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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Li um guia de escrita de ficção: Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão (Mário de Carvalho)

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Se estão à procura de mais um guia de escrita criativa, não leiam Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão, de Mário de Carvalho. Este livro não é, sequer, apenas mais um "guia de escrita de ficção". É isso tudo e ainda um ensaio que varia entre o domínio das preferências e opiniões do próprio autor, a referência académica, catálogo de obras e autores, e o entretenimento ligeiro. Já o tinha na minha "to read list" há dois anos e finalmente me convenci (e fui convencida) a arranjá-lo. Valeu a pena!


A escrita criativa parece ser uma actividade com cada vez mais adeptos, seguidores ou meros curiosos. Talvez por causa do aumento da literacia das últimas gerações, escrever acabou por se disseminar como um passatempo respeitado, de exercício intelectual, incitado ainda mais pela Internet, pela popularização de blogues e mesmo pela vaidade em ver e ter obra. Assim, é normal que se publique regularmente sobre o assunto.


No entanto, Mário de Carvalho é considerado um dos melhores escritores vivos em Portugal, pelo que não se esperaria da sua autoria muito menos do que aquilo que se lê nas 276 páginas de Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão. (É verdade que só li A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho há muitos anos, mas a reputação dum autor precede-o.)


Apesar de ser anunciado na capa que se trata dum "guia prático de escrita de ficção", arrisco dizer que até o considero um "guia de leitura". Acho que este livro me demonstrou, além de como poderei tentar escrever, o que posso esperar duma obra com qualidade literária e a repensar muitos dos meus livros favoritos (como a Odisseia e a obra de Eça de Queirós).


Os capítulos tratam de nos aconselhar obras e autores de referência, o que poderá ser a escrita, como começar a escrever, quais os cuidados gerais a ter em conta, a relação do escritor com o leitor, como planear a estrutura e o enredo, como criar títulos, nomes de personagens e as próprias personagens... entre outros assuntos que não me cabe a mim enumerar aqui, mas sim aos interessados descobrir na sua incursão pelo guia.

 

Outro aspecto que distingue este guia de escrita doutros que se encontram nas livrarias portuguesas é o gabarito do cânone seguido por Mário de Carvalho. Como ele mesmo refere, o escritor é que escolhe o tipo de leitor ao qual gostaria de chamar a atenção. Por sua vez, não me parece que os leitores deste livro pretendam escrever (ou aprender a ler, na minha opinião) o próximo bestseller de supermercado. Mesmo que não aspirem ao Nobel da Literatura, talvez possam pelo menos sonhar remotamente com um prémio Leya ou um concurso literário municipal.

 

Antes de terminar, aviso ainda que se devem preparar para a tal quantidade significativa de autores e obras de referência que pelo menos a mim me deu vontade de comprar por inteiro em atacado. Preparem os vossos orçamentos! As recomendações deixadas não sentirão piedade das vossas carteiras!


O resto é convosco. Espero ter-vos entusiasmado tanto para o Quem Disser o Contrário é Porque Tem Razão quanto este livro merece... digo eu!


Boas leituras... E escrita!

Coisas boas atraem coisas boas, uma explicação científica

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Costumo dizer que não há nada que não possa ser resolvido com bom humor, boa disposição e optimismo. Na minha opinião, pensamentos positivos puxam resultados positivos. Coisas boas atraem coisas boas. 

 

Pelo menos, sempre tive a impressão, em grande parte devido às minhas próprias experiências, de que se verifica uma certa correlação entre esse tipo de atitude e acontecimentos favoráveis que se sucedem - mesmo correndo o risco de estar a simplificar uma míriade de coincidências e golpes aleatórios de sorte a um dogma pessoal e intransmissível.

 

(Afinal, esse espírito já me tinha sido incutido, desde que me lembro, pela minha avó, que eu considero uma das pessoas com mais para ensinar sobre o que significa viver bem, tendo feito face a circunstâncias adversas ao longo da vida, mas sem nunca se deixar abater até alcançar os objectivos a que se foi propondo. Não consigo evitar o pensamento automático, e típico de alguém que se considera relativamente privilegiada, de que o optimismo é a chave para as grandes dúvidas e desafios existenciais.)

 

No entanto...

 

Há uns dias, o meu namorado emprestou-me um livro do qual tenho gostado bastante. Apresenta-se em toda a imponência do seu volume e peso exigentes à primeira vista, mas lê-se muito bem: Pensar, Depressa e Devagar, do Nobel da Economia (2002) Daniel Kahneman. O tema do livro é o processo de tomada de decisão dos seres humanos, e, sumariamente, como o nosso cérebro percepciona a informação que recebe e como reage a esses estímulos.

 

Então, voltemos ao que me surpreendeu quanto às conclusões de Kahneman e da sua equipa, no domínio muito específico da influência da boa disposição. Parece que fizeram vários participantes dum estudo ter pensamentos alegres e que a exatidão das suas respostas intuitivas, ou palpites, aumentou. Isto é, a sua capacidade de análise e conexão cria menos erros lógicos. "A facilidade cognitiva é ao mesmo tempo causa e efeito de uma sensação agradável."

 

Quando temos pensamentos alegres e estamos bem-dispostos, tomamos decisões mais lógicas, logo acontecem-nos coisas melhores, mesmo que por mera intuição. Se formos negativos, o nosso poder de decisão fica fragilizado e acabamos a fazer más escolhas.

 

Quem diria que as ditas "boas energias" seriam mesmo reais no seu efeito? Quem diria que os resultados do optimismo são reais e estão comprovados cientificamente? 

 

Portanto, da próxima vez que tiverem uma decisão importante a tomar, assegurem-se de que se sentem bem, felizes. Evoquem e invoquem pensamentos que vos tragam felicidade para conseguirem escolher melhor - aliás, à maneira clássica de um Patronus (fãs de Harry Potter hão-de entender).

 

Optimismo atrai optimismo. Coisas boas atraem coisas boas, sem ser necessário abrir livros de auto-ajuda ou páginas motivacionais. É só (tentar) ver sempre tudo com um filtro positivo. Façamos essa escolha de sermos mais felizes, para gerar mais felicidade. O resto... deixemos com essa máquina incrível que é o nosso cérebro.

 

Mais alguém se revê nisto?

Livros: bilhetes de ida e volta para o resto do mundo

Não consigo imaginar um mundo sem livros. Aliás, literalmente, é-me impossível imaginar o mundo sem ter livros, nos quais posso ler acerca doutras pessoas, terras, momentos históricos, hábitos, tradições, formas de estar e pensar, cânones, situações e sentimentos.

 

Nunca me considerei uma criança ou uma adolescente particularmente sociável. Passei os meus primeiros cinco anos de vida em casa, sem irmãos, primos, pares da mesma idade. Sempre senti uma certa tendência a ser mais individualista, na medida em que me habituei a estar sozinha e a fazer muita coisa sozinha. Mesmo depois de entrar na escola, nunca causei furor entre colegas, gostava mais da companhia de adultos e continuei a preservar o meu espaço. Os livros, silenciosos e disponíveis, foram uma grande companhia e ensinaram-me, desde que aprendi a lê-los, a entender melhor as outras pessoas. Não viajei fisicamente até aos dezanove, mas já tinha viajado doutras formas. Além disso, os livros permitem-nos entrar no mundo mental, nas memórias de quem já desapareceu, doutros tempos. Acho que a vez em que melhor me apercebi deste alcance foi quando li a Brevíssima Relação da Destruição das Índias Ocidentais, de Bartolomeu de las Casas, provavelmente o primeiro relato do que realmente se passava no dito Novo Mundo, escrito na era dos Descobrimentos, no século XVI. Por conta dos livros, também viajamos no tempo.

 

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É assim que me sinto quando leio livros como The Thing Around Your Neck, de Chimamanda Ngozi Adichie - que posso viajar e conhecer outras pessoas sem sair do mesmo sítio. Graças a umas quantas páginas e histórias doutro lado do mundo, posso lá ir. Nunca estive na Nigéria nem nunca tinha tido interesse em saber mais sobre este país. Contudo, já li três ou quatro livros da mesma autora, o que me permitiu conhecer bastante do seu passado e compreender as circunstâncias presentes (nomeadamente, políticas). Nos últimos dias, o projecto Humans of New York tem contado histórias de nigerianos na capital, Lagos, e muitos dos entrevistados poderiam ser personagens dos livros da CNA, tal é a mestria com que ela relata as pessoas do seu país de origem; só que são indivíduos reais que, através da ficção, eu pude conhecer muito antes de a realidade se me ter apresentado. A ficção também tem o condão de nos abrir portas para o mundo verídico.

 

Em The Thing Around Your Neck, uma série de contos vai-nos apresentando histórias diversas sobre personagens inspiradas em nigerianos contemporâneos, com destaque para experiências de emigração para os EUA. Não gostei de todos os contos, mas a maioria não só foi capaz de me entreter, quanto ainda de gerar mais interesse sobre temas que até são da minha área de estudos, e de me fazer reflectir, sentir empatia, imaginar, sair da minha zona de conforto cultural, emocional, eurocêntrica. A escrita da autora pode parecer demasiado simples, sem floreados, desinteressante, mas é possível ir descobrindo o que realmente constitui o seu estilo e o que a torna especial. Consegue dar voz àquelas personagens que vivem entre a ficção e a realidade. Por isso, recomendo que leiam os seus livros na língua original, inglês, sempre que possível.

Estar Vivo Aleija, mas dói menos por causa de Ricardo Araújo Pereira

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Não vos quero aborrecer com um texto muito longo. No entanto, sei que este é um dos livros mais esperados da rentrée: Estar Vivo Aleija, do humorista que dispensa apresentações, Ricardo Araújo Pereira. E eu digo: provavelmente acabei de o ler primeiro que vocês! Estava desejosa que chegasse o dia de ontem, o primeiro em que o livro esteve à venda sem ser através do site da editora Tinta da China. Por isso, cá vão os meus três tostões acerca desta leitura muito agradável - sem surpresa nenhuma.

 

Desta vez, o meu entusiasmo deve-se à curiosidade trazida por este tipo de crónicas escritas pelo RAP. Depois de ler a entrevista que deu ao Observador, percebi que Estar Vivo Aleija seria uma colectânea de textos sobre temas mais pessoais e descontraídos, e menos políticos (como as crónicas da série Boca do Inferno), num registo mais auto-biográfico e ao mesmo tempo universal, escolhido para agradar os leitores brasileiros da Folha de São Paulo, onde foram originalmente publicadas. São feitas várias referências terurentas à avó que o criou, às filhas e à mulher, sem retirar destaque às peças de teatro de Sófocles e Shakespeare, às singularidades da língua portuguesa, às moscas, ao amor, às batatas e ao chulé. É uma miscelânea de temas!

 

Mais ou menos político, o humor, perspicácia e inteligência permanecem como os conhecemos. Acho que as suas observações sobre as coisas mais banais da existência humana se podem comparar ao olhar sempre admirado e inquisitivo duma criança que está na idade de apontar para tudo e estabelecer ligações inesperadas entre elementos diferentes.

 

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Assim sendo, demorei menos de duas horas a devorar o livro. Li-o duma assentada. Cada crónica ocupa cerca de página e meia, o livro tem cerca de cento e cinquenta páginas... Foi um óptimo entretenimento para a minha hora de almoço! Esta é a leitura indicada para quem quer passar um bom bocadinho, mas também para quem quer ter o livro lá em casa e abri-lo de vez em quando para soltar uma gargalhada ou, pelo menos, arrancar-se um sorriso. Outra coisa não se esperava de RAP. Estar Vivo Aleija, mas dói menos por causa de autores como ele.

Quando um livro nos desilude

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Recentemente, li um livro que me desiludiu. Não é, de longe, um mau livro. Muitos poderão defender que não só é um bom livro, como é um óptimo livro, na verdade. 

 

O problema talvez tenha sido esse. Eu queria que o livro fosse maravilhoso, à semelhança do que toda a gente à minha volta parecia dizer. Tanto me foi recomendado. Não tirei a pulga da orelha enquanto não o li. Também eu queria sentir o que os outros sentiram. Espero que não seja ganância literária, este desejo. 

 

Neste momento, o dito romance está classificado com uma média de 4,21 estrelas (o que acontece a muito poucas obras) no Goodreads, essa ferramenta que promete ilusões e que por vezes semeia desilusões, como a que me estava reservada sem eu saber. Comprei-o, o romance, comecei a lê-lo de imediato e gostei. Gostei, apenas.

 

De facto, é uma narrativa cativante, não se prolonga por demasiadas páginas, não enfada, dá-nos a conhecer um momento muito relevante da História nacional a partir dum ponto de vista curioso, emprestando voz a um protagonista por quem a maioria dos leitores consegue nutrir um certo carinho. Terminei-o em poucos dias, sem me sentir esgotada ou entediada.

 

A minha desilusão é nada disso ser suficiente. Mas eu queria adorar o raio do livro, queria mesmo! Infelizmente, encontrei-lhe algumas falhas e carências que destruíram qualquer possibilidade de o achar fora de série. Sim, é um bom livro. Um livro bom. Não deixo de o recomendar, mas não sinto que farei campanha ferrenha pela sua posição nas minhas preferências. Mas eu queria que ele fosse logo parar à minha lista de favoritos. Mas, mas, mas...

 

Alguma vez vos aconteceu tal desfeita? Alguma vez sentiram indiferença por um livro que pensavam inicialmente estar destinado a vôos mais altos? Alguma vez um livro vos desiludiu?

 

Quando um livro nos desilude, encolhemos os ombros e partimos para a próxima leitura. Ainda assim, fica um desconforto inexplicável no ar. Nem sequer há, como na cena dum crime, alguém a quem apontar o dedo. Nem há crime, criminoso ou vítima. Há, somente, um livro que nos passou ao lado.

Planos e (muitos) livros para Setembro

Por aqui, parece que este ano tem sido feito de começos e recomeços. Sucedem-se uns aos outros, por diferentes causas e motivações, formais ou ocasionais, e este blogue vai relatando-os ou, pelo menos, assinalando-os o melhor que consegue.

 

Chegada a Setembro, sei que este mês será um marco inicial para novos ciclos. Ainda agora estamos a terminar a primeira semana, e já é possível prever que Setembro vai ser um mês cheio, e em cheio - para mim e para os que me rodeiam. Aliás, tem tudo acontecido, a toda a gente, ao mesmo tempo. Agosto foi prenúncio, Setembro é o início.

 

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Começo por vos apresentar os livros que quero ler em Setembro. Que quero ler, sublinho, não significando que o consiga fazer. Já estou a meio de alguns, pelo que espero riscar pelo menos três ou quatro desta lista ambiciosa antes do final do mês. Irei dando notícias. 

 

É melhor manter as expectativas muito baixas no que toca ao tempo reservado para leituras recreativas, uma vez que os meus alunos já regressaram todos de férias, o ritmo normal de aulas voltará a ser bastante intenso e, ainda por cima, o meu mestrado está quase, quase a começar.

 

Pois é, só faltam duas semanas para voltar a estudar, ao fim de quase um ano fora dessas lides. Desta vez, do menú consta um programa em Estudos de Cultura, especialização em Gestão das Artes e da Cultura (FCH - UCP). Num misto de alegria, ansiedade e inquietação, esta vai ser uma das grandes aventuras dos próximos dois anos. Em breve, talvez escreva sobre ela.

 

Setembro também costuma ser um mês propício a novas rotinas. De facto, já sinto necessidade de as criar. Diminuir o tempo que dedico às redes sociais, ler mais e com maior qualidade (por lazer, fora o resto), melhorar o equilíbrio corpo-mente e abandonar parcialmente o modo insistente de couch potato, escrever com regularidade e ritmo, arranjar disponibilidade horária e mental para projectos que me apeteça ir concretizando... São planos para Setembro muito semelhantes aos planos para Setembro de tantas outras pessoas, mas parecem, a cada um de nós, únicos e intransmissiveis. Estamos todos no mesmo barco!

 

Ora, e aqui ficam os meus mais sinceros desejos de que a vossa rentrée se apresente com força, motivação e concentração! Mãos e cabeça ao trabalho! 

Follow Friday apressada

Na tentativa de me redimir de muitos dias de ausência irremediavelmente justificada pelos termos recém-inventados "férias blogosféricas", deixo-vos uma lista de textos de blogues que sigo, e dos quais gosto bastante, acumulados durante alguns meses mentalmente e/ou nos meus Favoritos. É isto a Follow Friday, não é? :)

 

A verdade é que não tenho um blogue favorito - nem sou dona dum limiar de atenção (vulgo attention span) que me permita tal feito - e, por essa razão, saltito dum para outro como quem faz zapping. Não vejo televisão (só ouço programas de informação por fazerem parte do menú diário do jantar cá em casa), mas há sempre outros entretenimentos intermitentes por onde escolher. A Internet é o meu buraco negro, claro.

 

Sem mais demoras, aqui segue a dita lista. Só ao organizá-la é que me apercebi que partilham os mesmos temas - livros, ler, escrever, ser feliz - o que obviamente não é de admirar.

 

  1. Ler e escrever (Plano Nacional de Leitura)
  2. Aspas
  3. Anti-biblioteca
  4. Doar literatura
  5. Porquê escrever um blog?
  6. O meu horóscopo é melhor que o teu
  7. Life is what happens to you while you're busy making other plans + Como é a experiência de viajar sozinha?
  8. O que eu acho da felicidade
  9. Querida Lisboa,
  10. O consultor...

 

Boas leituras!

Modern Romance: como a Internet mudou as nossas relações e vidas amorosas

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Solteiros ou comprometidos, casados, divorciados ou até viúvos, quem é que no século XXI não se perguntou já como será isso do online dating - encontros proporcionados por sites e apps, maioritariamente desenvolvidos desde os anos 90?

 

A verdade é que vejo imensa gente à minha volta a alinhar nestas ferramentas usadas para conhecer pessoas novas, incluindo eu. Há umas semanas, por coincidência depois duma experiência mais ou menos desapontante neste domínio, decidi ir à Fnac (os livros animam logo uma pessoa, não é?). E descobri este livro, Modern Romance, escrito pelo comediante Aziz Ansari em parceria com o sociólogo Eric Klinenberg. Fiquei particularmente curiosa, porque também eu já passei por um par de situações sobre as quais gostaria de ler, dum ponto de vista mais científico e universal. É para isso que os livros servem, não é?

 

Em primeiro lugar, sei que este ainda é um assunto "engraçado" para muita gente. Sair com pessoas que se conhece pela Internet ainda parece ser relativamente novo ou pouco generalizado em Portugal. Mas é um fenómeno tão válido quanto qualquer outro a ser investigado e discutido na área das ciências sociais e humanas.

 

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Sabiam que, à data de publicação do livro, um terço dos casamentos americanos tinha sido possível por o casal se ter conhecido pela Internet? E a tendência é estas estatísticas aumentarem ainda mais com o passar dos anos.

 

Como é referido em Modern Romance, há cinquenta ou sessenta anos os casais conheciam-se de forma diferente e tinham expectativas de vida quase opostas às nossas. O importante era casar com alguém minimamente decente, que vivesse perto, o homem trabalharia e a mulher seria quase sempre dona de casa, criariam uma família e morreriam felizes e contentes dessa forma - se tivessem sorte, senão estariam apenas reservados para uma vida comum medíocre.

 

Hoje em dia, a maioria dos jovens estuda até muito mais tarde, procura uma vida profissional satisfatória e estável, viaja e muda de cidade ou país com relativa facilidade, e, no que toca a casar e a ter filhos, procuramos fazê-lo com a nossa alma gémea, ou pelo menos com alguém que nos faça sentir não só confortáveis e amados, quanto também desafiados e atraídos de maneiras muito variadas. Chegamos a namorar muitos anos com a mesma pessoa, ou a gastar muitos anos de vida em busca dessa tal cara-metade.

 

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(Perdoem-me a falta de qualidade das imagens, nem sempre é possível ver bem os gráficos.)

 

Neste contexto académico e profissional tão intenso, em que os círculos sociais acabam por ser limitados, é compreensível que não tenhamos tanta disponibilidade para conhecer alguém realmente especial, pelo que o uso das tecnologias, não sendo um fim em si mesmo, é uma ferramenta que nos proporciona conhecer mais gente além do alcance das nossas vidas turbulentas, porventura encontrando alguém que nos encha as medidas.

 

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Contudo, paralelamente a esta parte mais teórica, o livro também expõe imensos dos problemas de quem utiliza as ferramentas de online dating. Eu já escrevi sobre algumas das minhas próprias experiências no blogue, mas foi sempre em tom de gozo, o que nem sempre espelha a minha atitude real perante o tema. Eu até levo o Tinder, a app que eu uso, mais ou menos a sério, mas, separadas as devidas excepções, poucas das pessoas com quem tenho chegado à fala encaram as interacções como seria esperado, quando comparamos a realidade do online dating em Portugal com a dos EUA, em destaque em Modern Romance. O livro menciona, por exemplo, o facto de haver pessoas que se envolvem pouco ou que deixam de responder de repente, após conversas extensas e aparentemente muito interessantes. Pensamos "olha que individuo tão agradável" e depois ele desaparece do mapa, após uma ou duas desculpas pouco convincentes. Ou mesmo silêncio.

 

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Por isso, já é a segunda vez que me inscrevo e já é a segunda vez que elimino a app, porque acaba por ser uma experiência que nem sempre traz à superfície o melhor de nós, e é preciso respirar fundo. Em suma, ler este livro trouxe-me algum consolo, por perceber que "pode acontecer a qualquer um de nós e são riscos que temos de correr".

 

Por outro lado, também sei de histórias fantásticas de quem se conheceu online e o livro conta outras tantas, que se apanharam nos grupos de indivíduos estudados pelos autores ou no trabalho doutros investigadores. Nem tudo é mau, nem tudo é bom, num catálogo tão vasto de possibilidades. O mesmo aconteceria, numa escala diferente, ao conhecer alguém pessoalmente desde o início. 

 

No entanto, os autores deixam claro: a chave para as coisas correrem bem é não nos esquecermos que, apesar de as pessoas com quem falamos por mensagens serem quase irreais até ao momento em que as vemos, todos continuamos a ser humanos do outro lado do ecrã. Temos sentimentos, preocupações, traumas, receios, experiências de vida únicas. Assim, devemos tentar ser tão decentes quanto possível, tal como seríamos se essas pessoas estivessem à nossa frente. E não nos devemos esquecer: as ferramentas online levam-nos a contactá-las, mas não substituem a parte do dating em si, conhecê-las ao vivo e a cores.

Aqui seguem alguns excertos que achei muito sucintos:

 

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Dito isto, adorei o livro Modern Romance. Apresenta um bom equilíbrio entre livro de ciência popular (quem gosta de antropologia, sociologia e psicologia como eu vai gostar desta leitura) e entretenimento. Tem apontamentos fora do comum, nomeadamente acerca da vida sexual dos japoneses, e os autores dão alguns testemunhos pessoais e dicas de como comunicar de forma mais eficiente. São estudados ainda outros temas, como a infidelidade e o fim das relações na era das mensagens instantâneas, as diferenças culturais no namoro à volta do mundo, o sexting e as redes sociais. Por vezes, há piadas desnecessárias, mas faz parte.

 

Excelente tentativa de desmistificar um assunto do qual tanta gente ri, mas que ainda nem toda a gente compreende!

Ler mais autores portugueses e lusófonos tem sido o meu objectivo literário para 2018

Há muitas pessoas que não conseguem viver sem filmes, outras que não passam sem séries, ou que sentem necessidade de ir ao ginásio todos os dias. Eu preciso de ler, se não todos os dias, muito regularmente. Por isso, tenho tentado ler em maior quantidade e qualidade, porque sei que me faz sentir melhor e mais feliz. Neste caso, decidi investir em ler mais autores portugueses e lusófonos como objectivo literário para 2018.

 

 

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 (O meu desafio anual no Goodreads até agora.)

 

Ler mais autores portugueses e lusófonos tem sido o meu objectivo literário para 2018 por várias razões.

 

Em primeiro lugar, acho que apoiar o que é nacional é uma mais-valia. Não entrando em sentimentos nacionalistas nem "o que é nacional é que é bom", acredito que nos fica bem valorizar o que é feito por portugueses e em língua portuguesa, porque é muito fácil entusiasmarmo-nos mais com o que vem do estrangeiro e tendemos a esquecer-nos das nossas origens e um pouco da nossa identidade. Consumimos imensa cultura inglesa e americana, por exemplo, nem que seja por serem tão "vendidas" pelos meios de comunicação. É-lhes dada imensa visibilidade, o que nem sempre acontece em semelhante proporção quando se trata de criações ou produtos portugueses.

 

Este é o meu caso. Estudei literatura inglesa e americana, tive professores ingleses e americanos, cresci a ver séries da Fox e do AXN (e reality shows do TLC), a ver os Simpsons e comédias românticas de Hollywood, a ler Harry Potter e Crónicas de Nárnia, falo inglês todo o dia, todos os dias, há mais de dois anos, por causa do meu trabalho, refugio-me nessa língua que já considero um pouco minha... por isso sei o quão fácil (e cómodo) é pegar num paperback em inglês (que, ainda por cima, é mais barato) em vez de investir num autor português publicado em capa dura. A certa altura, até os temas são mais familiares. 

 

Por outro lado, eu quero lembrar-me e estar em contacto com todas as minhas tais "identidades" ou "origens". Quero saber tanto quanto possível sobre um povo e sobre o outro (e outro, e outro, e outro). Esse é outro motivo pelo qual quero ler mais autores portugueses. Quando os leio, também me sinto em casa, a beber da nossa língua, pessoas, culturas e mentalidades. É a língua portuguesa que me fascina, até mais do que a inglesa, ou a francesa e a espanhola. Para mim, é um desafio, ainda por cima por achar que os nossos escritores adoptam frequentemente um tom muito nostálgico, triste e insatisfeito através da sua escrita (sei que pode ser cultural, mas...). Assim, tenho tentado encontrar autores que contrariem ou equilibrem essa tendência. Também quero ler sobre gente feliz.

 

Finalmente, leio imenso porque quero aprender a escrever com quem percebe do assunto. Só grandes leitores podem dar, no mínimo, escritores medíocres. Respeito quem o faz bem e sei que têm muito a ensinar-me. O que escreveram os clássicos? O que escreveram autores X e Y? O que andam a escrever os contemporâneos? O que os torna não interessantes? O que os faz ganhar prémios? O que os faz serem tão aclamados pela crítica e pelo próprio público?

 

Até agora, em 2018 ainda só li cerca de oito livros escritos em língua portuguesa. No entanto, tenho feito um esforço por comprar mais e interessar-me pela literatura nacional e lusófona recente e das últimas décadas, tentanto intercalar um livro em português a cada leitura noutra língua (inglês, quase sempre). O mais difícil é explorar novos temas, a que a literatura estrangeira não me habituou. Mas, cada passo a seu tempo, há que começar por algum lado.

 

Também aceito dicas e sugestões de quem esteja a tentar fazer o mesmo que eu, dando uma oportunidade aos autores de língua portuguesa! O que andam a ler? Ou quem? E como são os vossos hábitos de leitura?

O livro que todos precisam de ler nas férias: 'Crónica dos Bons Malandros'

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Caros todos, precisam urgentemente de levar a Crónica dos Bons Malandros, do escritor Mário Zambujal, nas vossas malas das férias! Não interessa se vão para o campo, para a praia, para uma metrópole gigante ou para a santa terrinha, toda a gente precisa de ter um livro para ir folheando antes de ir para a cama, à beira da piscina, nas filas do aeroporto, nos tempos mortos, enquanto as crianças dormem a sesta...

 

Eis os meus motivos para tão efusiva demonstração de apreço pela Crónica dos Bons Malandros.

 

Raramente consigo encontrar livros escritos por autores portugueses ou lusófonos que me façam sorrir, e muito menos rir - isto é, sorrio porque até leio alguns livros muito bons, mas todas as histórias são muito dramáticas, para não dizer trágicas, são de levar uma pessoa à depressão literária. Este ano, já li imensos assim, e finalmente encontrei um livro que me enche as medidas anti-tudo o que me faça ter pensamentos negativos, ainda que sobre realidades completamente ficcionais. Estas Crónicas são O TAL.

 

Não vos quero estragar a experiência com resumos desnecessários, até porque o título diz tudo: esta é a história dum grupo de bons malandros. Como são eles malandros ou quais os seus papéis nestas Crónicas... Deixo-vos a tarefa de o descobrirem.

 

Só para perceberem bem o quanto gostei de as ler, é quase meia-noite, acabei a leitura há cerca duma hora, depois de duas horas e meia intensivas a devorá-lo, com uma única pausa para jantar, e não consigo ir para a cama sem partilhar convosco este grande achado. Têm sido raros os livros que me criam esta reacção, incredulidade, euforia, uma paz imensa por ter lido algo simples, mas genial, em bom português correcto e muito vernacular, que é simultaneamente capaz de fazer o cérebro exercitar-se enquanto relaxa.

 

Não, não descobri a pólvora, o livro tem quase quarenta anos, foi publicado pela primeira vez em 1980, leva-me quinze anos de avanço neste mundo, mas provavelmente muitas pessoas, tal como eu até ao dia de hoje, ainda não ouviram falar dele ou não tiveram oportunidade de lhe pegar.

 

Se o meu entusiasmo não vos convence por si só, aqui vão dois excertos da Crónica dos Bons Malandros que de certeza conquistarão a vossa atenção:

 

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Não posso recomendar demasiadas vezes que levem este livro nas vossas malas das férias. É levezinho (eu tenho uma edição antiga que nem duzentas gramas deve pesar), fininho, enfia-se num saco qualquer, não estorva, tem letra grande, lê-se num par de horas, não é difícil manter o ritmo, os capítulos são de dimensão pequena a razoável, tem diálogos, tem discurso asneirento, tem praguejares tradicionais, é desbragado, pobre em filtros, tem amor e desamor, conflito, palavras raras. Vão por mim e dêem-lhe uma chance!