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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procura-se uma alegre casinha, tão modesta quanto eu

Não é para mim, é para uma amiga, começa assim este texto, da forma mais sincera e menos deslumbrada possível. Já vivi do outro lado do mundo e, quando regressei, não me quis iludir: ter onde viver em ou perto de Lisboa é um luxo hoje em dia. Acabei de ver num grupo de Facebook um lote para venda num parque de campismo nos subúrbios por 20.000€. Vamos rir para não chorar? Na zona da minha casa, o preço de vivendas geminadas aumentou cerca de 50.000€ desde o ano passado, quando também andei atenta; já nem há apartamentos para alugar, só para comprar - eu vivo a quase uma hora e meia de Lisboa. Como é que é possível?

 

A minha família deixou Lisboa e mudou-se para a margem Sul do Tejo há mais de 30 anos. Há menos de 20, um certo ministro chamou à margem Sul "um deserto". Certamente nunca terá passado por Almada, Seixal, Amora, Barreiro, Quinta do Conde... Há muitas décadas que a margem Sul já não é o destino de férias e fins-de-semana dos lisboetas. Com o advento da Fertagus e outras empresas de transportes, o distrito de Setúbal foi recebendo cada vez mais pessoas, Lisboa passou a ser cada vez mais acessível, enquanto os passes a custos reduzidos implementados este ano têm aumentado a procura de habitação na extensa área metropolitana de Lisboa. O trânsito e os carros continuam lá, mas os comboios, barcos e autocarros seguem todos os dias um pouco mais cheios do que no dia anterior.

 

Eu ainda não estou activamente à procura de casa, mas os meus amigos estão. Ora porque vivem demasiado longe de Lisboa para que as viagens diárias sejam sustentáveis, ora porque querem constituir a sua própria família, ora porque querem simplesmente ter o seu espaço - e, neste último grupo, também me incluo - precisamos de viver nalgum lado. 

 

Temos falado várias vezes sobre sair de Lisboa. Não será fácil, mas vemo-nos a procurar emprego noutras zonas do país, onde seja mais barato (quiçá possível) viver, onde não tenhamos de ser mais uma formiga numa lata de sardinhas à qual que chamam transporte público, onde possamos respirar, onde não tenhamos de andar aos encontrões com ninguém, onde não tenhamos de perder tempo de vida dum lado para o outro. Lisboa é uma cidade em franco crescimento, mas com elevados custos para o bem-estar da população, reduzindo-se a qualidade de vida constantemente, quando as infraestruturas e os serviços já não conseguem dar resposta a tantos habitantes (quando temos de tirar senha quatro meses antes para renovar o Cartão de Cidadão; ou quando deixamos de ter vaga para os nossos filhos nos jardins de infância e escolas públicas).

 

Os meus amigos querem encontrar casa, eu quero encontrar um escritório só para mim. Lisboa não tem espaço para nós. Será que Lisboa não nos quer? 

 

Claro que nada é tão simples quanto isto. As leis do mercado imobiliário ditam que os preços podem continuar a aumentar. Ainda há muita procura. No entanto, até alguns estrangeiros que se estão agora a mudar ou a pensar mudar-se para Lisboa começam a fazer contas à vida. Eu sei disso em primeira mão, porque são eles os meus clientes e potenciais clientes. Trabalho e falo com eles todos os dias e sei disto em primeira mão: nem os rendimentos médios americanos, ingleses ou alemães conseguem pagar 2000€ ou 3000€ por um apartamento onde possam construir uma família com o conforto desejado. Investimento estrangeiro my ass. Nem os estrangeiros ficam com vontade de investir os seus rendimentos neste país.  Lisboa chegou a ser cool promovendo o seu baixo custo de vida. Agora... agora nada.

 

O que pagamos em impostos, o que recebemos em salários e rendimentos, versus o que nos pedem por um quarto esconso que seja... São desproporcionais. E não, não queremos viver em quartos para sempre, nem em casa das nossas famílias. Em vez de estarmos a progredir, estamos a regredir. Na geração dos meus pais, além de haver emprego, havia a possibilidade de se ter uma casa própria - um luxo, não é verdade? Agora, vivemos em partes de casa, se calhar até dividimos um quarto com mais pessoas. Sabem quem fazia isso aqui em Lisboa?  Os meus bisavós. Há setenta anos. 

 

(E, já viram...? Se as pessoas que conheço não têm a possibilidade de pagar uma habitação própria, sendo efectivos nas empresas e instituições onde trabalham, ganhando pelo menos 50% mais do que o salário mínimo em início de carreira e tendo um nível académico superior, o que será das pessoas que não cumprem estas condições...? Será esta cidade só para os ricos, mesmo ricos, ostracizando todos abaixo da classe média alta...?)

 

Ah e tal, mas isto é tudo porque Lisboa está a desenvolver-se, ou preferimos ter Lisboa como era antes? Este argumento é tão humilhante para quem constrói a sua vida na capital, que nem merece resposta.

 

Então, e quem vive e trabalha em Lisboa, para o que conta? 

 

Durante as férias, passei por Tomar. Fiquei com vontade de me mudar logo. Espreitei várias montras de agências imobiliárias e babei pelos preços apresentados. Pagando o mesmo que pagaria por um mero escritório de 10m2 sem luz natural em Lisboa, poderia arranjar um T2 ou T3 no centro da cidade de Tomar; poderia andar dum lado ao outro em menos duma hora, teria espaços verdes, parques, restaurantes, livrarias, lojas de roupa, museus, cineclube, escolas, o instituto politécnico... Tudo isto ali, a menos de duas horas de Lisboa (da "civilização"). Quão utópico é querer-se viver, em vez de se sobreviver?

 

Pergunto-me se não começaremos a sair de Lisboa, aos poucos. É isso que a maioria dos meus amigos ambiciona neste momento. Afinal, quem está mal muda-se, não é verdade? Eu provavelmente também não terei vontade de continuar por cá, se tiver oportunidade de viver noutro sítio. Lisboa já não me parece uma cidade sustentável. Vivemos no "demais" constante. Já nem o oásis de viver no meio do pinhal e a 20 minutos das praias me parece suficiente nos tempos que correm, se para lá chegar tenho de passar por provações e agitações que me achincalham os nervos e me cansam mais do que o próprio ritmo diário de trabalho e enriquecimento pessoal e profissional. Perco quase metade dum dia de trabalho a deslocar-me, e o que me salva é trabalhar por conta própria e poder evitar horas de ponta e escolher quantas e a que horas trabalho.

 

Não sou economista, apesar de me interessar por estes temas, por isso não vos sei responder o que seria necessário fazer para melhorar Lisboa, se regular os preços do mercado imobiliário, se aumentar os rendimentos das pessoas, se construir e renovar mais casas na Grande Lisboa, se outra coisa qualquer. E se fosse só isso... Ainda teríamos de pensar nos problemas que surgem duma cidade sobrehabitada e sobreexplorada. Sei que não é assim que os indivíduos que contribuem para o desenvolvimento duma cidade que se diz tão na moda, um exemplo de criatividade, inovação e empreendedorismo, merecem viver. Onde está o retorno? Quando essas pessoas deixarem de ter forças e motivação para contribuir, quem é que quererá cá ficar? 

 

Por agora, procura-se uma alegre casinha, tão modesta quanto eu, mas sem pressão. Pode ainda não ser para mim, pode ser para os meus amigos. Ainda tenho outros planos para o meu dinheiro, mas gostava de ter esperança, de saber, que a liberdade de voltar a ter o meu espaço é uma realidade e não um sonho inconcretizável. Ficarei à espera que esta bolha rebente. Plop.

 

(Entretanto, lembrei-me de que já escrevi sobre este tema... É clicar...)

O primeiro dia da Feira do Livro de Lisboa 2019

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Diziam que, em 2019, a Feira do Livro de Lisboa seria maior, mais sustentável e que teria mais actividades. Ainda só fui ao primeiro dia, estive lá por volta da hora do jantar até ao fecho, e estas são as minhas conclusões acerca do que vi.

 

De facto, a Feira do Livro de Lisboa 2019 está maior. Tem mais bancas, mais editoras e projectos, e não é por causa disso que está mais apertada. Continua a haver espaço para circular e é apenas normal que, de vez em quando, tenhamos que esperar pelo leitor anterior para chegar à bancada seguinte. Para quem já tem uma lista de desejos, penso que vai valer imenso a pena esperar pela segunda semana da feira, quando começar a haver Hora H, ou andar à caça dos Livros do Dia. Os descontos parecem ser simpáticos e todas as desculpas são poucas para lá ir arejar as ideias (ainda por cima, trabalho a cinco minutos a pé, que desgraça!!!).

 

Por outro lado, falta comida... de jeito. E em variedade. Apesar de haver opções vegetarianas, há pouco mais do que hambúrgueres, wraps e pitas. As farturas não faltam, mas não fazem um almoço ou jantar. Tudo o resto, que não é muito, é extremamente caro. O meu conselho é que tentem comer antes de ir à FLL ou, se tiverem fome enquanto lá estão, saiam ou levem um lanchinho (e claro que a comida é importante, porque, se forem como eu, são capazes de lá ficar tempo suficiente para precisarem de sustento pelo meio). Também acaba por ser demorado estar nas filas intermináveis ou à espera de se ser servido. Ontem eu e o meu namorado ficámos vinte minutos à espera duma mísera pita de frango com batatas de pacote, tempo esse que gostaríamos de ter gasto a ver livros, o pôr-do-sol ou simplesmente a descansar.

 

No entanto, acho que a minha maior crítica quanto à bebida e comida é outra. Tudo o que era notícia e anúncio à Feira do Livro 2019 declarava que seria OH! tão sustentável! Mas esqueceram-se do mais óbvio: onde podemos encontrar água? Estamos no século XXI, não conheço quase ninguém que não se faça acompanhar garrafas reutilizáveis. Ainda assim, a FLL não tem nenhum sítio onde ir enchê-las, e como se não bastasse vende garrafas de água a 2€. Sendo um evento onde se vai com a família, onde os aficionados ficam bastante tempo e andam dum lado para o outro, debaixo de altas temperaturas, não aleijaria ninguém haver alguns dispensadores de água, mesmo que pagos, em locais estratégicos do recinto. Pouparia os nossos bolsos e o ambiente, tudo ao mesmo tempo. Serei a única a achar que isto faria maravilhas?

 

Quanto às actividades, tenho pena que a Hora H comece só na segunda semana, mas não sei muito mais, porque ainda é demasiado cedo para comentar e porque não costumo ir à Feira do Livro por causa das actividades (excepto os dois clubes de leitura de que faço parte e que já marcaram os encontros de Junho na FLL). Só espero que consigam atrair leitores e potenciais leitores, que propiciem um ambiente familiar agradável e que tornem a Feira do Livro de Lisboa ainda melhor e memorável para os mais novos.

 

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📚 E por aí, quais as vossas expectativas para a Feira do Livro de Lisboa 2019? Eu portei-me muito bem ontem, não comprei nada e estou-me a guardar para os Livros do Dia e para a Hora H. Não me apetece cair em tentação, por isso já tenho uma lista de compras para a primeira semana, a ver se não gasto por impulso o dinheiro de que vou precisar para fazer tudo o que quero durante o Verão.

 

😈 Aproveitem e deixem as vossas queixinhas nos comentários!

Teremos sempre o Tejo

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Não admira que Camões tenha pedido inspiração às Tágides, porque um rio com uma luz assim só poderia albergar ninfas e vida fantástica, seres míticos e lágrimas de quem viu os seus ir e regressar ao longo de séculos. O rio Tejo tem, para mim, uma aura mágica. Chamem-me romântica ou pirosa, mas não consigo negar que este rio exerce um efeito libertador, relaxante e criativo sobre mim. Consigo estar sentada à beira-mar durante várias horas - algures numa esplanada, no chão, num banco, num muro ou na relva - a pensar, a ler e a escrever. Sinto-me mais leve, mais feliz e produtiva quando o faço. Aliás, alguns textos aqui publicados tomaram forma perto do Tejo. Trabalho perto quase todos os dias e, por vezes, tiro uns minutos para me sentar a vê-lo, aos cacilheiros, aos veleiros e aos cruzeiros. É frequente lá almoçar ou comer um gelado, se estiver sol - tanto melhor.  A margem Sul do outro lado, o Cristo Rei a despontar no meio das nuvens, uma ponte de cada lado a cruzar o horizonte. O Tejo é o meu sítio especial.

 

Como não amar o Tejo? Nos melhores e nos piores dias, tê-lo-emos, sempre.

EU FUI... ao Rock in Rio pela primeira vez

Finalmente, tive outra experiência que me faltava na lista "coisas que eu não fiz quando era adolescente e que me vejo obrigada a fazer, antes que a idade adulta me engula, vingando o meu 'eu' de 15 anos": fui ao primeiro dia do Rock in Rio 2018 (momento de histerismo!!!!!!!!!!!!!!!!!!).

 

Há quatro anos, participei num passatempo dos Blogs do Sapo e ganhei dois bilhetes para o Rock in Rio 2014. No entanto, na altura houve um problema e, em vez de receber os bilhetes, recebi uma recompensa diferente. Ora, até há bem pouco tempo as prioridades não eram gastar dinheiro em festivais (pagar propinas, talvez), depois a vida pôs-se à frente e ultimamente ando a concretizar imensos planos, ideias e futilidades que não tive a oportunidade de viver antes, seja por motivos logísticos ou financeiros. Um deles tinha de ser ir ao Rock in Rio.

 

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Estava eu a dizer que fui ao Rock in Rio no dia 23 de Junho, este último sábado. Partiu tudo duma ideia peregrina que me ocorreu menos duma semana antes, do género "vamos lá cometer uma pequena loucura inesperada na conta bancária", e depois arrastei uma amiga que também andava a precisar de espairecer e sair de casa. 

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Então, no dia, chegámos às 18h, ainda ouvimos um pouco do Diogo Piçarra à distância, sentadas na relva, apreciámos os arredores, arranjámos uma bebida e umas batatas fritas, e fomos ver, em primeiro lugar... a Carolina Deslandes. Não, não tem muito de rock, mas ficámos na fila da frente, onde também encontrámos fãs pré-adolescentes, os respectivos pais e até os namorados das mais crescidas (que aparentavam não saber muito bem como lá tinham ido parar). Foi um máximo, cheio de glamour... ou não! Claro que foi um concerto fofinho, familiar, a acompanhar um final de tarde bastante agradável. Só fiquei ligeiramente desgostosa quando "A Miúda Gosta" (apenas uma das minhas músicas favoritas de sempre) foi cantado em dueto com a Maro, cuja voz acho que não se enquadra na música, mas de resto o concerto foi irrepreensível.

 

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O problema foi a hora de jantar. Por acaso, já tínhamos comido qualquer coisa, mas não conseguimos encontrar mais nenhum sítio onde voltar a comer sem ter de esperar em filas por menos de meia hora. Só alguns stands é que tinham snacks e pouca gente, então jantámos pipocas. Na minha mais humilde opinião, de quem não é letrada nestas lides, o catering ficou muito aquém das expectativas. Havia imensas barraquinhas e construções abismais dos parceiros, para distribuir brindes inúteis e fazer publicidade, mas alimento para o estômago nem por isso. Centenas de milhares de pessoas no recinto, e ficou apenas a lição aprendida de levar farnel numa próxima vez.

 

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Além disso, acredito que ainda haja margem para melhorar o acesso às atracções. Por exemplo, ainda pensámos em ir à roda gigante, mas, mais uma vez, encontrámos uma fila que demoraria três horas a escoar. Outros espaços nem se percebia o que eram, porque nem lá conseguíamos chegar perto. Ficou a impressão de que andam a vender mais bilhetes do que a quantidade de pessoas que têm condições para receber e entreter devidamente. Tendo em conta o preço que pagamos pelos bilhetes...

 

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Outro reparo é a falta de "qualidades verdes" que o RiR se orgulha tanto de ter. Excepto o copo de plástico que podemos voltar a encher e que serve de souvenir, todo o festival deve ter produzido imenso lixo desnecessário em brindes, caixas e caixinhas de comida e até em embalagens dos bilhetes vendidos pela Fnac - separador de cartão, dentro de caixa de cartão, envolvido numa película de plástico - um desperdício.

Por outro lado, os meus mais sinceros parabéns pelas instalações sanitárias, que, mesmo nojentas, existiam em número suficiente para uma pessoa não ficar com as cuecas na mão pelo caminho. 

 

Quanto ao resto dos concertos, ainda ouvimos os Bastille à noite (que foram fraquinhos, e o vocalista passou o concerto a dizer "Obrigada!", só me apetecia romper pela multidão e ir lá dar-lhe uma aula de Português até ele deixar de repetir a mesma coisa - e mal, "é OBRIGADO, que você é um homem!" - para fazer aquilo que lhe competia, cantar) e vimos o fogo-de-artifício antes dos Muse. Foi bonito, sim senhor. Não ficámos para os Muse, mas deve ter sido um concerto excelente, para variar, tirando o facto de que estava lá meio mundo e não se iria avistar grande coisa para o palco, mesmo em cima da colina. Nem quero imaginar como terá sido a noite passada, com lotação esgotada! A manter estas características, não aconselho o RiR a quem tenha dificuldades na mobilidade ou leve a família atrás. 

 

Finalmente, deixo uma dica infalível para quem não dispensa a sua garrafa de água e ainda vai ao Rock in Rio no próximo fim-de-semana. Já que as equipas de segurança nos tiram as tampas da garrafas que levarmos, vocês levem uma tampa suplente escondida algures (super rebeldes). E não se esqueçam da marmita! De nada.

 

Veredicto: ir ao primeiro dia do Rock in Rio 2018 foi uma experiência positiva. Deu para entender a relevância que lhe atribuem, aquilo de que me andaram a falar estes anos todos. Há todo um ambiente a explorar. Vale pelo matar da curiosidade e, quando se vai com amigos, tudo corre bem ou ainda melhor. É um evento descontraído, mesmo não sendo o melhor. Caso haja disponibilidade no orçamento, ir é a melhor solução para tirar as teimas, como eu fiz. Para ver os grandes artistas... é que recomendo que fiquem em casa, porque, na melhor das hipóteses, se não forem de acampar à frente do Palco Mundo às 13h... dificilmente terão boas condições de visibilidade. 

Fui à Feira do Livro 2018 e comprei... um livro (e uma fartura!)

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Lembram-se de 2014? Conseguem ver as diferenças em relação a 2018? 😂Nesse ano, em duas ou três idas à Feira do Livro de Lisboa, devo ter comprado mais de quinze livros. Em 2015, a última FLL a que fui, também não devo ter comprado tantos. Em 2018 - ontem - comprei um. A que se deve esta redução? Talvez já não ande a comprar livros às dúzias só porque sim. Prefiro comprar em qualidade do que em quantidade. Já não compro livros só porque custam 3€ e têm mais de 3,70 estrelas no Goodreads, compro porque os quero mesmo e me interesso pelo que lá espero encontrar. Além disso, já ultrapassei todos os orçamentos quando estive na Escócia e gastei £40 em paperbacks, pelo que também não me falta material de leitura para as próximas semanas. 

No entanto, estou contente com o livro que comprei, A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar, do Ricardo Araújo Pereira. Ainda tive 3€ de desconto em comparação ao PVP normal. Até agora (já vou a meio), ainda não desiludiu. Já o queria desde que soube que ia ser lançado. Aliás, eu só não vou a correr tirar a pós-graduação em Artes da Escrita, da FCSH, onde ele dá aulas (entre tantos outros escritores que admiro), por conflito de horários. 

 

Quanto à FLL... só tenho pena que o tempo - tal como os meus horários malucos de trabalho - não tenha cooperado muito este ano, para lá ter ido mais vezes, nem que fosse comer uma fartura. Fui ontem, comi ontem, já não foi mau. Agora, fica para o ano. Até 2019!

Uma terra para gente mesmo muito rica

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Tenho andado a evitar politiquices aqui pelo blogue, mas há um tema actual que me mexe com os nervos e que eu também sinto necessidade de partilhar convosco, para que mais vozes se possam juntar e mais cabeças possam pensar. Vamos falar sobre o preço das rendas em Lisboa e arredores, vamos falar da impossibilidade de viver em Lisboa ou num raio de 50km, vamos falar sobre a eminência daquela voz que nos diz - a nós, gente miúda quase graúda que quer sair de casa dos papás - que nunca iremos passar da cepa torta, porque tudo aponta para que nunca tenhamos dinheiro para ir viver sozinhos, ou mesmo com as caras metades, ou amigos, ou sequer constituir família.

 

Porque isso, viver em Lisboa, em 2018, é só para ricos. Mas gente mesmo muito rica. 

 

Neste momento, é cada vez mais difícil para qualquer pessoa encontrar uma casa para arrendar em Lisboa e arredores. O preço das rendas (e dos imóveis para venda) é superior aos salários e reformas dos cidadãos, há até quem se veja despejado da casa onde morou toda a vida por causa da actualização do contrato (sempre com valores a apontar para cima) ou porque o proprietário quer vender. Poder ter um tecto em Lisboa é um luxo. 

 

Para alguém da minha geração, é impossível entrar no mercado imobiliário; para as restantes gerações, é impossível ficar. Mesmo com rendimentos superiores ao salário mínimo, com 1000€ ou 2000€...

 

Como é que alguém com um salário líquido de 1000€ consegue pagar um T0 a 500€ em Lisboa? Ou um T2 a 1300€? Ou um T3 a 2000€? Até no concelho onde eu resido, a 30km de Lisboa, um apartamento T2 custa 400€ e os preços têm estado a subir constantemente nos últimos dois anos, porque muitas famílias se têm mudado ainda mais para Sul desta Margem. Soma-se o passe combinado de transportes públicos, 100€, três horas na deslocação diária, e aí está a Matemática feita.

 

Por causa destas rendas ridículas - e rendimentos ainda mais incompatíveis com todo o cenário nacional - pessoas como eu e até as restantes pessoas que vivem comigo não conseguem deixar de viver todas num agregado familiar gigante e, apesar de unido, cheio de incompatibilidades que vão surgindo por causa dessa condição. Em alternativa, estamos condenados a ter roommates para sempre. 

 

E eu... 

Como todas as pessoas, quero ter um espaço só meu, sobre o qual se possa dizer que fui eu que conquistei. Pode não ser agora. Contudo, um dia, talvez daqui a um par de anos, cinco, aos trinta, aos trinta e cinco...

 

Se arrumei, arrumei; se desarrumei, desarrumado estará. Se cheguei tarde, seja. Cedo, ainda bem. Convidar alguém sem pedir licença, entrar e sair porque sim, gerir o que é mesmo meu.

 

Todos têm direito a ter um tecto sobre as suas cabeças, a formarem família, a tornarem-se independentes, a deixarem os pais gozar a sua própria independência depois duma vida a criarem-nos.

 

Nem sei porque me estou a justificar.

 

No outro dia, pensei "nunca vou conseguir sair daqui [da casa da minha família]". É triste, mas uma verdade que se aproxima a passos largos da minha vida. 

 

Quando é que esta bolha vai abrandar? Ou rebentar? 

 

E há quem ache mal a minha geração gostar de lanchar nos cafés da moda... é das únicas coisas que [ainda] nos resta! 

Não gostei do LxFactory, não gostei da livraria Ler Devagar, mas percebo o seu charme

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Talvez tenha sido por causa da chuva, talvez tenha sido por causa do frio, mas não gostei do LxFactory (também não gostei da livraria Ler Devagar, mas já lá iremos). Depois duma vida inteira a viver perto de Lisboa e de muitos anos a lá estudar, fui para a Tailândia em pleno desconhecimento deste sítio in

Agora que voltei, estabeleci como objectivo visitar todos os locais que ainda não conheça em Lisboa e que eu sinta que me possam surpreender. Foi mesmo com isso na mente que fui visitar o LxFactory. Até combinei um plano completo com a minha amiga Carolina, para poder experimentar todas as variantes possíveis do dito spot. Almoçámos lá, visitámos todos os tipos de loja e quase nos aventurámos numa sobremesa.

 

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Aqui seguem algumas impressões...

 

Ora, ponto número 1: os preços no LxFactory encontram-se inflaccionados pela taxa do "ser da moda", isto é, quem lá vai deve estar normalmente disposto a gastar mais dinheiro do que se fosse a outro sítio qualquer. Começou com o preço do almoço. 3€ por uma sopa numa taça minúscula, por onde se poderia beber chá, mais 3€ por um crepe de legumes com 5cmx2cm. Por pessoa, tudo isto. Ah, e um litro de água custou 3,50€ (a dividir pelas duas). Eu sei que Lisboa não é a cidade mais barata do mundo, mas achei isto uma roubalheira. Pelo menos, as doses poderiam ser mais simpáticas. Todos os outros restaurantes tinham menús completos por uma média de 15€. Oh. Meu. Deus. Tentámos as sobremesas, mas, pelo menos a mim, pareceu-me um excesso pagar quase quatro euros por uma fatia de bolo (disclaimer: depois de sairmos do LxFactory, fomos a uma pastelaria local, mesmo à saída).

 

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Ora, ponto número 2: o sítio não é assim tão bonito, nem agradável. Está bem, na semana passada esteve sempre a chover, o piso estava molhado, o céu nublado, as pessoas tristes e os cabelos ao vento. Mas não senti vibrações positivas enquanto estive no LxFactory, só senti um ambiente de coolness forçada. Não senti sequer que fosse um sítio tão artístico como tanta gente diz em todo o lado. Salvaram-se alguns graffitis interessantes, uma e outra mensagem curiosa, mas é só. Sem ser as esplanadas dos restaurantes, nem havia muitos bancos para os visitantes se poderem sentar e apreciarem as vistas.

 

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Ora, ponto número 3: depois de almoço, fomos à livraria Ler Devagar. Obviamente, eu estava entusiasmadíssima, poderia dar pulos de alegria por finalmente visitar esta livraria santificada nos blogues. Felizmente, também tinha um certa noção de que me poderia vir a desiludir. Pois, desiludi-me. Tem uma boa seleccção de poesia - devo reconhecer - mas o resto dos livros fica áquem das expectativas, não porque seja maus, mas sim porque são os mesmos livros que encontramos em qualquer outra livraria. A forma como estão organizados também não é nada de jeito, até me pareceu que estavam misturados autores portugueses com estrangeiros, não-ficção com ficção, géneros distintos com outros. Promoções... poucas, nem os preços me cativaram. Ficam no olho os mecanismos suspensos e alguns outros detalhes fofinhos, por exemplo, nos cafés dentro da livraria.

 

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Ora, ponto número 4: só encontrei uma casa-de-banho em todo o recinto. Sublinho, até: uma sanita. E tive dores de barriga. E tinha três pessoas atrás de mim, à espera que eu saísse. Não, não foi o momento mais confortável da minha vida, tive de apressar os meus assuntos e isso não me deixou muito feliz. (Se calhar, até havia mais casas-de-banho, mas o facto de eu não as ter encontrado também diz muito.)

 

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Ora, ponto número 5: safam-se mesmo os graffitis e a decoração de certas lojas. Pagam-se preços inflaccionados em todo o LxFactory, mas ao menos enchemos o olho nalguns (repito - alguns) sítios. Ainda assim, penso que esses pormenores são mais bonitos em foto do que ao vivo. Pronto, digamos que o LxFactory é um sítio fotografável,giro para o Instagram. 

 

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Após reflectir sobre a minha experiência, tive mesmo de chegar à conclusão de que não gostei do LxFactory. Fiz por tudo para não ser do contra, tentei procurar pontos positivos, mas concluí sempre que, com tantos locais lindos e maravilhosos em Lisboa, com uma área tão extensa e felizmente renovada à beira do Tejo, com prédios de todos os séculos e mais alguns que não encontramos em mais nenhuma cidade, com tanto espaço verde e urbano onde dá para lavar os olhos e também a alma... O que é que o LxFactory tem de especial? Bem... publicidade? Bom nome? É giro ir-se lá uma vez, ver como é e tal... e pronto. Não lhe consigo achar piada, principalmente quando penso no resto de Lisboa, na paz, beleza, tradição e inovação que esta cidade combina.

 

Contudo, fico humildemente à espera dos vossos comentários! Acham que estou a exagerar? Que deveria ter visto coisas que não vi, para as quais não olhei como deve ser? Que ainda me posso vir a surpreender se lá voltar mais uma vez? Veremos.

 

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Lisboa com chuva

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É uma desolação, Lisboa com chuva. Esta cidade que, por norma, se apresenta sempre solarenga, com o céu cor de Tejo... Só apetece hibernar. Quando vivia em Banguecoque, havia meses em que chovia todos os dias, mas raramente me sentia tão vazia e com tão pouca energia quanto me sinto quando chove aqui em Portugal. Ainda por cima, está frio. Felizmente, já me voltei a habituar ao Inverno português, depois de ano e meio quase seguido de Verão eterno. Sinto-me três vezes mais infeliz, ou três vezes menos feliz, quando vejo as calçadas alagadas e as esplanadas vazias. Dá vontade de gritar o quão injusto é ver Lisboa assim. Espero que os santos meteorológicos tenham piedade de mim e do meu desconsolo, ao ver-me debaixo dum céu cinzento e escrava de chapéus-de-chuva.

 

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Ser feliz longe de Portugal

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Para mim, ainda é difícil ser totalmente feliz longe de Portugal. Há muitos momentos em que me pergunto o que ando a fazer tão longe. Será mesmo necessário para a minha experiência de vida? Será que essa experiência fará diferença na minha felicidade a longo prazo? E trabalhar e obter um diploma do estrangeiro fará diferença para encontrar um bom emprego em Portugal no futuro? É possível ser feliz longe da família e dos amigos? Por que parece tão difícil estabelecer novas relações? O que é que me poderá fazer feliz, da maneira como eu era no meu país?

 

Para mim, ser feliz longe de Portugal passa, em grande parte, por ignorar que estou longe de Portugal. Encontrar semelhanças entre a Tailândia e Portugal, Bangkok e Lisboa, ou os arredores de Bangkok e os arredores de Lisboa, onde cresci. Passa por olhar para os tailandeses, conviver com eles, trabalhar com eles, e procurar semelhanças em relação aos portugueses.

 

Ainda assim, por outro lado, ser feliz noutro sítio qualquer que não o nosso lar ou, pelo menos, um lugar que nos seja familiar, é aceitar as diferenças que nos saltam aos olhos e torná-las um hábito ou mesmo um prazer.

Há muitos prédios altos? Já vivi num e a vista é lindíssima lá de cima. Agora, é usufruir dos rooftops

O trânsito é uma loucura? Os táxis são baratos, posso apanhar um táxi-mota e a rede ferroviária é densa, para compensar. 

A comida tradicional é picante? Também é muito barata e assim até passo a vida em aventuras gastronómicas, o que é sempre entusiasmante. Senão, é tirar um tempinho para cozinhar em casa.

Há poucos espaços verdes? Mas pelo menos existem, e se existem devo tentar lá ir o máximo possível. Ainda por cima, a renda é tão barata que posso viver num condomínio com um jardim extenso.

O tailandês é uma língua difícil de atingir, quanto mais de dominar? Vejamos as adversidades como um desafio. Farei sempre um esforço para aprender.

 

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Ser feliz longe de Portugal é um desafio constante, porque o que eu sinto (e só posso mesmo falar por mim) é que a felicidade não aparece por via natural. Antes tem de ser activamente procurada do que simplesmente esperada. Se ficar fechada em casa a lamentar-me, nada me acontece, nada me estimula. A vida não pode ser só trabalho.

Contudo, o meu caso é muito específico. Eu não fui obrigada a sair de Portugal e só saí porque já tinha um plano a seguir. Nem consigo imaginar o que será sair de Portugal sem trabalho em vista, sem quem dê uma ajuda, sem conhecer ninguém. Nem imagino a dor dos emigrantes que vão sem data de regresso, contra a sua vontade, com uma família para criar em Portugal, ou que arrastam famílias inteiras consigo para território desconhecido. Aqueles que nunca tiveram, sequer, a intenção ou o sonho de sair. Como será a procura pela felicidade destas pessoas?

 

Portugal é um país de gente que sai e vai por esse mundo fora à procura de qualquer coisa que lhes falta. A mim, fazia-me falta ver mais mundo e trabalhar e estudar no estrangeiro. Fazia-me falta viver sozinha e ter o meu espaço. Proporcionou-se tudo isso… desta forma, para o bem e para o mal.

Não me arrependo, mas não deixo de pensar como seria a minha vida em 2017 se, em 2016, não tivesse feito as escolhas que fiz. Acho que é por aí que também passa a felicidade longe de Portugal, para mim, que sou nova, tenho uma vida pela frente. É relativamente fácil não me arrepender, mesmo contando com momentos baixos, baixos, baixos.

 

Assim, a pergunta que deixo é: quão simples será ser feliz longe de Portugal para velhos, menos velhos e mais novos? Para quem teve de ir e para quem assim o escolheu? A julgar pela extensão das comunidades lusas por “aqui e além-mar”, talvez se prove que, de facto, somos uns seres muito adaptáveis e capazes de encontrar a felicidade, talvez nas próprias (novas) comunidades que se formam.

Na Tailândia, devemos ser cerca de duzentos – duzentos membros, contam os grupos de Facebook. Um pouco mais ou um pouco menos, mas em Bangkok todos nos conhecemos. Mais próximos ou mais distantes uns dos outros, não deixamos de formar uma comunidade.

 

Se tiverem de emigrar de Portugal, não se isolem do mundo. Recorram às comunidades portuguesas que vivem por perto, não se isolem. Ser feliz longe de Portugal é levar o nosso país no coração, a nossa língua no ouvido e fazer amigos onde quer que estejamos, portugueses, tailandeses, binacionais, trinacionais, gente de todo o mundo. Contra mim falo, que sou um bicho do mato, mas ser professora tem disto, tão bom: estou quase sempre acompanhada. Ainda bem! Mas, para aqueles que não têm a mesma oportunidade de socialização continuada no trabalho: não sucumbam à facilidade de nos habituarmos a seguir a rotina casa-trabalho-casa. 

 

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(Por outro lado, penso que não devemos descurar os nossos antigos hábitos, sejam eles hobbies, partes da antiga rotina, contacto com os amigos do outro lado... Devemos continuar a ser quem éramos antes, apenas num sítio distinto.)

 

Olhem à vossa volta, apreciem a paisagem. Apreciem o sítio onde têm de viver. Olhem para tudo de vista lavada, para as pessoas e para a comida e para o verde e para os prédios e até para o chão!

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Sejam felizes, ou tentem!

 

(Para mais ideias aleatórias sobre viver em Portugal vs viver na Tailândia, aqui ficam alguns apontamentos.)

O meu Carnaval com Shakespeare e Martin Luther King Jr.

[Críticas à peça de teatro As Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos e ao filme Selma.]

 

No final de 2014, tomei duas decisões: que havia de ir mais vezes ao teatro e que havia de ir mais vezes ao cinema. Ok, e que havia de ir mais vezes a exposições de arte, a museus e etc e tal, mas ainda não cheguei lá (por agora!).

Sendo assim, já comecei a investir nessas decisões durante este fim-de-semana prolongado de Carnaval.

 

 

No Domingo, fui ver a peça As Obras Completas de William Shakespeare em 97 minutos, no Teatro Tivoli. Já esteve em cena no ano passado, depois esteve noutras zonas do país e há uns meses regressou à capital. Durante todo este tempo, nunca parei de pensar "vou ver no próximo fim-de-semana... e vou no outro... e talvez depois dos testes... e agora não tenho dinheiro" - até que recebi a derradeira ameaça. 15 de Fevereiro de 2015 seria o seu último dia em Lisboa, muito provavelmente pela última vez (uma terceira temporada de uma peça de teatro, em menos de dois anos, na mesma cidade, em Portugal, não seria pedir demasiado?). Claro que mandei o dinheiro às urtigas, deixei de ser forreta e lá fui eu, mais a minha avó e a minha tia.

Primeiro aspecto a frisar: a opinião pública acaba por viciar muito as nossas expectativas.