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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Quanto vale uma educação: Educated (Tara Westover)

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Quanto valor pode ter uma educação? Quase todos nós tomamos tantas vezes a nossa instrução como garantida. Nos meios onde cresci e estudei, entre o fim do século XX e início do século XXI, nunca conheci ninguém que não tivesse nascido sem ter a certeza de que iria à escola, o que não é o caso da protagonista deste livro: Educated, o livro de memórias de Tara Westover (traduzido em português como Uma Educação, pela Bertrand Editora).

 

Nota: este vai ser um texto longo. Desde que comecei a ler o livro até o terminar dificilmente o larguei. Foi assim que Educated me fez sentir: eu tinha de saber como acabava o relato desta rapariga, nem uma década mais velha que eu, mas com uma vida tão complexa e cheia de feitos tão memoráveis.


Educated descreve os primeiros vinte e tal anos de vida da autora americana; perguntarão vocês como é que alguém tão novo terá tanto (quase 400 páginas!) para contar. Ao contrário do que é esperado duma criança num país desenvolvido, Tara não foi à escola até ter entrado na universidade, aos 17 anos. A família, mórmon, crente no Fim dos Dias e em teorias da conspiração sobre a doutrinação do Governo através da escola e do serviço de saúde, manteve-a longe do resto do mundo até Tara ter seguido os passos dum irmão mais velho rebelde e se ter autoproposto e inscrito na Brigham Young University.


Não vos quero contar muito mais do que as outras sinopses da Internet já contêm, mas deixo-vos uma nota de precaução: este não é um livro fácil, emocionalmente. Tara Westover escreve mesmo muito, muito bem, como se já tivesse uma carreira literária longa, por isso conseguiu prender-me a cada novo parágrafo, mas o que lá está escrito não é bonito. Na infância, adolescência e primeiros anos de idade adulta dela houve muita violência, frustração, mentiras, obstáculos físicos e morais, incompreensão, solidão... É uma daquelas leituras que nos encanta e assombra em simultâneo. A certo ponto, o que mais surpreende deixa de ser o facto de Tara ter chegado a frequentar a universidade, mas sim, contra a vontade de toda a gente que a rodeava, ter alcançado um percurso de sucesso de zero a Harvard em menos de dez anos.


No fim, concluí: a curiosidade pelo mundo recém-descoberto, a cada nova disciplina ou pessoa que conhecia, desempenhou um papel muito importante na vida de Tara. Poder aprender numa sala de aula e usufruir duma educação universitária nalgumas das melhores instituições do mundo não foram experiências que pudesse fazer intuitivamente, ao contrário dos seus colegas. Só quase aos trinta anos é que deixou de se sentir isolada e diferente. No entanto, permaneceu a vontade de saber e conhecer mais. Para nós, os leitores, serve-nos de lição ou para refrescar a memória para valorizarmos a nossa escolarização, socialização e oportunidades de fazer mais e melhor. Relembra-nos que ir à escola ou à universidade não é só ouvir um tipo qualquer falar durante hora e meia. Mesmo a informação mais insignificante que nos possam oferecer deve ser tida em conta, porque, tal como Tara, acabamos por aprender algo novo sobre o que é ser humano, algo sobre o mundo, nem que seja um pretexto para procurarmos mais nos livros, na Internet ou para perguntarmos a quem percebe do assunto. Lutar por uma educação é imprescindível. Uma educação não é escolher o curso com mais empregabilidade; é, acima de tudo e simplesmente, poder aprender.

 

The decisions I made after that moment were not the ones she  would have made. They were the choices of a changed person, a new self. 
You could call this selfhood many things. Transformation. Metamorphosis. Falsity. Betrayal. 
I call it an education.


Enfim. É impressionante como uma miúda cheia de medo e um passado doloroso pôde transformar a sua vida por completo, reinventá-la e reinventar-se. Não quero dizer que não teve momentos de fraqueza, mas na minha opinião é preciso ser-se realmente forte para se ser o protagonista duma vida como esta.


Li em muitos outros textos de opinião que Educated é um livro para todos os gostos e confirmo. Não costumo ler muitos relatos autobiográficos, mas este valeu a pena. É muito difícil deixar a meio um livro assim.


Vejam ainda os textos e vídeos que deixei em hiperligações pelo meio do texto.


Boas leituras! 📚

 

(Este é também o livro que li para o mês de Fevereiro a propósito do desafio Uma Dúzia de Livros, da Rita da Nova).

Não terminar livros

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Não terminar um livro nunca foi um problema para mim. Sempre senti que, se tinha de parar a leitura por não me interessar, "das três uma":

 

... ou teria de lá voltar mais tarde por não ser a melhor altura para o apreciar devidamente (como n'As Memórias de Adriano, falta de maturidade e experiência de vida; como no Handbook of Cultural Economics, porque li grande parte dos capítulos mas não sinto que precise de completar a leitura para perceber tudo aquilo que me faz falta agora).


... ou o livro e os meus interesses não corresponderam, pelo que nos restaria procurar melhores parceiros de serão.


... ou o livro seria apenas mais uma bela perda de tempo, por pecar em falta de qualidade e capacidades argumentativas para prender o leitor; talvez o autor de devesse dedicar a outros misteres.


Não terminar livros não costuma ser um drama por aqui, é antes uma parte do dia-a-dia de quem acredita não ter tempo para insistir em batalhas sem proveito.


Ainda assim, ultimamente tenho deixado várias leituras a meio. Ando a ler bastantes livros ao mesmo tempo, talvez demasiados. É verdade. Não lhes dedico toda a minha atenção e vou-me esquecendo deles pelo caminho. Nalguns casos, perco o entusiasmo e sigo em frente sem permitir que me dêem provas do seu valor.


Sei que não terminar livros é uma questão temporária, como já é costume, mas é inevitável pensar que a culpa é - sempre - minha. Tal é a razia de livros arrasados por tal azarada conduta!


Devo concentrar-me mais em cada um dos livros que escolho e levar a cabo o compromisso, desafiando-me a embarcar em leituras estóicas, mas pelo menos terminadas e justamente avaliadas? Ou devo continuar a largá-las para dar oportunidade às seguintes, porventura melhores ou mais adequadas?

Distopia comentada: Regresso ao Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley)

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Já andava para ler este livro há quatro anos, desde que li a "obra-mãe", o Admirável Mundo Novo. Finalmente, perdi as desculpas pelo caminho e investi alguns dias a ler o Regresso ao Admirável Mundo Novo, do escritor inglês Aldous Huxley.

 

Desde as primeiras páginas que li escritas por Aldous Huxley que soube que esta distopia seria um dos meus livros favoritos por muito tempo - ainda é! Por isso, já sabia que Huxley só pode ter sido um visionário no seu tempo. É certo que algumas das conclusões do autor são generalistas, mas temos de pensar que este livro foi escrito há sessenta anos e que o mundo se tem alterado a enorme velocidade nas últimas duas ou três décadas.


Além disso, achei o comentário à sua própria obra e a comparação feita com 1984 (de George Orwell) muito elucidativos. Note-se que Admirável Mundo Novo foi escrito antes da 2ª Guerra Mundial e o Regresso foi escrito depois. Desta forma, só falta Huxley dizer "eu tinha razão"... Porque tinha. As ditaduras aconteceram, a indústria do entretenimento aconteceu, a manipulação das mentes aconteceu, até uma tentativa de engenharia genética aconteceu. E não foi preciso muito tempo, apenas uma década depois da publicação da distopia!


Os dois últimos capítulos, sem previsões, mas sim baseados em conselhos e ideias para o futuro, continuam actuais. Chamam-se "Educação para a liberdade" e "Que podemos fazer?". Desafio-vos a lerem-nos, mesmo que não leiam as duzentas páginas anteriores. Após tantas notas negativas acerca do presente de Huxley, ele decide deixar-nos qualquer coisa em que pensar no pós-guerra. Fica a ideia de resistência contra a opressão e o desenvolvimento urgente dum espírito crítico através do questionamento e instrução escolar  (independente de ideologias) dos cidadãos.


Boas leituras!

 

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Descobrir uma livraria nova: Bookshop Bivar, Lisboa

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Esta semana, deixo um desafio a quem adora livros: tentem descobrir uma livraria nova. Não vale Fnac, Bertrand ou a do supermercado. Tentem antes dar uma hipótese às livrarias independentes, pequenas, de bairro.


Muitas vezes, as livrarias independentes são negócios de dimensão minúscula, mas que trazem o rendimento e alimentam a paixão de uma família. Quem nos atende tem um cuidado especial, aquele espaço pertence-lhe e também o seu tempo, que pode ser livremente dedicado ao cliente ou mesmo numa conversa simpática.


Ontem, descobri a Bookshop Bivar, entre o Saldanha e Arroios (Lisboa). Tudo em inglês e em segunda mão, tem clássicos, literatura de cordel, não-ficção, ficção, fantasia, livros técnicos, marketing, educação, psicologia... o que se quiser. Até tem um sofá muito catita para repousarmos enquanto escolhemos o que queremos levar. E, depois, tem aquele encanto de se encontrar achados por género, nome de autor por ordem alfabética, ou perguntar à Eduarda (a dona da livraria, açoriana do Canadá, cujo coração já foi conquistado por Lisboa) se tem "aquele livro".

 

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No meu caso, a Eduarda não tinha o livro que eu procurava (How Fiction Works, James Wood), mas acabou por me sugerir outro relacionado que acabei por levar, porque foi a recomendação certa e assertiva, touché - um conjunto de ensaios chamado Creators on Creating


Obviamente, já ando a falhar na resolução de ano novo sobre comprar apenas 10 livros em 2019. Quando pensei em visitar a Bookshop Bivar, já sabia que a tarde não terminaria sem um volume extra na estante. Sou muito previsível e descobrir uma livraria nova é claramente uma óptima desculpa para arranjar mais livros.

 

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Se alinharem neste desafio, não se esqueçam de vir cá contar como foi!

 

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Bookshop Bivar: Rua de Ponta Delgada 34A, 1000-169 Lisboa (entre o Saldanha e Arroios)

Como ficar dependente (ou largar a dependência) das apps: Hooked, de Nir Eyal

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Continuo nesta saga de descobrir mais sobre como funciona o cérebro humano e como processa informação. Não é a minha área de estudo, mas é tão interessante!

 

Desta vez, roubei o presente de Natal que encomendei para a minha amiga Inês, o livro Hooked: How to Build Habit-Forming Products, do investigador e consultor Nir Eyal. Ela tinha-mo pedido pelo Natal, mas a encomenda atrasou-se imenso e demorou um mês a chegar. Então, mal ele chegou cá a casa, acabei por lhe pegar e só o larguei depois de o terminar (e porque, enfim, tive de o devolver à destinatária original).


Por coincidência, li o Hooked num momento em que me estou a des(a)pegar das redes sociais. Apesar de muitas das actividades do meu dia-a-dia ainda serem feitas a partir do telemóvel, como questões de trabalho ou escrever no blog, tenho tentado reduzir o uso ao essencial, eliminando tanto quanto possível as redes sociais e as apps que consomem muito tempo. Mesmo que seja um par de minutos aqui e outros ali, o tempo de uso vai-se acumulando ao longo do dia e gera-se uma certa dependência através do hábito de desbloquear o telemóvel, visitar o Instagram, o Facebook, o WhatsApp, o Goodreads, até o extrato do PayPal.


Estar Hooked é estar, de certa forma, preso a qualquer coisa, é vermo-nos envolvidos num processo, imersos num estado de constante curiosidade quanto ao que nos pode revelar a cada instante. É exactamente o hábito que nos leva à dependência, prevista pelos criadores dessas apps, para chamar a atenção de tantos utilizadores quanto possível.


O processo que percorremos até nos sentirmos "enganchados" tem quatro passos: um gatilho (primeiro interno, depois externo), que por sua vez nos leva a uma acção, que gera uma recompensa variável e que nos incentiva a um investimento, voltando ao início do ciclo e do gatilho - uma "comichão" reflexo da necessidade de usar o produto, a app, de novo. Desta forma, criamos um hábito, isto é, um comportamento executado sem pensar.


Agora, perguntam vocês: mas isto de se trazer para o mercado produtos que brincam com a mente dos clientes e que têm em conta o cultivo de hábitos não é manipulação? De facto, o próprio Nir Eyal aborda esta vertente ética. Segundo ele, nos negócios não há maneira de evitar "entrar na mente" dos clientes, e que deve ficar à consciência e responsabilidade dos empreendedores fazê-lo para o "bem" ou para o "mal" - o que mais deve interessar é pensar se o produto melhora ou não a vida dos utilizadores e se o próprio empreendedor também o usaria. Se se responder afirmativamente a essas duas perguntas, tanto melhor!


Por agora, com algumas reservas, acho que concordo com esse método de avaliação ética. Ler este livro foi uma boa experiência, tanto colocando-me do lado dos empreendedores, quanto dos utilizadores. Além disso, ver desconstruído o processo que leva à dependência das tecnologias também me motiva a largá-las, dado que agora conheço a tal "manipulação" e os truques usados para incentivar ao uso a que me encontro sujeita. Devemos usar seja que produto for como vitaminas, não como analgésicos (jargão farmacêutico do autor!).


No que toca a aspectos mais estruturais do livro, primeiro tenho de apontar uma falha: o subtítulo induziu-me ao erro de pensar em "produtos" em geral, mas, na verdade, os produtos discutidos são sempre apps e websites, não propriamente escovas de dentes ou lençóis. Por fim, é de louvar todo o livro Hooked enquanto um produto ele mesmo: não existe edição em paperback, a capa dura vem envolta numa sobrecapa colorida, a impressão é feita em papel daquele que nos leva a enfiar o nariz lá dentro, o tipo de letra é grande e há algumas imagens, tabelas e resumos de ideias aqui e ali, fazendo parecer que a leitura segue escorreita e rápida... É um produto muito eficaz a chamar e a prender a atenção do leitor!

 

Terminado o Hooked, continuo a agradecer sugestões de livros sobre temas afins.


Boas leituras! 📚🤓

De volta à literatura em português: Luanda, Lisboa, Paraíso (Djaimilia Pereira de Almeida)

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Já imaginaram um mundo de homens sem mulheres? Sei que o Murakami e o Hemingway têm uns livros de contos com um título parecido, mas desta vez ficamo-nos por bem mais perto do que as paisagens nipónicas ou americanas. Ficamo-nos, mais particularmente, por Lisboa, começando em Luanda, em direcção ao Paraíso.

 

Hoje, escrevo sobre Luanda, Lisboa, Paraíso, o romance mais recente da autora portuguesa Djaimilia Pereira de Almeida (que me despertou a atenção, curiosamente, por se ter doutorado num dos programas que me interessam na FLUL). Li-o este mês de propósito, para Uma Dúzia de Livros, criado pela Rita da Nova, cujo objectivo de Janeiro é ler "um livro escrito por uma mulher".


Antes de prosseguir, gostaria de partilhar já que o adorei. Luanda, Lisboa, Paraíso é um daqueles livros que parece ter sido escrito palavra a palavra, com todo o cuidado, nenhuma delas aleatória. Todas têm um sentido e um lugar. Cheguei a ler a mesma página várias vezes, para aproveitar todos os bocadinhos que poderia não ter saboreado à primeira, segunda ou terceira vez. Na minha opinião, é isto que faz um óptimo livro, seja qual for o género.


Os protagonistas desta história são pai e filho, Cartola e Aquiles, que vivem num mundo pouco justo e onde a desilusão é o prato do dia, acompanhados pelos seus amigos Pepe e Iuri. São homens que, embora não tenham aprendido a viver sem mulheres, têm de aprender a sobreviver sem elas. Claro que também há mulheres na história, mas as que existem estão bem longe, ou são figurantes das vidas dos homens que, por algum motivo, assombram. Os protagonistas são homens desorientados, as restantes são as mulheres que lhes dão norte ou que os denorteiam.


Apesar da dimensão aparentemente redutora sobre as personagens femininas que possam retirar das minhas primeiras impressões, a verdade é que um romance semelhante poderia ter sido igualmente escrito do ponto de vista dessas mulheres, porque também elas vivem sem homens. Esta foi a minha leitura, mas talvez outras pessoas consigam ler Luanda, Lisboa, Paraíso de forma diferente. Às mulheres, é concedida uma aura mística, superior, sensual, como se, tal como os deuses, fossem capazes de revelar o melhor dos homens quando uns e outros se amam.


Por vezes, os mundos dos homens e das mulheres convergem, e essas são provavelmente as únicas partes em que Luanda, Lisboa, Paraíso se tornou um pouco menos triste para mim. É uma história bonita, mas mesmo triste. Raramente encontro histórias felizes na boa literatura, já que tem de haver, pelo menos, algum conflito que interesse ao leitor. No entanto, tirando a promessa do amor e da família que vão sentindo de longe, Cartola e Aquiles raramente vivem, limitando-se a sobreviver.


E mais não digo, para não vos estragar com spoilers!

 

Luanda, Lisboa, Paraíso passou a ser um dos meus livros de ficção preferidos dos últimos tempos. Foi o primeiro deste ano, escrito por uma mulher (já que li tão poucas em 2018), e ainda bem que o escolhi para iniciar o desafio Uma Dúzia de Livros. Além disso, hei-de dar mais oportunidades aos livros da Djaimilia Pereira de Almeida. 

Ler e ser lido; escrever sobre quem escreveu

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É muito mais fácil escrever sobre livros cujos autores dificilmente conseguirão ler as nossas críticas ou interpretações. Se escrever sobre um livro dum autor americano, francês, chinês, com uma tiragem considerável e/ou uma língua diferente, a minha opinião será uma em muitas, terá palavras irreconhecíveis ao olho estrangeiro e distante.


Tenho sempre um certo receio de escrever algo que não faz sentido ou que não vai ao encontro das intenções originais do autor. Esta sensação é um prolongamento da minha mania de imaginar o que os outros acharão do que eu digo, que costuma ser uma sensação útil e produtiva, só que nem sempre conveniente à reflexão livre e pública. Ultimamente tenho reconhecido - eu gosto de agradar. No fundo, todos gostamos, em graus distintos, ou não?


Isto aplica-se particularmente a autores portugueses ou lusófonos que, ao procurarem (se procurarem!) textos sobre as suas obras, se deparem com o que os seus leitores escreveram. Sei que pode acontecer, porque já me aconteceu (do ponto de vista de quem escreve sobre o que se escreveu). O país é pequeno, a língua atravessa fronteiras, a Internet liga-nos. Felizmente, este blog vai crescendo e aparecendo, o que é uma alegria com alguma responsabilidade (pelo menos, na minha cabeça), mas igual ingenuidade. Às vezes, penso "sou nova, vão-me dar o desconto se escrever algum disparate", mas os anos também passam por mim, não vou ficar nos vinte-e-poucos para sempre é há pessoas de todas as idades e meios a visitarem o blog (mais uma vez, uma honra que implica juízo, criação cuidadosa de conteúdo, o meu hobbie idóneo, o meu exercício intelectual que se estende ao Outro que eu não sei quem é).


No entanto, enquanto escrevo este texto, relembro pela enésima vez: os livros (e os blogs) são o que cada um tiver escrito ou lido. Ou que quiser escrever, ou que quiser ler. Para mim, isto. Para ti, aquilo. Não deve haver muitas formas de contornar a variedade de olhares. Talvez o autor não tenha esperado certos modos de ler a história que criou. Talvez o leitor veja cortinas onde só existiam janelas e paredes. Talvez os dois devam, exactamente, dialogar.


Finda esta voltinha inesperada pelo meu constrangimento e pudor, aviso que só vinha aqui escrever sobre um livro do qual gostei muito, acabado de ler há menos duma hora, mas com tanta tagarelice esse texto vai ter de ficar para o próximo post. Retomemos depois deste curto atalho.

Política americana no feminino: Dear Madam President (Jennifer Palmieri)

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Há livros que esperamos que nos inspirem e nos informem, deixando um call for action ou um testemunho arrebatador. Este era um desses casos: Dear Madam President: an open letter to the women who will run the world, da autora Jennifer Palmieri, antiga directora de comunicações da campanha eleitoral de Hillary Clinton  à presidência dos EUA e profissional com várias décadas de experiência na Casa Branca. Tinha tantas expectativas para este livro!


No entanto, não estava escrito. É que não estava mesmo. Apesar do testemunho que foi sem dúvida interessante para mim, que nunca pisei solo americano e que sigo a vida política dos Estados Unidos a partir da comunicação social portuguesa, redes sociais e apenas algumas páginas estrangeiras online, sinto que Dear Madam President ficou aquém do que eu esperava. Não é um testemunho muito técnico acerca da candidatura de Hillary Clinton à presidência dos EUA, nem um tratado sobre política americana no feminino, mas sim uma data de memórias desorganizadas acerca desses temas e doutros eventos da vida pessoal e profissional da autora.


A exortação do título Dear Madam President, dirigida a uma hipotética futura presidente - mulher - dos Estados Unidos acaba por funcionar como manobra publicitária, mas não me convenceu, pareceu-me forçada. Ainda assim, retirei algumas lições de perseverança e reflexões acerca da presença feminina num mundo criado, definido e adaptado por e para homens ao longo dos séculos, principalmente que há um paradigma implícito acerca do que se espera dum homem que se candidata a um cargo como o da presidência dos EUA, mas que continua a ser difícil perceber o que esperar duma mulher nesse contexto, por ser novidade, pela biologia diferente, pelo comportamento, forma de estar e reagir. Nota-se uma certa desconfiança. Ainda é esperado que a mulher preencha os mesmos requisitos esperados dum homem, e mais qualquer coisa que inevitavelmente lhe faltará ou que também se espera dela por ser... mulher.

 

Com tanto que eu esperava aprender de alguém que teve um papel central na Sala Oval de mais do que um presidente, concluo que Jennifer Palmieri partilhou o suficiente, mas que poderia partilhar muito mais e com mais coerência e coesão. A escrita é muito corrida, eloquente, fácil de entender sem entediar, mas cem páginas cheias de conselhos generalistas para se ser uma mulher numa posição de poder nunca chegariam para me encher as medidas. Contudo, atenção: quem me dera que todo o livro tivesse sido como foram as últimas vinte páginas! Aí sim, penso que foi atingido um bom equilíbrio entre o que é um livro de memórias, uma reflexão política/social e uma confidência entre alguém com muita experiência e os seus leitores.


Tenho a certeza de que há melhores livros sobre isto, que me ensinem mais, embora este não tenha sido um mau começo. Afinal, cem páginas lêem-se rapidamente. Dear Madam President foi uma leitura agradável, apenas pouco surpreendente ou construtiva.

 

The generations of women before us, who made countless, mostly anonymous, sacrifices in the struggle for equality, paved the way for real change. In spite of the long odds against them, they went after the impossible. It is up to us—the women in America today—to finish the job. It’s a thrilling challenge. Go show us what a woman leading us in this new world looks like. We can’t wait to see.

 

Ainda o ano novo: 19 PARA 2019

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Ontem, ouvi mais um episódio do podcast Happier, apresentado pela escritora Gretchen Rubin (devem conhecê-la à conta do seu livro The Happiness Project) e pela sua irmã Elizabeth Craft. Este último chama-se "Plan Your 19 for 2019" e incita os ouvintes a fazer isso mesmo, criar uma lista de 19 desejos, objectivos ou ideias para concretizar neste novo ano.

 

Eu, que adoro listas, comecei logo a delinear a minha, ainda nem o episódio tinha acabado.

 

No início de 2018, partilhei convosco uma lista de palavras. Agora, partilho os meus "19 para 2019", que fazem imenso sentido para mim. Acho que vai ser um ano mais equilibrado que o anterior, à partida já não há desculpas para a falta de concentração que me governou em 2018 e fiz questão de apontar tudo o que me apetece fazer (e que espero realizar) desta vez, tanto no meu Bullet Journal quanto aqui. A primeira parte é constituída por objectivos gerais ligados a projectos pessoais e a segunda foi reservada para os literários.

 

19 PARA 2019

  1. Tirar três cursos de formação 
  2. Criar um curso, presencial ou online - dar uso à formação de formadora e à experiência que tenho adquirido como professora e explicadora, e ao incentivo que alguns alunos me têm dado para o fazer
  3. Concorrer a um concurso literário 
  4. Voltar ao ginásio e/ou ir pelo menos uma vez por semana ao pilates
  5. Fazer duas viagens, ao estrangeiro e/ou dentro de Portugal
  6. Começar o podcast que já planeei e publicar um episódio por mês 
  7. Pedir equivalências para as disciplinas do mestrado em Linguística que deixei a meio em Banguecoque 
  8. Continuar o Bullet Journal
  9. Vender ou dar todos os livros que já seleccionei
  10. Ler 35 livros
  11. Não comprar mais de 10 livros
  12. Reler Essays in Love + The Course of Love
  13. Ler 17 autores portugueses/lusófonos
  14. Ler 15 autoras mulheres
  15. Conhecer mais dois Nobel da Literatura 
  16. Ler um autor russo
  17. Ler um autor asiático 
  18. Ler um autor da América do Sul
  19. Ler um livro com mais de 400 páginas

 

E por aí, mais alguém gostaria de fazer um 19 para 2019? Já agora, em jeito de brincadeira, desafio os Blogs do Sapo, a Carolina, a Rita, a  Patrícia e a Joana a participarem na elaboração desta lista e a publicarem-na nos seus blogs. Ainda outra sugestão: também pode ser uma lista de 19 itens sobre blogs, livros, filmes, eventos...

 

Boa sorte!

Bioliderança: Porque seguimos quem seguimos? (Paulo Finuras)

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O título Bioliderança poderá suscitar algumas dúvidas ao leitor absolutamente leigo, mas o subtítulo deixa pouco espaço para que elas persistam: Porque seguimos quem seguimos?


Ultimamente, tenho-me interessado por muitos temas relacionados com a psicologia humana, muito em parte devido a uma disciplina do mestrado em que me inscrevi como opcional, Cognição e Criatividade. Tenho gostado muito de aprender como é que os nossos cérebros funcionam, seja em termos de emoções, processos cognitivos, percepção, recepção de estímulos, reacções, e ainda como é que ele evoluiu desde os tempos ancestrais até ser o que se pensa ser hoje em dia.


Há algumas semanas, acabei por encontrar uma série de entrevistas sobre psicologia evolutiva do podcast Quarenta e Cinco Graus, apresentado por José Maria Pimentel, e um dos convidados foi o Prof. Paulo Finuras, autor deste livro. Eu nem sabia que em Portugal se faz investigação nesta área, nomeadamente ligando-a às ciências políticas, sociais e à gestão. Fiquei muito interessada na conversa com este convidado e acabei por comprar o Bioliderança.

 


Bioliderança é um livro curto, mas assertivo. Na Introdução, é logo explicado: a maioria dos capítulos rege-se pelo sistema pergunta-resposta, alongando-se por poucas páginas de cada vez, facilitando a leitura e aguçando a curiosidade. Algumas dessas perguntas são:

  • Por que razão nos deve interessar o tema da Liderança? (capítulo 1)
  • Por que razão a maioria dos líderes são homens? (capítulo 7)
  • Por que motivo falham os líderes e a liderança? (capítulo 9)
  • Por que razão continuamos a seguir líderes autoritários e dominadores? (capítulo 11)
  • Qual a relação entre a genética e a liderança (capítulo 15)


Parece muito interessante, não é verdade? Aconselho particularmente a quem ocupa posições de liderança a nível profissional, quem se encontra desagradado com a forma como é liderado e a quem quer perceber melhor como elegemos os nossos políticos/gestores/chefes e como fazê-lo melhor.

 

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A transdisciplinaridade e a fácil transferência deste conhecimento para diferentes áreas e mercados de trabalho é uma das vantagens mais significativas de Bioliderança. Quem diria que poderíamos colocar - entre outros - biologia, psicologia, gestão de recursos humanos e política num só tema?


Entre tantos motivos e conclusões que cada um de nós poderá encontrar para ler um livro assim, destaco alguns que foram centrais para mim. Entender quais as diferenças entre ter poder e ter autoridade; perceber algumas das origens da desigualdade entre homens e mulheres em posições de liderança; quais os vários tipos de líder; qual a razão de haver um perfil físico mais ou menos transversal aos chefes políticos; como é que o nosso cérebro, programado pelas circunstâncias ancestrais, se deixa enganar por esses moldes "desactualizados" no século XXI; quais os desafios resultantes dessa disparidade e como atenuá-los - são estes alguns dos tópicos que mais me suscitaram a atenção.

 

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No entanto, depois de tanto elogio a este livro e ao trabalho do Prof. Paulo Finuras, não posso deixar de apontar algumas falhas que talvez possam ser colmatadas noutras edições ou livros. Por exemplo, a pontuação, as incoerências e as gralhas. Sei que nem todos temos de ser excelentes escritores, mas um livro com tanto potencial para fazer divulgação científica ao grande público poderia ter sido sujeito a uma revisão e edição cuidadas. Ainda por cima, sendo um livro tão curto, nem seria um processo muito demorado ou, quiçá, dispendioso. Posso estar a ser demasiado picuinhas, mas um texto bem elaborado e corrigido é meio caminho andado para uma leitura prazerosa e sem solavancos.


Se também ficaram curiosos, eu encomendei o meu exemplar de Bioliderança pela Wook, demorou alguns dias a chegar, mas leu-se rapidamente. Fica a sugestão!


Boas leituras e procrastinações!