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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Violência doméstica na literatura portuguesa: Preciosa (Nelson Nunes)

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Há livros que são mais difíceis de ler do que outros. Normalmente, são mais difíceis porque têm frases longas, ideias complexas que somos incapazes de seguir. Ou, então, porque não concordamos com o autor, não o entendemos, não conseguimos encontrar nada em comum e que nos estimule a ler mais. (Que outras razões vos atrasam a leitura?)


Depois, há livros que são difíceis de ler porque há coisas que doem só de imaginar, quanto mais saber que muito do que o autor escreveu também lhe aconteceu, tal como a pessoas muito próximas de nós. Felizmente, nem a violência doméstica nem sequer as relações tóxicas fazem parte da história da minha família. Aliás, terão de facto existido, mas antes de eu ter sido gente. No entanto, já assisti a muita coisa nas famílias dos outros e já conheci as consequências em primeira mão do que é viver e ter crescido numa casa em que a violência física e psicológica são um dado adquirido por várias décadas. Pode não me ter acontecido a mim, mas já aconteceu à minha frente e já ouvi vários relatos na primeira pessoa.


Dito isto, foi muito difícil ler o livro Preciosa, do Nelson Nunes (autor que devem conhecer mais à conta da não-ficção), lançado na semana passada. Corri a comprá-lo no dia em que saiu, não só por conhecer o Nelson há alguns anos e adorar as crónicas dele, mas também por curiosidade sobre este livro, cujo tema ainda não faz explicitamente parte da literatura portuguesa. Finalmente, a violência doméstica é retratada na ficção, ou na ficção quase autobiográfica. Acabei por lê-lo em três dias, embora seja um livro curto, porque não conseguia ler muito mais do que 20 páginas de seguida.

 

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Depois de o Preciosa ter sido recomendado por Marcelo Rebelo de Sousa e Cristina Ferreira, há pouco que eu possa acrescentar à opinião pública. Resta-me admirar e agradecer a coragem do Nelson Nunes, que reabriu portas do seu passado para partilhar connosco algo tão perturbador e definidor numa vida quanto a existência dum pai que o inspirou à criação da personagem Isaac. Voltar a expor a ferida para escrever sobre o que nos atormenta para que a história possa ser partilhada como elogio à sobrevivência possível e para a consciencialização pode ser libertador, mas de fácil deve ter muito pouco. Ao mesmo tempo, a homenagem prestada a uma mãe igual a Esmeralda é a parte mais bonita. A acção desta mulher forte deve-nos servir de lição para conseguirmos mais ou menos tudo na nossa vida - se ela foi capaz de se refazer duma fase tão negra e devolver segurança e uma vida boa a um filho, qualquer um fica a sentir que também conseguirá seja o que for.

 

Apesar das falhas na sociedade, do silenciamento das vítimas, da desresponsabilização dos agressores, da desvalorização e normalização da violência nas relações, é-nos deixada uma mensagem de esperança - e de alerta - sobre a possibilidade de pedir ajuda e de a vida poder continuar. Espero que livros como este possam trazer o tema da violência doméstica para cima da mesa colectiva, de modo a quebrar-se o silêncio e a tentar chegar a coragem a quem mais precisa de se fazer ouvir.


Na minha opinião, este Preciosa é também uma chamada de atenção para as tais consequências, na forma de mazelas que, se não físicas, são psicológicas e afectam a forma como quem já viveu num lar a desfazer-se por estes motivos encara a relação consigo mesmo e com os outros pela vida fora, principalmente quando muito jovens. Na minha geração, vejo e conheço exemplos de dois caminhos possíveis na idealização do amor: a concretização do ciclo de relações violentas, que se repete, porque foi assim que se viu fazer, estando enraizado e normalizado; ou exactamente o contrário, a dúvida e a preocupação constante com o bem-estar do outro, o medo de desapontar e de poder magoar, a consciência constante dos precedentes e a sua evitação a qualquer custo, combinados com baixa auto-estima, sentimentos muito bem retratados pelo Nelson Nunes. Penso que ainda existe a sensação de que "temos é de ser fortes", e que o passado fica no passado, e que as coisas passam (mas não passam) e que estas gerações mais novas só se sabem queixar, enquanto deviam era aprender "que é assim a vida, difícil, temos de aguentar". Aguentar coisa nenhuma! Há sempre algo mais que pode ser feito. Não, não nos devemos conformar com esta miséria de espírito e as vítimas devem ser ouvidas e apoiadas, nomeadamente a nível da sua saúde mental. Não há justificação para se bater ou maltratar seja quem for, muito menos alguém de quem se "gosta".


Que a literatura nacional continue a inspirar a mudança nos pseudo-costumes nefastos e nas mentalidades pequenas do nosso país! Que uma voz seja dada a quem a perdeu! Que possamos abrir os olhos para o que se passa à nossa volta e não contribuir para ciclos de violência, para a desvalorização do mais "insignificante" acto de violência e a falta de atenção dada às vítimas pelas autoridades mas também por quem as rodeia, que decide não fazer nada, para não se intrometer. Não podemos ser cúmplices. Como devem saber, as estatísticas da violência doméstica em Portugal nos primeiros meses de 2019 provam o quanto ainda está por conquistar.


(Se puderem, leiam este livro, que não há-de tomar-vos muito tempo, mas que vos poderá relembrar desse tanto que a sociedade tem por conquistar, ou ofereçam-no a quem possa beneficiar desta história e da sua mensagem.)

 

Obrigada, Nelson, por teres escrito (mais) um livro que pode vir a fazer a diferença! 👏

A vida normal: Eliete (Dulce Maria Cardoso)

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Este ano tem sido óptimo em termos de leituras. Tenho aprendido a ler profundamente (a chamada deep reading), outra vez, com entusiasmo e voracidade. Em parte, isto só é possível graças à sorte de encontrar ou escolher livros que me conseguem chamar a atenção desde o início.


Um deles foi a Eliete, de Dulce Maria Cardoso. Um gosto ligeiramente "maria vai com as outras", mas a verdade é que lhe confirmo todas as virtudes que já outros lhe atribuíram.


A Eliete podia ser uma de nós - há uns anos, daqui a uns anos ou mesmo agora. Outrora foi jovem, teve sonhos, apaixonou-se, cresceu e viveu em sítios por onde também nós já passámos, muitas das personagens da vida dela são as das nossas, tem pensamentos comuns, sofre de males comuns, leva uma vida comum. O título desta Primeira Parte regista: "vida normal".


O primeiro volume da história da Eliete, de Dulce Maria Cardoso, é um daqueles livros criticáveis, por poder ser datado, por ser escrito com uma voz de mulher, por falar bem e mal dos homens, por trazer à literatura portuguesa temas e episódios tão mundanos quanto a instalação duma aplicação de encontros no telemóvel, os emojis, a alienação dos entes queridos pelo nariz enfiado nos telemóveis, os motéis, as ditas crises de meia idade e o golo do Éder.


Por outro lado, a Eliete há-de servir de espelho da mulher madura na segunda década deste milénio. Vejo nele a expressão do que já é corriqueiro no resto da literatura quando exposto do ponto de vista masculino, mas que se lê cada vez mais do ponto de vista feminino, a referir: o sexo, a família, a traição, a perda, a superação, a relação com e entre o corpo e a alma, a transformação.


A ditadura e o 25 de Abril continuam presentes, à semelhança do que li em O Retorno, e fiquei com curiosidade em perceber o que se seguirá depois desta primeira fase do despertar da Eliete.


Penso que não tenho sequer palavras para vos explicar melhor sobre o quanto este livro me agradou. De facto, senti que desde o início não tinha outra alternativa senão continuar a leitura até ao fim, e só comecei a sentir o ritmo de leitura abrandar quando, quase no final, a Eliete se começou a tornar mais previsível.


É provável que já tenham lido a Eliete, ou que seja um dos vossos livros por ler. Se for esse o caso, espero pelas vossas opiniões!

 

De volta à literatura em português: Luanda, Lisboa, Paraíso (Djaimilia Pereira de Almeida)

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Já imaginaram um mundo de homens sem mulheres? Sei que o Murakami e o Hemingway têm uns livros de contos com um título parecido, mas desta vez ficamo-nos por bem mais perto do que as paisagens nipónicas ou americanas. Ficamo-nos, mais particularmente, por Lisboa, começando em Luanda, em direcção ao Paraíso.

 

Hoje, escrevo sobre Luanda, Lisboa, Paraíso, o romance mais recente da autora portuguesa Djaimilia Pereira de Almeida (que me despertou a atenção, curiosamente, por se ter doutorado num dos programas que me interessam na FLUL). Li-o este mês de propósito, para Uma Dúzia de Livros, criado pela Rita da Nova, cujo objectivo de Janeiro é ler "um livro escrito por uma mulher".


Antes de prosseguir, gostaria de partilhar já que o adorei. Luanda, Lisboa, Paraíso é um daqueles livros que parece ter sido escrito palavra a palavra, com todo o cuidado, nenhuma delas aleatória. Todas têm um sentido e um lugar. Cheguei a ler a mesma página várias vezes, para aproveitar todos os bocadinhos que poderia não ter saboreado à primeira, segunda ou terceira vez. Na minha opinião, é isto que faz um óptimo livro, seja qual for o género.


Os protagonistas desta história são pai e filho, Cartola e Aquiles, que vivem num mundo pouco justo e onde a desilusão é o prato do dia, acompanhados pelos seus amigos Pepe e Iuri. São homens que, embora não tenham aprendido a viver sem mulheres, têm de aprender a sobreviver sem elas. Claro que também há mulheres na história, mas as que existem estão bem longe, ou são figurantes das vidas dos homens que, por algum motivo, assombram. Os protagonistas são homens desorientados, as restantes são as mulheres que lhes dão norte ou que os denorteiam.


Apesar da dimensão aparentemente redutora sobre as personagens femininas que possam retirar das minhas primeiras impressões, a verdade é que um romance semelhante poderia ter sido igualmente escrito do ponto de vista dessas mulheres, porque também elas vivem sem homens. Esta foi a minha leitura, mas talvez outras pessoas consigam ler Luanda, Lisboa, Paraíso de forma diferente. Às mulheres, é concedida uma aura mística, superior, sensual, como se, tal como os deuses, fossem capazes de revelar o melhor dos homens quando uns e outros se amam.


Por vezes, os mundos dos homens e das mulheres convergem, e essas são provavelmente as únicas partes em que Luanda, Lisboa, Paraíso se tornou um pouco menos triste para mim. É uma história bonita, mas mesmo triste. Raramente encontro histórias felizes na boa literatura, já que tem de haver, pelo menos, algum conflito que interesse ao leitor. No entanto, tirando a promessa do amor e da família que vão sentindo de longe, Cartola e Aquiles raramente vivem, limitando-se a sobreviver.


E mais não digo, para não vos estragar com spoilers!

 

Luanda, Lisboa, Paraíso passou a ser um dos meus livros de ficção preferidos dos últimos tempos. Foi o primeiro deste ano, escrito por uma mulher (já que li tão poucas em 2018), e ainda bem que o escolhi para iniciar o desafio Uma Dúzia de Livros. Além disso, hei-de dar mais oportunidades aos livros da Djaimilia Pereira de Almeida. 

Ler e ser lido; escrever sobre quem escreveu

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É muito mais fácil escrever sobre livros cujos autores dificilmente conseguirão ler as nossas críticas ou interpretações. Se escrever sobre um livro dum autor americano, francês, chinês, com uma tiragem considerável e/ou uma língua diferente, a minha opinião será uma em muitas, terá palavras irreconhecíveis ao olho estrangeiro e distante.


Tenho sempre um certo receio de escrever algo que não faz sentido ou que não vai ao encontro das intenções originais do autor. Esta sensação é um prolongamento da minha mania de imaginar o que os outros acharão do que eu digo, que costuma ser uma sensação útil e produtiva, só que nem sempre conveniente à reflexão livre e pública. Ultimamente tenho reconhecido - eu gosto de agradar. No fundo, todos gostamos, em graus distintos, ou não?


Isto aplica-se particularmente a autores portugueses ou lusófonos que, ao procurarem (se procurarem!) textos sobre as suas obras, se deparem com o que os seus leitores escreveram. Sei que pode acontecer, porque já me aconteceu (do ponto de vista de quem escreve sobre o que se escreveu). O país é pequeno, a língua atravessa fronteiras, a Internet liga-nos. Felizmente, este blog vai crescendo e aparecendo, o que é uma alegria com alguma responsabilidade (pelo menos, na minha cabeça), mas igual ingenuidade. Às vezes, penso "sou nova, vão-me dar o desconto se escrever algum disparate", mas os anos também passam por mim, não vou ficar nos vinte-e-poucos para sempre é há pessoas de todas as idades e meios a visitarem o blog (mais uma vez, uma honra que implica juízo, criação cuidadosa de conteúdo, o meu hobbie idóneo, o meu exercício intelectual que se estende ao Outro que eu não sei quem é).


No entanto, enquanto escrevo este texto, relembro pela enésima vez: os livros (e os blogs) são o que cada um tiver escrito ou lido. Ou que quiser escrever, ou que quiser ler. Para mim, isto. Para ti, aquilo. Não deve haver muitas formas de contornar a variedade de olhares. Talvez o autor não tenha esperado certos modos de ler a história que criou. Talvez o leitor veja cortinas onde só existiam janelas e paredes. Talvez os dois devam, exactamente, dialogar.


Finda esta voltinha inesperada pelo meu constrangimento e pudor, aviso que só vinha aqui escrever sobre um livro do qual gostei muito, acabado de ler há menos duma hora, mas com tanta tagarelice esse texto vai ter de ficar para o próximo post. Retomemos depois deste curto atalho.

Os meus livros em 2018

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Li 31 livros em 2018.


9 mulheres
13 livros de não-ficção
12 livros de autores portugueses
5 e-books

 

Eis alguns números sobre as minhas leituras registadas em 2018 - ou seja, sem contar com tudo o que li para o mestrado, que deixei a meio ou que continuarei dum ano para o outro. Parecem significativos, mas eu acho que ainda são capazes de sofrer reajustamentos.

 

Em 2019, vou subir a fasquia para 40 livros em vez de 25 como objectivo no desafio anual do Goodreads (acabei com 31 terminados). Passo demasiado tempo inutilizado que poderia ser substituído por prazerosos minutos a ler, aqui e ali. Primeiro, faz-me falta melhorar esta concentração de passarinho. Depois, alguns desses livros serão também releituras doutros anos, aos quais sinto que faz sentido regressar, ora porque já não me lembro do conteúdo e deveria lembrar, ora porque "devemos voltar ao que já nos fez felizes'. E, desta vez, procedi a um levantamento do que tenho nas estantes e que ainda não tenha lido, chegando a cerca de 15 livros - mais de metade dos quais espero abater nos próximos tempos.

 

Ter lido apenas 9 livros escritos por mulheres também me surpreendeu. Ainda que não costume ser rígida nesta contagem, fiquei com a sensação de que me faltou a voz, sensibilidade e temas escolhidos por autoras.

 

Numa perspectiva mais optimista, nunca li tanta não-ficção, gosto deste equilíbrio e só me falta tentar ler mais clássicos da literatura e autores portugueses para ficar feliz com os livros que escolho. E não lia tanto desde 2015. Superei as minhas expectativas e desilusões de 2017.

 

Além disso, os e-books passaram a fazer parte da minha estante este ano e, apesar de só aparecerem aqui 5, já tenho mais uns quantos gravados no tablet e no Kobo. Não é o formato que prefiro, provavelmente o papel irá sempre prevalecer nesse aspecto, mas os livros digitais são mais rápidos a "chegar", são bastante práticos e, como ando sempre com uma mochila pesada às costas, os e-books podem andar comigo para todo o lado sem acrescentarem peso.


Em geral, acho que gostei muito de quase todos os livros que li. Não sou de me arrastar e martirizar com livros que deixam de me cativar, pelo que isso é só o mais lógico de rever na lista final. Ainda por cima, alguns dos livros deste ano acabaram por se tornar dos meus favoritos de sempre, como este e este. E este

 

Por agora, são estas as ideias sobre o que li em 2018 que me parece importante ficarem registadas.

 

Obrigada por acompanharem as minhas leituras. Nada me deixa mais feliz por poder partilhá-las do que receber mensagens e comentários de quem se entusiasmou com as recomendações que vou publicando. Em 2018, escrever sobre livros foi o que mais gostei de fazer por aqui.

 

Até 2019!

 

***

 

Ver também o balanço do ano passado: OS MEUS LIVROS EM 2017

10 factos aleatórios sobre mim e os meus livros

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1. Neste momento, o meu romance favorito é O Curso do Amor (Alain de Botton);

 

2. Um dos meus livros preferidos e que, surpreendentemente, já li mais duma vez é O Complexo de Portnoy (Philip Roth);

 

3. O livro que eu sinto que mais marcou a minha adolescência e que me fez pensar pela primeira vez "é isto, eu gostaria de fazer isto" é Abraço (José Luís Peixoto);

 

4. A maior "culpa" de eu gostar tanto de ler e escrever é da minha avó e da minha professora de Português do ensino básico;

 

5. Gostaria que houvesse mais cafés acolhedores em Lisboa onde pudesse ler e escrever - se não o fizerem ao meu gosto, ainda me meto eu em trabalhos;

 

6. Se eu pudesse ressuscitar algum escritor falecido, para que ele continuasse a escrever, seria Eça de Queirós;

 

7. O meu namoradinho literário platónico deve ser o Dexter (Um Dia, David Nicholls);

 

8. As Crónicas de Nárnia são os livros para crianças que eu só percebi realmente na idade adulta;

 

9. Embirro com a leitura de traduções, se os livros tiverem sido originalmente escritos em inglês e, por vezes, em francês; 

 

10. O último livro que acabei de ler é Stoner (John Williams), mas costumo estar a ler, quase sempre, mais de três livros em simultâneo, saltando dum para o outro consoante a disposição e conveniência do momento.

 

*Shelfie desta leitora no Verão de 2015. Entretanto, já houve bastantes alterações em ambas, no self e na shelf.

Li um guia de escrita de ficção: Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão (Mário de Carvalho)

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Se estão à procura de mais um guia de escrita criativa, não leiam Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, de Mário de Carvalho. Este livro não é, sequer, apenas mais um "guia de escrita de ficção". É isso tudo e ainda um ensaio que varia entre o domínio das preferências e opiniões do próprio autor, a referência académica, catálogo de obras e autores, e o entretenimento ligeiro. Já o tinha na minha "to read list" há dois anos e finalmente me convenci (e fui convencida) a arranjá-lo. Valeu a pena!


A escrita criativa parece ser uma actividade com cada vez mais adeptos, seguidores ou meros curiosos. Talvez por causa do aumento da literacia das últimas gerações, escrever acabou por se disseminar como um passatempo respeitado, de exercício intelectual, incitado ainda mais pela Internet, pela popularização de blogues e mesmo pela vaidade em ver e ter obra. Assim, é normal que se publique regularmente sobre o assunto.


No entanto, Mário de Carvalho é considerado um dos melhores escritores vivos em Portugal, pelo que não se esperaria da sua autoria muito menos do que aquilo que se lê nas 276 páginas de Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão. (É verdade que só li A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho há muitos anos, mas a reputação dum autor precede-o.)


Apesar de ser anunciado na capa que se trata dum "guia prático de escrita de ficção", arrisco dizer que até o considero um "guia de leitura". Acho que este livro me demonstrou, além de como poderei tentar escrever, o que posso esperar duma obra com qualidade literária e a repensar muitos dos meus livros favoritos (como a Odisseia e a obra de Eça de Queirós).


Os capítulos tratam de nos aconselhar obras e autores de referência, o que poderá ser a escrita, como começar a escrever, quais os cuidados gerais a ter em conta, a relação do escritor com o leitor, como planear a estrutura e o enredo, como criar títulos, nomes de personagens e as próprias personagens... entre outros assuntos que não me cabe a mim enumerar aqui, mas sim aos interessados descobrir na sua incursão pelo guia.

 

Outro aspecto que distingue este guia de escrita doutros que se encontram nas livrarias portuguesas é o gabarito do cânone seguido por Mário de Carvalho. Como ele mesmo refere, o escritor é que escolhe o tipo de leitor ao qual gostaria de chamar a atenção. Por sua vez, não me parece que os leitores deste livro pretendam escrever (ou aprender a ler, na minha opinião) o próximo bestseller de supermercado. Mesmo que não aspirem ao Nobel da Literatura, talvez possam pelo menos sonhar remotamente com um prémio Leya ou um concurso literário municipal.

 

Antes de terminar, aviso ainda que se devem preparar para a tal quantidade significativa de autores e obras de referência que pelo menos a mim me deu vontade de comprar por inteiro em atacado. Preparem os vossos orçamentos! As recomendações deixadas não sentirão piedade das vossas carteiras!


O resto é convosco. Espero ter-vos entusiasmado tanto para o Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão quanto este livro merece... digo eu!


Boas leituras... E escrita!

Estar Vivo Aleija, mas dói menos por causa de Ricardo Araújo Pereira

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Não vos quero aborrecer com um texto muito longo. No entanto, sei que este é um dos livros mais esperados da rentrée: Estar Vivo Aleija, do humorista que dispensa apresentações, Ricardo Araújo Pereira. E eu digo: provavelmente acabei de o ler primeiro que vocês! Estava desejosa que chegasse o dia de ontem, o primeiro em que o livro esteve à venda sem ser através do site da editora Tinta da China. Por isso, cá vão os meus três tostões acerca desta leitura muito agradável - sem surpresa nenhuma.

 

Desta vez, o meu entusiasmo deve-se à curiosidade trazida por este tipo de crónicas escritas pelo RAP. Depois de ler a entrevista que deu ao Observador, percebi que Estar Vivo Aleija seria uma colectânea de textos sobre temas mais pessoais e descontraídos, e menos políticos (como as crónicas da série Boca do Inferno), num registo mais auto-biográfico e ao mesmo tempo universal, escolhido para agradar os leitores brasileiros da Folha de São Paulo, onde foram originalmente publicadas. São feitas várias referências terurentas à avó que o criou, às filhas e à mulher, sem retirar destaque às peças de teatro de Sófocles e Shakespeare, às singularidades da língua portuguesa, às moscas, ao amor, às batatas e ao chulé. É uma miscelânea de temas!

 

Mais ou menos político, o humor, perspicácia e inteligência permanecem como os conhecemos. Acho que as suas observações sobre as coisas mais banais da existência humana se podem comparar ao olhar sempre admirado e inquisitivo duma criança que está na idade de apontar para tudo e estabelecer ligações inesperadas entre elementos diferentes.

 

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Assim sendo, demorei menos de duas horas a devorar o livro. Li-o duma assentada. Cada crónica ocupa cerca de página e meia, o livro tem cerca de cento e cinquenta páginas... Foi um óptimo entretenimento para a minha hora de almoço! Esta é a leitura indicada para quem quer passar um bom bocadinho, mas também para quem quer ter o livro lá em casa e abri-lo de vez em quando para soltar uma gargalhada ou, pelo menos, arrancar-se um sorriso. Outra coisa não se esperava de RAP. Estar Vivo Aleija, mas dói menos por causa de autores como ele.

Quando um livro nos desilude

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Recentemente, li um livro que me desiludiu. Não é, de longe, um mau livro. Muitos poderão defender que não só é um bom livro, como é um óptimo livro, na verdade. 

 

O problema talvez tenha sido esse. Eu queria que o livro fosse maravilhoso, à semelhança do que toda a gente à minha volta parecia dizer. Tanto me foi recomendado. Não tirei a pulga da orelha enquanto não o li. Também eu queria sentir o que os outros sentiram. Espero que não seja ganância literária, este desejo. 

 

Neste momento, o dito romance está classificado com uma média de 4,21 estrelas (o que acontece a muito poucas obras) no Goodreads, essa ferramenta que promete ilusões e que por vezes semeia desilusões, como a que me estava reservada sem eu saber. Comprei-o, o romance, comecei a lê-lo de imediato e gostei. Gostei, apenas.

 

De facto, é uma narrativa cativante, não se prolonga por demasiadas páginas, não enfada, dá-nos a conhecer um momento muito relevante da História nacional a partir dum ponto de vista curioso, emprestando voz a um protagonista por quem a maioria dos leitores consegue nutrir um certo carinho. Terminei-o em poucos dias, sem me sentir esgotada ou entediada.

 

A minha desilusão é nada disso ser suficiente. Mas eu queria adorar o raio do livro, queria mesmo! Infelizmente, encontrei-lhe algumas falhas e carências que destruíram qualquer possibilidade de o achar fora de série. Sim, é um bom livro. Um livro bom. Não deixo de o recomendar, mas não sinto que farei campanha ferrenha pela sua posição nas minhas preferências. Mas eu queria que ele fosse logo parar à minha lista de favoritos. Mas, mas, mas...

 

Alguma vez vos aconteceu tal desfeita? Alguma vez sentiram indiferença por um livro que pensavam inicialmente estar destinado a vôos mais altos? Alguma vez um livro vos desiludiu?

 

Quando um livro nos desilude, encolhemos os ombros e partimos para a próxima leitura. Ainda assim, fica um desconforto inexplicável no ar. Nem sequer há, como na cena dum crime, alguém a quem apontar o dedo. Nem há crime, criminoso ou vítima. Há, somente, um livro que nos passou ao lado.

O livro que todos precisam de ler nas férias: 'Crónica dos Bons Malandros'

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Caros todos, precisam urgentemente de levar a Crónica dos Bons Malandros, do escritor Mário Zambujal, nas vossas malas das férias! Não interessa se vão para o campo, para a praia, para uma metrópole gigante ou para a santa terrinha, toda a gente precisa de ter um livro para ir folheando antes de ir para a cama, à beira da piscina, nas filas do aeroporto, nos tempos mortos, enquanto as crianças dormem a sesta...

 

Eis os meus motivos para tão efusiva demonstração de apreço pela Crónica dos Bons Malandros.

 

Raramente consigo encontrar livros escritos por autores portugueses ou lusófonos que me façam sorrir, e muito menos rir - isto é, sorrio porque até leio alguns livros muito bons, mas todas as histórias são muito dramáticas, para não dizer trágicas, são de levar uma pessoa à depressão literária. Este ano, já li imensos assim, e finalmente encontrei um livro que me enche as medidas anti-tudo o que me faça ter pensamentos negativos, ainda que sobre realidades completamente ficcionais. Estas Crónicas são O TAL.

 

Não vos quero estragar a experiência com resumos desnecessários, até porque o título diz tudo: esta é a história dum grupo de bons malandros. Como são eles malandros ou quais os seus papéis nestas Crónicas... Deixo-vos a tarefa de o descobrirem.

 

Só para perceberem bem o quanto gostei de as ler, é quase meia-noite, acabei a leitura há cerca duma hora, depois de duas horas e meia intensivas a devorá-lo, com uma única pausa para jantar, e não consigo ir para a cama sem partilhar convosco este grande achado. Têm sido raros os livros que me criam esta reacção, incredulidade, euforia, uma paz imensa por ter lido algo simples, mas genial, em bom português correcto e muito vernacular, que é simultaneamente capaz de fazer o cérebro exercitar-se enquanto relaxa.

 

Não, não descobri a pólvora, o livro tem quase quarenta anos, foi publicado pela primeira vez em 1980, leva-me quinze anos de avanço neste mundo, mas provavelmente muitas pessoas, tal como eu até ao dia de hoje, ainda não ouviram falar dele ou não tiveram oportunidade de lhe pegar.

 

Se o meu entusiasmo não vos convence por si só, aqui vão dois excertos da Crónica dos Bons Malandros que de certeza conquistarão a vossa atenção:

 

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Não posso recomendar demasiadas vezes que levem este livro nas vossas malas das férias. É levezinho (eu tenho uma edição antiga que nem duzentas gramas deve pesar), fininho, enfia-se num saco qualquer, não estorva, tem letra grande, lê-se num par de horas, não é difícil manter o ritmo, os capítulos são de dimensão pequena a razoável, tem diálogos, tem discurso asneirento, tem praguejares tradicionais, é desbragado, pobre em filtros, tem amor e desamor, conflito, palavras raras. Vão por mim e dêem-lhe uma chance!