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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Um elogio ao "Quotidiano Instável" (Maria Teresa Horta)

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"Nunca cheguei a saber o que me atraía nele: os olhos? As mãos compridas e magras? O ar fechado e triste? A hostilidade quase terna, toda ela aparente? (...) E todavia há uma dormência feliz que não compreendo, ou que talvez não queira compreender, como também nunca consegui entender até onde ia a sua timidez, a sua severidade, ou a sua indiferença por mim."

 

Quotidiano Instável era o nome da coluna d'A Capital e, agora, é o nome duma coletânea com algumas dessas crónicas escritas, há 50 anos (1968-1972), pela jornalista e escritora Maria Teresa Horta. Acima de tudo, mais do que crónicas, estes textos não são só palavras - são formas de estar, pensar e sentir. Acredito que só quem já amou, com paixão, dor, alegria, provação e ternura consiga entender, mesmo que superficialmente, o que se passa nestas páginas. São muitas as palavras que MTH escreve sobre quem mais a inspirou desde sempre, o seu marido Luís, uma autêntica musa no masculino.

 

Se o olhar desgastasse o papel, este livro estaria feito em fiapos. As crónicas são curtas, como mini-contos, mas bastante complexas, rebentando de significado, metáforas, um vai-e-vem entre o sujeito "eu" e uma terceira pessoa. São textos que desafiam as barreiras entre o real e o imaginário, através da narração da paixão, da sensualidade, da sexualidade, da família e das relações em geral numa voz que eleva o amor à condição de mito real, pela sacralização das imagens e raciocínios invocados. Tive de ler cada crónica várias vezes, para recolher tanta informação quanto possível, informação essa que alimenta os sentidos de variadas formas, imagens ricas. Mesmo assim, sei que, cada vez que releio alguma, consigo retirar mais um pouco do que antes... Porque é prosa, mas poderia ser poesia, o que MTH escreve é um fio de consciência que nos cabe destrinçar, que não se sabe bem como ou onde começa.

 

(Senti-me quase sempre a ler cada texto como um sonho...)

 

Paralelamente, aconselho esta entrevista a Maria Teresa Horta no podcast "A Beleza das Pequenas Coisas" (também disponível no Spotify), que complementa a informação disponibilizada no prefácio de Quotidiano Instável por Ana Raquel Fernandes. As crónicas fazem ainda mais sentido à luz da experiência de vida de Maria Teresa Horta - política, jornalística, pessoal... (Não nos podemos esquecer que o erótico feminino, a liberdade implícita, a expressão do desejo, a emancipação, o protagonismo dado à mulher - tudo isto é lindo, um dado adquirido na contemporaneidade, mas não durante a ditadura de Salazar e de Marcelo Caetano.)
Além disso, ouvir MTH é uma delícia. Tem tantas lições para nos ensinar...! Então, aqui fica outra sugestão: Maria Teresa Horta em entrevista no podcast "Biblioteca de Bolso".

 

Quem gosta de crónicas e/ou contos vai adorar este livro, Quotidiano Instável. Quem gosta de poesia vai adorar este livro. Quem gosta da máxima "quantidade não é qualidade" vai adorar este livro curto e tão concentrado.

 

Dadas as nossas circunstâncias actuais, não vos aconselharia particularmente a fazer encomendas, e muito menos a sair de casa para adquirir bens não essenciais; no entanto, se já tiverem este maravilhoso livro na vossa estante, aconselho-vos a darem-lhe uma oportunidade, ou a fazê-lo assim que possível depois deste susto na saúde colectiva. Mesmo que gostem mais dumas crónicas do que doutras, tenho a convicção de que não se vão arrepender.

Qualquer semelhança com a realidade

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Não acredito nos escritores que dizem que as personagens dos trabalhos que escrevem são "mera ficção". Como é que eles se conseguirão relacionar de forma tão profunda, íntima, com alguém que não conhecem, que nunca viram, cujos gestos não estudaram, cujas mãos não tocaram, cujas bocas não apreciaram ou ouviram?

 

Acredito que todas as personagens da ficção existem, na verdade. Serão, porventura, compósitas. Sim, talvez sejam feitas de muita gente que o autor foi observando e sobre as quais foi, mesmo que por acidente, recolhendo dados. No entanto, a ficção acaba por ser uma realidade interpretada, reorganizada: como quando mudamos de casa, mas levamos a mesma mobília. Quem sabe, serei eu apenas ingénua, e venha daqui a uns meses ou anos repor a minha verdade sobre o que é isto de escrever sem contrato de veracidade sobre pessoas questionavelmente fictícias, ou tão materiais como uma unha do pé ou aqueles fios de cabelo presos na escova. Afinal, esteve ali ou não esteve?

 

Um dia que me vejam publicar um texto ficcional, saibam que dificilmente o será. Se me perguntarem se é de "pessoa X" que escrevo, se for mesmo "pessoa X", não me importarei de confirmar tal informação (partindo do princípio de que não devasso a privacidade de ninguém, claro está). Se me perguntarem se falo de "situação Y", é provável que seja, ou que aspire a ser (sem devaneios, sem invenções, é claro).

 

Qualquer semelhança com a realidade jamais seria coincidência. Sou paradoxalmente aspirante a escritora, mas péssima mentirosa. Escrevo exclusivamente a sério, mesmo quando baralho nomes, combino eventos ou exagero impressões. Tudo o que me acontece, tudo o que vejo acontecer e tudo o que me dizem poderá ser sujeito e objecto para escritas futuras. É tudo da minha cabeça; por isso mesmo...

 

Vejamos: o que escrevemos é o produto óbvio do que vivemos, lemos, vemos, sentimos, conhecemos. Não acordamos simplesmente um dia e pensamos que aquele é o conto, o livro ou o ensaio que nos comprometemos a criar. Existe um envolvimento pessoal inegável.

Um livro que não se mede à página: O Senhor Breton e a entrevista (Gonçalo M. Tavares)

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Quão acessória é a centralidade da poesia?

 

Neste primeiro livro que li de Gonçalo M. Tavares, O Senhor Breton e a entrevista (de 2008), fui apresentada a um fio de pensamento errante, acerca do papel do pensamento abstracto, das palavras e da literatura. Na verdade, sei que li cada capítulo pelo menos duas vezes, e continuo a relê-los, insistentemente. Fico uma e outra vez com a impressão de que me escapou um raciocínio qualquer, uma parte do texto, um significado escondido. Por isso,  parece que a entrevista do/ao Senhor Breton vai ser daqueles livros que vou andar a reler pelos anos fora, um clássico na estante pessoal. São 54 páginas como os lençóis e as mantas: desdobram-se e alargam-se(-nos). Há livros que não se medem à pagina.

 

A meio da leitura, apercebi-me de que este livro majestosamente pequeno é parte duma série chamada "O Bairro". Assim, quando me cansar da releitura, começo a arranjar os outros volumes - fácil! Aliás, imediatamente depois de escrever este texto, vou procurá-los.

 

Não, este não é o livro mais fácil de sempre. É um bocado louco, prescrito a quem queira ficar com o cérebro frito. É qualquer coisa entre o demais e o já chega, mas é isso que faz dele tão especial. De vez em quando, gosto de ler livros que me desafiem. O Senhor Breton, sem dúvida, não me facilitou a vida.  A coletânea de dez perguntas meta e metafóricas insiste no desvendar de pensamentos formalmente simples, mas semanticamente complexos.

 

E o mais importante para o leitor, para o escritor, para quem se alimenta de palavras e versos? Depois de ler O Senhor Breton e a entrevista, eu diria que é aceitar que nem todas as perguntas podem ser respondidas, porque é frequente nem ser necessário. Lá no fundo, já sabemos o que nos faz falta.

 

Obrigada, Gonçalo M. Tavares, por me ter impressionado e engolido à primeira leitura.

Quase rezei para gostar: Jesus Cristo Bebia Cerveja (Afonso Cruz)

Já vos contei da primeira experiência a ler Afonso Cruz: fiquei triste por pensar que iria ser a revelação do ano, e foi mais a desilusão do semestre. No entanto, decidi dar uma segunda oportunidade, porque outras pessoas confirmaram que, da bibliografia do autor, Flores não era o melhor.

 

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Assim sendo, avancei para o outro livro que já tinha comprado: Jesus Cristo Bebia Cerveja. Neste, Afonso Cruz conta a história duma neta - Rosa - e duma avó - Antónia - que vivem no cimo dum monte, perto duma aldeia caricata. Comecei logo por gostar da premissa, que já tinha conhecido quando ouvi Afonso Cruz numa feira cultural em Banguecoque, há um par de anos. Também eu sou neta única, também eu tenho uma avó que substitui e compensa por qualquer mãe biológica que tenha tido outras ambições na vida, e também eu tenho medo que a minha avó adoeça e perca qualidade de vida, mas certa de que, se fosse necessário, também eu montaria uma Jerusalém no meio do Alentejo.

 

Apesar de achar que não é o melhor livro dum autor português contemporâneo que leio, gostei bastante de Jesus Cristo Bebia Cerveja. Todas as personagens têm uma faceta de loucura que só a literatura poderia catalogar tão bem, e que não me surpreenderiam se existissem na vida real. Na sua falta de sentido, fazem sentido. É um elenco que, senti, enriqueceu o meu imaginário, que me obrigou a pôr-me na pele de Rosa e a alegrar-me e a incomodar-me com a narrativa dos seus dias.

 

A aparente temática religiosa - Jesus Cristo Bebia Cerveja - é só um chavão, mas outras discussões são deixadas no ar para as apanharmos: o papel da mulher como cuidadora primária da família, o papel do homem possivelmente dependente das mulheres na família e na sociedade, o significado do amor romântico, o cosmopolitanismo e as viagens, as relações entre empregados e empregadores, a importância da educação moral e emocional vs. instrução - tudo isto misturando um cenário que não cheira a passado, nem a presente, nem a futuro, mas que me cheirou definitavamente a uma imagem mental do interior de Portugal.

 

Além disso, apesar de o final ser triste q.b., promete um renascimento de igual forma. Quando gosto de uma personagem, prefiro acreditar que outras vidas lhe restarão para outros livros hipotéticos. Depois de decisões difíceis, algo virá, bom ou mau.

 

Jesus Cristo Bebia Cerveja, porque, afinal, todas as histórias podem ser contestadas e reimaginadas.

 

📚 Entretanto, instalou-se na minha casa uma febre de Afonso Cruz, pelo que já tenho Os Livros que Devoraram o Meu Pai O Macaco Bêbedo Foi à Ópera recomendados e preparados para descolarem da estante. Por onde começo - alguma sugestão?

Como contar e ler as melhores histórias: The Science of Storytelling (Will Storr)

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Andei a procrastinar esta opinião durante duas semanas. Senti sempre que tudo o que eu escrevesse não faria justiça ao que este livro é, o quanto gosto do tema e o quanto quero recomendá-lo a todas as pessoas que gostem de ler e escrever, seja a título profissional ou ocupação pessoal e inconsequente dos tempos livres.

 

Não é o livro do ano, nem da década, nem da vida, mas é um livro que nos ensina a ler histórias, seja em que meio for: The Science of Storytelling, de Will Storr (o mesmo autor de Selfie), publicado pela primeira vez há poucos meses, não é um manual de escrita criativa. É, em primeiro lugar, um manual de leitura atenta. Não serve só para quem cria histórias, mas principalmente para quem gosta de as destrinçar, analisar, receber com cuidado. E são explicadas tantas, mas tantas dicas sobre como fazer e ler histórias cativantes! Afinal, o objectivo evolutivo de criar histórias é educar, transmitir conhecimento e promover relações entre os membros de uma comunidade, para que a espécie humana sobreviva. Então, há que fazê-lo bem.

 

Segundo The Science of Storytelling, porque as histórias de que mais gostamos se calhar até são um espelho da vida, as partes mais importantes da narrativa poderiam ser as mais importantes quando pensamos na nossa própria história individual. Começamos com um herói, e a sua viagem no espaço físico ou mental, moral, emocional (à semelhança do que Joseph Campbell já escreveu). Por sua vez, este herói coloca-se e coloca-nos uma pergunta que nos guia e prende até à última página: quem sou eu? Segundo Will Storr, uma boa história corresponde à auto-descoberta dos protagonistas e, para tal acontecer, tem de haver uma evolução constante, quer seja externa ou interna. O que nos leva a outra das características mais importantes das histórias bem contadas: a falha sagrada das personagens, que é algo que não só as distingue, como também poderá ser a causa dessa procura de identidade ou evolução no enredo. Atentemos em exemplos muito fáceis que talvez todos conheçamos: exactamente por ter colocado em questão a forma como viveu a sua vida, até ao momento em que o filme começa, é que Elle Woods (a personagem de Reese Witherspoon em "Legalmente Loira") tem uma história minimamente interessante para ser contada. Nós identificamo-nos, nem que seja metaforicamente, com aquela criatura cor-de-rosa, porque ela é uma excelente rapariga, tem bom coração, move-se por causas nobres, apesar de... no início parecer cognitivamente limitada, ser imatura, superficial e ingénua, ter problemas por resolver. Tal como nos sentimos solidários com Mrs. Richardson, que é uma excelente mãe de família, adora os filhos e o marido, apesar de... ser hipócrita, coscuvilheira, cega para o resto do mundo que não cumpra os seus ideais. Ou porque acabamos por empatizar com Lord Voldemort: coitado, teve um início de vida trágico, o pai abandonou a mãe, que o abandonou a ele, viveu num orfanato cheio de miúdos sujos, ficou sem nariz, apesar de... ser ruim, matar pessoas, invocar tudo o que seja força negra e entreter-se a perseguir um adolescente para conseguir a imortalidade.

 

Estas personagens com falhas também somos nós. As histórias que elas vivem também são as nossas. O nosso cérebro procura acção, questionamento e algo com que nos possamos identificar, seja com o protagonista ou o antagonista. Por outro lado, estes princípios também podem ser subvertidos, se procurarmos antes uma história menos comercial e mais desafiante.

 

Obviamente, isto é apenas um pouco do que vos posso contar em poucos parágrafos sobre The Science of Storytelling. Will Storr tem muito mais para vos oferecer do que eu. No final, temos ainda uma lista de referências bibliográficas muito interessantes e que dão vontade de estender ainda mais a lista de livros por ler.

 

Por isso, comecem já por este. São apenas duzentas e poucas páginas com letra gordinha e espaçada. Infelizmente, ainda só existe em inglês, mas pode ser que alguma editora portuguesa lhe pegue em breve, por ser um autor com alguma notoriedade.

 

📚  De resto, porque me tenho interessado imenso pelo storytelling e pela empatia, agradeço todas as sugestões de leitura que tenham sobre estes temas. Ou mesmo opiniões pessoais: acham que os princípios apresentados por Will Storr são mesmo ingredientes indispensáveis numa história? O que é que vos move a devorar um livro? O que é que procuram?

Fé, questionamento e sentido de humor: Caim (José Saramago)

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Quem é que nunca se zangou com Deus? Quem é que não Lhe fez perguntas que acabam por ecoar no vazio? Quem é que nunca se sentiu endrominado, frustrado, descrente?


Mesmo que não nos identifiquemos com elas, muitos de nós cresceram no meio de referências cristãs, quiçá católicas. Sempre ouvimos falar de Deus e do poder que tem sobre as nossas vidas, das histórias da Bíblia e da sua relação com a História. Este livro é para quem tem muitas perguntas e poucas respostas, crente ou descrente, praticante ou não praticante, desde que consiga encontrar um escape no humor e na exposição do absurdo.


Há quase duas semanas, acabei de ler o livro Caim, de José Saramago. Gostei muito e só tenho pena de me faltar cultura bíblica para entender tudo ainda melhor, para ainda mais me rir. É um livro tão pequeno, mas tão engraçado. E tão polémico. Sei que pode haver quem se ofenda. Ainda assim, ao ler sobre as aventuras de Caim pelas palavras de Saramago, imaginei-o numa discussão acesa com Deus, porque nem todos podemos manter a fé perante tantas dúvidas, porque Deus nem sempre assiste, ao que parece, e porque somos apenas humanos e procuramos sentido em tudo, sem conseguirmos encontrá-lo sempre. Para os crentes, penso que pode ser uma forma de reler a religião, de forma a testar a sua própria fé e... enfim, sentido de humor.


Por ter sido Saramago a escrevê-lo, também imaginei a leitura na voz dum avô resmungão, revoltado contra as injustiças do universo nos últimos anos da sua vida - que provavelmente foi o caso. Por estar cheio de provocações, é daqueles livros de que se gosta muito ou que se odeia, mas é impossível ficar indiferente ao questionamento constante de Deus, cheio de falhas, não só antropomórfico, como também humanizado, rival-amigo de Satanás, chefe dos anjos, vivendo a eternidade a seu belprazer.


Infelizmente, Caim não é um dos meus livros favoritos escritos por Saramago - não pela parte religiosa, mas pela literária. Não lhe encontrei nada de especial, além da indagação e da ridicularização da crença no divino, porque o resto me pareceu vulgar, pouco ambicioso e surpreendente. Além disso, claro que não ajuda a minha falta de conhecimento profundo acerca da Bíblia! De resto, por ser um romance curto e cheio de imprecações que fariam um adolescente corar, recomendo para quando precisarem de uma leitura rápida e bem disposta, mas não menos desafiante.

 

📝 Pergunta para queijinho: qual é o vosso livro favorito de Saramago? E porquê?

O primeiro dia da Feira do Livro de Lisboa 2019

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Diziam que, em 2019, a Feira do Livro de Lisboa seria maior, mais sustentável e que teria mais actividades. Ainda só fui ao primeiro dia, estive lá por volta da hora do jantar até ao fecho, e estas são as minhas conclusões acerca do que vi.

 

De facto, a Feira do Livro de Lisboa 2019 está maior. Tem mais bancas, mais editoras e projectos, e não é por causa disso que está mais apertada. Continua a haver espaço para circular e é apenas normal que, de vez em quando, tenhamos que esperar pelo leitor anterior para chegar à bancada seguinte. Para quem já tem uma lista de desejos, penso que vai valer imenso a pena esperar pela segunda semana da feira, quando começar a haver Hora H, ou andar à caça dos Livros do Dia. Os descontos parecem ser simpáticos e todas as desculpas são poucas para lá ir arejar as ideias (ainda por cima, trabalho a cinco minutos a pé, que desgraça!!!).

 

Por outro lado, falta comida... de jeito. E em variedade. Apesar de haver opções vegetarianas, há pouco mais do que hambúrgueres, wraps e pitas. As farturas não faltam, mas não fazem um almoço ou jantar. Tudo o resto, que não é muito, é extremamente caro. O meu conselho é que tentem comer antes de ir à FLL ou, se tiverem fome enquanto lá estão, saiam ou levem um lanchinho (e claro que a comida é importante, porque, se forem como eu, são capazes de lá ficar tempo suficiente para precisarem de sustento pelo meio). Também acaba por ser demorado estar nas filas intermináveis ou à espera de se ser servido. Ontem eu e o meu namorado ficámos vinte minutos à espera duma mísera pita de frango com batatas de pacote, tempo esse que gostaríamos de ter gasto a ver livros, o pôr-do-sol ou simplesmente a descansar.

 

No entanto, acho que a minha maior crítica quanto à bebida e comida é outra. Tudo o que era notícia e anúncio à Feira do Livro 2019 declarava que seria OH! tão sustentável! Mas esqueceram-se do mais óbvio: onde podemos encontrar água? Estamos no século XXI, não conheço quase ninguém que não se faça acompanhar garrafas reutilizáveis. Ainda assim, a FLL não tem nenhum sítio onde ir enchê-las, e como se não bastasse vende garrafas de água a 2€. Sendo um evento onde se vai com a família, onde os aficionados ficam bastante tempo e andam dum lado para o outro, debaixo de altas temperaturas, não aleijaria ninguém haver alguns dispensadores de água, mesmo que pagos, em locais estratégicos do recinto. Pouparia os nossos bolsos e o ambiente, tudo ao mesmo tempo. Serei a única a achar que isto faria maravilhas?

 

Quanto às actividades, tenho pena que a Hora H comece só na segunda semana, mas não sei muito mais, porque ainda é demasiado cedo para comentar e porque não costumo ir à Feira do Livro por causa das actividades (excepto os dois clubes de leitura de que faço parte e que já marcaram os encontros de Junho na FLL). Só espero que consigam atrair leitores e potenciais leitores, que propiciem um ambiente familiar agradável e que tornem a Feira do Livro de Lisboa ainda melhor e memorável para os mais novos.

 

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📚 E por aí, quais as vossas expectativas para a Feira do Livro de Lisboa 2019? Eu portei-me muito bem ontem, não comprei nada e estou-me a guardar para os Livros do Dia e para a Hora H. Não me apetece cair em tentação, por isso já tenho uma lista de compras para a primeira semana, a ver se não gasto por impulso o dinheiro de que vou precisar para fazer tudo o que quero durante o Verão.

 

😈 Aproveitem e deixem as vossas queixinhas nos comentários!

Releitura: The Course of Love (Alain de Botton)

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Reler Alain de Botton foi como regressar a um sítio muito confortável, acolhedor, sem julgamentos, onde as falhas humanas não ditam o carácter, onde o leitor voyeur não pede licença, mas onde vai entrando pé ante pé, para aprender pela experiência dos outros - dos protagonistas. Tudo o que é escrito pelo Alain de Botton tem cariz didático. Não há maus-da-fita, apenas gente normal a habitar a narrativa de The Course of Love. Reler este romance foi como entrar numa casa onde já tinha vivido, com tudo o que há de positivo e negativo nisso. É como rever um sítio querido, e mesmo assim descobrir-lhe novas nuances. Sem surpresa, Alain de Botton continuou incisivo, narrando os traumas de infância que levam Rabih e Kirsten a unirem-se numa relação que se espera para sempre, mas que não é interrompida pelos créditos finais no momento dos votos de casamento nem se revela inequivocamente feliz. Antes pelo contrário, lá fui eu numa visita guiada repetida aos seus primeiros dezassete anos de vida partilhada. Não, um casamento não é fácil. Não é bonito. Não é o "viveram felizes para sempre". Ainda assim, nas páginas finais, fica a promessa dum melhor entendimento.


No entanto, as releituras têm custos. Pode haver desencanto, desilusão, ou apenas mais tendência para um olhar mais atento ao que nos tenha escapado antes. Quase um ano depois, com outras experiências pessoais acumuladas e talvez um olhar mais cínico e menos romântico quanto às relações, tenho a dizer que achei esta união dos protagonistas muito apressada, e que o Sr. Botton cria ali uns cenários pouco credíveis. Se calhar, o Rabih e a Kirsten eram só parvos, ou desinformados, mas aos vinte e tal ou trinta anos não me parece que haja espaço para tanto romanticismo e idealismo. Não é qualquer pessoa que se atira em mergulho para um casamento ao fim duns meses de namoro. Fiquei pasmada quando me apercebi de que as personagens reconhecem só começar a ter uma noção mais completa um do outro após uma quantidade significativa de sessões de terapia de casal e década e meia a viver debaixo do mesmo tecto. É obra...


De resto, claro que as releituras devem ser inevitavelmente mais críticas. Por um lado, há o conforto do que já é esperado a cada página; por outro, essa familiaridade permite estarmos disponíveis para encontrar e juntar peças nas quais não tínhamos tropeçado o suficiente.


Seja como for, o meu livro preferido do Alain de Botton é o Essays in Love, que espero readquirir em breve, depois de um empréstimo falhado - ou seja, duma doação muito bem sucedida - e com toda a legitimidade e carinho do mundo. Essa é a releitura que mais me preocupa, na medida em que posso quebrar a expectativa criada depois da primeira vez que o li. Seria uma pena eu deixar de o colocar no pedestal da literatura de paperback. 

 

E desse lado, o que andam vocês a reler? Há algum livro ao qual gostem de regressar de tempos a tempos? Digam lá quais são os riscos a que se sujeitam em prol de segundas, terceiras e centésimas leituras... 📚

Não li sinopses e fui apanhada de surpresa: Dom Casmurro (Machado de Assis)

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Nos últimos meses, tenho lido cada vez menos ficção. Talvez por isso mesmo precise de ser cada vez mais surpreendida, por haver menos oportunidades para ler só porque sim, logo tal contexto convidar à procura de melhores experiências individuais, mesmo que escassas.


Comecei a não ler sinopses. No máximo, tenho lido as contracapas (mas não as badanas). A história tem um título que me agrade? Já ouvi falar bem? As primeiras páginas, lidas ainda na livraria, em amostras online ou em aventuras em estantes alheias lá de casa, conseguem suscitar a minha atenção? Então, não preciso de mais nada para continuar.


Não ler sinopses veio acrescentar-se ao hábito já antigo de não ler informação adicional antes de acabar a leitura do livro. Nada de entrevistas ao autor a propósito do lançamento desse ou doutros livros, comentários da crítica, opiniões várias fora do meio do Goodreads a que já me habituei. Prefiro ter o mínimo de contexto acerca do que gostaram ou não no enredo, estrutura, personagens...


E, depois, por causa destes cuidados redobrados, há surpresas, como Dom Casmurro, de Machado de Assis.


Não quero vir para aqui presentear-vos com spoilers desnecessários, mas digamos que eu nunca pensei que a história de Bentinho Santiago se desenrolasse assim. É daquelas narrativas mornas, muito lentas, mas que de repente ganham velocidade e pegam fogo a todas as nossas expectativas! Nossas... Entenda-se, as de quem não se tenha informado muito acerca do que se trata.


Desde a primeira página que pressenti que Dom Casmurro não chegaria a ser um dos meus livros favoritos. Sim, é um clássico (até o li inserido no tema de Março d'Uma Dúzia de Livros) mas o ritmo dos acontecimentos é irregular, o que ora me entusiasmava, ora me enfastiava. Foram menos de duzentas páginas que valeram por muitas mais - de certa forma, nem sei se duma forma positiva ou negativa.


Claro que, entre o "pára, arranca" da vida de Bentinho Santiago, vieram as surpresas. Estas não são realmente surpresas, porque são mencionadas na biografia de Machado de Assis e em sinopses menos generalistas que as da contracapa da edição que tenho de Dom Casmurro. Quando lá cheguei, até tive de reler algumas páginas. Senti que só podia ter perdido alguma coisa, entre as viagens de metro que gastei a ler, mas não. As fantasias da psique afectada de Dom Casmurro levavam a crer que tinha lido tudo bem. Pregou-me um desgosto.


Entre a análise fina dos costumes da época e dos humores, amores e desamores das personagens, em particular do narrador Bentinho, instalou-se tanta indiferença quanto caos. Restou-me fechar o livro sem saber se gostei ou desgostei em maior intensidade. Dom Casmurro foi um misto de tudo e mais alguma coisa. À parte a riqueza das referências intertextuais, da crítica social, da profundidade dos sentimentos e da vida da psique, ficou sempre a parecer que a loucura do protagonista deixou qualquer coisa a desejar.


Se já leram Dom Casmurro, de Machado de Assis, e também se sentiram desorientados quando finalmente acabou, digam-me como se consolaram dele.

A vida normal: Eliete (Dulce Maria Cardoso)

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Este ano tem sido óptimo em termos de leituras. Tenho aprendido a ler profundamente (a chamada deep reading), outra vez, com entusiasmo e voracidade. Em parte, isto só é possível graças à sorte de encontrar ou escolher livros que me conseguem chamar a atenção desde o início.


Um deles foi a Eliete, de Dulce Maria Cardoso. Um gosto ligeiramente "maria vai com as outras", mas a verdade é que lhe confirmo todas as virtudes que já outros lhe atribuíram.


A Eliete podia ser uma de nós - há uns anos, daqui a uns anos ou mesmo agora. Outrora foi jovem, teve sonhos, apaixonou-se, cresceu e viveu em sítios por onde também nós já passámos, muitas das personagens da vida dela são as das nossas, tem pensamentos comuns, sofre de males comuns, leva uma vida comum. O título desta Primeira Parte regista: "vida normal".


O primeiro volume da história da Eliete, de Dulce Maria Cardoso, é um daqueles livros criticáveis, por poder ser datado, por ser escrito com uma voz de mulher, por falar bem e mal dos homens, por trazer à literatura portuguesa temas e episódios tão mundanos quanto a instalação duma aplicação de encontros no telemóvel, os emojis, a alienação dos entes queridos pelo nariz enfiado nos telemóveis, os motéis, as ditas crises de meia idade e o golo do Éder.


Por outro lado, a Eliete há-de servir de espelho da mulher madura na segunda década deste milénio. Vejo nele a expressão do que já é corriqueiro no resto da literatura quando exposto do ponto de vista masculino, mas que se lê cada vez mais do ponto de vista feminino, a referir: o sexo, a família, a traição, a perda, a superação, a relação com e entre o corpo e a alma, a transformação.


A ditadura e o 25 de Abril continuam presentes, à semelhança do que li em O Retorno, e fiquei com curiosidade em perceber o que se seguirá depois desta primeira fase do despertar da Eliete.


Penso que não tenho sequer palavras para vos explicar melhor sobre o quanto este livro me agradou. De facto, senti que desde o início não tinha outra alternativa senão continuar a leitura até ao fim, e só comecei a sentir o ritmo de leitura abrandar quando, quase no final, a Eliete se começou a tornar mais previsível.


É provável que já tenham lido a Eliete, ou que seja um dos vossos livros por ler. Se for esse o caso, espero pelas vossas opiniões!