Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Modern Romance: como a Internet mudou as nossas relações e vidas amorosas

IMG_25610815_120116.jpg

 

Solteiros ou comprometidos, casados, divorciados ou até viúvos, quem é que no século XXI não se perguntou já como será isso do online dating - encontros proporcionados por sites e apps, maioritariamente desenvolvidos desde os anos 90?

 

A verdade é que vejo imensa gente à minha volta a alinhar nestas ferramentas usadas para conhecer pessoas novas, incluindo eu. Há umas semanas, por coincidência depois duma experiência mais ou menos desapontante neste domínio, decidi ir à Fnac (os livros animam logo uma pessoa, não é?). E descobri este livro, Modern Romance, escrito pelo comediante Aziz Ansari em parceria com o sociólogo Eric Klinenberg. Fiquei particularmente curiosa, porque também eu já passei por um par de situações sobre as quais gostaria de ler, dum ponto de vista mais científico e universal. É para isso que os livros servem, não é?

 

Em primeiro lugar, sei que este ainda é um assunto "engraçado" para muita gente. Sair com pessoas que se conhece pela Internet ainda parece ser relativamente novo ou pouco generalizado em Portugal. Mas é um fenómeno tão válido quanto qualquer outro a ser investigado e discutido na área das ciências sociais e humanas.

 

IMG_25610806_100720.jpg

 

Sabiam que, à data de publicação do livro, um terço dos casamentos americanos tinha sido possível por o casal se ter conhecido pela Internet? E a tendência é estas estatísticas aumentarem ainda mais com o passar dos anos.

 

Como é referido em Modern Romance, há cinquenta ou sessenta anos os casais conheciam-se de forma diferente e tinham expectativas de vida quase opostas às nossas. O importante era casar com alguém minimamente decente, que vivesse perto, o homem trabalharia e a mulher seria quase sempre dona de casa, criariam uma família e morreriam felizes e contentes dessa forma - se tivessem sorte, senão estariam apenas reservados para uma vida comum medíocre.

 

Hoje em dia, a maioria dos jovens estuda até muito mais tarde, procura uma vida profissional satisfatória e estável, viaja e muda de cidade ou país com relativa facilidade, e, no que toca a casar e a ter filhos, procuramos fazê-lo com a nossa alma gémea, ou pelo menos com alguém que nos faça sentir não só confortáveis e amados, quanto também desafiados e atraídos de maneiras muito variadas. Chegamos a namorar muitos anos com a mesma pessoa, ou a gastar muitos anos de vida em busca dessa tal cara-metade.

 

IMG_25610807_181320.jpg

(Perdoem-me a falta de qualidade das imagens, nem sempre é possível ver bem os gráficos.)

 

Neste contexto académico e profissional tão intenso, em que os círculos sociais acabam por ser limitados, é compreensível que não tenhamos tanta disponibilidade para conhecer alguém realmente especial, pelo que o uso das tecnologias, não sendo um fim em si mesmo, é uma ferramenta que nos proporciona conhecer mais gente além do alcance das nossas vidas turbulentas, porventura encontrando alguém que nos encha as medidas.

 

IMG_25610812_151205.jpg

 

Contudo, paralelamente a esta parte mais teórica, o livro também expõe imensos dos problemas de quem utiliza as ferramentas de online dating. Eu já escrevi sobre algumas das minhas próprias experiências no blogue, mas foi sempre em tom de gozo, o que nem sempre espelha a minha atitude real perante o tema. Eu até levo o Tinder, a app que eu uso, mais ou menos a sério, mas, separadas as devidas excepções, poucas das pessoas com quem tenho chegado à fala encaram as interacções como seria esperado, quando comparamos a realidade do online dating em Portugal com a dos EUA, em destaque em Modern Romance. O livro menciona, por exemplo, o facto de haver pessoas que se envolvem pouco ou que deixam de responder de repente, após conversas extensas e aparentemente muito interessantes. Pensamos "olha que individuo tão agradável" e depois ele desaparece do mapa, após uma ou duas desculpas pouco convincentes. Ou mesmo silêncio.

 

IMG_25610807_185441.jpg

 

Por isso, já é a segunda vez que me inscrevo e já é a segunda vez que elimino a app, porque acaba por ser uma experiência que nem sempre traz à superfície o melhor de nós, e é preciso respirar fundo. Em suma, ler este livro trouxe-me algum consolo, por perceber que "pode acontecer a qualquer um de nós e são riscos que temos de correr".

 

Por outro lado, também sei de histórias fantásticas de quem se conheceu online e o livro conta outras tantas, que se apanharam nos grupos de indivíduos estudados pelos autores ou no trabalho doutros investigadores. Nem tudo é mau, nem tudo é bom, num catálogo tão vasto de possibilidades. O mesmo aconteceria, numa escala diferente, ao conhecer alguém pessoalmente desde o início. 

 

No entanto, os autores deixam claro: a chave para as coisas correrem bem é não nos esquecermos que, apesar de as pessoas com quem falamos por mensagens serem quase irreais até ao momento em que as vemos, todos continuamos a ser humanos do outro lado do ecrã. Temos sentimentos, preocupações, traumas, receios, experiências de vida únicas. Assim, devemos tentar ser tão decentes quanto possível, tal como seríamos se essas pessoas estivessem à nossa frente. E não nos devemos esquecer: as ferramentas online levam-nos a contactá-las, mas não substituem a parte do dating em si, conhecê-las ao vivo e a cores.

Aqui seguem alguns excertos que achei muito sucintos:

 

IMG_25610807_175026.jpg

IMG_25610808_155058.jpg

IMG_25610815_121249.JPG

IMG_25610812_151511.jpg

IMG_25610812_152453.jpg

IMG_25610815_122653.JPG

 

Dito isto, adorei o livro Modern Romance. Apresenta um bom equilíbrio entre livro de ciência popular (quem gosta de antropologia, sociologia e psicologia como eu vai gostar desta leitura) e entretenimento. Tem apontamentos fora do comum, nomeadamente acerca da vida sexual dos japoneses, e os autores dão alguns testemunhos pessoais e dicas de como comunicar de forma mais eficiente. São estudados ainda outros temas, como a infidelidade e o fim das relações na era das mensagens instantâneas, as diferenças culturais no namoro à volta do mundo, o sexting e as redes sociais. Por vezes, há piadas desnecessárias, mas faz parte.

 

Excelente tentativa de desmistificar um assunto do qual tanta gente ri, mas que ainda nem toda a gente compreende!

Ler mais autores portugueses e lusófonos tem sido o meu objectivo literário para 2018

Há muitas pessoas que não conseguem viver sem filmes, outras que não passam sem séries, ou que sentem necessidade de ir ao ginásio todos os dias. Eu preciso de ler, se não todos os dias, muito regularmente. Por isso, tenho tentado ler em maior quantidade e qualidade, porque sei que me faz sentir melhor e mais feliz. Neste caso, decidi investir em ler mais autores portugueses e lusófonos como objectivo literário para 2018.

 

 

IMG_25610806_151215.JPG

 (O meu desafio anual no Goodreads até agora.)

 

Ler mais autores portugueses e lusófonos tem sido o meu objectivo literário para 2018 por várias razões.

 

Em primeiro lugar, acho que apoiar o que é nacional é uma mais-valia. Não entrando em sentimentos nacionalistas nem "o que é nacional é que é bom", acredito que nos fica bem valorizar o que é feito por portugueses e em língua portuguesa, porque é muito fácil entusiasmarmo-nos mais com o que vem do estrangeiro e tendemos a esquecer-nos das nossas origens e um pouco da nossa identidade. Consumimos imensa cultura inglesa e americana, por exemplo, nem que seja por serem tão "vendidas" pelos meios de comunicação. É-lhes dada imensa visibilidade, o que nem sempre acontece em semelhante proporção quando se trata de criações ou produtos portugueses.

 

Este é o meu caso. Estudei literatura inglesa e americana, tive professores ingleses e americanos, cresci a ver séries da Fox e do AXN (e reality shows do TLC), a ver os Simpsons e comédias românticas de Hollywood, a ler Harry Potter e Crónicas de Nárnia, falo inglês todo o dia, todos os dias, há mais de dois anos, por causa do meu trabalho, refugio-me nessa língua que já considero um pouco minha... por isso sei o quão fácil (e cómodo) é pegar num paperback em inglês (que, ainda por cima, é mais barato) em vez de investir num autor português publicado em capa dura. A certa altura, até os temas são mais familiares. 

 

Por outro lado, eu quero lembrar-me e estar em contacto com todas as minhas tais "identidades" ou "origens". Quero saber tanto quanto possível sobre um povo e sobre o outro (e outro, e outro, e outro). Esse é outro motivo pelo qual quero ler mais autores portugueses. Quando os leio, também me sinto em casa, a beber da nossa língua, pessoas, culturas e mentalidades. É a língua portuguesa que me fascina, até mais do que a inglesa, ou a francesa e a espanhola. Para mim, é um desafio, ainda por cima por achar que os nossos escritores adoptam frequentemente um tom muito nostálgico, triste e insatisfeito através da sua escrita (sei que pode ser cultural, mas...). Assim, tenho tentado encontrar autores que contrariem ou equilibrem essa tendência. Também quero ler sobre gente feliz.

 

Finalmente, leio imenso porque quero aprender a escrever com quem percebe do assunto. Só grandes leitores podem dar, no mínimo, escritores medíocres. Respeito quem o faz bem e sei que têm muito a ensinar-me. O que escreveram os clássicos? O que escreveram autores X e Y? O que andam a escrever os contemporâneos? O que os torna não interessantes? O que os faz ganhar prémios? O que os faz serem tão aclamados pela crítica e pelo próprio público?

 

Até agora, em 2018 ainda só li cerca de oito livros escritos em língua portuguesa. No entanto, tenho feito um esforço por comprar mais e interessar-me pela literatura nacional e lusófona recente e das últimas décadas, tentanto intercalar um livro em português a cada leitura noutra língua (inglês, quase sempre). O mais difícil é explorar novos temas, a que a literatura estrangeira não me habituou. Mas, cada passo a seu tempo, há que começar por algum lado.

 

Também aceito dicas e sugestões de quem esteja a tentar fazer o mesmo que eu, dando uma oportunidade aos autores de língua portuguesa! O que andam a ler? Ou quem? E como são os vossos hábitos de leitura?

O livro que todos precisam de ler nas férias: 'Crónica dos Bons Malandros'

IMG_25610721_203046.jpg

 

Caros todos, precisam urgentemente de levar a Crónica dos Bons Malandros, do escritor Mário Zambujal, nas vossas malas das férias! Não interessa se vão para o campo, para a praia, para uma metrópole gigante ou para a santa terrinha, toda a gente precisa de ter um livro para ir folheando antes de ir para a cama, à beira da piscina, nas filas do aeroporto, nos tempos mortos, enquanto as crianças dormem a sesta...

 

Eis os meus motivos para tão efusiva demonstração de apreço pela Crónica dos Bons Malandros.

 

Raramente consigo encontrar livros escritos por autores portugueses ou lusófonos que me façam sorrir, e muito menos rir - isto é, sorrio porque até leio alguns livros muito bons, mas todas as histórias são muito dramáticas, para não dizer trágicas, são de levar uma pessoa à depressão literária. Este ano, já li imensos assim, e finalmente encontrei um livro que me enche as medidas anti-tudo o que me faça ter pensamentos negativos, ainda que sobre realidades completamente ficcionais. Estas Crónicas são O TAL.

 

Não vos quero estragar a experiência com resumos desnecessários, até porque o título diz tudo: esta é a história dum grupo de bons malandros. Como são eles malandros ou quais os seus papéis nestas Crónicas... Deixo-vos a tarefa de o descobrirem.

 

Só para perceberem bem o quanto gostei de as ler, é quase meia-noite, acabei a leitura há cerca duma hora, depois de duas horas e meia intensivas a devorá-lo, com uma única pausa para jantar, e não consigo ir para a cama sem partilhar convosco este grande achado. Têm sido raros os livros que me criam esta reacção, incredulidade, euforia, uma paz imensa por ter lido algo simples, mas genial, em bom português correcto e muito vernacular, que é simultaneamente capaz de fazer o cérebro exercitar-se enquanto relaxa.

 

Não, não descobri a pólvora, o livro tem quase quarenta anos, foi publicado pela primeira vez em 1980, leva-me quinze anos de avanço neste mundo, mas provavelmente muitas pessoas, tal como eu até ao dia de hoje, ainda não ouviram falar dele ou não tiveram oportunidade de lhe pegar.

 

Se o meu entusiasmo não vos convence por si só, aqui vão dois excertos da Crónica dos Bons Malandros que de certeza conquistarão a vossa atenção:

 

IMG_20180721_231905_913.jpg

IMG_20180721_231907_791.jpg

 

Não posso recomendar demasiadas vezes que levem este livro nas vossas malas das férias. É levezinho (eu tenho uma edição antiga que nem duzentas gramas deve pesar), fininho, enfia-se num saco qualquer, não estorva, tem letra grande, lê-se num par de horas, não é difícil manter o ritmo, os capítulos são de dimensão pequena a razoável, tem diálogos, tem discurso asneirento, tem praguejares tradicionais, é desbragado, pobre em filtros, tem amor e desamor, conflito, palavras raras. Vão por mim e dêem-lhe uma chance!

Terceira semana a tentar escrever um livro, e ainda não abandonei o barco

IMG_25610721_155130.jpg

 

Estou há quase três semanas a tentar escrever um livro, ou o que se possa tornar um, de volta do mesmo projecto, um recorde pessoal que não quero agoirar de forma alguma, mas que, contra todas as probabilidades e hábitos prévios, tenho conseguido levar a bom porto. São só nove páginas no Word, mas fui eu que as escrevi, de forma cuidada, e não simplesmente a pensar "aqui vai disto". Tem pés e cabeça e estou a tentar tranformá-las, um dia de cada vez, no livro que eu gostaria de ler. 

 

Mas tentar escrever um livro custa, como quase tudo o que é bom de alcançar na vida. Esta semana, em particular, cheguei à parte em que, depois de brevemente apresentada a premissa inicial, tenho de começar a dar dimensão às personagens. Já não podem ser só indivíduo X e indivíduo Y, têm de ser pessoas credíveis. Se as encontrássemos na rua e elas nos contassem a sua vida, poderíamos acreditar no que nos contariam acerca da sua família, dos seus amigos e do seu passado. Poderíamos visitá-las no seu local de trabalho e observar as suas rotinas diárias. Poderíamos convidá-las para jantar e notar que X poria a faca entre os dentes do garfo para cortar o bife antes de o molhar na gema do ovo e que Y seria vegetariana por razões médicas, mas não recusaria o paté de sardinha das entradas.

 

Todos os dias, antes de abrir o documento e retomar a releitura ou a escrita, sofro duma fobia que me aterroriza constantemente: e se hoje for o dia em que eu perco o interesse nesta história? Ando nisto há dezassete dias, passeio o computador para todo o lado (costas sofrem), ou seja, tive que enfrentar pelo menos umas dez ou doze oportunidades de insucesso e dissatisfação (houve dias em que nem consegui ligar o computador, preferi ficar a pensar na história sem lhe acrescentar nada). Conheço tão bem essa sensação, a sensação de que ainda não vai ser dessa vez que levo um projecto a bom porto, que há mil e uma desculpas pelas quais o terei de abandonar, ora porque a escrita revela imaturidade, ora porque as personagens são aborrecidas, ora porque o enredo há-de chegar a uma estrada sem retorno, ora porque já centenas de autores que admiro já criaram coisas tão boas, e o que poderia eu trazer ao mundo que se comparasse minimamente, merecedor da sua própria existência...? É toda uma logística mental que me vejo obrigada a equilibrar, antes de entrar em paranóia e deitar tudo a perder, três (quatro, cinco,. .. cem) semanas de luta e conquista pessoal sem resultado.

 

Ainda por cima, ando a tentar escrever um livro ao mesmo tempo que outro texto, para submeter a um concurso em Agosto, cujo tema e rumo tem de ser totalmente diferente e cuja finalidade é mais palpável (um prémio monetário muito atraente, diga-se de passagem). Dito isto, há que ser perseverante. Lutar contra os bloqueios e as desculpas. Pássaro por pássaro, palavra por palavra, página por página. É fácil desistir quando não estabelecemos metas, mas tenho tentado ver a escrita como o meu novo emprego a part-time. Quando não estou a dar aulas, estou a escrever, ou a pensar no que escrever. A minha meta é levar esta empreitada com tanta seriedade quanto for humanamente possível. A criatividade também deve ser disciplinada e treinada, como outras ferramentas de trabalho. Tive sorte, inspiração e pouca auto-censura há uma década e foi assim que comecei, mas agora vejo-me a braços com a necessidade de fazer mais e melhor, tal como fiz quando o copywriting me pagou a licenciatura - escrita disciplinada, com método e um fim prático à vista. Eu até posso não escrever um livro brilhante aos 23 anos, mas, se o terminar, isso significará que serei capaz de o fazer mais vezes, com mais experiência, prática e - muito importante - fé e confiança.

 

Já agora, obrigada a quem deixou dicas no último texto que partilhei sobre o tema! Todas elas são óptimas e, se tiverem mais, avancem e partilhem-nas! 

Ainda Alain de Botton e o amor: como 'The Course of Love' também me conquistou

IMG_25610717_170931.jpg

 

Depois do livro Essays in Love (em português, Ensaios de Amor), de Alain de Botton, li o outro que tinha comprado ao mesmo tempo quando estive na Escócia, que se chama The Course of Love (ou O Curso do Amor). Parece mais do mesmo, chover no molhado, mas não. Os ensaios foram o primeiro livro escrito pelo autor - aos 21 anos. Por outro lado, o segundo título é o seu romance mais recente. 

 

Mas vamos lá ver o que mais me agradou nesta leitura, de forma breve e sucinta.

 

Não deixando totalmente de parte a minha adoração pela pirosice que o amor pode trazer quando vivido em pleno, acho que inevitavelmente me tenho tornado um bocado mais céptica e cautelosa no que toca a este tópico tão sensível. Já dizia o ditado popular que gato escaldado... Além disso, deixei de me convencer com histórias de amor medíocres, cópia a papel químico das anteriores, boy meets girl, e depois já se sabe como todo o enredo se desenvolve - após um conflito lá pelo meio, acabam felizes para sempre, mas de forma muito irreal (a sério que nem uma discussão acerca de quem vai levar o lixo...?). Assumo-me uma enorme fã, por exemplo, da reflexão da voz narrativa acerca das complexidades humanas. É principalmente isto que mais me tem fascinado nos livros de Alain de Botton.

 

IMG_25610712_084744.jpg

 

Assim sendo, este é o segundo livro escrito pelo mesmo autor, sobre a mesma questão do amor como ele é na vida real, para pessoas reais, que me conquistou - uma lufada de ar fresco. Desta vez, no lugar do amor na idade jovem, pouco maduro, que termina numa separação efusiva, The Course of Love leva-nos a conhecer quase duas décadas vividas em conjunto pelos protagonistas (Rabih e Kirsten), desde o dia em que se conhecem, até ao momento em que, ao fim de tantos-tantos-tantos anos de casados, atingem uma dita maturidade e se começam realmente a compreender e a aceitar que o amor é mais do que uma emoção forte e que pode ser, por exemplo, os mundos que construíram em conjunto, o companheirismo, a família, os pequenos pedaços de vida diária, as memórias partilhadas.

 

Mais uma vez, este é, não só um romance, não só uma história de amor "baseada na vida real", como também uma espécie de ensaio filosófico e ainda uma exposição sobre temas ligados à psicologia. Muito destaque é conferido à dimensão interior, aos pensamentos, recalques, passado traumatizante das duas personagens principais e à forma como a relação com as respectivas figuras parentais afecta o seu comportamento na sua relação adulta, enquanto namorado e namorada, marido e mulher.

 

IMG_25610717_150258.jpg

 

Finalmente, tenho alguns comentários adicionais que gostaria de partilhar convosco.

 

Em primeiro lugar, acho que vou passar a oferecer este livro a todos os noivos para cujo casamento eu seja convidada. Aliás, tenho uma amiga que se vai casar no fim do ano e que vai ser a minha cobaia (nem que seja porque ela já manifestou vontade de ler este livro, quando publiquei uma passagem no Instagram). Ficam servidos com uma belíssima história de amor real e munidos de algumas reflexões que toda a gente deve ter em mente quando decide embarcar num compromisso sério ou mesmo para a vida

 

Em segundo lugar, tenho de recomendar este livro não só aos recém ou brevemente casados, como ainda com igual urgência a qualquer pessoa que precise de reflectir no que significa apaixonarmo-nos, aproximarmo-nos e levarmos uma relação amorosa a bom porto.

 

É uma leitura leve, descontraída (não obriga a um esforço mental desmesurado), mas após a qual não sentimos ter desperdiçado o nosso tempo. Alain de Botton é tudo em um: escritor, filósofo, psicólogo, sociólogo, amigo.

Pensamentos sobre tentar escrever um livro (outra vez), auto-censura e outras inquietações

pexels-photo-733854.jpeg

 

Ando a tentar escrever um livro há anos. Há cerca duma década (portanto, quando era um bebé), ganhei alguns prémios literários revelação a nível nacional, no secundário ganhei outros do município onde estudei, cheguei a escrever um ou dois livros pequenos e muito maus, e, depois disso, parece que fui amaldiçoada por uma praga que me impede de prosseguir além da terceira ou quarta página de seja o que for que tente criar, por muito boa que a premissa inicial seja.

 

Eu sei o nome dessa praga. Aliás, foram várias. Foram as ilusões e desilusões da adolescência. Foi a adaptação à escola pública. A descoberta de autores que eu pensava - e penso - nunca ser capaz de superar. Foram os exames nacionais. A entrada na universidade. Conjugar estudos e trabalho. Viagens, intercâmbios. Foi o fim da licenciatura e o processo de "adultização". Foi o trabalho e os estudos simultâneos outra vez. Foi o meu regresso e as respectivas desventuras. Foi a permanente auto-censura de achar que nunca sou capaz de escrever nada de jeito, ou que não tenho experiência de vida que me credibilize.

 

Mas, na verdade... Sabem o que foi? Sabem o que talvez ainda seja? Falta de concentração. Falta de compromisso. Muitas e variadas desculpas. Socorrer-me da alegria e da tristeza para justificar a minha falta de acção. Ora estou tão feliz que nem tenho tempo para escrever, porque uma pessoa feliz não é tão criativa. Ora estou tão infeliz que não arranjo paciência para pensar nos meus dramas, quanto mais nos das personagens.

 

Entretanto, esgotei as desculpas. Tenho trabalhado muito menos do que alguma vez trabalhei nos últimos cinco anos da minha vida. Ando num período em que não me sinto arrasada por nenhum sentimento positivo ou negativo que me permitam desleixar e entrar num novo ciclo de "não tenho cabeça para escrever".

 

No início da semana passada, recomecei a escrever. Uma coisa é escrever um texto para o blogue, que me costuma levar duas ou três horas a escrever, na loucura, e em que só me preocupo com as minhas inquietações. O registo é informal, é só uma espécie de monólogo. O formato é simples, o enredo vai-se desenvolvendo sem eu ter de puxar pela cabeça, a trama é muitas vezes desinteressante e, em geral, não estou preocupada se vou suscitar vozes críticas ou não.

 

Então, comecei a escrever uma coisa qualquer que tem de ter qualidade literária, gerar interesse e ter o potencial de criar reacções nos outros, de ser relevante para mais alguém além de mim. Quer dizer, não sou do tipo de pessoa que escreve para ficar na gaveta. Ah, e também tenho de o fazer de modo a não olhar para o texto, franzir o sobrolho e pensar, de novo, "mas que grande porcaria, ainda não vai ser desta".

 

Escrever um livro, ou essa coisa qualquer (que não tem outro nome) assim é difícil, porque é um compromisso a longo prazo. Não se escrevem dez páginas num dia. Ontem, por exemplo, escrevi um parágrafo. Noutros dias, se calhar vou só reler e rever. Ou pensar. Vou ter de aguentar esta história que tenho na cabeça por meses. Ou pior, anos. Vou ter de arranjar uma lógica para o que quero contar. Quem são os protagonistas... ainda nem sei bem. Tenho de conhecer essa gente toda. Tenho de lhes dar um propósito na vida e um motivo para existirem na minha cabeça.

 

Quando começo a escrever, sei o que quero contar, mas não como o fazer. Por vezes, só quero que essa narrativa passe a existir, à custa de duas cenas que imaginei e que tenho de encaixar algures. Isto quer dizer que ando a tentar escrever pelo menos uma centena de páginas, somente porque ando a idealizar umas quatro. Não faz sentido, mas sinto-me no dever de as pôr na ordem.

 

Outro factor de censura quanto a escrever um livro é ter medo que alguém que faça parte da minha vida real se reveja nem que seja numa borbulha duma personagem e me venha pedir satisfações. "Olha lá, isto não sou eu?" Já aconteceu e a ideia teve de ficar na gaveta. Neste momento, estou a tentar adoptar uma posição mais neutra, mas também mais discreta. Obviamente, é impossível não incluir detalhes, características ou manias de pessoas que eu conheço (nem que seja alguém que eu tenha visto ou ouvido no comboio, o que também já aconteceu), por isso faço questão de entrar em enormes afazeres mentais para camuflar e misturar tudo o que possa. Se não conseguir fazê-lo por algum motivo, tenciono comunicá-lo a quem o tiver de fazer, se essa altura chegar (afinal, o que escrevo até pode nunca chegar a ver a luz do dia).

 

Deixei-me de censuras e auto-censuras, ando mais num "logo se vê", excepto no que toca a escrever com regularidade e disciplina. Por outro lado, há que ver esta tentativa como um passatempo mesclado de ambição pessoal. Sem pressão... Bem, só  bocadinho. Desde que li o Bird by Bird da Anne Lamott que meti na cabeça que "pássaro a pássaro" é a melhor estratégia. Vamos ver se também funciona comigo. Quão difícil pode ser escrever um livro? Muito. Mas ninguém gosta mais de desafios do que eu. 

 

(Se não for desta, têm permissão para me azucrinar a cabeça.)

Acabei de ler "Call Me By Your Name": sobre o amor, migalhas de pão e basílicas

Atenção: possíveis spoilers de importância secundária são partilhados no texto que se segue.

 

IMG_25610621_091708.jpg

 

Tenho andado a ler alguns livros alegadamente lamechas, com histórias de amor dentro. Por exemplo, acabei de ler Call Me By Your Name, do autor André Aciman. Já tinha visto o filme há cerca de meio ano e desde então que me andava a perguntar quando teria estômago para aguentar o livro - porque, a ser como o filme, deixar-me-ia emocionalmente de rastos. Um filme vê-se em duas horas; um livro lê-se durante muitos dias.

Não me enganei. Esta história, com mais ou menos detalhes, contada por que meio for, exige alguma preparação mental. Ainda bem que só o li agora, principalmente depois de já me ter aventurado pelo aquecimento que foi Essays in Love. Não aconselho histórias destas a quem se ande a sentir mais em baixo, que esteja a passar por alguma fase pessoal menos positiva. Histórias como a das personagens Elio e Oliver fazem chorar até as pedras da calçada. Metem-nos uma nuvem cheia de chuva por cima (e não adianta pensar que é só uma história; quem realmente consegue entrar nos enredos acaba por se envolver e ser engolido pela narrativa).

 

No entanto, não sendo uma história de amor particularmente feliz, é uma história de amor que nos traz alguma satisfação. É uma história de amor entre dois rapazes, mas acho que todos os que já estiveram apaixonados se conseguem rever no que foi escrito por Aciman. Uma vez que a história é contada do ponto de vista de Elio, são partilhados pensamentos únicos e bastante exactos (digo eu, pela minha experiência nesse domínio) acerca do que significa apaixonarmo-nos por alguém sem saber se essa atracção é recíproca. A incerteza, os olhares desencontrados, os mal-entendidos... Está tudo neste livro.

 

Há uma metáfora que me tocou particularmente cá no fundinho. Foi a metáfora das migalhas de pão. Quando nos apaixonamos, esquecemo-nos muitas vezes de lançar migalhas de pão pelo caminho, como fizeram Hansel e Gretel, como gostaria Elio de ter feito, para sabermos como voltar atrás e qual o caminho anteriormente tomado, quando se torna necessário retroceder após o fim de um grande amor. (Além da metáfora do autor, eu até diria que nem interessa tentar marcar o caminho com migalhas de pão, já que há sempre pássaros que as comem mal viramos costas.) Gostaria ainda de deixar uma nota especial acerca doutra metáfora: tal como a Basílica de São Clemente (em Roma), também o subconsciente, o amor, as memórias, o tempo e as pessoas são construídas camada por cima de camadas, todas anacrónicas, mas que nos permitem ou obrigam a escavar para descobrir a sua história. Metáforas tão simples, mas que nos enchem a alma. Senti que, assim o autor consegue exprimir o que eu nem sempre consegui.

 

Mudando de ambiente, este não é um livro para cépticos no amor, mas também não é um livro para púdicos. Apesar de as cenas de sexo não serem explicitamente descritas, muitos dos pensamentos da personagem Elio contêm ideias... mais engraçadas, carnais. Quem ler irá perceber - já para não falar da existência óbvia duma relação homossexual, quase platónica, mas muito física, tanto quanto emocional.

 

Por outro lado, depois de muito reflectir, decidi que este não é o melhor livro de sempre, porque senti que encheu chouriços quase nas últimas páginas. Custou-me bastante lê-las, demorei imenso tempo. Eram difíceis de perceber, confusas, mas não essenciais para um desfecho brilhante. As últimas páginas, sobre o reencontro dos protagonistas, também poderia não ter acontecido, como no filme. Nisso, acho que o filme foi concebido de forma mais eficiente e até bonita.

 

Desta forma, concluo que, para mim, o tema central deste livro é o amor e a paixão, que primeiro correm o risco de não ser correspondidos, depois são consumados, mas nunca de forma plena, sendo finalmente interrompidos pelas circunstâncias da vida.

 

Para ler:
... enquanto se ouve Ludovico Einaudi ou Andrea Bocelli.
... quando se sente que há leveza de espírito para recuperar da carga emocional desta narrativa.
... se se acreditar no amor - e em histórias de amor épicas, marcantes.
... antes ou depois de ver o filme, que é das primeiras adaptações ao cinema que acho que valem por si, independentemente do livro em que se baseia. Tanto faz.

 

Deixo-vos agora a oportunidade de partilharem os vossos pensamentos nos comentários. Já metade da comunidade do Goodreads leu este livro, mas digam lá de vossa justiça neste blogue, digam-me que impressão vos causou esta história.

 

A Carolina leu Call Me By Your Name ao mesmo tempo que eu e já deixou a opinião dela também. Apesar de por vezes lermos géneros diferentes, hão-de reparar que até mencionamos e destacamos aspectos semelhantes acerca deste. Leiam também o que ela acabou de publicar! 

O meu novo livro preferido: Essays in Love, de Alain de Botton

Alguma vez se depararam com um livro que tenha surgido no momento certo, mas por mero acaso? Fazia-vos falta um livro assim, vocês pensavam que seria impossível alguém contar uma história que vos fizesse sentir menos desamparados ou sozinhos no vosso mundo, na vossa causa, e esse mesmo livre caiu de pára-quedas nos vossos dias?

 

IMG_25610618_160736.jpg

 

Eu sei o que isso é. Passei tantos meses à procura dum livro que tivesse tudo na medida certa - introspecção, filosofia, reflexão, carisma, mas que viesse justificar e validar as minhas ideias, sem deixar de ter uma dose de lamechice, sem ser só teoria, acrescentando um enredo que servisse de exemplo às minhas inquietações actuais - e, depois de muitas visitas, a muitas livrarias, em Portugal e na Escócia, encontrei este, um exemplar único, sem destaque, enfiado numa estante a abarrotar duma Waterstones em Glasgow: Essays in Love, do autor multifacetado Alain de Botton.

 

O meu maior problema com os livros sobre a temática "amor" é que considero quase todos um desperdício de tempo, sou incapaz de ler tamanha treta, nunca os levo a sério, têm sempre imenso mel, ou drama, ou futilidade em doses que sou incapaz de digerir. A vida é pirosa, mas não tanto. A vida não é um romance de cordel, mesmo com a sua inevitável banalidade e aleatoriedade.

 

Então, ao encontrar este livro, senti que o autor conseguiu incluir quase todas as posições sobre o amor e relações em que acredito, ou pelas quais já passei. O início da história de amor dos dois protagonistas é um pouco irracional, mas o resto da narrativa faz todo o sentido.

 

Além disso, este livro não é só um romance. Não é só um livro de histórias. Como escreveu o autor, em 2015, num posfácio incluído na edição que tenho, o seu objectivo era ficar a meio, entre um romance e um ensaio sobre o que é o amor entre duas pessoas, como ele surge, acontece e - eventualmente - termina. E recomeça, acreditem ou não.

 

Senti, pela primeira vez na vida, que este é o livro que eu gostaria de ter escrito ou de vir a escrever. Sem tirar nem pôr. Não é "um livro deste género", é "precisamente este livro". Nele, o amor não é idealizado. É narrado um amor, num contexto próximo ao meu (protagonistas jovens em início de carreira, classe média, numa cidade europeia). Consigo identificar-me e encontrar aspectos em comum. É também para isto que serve a arte, para nos representar, e eu fiquei a sentir-me representada. A cada página, eu só pensava "mas isto já me aconteceu!" ou "isto poderia ter-me acontecido!".

 

Sim, este livro conta uma história de amor e desamor, mas fá-lo duma forma pensada, que nos obriga a usar o cérebro. Não é o típico "boy meets girl" dos best-sellers de supermercado. Senti que o Essays in Love me desafiou enquanto leitora, pôs-me a reflectir nas minhas experiências, conferiu ao assunto mais batido, piroso e repetitivo do mundo uma aura de intelectualidade, de assunto académico, didático, de relevância. Deixou de parte a superficialidade das relações, das borboletas na barriga e do vazio a que nos entregamos quando acabam. Fez com que tudo isso se tornasse um assunto de adultos, respeitável. 

 

E sabem da melhor? O autor, Alain de Botton, escreveu este livro no verão dos seus vinte e um anos. 21. Como é possível que tanta sabedoria, ou tacto, tenha saído da cabeça e das mãos dum indivíduo tão jovem? O que é que a maioria de todos nós já tinha feito aos 21 anos? Olhem, eu tinha-me licenciado, tinha ido estagiar para Banguecoque e pouco mais, mas não, não tinha escrito o livro que inauguraria uma carreira brilhante e demonstraria todo o potencial da minha mente. Fica prometido que irei, com toda a certeza, ler mais livros do Alain De Botton, nem que seja o que comprei em simultâneo ao Essays in Love, que se chama The Course of Love (mais lamechice pseudo-intelectual, previsivelmente).

 

IMG_25610618_160947.jpg

 

 

E por aí, alguma sugestão de bons livros que me queiram deixar? Não tem de ser sobre este assunto, claramente, por isso estejam à vontade! Agora, ando também a ler Sapiens, De Animais a Deuses, e estou a gostar bastante. Encontrem-me no Goodreads e vamos falando. 

O resto dos primeiros dias

Já aqui escrevi que há sempre um primeiro dia em tudo, nomeadamente no que toca ao fim duma era, ao fim duma relação, ao fim dum amor. Por acaso, eu lembro-me mais ou menos desse dia que decidi tornar o meu primeiro, mas apenas porque conduziu a uma série de eventos que é possível localizar no tempo com precisão.

 

No entanto, cada vez mais me apercebo de que essa série de eventos constitui, sim, essa série de primeiros dias que tenho experimentado. Há um primeiro dia para quase tudo.

 

Estou a acabar de ler um livro (sobre o qual vos irei escrever, com toda a certeza) que me tem feito pensar no percurso que um amor calca, desde que deitamos os olhos em alguém interessante pela primeira vez, passando por uma relação épica, até que, por algum motivo, pela combinação duma infinidade de circunstâncias, cada um segue o seu caminho. Nesse livro, também se fala dos tais "primeiros dias", o que me tocou bastante.

 

IMG_25610617_225050.jpg

Essays in Love, Alain de Botton

 

Tocou-me, porque, pela primeira vez, li nas palavras de alguém, tão longe geográfica e temporalmente (o autor é suíço, residente em Londres, e o livro foi escrito antes de eu nascer) o que eu já defendia e que sinto que as pessoas que me rodeiam não compreendem: os primeiros dias são feitos do esforço para criar novas memórias e hábitos. Como numa cassete, gravam-se novas cenas por cima das antigas. Aquele restaurante onde só íamos com X? Há que voltar lá com outras pessoas, talvez os nossos amigos mais queridos, que deixarão uma marca eficiente nas nossas novas memórias. O sofá lá de casa, onde tantas vezes nos aninhávamos? É passar lá mais tempo a realizar um projecto pessoal significante, como ler o nosso novo livro favorito ou mesmo a escrever um - senão, convidar outra vez os amigos para lanchar e para maratonas de filmes. O local A, B, C? Fazer o mesmo, escrever memórias por cima, partilhar esses espaços com outras pessoas e em contextos renovados. O objectivo? Deixar de associar tudo o que possamos encontrar na nossa vida diária, necessariamente, à mesma pessoa, ao mesmo conjunto de emoções.

 

É assim, então, que encaro a criação de primeiros dias. São passos pequenos, quiçá minúsculos, em direcção a alguma paz, para que o coração não entre em sobressaltos constantes. Mal comparado, é como aquele dito popular, "a sarna dum cão cura-se com a sarna doutro". Não digo que precisemos dum "rebound" na forma doutra pessoa como alvo romântico, mas cada vez entendo com maior clareza que o "rebound" pode ter origem em várias pessoas, vários locais, várias razões, várias actividades. O dito "rebound" é multilateral. Não é a sarna dum só cão, é a sarna de vários cães, gatos, periquitos, lebres, roedores, até de tartarugas e peixinhos de aquário. É a minha avó sentada na minha cama até eu conseguir adormecer quando mais me custava, são os meus amigos a dizer-me para eu ter vergonha na cara cada vez que ameaço lamentos por mais de cinco minutos, é uma ou outra nova amizade ou as que se aprofundam, é a viagem à Escócia, é o meu trabalho, são os livros novos que compro e leio, novas músicas, séries e filmes, é a minha festa de aniversário, é a tarde de ontem sozinha na praia, são os almoços-surpresa com o meu pai, as conversas com a minha tia, é a minha sobrinha pequenina que me vê tão poucas vezes mas que parece já ter consciência de quem sou, é este blogue, é o ginásio, são os cursos livres que tirei, o mestrado que aí vem...

 

E, assim, vou coleccionando não só primeiros, como também segundos, terceiros e quartos dias. E por aí fora.

Fui à Feira do Livro 2018 e comprei... um livro (e uma fartura!)

IMG_25610612_210520.jpg

 

Lembram-se de 2014? Conseguem ver as diferenças em relação a 2018? 😂Nesse ano, em duas ou três idas à Feira do Livro de Lisboa, devo ter comprado mais de quinze livros. Em 2015, a última FLL a que fui, também não devo ter comprado tantos. Em 2018 - ontem - comprei um. A que se deve esta redução? Talvez já não ande a comprar livros às dúzias só porque sim. Prefiro comprar em qualidade do que em quantidade. Já não compro livros só porque custam 3€ e têm mais de 3,70 estrelas no Goodreads, compro porque os quero mesmo e me interesso pelo que lá espero encontrar. Além disso, já ultrapassei todos os orçamentos quando estive na Escócia e gastei £40 em paperbacks, pelo que também não me falta material de leitura para as próximas semanas. 

No entanto, estou contente com o livro que comprei, A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar, do Ricardo Araújo Pereira. Ainda tive 3€ de desconto em comparação ao PVP normal. Até agora (já vou a meio), ainda não desiludiu. Já o queria desde que soube que ia ser lançado. Aliás, eu só não vou a correr tirar a pós-graduação em Artes da Escrita, da FCSH, onde ele dá aulas (entre tantos outros escritores que admiro), por conflito de horários. 

 

Quanto à FLL... só tenho pena que o tempo - tal como os meus horários malucos de trabalho - não tenha cooperado muito este ano, para lá ter ido mais vezes, nem que fosse comer uma fartura. Fui ontem, comi ontem, já não foi mau. Agora, fica para o ano. Até 2019!