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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Comprar livros em Portugal, durante e após a pandemia

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Bom fim-de-semana, com uma nova crónica minha no P3 do Público - um apelo relacionado com os efeitos da crise recente nas indústrias dos livros em Portugal, mas também sobre o amor que tenho por eles. 📚

 

Deixo-vos um trecho:

"O medo é uma emoção muito comum nestes dias. No entanto, a sugestão que deixo é a seguinte: se tiverem condições para tal, aliviem parte desse medo com livros. Escolham livros que vos consolem, que vos façam companhia, que vos inspirem, que vos informem e (ou) que vos distraiam, que vos façam felizes."

 

Boas leituras! E boas compras!

Para que serviu esta quarentena?

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Dum ponto de vista apreciativo, devemos concentrar-nos no que corre bem, ao invés de analisarmos o que corre mal. Mesmo antes de estudar psicologia positiva, já me obrigava a valorizar forças, oportunidades e potencial, tanto as minhas quanto as das pessoas com quem convivo e trabalho, as dos meus alunos e as das situações diárias. Talvez por mania, talvez por ter sido criada por uma optimista incurável, talvez porque é uma das formas que me obriguei a adoptar na esperança de me safar de disposições e estados psicológicos mais adversos nos últimos anos.

 

Um ponto de vista apreciativo não nega o que correu mal. É, em vez disso, um exercício indutor de crescimento, construção e transformação positiva sempre que possível. E este é um texto escrito de barriga cheia, não me esquecendo do que tem acontecido de negativo no país e no mundo, não me esquecendo da gratidão por me encontrar sã e salva, assim como os meus, ainda que com algumas ressalvas a nível profissional/financeiro, não desvalorizando nada disso.

 

Assim sendo, proponho a seguinte reflexão: na vossa opinião, a partir da experiência pessoal de cada um, para que serviu esta quarentena?

 

Começo eu, pode ser...?

 

Desde o primeiro dia que passei em casa por causa da quarentena profilática, tentei ver o lado bom da situação. Ninguém da minha família ou amigos doente; a possibilidade de trabalhar a partir de casa; a actividade profissional que não se esgotou e que, em parte, de multiplicou; muitos livros por ler e encomendar.

 

No entanto, passei várias semanas num estado de confusão permanente. Em casa, como a maior parte dos portugueses, privada da confraternização diária com alunos e amigos, longe do meu namorado, preocupada com ele e com outras pessoas à minha volta que tiveram de continuar a sair para trabalhar. Vi-me presa às redes sociais, insaciável por pistas sobre o futuro, pistas essas que nunca conseguia encontrar; sem ideias para escrever fora do diário pessoal, sem concentração para ler, com frio e um medo disfarçado de mera ansiedade crónica agravada pela meteorologia adversa, enrodilhada em mantas para disfarçar o desconforto. Vivo numa zona ventosa, húmida e onde choveu ou não fez sol durante muitos dos primeiros dias da Primavera. Mas, ao menos, vivo no campo e pude fazer caminhadas quando a melhoria do tempo o permitia.

 

Saber um pouco da teoria do bem-estar e da felicidade não foi o suficiente, mas mal de mim se não a soubesse. Nem todos conhecemos o caminho para o bright side das nossas existências quotidianas, caminho esse especialmente ameaçado nas circunstâncias actuais, e ao menos eu tinha algumas linhas de orientação sobre como encontrar o caminho para o meu.

 

Escrever foi o primeiro passo, também por ser o mais óbvio. Tinha passado os últimos três ou quatro meses a estudar os seus benefícios na saúde mental e física, a ler todos os livros e artigos a que conseguia chegar acerca do assunto, além de ter eu mesma criado um workshop sobre diário positivo que coloquei em prática alguns dias depois do início do estado de emergência.

 

Ler, como já terei referido, não foi uma das actividades predilectas desde o início. Por muito que tentasse, faltava-me a atenção necessária à interpretação de ideias mais complexas do que um tweet, um meme ou, no máximo, um artigo de opinião. Felizmente, fui recuperando alguma em quantidades crescentes ao longo dos dias, motivada por opções de leitura cada vez mais variadas que foram chegando à minha morada.

 

Manter uma rotina de exercício físico não foi logo uma prioridade, por falha de julgamento minha, mas algumas semanas sem ele fizeram-me querê-lo de volta, por isso passei a caminhar sempre que possível e a marcar treinos semanais por chamada de vídeo, mesmo que os presenciais tenham sido suspensos por tempo indeterminado. Nem sempre cumpro com as minhas próprias expectativas, mas estou em modo "qualquer coisinha já é qualquer coisinha" (a foto que ilustra este texto foi tirada depois dum treino bem sucedido, Lord Ennui incluído).

 

Ainda enquanto consequência da falta de concentração, não fui capaz de aprender e apreender novo conhecimento como habitual, como quando tenho a cabeça no devido lugar, mas nunca ouvi tantos podcasts e explorei novos temas quanto agora. Fiz muitos "passeios com podcasts", as tais caminhadas frequentes em que só podia voltar para casa depois de ouvir um episódio com, no mínimo, 20 minutos de duração. Nas primeiras semanas do confinamento, também consegui terminar - a custo - um curso iniciado em Março, mas, encontrando-me em baixo de forma, só fui capaz de voltar a aprender facilmente nos últimos dias (muito entusiasmada com as aulas do Masterclass e o regresso das aulas da pós-graduação). Agora, estou a tentar avançar com outro curso livre, pouco a pouco.

 

Talvez ainda mais do que a parte intelectual das nossas vidas, a parte social importa muito. Claro que já estou farta de chamadas de vídeo, já que a minha actividade profissional passa por elas a 100%, mas tive de as adoptar nas horas de lazer com igual estoicismo. Continuar a organizar O Primeiro Capítulo foi imperativo, ligar a amigos várias vezes por semana, trabalhar acompanhada com alguém do outro lado da rede, e até sestas pelo Zoom já partilhei com o João. Não quero imaginar o que seria passar este período de confinamento sem a tecnologia de comunicação da qual dispomos actualmente...! 

 

Finalmente, a acompanhar o ritmo do desconfinamento e recuperando hábitos de escrita além do diário pessoal como pente que desembaraça ideias e emoções contraditórias, enviei um texto que andava a rascunhar há meses para um concurso literário, estou a preparar um novo texto para outro, voltei a escrever textos mais longos e tenho uma crónica para o P3 a aguardar publicação, assim como a candidatura a um mestrado para a qual tenho de apresentar um portfólio de escrita. Também me tenho forçado a sentar-me diariamente ao computador para ir criando qualquer coisa e a reservar tempo para o trabalho mais criativo, ao invés de esperar que as palavras caiam do céu para aterrarem na página em branco.

 

Não, não estou em forma. Longe disso. Têm sido semanas emocionalmente desafiantes e é normal falharmos, tentarmos, conseguirmos às vezes e noutras vezes não conseguirmos.

 

Contudo, se esta quarentena serviu para alguma coisa, para mim espero que tenha sido para me obrigar a parar, dar um passo atrás, fazer uma limpeza às prioridades e poder seleccionar o que é mais importante no tempo imediato, que se possa reflectir a longo prazo. Antes, eu não tinha chegado a estas conclusões, mas toda a disposição do desconfinamento neste fim de Primavera cheio de sol, da promessa optimista, mesmo que ilusória, tem-me permitido ser também eu mais optimista e apreciativa.

 

Desse lado, não se esqueçam de partilhar ou de apenas pensar, sem vergonhas ou censuras: para que serviu esta quarentena, afinal?

 

(Nem que tenha sido para procrastinar! )

Best of Procrastinar 2018-2020

Ora, bom dia! [Deve ser a primeira vez que inicio um texto desta forma; há uma primeira vez para tudo...]

 

Reconheço que não tenho sido uma companhia muito assídua, mas estes dias são uma amálgama de semanas, então tenho perdido a noção do tempo, assim como uma certa inspiração para escrever. Porém, acompanhando o fim do estado de emergência, conto recomeçar o hábito de publicar qualquer coisa uma vez por semana, seja sobre livros, filmes, séries, eventos ou aleatoriedades.

 

Entretanto, uma vez que as procrastinações estão quase a celebrar os seus 9 anos (em Junho), decidi organizar uma lista de "Best of Procrastinar" dos últimos 2, isto é, entre Março de 2018 e Abril de 2019. Assim, aqui fica o registo ou repositório das minhas 40 publicações preferidas, ordenadas da mais recente à mais antiga. Não vos convido a ler todas, que 40 textos são muita palavra, mas acredito que haja uma ou outra que tenham gostado de ler pela primeira vez e à qual vos apeteça voltar, ou que encontrem algum título desconhecido que vos interesse e assim conheçam um pouco mais do que existe lá para trás, no passado do blog. 

Sem mais demoras...

 

BEST OF PROCRASTINAR 2018-2020

 

  1. O tempo em conflito
  2. O amor e a loiça
  3. Quem é que escreveu o teu texto?
  4. Dá vontade de dizer "forever and ever"
  5. Procrastinar ainda é viver?
  6. São só fotografias
  7. A última romântica
  8. As férias
  9. Gosto tanto de viajar sozinha!
  10. Vistos, ouvidos e validados
  11. A nécessaire da pessoa com quem fui de férias
  12. As dores de um blog
  13. Emprestar livros: uma reflexão simpática
  14. Como concretizar todas as ideias que nos aterram na cabeça?
  15. Escrever, pôr tudo cá fora: Bullet Journal, journalling, to-do lists e outros estrangeirismos de caneta no papel
  16. Sobre quem conversa e quer conversar
  17. Não terminar livros
  18. Há um ano em Portugal
  19. Viver na ditadura da popularidade, criatividade, identidade única e algoritmos
  20. Ler e ser lido; escrever sobre quem escreveu
  21. Eu, Inês
  22. Sabe tão bem comprar um livro novo!
  23. Ser adulto é...
  24. Blogue, baú de memórias, caixinha de recordações
  25. Coisas boas atraem coisas boas, uma explicação científica
  26. 36 perguntas que levam ao amor - a minha experiência pessoal
  27. Vergonha alheia
  28. Modern Romance: como a Internet mudou as nossas relações e vidas amorosas
  29. Este não é um texto sobre estradas
  30. Ainda Alain de Botton e o amor: como 'The Course of Love' também me conquistou
  31. Pensamentos sobre tentar escrever um livro (outra vez), auto-censura e outras inquietações
  32. Há dias
  33. Estar, apenas
  34. O meu novo livro preferido: Essays in Love, de Alain de Botton
  35. Alguma vez estamos preparados para o próximo passo?
  36. As viagens também servem para arejar as ideias
  37. As pessoas não se sentam para beber café
  38. Sobre a felicidade dos outros
  39. Sobre flores (e copos, vá)
  40. Com o que se parece um desgosto?

 

Para mim, procurar o que escrevi nos últimos anos foi um exercício construtivo. A verdade é que serviu para reler alguns textos dos quais já não me lembrava, para perceber a evolução do que escrevo e para revisitar momentos ou pensamentos nos quais, muitas vezes, já nem me reconheço. A memória prega-nos partidas, já escrevia Julian Barnes em The Sense of an Ending, por isso escrever um blog vai atrasando o esquecimento ou, talvez, imortalizando aquilo que me pareceu relevante partilhar.

 

A quem passa por aqui, obrigada pelas procrastinações contínuas e por tornarem o acto da escrita menos solitário!

O tempo em conflito

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Foi da minha relação com o tempo, por vezes conflituosa, que nasceu este blog. Aliás, da minha relação conflituosa com o tempo nasceu tudo o que alguma vez fiz e conquistei, e também tudo aquilo contra o qual luto diariamente – a ansiedade, o pânico, a procrastinação, a impotência, a fraca eficiência, o forte perfeccionismo. A culpa. São muitos os nomes, mas dizem todos o mesmo.

 

Quando tinha 17 ou 18 anos, li um dos únicos livros que me fez pensar que essa minha relação cada vez mais conflituosa com o tempo poderia eventualmente conhecer a paz: How to Be Idle, de Tom Hodgkinson. Continua a ser, na minha cabeça, um dos livros de que mais gostei na vida, mesmo sem nunca ter arranjado coragem para o reler desde então. No entanto, continuo a seguir o trabalho do autor e tenho a certeza: pode haver tempo para tudo, há melhores filosofias sobre a gestão do tempo que eu tenho adoptado durante os meus primeiros anos de vida adulta, sem sequer me aperceber.

 

Sem sequer me aperceber, absorvi o que ensina esse modo de estar, o modo que não condena o prazer e o lazer. Há que fazer o máximo de trabalho, no mínimo de tempo, alcançando os melhores resultados. Não pretendo ser mais rica ou famosa, se isso significar que trabalho mais do que seis ou sete horas por dia, se isso me impede de continuar a estudar e de arranjar mil e um projectos paralelos que tanto me preenchem, se isso me impede de desfrutar duma vida familiar e duma vida social ricas. Não há margem para perfeccionismos, pais e mães de morais pouco generosas.

 

Por outro lado, é também dessa procura de equilíbrio constante que parte o resto do conflito. (A culpa, os hábitos enraizados, a moral partilhada, a sociedade…) Misturo, constante e inevitavelmente, trabalho e lazer. Chego a sentir-me obcecada pela gestão do tempo útil, ora pela produtividade, ora pelos resultados, ora por querer alcançar um El Dorado do nada fazer, essa sensação de despreocupação que raramente desce em mim. Canso-me imenso, desnecessariamente, a ligar e a desligar a ficha. Faz-me falta a fruição e o flow, esses estados de espírito de quem vive leve, mesmo que ocupado, imerso no mundo.

 

Procrastinar também é viver, porque sempre disse que procrastino umas tarefas com outras, umas obrigações com outras, uns passatempos com outros, mas, quase a bater os 25 anos, vejo-me forçada a repensar o significado dessa prática na minha vida neste momento. Já não sou adolescente, começo a ter cada vez mais deveres aos quais não posso fugir, e recuso-me a trabalhar por conta de outrém, pois dificilmente me desabituo ao trabalho por conta própria.

 

E é ao trabalhar por conta própria que ainda mais aprofundo aquele conflito sobre o qual vos contava, ainda que seja aí que também procuro uma solução mais activamente. Costumo brincar com a situação ao dizer “a minha chefe nunca me dá férias” ou “a minha chefe é que manda”, para expressar esta dualidade oscilatória entre sentir-me cheia de liberdade, porque nestas condições posso fazer o que me apetecer, e sentir-me muito responsável, demasiado responsável, pelas minhas finanças, pelo meu negócio, pelas minhas actividades. Sei bem que posso morrer tanto da cura, quanto poderia morrer da doença. Que ética de trabalho? Mas que ética para o resto da vida?

 

Por agora, concluo: está quase tudo relacionado com o vocabulário e a narrativa com os quais descrevo este conflito com o tempo: procrastinar também é viver, relembro. Procrastinar é aceitável, relembro. Viver concretiza-se, no meu contexto pessoal e específico, nas condições que melhor me parecerem.

 

Procrastinar também é viver. Serei a única com mantras aos quais tenho de voltar, uma e outra vez, para voltar a encontrar o meu lugar no mundo? A plasticidade das narrativas pessoais fascina-me (daí interessar-me tanto por psicologia e educação). A reinvenção do que nos define traz poder. Que histórias contamos sobre nós mesmos, a nós mesmos?, perguntam investigadores como James Pennebaker ou escritores como Will Storr. E como é que essas histórias nos descrevem uns aos outros?

 

A minha história confessa que, neste momento, batalha contra o tempo, mas simultaneamente com ele. Afinal, a ansiedade, o pânico, a procrastinação, a impotência, a fraca eficiência, o forte perfeccionismo… tudo isso não pode ocupar a totalidade do meu espectro de atenção disponível. O tempo em conflito pode dar tréguas.

 

(A fotografia deste post foi tirada perto da minha casa, a 18 de Abril de 2020, um dia de céu muito limpo, com a Serra da Arrábida a espreitar lá ao fundo. É em dias de céu limpo que pensamos melhor.)

Encomendar livros durante o estado de emergência: um dilema

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Hoje encomendei imensos livros dum site nacional, porque têm um dia de descontos e eu quis aproveitar para conseguir alguns livros que tenho vontade de ler/ter há muito tempo.


Sei que muitas pessoas têm o emprego em risco, empresas que não sabem o dia de amanhã, e sinto o assunto de forma aguda porque o meu pai trabalha na Sá da Costa (Lisboa) e tiveram de fechar ao público. As perdas vão ser mais que muitas. Na Sá da Costa, continuam a trabalhar em armazém, dizem que têm trabalho para dois meses, mas e depois...? Tenho medo que os serviços e indústrias ligados aos livros, que me são tão queridos, sejam irreversivelmente afectados e que, mesmo a meio gás, seja uma parte da economia a sucumbir (ainda por cima, sendo Portugal um mercado muito pequeno). Assim, ao fazer a encomenda, pensei "é uma empresa portuguesa, mandei vir livros da autores e editoras nacionais, vou dar-lhes um empurrão." Infelizmente, a realidade é espinhosa e fui alertada para o seguinte: há pessoas a trabalhar na distribuição, que estão na rua, enquanto eu estou resguardada em casa. Nem todos temos trabalho durante esta pandemia, e muito menos são aqueles que o podem fazer a partir do seu lar.


E, agora, devemos parar tudo? Ou devemos continuar a tentar estimular o que ainda sobrevive nestes tempos estranhos, principalmente pequenas empresas do país? Afinal, sabe-se lá até quando é que poderemos, sequer, fazer encomendas...

 

Fica por aqui o dilema.

Era uma vez, um diário positivo

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Esta é uma publicação um pouco diferente das que são o costume por aqui, mas com um convite que gostaria de partilhar convosco, pessoas que adoram escrever, ou que gostariam de escrever mais, de preferência se isso vos trouxer algo de positivo, tão necessário nestes tempos conturbados que estamos a viver. É engraçado pensar que este workshop foi o meu projecto pessoal, profissional e da pós-graduação nos últimos meses, nunca prevendo que no início de Abril estaríamos... assim, neste espaço psicológico, resguardados em casa. Eu própria me sinto muito feliz por ter andado a estudar o tema, que agora se revela tão útil. Mas adiante.

Se estiverem interessados, ou se conhecerem alguém que esteja, não hesitem em mostrar-lhe este evento.

 

***

 

Comecei a escrever muito miúda (ainda mais do que agora). Escrever era o meu trabalho favorito da escola e fazia de propósito para o meu P.I.T. (quem se lembra do Plano Individual de Trabalho?) calhar sempre com produção escrita. Confesso que fiz muita batota à conta disso. Escrever sempre me fez sentir bem, sempre me fez sentir capaz e mais organizada nas ideias. Aliás, desta necessidade surgiu o blog.
 
 
Seja ficção ou não-ficção, nunca deixei de querer brincar com as palavras, com as observações do mundo e com o mundo interior das personagens. Por isso, quando comecei a estudar Psicologia, encontrei a peça que faltava no meu puzzle: poder partilhar com outras pessoas todos os benefícios para a saúde mental - e, por consequência, física - de escrever regularmente.
 
 
Dito isto, preparei um dia cheio de actividades de Diário Positivo para daqui a uma semana: a data é 4 de Abril (Sábado), e o workshop vai ser completamente online.
 
Descrição:
"Acha que escrever um diário é como uma terapia para acalmar a alma, organizar as ideias e perceber as suas emoções? A escrita é parte de si e escreve para se sentir melhor?
 
O Workshop de Diário Positivo será um dia de aprendizagem sobre como utilizar um diário em prol do bem-estar e duma melhor saúde mental, através de pequenas intervenções e exercícios escritos que podem ser realizados autonomamente.
 
Como o nome do workshop indica, daremos uma importância reforçada às emoções positivas, mas sem nos esquecermos da escrita expressiva e do papel da literacia sobre todos os tipos de emoções e pensamentos numa vida feliz e equilibrada."

 

***

 

O resto das informações está:
 
 
Obrigada, e espero ver-vos em breve!
 
 

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Um elogio ao "Quotidiano Instável" (Maria Teresa Horta)

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"Nunca cheguei a saber o que me atraía nele: os olhos? As mãos compridas e magras? O ar fechado e triste? A hostilidade quase terna, toda ela aparente? (...) E todavia há uma dormência feliz que não compreendo, ou que talvez não queira compreender, como também nunca consegui entender até onde ia a sua timidez, a sua severidade, ou a sua indiferença por mim."

 

Quotidiano Instável era o nome da coluna d'A Capital e, agora, é o nome duma coletânea com algumas dessas crónicas escritas, há 50 anos (1968-1972), pela jornalista e escritora Maria Teresa Horta. Acima de tudo, mais do que crónicas, estes textos não são só palavras - são formas de estar, pensar e sentir. Acredito que só quem já amou, com paixão, dor, alegria, provação e ternura consiga entender, mesmo que superficialmente, o que se passa nestas páginas. São muitas as palavras que MTH escreve sobre quem mais a inspirou desde sempre, o seu marido Luís, uma autêntica musa no masculino.

 

Se o olhar desgastasse o papel, este livro estaria feito em fiapos. As crónicas são curtas, como mini-contos, mas bastante complexas, rebentando de significado, metáforas, um vai-e-vem entre o sujeito "eu" e uma terceira pessoa. São textos que desafiam as barreiras entre o real e o imaginário, através da narração da paixão, da sensualidade, da sexualidade, da família e das relações em geral numa voz que eleva o amor à condição de mito real, pela sacralização das imagens e raciocínios invocados. Tive de ler cada crónica várias vezes, para recolher tanta informação quanto possível, informação essa que alimenta os sentidos de variadas formas, imagens ricas. Mesmo assim, sei que, cada vez que releio alguma, consigo retirar mais um pouco do que antes... Porque é prosa, mas poderia ser poesia, o que MTH escreve é um fio de consciência que nos cabe destrinçar, que não se sabe bem como ou onde começa.

 

(Senti-me quase sempre a ler cada texto como um sonho...)

 

Paralelamente, aconselho esta entrevista a Maria Teresa Horta no podcast "A Beleza das Pequenas Coisas" (também disponível no Spotify), que complementa a informação disponibilizada no prefácio de Quotidiano Instável por Ana Raquel Fernandes. As crónicas fazem ainda mais sentido à luz da experiência de vida de Maria Teresa Horta - política, jornalística, pessoal... (Não nos podemos esquecer que o erótico feminino, a liberdade implícita, a expressão do desejo, a emancipação, o protagonismo dado à mulher - tudo isto é lindo, um dado adquirido na contemporaneidade, mas não durante a ditadura de Salazar e de Marcelo Caetano.)
Além disso, ouvir MTH é uma delícia. Tem tantas lições para nos ensinar...! Então, aqui fica outra sugestão: Maria Teresa Horta em entrevista no podcast "Biblioteca de Bolso".

 

Quem gosta de crónicas e/ou contos vai adorar este livro, Quotidiano Instável. Quem gosta de poesia vai adorar este livro. Quem gosta da máxima "quantidade não é qualidade" vai adorar este livro curto e tão concentrado.

 

Dadas as nossas circunstâncias actuais, não vos aconselharia particularmente a fazer encomendas, e muito menos a sair de casa para adquirir bens não essenciais; no entanto, se já tiverem este maravilhoso livro na vossa estante, aconselho-vos a darem-lhe uma oportunidade, ou a fazê-lo assim que possível depois deste susto na saúde colectiva. Mesmo que gostem mais dumas crónicas do que doutras, tenho a convicção de que não se vão arrepender.

Qualquer semelhança com a realidade

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Não acredito nos escritores que dizem que as personagens dos trabalhos que escrevem são "mera ficção". Como é que eles se conseguirão relacionar de forma tão profunda, íntima, com alguém que não conhecem, que nunca viram, cujos gestos não estudaram, cujas mãos não tocaram, cujas bocas não apreciaram ou ouviram?

 

Acredito que todas as personagens da ficção existem, na verdade. Serão, porventura, compósitas. Sim, talvez sejam feitas de muita gente que o autor foi observando e sobre as quais foi, mesmo que por acidente, recolhendo dados. No entanto, a ficção acaba por ser uma realidade interpretada, reorganizada: como quando mudamos de casa, mas levamos a mesma mobília. Quem sabe, serei eu apenas ingénua, e venha daqui a uns meses ou anos repor a minha verdade sobre o que é isto de escrever sem contrato de veracidade sobre pessoas questionavelmente fictícias, ou tão materiais como uma unha do pé ou aqueles fios de cabelo presos na escova. Afinal, esteve ali ou não esteve?

 

Um dia que me vejam publicar um texto ficcional, saibam que dificilmente o será. Se me perguntarem se é de "pessoa X" que escrevo, se for mesmo "pessoa X", não me importarei de confirmar tal informação (partindo do princípio de que não devasso a privacidade de ninguém, claro está). Se me perguntarem se falo de "situação Y", é provável que seja, ou que aspire a ser (sem devaneios, sem invenções, é claro).

 

Qualquer semelhança com a realidade jamais seria coincidência. Sou paradoxalmente aspirante a escritora, mas péssima mentirosa. Escrevo exclusivamente a sério, mesmo quando baralho nomes, combino eventos ou exagero impressões. Tudo o que me acontece, tudo o que vejo acontecer e tudo o que me dizem poderá ser sujeito e objecto para escritas futuras. É tudo da minha cabeça; por isso mesmo...

 

Vejamos: o que escrevemos é o produto óbvio do que vivemos, lemos, vemos, sentimos, conhecemos. Não acordamos simplesmente um dia e pensamos que aquele é o conto, o livro ou o ensaio que nos comprometemos a criar. Existe um envolvimento pessoal inegável.

Um livro que não se mede à página: O Senhor Breton e a entrevista (Gonçalo M. Tavares)

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Quão acessória é a centralidade da poesia?

 

Neste primeiro livro que li de Gonçalo M. Tavares, O Senhor Breton e a entrevista (de 2008), fui apresentada a um fio de pensamento errante, acerca do papel do pensamento abstracto, das palavras e da literatura. Na verdade, sei que li cada capítulo pelo menos duas vezes, e continuo a relê-los, insistentemente. Fico uma e outra vez com a impressão de que me escapou um raciocínio qualquer, uma parte do texto, um significado escondido. Por isso,  parece que a entrevista do/ao Senhor Breton vai ser daqueles livros que vou andar a reler pelos anos fora, um clássico na estante pessoal. São 54 páginas como os lençóis e as mantas: desdobram-se e alargam-se(-nos). Há livros que não se medem à pagina.

 

A meio da leitura, apercebi-me de que este livro majestosamente pequeno é parte duma série chamada "O Bairro". Assim, quando me cansar da releitura, começo a arranjar os outros volumes - fácil! Aliás, imediatamente depois de escrever este texto, vou procurá-los.

 

Não, este não é o livro mais fácil de sempre. É um bocado louco, prescrito a quem queira ficar com o cérebro frito. É qualquer coisa entre o demais e o já chega, mas é isso que faz dele tão especial. De vez em quando, gosto de ler livros que me desafiem. O Senhor Breton, sem dúvida, não me facilitou a vida.  A coletânea de dez perguntas meta e metafóricas insiste no desvendar de pensamentos formalmente simples, mas semanticamente complexos.

 

E o mais importante para o leitor, para o escritor, para quem se alimenta de palavras e versos? Depois de ler O Senhor Breton e a entrevista, eu diria que é aceitar que nem todas as perguntas podem ser respondidas, porque é frequente nem ser necessário. Lá no fundo, já sabemos o que nos faz falta.

 

Obrigada, Gonçalo M. Tavares, por me ter impressionado e engolido à primeira leitura.

Se ainda agora chegaram...

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Se ainda agora chegaram... Olá, eu sou a Beatriz e não nego que tenho muito para dizer sobre mim mesma. Aqui vão umas linhas.

 

Estou quase sempre a escrever; quando não estou a escrever, estou a pensar sobre o que vou escrever; quando nem pensar sobre o que escrever consigo, estou a culpar-me porque a vida é curta, e deveria estar a fazê-lo, e não estou. A pior composição que já escrevi na vida deve ter sido a do Tinder/OkCupid (felizmente, temas como "gatos" e "livros" são infalíveis). E, agora, esta.

 

Para ser honesta, decidi que, se não estou a escrever, deveria estar a ensinar. Já dei aulas na casa dos outros, na minha casa, no escritório dos outros, no meu escritório, na Tailândia, em Portugal, para o Vietname, em pijama, em cuecas, em vestido curto, de fato, presencialmente, pela Internet, numa universidade top 10, em cafés, em duas escolas privadas, em empresas, até no carro.

 

Tenho um gato exótico chamado Lord Ennui ("aborrecimento" em francês, com aspiração a ser fino). Tenho outras três gatas sem pedigree, tenho dois cães, tenho uma família que devia estar numa novela escrita por estagiários, tenho uma avó-mãe e tenho um namorado fit e médico que equilibra o meu karma de batata de sofá. Tenho um blog. Tenho um clube de escrita. Tenho dois mestrados pela metade. Tenho sinusite.

 

Gosto de abraços e de mimo. Gosto de ler, de escrever e de comprar livros. Gosto (demasiado) de procrastinar. Gosto de ser professora. Gosto de trabalhar por conta própria. Gosto de estar sempre a estudar. Gosto de ser sempre (que possível) do contra. Gosto de ser bicho, e gosto de ser doce. Gosto de pessoas, por muito que o negue. Gosto que me deixem falar por horas seguidas, tanto quanto gosto que me deixem em paz com regularidade. Gosto dos mil-folhas duma certa padaria portuguesa. Gosto de bandas sonoras e de podcasts.

 

Ufa. Acho que é isso. E por aí?