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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Da universalidade

 

Não sou nenhuma entendida em música e não almejo mais do que um dia me tornar realmente entendida em literatura. Por isso, nem costumo partilhar por aqui aquilo que ouço (isto é, além dos podcasts, que esses sim, são outra predilecção minha). Afinal, as minhas listas do Spotify são meros repositórios de pop dos anos 90 e 2000, algum folk ou acústico por influência de amigos, alguma música clássica ou solos de piano, alguma pop portuguesa que poderia passar em qualquer estação do rádio do país...

 

No entanto, quando gosto, gosto mesmo. E partilho. Só porque sabe bem. Neste caso, sabe bem o conforto duma toada fácil, mas emocionante. Sabe bem a cadência catártica de uma letra que poderia ser cliché, mas que parece muito bem arrumada, sentindo o que toda a gente provavelmente já sentiu: "Foi contigo que aprendi / O que é amar alguém a sós", "Nada nos une / Só nos mantém". Podemos nunca ter sentido precisamente aquilo, daquela forma, mas a imaginação e a empatia dão um empurrão.

 

Há muito conforto neste sofrimento contido que se cinge a quatro inofensivos minutos de evocação do que se passou, e que por isso se vai buscar facilmente ao baú de memórias. Mesmo nos nossos momentos mais felizes, conseguimos lembrarmo-nos de como é sentir o oposto - e vice-versa. Também é isso a arte, seja a música, a pintura, o cinema, a literatura... Sentir pelos outros, e sentir por nós, mesmo que lá atrás, noutra vida.

 

Esta universalidade presente na nossa relação com o que ouvimos, lemos ou vemos quase funciona, diria eu, como um abraço colectivo. Por essa razão é que gostava de ter a oportunidade de, no futuro, estudar com maior detalhe a relação entre as artes e o bem-estar, como é que a a arteterapia funciona, em que moldes, com que resultados, especialmente no que diz respeito à escrita e à leitura (o que já fiz, de modo superficial, na pós-graduação em Psicologia Positiva Aplicada).

 

Até escrevo isto mais como nota futura para mim mesma - será que consigo arranjar maneira de enfiar este tema na minha vida académica? Enfim, entre tantos temas que me apetece estudar...

Escolhi ler mais mulheres para me conhecer melhor

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No ano passado, comecei a fazer um esforço para ler mais livros escritos por mulheres. Achei que, mesmo já lendo muitas por acidente, ou simplesmente sem pensar, podia vir a conhecer mais autoras. Nos últimos anos, tenho tido cada vez mais consciência de que, apesar de não ser propositado, acabamos por viver numa sociedade mais definida pelas ideias, valores, causas e palavras de homens, acabando por insistir num viés delineado pela perspectiva masculina, cisgénero, heterossexual, europeia e/ou ocidental. E, ao começarmos uma cadeia de leituras com uma certa orientação (seja ela de género, geografia, ideologia política...), é normal que continuemos em temas e autores semelhantes ou mais parecidos.

 

Por isso, mudar o rumo das nossas leituras ou escolhê-las mais criteriosa e conscientemente pode ajudar-nos a descobrir novos caminhos, inclusivamente novos interesses.

 

Podia ter escolhido literaturas ou escritores doutras paragens, podia ter procurado assuntos sobre os quais não sei muito. De certa forma, ter escolhido ler mais mulheres, começando em mulheres escritoras ou artistas da Europa Central e Ocidental, ou da América do Norte, ou mesmo brasileiras, que originalmente escrevem em língua portuguesa ou inglesa, acaba por continuar a ser a minha zona de conforto. Não inovei coisa nenhuma, só tentei saber mais sobre vidas como as que admiro profundamente, mas sobre as quais sentia que não sabia o suficiente. Ainda assim, tenho aprendido imenso.

 

Tenho aprendido a analisar e questionar o papel da mulher ao longo do último século, de que matéria e de preocupações é feita a mulher contemporânea, quais as dúvidas e os anseios que tem, o que tem conquistado e o que há para conquistar, qual o seu lugar de fala, as suas responsabilidades. E qual a sua voz no meio da multidão, e de que forma se ouve. E como é que essa voz tem sido retratada pelos outros, nomeadamente pelos homens, sendo por vezes tão diferente do que a fazem parecer. Particularmente neste Verão, li muita crónica, muita autobiografia, ouvi muito podcast - e com as mulheres como protagonistas.

 

Em geral, penso que ler mais mulheres me tem ajudado a aprender com possíveis, mesmo que surpreendentes, exemplos a seguir. Ler e ouvir outras mulheres tem-me ajudado, por um lado a escavar, e por outro a trilhar, uma genealogia de género, de pensamento, de crenças e de feitos incríveis dos quais não teria noção se só continuasse a ler os "grandes autores".

 

Aos poucos, até acabo por procurar autoras doutros lados do mundo, com histórias e uma História diferente. Acabo por espreitar áreas do conhecimento ou artes sobre as quais nunca estudei. (No último semestre, até acabei por estudar pintoras do sudeste asiático e temas do orientalismo.) Acabo por bater à porta do inesperado, do menos óbvio. O efeito borboleta das leituras lá tem a sua razão de ser.

 

Continuo a admirar os clássicos, a achar que têm um papel central, que devem ser estudados e lidos, que devem ser promovidos. Continuo a admirar escritores que são homens, pois não perderam o seu encanto, interesse ou mérito. Contudo, agora tenho uma estante mais rica por ter criado espaço para Dulce Maria Cardoso, Tati Bernardi, Maria Judite de Carvalho, Maria Teresa Horta, Rebecca Solnit, Ruth Manus, Rosa Montero, Natalia Ginzburg, bell hooks, Rachel Cusk, Virginia Woolf, Anne Patchett ou Anne Enright. Mesmo tendo só lido alguns textos ou um livro ou outro de algumas destas autoras, muitas outras obras suas e das suas contemporâneas já ganharam prioridade na lista das minhas próximas aquisições e desejos.

 

Afinal, como poderia um homem, por muito próximo que esteja e por muito empático que seja, testemunhar de forma tão real e familiar situações e experiências como a maternidade, a posição de desigualdade, a relação com o corpo, a luta por direitos, os desafios do mercado de trabalho, a criação artística e literária, o seu legado...?

 

A história destas mulheres é, também, a nossa. O vocabulário é aquele que procuramos e que nos situa no mundo, os seus verbos contam-nos mais sobre as nossas próprias acções. Consequentemente, a nossa história é apenas uma continuação das suas histórias. Estaremos cá paraas contar e recontar, construir e ir reconstruindo.

 

Escolhi ler mais mulheres para as conhecer melhor, mas também para me conhecer melhor.

Vocês sabem quem é A Louca da Casa?

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Primeiro, adorei. Depois, estranhei. Finalmente, entendi.

 

A Louca da Casa não é um livro fácil, desafiando convenções do que é um género literário, ora registo autobiográfico, de memórias; ora ficção, invenções sem fim, enredos românticos e romanceados; ora ensaio sobre a vida de escritora, a escrita, o mistério da criatividade e imaginação (a tal "louca da casa").

 

Passei a leitura das duzentas e tal páginas a querer confiar em Rosa Montero, a querer que ela me dissesse: isto aconteceu mesmo, isto não. Mas não foi possível arranjar caixinhas. O objectivo de Rosa Montero foi quebrar essa definição tão rígida e explorar as potencialidades de géneros que podem ser distantes, mas que são mais próximos do que os julgamos.

 

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Afinal, o que nos garante que uma autobiografia é isenta e que conta tudo tal como aconteceu? Aliás, como cheguei à conclusão através da leitura, ao ouvir outras pessoas e na minha própria terapia: cada vez que tentamos contar uma história, acabamos por contar uma história diferente. É sempre, idealmente, a mesma história, só que a vida muda, a nossa perspectiva muda, acrescentamos um ou outro detalhe, real, imaginado ou tão bem fabricado que achamos verídico. A autora prova-o, por exemplo, usando a história de como conheceu M., um actor famoso. Não direi mais nada, para que possam descobrir do que se trata ao vosso ritmo.

 

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Ao longo deste livro, somos lembrados de que, até quando queremos contar a verdade mais pura sobre as nossas vidas, é inevitável contarmos outra coisa qualquer, e que os escritores contam a verdade sem querer, enquanto podem não ser totalmente verdadeiros quando tem de acontecer de propósito. Sem o leitor saber, e até sem eles mesmo se aperceberem, podem embelezar as suas histórias de vida, puxar a brasa à sua sardinha, tornar os pormenores mais interessantes, concentrar-se mais no que lhes convém e esquecer agruras várias que poriam em causa a opinião alheia e a sua reputação.

 

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Assim sendo, o leitor é convidado a sentir incómodo à conta da exploração do conceito de verdade. Queremos, sempre, a verdade. E nada mais do que a verdade, mesmo que ela seja uma verdade só de boca, irremediavelmente coxa, apenas idealizada e não necessariamente isenta. Por isso, temos de aprender a conviver com a inquietação e a dúvida, aceitando que os limites entre o mundo real e o mundo irreal numa obra literária de cariz (supõe-se) autobiográfico se encontram naturalmente esbatidos, nebulosos.

 

Quanto a mim e à minha experiência de leitora, fiquei especialmente intrigada com os acontecimentos da vida de Rosa Montero, uma vez que me ando a interessar por ler e ouvir sobre vidas de mulheres escritoras, qual a sua experiência de vida enquanto artistas. Por isso, tive, também eu, de aprender a aceitar que as partes mais inventadas poderiam ser tão verdadeiras, à sua maneira, quanto as outras. Que também elas são capazes de revelar o que há de mais íntimo para contar, apenas não do modo literal que eu pretendia.

 

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No final, este é o livro certo para quem procura uma exploração e divagação (sim, uma longa e intricada divagação!) sobre o poder das palavras e o ofício que é escrever.

 

Este livro é um trabalho um pouco meta e metafórico, sem deixar de nos impelir a ler um e outro capítulo, mesmo quando já nos sentimos prontos para fazer uma pausa. Não há muitas pausas possíveis, porque, tal como a escrita, a leitura é de igual forma um acto que absorve, consome e agarra quando assim tem de ser. Chega o momento e precisamos de entender, estudar e tentar convocar a louca da casa, com a ajuda deste A Louca da Casa.

 

Não acho que as opiniões sejam unânimes, mas, feitas as contas, gostei disto a valer.

 

Nota: preparem-se para ir apontando as referências a outros livros e autores extremamente interessantes, para sublinhar e para ir relendo as páginas anteriores.

 

Nota 2: este livro é mencionado neste episódio do podcast "Meu Inconsciente Coletivo", criação da escritora mais mencionada neste blog, Tati Bernardi.

 

Nota 3: já repararam na associação constante da loucura à criatividade artística, nomeadamente à criação literária? Entre os meus podcasts favoritos, encontra-se "Louco Como Eu" (entrevistas a escritores, com Susana Moreira Marques). A própria Tati Bernardi escreveu o livro Depois a Louca Sou Eu. E, em geral, os meus escritores favorito são quase todos, se não loucos, pelo menos neurodivergentes.

25/30 (os escritores e as suas personagens)

 

"The truth is that every character has a bit of me. Perhaps an obsession, or a sadness or a dilemma. It could be some kind of wistfulness or definitely a need to know a rootedness in history. So the characters are not really me." É assim que, na plataforma Masterclass, Amy Tan apresenta a relação com as personagens que cria nos seus trabalhos de ficção.

 

Este testemunho consolou-me. Há poucos dias, acabei de escrever um conto sobre o qual tenho pensado mesmo muito e cujas personagens são, sem dúvida, uma mistura de quem eu sou, de quem eu poderia ser, de pessoas à minha volta, de quem elas poderiam ser... e, em geral, as personagens são elas mesmas, como é evidente.

 

Há uma certa fixação dos leitores no que toca a apontar dedos. "Isto é sobre mim? É sobre ti? Quem é esta personagem, afinal?" Quanto mais próximos do escritor, mais as águas se agitam: é uma questão de ego, saber se algo foi escrito sobre si, o que se insinuou, a que luz terão sido retratados. Com essa fixação, surge também a impaciência de parte a parte. Amy Tan diz que, quanto mais receio alguém tem de ter sido retratado (a bem ou a mal, intencional ou não intencionalmente), menos a razão estará do seu lado. Os leitores continuam a procurar resquícios de realidade na ficção, enquanto os ficcionistas pensam no óbvio. Que maçada!

 

Como Dulce Maria Cardoso já tem mencionado em entrevistas, não precisou de alguma vez ser gorda para entender o que uma pessoa como a sua personagem Violeta sente, que dúvidas, inquietações ou pensamentos é que tem. O que interessa, diz a escritora portuguesa, é ter empatia.

 

As personagens que são inventadas por alguém que escreve são o seu autor, ao mesmo tempo que não o são. Apesar de não surgirem do vazio, precisando de ter a sua génese em qualquer plano real, não têm de ser nem o seu autor, nem ninguém à sua volta. A tentativa de identificação é infrutífera.

 

Como tal, as minhas personagens são compósitas (de tudo e mais alguma coisa), para o bem e para o mal. No ano passado, escrevi outro texto cujo protagonista é uma pessoa que conheço. Disse-lhe mesmo que tinha escrito algo baseado na sua pessoa e até na nossa relação; mas a verdade é que esse não deixa de ser um trabalho de ficção. A protagonista não é essa pessoa e, mesmo que fosse... não seria, mesmo assim! Seria uma personagem inevitavelmente misturada doutras impressões, experiências ou indivíduos que eu conheço.

 

O último texto que escrevi é um conto, e só alguns dias depois de o terminar é que concluí: eu aproveitei muitas características minhas e doutros com quem tenho contactado, além de que criei uma personagem que, apesar de morta à partida, é a que mais facilmente identificariam como sendo eu. Mas não sou. E não, eu não tenho vontade de ser a mulher feita de palavras que criei. Nem tenho vontade de ser nenhum dos sujeitos da minha cabeça que transcrevi em texto! Para isso é que a criação serve: para extravasar, para ensaiar ou inventar o que se quiser, sem nos ser cobrado ou questionado qualquer aspecto.

 

A obra é o que é. A obra não é o autor.

24/30 (ler é um dever humanista)

Ler é um dever humanista, disse Maria do Rosário Pedreira, nesta conversa com Francisco José Viegas. É uma afirmação com a qual não poderia concordar mais. Não querendo desapropriar a autora da afirmação, pus-me a pensar nela.

 

Para ganhar o hábito, nem sei se interessa o que se lê, nem onde, nem como, se é no telemóvel, se é no Kobo, se é no computador, se é em livro, jornais, revistas... Mas que se leia! E de forma ininterrupta. Sem ser só "as gordas", que de títulos, manchetes, sensacionalismos e click bait está o mundo cheio. A seguir - e para sempre - que se continue a cultivar o desafio, outras leituras, outras escolhas, outros horizontes.

 

Ler é um dever humanista, porque estar informado mas também saber pensar, seleccionar informação e desafiar o nosso ponto de vista é, acima de tudo, um dever cívico. Imaginar outras vidas, universos, ideias, crenças, ensaiar possibilidades e experiências... Tudo isto é um exercício de empatia. Ficção ou não, ler é um exercício que nos leva a praticar e a confrontar o diferente. Ler obriga-nos a uma dedicação de mais do que ínfimos segundos da nossa atenção plena. Obriga-nos a ler e reler, revisitar ideias, discuti-las mesmo que sozinhos, sem mais ninguém. Ensina-nos a reflectir, dando-nos algumas ferramentas que não obteríamos doutro modo. É uma forma de cuidar da mente, mas também das comunidades ou grupos a que pertencemos, e da sociedade - ainda que indirectamente. É uma forma de aprendizagem, para melhor ser, para melhor estar, para melhor fazer

 

Claro que não é garantido que quem lê mais há-de levar a cabo de forma muito melhor os seus deveres de cidadania. Ainda assim, ler é um bom ponto de partida.

21/30 (mentores e autobiografias)

Hoje, escrevo em continuação ao que escrevi anteontem antes de adormecer (e sim, sei bem que falhei um dia do desafio, mas aqui continuo, em direcção às trinta publicações prometidas).

 

Como rematei, não encontro mentores no mundo imediato ao meu, ou com quem possa ou me sinta à vontade para falar, mas encontro palavras: autobiografias, artigos, crónicas, ensaios, testemunhos. Ultimamente, sinto que me vão guiando, que me vão enchendo as medidas do necessário.

 

Os blogs funcionam mais ou menos assim, já agora. São espaços simultaneamente egocêntricos e de partilha, um espaço criado porque o "eu" tinha algo para dizer, mas com a condição de que haja alguém para ler. Procuramos a experiência de pessoas com quem temos, ou talvez com quem queiramos ter, algo em comum. Ou através das quais possamos viver por contágio escrito-lido.

 

E não, não precisamos de ter precisamente a mesma vida dos autores dos textos que lemos. Talvez procuremos apenas consolo, manuais de instruções para existências múltiplas e alheias, soluções imaginadas para um mundo de possibilidades imaginadas, formas de ser, estar e sentir que poderiam ser as nossas e que só não o são por acaso.

 

E se...? E caso..., será que...? O que diz o outro sobre si, que lá no fundo também poderia ser sobre mim?

Porque escrevemos?

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Porque escrevemos? De onde surge esta necessidade de traduzir pensamentos efémeros em letras, palavras, textos que acabam registados no papel (ou num ficheiro digital)?

 

Na próxima terça-feira, dia 29 de Setembro, às 21:00, vou mediar uma discussão com o tema "Porque escrevemos?" (cliquem para mais informações)

Por exemplo, José Luís Peixoto diz que escreve para tentar encontrar sentido no caos. João Tordo escreve para compreender os outros e para se compreender a si mesmo. Joan Didion explica no seu artigo "Why I Write" que precisava de escrever para descobrir os seus pensamentos - afinal, se alguma vez tivesse tido acesso à sua própria mente, não teria sentido falta da escrita.

E da vossa parte, o que responderiam?


Nesta discussão mediada por mim, iremos partilhar as razões pelas quais escrevemos. Assim, relembraremos o que nos motiva a voltar a pegar no caderno ou a abrir o processador de texto, o efeito que a escrita tem nas nossas vidas e como podemos aprender e viver tanto através dela.

 

 Se se quiserem juntar, enviem-me o vosso e-mail para olaescritacriativaportugal@gmail.com. Até lá!

Como ler um livro - manual de utilizador

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É essencial fazer as perguntas certas, mesmo quando as achamos demasiado fáceis. Aliás, são essas as perguntas mais importantes, que frequentemente deixamos de fazer por comodismo, inércia ou habituação. Então, hoje abri um novo livro no qual quero mergulhar nos próximos dias e, pela primeira vez em muito tempo, questionei-me agitada: afinal, como é que se lê um livro?

 

Um livro parece ser um objecto com o qual todos lidamos de forma intuitiva. Pegamos-lhe, abrimos na primeira página, e começamos a ler. No entanto, há tantas questões a considerar. Por exemplo… Haverá alguma forma mais acertada de ler um livro? Ou algum passo que devamos seguir antes de qualquer outra acção? E se preferirmos começar pela última página? Neste sentido, quero partilhar algumas das minhas impressões sobre como ler um livro.

 

Pego num livro – e agora? Em primeiro lugar, no caso dos livros físicos, gosto de me sentar com eles, apreciá-los, pousá-los na estante, agarrá-los de novo, folheá-los, cheirá-los – habituar-me a eles e à forma como se adaptam à minha mão. Em segundo lugar, procuro índices, listas, epígrafes ou dedicatórias (além da sinopse e da biografia do autor), que são óptimas referências para entrar no espírito da obra, assim como fazer uma análise breve ao tipo de letra, capítulos ou outras particularidades gráficas.

 

O passo seguinte é ler a primeira frase com muita atenção. Seja ficção ou não-ficção, a forma como um autor escolhe apresentar o seu trabalho pode contribuir para uma primeira impressão mais completa, quiçá promissora, ou por outro lado desapontante. E também há quem escolha avaliar uma frase aleatória no meio do livro, que sirva de amostra do resto.

 

Após este ritual, ainda é comum ter alguma dificuldade em concentrar-me: a primeira página é o contacto inicial com uma nova realidade, uma nova narrativa, uma nova história, um novo tema. Por isso, normalmente levo algum tempo a situar-me e a encontrar um significado para a mancha de letras e palavras.

 

O trajecto vai-se tornando mais fácil de navegar a partir daí, mais suave. Nem sempre é intuitivo voltar a pegar no livro, de tantas distracções e interesses que existem fora das páginas. Talvez a primeira impressão não tenha sido óptima, por isso custa-nos retomar. Mas acredito que existe sempre um livro qualquer por perto que nos irá entusiasmar sem sequer nos apercebermos. Há sempre um livro capaz de nos levar por aí fora até à última página, de forma consistente e constante. Se forem como eu e gostarem de tirar notas, apreciarão a companhia dum lápis, dum marcador e de um caderno.

 

Ora, mas também não nos podemos esquecer da preparação: ainda antes de apreciar o livro, de o analisar, de prestar atenção à primeira frase ou de tirar notas, gosto de começar a leitura num sítio acolhedor, apesar de a continuação poder acontecer em quaisquer condições. Talvez comece num sofá confortável, talvez aconchegada debaixo de mantas, talvez esticada na cama a meia-luz, sempre em silêncio, ao som do meu gato a ressonar ou com uma música de fundo que inspire a concentração e a fruição da palavra escrita.

 

No fundo, o que interessa é sentirmo-nos à vontade. O que interessa é estarmos confortáveis perto de livros e deixá-los entrar nas nossas vidas, perceber como nos podem enriquecer ou pelo menos entreter. O que interessa é ler, e o “como” vai-se descobrindo. Portanto, agora é a tua vez de tentar.

 

Pegas num livro – e agora?

Um elogio ao "Quotidiano Instável" (Maria Teresa Horta)

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"Nunca cheguei a saber o que me atraía nele: os olhos? As mãos compridas e magras? O ar fechado e triste? A hostilidade quase terna, toda ela aparente? (...) E todavia há uma dormência feliz que não compreendo, ou que talvez não queira compreender, como também nunca consegui entender até onde ia a sua timidez, a sua severidade, ou a sua indiferença por mim."

 

Quotidiano Instável era o nome da coluna d'A Capital e, agora, é o nome duma coletânea com algumas dessas crónicas escritas, há 50 anos (1968-1972), pela jornalista e escritora Maria Teresa Horta. Acima de tudo, mais do que crónicas, estes textos não são só palavras - são formas de estar, pensar e sentir. Acredito que só quem já amou, com paixão, dor, alegria, provação e ternura consiga entender, mesmo que superficialmente, o que se passa nestas páginas. São muitas as palavras que MTH escreve sobre quem mais a inspirou desde sempre, o seu marido Luís, uma autêntica musa no masculino.

 

Se o olhar desgastasse o papel, este livro estaria feito em fiapos. As crónicas são curtas, como mini-contos, mas bastante complexas, rebentando de significado, metáforas, um vai-e-vem entre o sujeito "eu" e uma terceira pessoa. São textos que desafiam as barreiras entre o real e o imaginário, através da narração da paixão, da sensualidade, da sexualidade, da família e das relações em geral numa voz que eleva o amor à condição de mito real, pela sacralização das imagens e raciocínios invocados. Tive de ler cada crónica várias vezes, para recolher tanta informação quanto possível, informação essa que alimenta os sentidos de variadas formas, imagens ricas. Mesmo assim, sei que, cada vez que releio alguma, consigo retirar mais um pouco do que antes... Porque é prosa, mas poderia ser poesia, o que MTH escreve é um fio de consciência que nos cabe destrinçar, que não se sabe bem como ou onde começa.

 

(Senti-me quase sempre a ler cada texto como um sonho...)

 

Paralelamente, aconselho esta entrevista a Maria Teresa Horta no podcast "A Beleza das Pequenas Coisas" (também disponível no Spotify), que complementa a informação disponibilizada no prefácio de Quotidiano Instável por Ana Raquel Fernandes. As crónicas fazem ainda mais sentido à luz da experiência de vida de Maria Teresa Horta - política, jornalística, pessoal... (Não nos podemos esquecer que o erótico feminino, a liberdade implícita, a expressão do desejo, a emancipação, o protagonismo dado à mulher - tudo isto é lindo, um dado adquirido na contemporaneidade, mas não durante a ditadura de Salazar e de Marcelo Caetano.)
Além disso, ouvir MTH é uma delícia. Tem tantas lições para nos ensinar...! Então, aqui fica outra sugestão: Maria Teresa Horta em entrevista no podcast "Biblioteca de Bolso".

 

Quem gosta de crónicas e/ou contos vai adorar este livro, Quotidiano Instável. Quem gosta de poesia vai adorar este livro. Quem gosta da máxima "quantidade não é qualidade" vai adorar este livro curto e tão concentrado.

 

Dadas as nossas circunstâncias actuais, não vos aconselharia particularmente a fazer encomendas, e muito menos a sair de casa para adquirir bens não essenciais; no entanto, se já tiverem este maravilhoso livro na vossa estante, aconselho-vos a darem-lhe uma oportunidade, ou a fazê-lo assim que possível depois deste susto na saúde colectiva. Mesmo que gostem mais dumas crónicas do que doutras, tenho a convicção de que não se vão arrepender.

Qualquer semelhança com a realidade

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Não acredito nos escritores que dizem que as personagens dos trabalhos que escrevem são "mera ficção". Como é que eles se conseguirão relacionar de forma tão profunda, íntima, com alguém que não conhecem, que nunca viram, cujos gestos não estudaram, cujas mãos não tocaram, cujas bocas não apreciaram ou ouviram?

 

Acredito que todas as personagens da ficção existem, na verdade. Serão, porventura, compósitas. Sim, talvez sejam feitas de muita gente que o autor foi observando e sobre as quais foi, mesmo que por acidente, recolhendo dados. No entanto, a ficção acaba por ser uma realidade interpretada, reorganizada: como quando mudamos de casa, mas levamos a mesma mobília. Quem sabe, serei eu apenas ingénua, e venha daqui a uns meses ou anos repor a minha verdade sobre o que é isto de escrever sem contrato de veracidade sobre pessoas questionavelmente fictícias, ou tão materiais como uma unha do pé ou aqueles fios de cabelo presos na escova. Afinal, esteve ali ou não esteve?

 

Um dia que me vejam publicar um texto ficcional, saibam que dificilmente o será. Se me perguntarem se é de "pessoa X" que escrevo, se for mesmo "pessoa X", não me importarei de confirmar tal informação (partindo do princípio de que não devasso a privacidade de ninguém, claro está). Se me perguntarem se falo de "situação Y", é provável que seja, ou que aspire a ser (sem devaneios, sem invenções, é claro).

 

Qualquer semelhança com a realidade jamais seria coincidência. Sou paradoxalmente aspirante a escritora, mas péssima mentirosa. Escrevo exclusivamente a sério, mesmo quando baralho nomes, combino eventos ou exagero impressões. Tudo o que me acontece, tudo o que vejo acontecer e tudo o que me dizem poderá ser sujeito e objecto para escritas futuras. É tudo da minha cabeça; por isso mesmo...

 

Vejamos: o que escrevemos é o produto óbvio do que vivemos, lemos, vemos, sentimos, conhecemos. Não acordamos simplesmente um dia e pensamos que aquele é o conto, o livro ou o ensaio que nos comprometemos a criar. Existe um envolvimento pessoal inegável.