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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Releitura: The Course of Love (Alain de Botton)

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Reler Alain de Botton foi como regressar a um sítio muito confortável, acolhedor, sem julgamentos, onde as falhas humanas não ditam o carácter, onde o leitor voyeur não pede licença, mas onde vai entrando pé ante pé, para aprender pela experiência dos outros - dos protagonistas. Tudo o que é escrito pelo Alain de Botton tem cariz didático. Não há maus-da-fita, apenas gente normal a habitar a narrativa de The Course of Love. Reler este romance foi como entrar numa casa onde já tinha vivido, com tudo o que há de positivo e negativo nisso. É como rever um sítio querido, e mesmo assim descobrir-lhe novas nuances. Sem surpresa, Alain de Botton continuou incisivo, narrando os traumas de infância que levam Rabih e Kirsten a unirem-se numa relação que se espera para sempre, mas que não é interrompida pelos créditos finais no momento dos votos de casamento nem se revela inequivocamente feliz. Antes pelo contrário, lá fui eu numa visita guiada repetida aos seus primeiros dezassete anos de vida partilhada. Não, um casamento não é fácil. Não é bonito. Não é o "viveram felizes para sempre". Ainda assim, nas páginas finais, fica a promessa dum melhor entendimento.


No entanto, as releituras têm custos. Pode haver desencanto, desilusão, ou apenas mais tendência para um olhar mais atento ao que nos tenha escapado antes. Quase um ano depois, com outras experiências pessoais acumuladas e talvez um olhar mais cínico e menos romântico quanto às relações, tenho a dizer que achei esta união dos protagonistas muito apressada, e que o Sr. Botton cria ali uns cenários pouco credíveis. Se calhar, o Rabih e a Kirsten eram só parvos, ou desinformados, mas aos vinte e tal ou trinta anos não me parece que haja espaço para tanto romanticismo e idealismo. Não é qualquer pessoa que se atira em mergulho para um casamento ao fim duns meses de namoro. Fiquei pasmada quando me apercebi de que as personagens reconhecem só começar a ter uma noção mais completa um do outro após uma quantidade significativa de sessões de terapia de casal e década e meia a viver debaixo do mesmo tecto. É obra...


De resto, claro que as releituras devem ser inevitavelmente mais críticas. Por um lado, há o conforto do que já é esperado a cada página; por outro, essa familiaridade permite estarmos disponíveis para encontrar e juntar peças nas quais não tínhamos tropeçado o suficiente.


Seja como for, o meu livro preferido do Alain de Botton é o Essays in Love, que espero readquirir em breve, depois de um empréstimo falhado - ou seja, duma doação muito bem sucedida - e com toda a legitimidade e carinho do mundo. Essa é a releitura que mais me preocupa, na medida em que posso quebrar a expectativa criada depois da primeira vez que o li. Seria uma pena eu deixar de o colocar no pedestal da literatura de paperback. 

 

E desse lado, o que andam vocês a reler? Há algum livro ao qual gostem de regressar de tempos a tempos? Digam lá quais são os riscos a que se sujeitam em prol de segundas, terceiras e centésimas leituras... 📚

Emprestar livros: uma reflexão simpática

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Nunca gostei de emprestar livros quando era pequena. Ao crescer, descobri que me sentia assim, porque o empréstimo era sempre pouco recíproco, emprestar sem o outro retirar prazer da leitura, emprestar só porque sim, para ser simpático. Mais tarde, percebi que emprestar pode ser uma experiência enriquecedora, pelo prazer partilhado, ao dar a ler e ao ler aqueles livros não só saboreando a mera descoberta do que alguém escreveu, mas também do que aquela pessoa que conhecemos leu - o que terá pensado?, o que terá sentido?, o que terá motivado a vontade de adquirir e ler as páginas por onde vamos igualmente passando?

 

Aprecio em particular o empréstimo que não pedimos, mas sim que é sugerido do outro lado. "Lê, acho que vais gostar. Eu, pelo menos, gostei muito." Ficamos a imaginar o que terá motivado aquela opinião, qual a parte favorita, ou o que terão pensado que poderíamos também vir a gostar.

 

Recentemente, olhei para a pilha de livros que me têm emprestado, isto é, que tenho por devolver. Parece que nunca mais acaba, mas lá chegaremos, um a um. Talvez eu nem acabe por ler todos, talvez alguns me aborreçam ou me desiludam. No entanto, senti-me bastante satisfeita, feliz, por relembrar que a dita pilha de livros é um sinal de confiança e da tal partilha. De forma semelhante, também eu empresto os meus. Emprestar livros entre amigos e entre quem conhecemos bem é o melhor, porque podemos aconselhar de acordo com o que achamos que eles precisam e preferem ler. Recentemente, emprestei um livro muito especial para mim a uma amiga que, mal lhe pousou nas mãos, encheu-o de rabiscos, dobras e sublinhados. De tanto a ter marcado, ainda foi re-emprestado a uma terceira pessoa.

 

Aquele livro nunca mais será meu outra vez, pelo menos aquele exemplar. Se o contexto fosse outro, teria ficado bastante arreliada por me vandalizarem um livro que me pertence - ainda por cima, sem licença! Mas a alegria da minha amiga ao lê-lo foi de tal forma significativa, que eu nem quis saber. Só me queixo por gozo, pela troça.

 

Viva os livros emprestados! E os emprestadados também!

Na foto estão oito, entretanto a pilha reduziu para sete. 

Sobre criar e consumir: Marketing de Conteúdo - a moeda do século XXI (Rafael Rez)

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Apesar de ter parcialmente pago as propinas da licenciatura ao fazer trabalhos para uma agência de marketing digital, na produção de conteúdos que apareciam em blogs de empresas e personalidades, acho que só no último ano me tenho apercebido de todo o processo envolvido antes, depois e à volta dos ditos posts que eu já escrevo há alguns anos, pessoal e profissionalmente. Não se tratava apenas dum número estabelecido de regras de SEO e copywriting. Comecei a perceber a articulação com as redes sociais, o storytelling, os links afiliados, as estatísticas do analytics... Todo esse aparato fez-me sentir muito curiosa e comecei a procurar mais informação sobre o marketing de conteúdo.


Desde o fim de 2018 que andava a completar a certificação online em Marketing Digital do Atelier Digital Google. Durante as últimas semanas, finalmente deixei de o arrastar e passei a progredir um pouco todos os dias no curso. Então, descobri que, apesar de eu já ter uma noção bastante boa do que se passa na Internet e como funcionam os respectivos algoritmos e mecanismos, ainda não tinha consolidado todas essas impressões numa narrativa coesa que gerasse conhecimento propriamente dito.


Pelo meio, decidi comprar Marketing de Conteúdo - a moeda do século XXI, escrito pelo especialista brasileiro Rafael Rez. Em primeiro lugar, o livro está escrito duma forma muito clara e realmente útil. Depois, toda a paginação e restantes aspectos de design (sobre os quais não percebo nada, mas que me chamam sempre a atenção) constituíram o argumento final.


Para quem é este Marketing de Conteúdo?
Bem, eu não sou extremamente entendida no assunto, mas acho que é sempre útil perceber o outro lado do mercado. Ser uma parte passiva e desinformada no processo de venda (ou produção) e consumo não é para mim. Faço questão de saber o que se está a passar na Internet, já que ando por aqui tanto tempo por dia e alguns dos meus projectos pessoais e profissionais passam pelo seu uso.

 

Não acho que tenhamos de ter em vista tornarmo-nos criadores de conteúdo online para nos informarmos. Se concordam, talvez devam dar uma vista de olhos a este livro. Ainda por cima, há resumos no final de cada capítulo e muitas vezes o texto é apresentado em bullet points, o que facilita a compreensão. Se só alguns temas acerca do marketing de conteúdo vos interessam, também podem consultar o índice para melhor gerirem a vossa leitura.


Marketing de Conteúdo de Rafael Rez é um excelente convite à reflexão relativamente às mudanças que se estão a operar nos negócios por esse mundo fora. Qual é a empresa ou empreendedor individual que não tem um site, blog, página de Facebook ou de Instagram? Então, mais vale saber como fazê-lo de forma a aproveitar os recursos para tornar o negócio presente e relevante para os consumidores e potenciais clientes, que cada vez mais procuram soluções na Internet para os seus problemas ou necessidades.


O resto não me cabe a mim desvendar, até porque há tanto para escrever. Este livro é um manual irrepreensível, quer para criadores, quer para consumidores de conteúdo. Nem todos os tópicos me interessaram da mesma forma, mas sinto que, em conjunto com o curso em Princípios de Marketing Digital do Atelier Digital Google (que já terminei, aproveitando para recomendar a todos os curiosos!), o livro Marketing de Conteúdo contribuiu para a minha actualização de conhecimentos e para começar a experimentá-los em novos projectos. 

 

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E vocês, o que andam a ler ultimamente? Este tema do marketing digital interessa-vos ou preferem outro tipo de leitura? 📚

Não li sinopses e fui apanhada de surpresa: Dom Casmurro (Machado de Assis)

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Nos últimos meses, tenho lido cada vez menos ficção. Talvez por isso mesmo precise de ser cada vez mais surpreendida, por haver menos oportunidades para ler só porque sim, logo tal contexto convidar à procura de melhores experiências individuais, mesmo que escassas.


Comecei a não ler sinopses. No máximo, tenho lido as contracapas (mas não as badanas). A história tem um título que me agrade? Já ouvi falar bem? As primeiras páginas, lidas ainda na livraria, em amostras online ou em aventuras em estantes alheias lá de casa, conseguem suscitar a minha atenção? Então, não preciso de mais nada para continuar.


Não ler sinopses veio acrescentar-se ao hábito já antigo de não ler informação adicional antes de acabar a leitura do livro. Nada de entrevistas ao autor a propósito do lançamento desse ou doutros livros, comentários da crítica, opiniões várias fora do meio do Goodreads a que já me habituei. Prefiro ter o mínimo de contexto acerca do que gostaram ou não no enredo, estrutura, personagens...


E, depois, por causa destes cuidados redobrados, há surpresas, como Dom Casmurro, de Machado de Assis.


Não quero vir para aqui presentear-vos com spoilers desnecessários, mas digamos que eu nunca pensei que a história de Bentinho Santiago se desenrolasse assim. É daquelas narrativas mornas, muito lentas, mas que de repente ganham velocidade e pegam fogo a todas as nossas expectativas! Nossas... Entenda-se, as de quem não se tenha informado muito acerca do que se trata.


Desde a primeira página que pressenti que Dom Casmurro não chegaria a ser um dos meus livros favoritos. Sim, é um clássico (até o li inserido no tema de Março d'Uma Dúzia de Livros) mas o ritmo dos acontecimentos é irregular, o que ora me entusiasmava, ora me enfastiava. Foram menos de duzentas páginas que valeram por muitas mais - de certa forma, nem sei se duma forma positiva ou negativa.


Claro que, entre o "pára, arranca" da vida de Bentinho Santiago, vieram as surpresas. Estas não são realmente surpresas, porque são mencionadas na biografia de Machado de Assis e em sinopses menos generalistas que as da contracapa da edição que tenho de Dom Casmurro. Quando lá cheguei, até tive de reler algumas páginas. Senti que só podia ter perdido alguma coisa, entre as viagens de metro que gastei a ler, mas não. As fantasias da psique afectada de Dom Casmurro levavam a crer que tinha lido tudo bem. Pregou-me um desgosto.


Entre a análise fina dos costumes da época e dos humores, amores e desamores das personagens, em particular do narrador Bentinho, instalou-se tanta indiferença quanto caos. Restou-me fechar o livro sem saber se gostei ou desgostei em maior intensidade. Dom Casmurro foi um misto de tudo e mais alguma coisa. À parte a riqueza das referências intertextuais, da crítica social, da profundidade dos sentimentos e da vida da psique, ficou sempre a parecer que a loucura do protagonista deixou qualquer coisa a desejar.


Se já leram Dom Casmurro, de Machado de Assis, e também se sentiram desorientados quando finalmente acabou, digam-me como se consolaram dele.

Escrever, pôr tudo cá fora: Bullet Journal, journalling, to-do lists e outros estrangeirismos de caneta no papel

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Tenho blocos de notas e ideias desde o primeiro ou segundo ano da faculdade. Ao longo dos anos, fui escrevendo maioritariamente listas de tarefas, pensamentos súbitos, algo de importante que me dissessem, partes de livros que achasse conterem ensinamentos para a vida (a certo ponto, tive a sensação de que teria de copiar todo The Four Loves de C. S. Lewis...). A Inês também desde cedo percebeu o quanto eu comecei a gostar de blocos e bloquinhos, então num Natal ofereceu-me um bloco com uma encadernação tão amorosa que ainda hoje se encontra em branco (tenho pena de o conspurcar com a mundanidade da minha caligrafia desnivelada) e, o que despoletou uma nova mania nos hábitos de escrita, uma caneta Sheaffer que me acompanhou durante dois anos até ter ficado sem tinta e eu me ter conformado à preguiça e esquecimento de comprar uma nova recarga (nota mental: fazê-lo hoje, por fim).


No entanto, perdi um pouco desse hábito quando comecei a viver sozinha e ao mudar-me para o outro lado do mundo. As rotinas ficaram todas trocadas, graças a esse maravilhoso fenómeno de brincar aos adultos e tentar perceber as regras do jogo. Comecei a escrever cada vez menos, até no blog, e a perder pensamentos pelo caminho, sem os anotar e organizar. Não me saía nada, não tinha sequer concentração, apesar de continuar a comprar cadernos, blocos e canetas de forma praticamente compulsiva. Ainda me pergunto de vez em quando se não terá sido essa uma das falhas logísticas que contribuíram para o meu mal-estar. Quem sabe?! No final de 2017, antes de regressar a Portugal, recomecei a escrever, mas em poucos meses essa vontade readquirida voltou a extinguir-se quando a materialização de pensamentos no papel insistia em relembrar-me o quão triste algumas coisas me deixavam e eu preferia não lidar com elas.


Assim, passadas essas fases em que o papel e canetas ficaram arrumados, foi no final de 2018 que recomecei a escrever mais consistentemente à mão e a ter sempre um bloco ou caderno por perto, por influência da ideia do Bullet Journal, o qual conheci através do livro homónimo sobre o sistema.


Apesar de não ter adoptado à risca o sistema original de Bullet Journal, comecei a criar as minhas próprias "colecções" ou secções temáticas. Em primeiro lugar, voltei a escrever e a vigiar listas de tarefas, objectivos e eventos. Três meses mais tarde, também tenho criado repositórios de ideias para projectos pessoais, para o blog e, a pouco e pouco, tento cultivar o hábito de escrever em forma de diário, o que hoje chamam journalling, cujas técnicas mais criativas ainda estou para aprender.


Diz que faz bem à cabeça registar por escrito o que só causa ruído e ocupa espaço desnecessário na memória de trabalho. Diz que faz bem ao coração para diminuir a ansiedade, ganhar distância e, consequentemente, objectividade. Por exemplo, foi-me recomendado pela psicóloga que me começou a seguir fazer listas e mais listas e também um "mapa de emoções", onde registe e me confronte com o que precisa de ser destrinçado, para analisar comportamentos, pensamentos, sentimentos e procurar-lhes padrões e novidades.


É como nas sopas que a minha avó faz: vai tudo lá para dentro, sem receita, é o que houver na altura, o que estiver à mão. Assim escrevo eu no bloco actual. O que interessa é fazê-lo. 

 

***

 

Nota: ao escrever este texto, comecei a procurar outros que ilustram as situações referidas, e é incrível relembrar a longevidade deste blog, o que me levou tão longe quanto 2012 nas minhas recordações, quando parece que escrevi tudo anteontem. Um cliché blogosférico, é o que vos digo!

A leitura na era digital: Reader, Come Home (Maryanne Wolf)

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Comecei a ler Reader, Come Home - The Reading Brain in a Digital World (da investigadora Maryanne Wolf) no âmbito das minhas incursões recentes à literatura sobre cognição e a forma como o cérebro lê - ou seja, como nós, seres humanos, lemos. Eis a minha opinião e o resumo das ideias sobre este livro que me encheu as medidas.

 

Mais uma vez, o cérebro. A literacia digital e em papel. O conceito empatia, que tem alcançado algum destaque ultimamente, na academia e fora dela. A leitura (uma invenção cultural e para a qual o cérebro dos homens nem sequer nasce preparado) como meio de tornar as crianças de hoje em dia e dos próximos anos em cidadãos responsáveis, informados e críticos.


Maryanne Wolf tem dedicado a sua carreira académica a estudar o cérebro e a influência da leitura a nível neurológico, em termos interiores e exteriores. Afinal, mudanças causadas pelo exterior ao interior também provocam consequências exteriores. E por aí fora. A criação de hábitos de leitura sólidos desde cedo promove o desenvolvimento da inteligência, da memória, da atenção e do sentido crítico.


No entanto, este seu livro mais recente, Reader, Come Home, é mais um "sinal dos tempos", concentrando-se na passagem da leitura em papel, mais paciente e prolongada, para a leitura digital, facilmente interrompida pelas distrações doutras fontes ou mesmo que estão presentes em recursos do próprio texto (como os e-books para crianças ou até notícias online com hiperligações e pop-ups).

 

Nesta era digital, a própria autora deu por si a debater-se contra a sua incapacidade de apreciar os livros da sua infância e juventude, clássicos da literatura que moldaram a sua vida, mas que agora se apresentavam como obstáculos intransponíveis. Maryanne Wolf tinha perdido a capacidade de se concentrar em leituras mais desafiantes, que lhe pediam paciência e perseverança. Então, tanto a própria autora, quanto o "leitor" que ela interpela, são convidados a regressar à "casa" ou ao "lar" que é a leitura prazerosa, imersiva e prolongada que nos retira deste mundo. Certamente que todos nós que gostamos de ler desde pequenos nos lembramos de ser engolidos por um livro e, provavelmente, ainda hoje guardamos saudades dessas memórias.


Por estas razões, a investigadora da Tufts University, nos EUA, decidiu estudar a alteração nos seus hábitos de leitura e, consequentemente, nos hábitos de toda a gente, em particular de crianças, e o que fazer quando chega a altura de as expor a livros e/ou dispositivos electrónicos. 


Apesar de Reader, Come Home deixar mais hipóteses, preocupações e questões do que respostas empíricas, acho que me fez pensar sobre o que poderá ser feito no futuro para nos asseguramos de que criaremos cidadãos com literacia dupla, bilingues no que toca à leitura em papel e leitura digital, capazes de retirar de cada uma delas os melhores proveitos, atributos e capacidades cognitivas, não desprezando nem uns nem outros meios, mas sim navegando facilmente entre ambos os tipos.


Na minha opinião, Reader, Come Home é um livro para todos aqueles que se interessam pelo futuro dos livros e da leitura. Ler não é um processo cognitivo a que nos expomos "só porque sim". Ler mais deve, idealmente, aguçar a nossa reflexão e empatia, através do conhecimento e compreensão doutras vidas, assuntos que antes ignorávamos, articulação cuidada de pensamentos doutras pessoas. Ler bem, em geral, é uma necessidade e obrigação dos cidadãos que vivem numa democracia.

 

E vocês, ainda sabem o caminho de volta "a casa"?

A vida normal: Eliete (Dulce Maria Cardoso)

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Este ano tem sido óptimo em termos de leituras. Tenho aprendido a ler profundamente (a chamada deep reading), outra vez, com entusiasmo e voracidade. Em parte, isto só é possível graças à sorte de encontrar ou escolher livros que me conseguem chamar a atenção desde o início.


Um deles foi a Eliete, de Dulce Maria Cardoso. Um gosto ligeiramente "maria vai com as outras", mas a verdade é que lhe confirmo todas as virtudes que já outros lhe atribuíram.


A Eliete podia ser uma de nós - há uns anos, daqui a uns anos ou mesmo agora. Outrora foi jovem, teve sonhos, apaixonou-se, cresceu e viveu em sítios por onde também nós já passámos, muitas das personagens da vida dela são as das nossas, tem pensamentos comuns, sofre de males comuns, leva uma vida comum. O título desta Primeira Parte regista: "vida normal".


O primeiro volume da história da Eliete, de Dulce Maria Cardoso, é um daqueles livros criticáveis, por poder ser datado, por ser escrito com uma voz de mulher, por falar bem e mal dos homens, por trazer à literatura portuguesa temas e episódios tão mundanos quanto a instalação duma aplicação de encontros no telemóvel, os emojis, a alienação dos entes queridos pelo nariz enfiado nos telemóveis, os motéis, as ditas crises de meia idade e o golo do Éder.


Por outro lado, a Eliete há-de servir de espelho da mulher madura na segunda década deste milénio. Vejo nele a expressão do que já é corriqueiro no resto da literatura quando exposto do ponto de vista masculino, mas que se lê cada vez mais do ponto de vista feminino, a referir: o sexo, a família, a traição, a perda, a superação, a relação com e entre o corpo e a alma, a transformação.


A ditadura e o 25 de Abril continuam presentes, à semelhança do que li em O Retorno, e fiquei com curiosidade em perceber o que se seguirá depois desta primeira fase do despertar da Eliete.


Penso que não tenho sequer palavras para vos explicar melhor sobre o quanto este livro me agradou. De facto, senti que desde o início não tinha outra alternativa senão continuar a leitura até ao fim, e só comecei a sentir o ritmo de leitura abrandar quando, quase no final, a Eliete se começou a tornar mais previsível.


É provável que já tenham lido a Eliete, ou que seja um dos vossos livros por ler. Se for esse o caso, espero pelas vossas opiniões!

 

Leitura de cabeceira: Meio intelectual, meio de esquerda (Antonio Prata)

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Três crónicas por dia, nem sabe o bem que lhe fazia... Podia ser um ditado popular, mas é só uma das muitas recomendações que por aqui vou plantando.


O livro Meio intelectual, meio de esquerda (Antonio Prata) foi a minha leitura de cabeceira das últimas semanas, depois de o ter encomendado através da promoção de Inverno da Tinta-da-China. Apesar de o ter escolhido às cegas, somente pelo prazer de comprar um livro a preço reduzido, acho que fiz muito bem.

 

Esta edição portuguesa de Meio intelectual, meio de esquerda reúne crónicas do autor e guionista brasileiro desde 2003 até 2016, por isso deu-me sempre a impressão de que, desde a primeira até à última, estava a acompanhar um amigo que ia crescendo, amadurecendo e evoluindo na sua vida pessoal e profissional - e escrevendo sobre isso. Ao contrário do que o título possa indicar, raras são as crónicas de cariz político, preteridas ao futebol (do qual eu percebo muito), amor, filhos e reflexões várias, mais ou menos disparatadas.


Se pensarmos que, em 2003, Antonio Prata tinha vinte e poucos anos, alguém que os tenha ao ler estas crónicas poder-se-á deparar com uma máquina do tempo, em que o futuro se apresenta com a sucessão de eventos (viajar juntos pela primeira vez vs. o casamento; o início duma carreira vs. a sua consolidação), problemas (como usar a palavra "tomate" vs. mãozadas de cocó de bebé) e preocupações (bares ruins vs. recibos e contabilistas) de quem vai registando pequenos apontamentos da sua vida durante mais duma década. Talvez, um dia, também nós sejamos mais ou menos assim. Talvez eu seja mais ou menos assim.


À semelhança do que acontece com a maioria das colectâneas de crónicas, prefiro ir lendo poucas de cada vez, daí ter nomeado Meio intelectual, meio de esquerda como leitura de cabeceira. Antes de dormir, para acalmar a cabeça dos ecrãs, da rotina e do entusiasmo do dia, bastam alguns minutos e páginas. Crónicas de duas ou três são ideais, por não serem demasiado exigentes, nem desinteressantes, enquanto a variedade de temas nos entretém e embala para um sono mais descansado (idealmente!).


Em suma, Meio intelectual, meio de esquerda não é o melhor livro de crónicas de sempre, não é o mais perspicaz ou criativo, mas presta-se a um óptimo trabalho de entretenimento!


[Acabado este, está na altura de passar para Silêncio na Era do Ruído (Erling Kagge).]

Quanto vale uma educação: Educated (Tara Westover)

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Quanto valor pode ter uma educação? Quase todos nós tomamos tantas vezes a nossa instrução como garantida. Nos meios onde cresci e estudei, entre o fim do século XX e início do século XXI, nunca conheci ninguém que não tivesse nascido sem ter a certeza de que iria à escola, o que não é o caso da protagonista deste livro: Educated, o livro de memórias de Tara Westover (traduzido em português como Uma Educação, pela Bertrand Editora).

 

Nota: este vai ser um texto longo. Desde que comecei a ler o livro até o terminar dificilmente o larguei. Foi assim que Educated me fez sentir: eu tinha de saber como acabava o relato desta rapariga, nem uma década mais velha que eu, mas com uma vida tão complexa e cheia de feitos tão memoráveis.


Educated descreve os primeiros vinte e tal anos de vida da autora americana; perguntarão vocês como é que alguém tão novo terá tanto (quase 400 páginas!) para contar. Ao contrário do que é esperado duma criança num país desenvolvido, Tara não foi à escola até ter entrado na universidade, aos 17 anos. A família, mórmon, crente no Fim dos Dias e em teorias da conspiração sobre a doutrinação do Governo através da escola e do serviço de saúde, manteve-a longe do resto do mundo até Tara ter seguido os passos dum irmão mais velho rebelde e se ter autoproposto e inscrito na Brigham Young University.


Não vos quero contar muito mais do que as outras sinopses da Internet já contêm, mas deixo-vos uma nota de precaução: este não é um livro fácil, emocionalmente. Tara Westover escreve mesmo muito, muito bem, como se já tivesse uma carreira literária longa, por isso conseguiu prender-me a cada novo parágrafo, mas o que lá está escrito não é bonito. Na infância, adolescência e primeiros anos de idade adulta dela houve muita violência, frustração, mentiras, obstáculos físicos e morais, incompreensão, solidão... É uma daquelas leituras que nos encanta e assombra em simultâneo. A certo ponto, o que mais surpreende deixa de ser o facto de Tara ter chegado a frequentar a universidade, mas sim, contra a vontade de toda a gente que a rodeava, ter alcançado um percurso de sucesso de zero a Harvard em menos de dez anos.


No fim, concluí: a curiosidade pelo mundo recém-descoberto, a cada nova disciplina ou pessoa que conhecia, desempenhou um papel muito importante na vida de Tara. Poder aprender numa sala de aula e usufruir duma educação universitária nalgumas das melhores instituições do mundo não foram experiências que pudesse fazer intuitivamente, ao contrário dos seus colegas. Só quase aos trinta anos é que deixou de se sentir isolada e diferente. No entanto, permaneceu a vontade de saber e conhecer mais. Para nós, os leitores, serve-nos de lição ou para refrescar a memória para valorizarmos a nossa escolarização, socialização e oportunidades de fazer mais e melhor. Relembra-nos que ir à escola ou à universidade não é só ouvir um tipo qualquer falar durante hora e meia. Mesmo a informação mais insignificante que nos possam oferecer deve ser tida em conta, porque, tal como Tara, acabamos por aprender algo novo sobre o que é ser humano, algo sobre o mundo, nem que seja um pretexto para procurarmos mais nos livros, na Internet ou para perguntarmos a quem percebe do assunto. Lutar por uma educação é imprescindível. Uma educação não é escolher o curso com mais empregabilidade; é, acima de tudo e simplesmente, poder aprender.

 

The decisions I made after that moment were not the ones she  would have made. They were the choices of a changed person, a new self. 
You could call this selfhood many things. Transformation. Metamorphosis. Falsity. Betrayal. 
I call it an education.


Enfim. É impressionante como uma miúda cheia de medo e um passado doloroso pôde transformar a sua vida por completo, reinventá-la e reinventar-se. Não quero dizer que não teve momentos de fraqueza, mas na minha opinião é preciso ser-se realmente forte para se ser o protagonista duma vida como esta.


Li em muitos outros textos de opinião que Educated é um livro para todos os gostos e confirmo. Não costumo ler muitos relatos autobiográficos, mas este valeu a pena. É muito difícil deixar a meio um livro assim.


Vejam ainda os textos e vídeos que deixei em hiperligações pelo meio do texto.


Boas leituras! 📚

 

(Este é também o livro que li para o mês de Fevereiro a propósito do desafio Uma Dúzia de Livros, da Rita da Nova).

Não terminar livros

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Não terminar um livro nunca foi um problema para mim. Sempre senti que, se tinha de parar a leitura por não me interessar, "das três uma":

 

... ou teria de lá voltar mais tarde por não ser a melhor altura para o apreciar devidamente (como n'As Memórias de Adriano, falta de maturidade e experiência de vida; como no Handbook of Cultural Economics, porque li grande parte dos capítulos mas não sinto que precise de completar a leitura para perceber tudo aquilo que me faz falta agora).


... ou o livro e os meus interesses não corresponderam, pelo que nos restaria procurar melhores parceiros de serão.


... ou o livro seria apenas mais uma bela perda de tempo, por pecar em falta de qualidade e capacidades argumentativas para prender o leitor; talvez o autor de devesse dedicar a outros misteres.


Não terminar livros não costuma ser um drama por aqui, é antes uma parte do dia-a-dia de quem acredita não ter tempo para insistir em batalhas sem proveito.


Ainda assim, ultimamente tenho deixado várias leituras a meio. Ando a ler bastantes livros ao mesmo tempo, talvez demasiados. É verdade. Não lhes dedico toda a minha atenção e vou-me esquecendo deles pelo caminho. Nalguns casos, perco o entusiasmo e sigo em frente sem permitir que me dêem provas do seu valor.


Sei que não terminar livros é uma questão temporária, como já é costume, mas é inevitável pensar que a culpa é - sempre - minha. Tal é a razia de livros arrasados por tal azarada conduta!


Devo concentrar-me mais em cada um dos livros que escolho e levar a cabo o compromisso, desafiando-me a embarcar em leituras estóicas, mas pelo menos terminadas e justamente avaliadas? Ou devo continuar a largá-las para dar oportunidade às seguintes, porventura melhores ou mais adequadas?