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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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[O Primeiro Capítulo] Quero escrever-lhes a agradecer, mas já esgotámos todas as palavras boas

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Ontem, tivemos "A Primeira Vez" d'O Primeiro Capítulo, com o convidado-cobaia-amigo Nelson Nunes, e eu ia dizer que foi ideia minha e da Elisa, mas não: já todos os presentes a tinham tido, e finalmente encontrámos a companhia que nos faltava. Confesso que, quando decidimos levar o projecto avante, não me ocorreu que suscitasse tanto interesse. Eu sabia que haveríamos de juntar algumas pessoas curiosas, mas... Mais do que isso: ontem demos as boas-vindas a um grupo como eu nunca tinha visto. Da quantidade de cursos de escrita criativa que já frequentei, dos eventos a que já fui, da licenciatura em Letras e das centenas de alunos que já ensinei nos últimos cinco anos, nunca me tinha deparado com tantos ditos escritores amadores numa só sala (dez!) que escrevessem, tão despretensiosos, de forma tão responsável, sensível.

 

Neste primeiro encontro d'O Primeiro Capítulo, tivemos participantes com formações académicas muito distintas, e quase nunca relacionadas com a literatura ou a escrita criativa (engenharia, arquitectura, finanças, enfermagem, ciência política, sociologia, biologia...). No entanto, todos cultivam um enorme amor e prazer pelas letras, provando que não temos de nos definir exclusivamente pelos empregos que nos pagam as contas, e que os nossos interesses podem divergir imenso, enriquecendo-nos tanto. Somos seres com potenciais tão complexos!

 

No final, restou-me uma sensação particular: fiquei cheia. Não sei bem de quê, porque é um tipo de satisfação indescritível. Devo ter deixado todas as palavras com quem as apanhou. Queria agradecer, e nem sei bem por onde começar.

 

O grupo teve muita química, demonstrámos o interesse comum pela elaboração de textos desafiantes, "com qualidade", e mostrámos vulnerabilidade suficiente para ouvirmos a nossa escrita pela voz doutra pessoa, sem por vezes nunca termos tido uma experiência semelhante. Ouvimos, recolhemos e distribuímos opiniões. Acho que fomos generosos. Queríamos, acima de tudo, ajudar e sermos ajudados, dar e receber, mostrando-nos disponíveis durante algumas horas para integramos um colectivo improvisado. Poucas ou nenhumas eram as pessoas que conhecíamos previamente, mas toda a conversa foi harmoniosa e fluiu pelo dobro do tempo previsto (na verdade, até os vizinhos terem afugentado os últimos resistentes, que doutra forma teriam ficado a conversar noite fora, e não só sobre escrita).

 

Em Novembro há mais! Com os mesmos ou outros participantes, contaremos dar as boas-vindas a mais interessados em partilhar os seus primeiros, segundos ou milésimos capítulos (graças ao apoio d'A Sala, um dos melhores espaços para simplesmente se estar e conviver, em Lisboa).

 

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Há uma frase que a Elisa tem dito nos últimos dias e que eu já referi antes: somos a média das cinco pessoas com quem passamos mais tempo. Elas inspiram-nos, mostram-nos caminhos alternativos e partilham o seu conhecimento connosco. Por isso, obrigada à própria Elisa (que é uma máquina de fazer coisas giras acontecerem), ao Nelson (que deve ser das pessoas mais organizadas que conheço, a julgar pela quantidade de livros que lê e pelos projectos em que se envolve) e a esta dezena de escritores de segunda-feira... por fazerem parte dessa equação maravilhosa, promissora. Estes últimos meses foram uma montanha-russa, e agora que a poeira está a assentar sei que é de pessoas assim que tenho de me rodear.

 

✍️ Em breve, divulgaremos a data e o tema para Novembro, tal como todas as outras informações úteis para quem se quiser juntar a nós! E, além disso, também começaremos a gravar o respectivo podcast O Primeiro Capítulo!

 

Até lá, sigam-nos por aqui:

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O Primeiro Capítulo dum projecto e podcast muito, muito bons!

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Já que não posso começar a rentrée psicológica com o primeiro dia de aulas, venho por este meio lançá-la com um novo projecto para o qual fui arrastada: O Primeiro Capítulo, um encontro por pessoas que gostam de escrever, para pessoas que também gostam de escrever.

 

Desde o início do ano que comecei a ir aos pequenos-almoços mensais das Creative Mornings Lisbon (das quais já vos falei imensas vezes), onde conheci a Elisa Baltazar, a host actual. Parece que a Elisa é uma máquina de fazer coisas acontecer, por isso não foi com grande surpresa que, já não me lembro bem como, decidimos fazer... isto que estamos a fazer! Queríamos escrever, queríamos conhecer mais pessoas que também queiram escrever, e temos vontade de criar uma oportunidade para todos esses escritores de gaveta se encontrarem, trocarem umas quantas ideias e partilharem alguns textos. Acreditamos que esta é uma forma de enriquecimento e crescimento.

 

Sem mais demoras, este é o texto de apresentação do encontro e podcast O Primeiro Capítulo!

 

𝐏𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐠𝐨𝐬𝐭𝐚𝐦 𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐜𝐫𝐞𝐯𝐞𝐫 𝐩𝐫𝐨𝐜𝐮𝐫𝐚𝐦 𝐩𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐠𝐨𝐬𝐭𝐚𝐦 𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐜𝐫𝐞𝐯𝐞𝐫

Dizem que para bem escrever são necessárias duas coisas, ler e escrever.
Concordamos, mas achamos, também , que é necessário optimizar a forma como se lê e a forma como se escreve.
Não é à toa que escritores tão importantes como Bocage, Alexandre Herculano, Almada Negreiros, Fernando Pessoa ou Mário de Sá Carneiro se juntavam em tertúlias onde, entre outros temas politicos e intelectuais, falavam de literatura.
Acreditamos que a interação também inspira, também ensina e também motiva.
Assim, o Primeiro Capítulo é um ciclo de encontros mensais de partilha entre pessoas que escrevem ou querem escrever.

Nestes encontros o objetivo passa, principalmente, por escrever. Escrever todos os meses ou, pelo menos, uma vez por mês. Não mais que 500 palavras sobre um tema que se mostre desafiante.
Uma vez escrito o texto, juntamo-nos e passamos esse texto a alguém para ler em voz alta. Este exercício permite-nos ver como outra pessoa entoa o nosso texto. Ouvir as nossas palavras pela boca de outro pode dar-nos toda uma nova perspetiva sobre a forma como escrevemos. Durante essa leitura não haverá lugar a comentários ou correções. O objetivo é que esta leitura nos dê espaço para repensar a forma como escrevemos.
Depois desta leitura, haverá espaço para comentários. Todos, exceto aquele que o escreveu, terão a oportunidade de comentar aquilo que sentiram falta no texto ou que possa ter ficado menos claro. Finalmente, serão feitas questões ao autor.
Em nenhum destes momentos, o autor terá a palavra. O objetivo aceitar a crítica como construtiva e ter tempo para refletir sobre a mesma.

Finalmente, contaremos também com a presença de um profissional da indústria para partilhar dicas, ideias comentários e, claro, inspirar-nos.

 

Mais concretamente, o objectivo destes encontros é discutir em conjunto textos que tenhamos produzido, sobre o tema lançado cada mês. Também contaremos com convidados especiais em todos esses encontros, que poderão oferecer críticas mais construtivas e algumas dicas relacionadas com o seu trabalho e possíveis obras.

 

Toda a informação pode ser encontrada online, no Instagram e no Facebook d'O Primeiro Capítulo, assim como no site Meetup.

 

Para Outubro, já temos tudo tratado e combinado, e estamos mesmo a aceitar inscrições! O nosso primeiro convidado no dia 7 (segunda-feira) será o Nelson Nunes, um autor de quem já vos falei por aqui, e conhecendo-o há quase uma década e tendo acompanhado a carreira (e a riqueza da estante) dele durante estes anos todos, tenho a certeza de que vamos ter conversas muito interessantes sobre escrita e livros. Para participarem, enviem-me/enviem-nos uma mensagem pelas plataformas e redes sociais sugeridas, ou um e-mail para podcastprimeirocapitulo@gmail.com.

 

Além do encontro, também faremos um podcast d'O Primeiro Capítulo... Mas falarei de tudo a seu tempo! Por agora, gostava muito que acompanhassem este projecto do meu coração, que  hão-de sair daqui belíssimas ideias. E espero ver alguém dos blogs nos nossos encontros! Conto convosco? 💚

O passado como o lembramos: The Sense of an Ending (Julian Barnes)

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Há livros curtos, mas que valem por três ou quatro. Gostei tanto de The Sense of an Ending (O Sentido do Fim, em português) do autor inglês Julian Barnes. De facto, o peso dum final eminente sente-se por todas as palavras. É um dos livros mais tristes que já li este ano, com pedaços tão, tão bons de ler - ou não tivesse ganho o Man Booker Prize em 2011. É daqueles livros que se lê devagar, porque cada linha se revela importante, bela e sintomática do estado de espírito oscilante do narrador, Tony Webster, porque cada frase é indispensável para a compreensão do resto do livro, da sua história e de como a relembra, e o leitor tem de prestar atenção aos detalhes.

 

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Não sei se lhe hei-de chamar exame minucioso à mente, emoção e pensamento humanos, não sei se lhe hei-de chamar thriller psicológico, nem sequer sei pôr The Sense of an Ending numa caixa. Só sei que é indiscutível a montanhas-russa, turbilhão de acontecimentos e memórias que vão desabrochando da análise ao passado em que Tony se aventura, ficando as questões: será que nós também chegaremos à sua idade relembrando o passado com tantas lacunas e erros de julgamento? Será que também nós, os leitores, iremos envelhecer com uma ideia muito mais elogiosa das nossas acções do que verdadeiramente merecemos, colocando-nos num pedestal moral bem superior aos indivíduos com quem nos vamos cruzando e convivendo?

 

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Durante 150 páginas muito ricas ficamos a matutar na nossa própria moral e ética pessoal, no modo como conduzimos as nossas relações e no peso das nossas acções, por mais insignificantes, nas vidas alheias.

 

Li algures uma opinião que dizia que este livro é extraordinário na sua normalidade. É isso mesmo. Não tem um enredo cheio de peripécias. Talvez outras pessoas o achem aborrecido. Tony evoca uma vida medíocre, igual a tantas outras, sem feitos de monta. Ele mesmo reconhece que tentou levar uma existência pacata ao longo dos anos. A vida estóica deste narrador-personagem só é interrompida pela reviravolta da trama, um documento que aparece e invoca fantasmas da sua juventude, colocando em causa a integridade do homem suburbano e rotineiro que se esforçou por ser. É só isso, mais uma vez. Pouco mais vos poderei contar, mas, se se interessam pela forma como o rebuliço interior nos pode pregar partidas e como é que um bom escritor o retrata, The Sense of an Ending é a leitura breve perfeita para passarem umas boas horas em amena agitação mental. Diria que é semelhante, no tema e na abordagem, a As Velas Ardem Até Ao Fim, de Sándor Marái. Nada como desenterrar o passado para melhor nos conhecermos e reconhecermos...

 

A seguir, vou tentar ver o filme. Confesso que tenho curiosidade em perceber como é que uma narrativa tão introspectiva pode ser adaptada para o cinema, e espero não me desiludir.

Nem a falar nos entendemos: Conversations with Friends (Sally Rooney)

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Declaro-me rendida: depois de Normal People, não descansei enquanto não pus as mãos em Conversations With Friends, o primeiro romance publicado da autora irlandesa Sally Rooney.

 

Conversations with Friends não desiludiu, juntando-se à minha lista de favoritos de 2019. De certa forma, é um romance ainda mais completo do que o segundo. Há mais personagens em destaque, e todas elas com uma vida emocional complexa e bem construída, não descrita, mas sim percebida através de diálogos intensos e até da falta de palavras ocasional (show, don't tell, não é esta a regra que os bons escritores devem seguir...?).

 

O que é ser uma mulher jovem, millennial, na actualidade? Quais os limites da amizade e do amor? O que é uma relação? O que é uma conversa? O que é o amor e como o mostramos? O que liga pais e filhos? Que poder temos uns sobre os outros, entre pares, marido e mulher, amigos, entre admiradores e admirados, mais velhos e mais novos? Pertencemos a lugares ou a pessoas? Onde termina a juventude e começa a idade adulta? E qual o efeito do dinheiro em todos os assuntos mencionados? Estas são algumas das questões que gravitam sobre a intriga a quatro: Frances, Bobbi, Nick e Melissa.

 

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Ainda tendo em mente os desentendimentos entre amigos e amantes, tal como em Normal People, neste primeiro romance Sally Rooney joga com as personagens para revelar a imperfeição que nos rodeia, mas perante a qual tantas vezes somos cegos. Os casais-de-capa-de-revista não são sempre felizes, os melhores amigos também escondem segredos uns dos outros e, em geral, não existe um modelo one size fits all para qualquer tipo de relação. O corpo feminino continua a ser uma peça central nas relações hetero e homossexuais, à semelhança da sua ligação com a mente, com o sexo e com a linguagem do que fica por dizer, questionando-nos sobre o seu valor atribuído pelos outros e como a própria dona do corpo o entende.

 

Se bem que o enredo não é o mais criativo possível, a riqueza das interacções entre personagens faz destas conversas com amigos de Sally Rooney uma experiência que me levou a repensar na forma como as minhas próprias relações são vividas (e descritas, e discutidas, por palavras). Por ter uma idade aproximada à das protagonistas, houve muitas partes do livro em que me senti representada, não pelas circunstâncias, mas pelas reacções, pensamentos e valores defendidos. Será que existe mesmo uma mentalidade "millennial", que transgrida fronteiras e afecte toda uma geração ocidental?

 

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No fim, cheguei à conclusão: nem a falar nos entendemos, porque fica sempre alguma coisa por dizer ou alguma coisa que gostaríamos que o outro dissesse e não diz. Seja por mensagens de texto, e-mails, conversas cara-a-cara, conversas sem palavras, discussões acesas... Fica a lição de que, muitas vezes, é impossível comunicarmos de forma perfeita, mesmo que o tentemos com os nossos melhores amigos, os nossos pais ou parceiros.

 

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📚 Claro que à segunda só pode ser paixão, e não me importo que à terceira, quarta, quinta e por aí adiante seja amor para sempre. Já encomendei um conto da Sally Rooney (Mr Salaryque também parece estar online, mas gosto mais de ler em papel) e vou consumir tudo o que houver pela Internet escrito pela rapariga. Se esgotar os recursos, ela que me mande as listas de compras ou tarefas, que também devem ser mais interessantes do que metade dos livros que por aí andam.

 

📚 E porque ando sintonizada em ondas melancólicas, discussões de identidade e relações complexas com o próprio e os outros, não hesitem em deixar-me recomendações desse género. 

Estas devem ter espinhos: Flores (Afonso Cruz)

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Quando penso em comprar um livro, tento ler as primeiras páginas antes de o fazer, ou ler sobre ele para nivelar as expectativas. Gosto principalmente de ler opiniões doutros autores ou contactos do Goodreads cujos gostos eu ache semelhantes aos meus.

 

Passei por esse processo com Flores, de Afonso Cruz. Até já me tinham falado sobre ele em mais do que um clube de leitura, por isso estava confiante de que haveria de, pelo menos, achar-lhe piada. Também já me tinham dito que não era o melhor romance do autor, daí tê-lo escolhido antes do outro que comprei, Jesus Cristo Bebia Cerveja, sobre o qual o ouvi falar numa conferência em Banguecoque quando lá vivi (e sobre o qual ainda estou curiosa).

 

No entanto, não foi com Flores que me senti arrebatada. Tem apontamentos interessantes, que me levaram a pousar o livro por alguns momentos para reflectir sobre eles, mas a segunda metade do livro revelou-se penosa com demasiada rapidez. Digo isto tal e qual o senti, o que não quer dizer que o resto das pessoas também não gostem de Flores. Antes pelo contrário, as avaliações que li no Goodreads são positivas, por isso fica a ideia de ser uma mera impressão pessoal.

 

A mim, o que que mais desagradou foi a impressão insistente de que deveria estar a ler ou a fazer outra coisa qualquer, pela repetição, falta de sentido, monólogos insosos, falta de diálogos que - na minha opinião, enriqueceriam tanto o enredo. Penso que esta sensação também se deveu às personagens demasiado semelhantes entre si, com vidas emocionais que me pareceram ser alimentadas por fantasmas da mesma origem, não se conseguindo distinguir uma voz doutra, sem ser pelo conteúdo associado a cada uma. Persistiu a impressão de que faltava qualquer coisa, pelo que infelizmente não me senti interessada em terminar o livro.

 

Estou desconsolada, mas ainda não desisti. Embora não tenha marcado Flores como lido no Goodreads, mas sim como "desistência", darei uma oportunidade a Jesus Cristo Bebia Cerveja e darei notícias assim que possível.

Procura de identidade, propósito e pertença: Normal People (Sally Rooney)

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Embirro com modas, por isso não acredito logo nos grandes êxitos de vendas e de Goodreads. Costumo fazer um finca-pé insistente e certamente irracional no que toca aos bestsellers. Como refinada snob, orgulho-me de não acreditar nem à segunda, nem à terceira, às vezes nunca. Ainda por cima, tenho evitado ficção nos últimos tempos, porque simplesmente me sinto incapaz de pôr o nariz na vida doutras personagens, já tendo o suficiente no meu prato. No entanto, apesar da hesitação, mais cedo ou mais tarde dou o braço a torcer, principalmente quando pessoas em cujos gostos eu confio começam a falar muito bem dos ditos.

 

Aconteceu com Normal People, de Sally Rooney. Já andava com vontade de o ler, mas a procrastinação da leitura preliminar continuou, e continuou, e continuou. Até que a Rita falou bem dele no nosso último encontro Uma Dúzia de Livros, desmanchando todas as minhas muralhas anti-êxito de vendas. Pronto, está bem, dois dias depois já o tinha na mão, acabei de o ler em menos de 24 horas... Foi um deslumbramento imediato, uma urgência sôfrega, nem tive tempo de me aperceber o que tinha acontecido. Foi um fartote de chapadas e montanhas-russas, apenas comparável ao meu romance pirosão favorito One Day, e mesmo ao amigo de faca e alguidar, Love, Rosie. Ao longo dos anos, já tenho escrito sobre o primeiro e digo-vos: este Normal People é ainda melhor.

 

Porque não é só lamechice. Não é só sobre o desencontro de protagonistas antagónicos durante vários anos. É tanto, mas tanto mais do que uma história superficial sobre dois jovens adultos. Na verdade, mais do que isso, é uma história sobre assimetrias sociais, sobre as relações entre pares, entre famílias e entre a família, a procura de um propósito na vida, a procura da pertença e um lugar no mundo, a transição para a idade adulta e, enfim, é sobre o que significa (querer-se) ser normal. É sobre como a relação que temos com outras pessoas molda quem somos e em quem nos tornamos, para onde vamos, aquilo de que gostamos. Este livro pôs-me a pensar sobre todas essas variantes, condicionantes e temáticas na minha própria história pessoal e das pessoas que me rodeiam. Assim, sem dúvida que vale a pena ler ficção. 

 

Dito isto, o design do livro e a estrutura do romance podem fazê-lo parecer o corriqueiro young adult, mas não se deixem enganar pelas aparências. Tive de pousar o livro várias vezes, de tão incomodada que me sentia, debatendo-me simultaneamente com a vontade de ler mais um página, e outra, e outra. Não querendo brincar com as vossas expectativas, espero mesmo que gostem de ler Normal People, pelo menos metade daquilo que eu gostei. A autora Sally Rooney rendeu-me, fico a aguardar pela série, e em breve darei uma chance a Conversations with Friends.

Uma questão de escolha e concentração: Essencialismo (Greg McKeown)

O que é que podemos fazer para simplificar as nossas vidas e torná-las mais fáceis de navegar? (E, já agora, que livro é que vos recomendo para as férias?)

 

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Quando não tenho respostas para algum problema, costumo ir procurá-las nos livros. Com os devidos riscos, não me costumo sair muito mal, já que uma incursão a uma livraria qualquer nos dias de hoje nos oferece uma variedade enorme de títulos simpáticos para todos os gostos e necessidades. Fez ontem uma semana que andei à procura de livros que me tirassem do marasmo intelectual, profissional, pessoal e mesmo de leituras que andava a sentir no ar. Estava para chegar, mas eu não o queria. Lá está, fui procurar nas estantes, antes que me apanhasse.

 

Por acaso, descobri umas promoções engraçadas para alguns livros com títulos interessantes sobre desenvolvimento pessoal. Na maior parte dos meus dias, não acredito em auto-ajuda, mas no último ano tenho-me interessado cada vez mais por temas ligados à psicologia e à cognição, por isso começo a ter um fraquinho por livros sobre produtividade, bons hábitos, tomada de decisão, bem-estar, felicidade no trabalho e empreendedorismo. Foi nesse montinho de livros pré-seleccionados para uma avaliação superficial na sala de leitura que se encontrava Essencialismo - aprenda a fazer menos mas melhor, do consultor Greg McKeown.

 

Suspeito imenso de livros de desenvolvimento pessoal com títulos tipo "catch phrase". Essencialismo quase podia ser o nome de um culto millennial, e eu nem sou nada fã de coisas da onda da Marie Kondo, arrume a sua casa, arrume a sua vida, ou de minimalismo, ou propósito, projecções para o futuro e etc. No entanto, este Essencialismo revelou-se ser mais do que o título. É, de facto, um bom resumo para uma teoria engraçada, a de que às vezes desenvolvemos tantos interesses e ocupações ao mesmo tempo, que nos dispersamos. Fazemos listas de prioridades com 10 itens, mas quão prioritária é uma lista com 10 itens? Por onde devemos começar? Disparamos para todos os lados?

 

Confesso que me tenho sentido assim a minha vida toda. Quero fazer tudo, chegar a tudo, ter todas as experiências, esticar o tempo, ter vários interesses, objectivos para agora e para depois, e ultimamente tenho reconhecido que isso não é produtivo. Enquanto fazemos X, não nos concentramos em Y, e vice-versa. Então, Greg McKeown defende que o melhor é fazer a coisa certa, pela razão certa, no tempo certo. É um pensamento tão simples, mas tão eficiente, não é? Faz bem recordarmos o mais óbvio, quando não o conseguimos ver no meio da confusão.

 

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Além de apresentar uma série de premissas muito cativantes (e tudo devidamente fundamentado segundo estudos científicos), este livro é a típica leitura de Verão - li-o em dois ou três dias, intercalado com outros. Letra grande, parágrafos espaçados e não muito longos, informação disposta visualmente para ilustrar o texto, capítulos curtos e sempre assentes num conselho ou problema, o livro em si responde a problemas dos comuns mortais... Ou seja, é uma leitura prazerosa para quem tira agora férias e procura fazer reset antes de voltar ao trabalho, com uma nova maneira de pensar e agir.

 

🏖️ E desse lado, que leituras de Verão não andam a procrastinar?

Viver sempre como se fosse o último ano: Não Respire (Pedro Rolo Duarte)

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Eu já quis ser jornalista e pensei mesmo que o seria desde os tempos de secundário até ao segundo ano de licenciatura (correspondente ao período de negação sobre o prazer que ensinar me dá). Por isso, até agora, ainda não fui jornalista, pois não. Mas uma coisa é certa: aquilo que eu mais gosto é de escrever (e de saber que há quem leia o que escrevo), continuo a ter o mesmo interesse, assim como de ler, e de ensinar, e de aprender. A recomendação que vos trago hoje relembrou-me por que é que o jornalismo fez parte dos meus planos no passado e, acima de tudo, por que motivo a escrita dificilmente deixará de ocupar um lugar prioritário no meu presente e futuro.

 

Por ter sido um livro tão falado à minha volta, que emocionou tanta gente, não esperava que Não Respire, de Pedro Rolo Duarte, também me engolisse como engoliu. Sou ligeiramente do contra, quase que espero sempre não ser conquistada pelo que conquista os outros. Além disso, mantive as expectativas baixas, principalmente porque me prendia o generation gap e as referências ao passado recente e a círculos profissionais e sociais que desconheço, e porque o autor marcou uma geração e um público que não tinha a certeza de que seriam os meus.

 

Afinal, talvez sejam, mas comecei muito a medo. Aliás, finalmente dei-me por vencida sobre se haveria de comprar o livro quando o encontrei na venda de livros em segunda mão da Rua da Anchieta (e o vendedor me fez um desconto), no dia 1 de Maio, e estive mais de dois meses com ele na estante a ganhar fôlego.

 

Ainda bem que assim foi. Se não me tivesse rendido à curiosidade acumulada, não teria lido as memórias de alguém que ainda tem tanto para ensinar e contar aos mais novos, enquanto recorda a sua infância, juventude e uma idade adulta cheíssima com que outros se identificarão directamente. Sinto que, esteja onde estiver, Pedro Rolo Duarte continua a sua obra por cada leitor que revisitar os seus trabalhos realizados em vida. O legado continua enquanto ainda houver quem o leia.

 

E este livro não é sobre o cancro, não é sobre Pedro Rolo Duarte estar doente e pensar que pode morrer. Antes pelo contrário, sem clichés, é uma celebração do que viveu, um esboço de autobiografia e uma menção especial às pessoas com quem se foi cruzando, pelo bem e pelo mal, sem vergonha ou arrependimento. Até às últimas cinco ou dez páginas, quando finalmente surge alguma preocupação acerca duma cirurgia arriscada, não existe sinal de derrota ou desânimo.

 

Entre textos escritos e publicados no passado, textos inéditos, a homenagem constante ao filho, à família e aos amigos, e notas curtas sobre o dia-a-dia, Pedro Rolo Duarte concentra-se no privilégio que é ter uma vida completa, fazendo-se aquilo de que se gosta e rodeando-se de pessoas inspiradoras e igualmente enérgicas, tudo com uma paixão admirável que transborda livro fora (e que me deu muita vontade para ir procurar mais sobre o seu contributo para o jornalismo português recente, seja na televisão, na imprensa (destaque para o DNA) ou mesmo no blog pessoal. Pelo que escreveu durante o seu último ano de vida e pelas crónicas repescadas, consegui ser contagiada pelo seu bom carácter, ética de trabalho e gozo pela mera possibilidade de estar vivo, não só quando soube que tinha cancro, mas em geral durante os seus cinquenta e três anos de vida. E conseguiu acabar o livro antes da história acabar.

 

Se querem ser ou são jornalistas, têm de ler este livro. Se gostam de bom jornalismo, também têm. Se vos interessam vidas cheias que vos deixem inspirados, força. Este Não Respire é tudo: memórias pessoais e profissionais de alguém que viveu intensamente as primeiras décadas pós-25 de Abril, é um pedaço de história do jornalismo recente em Portugal, na primeira pessoa, pelos olhos e palavras dum agente dessa realidade; é um elogio à vida e ao amor em todas as suas facetas. E vai-se lendo, uns textos mais desafiantes que outros, curtos e longos, bocadinhos de sabedoria de quem a foi acumulando pela experiência.

 

📚 Que outras histórias reais vos têm inspirado? 

Leitor e escritor, entre a realidade e a ficção: Autobiografia (José Luís Peixoto)

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Este livro deixou-me com sentimentos contraditórios.

 

Há autores que fazem parte da nossa vida; ora porque nos falaram ao coração e criaram aquilo de que precisávamos, ora porque os lemos em fases críticas no desenvolvimento pessoal e ajudaram a moldar os nossos gostos, ora porque nos deram uma espécie de alimento que aprendemos a digerir e sem o qual deixamos de poder viver.

 

Entre os 15 e os 19 anos, houve três escritores portugueses que me arrancaram do Harry Potter, dos Diários da Princesa e dos romances de cordel: Eça, Saramago e José Luís Peixoto. Os primeiros dois foram sugestão da escola e, ao ler o obrigatório, achei que era pouco e li quase tudo o que me passasse pelas mãos, tivesse em casa ou houvesse na biblioteca. O último foi uma surpresa. Folheei um Abraço no Modelo da Quinta do Conde, e depois acho que fiquei tão fascinada que o pedi pelo aniversário seguinte. Foi, de facto, o abraço literário da minha adolescência.  De vez em quando, abro o livro e escolho uma crónica aleatória para ler. Demorei muitos meses até conseguir terminar todas pela primeira vez, aos 15 ou 16 anos não tinha profundidade para absorver tudo duma vez, mas o que li teve um efeito duradouro. Depois disso, vi o JLP num evento da FLUL, fui ao lançamento de Galveias em Lisboa, conheci-o em Banguecoque e fui a um encontro com outro escritor tailandês na Casa Pessoa no Verão passado.

 

Acho que já só me falta ler dois livros de José Luís Peixoto. No entanto, Autobiografia subiu na lista de prioridades quando soube que teria Saramago como personagem. Não poderia perder a oportunidade de saber mais sobre esse Saramago que JLP, que ganhou o Prémio Saramago quando ainda era bastante jovem, conheceu e que escolheu trazer-nos.

 

Não sei como falar de Autobiografia sem vos contar demasiado sobre o enredo. Vou tentar ser breve: é um texto ficcional de carácter biográfico. Ou, se calhar, não é. De autobiografia tem pouco, excepto do ponto de vista das personagens. Mas são personagens ou pessoas reais? Por que não ambas?

 

Autobiografia é um livro cheio de camadas que nos cabe desbravar. O enredo forma-se a partir do entrelaçamento entre a realidade e a ficção, numa metanarrativa acerca do que significa ser-se escritor e leitor (e, mais uma vez, por que não ambos?). Existe um José, existe um (José) Saramago, existe uma Pilar e outras tantas figuras. A conclusão a que chegamos é que não interessa se são retratadas correspondendo à realidade ou se é tudo da cabeça do autor. Em vez disso, basta sabermos que existem neste livro. No início pode ser um pouco dissonante confrontarmo-nos com esta diluição de fronteiras e dicotomias, mas ao cabo de algumas páginas conseguimos finalmente desprender-nos das amarras dessas expectativas.

 

Quanto à escrita... Esta sim, faz-me ter sentimentos contraditórios. Por um lado, José Luís Peixoto consegue - como sempre - descrever o mundo como uma criança que o descobre pela primeira vez, maravilhando-se com as mais ínfimas (e íntimas) tonalidades da vida. É assertivo, inocente e simples com as palavras, e isso é bonito. Ainda assim, fiquei à espera de mais. Muitas expressões soam a lugar-comum da sua obra. O leigo di-las-á batidas. Não há surpresa, dei por mim a querer mais. Talvez não seja do autor, talvez seja de mim, mas confesso que as minhas expectativas eram bastante elevadas.

 

Esta quinta-feira, dia 18 de Julho, vou à apresentação do livro em Lisboa, por isso estou bastante entusiasmada. Tenho bastante curiosidade em saber o que o autor tem para contar sobre a sua própria obra, assim como outros que lá estarão, porque decerto ajudará a compreendê-la ainda melhor.

 

💡Seja como for, os nossos autores favoritos têm sempre um lugar de honra na nossa estante e na nossa formação informal enquanto leitores. Isso ninguém lhes tira! Acho que fazem muito bem em colocar esta Autobiografia na vossa lista de leituras para as férias de Verão.

Vamos escrever e ler sobre ansiedade: Depois a Louca Sou Eu (Tati Bernardi)

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Dar nome às coisas é terapêutico, e até há bem pouco tempo eu não sabia que essa coisa da ansiedade tinha nome e fama. Pensava que "sofrer dos nervos", ter momentos off, estar em baixo e ter o coração nas mãos do nada era só mais um problema entre tantos, e raramente crónico ou generalizado.

Há cerca de um ano, comecei a ler e a falar cada vez mais sobre o assunto. Afinal, havia outras pessoas à minha volta a passarem pelo mesmo, ou pior, e também pessoas que admiro, incluindo escritores. Curiosamente, apesar de já ter visto o livro que vos apresento hoje à venda no site da editora Tinta da China, decidi comprá-lo depois de ter sido recomendado pela Ana Garcia Martins no Instagram.

Tati Bernardi, argumentista da Globo, também é uma dessas pessoas que quer normalizar a ansiedade, sem a ostracizar, como fica claro em Depois a Louca Sou Eu, um relato autobiográfico sobre a sua experiência como alguém que também foi descobrindo como lidar com essa nuvem constante, desde os momentos em que o peito fica pesado, até à incapacidade de sair de casa e conviver com outras pessoas, passando pelo estigma, incompreensão e descrédito. É verdade que quem tem dessas coisas é que é visto como "louco", mas a autora acaba por concluir que, de facto, há gente ainda mais louca do que ela sem assim ser rotulado.

 

O melhor deste livro é, sem dúvida, o sentido de humor (ainda por cima, com a expressividade do Português do Brasil), sem desvalorizar a seriedade com que o tema é tratado - de tal forma que, se lesse o livro antes de dormir, me sentia agitada. Tati Bernardi conta-nos como tem sido viver refém da ansiedade desde criança até à idade adulta. Depois a Louca Sou Eu está dividido em pequenos capítulos, cada um sobre um momento ou uma situação decorrente desta condução: a necessidade de isolamento, a falta de ar, os ataques de pânico surpresa, o medo de sair à rua, as viagens de avião e nos transportes públicos, a racionalidade ao reflectir na irracionalidade das suas próprias acções e emoções, as relações falhadas, a família igualmente disfuncional, o gap geracional porque as gerações mais velhas não falam sobre saúde mental, a evolução profissional e os deveres sociais, a antiga dependência e a recém-descoberta independência de fármacos...

 

À parte o último ponto, e não sofrendo tanto quanto ela, consegui rever-me em quase tudo o que é contado. Aliás, senti-me bastante aliviada por ler sobre o que também é a minha saga de evitação de espaços apertados e barulhentos, e sobre a dificuldade que por vezes tenho até a enviar um e-mail ou mensagem de texto a outra pessoa, e sobre a fuga constante de planos em grande grupo, e sobre a forma como a ansiedade molda ou influencia as minhas relações pessoais.

 

Gosto muito de saber que a nossa saúde mental está a ganhar espaço nas prateleiras e estantes deste mundo. Não temos de ser loucos, se calhar somos todos ligeiramente abananados do miolo, mas falar sobre as diferentes tonalidades do que sentimos não é queixume, é apenas partilha. Talvez nos comecemos a sentir mais à vontade para o fazer se os meios de comunicação social, os produtos de entretenimento e as manifestações culturais, as celebridades e pessoas que admiramos forem as nossas referências na normalização da procura de bem-estar interior.

 

📚Há algumas semanas, também escrevi sobre O Mundo à Beira de Um Ataque de Nervos. Na minha opinião, ler experiências pessoais de quem também tenta encontrar respostas e calma é catártico e consola-me. Raramente estamos sozinhos nas encruzilhadas humanas, há sempre mais alguém a passar pelo mesmo - não é?