Tailândia e Portugal, Bangkok e Lisboa, ou os arredores de Bangkok e os arredores de Lisboa, onde cresci. Passa por olhar para os tailandeses, conviver com eles, trabalhar com eles, e procurar semelhanças em relação aos portugueses.

 

Ainda assim, por outro lado, ser feliz noutro sítio qualquer que não o nosso lar ou, pelo menos, um lugar que nos seja familiar, é aceitar as diferenças que nos saltam aos olhos e torná-las um hábito ou mesmo um prazer.

Há muitos prédios altos? Já vivi num e a vista é lindíssima lá de cima. Agora, é usufruir dos rooftops

O trânsito é uma loucura? Os táxis são baratos, posso apanhar um táxi-mota e a rede ferroviária é densa, para compensar. 

A comida tradicional é picante? Também é muito barata e assim até passo a vida em aventuras gastronómicas, o que é sempre entusiasmante. Senão, é tirar um tempinho para cozinhar em casa.

Há poucos espaços verdes? Mas pelo menos existem, e se existem devo tentar lá ir o máximo possível. Ainda por cima, a renda é tão barata que posso viver num condomínio com um jardim extenso.

O tailandês é uma língua difícil de atingir, quanto mais de dominar? Vejamos as adversidades como um desafio. Farei sempre um esforço para aprender.

 

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Ser feliz longe de Portugal é um desafio constante, porque o que eu sinto (e só posso mesmo falar por mim) é que a felicidade não aparece por via natural. Antes tem de ser activamente procurada do que simplesmente esperada. Se ficar fechada em casa a lamentar-me, nada me acontece, nada me estimula. A vida não pode ser só trabalho.

Contudo, o meu caso é muito específico. Eu não fui obrigada a sair de Portugal e só saí porque já tinha um plano a seguir. Nem consigo imaginar o que será sair de Portugal sem trabalho em vista, sem quem dê uma ajuda, sem conhecer ninguém. Nem imagino a dor dos emigrantes que vão sem data de regresso, contra a sua vontade, com uma família para criar em Portugal, ou que arrastam famílias inteiras consigo para território desconhecido. Aqueles que nunca tiveram, sequer, a intenção ou o sonho de sair. Como será a procura pela felicidade destas pessoas?

 

Portugal é um país de gente que sai e vai por esse mundo fora à procura de qualquer coisa que lhes falta. A mim, fazia-me falta ver mais mundo e trabalhar e estudar no estrangeiro. Fazia-me falta viver sozinha e ter o meu espaço. Proporcionou-se tudo isso… desta forma, para o bem e para o mal.

Não me arrependo, mas não deixo de pensar como seria a minha vida em 2017 se, em 2016, não tivesse feito as escolhas que fiz. Acho que é por aí que também passa a felicidade longe de Portugal, para mim, que sou nova, tenho uma vida pela frente. É relativamente fácil não me arrepender, mesmo contando com momentos baixos, baixos, baixos.

 

Assim, a pergunta que deixo é: quão simples será ser feliz longe de Portugal para velhos, menos velhos e mais novos? Para quem teve de ir e para quem assim o escolheu? A julgar pela extensão das comunidades lusas por “aqui e além-mar”, talvez se prove que, de facto, somos uns seres muito adaptáveis e capazes de encontrar a felicidade, talvez nas próprias (novas) comunidades que se formam.

Na Tailândia, devemos ser cerca de duzentos – duzentos membros, contam os grupos de Facebook. Um pouco mais ou um pouco menos, mas em Bangkok todos nos conhecemos. Mais próximos ou mais distantes uns dos outros, não deixamos de formar uma comunidade.

 

Se tiverem de emigrar de Portugal, não se isolem do mundo. Recorram às comunidades portuguesas que vivem por perto, não se isolem. Ser feliz longe de Portugal é levar o nosso país no coração, a nossa língua no ouvido e fazer amigos onde quer que estejamos, portugueses, tailandeses, binacionais, trinacionais, gente de todo o mundo. Contra mim falo, que sou um bicho do mato, mas ser professora tem disto, tão bom: estou quase sempre acompanhada. Ainda bem! Mas, para aqueles que não têm a mesma oportunidade de socialização continuada no trabalho: não sucumbam à facilidade de nos habituarmos a seguir a rotina casa-trabalho-casa. 

 

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(Por outro lado, penso que não devemos descurar os nossos antigos hábitos, sejam eles hobbies, partes da antiga rotina, contacto com os amigos do outro lado... Devemos continuar a ser quem éramos antes, apenas num sítio distinto.)

 

Olhem à vossa volta, apreciem a paisagem. Apreciem o sítio onde têm de viver. Olhem para tudo de vista lavada, para as pessoas e para a comida e para o verde e para os prédios e até para o chão!

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Sejam felizes, ou tentem!

 

(Para mais ideias aleatórias sobre viver em Portugal vs viver na Tailândia, aqui ficam alguns apontamentos.)

O meu Carnaval com Shakespeare e Martin Luther King Jr.

[Críticas à peça de teatro As Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos e ao filme Selma.]

 

No final de 2014, tomei duas decisões: que havia de ir mais vezes ao teatro e que havia de ir mais vezes ao cinema. Ok, e que havia de ir mais vezes a exposições de arte, a museus e etc e tal, mas ainda não cheguei lá (por agora!).

Sendo assim, já comecei a investir nessas decisões durante este fim-de-semana prolongado de Carnaval.

 

 

No Domingo, fui ver a peça As Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos, no Teatro Tivoli. Já esteve em cena no ano passado, depois esteve noutras zonas do país e há uns meses regressou à capital. Durante todo este tempo, nunca parei de pensar "vou ver no próximo fim-de-semana... e vou no outro... e talvez depois dos testes... e agora não tenho dinheiro" - até que recebi a derradeira ameaça. 15 de Fevereiro de 2015 seria o seu último dia em Lisboa, muito provavelmente pela última vez (uma terceira temporada de uma peça de teatro, em menos de dois anos, na mesma cidade, em Portugal, não seria pedir demasiado?). Claro que mandei o dinheiro às urtigas, deixei de ser forreta e lá fui eu, mais a minha avó e a minha tia.

Primeiro aspecto a frisar: a opinião pública acaba por viciar muito as nossas expectativas.

 

Esclarecimento: zonas de interdição de automóveis anteriores a 2000 em Lisboa

Para quem ainda tem dúvidas acerca de que automóveis podem circular no centro de Lisboa desde 15 de Janeiro de 2015, podem obter a lista pormenorizada no site da Câmara Municipal. Existem três zonas de emissões reduzidas na capital, consoante a data de fabrico das viaturas: EURO 1 (veículos construídos antes de julho de 1992), EURO 2 (veículos de 1996 ou posteriores) e EURO 3 (em geral, veículos ligeiros fabricados depois de Janeiro de 2000 e pesados depois de Outubro de 2000). Para mais informações acerca dos limites dessas zonas, aqui vos deixo o link do pseudo-edital, para que não restem perguntas.

Para os carochas, para os Opel Corsa cinzentos, para os Volkswagen Pólos e todos os calhambeques deste país

Sei que ainda não aprofundei muito o assunto por aqui, mas estou a tirar a carta de condução desde Dezembro. A coisa vai bem, muito obrigada, tirando as últimas duas aulas em que me puseram um carro nas mãos (Mercedes CLA de Novembro de 2014, upa upa), sempre à hora de ponta, primeiro ao fim da tarde, hoje ao início da manhã, e eu pensei que ou me daria uma coisinha má ou que alguém morreria por minha culpa, tipo uma criança indefesa ou um velhote daqueles que ocupa os muitos cafés do bairro de Alvalade enquanto conversa com os vizinhos.

Mas, daqui a dois meses (prevê-se), serei eu uma condutora mais ou menos eficaz, mas encartada seja como for, mas o bólide cá de casa (aka carrinho da minha avó) terá de me encher as medidas, porque não há outro. Nem orçamento para o trocar. E este bólide é de '98. E, a partir de hoje, não poderá entrar no centro de Lisboa, desde a Praça de Espanha até à Avenida de Ceuta. Não é que me faça falta andar todos os dias de carro em Lisboa, fica-me bem mais barato em dinheiro e tempo usar os transportes píublicos (que, felizmente, são suficientes para os meus percursos habituais), mas alguma vez há-de fazer falta, nem que seja para passear, e aí é que vão ser elas.

Uma pessoa sujeita-se a encontrar um agente da autoridade e a levar uma multa ou uma pessoa contenta-se em não ir a Lisboa de todo?

Infelizmente, a minha situação não é, de bué bué bué de longe (como no Shrek), a pior. Há pessoas que precisam do carro para irem trabalhar todos os dias. Há pessoas que vivem em zonas mal servidas pelos transportes públicos, fora quando nem os têm no raio de quilómetros a fio. Há pessoas a quem fica mais económico servirem-se da sua viatura pessoal do que andarem nas confusões dos autocarros, dos comboios, dos eléctricos e do Metro de Lisboa. E quem são as grandes figurinhas deste país para dizerem a essas pessoas que o seu bolidezinho de estimação não pode entrar no centro de Lisboa? Quem são eles, que ganham milhares de euros ao final do mês, para dizerem a um cidadão que ganhe o ordenado mínimo para arranjar uma alternativa ao único automóvel de que dispõe, um Volkswagen Polo de 1998 como é o da minha avó, ou para comprar um novo, mais recente por apenas dois anos? E depois, para o ano? Já passam a ser os anteriores a 2001? A 2002? A 2003?

Seja ou não por interesses desconhecidos (cof, acordos com marcas, cof), alheios a todas as desculpas de mau pagador que esta é uma medida ecológica, que pretende zelar pelo bom ar da capital, a hipocrisia vigente na alma e nas mãos desta gente que nos governa parece não ter limites. Ainda no ano passado as viaturas proibidas eram apenas as fabricadas antes de 1993 ou 1995, agora já se passou para 2000 e, para não haver dúvidas, um dia há-de chegar à obrigatoriedade de ter um carro com menos de cinco anos, dois, um. Decidam-se! Ter um carro neste país não é um luxo. Se as famílias têm capacidade para ter um, é mesmo porque não têm outra forma de se deslocar. A maioria da população não sonha com carros do ano X, da marca Y, com características Z, mas sim com um carro utilitário e que, por favor, todos os santinhos nos guardem disso, só vá avariando assim muito raramente.

É pedir demasiado querer ir trabalhar com um popó de 1994? Ou, se é para trabalhar, tem de ser em grande forma e aparato?

E pronto, é neste mundo que eu já conduzo.

Testámos aqueles aparelhómetros do Metro de Lisboa

 

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O Ricardo é que disse "podes meter estas fotos lá nos blogues!". Parece que somos jovens, bem parecidos e fotogénicos, por isso compreende-se. Experimentámos o TOMI da estação do Rato e está aprovadíssimo. Mas, também, o que é que nós não aprovamos? Juntos, divertimo-nos sempre com qualquer coisa.

É bom ter uma cara-metade (ah ah ah, lamechice, belhaaaargh)!

Bicheza urbana nos transportes públicos

Normalmente, as pessoas já se comportam como bichos nos transportes públicos. Em dias de chuva, então, todo o seu potencial selvagem ganha outro significado, toda uma nova dimensão. Empurram, dão cotoveladas, dão pontapés, dão rabadas - é uma alegria. Neste caso, é a minha tristeza. Com os meus 50kg, nem o metro e sessenta e nove que tenho me salva. Como se não bastasse, tenho ar de miúda e, provavelmente, de quem não faz mal a uma mosca (ainda assim, as aparências podem iludir!) Ninguém me respeita nos transportes públicos, ninguém respeita o meu espaço pessoal e, por isso, sofro horrores e traumas cada vez que ando de Metro ou de autocarro (vá lá, que até me salvo no comboio, mas é só porque entro sempre na primeira ou numa das primeiras paragens dos trajectos). Ou seja, basta andar de Metro ou de autocarro em hora de ponta para ser albarroada por toda uma panóplia de bichos urbanos, mas nem por isso menos selvagens, de todos os tamanhos, feitios, etnias, estratos sociais...