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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Ser escritor é profissão, passatempo, estatuto ou mania?

Sou pequena, mas já demasiado alta. Sou desengonçada, distraída do resto do mundo e até da minha própria existência. Passo os dias a imaginar não estar ali, seja ali onde for, porque é sempre ali que não quero estar, onde me sinto presa e demasiado borbulhenta e oleosa entre as mesmas pessoas que conheço desde os 5 anos.

 

Durante as aulas, leio e ouço música com um só fone. Com o outro ouvido, posso ouvir se chamarem o meu nome para responder a alguma pergunta. E, para minha enorme surpresa mais de uma década volvida, respondo sempre com a resposta correcta.

 

Por vezes, escrevo. Lembro-me de ideias que escrevo em papel ou que repito mentalmente, apenas para meu deleite e vaidade. "Que bem que soa!", haveria de pensar. Mas, logo a seguir, acho a frase parva e faço por esquecê-la.

 

Desde a primária que sou batoteira. Ninguém sabe, mas eu escolhia sempre as actividades do Plano Individual de Trabalho que envolvem escrever ou, na pior das hipóteses, ler. Ficava muito frustrada ou aborrecida quando era obrigada a fingir que o facto de me calhar sempre isso era pura aleatoriedade, e lá tirava um pequeno cartão ou folha de papel com instruções para realizar uma operação matemática sem qualquer entusiasmo, um sacrifício necessário.

 

Enquanto sou pequena, apesar de já passar a minha avó em altura, a Professora Antónia inscreve-me no meu primeiro concurso literário, da Editorial Caminho, alusivo à colecção d'Uma Aventura. Nesse concurso, ganho menções honrosas dois ou três anos seguidos. Depois, começo a perceber que o Google não serve só para procurar informação sobre os livros e os filmes do Harry Potter, e passo a inscrever-me em todos os concursos que encontro que permitem a uma miúda de treze ou catorze anos concorrer. A minha avó diz, a brincar:

- Um dia, deixas de ter paredes para tantos diplomas e certificados!

 

Ela está a brincar, mas eu sei que também está a falar a sério, porque ela sabe que isso pode ser um desafio para mim.

 

Com o dinheiro dos prémios, compro CDs dos Jonas Brothers, roupa na Bershka e na Pull&Bear do Rio Sul Shopping, livros da saga Crepúsculo e uma máquina fotográfica de 12MP. Afinal, sou uma adolescente bastante igual às outras, e com esse dinheiro tento remediar um bocadinho do fosso que existe entre o orçamento da minha família e o orçamento das famílias da maioria dos meus colegas no colégio para traquitanas fúteis, às quais alguns parecem ter acesso ilimitado.

 

Nos últimos anos da adolescência, também guardo o dinheiro para pequenas despesas e para as propinas da faculdade. Orgulho-me dessas conquistas e desse talento: eu escrevo. E escrever deu-me dinheiro para ser uma adolescente fútil entre os 13 e os 18 anos.

 

Aos 18, começo a trabalhar e escolho estudar Letras. Quero ser jornalista, apesar de ter um biscate a escrever publicações para blogs publicitários de terceira categoria, mas curiosamente deixo de escrever aquilo de que eu realmente gosto, à excepção deste blog. Não tenho tempo para mais.

 

Mesmo que tivesse esse tempo, estudar literatura mata-me o bicho. Tantos gigantes já vieram antes de mim e escreveram tanto e com tão melhor qualidade. Afinal, para que escreveria eu? Aprender a ler é um presente envenenado, que contamina a admiração que tinha por mim mesma e pelas minhas palavras, pontapeando qualquer esperança de um dia poder ser como esses autores. 

 

Faço o penúltimo semestre da licenciatura na Universidade Católica e escolho a electiva de Escrita Criativa. Conheço a Daniela, a primeira pessoa que conheço que escreve e lê como eu, na mesma quantidade, com o mesmo amor. O nosso professor é o Jorge Vaz de Carvalho, e graças a ele confirmo que afinal não escrevo mal; por outro lado, graças a ele também deixo de ler com prazer durante um par de anos, sempre atenta às falhas dos escritores, mesmo aqueles de quem gosto tanto. Nunca mais perdi completamente esse olhar incansável cheio de julgamento até por quem admiro, mas felizmente vou aprender a geri-lo até ao dia em que escrevo este texto, por fim mais reconciliada com a imperfeição da escrita e da leitura - as minhas e as dos outros.

 

Os meus vinte e poucos anos passam numa nuvem de descobertas, de alegrias profundas e de desgostos inesquecíveis, de lições e de muitos, muitos livros. Já não compro CDs, mas subscrevo o Spotify. Não me tornei na jornalista que queria (mas a Daniela conseguiu), porque me tornei na professora que afinal andava a esconder debaixo da pele e porque já não tenho dúvidas: o que me interessa é escrever. Depois de conhecer a Daniela, conheci o Rui. Depois de conhecer o Rui, conheci a Elisa. Pelo meio, surgiram outras amizades mais passageiras, e não me lembro de quase nenhuma que tenha sido imensamente importante e que não tenha partido pelo menos de uma pergunta ou de um comentário sobre livros e escritores. Estas foram as pessoas que, depois da minha família, me convenceram a continuar a escrever, que insistiram e fizeram questão de ler os meus textos.

 

Se escrever é uma vocação que não depende de prémios (nunca mais ganhei nenhum depois dos 17 anos) ou de títulos (olho com sobranceria para quem se acha escritor por auto-nomeação), eu escrevo. Preciso de escrever, até nos dias em que acho que a minha necessidade frequentemente obsessiva de palavras e clareza vocabular e verbal é mais um entrave do que uma benção. Sofro dos nervos, há dias em que podia rebentar com pânico, mas ter de escrever é uma inevitabilidade.

 

No podcast "10 000 horas", Afonso Cruz explica que escrever é a transpiração do que lê - em primeiro lugar, Afonso Cruz diz-se leitor.

É certo que há suores mais refinados do que outros, por isso não há grande surpresa ao constatar que o meu é inodoro e invisível, mas extremamente pastoso e incontrolável, um pouco como o chichi de um bebé, que é incontinente, inconveniente e desagradável, por muito fofo que também nos pareça.

 

Eu acredito mesmo que quem quer ser escritor ou quem se torna escritor em alguma fase da vida, e sobretudo na infância, foi posto um bocadinho de lado. E, sendo posto de lado, foi possível olhar as coisas de fora [00:05:30].

 

Assim o diz Filipa Melo - escritora, jornalista, crítica literária e, entre todas essas ocupações e mais algumas, também professora da pós-graduação que vou começar este mês, em Escrita de Ficção. (Assistam à conversa completa no vídeo que se segue!)

 

 

Alguns minutos depois, ainda no início da conversa, continua:

Acho que a identidade de todo o artista vem de um certo sofrimento de não pertencer completamente ao mundo dos outros e ficar numa posição de observador. [00:08:49]

 

Ouvir estas declarações é, para mim, como encontrar um cadeirão de braços num cantinho com lareira, onde posso encolher-me a dormitar no meio do Inverno mais frio. Rodeada de adultos, única criança na família, com falta de jeito para fazer amigos, elogiada por ser contida e ter sempre o comportamento adequado e as frases certas na ponta da língua, lembro-me de ensaiar alternativas e outras formas de ser, de pensar, de imaginar e de me fazer entender.

 

Também tenho pensado muito nessa questão: quem é um escritor? Ou melhor: o que é um escritor?

 

A alfabetização crescente e o acesso aos meios de promoção de obras em nome próprio têm gerado o fenómeno dos escritores autopublicados, que procuram ferramentas e formas de distribuir as suas criações . Estes também costumam ser, em simultâneo, os escritores autonomeados. Já vos contei da minha aversão à vaidade das comunicações que recebo por e-mail e pelas redes sociais? Crucifiquem-me!, mas só porque eu faço bolos isso não faz de mim pasteleira. Escrever também não fará de ninguém escritor sem as credenciais e o reconhecimento necessário dos leitores, por isso não me compenetro com a penetração insistente de mensagens na minha inbox de Fulano Etc e Tal | Escritor e Poeta que só vende livros à mãe, ao pai, aos avós e aos padrinhos, mas que se ofende gravemente quando perfeitos desconhecidos não lhe fazem sequer like no perfil de Instagram.

 

Seja como for, eu sei quem não é escritora: eu. E também sei o que não é ser escritora: não escrever e ficar com o texto na cabeça até se evaporar da memória, como eu costumava fazer, só por ter medo que não seja a frase perfeita. Não sendo escritora, ainda assim, escrevo. Sem alternativa, escrevo. Com medo de perder o fôlego pelo caminho um dia destes, volto a estudar literatura e escrita para me forçar a continuar a aprender e a melhorar.

 

Escrever é uma maratona. [00:44:15]

 

É Dulce Maria Cardoso quem o afirma, no programa de rádio de Luís Caetano, "A Ronda da Noite". Logo eu, a quem não é aconselhada a corrida por causa da escoliose, sou obrigada a investir noutros desportos radicais, como passar horas a bater com os dedos no teclado ou a apontar ideias inconsequentes em blocos de notas em papel e no telemóvel. E a evitar a procrastinação por medo, quando não me serve para nada adiar o carácter inadiável da escrita como prioridade na minha vida.

 

Ainda não sei se ser escritor é profissão, passatempo, estatuto ou mania. Nem me interessa, por agora, porque eu sou muitas coisas, entre as quais uma pessoa muito teimosa e obstinada que, por acaso, tenta escrever umas coisas entre ataques de pânico, metades de Victan e muito colo. Na pior das hipóteses fico para professora (quem não faz ensina!, dirá quem merece arder no inferno dos castigos virados para a parede), e isso é outra inevitabilidade muito feliz da minha vida sobre a qual vos posso maçar noutra altura.

 

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Fotografia tirada em Abril de 2021.

Escrevo quase tudo o que lêem neste blog na companhia da Coffee, que ora dorme, ora me corta o raciocínio porque quer brincar, ora está simplesmente perto de mim - de preferência, subornada com um osso.

Um elogio ao "Quotidiano Instável" (Maria Teresa Horta)

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"Nunca cheguei a saber o que me atraía nele: os olhos? As mãos compridas e magras? O ar fechado e triste? A hostilidade quase terna, toda ela aparente? (...) E todavia há uma dormência feliz que não compreendo, ou que talvez não queira compreender, como também nunca consegui entender até onde ia a sua timidez, a sua severidade, ou a sua indiferença por mim."

 

Quotidiano Instável era o nome da coluna d'A Capital e, agora, é o nome duma coletânea com algumas dessas crónicas escritas, há 50 anos (1968-1972), pela jornalista e escritora Maria Teresa Horta. Acima de tudo, mais do que crónicas, estes textos não são só palavras - são formas de estar, pensar e sentir. Acredito que só quem já amou, com paixão, dor, alegria, provação e ternura consiga entender, mesmo que superficialmente, o que se passa nestas páginas. São muitas as palavras que MTH escreve sobre quem mais a inspirou desde sempre, o seu marido Luís, uma autêntica musa no masculino.

 

Se o olhar desgastasse o papel, este livro estaria feito em fiapos. As crónicas são curtas, como mini-contos, mas bastante complexas, rebentando de significado, metáforas, um vai-e-vem entre o sujeito "eu" e uma terceira pessoa. São textos que desafiam as barreiras entre o real e o imaginário, através da narração da paixão, da sensualidade, da sexualidade, da família e das relações em geral numa voz que eleva o amor à condição de mito real, pela sacralização das imagens e raciocínios invocados. Tive de ler cada crónica várias vezes, para recolher tanta informação quanto possível, informação essa que alimenta os sentidos de variadas formas, imagens ricas. Mesmo assim, sei que, cada vez que releio alguma, consigo retirar mais um pouco do que antes... Porque é prosa, mas poderia ser poesia, o que MTH escreve é um fio de consciência que nos cabe destrinçar, que não se sabe bem como ou onde começa.

 

(Senti-me quase sempre a ler cada texto como um sonho...)

 

Paralelamente, aconselho esta entrevista a Maria Teresa Horta no podcast "A Beleza das Pequenas Coisas" (também disponível no Spotify), que complementa a informação disponibilizada no prefácio de Quotidiano Instável por Ana Raquel Fernandes. As crónicas fazem ainda mais sentido à luz da experiência de vida de Maria Teresa Horta - política, jornalística, pessoal... (Não nos podemos esquecer que o erótico feminino, a liberdade implícita, a expressão do desejo, a emancipação, o protagonismo dado à mulher - tudo isto é lindo, um dado adquirido na contemporaneidade, mas não durante a ditadura de Salazar e de Marcelo Caetano.)
Além disso, ouvir MTH é uma delícia. Tem tantas lições para nos ensinar...! Então, aqui fica outra sugestão: Maria Teresa Horta em entrevista no podcast "Biblioteca de Bolso".

 

Quem gosta de crónicas e/ou contos vai adorar este livro, Quotidiano Instável. Quem gosta de poesia vai adorar este livro. Quem gosta da máxima "quantidade não é qualidade" vai adorar este livro curto e tão concentrado.

 

Dadas as nossas circunstâncias actuais, não vos aconselharia particularmente a fazer encomendas, e muito menos a sair de casa para adquirir bens não essenciais; no entanto, se já tiverem este maravilhoso livro na vossa estante, aconselho-vos a darem-lhe uma oportunidade, ou a fazê-lo assim que possível depois deste susto na saúde colectiva. Mesmo que gostem mais dumas crónicas do que doutras, tenho a convicção de que não se vão arrepender.

Um livro que não se mede à página: O Senhor Breton e a entrevista (Gonçalo M. Tavares)

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Quão acessória é a centralidade da poesia?

 

Neste primeiro livro que li de Gonçalo M. Tavares, O Senhor Breton e a entrevista (de 2008), fui apresentada a um fio de pensamento errante, acerca do papel do pensamento abstracto, das palavras e da literatura. Na verdade, sei que li cada capítulo pelo menos duas vezes, e continuo a relê-los, insistentemente. Fico uma e outra vez com a impressão de que me escapou um raciocínio qualquer, uma parte do texto, um significado escondido. Por isso,  parece que a entrevista do/ao Senhor Breton vai ser daqueles livros que vou andar a reler pelos anos fora, um clássico na estante pessoal. São 54 páginas como os lençóis e as mantas: desdobram-se e alargam-se(-nos). Há livros que não se medem à pagina.

 

A meio da leitura, apercebi-me de que este livro majestosamente pequeno é parte duma série chamada "O Bairro". Assim, quando me cansar da releitura, começo a arranjar os outros volumes - fácil! Aliás, imediatamente depois de escrever este texto, vou procurá-los.

 

Não, este não é o livro mais fácil de sempre. É um bocado louco, prescrito a quem queira ficar com o cérebro frito. É qualquer coisa entre o demais e o já chega, mas é isso que faz dele tão especial. De vez em quando, gosto de ler livros que me desafiem. O Senhor Breton, sem dúvida, não me facilitou a vida.  A coletânea de dez perguntas meta e metafóricas insiste no desvendar de pensamentos formalmente simples, mas semanticamente complexos.

 

E o mais importante para o leitor, para o escritor, para quem se alimenta de palavras e versos? Depois de ler O Senhor Breton e a entrevista, eu diria que é aceitar que nem todas as perguntas podem ser respondidas, porque é frequente nem ser necessário. Lá no fundo, já sabemos o que nos faz falta.

 

Obrigada, Gonçalo M. Tavares, por me ter impressionado e engolido à primeira leitura.

Quase rezei para gostar: Jesus Cristo Bebia Cerveja (Afonso Cruz)

Já vos contei da primeira experiência a ler Afonso Cruz: fiquei triste por pensar que iria ser a revelação do ano, e foi mais a desilusão do semestre. No entanto, decidi dar uma segunda oportunidade, porque outras pessoas confirmaram que, da bibliografia do autor, Flores não era o melhor.

 

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Assim sendo, avancei para o outro livro que já tinha comprado: Jesus Cristo Bebia Cerveja. Neste, Afonso Cruz conta a história duma neta - Rosa - e duma avó - Antónia - que vivem no cimo dum monte, perto duma aldeia caricata. Comecei logo por gostar da premissa, que já tinha conhecido quando ouvi Afonso Cruz numa feira cultural em Banguecoque, há um par de anos. Também eu sou neta única, também eu tenho uma avó que substitui e compensa por qualquer mãe biológica que tenha tido outras ambições na vida, e também eu tenho medo que a minha avó adoeça e perca qualidade de vida, mas certa de que, se fosse necessário, também eu montaria uma Jerusalém no meio do Alentejo.

 

Apesar de achar que não é o melhor livro dum autor português contemporâneo que leio, gostei bastante de Jesus Cristo Bebia Cerveja. Todas as personagens têm uma faceta de loucura que só a literatura poderia catalogar tão bem, e que não me surpreenderiam se existissem na vida real. Na sua falta de sentido, fazem sentido. É um elenco que, senti, enriqueceu o meu imaginário, que me obrigou a pôr-me na pele de Rosa e a alegrar-me e a incomodar-me com a narrativa dos seus dias.

 

A aparente temática religiosa - Jesus Cristo Bebia Cerveja - é só um chavão, mas outras discussões são deixadas no ar para as apanharmos: o papel da mulher como cuidadora primária da família, o papel do homem possivelmente dependente das mulheres na família e na sociedade, o significado do amor romântico, o cosmopolitanismo e as viagens, as relações entre empregados e empregadores, a importância da educação moral e emocional vs. instrução - tudo isto misturando um cenário que não cheira a passado, nem a presente, nem a futuro, mas que me cheirou definitavamente a uma imagem mental do interior de Portugal.

 

Além disso, apesar de o final ser triste q.b., promete um renascimento de igual forma. Quando gosto de uma personagem, prefiro acreditar que outras vidas lhe restarão para outros livros hipotéticos. Depois de decisões difíceis, algo virá, bom ou mau.

 

Jesus Cristo Bebia Cerveja, porque, afinal, todas as histórias podem ser contestadas e reimaginadas.

 

📚 Entretanto, instalou-se na minha casa uma febre de Afonso Cruz, pelo que já tenho Os Livros que Devoraram o Meu Pai O Macaco Bêbedo Foi à Ópera recomendados e preparados para descolarem da estante. Por onde começo - alguma sugestão?

Estas devem ter espinhos: Flores (Afonso Cruz)

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Quando penso em comprar um livro, tento ler as primeiras páginas antes de o fazer, ou ler sobre ele para nivelar as expectativas. Gosto principalmente de ler opiniões doutros autores ou contactos do Goodreads cujos gostos eu ache semelhantes aos meus.

 

Passei por esse processo com Flores, de Afonso Cruz. Até já me tinham falado sobre ele em mais do que um clube de leitura, por isso estava confiante de que haveria de, pelo menos, achar-lhe piada. Também já me tinham dito que não era o melhor romance do autor, daí tê-lo escolhido antes do outro que comprei, Jesus Cristo Bebia Cerveja, sobre o qual o ouvi falar numa conferência em Banguecoque quando lá vivi (e sobre o qual ainda estou curiosa).

 

No entanto, não foi com Flores que me senti arrebatada. Tem apontamentos interessantes, que me levaram a pousar o livro por alguns momentos para reflectir sobre eles, mas a segunda metade do livro revelou-se penosa com demasiada rapidez. Digo isto tal e qual o senti, o que não quer dizer que o resto das pessoas também não gostem de Flores. Antes pelo contrário, as avaliações que li no Goodreads são positivas, por isso fica a ideia de ser uma mera impressão pessoal.

 

A mim, o que que mais desagradou foi a impressão insistente de que deveria estar a ler ou a fazer outra coisa qualquer, pela repetição, falta de sentido, monólogos insosos, falta de diálogos que - na minha opinião, enriqueceriam tanto o enredo. Penso que esta sensação também se deveu às personagens demasiado semelhantes entre si, com vidas emocionais que me pareceram ser alimentadas por fantasmas da mesma origem, não se conseguindo distinguir uma voz doutra, sem ser pelo conteúdo associado a cada uma. Persistiu a impressão de que faltava qualquer coisa, pelo que infelizmente não me senti interessada em terminar o livro.

 

Estou desconsolada, mas ainda não desisti. Embora não tenha marcado Flores como lido no Goodreads, mas sim como "desistência", darei uma oportunidade a Jesus Cristo Bebia Cerveja e darei notícias assim que possível.

Fé, questionamento e sentido de humor: Caim (José Saramago)

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Quem é que nunca se zangou com Deus? Quem é que não Lhe fez perguntas que acabam por ecoar no vazio? Quem é que nunca se sentiu endrominado, frustrado, descrente?


Mesmo que não nos identifiquemos com elas, muitos de nós cresceram no meio de referências cristãs, quiçá católicas. Sempre ouvimos falar de Deus e do poder que tem sobre as nossas vidas, das histórias da Bíblia e da sua relação com a História. Este livro é para quem tem muitas perguntas e poucas respostas, crente ou descrente, praticante ou não praticante, desde que consiga encontrar um escape no humor e na exposição do absurdo.


Há quase duas semanas, acabei de ler o livro Caim, de José Saramago. Gostei muito e só tenho pena de me faltar cultura bíblica para entender tudo ainda melhor, para ainda mais me rir. É um livro tão pequeno, mas tão engraçado. E tão polémico. Sei que pode haver quem se ofenda. Ainda assim, ao ler sobre as aventuras de Caim pelas palavras de Saramago, imaginei-o numa discussão acesa com Deus, porque nem todos podemos manter a fé perante tantas dúvidas, porque Deus nem sempre assiste, ao que parece, e porque somos apenas humanos e procuramos sentido em tudo, sem conseguirmos encontrá-lo sempre. Para os crentes, penso que pode ser uma forma de reler a religião, de forma a testar a sua própria fé e... enfim, sentido de humor.


Por ter sido Saramago a escrevê-lo, também imaginei a leitura na voz dum avô resmungão, revoltado contra as injustiças do universo nos últimos anos da sua vida - que provavelmente foi o caso. Por estar cheio de provocações, é daqueles livros de que se gosta muito ou que se odeia, mas é impossível ficar indiferente ao questionamento constante de Deus, cheio de falhas, não só antropomórfico, como também humanizado, rival-amigo de Satanás, chefe dos anjos, vivendo a eternidade a seu belprazer.


Infelizmente, Caim não é um dos meus livros favoritos escritos por Saramago - não pela parte religiosa, mas pela literária. Não lhe encontrei nada de especial, além da indagação e da ridicularização da crença no divino, porque o resto me pareceu vulgar, pouco ambicioso e surpreendente. Além disso, claro que não ajuda a minha falta de conhecimento profundo acerca da Bíblia! De resto, por ser um romance curto e cheio de imprecações que fariam um adolescente corar, recomendo para quando precisarem de uma leitura rápida e bem disposta, mas não menos desafiante.

 

📝 Pergunta para queijinho: qual é o vosso livro favorito de Saramago? E porquê?

Sobre as relações de vizinhança: Casos do Beco das Sardinheiras (Mário de Carvalho)

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Tenho pena de quem nunca tenha experimentado a sensação de ter nos seus vizinhos uma mão extra quando falta, a companhia suplente para os grandes eventos, o ingrediente que falta ou as ofertas inesperadas dum bolo, uma fruta trazida da terra, os legumes da horta ou uma boleia quando o carro não pega. A vida é tão melhor quando vivemos perto de pessoas cujos nomes sabemos, a quem podemos sorrir logo de manhã ou com quem nos cruzamos no elevador sem grande constrangimento. Os meus vizinhos em Portugal partilham tudo o que cultivam na horta, e até me venderam o carro deles em segunda mão por um preço simpático; e os do outro lado da rua foram como uma extensão à família durante a minha infância e adolescência. Do outro lado do mundo também tive sorte: uma das minhas vizinhas tailandesas em Bangkok trazia-me mangas e fruta-dragão da terra dela, apesar de nem falarmos a mesma língua e a nossa comunicação se basear em pedaços de inglês aqui e ali e em risos e wais descoordenados.


Pareceu-me ser esse o tema do livro Casos do Beco das Sardinheiras, de Mário de Carvalho: a vizinhança com quem se mantém uma relação amor-ódio, que são realmente tudo de bom, mas que de vez em quando também podem ser só gente metediça e inconveniente. À mistura, temos um bairro muito sui generis, que tem tanto de típico, como de paranormal. Eventos estranhos acontecem no Beco das Sardinheiras, ora por culpa dum vizinho, ora por culpa do outro, ora por sabe-se lá que carga de água.

 

Ler os Casos do Beco das Sardinheiras é como abrir um glossário de expressões idiomáticas que os nossos avós usam, ou que pelo menos se ouvem cada vez menos. A cada página, parece que somos surpreendidos por mais uma, que provavelmente nunca ouvimos antes. Ainda bem que há quem tente preservar este espírito que será enterrado à medida que tais expressões caem em desuso! Sempre que descobria uma nova, só pensava "e se alguém tentasse traduzir isto para outras línguas?!". Acho que nem dava, ou seria precisa muita mestria para abarcar a sua riqueza linguística e cultural.

 

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Mesmo assim, foi o último dos Casos do Beco das Sardinheiras que realmente me surpreendeu. Não vos vou contar qual é o desfecho, mas prometo que ficarão surpreendidos e que lhe acharão graça.


Se estão à procura dum livro literalmente levezinho escrito por um autor português, talvez porque, tal como eu, se andam a desleixar na leitura da nossa língua nativa, recomendo este. São casos que nos fazem ficar a pensar que, mesmo quarenta anos depois de serem escritos, continuam a fazer sentido neste modo de estar tão português, tão cosmopolita, e simultaneamente tão provinciano.

 

📚 Têm mais alguma sugestão de leitura em português? Esta foi a minha leitura de Maio, com o tema "Flores", para Uma Dúzia de Livros, promovido pela Rita. 

Encontrámo-nos anteontem para discutir as nossas leituras, no sítio do costume -  A Sala, uma cafetaria/espaço de lazer muito acolhedor em São Bento, onde também já organizei um workshop e onde tento ir sempre que possível! O gelado da primeira foto estava delicioso!

 

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Violência doméstica na literatura portuguesa: Preciosa (Nelson Nunes)

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Há livros que são mais difíceis de ler do que outros. Normalmente, são mais difíceis porque têm frases longas, ideias complexas que somos incapazes de seguir. Ou, então, porque não concordamos com o autor, não o entendemos, não conseguimos encontrar nada em comum e que nos estimule a ler mais. (Que outras razões vos atrasam a leitura?)


Depois, há livros que são difíceis de ler porque há coisas que doem só de imaginar, quanto mais saber que muito do que o autor escreveu também lhe aconteceu, tal como a pessoas muito próximas de nós. Felizmente, nem a violência doméstica nem sequer as relações tóxicas fazem parte da história da minha família. Aliás, terão de facto existido, mas antes de eu ter sido gente. No entanto, já assisti a muita coisa nas famílias dos outros e já conheci as consequências em primeira mão do que é viver e ter crescido numa casa em que a violência física e psicológica são um dado adquirido por várias décadas. Pode não me ter acontecido a mim, mas já aconteceu à minha frente e já ouvi vários relatos na primeira pessoa.


Dito isto, foi muito difícil ler o livro Preciosa, do Nelson Nunes (autor que devem conhecer mais à conta da não-ficção), lançado na semana passada. Corri a comprá-lo no dia em que saiu, não só por conhecer o Nelson há alguns anos e adorar as crónicas dele, mas também por curiosidade sobre este livro, cujo tema ainda não faz explicitamente parte da literatura portuguesa. Finalmente, a violência doméstica é retratada na ficção, ou na ficção quase autobiográfica. Acabei por lê-lo em três dias, embora seja um livro curto, porque não conseguia ler muito mais do que 20 páginas de seguida.

 

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Depois de o Preciosa ter sido recomendado por Marcelo Rebelo de Sousa e Cristina Ferreira, há pouco que eu possa acrescentar à opinião pública. Resta-me admirar e agradecer a coragem do Nelson Nunes, que reabriu portas do seu passado para partilhar connosco algo tão perturbador e definidor numa vida quanto a existência dum pai que o inspirou à criação da personagem Isaac. Voltar a expor a ferida para escrever sobre o que nos atormenta para que a história possa ser partilhada como elogio à sobrevivência possível e para a consciencialização pode ser libertador, mas de fácil deve ter muito pouco. Ao mesmo tempo, a homenagem prestada a uma mãe igual a Esmeralda é a parte mais bonita. A acção desta mulher forte deve-nos servir de lição para conseguirmos mais ou menos tudo na nossa vida - se ela foi capaz de se refazer duma fase tão negra e devolver segurança e uma vida boa a um filho, qualquer um fica a sentir que também conseguirá seja o que for.

 

Apesar das falhas na sociedade, do silenciamento das vítimas, da desresponsabilização dos agressores, da desvalorização e normalização da violência nas relações, é-nos deixada uma mensagem de esperança - e de alerta - sobre a possibilidade de pedir ajuda e de a vida poder continuar. Espero que livros como este possam trazer o tema da violência doméstica para cima da mesa colectiva, de modo a quebrar-se o silêncio e a tentar chegar a coragem a quem mais precisa de se fazer ouvir.


Na minha opinião, este Preciosa é também uma chamada de atenção para as tais consequências, na forma de mazelas que, se não físicas, são psicológicas e afectam a forma como quem já viveu num lar a desfazer-se por estes motivos encara a relação consigo mesmo e com os outros pela vida fora, principalmente quando muito jovens. Na minha geração, vejo e conheço exemplos de dois caminhos possíveis na idealização do amor: a concretização do ciclo de relações violentas, que se repete, porque foi assim que se viu fazer, estando enraizado e normalizado; ou exactamente o contrário, a dúvida e a preocupação constante com o bem-estar do outro, o medo de desapontar e de poder magoar, a consciência constante dos precedentes e a sua evitação a qualquer custo, combinados com baixa auto-estima, sentimentos muito bem retratados pelo Nelson Nunes. Penso que ainda existe a sensação de que "temos é de ser fortes", e que o passado fica no passado, e que as coisas passam (mas não passam) e que estas gerações mais novas só se sabem queixar, enquanto deviam era aprender "que é assim a vida, difícil, temos de aguentar". Aguentar coisa nenhuma! Há sempre algo mais que pode ser feito. Não, não nos devemos conformar com esta miséria de espírito e as vítimas devem ser ouvidas e apoiadas, nomeadamente a nível da sua saúde mental. Não há justificação para se bater ou maltratar seja quem for, muito menos alguém de quem se "gosta".


Que a literatura nacional continue a inspirar a mudança nos pseudo-costumes nefastos e nas mentalidades pequenas do nosso país! Que uma voz seja dada a quem a perdeu! Que possamos abrir os olhos para o que se passa à nossa volta e não contribuir para ciclos de violência, para a desvalorização do mais "insignificante" acto de violência e a falta de atenção dada às vítimas pelas autoridades mas também por quem as rodeia, que decide não fazer nada, para não se intrometer. Não podemos ser cúmplices. Como devem saber, as estatísticas da violência doméstica em Portugal nos primeiros meses de 2019 provam o quanto ainda está por conquistar.


(Se puderem, leiam este livro, que não há-de tomar-vos muito tempo, mas que vos poderá relembrar desse tanto que a sociedade tem por conquistar, ou ofereçam-no a quem possa beneficiar desta história e da sua mensagem.)

 

Obrigada, Nelson, por teres escrito (mais) um livro que pode vir a fazer a diferença! 👏

A vida normal: Eliete (Dulce Maria Cardoso)

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Este ano tem sido óptimo em termos de leituras. Tenho aprendido a ler profundamente (a chamada deep reading), outra vez, com entusiasmo e voracidade. Em parte, isto só é possível graças à sorte de encontrar ou escolher livros que me conseguem chamar a atenção desde o início.


Um deles foi a Eliete, de Dulce Maria Cardoso. Um gosto ligeiramente "maria vai com as outras", mas a verdade é que lhe confirmo todas as virtudes que já outros lhe atribuíram.


A Eliete podia ser uma de nós - há uns anos, daqui a uns anos ou mesmo agora. Outrora foi jovem, teve sonhos, apaixonou-se, cresceu e viveu em sítios por onde também nós já passámos, muitas das personagens da vida dela são as das nossas, tem pensamentos comuns, sofre de males comuns, leva uma vida comum. O título desta Primeira Parte regista: "vida normal".


O primeiro volume da história da Eliete, de Dulce Maria Cardoso, é um daqueles livros criticáveis, por poder ser datado, por ser escrito com uma voz de mulher, por falar bem e mal dos homens, por trazer à literatura portuguesa temas e episódios tão mundanos quanto a instalação duma aplicação de encontros no telemóvel, os emojis, a alienação dos entes queridos pelo nariz enfiado nos telemóveis, os motéis, as ditas crises de meia idade e o golo do Éder.


Por outro lado, a Eliete há-de servir de espelho da mulher madura na segunda década deste milénio. Vejo nele a expressão do que já é corriqueiro no resto da literatura quando exposto do ponto de vista masculino, mas que se lê cada vez mais do ponto de vista feminino, a referir: o sexo, a família, a traição, a perda, a superação, a relação com e entre o corpo e a alma, a transformação.


A ditadura e o 25 de Abril continuam presentes, à semelhança do que li em O Retorno, e fiquei com curiosidade em perceber o que se seguirá depois desta primeira fase do despertar da Eliete.


Penso que não tenho sequer palavras para vos explicar melhor sobre o quanto este livro me agradou. De facto, senti que desde o início não tinha outra alternativa senão continuar a leitura até ao fim, e só comecei a sentir o ritmo de leitura abrandar quando, quase no final, a Eliete se começou a tornar mais previsível.


É provável que já tenham lido a Eliete, ou que seja um dos vossos livros por ler. Se for esse o caso, espero pelas vossas opiniões!

 

De volta à literatura em português: Luanda, Lisboa, Paraíso (Djaimilia Pereira de Almeida)

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Já imaginaram um mundo de homens sem mulheres? Sei que o Murakami e o Hemingway têm uns livros de contos com um título parecido, mas desta vez ficamo-nos por bem mais perto do que as paisagens nipónicas ou americanas. Ficamo-nos, mais particularmente, por Lisboa, começando em Luanda, em direcção ao Paraíso.

 

Hoje, escrevo sobre Luanda, Lisboa, Paraíso, o romance mais recente da autora portuguesa Djaimilia Pereira de Almeida (que me despertou a atenção, curiosamente, por se ter doutorado num dos programas que me interessam na FLUL). Li-o este mês de propósito, para Uma Dúzia de Livros, criado pela Rita da Nova, cujo objectivo de Janeiro é ler "um livro escrito por uma mulher".


Antes de prosseguir, gostaria de partilhar já que o adorei. Luanda, Lisboa, Paraíso é um daqueles livros que parece ter sido escrito palavra a palavra, com todo o cuidado, nenhuma delas aleatória. Todas têm um sentido e um lugar. Cheguei a ler a mesma página várias vezes, para aproveitar todos os bocadinhos que poderia não ter saboreado à primeira, segunda ou terceira vez. Na minha opinião, é isto que faz um óptimo livro, seja qual for o género.


Os protagonistas desta história são pai e filho, Cartola e Aquiles, que vivem num mundo pouco justo e onde a desilusão é o prato do dia, acompanhados pelos seus amigos Pepe e Iuri. São homens que, embora não tenham aprendido a viver sem mulheres, têm de aprender a sobreviver sem elas. Claro que também há mulheres na história, mas as que existem estão bem longe, ou são figurantes das vidas dos homens que, por algum motivo, assombram. Os protagonistas são homens desorientados, as restantes são as mulheres que lhes dão norte ou que os denorteiam.


Apesar da dimensão aparentemente redutora sobre as personagens femininas que possam retirar das minhas primeiras impressões, a verdade é que um romance semelhante poderia ter sido igualmente escrito do ponto de vista dessas mulheres, porque também elas vivem sem homens. Esta foi a minha leitura, mas talvez outras pessoas consigam ler Luanda, Lisboa, Paraíso de forma diferente. Às mulheres, é concedida uma aura mística, superior, sensual, como se, tal como os deuses, fossem capazes de revelar o melhor dos homens quando uns e outros se amam.


Por vezes, os mundos dos homens e das mulheres convergem, e essas são provavelmente as únicas partes em que Luanda, Lisboa, Paraíso se tornou um pouco menos triste para mim. É uma história bonita, mas mesmo triste. Raramente encontro histórias felizes na boa literatura, já que tem de haver, pelo menos, algum conflito que interesse ao leitor. No entanto, tirando a promessa do amor e da família que vão sentindo de longe, Cartola e Aquiles raramente vivem, limitando-se a sobreviver.


E mais não digo, para não vos estragar com spoilers!

 

Luanda, Lisboa, Paraíso passou a ser um dos meus livros de ficção preferidos dos últimos tempos. Foi o primeiro deste ano, escrito por uma mulher (já que li tão poucas em 2018), e ainda bem que o escolhi para iniciar o desafio Uma Dúzia de Livros. Além disso, hei-de dar mais oportunidades aos livros da Djaimilia Pereira de Almeida.