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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Ainda Alain de Botton e o amor: como 'The Course of Love' também me conquistou

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Depois do livro Essays in Love (em português, Ensaios de Amor), de Alain de Botton, li o outro que tinha comprado ao mesmo tempo quando estive na Escócia, que se chama The Course of Love (ou O Curso do Amor). Parece mais do mesmo, chover no molhado, mas não. Os ensaios foram o primeiro livro escrito pelo autor - aos 21 anos. Por outro lado, o segundo título é o seu romance mais recente. 

 

Mas vamos lá ver o que mais me agradou nesta leitura, de forma breve e sucinta.

 

Não deixando totalmente de parte a minha adoração pela pirosice que o amor pode trazer quando vivido em pleno, acho que inevitavelmente me tenho tornado um bocado mais céptica e cautelosa no que toca a este tópico tão sensível. Já dizia o ditado popular que gato escaldado... Além disso, deixei de me convencer com histórias de amor medíocres, cópia a papel químico das anteriores, boy meets girl, e depois já se sabe como todo o enredo se desenvolve - após um conflito lá pelo meio, acabam felizes para sempre, mas de forma muito irreal (a sério que nem uma discussão acerca de quem vai levar o lixo...?). Assumo-me uma enorme fã, por exemplo, da reflexão da voz narrativa acerca das complexidades humanas. É principalmente isto que mais me tem fascinado nos livros de Alain de Botton.

 

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Assim sendo, este é o segundo livro escrito pelo mesmo autor, sobre a mesma questão do amor como ele é na vida real, para pessoas reais, que me conquistou - uma lufada de ar fresco. Desta vez, no lugar do amor na idade jovem, pouco maduro, que termina numa separação efusiva, The Course of Love leva-nos a conhecer quase duas décadas vividas em conjunto pelos protagonistas (Rabih e Kirsten), desde o dia em que se conhecem, até ao momento em que, ao fim de tantos-tantos-tantos anos de casados, atingem uma dita maturidade e se começam realmente a compreender e a aceitar que o amor é mais do que uma emoção forte e que pode ser, por exemplo, os mundos que construíram em conjunto, o companheirismo, a família, os pequenos pedaços de vida diária, as memórias partilhadas.

 

Mais uma vez, este é, não só um romance, não só uma história de amor "baseada na vida real", como também uma espécie de ensaio filosófico e ainda uma exposição sobre temas ligados à psicologia. Muito destaque é conferido à dimensão interior, aos pensamentos, recalques, passado traumatizante das duas personagens principais e à forma como a relação com as respectivas figuras parentais afecta o seu comportamento na sua relação adulta, enquanto namorado e namorada, marido e mulher.

 

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Finalmente, tenho alguns comentários adicionais que gostaria de partilhar convosco.

 

Em primeiro lugar, acho que vou passar a oferecer este livro a todos os noivos para cujo casamento eu seja convidada. Aliás, tenho uma amiga que se vai casar no fim do ano e que vai ser a minha cobaia (nem que seja porque ela já manifestou vontade de ler este livro, quando publiquei uma passagem no Instagram). Ficam servidos com uma belíssima história de amor real e munidos de algumas reflexões que toda a gente deve ter em mente quando decide embarcar num compromisso sério ou mesmo para a vida

 

Em segundo lugar, tenho de recomendar este livro não só aos recém ou brevemente casados, como ainda com igual urgência a qualquer pessoa que precise de reflectir no que significa apaixonarmo-nos, aproximarmo-nos e levarmos uma relação amorosa a bom porto.

 

É uma leitura leve, descontraída (não obriga a um esforço mental desmesurado), mas após a qual não sentimos ter desperdiçado o nosso tempo. Alain de Botton é tudo em um: escritor, filósofo, psicólogo, sociólogo, amigo.

Pensamentos sobre tentar escrever um livro (outra vez), auto-censura e outras inquietações

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Ando a tentar escrever um livro há anos. Há cerca duma década (portanto, quando era um bebé), ganhei alguns prémios literários revelação a nível nacional, no secundário ganhei outros do município onde estudei, cheguei a escrever um ou dois livros pequenos e muito maus, e, depois disso, parece que fui amaldiçoada por uma praga que me impede de prosseguir além da terceira ou quarta página de seja o que for que tente criar, por muito boa que a premissa inicial seja.

 

Eu sei o nome dessa praga. Aliás, foram várias. Foram as ilusões e desilusões da adolescência. Foi a adaptação à escola pública. A descoberta de autores que eu pensava - e penso - nunca ser capaz de superar. Foram os exames nacionais. A entrada na universidade. Conjugar estudos e trabalho. Viagens, intercâmbios. Foi o fim da licenciatura e o processo de "adultização". Foi o trabalho e os estudos simultâneos outra vez. Foi o meu regresso e as respectivas desventuras. Foi a permanente auto-censura de achar que nunca sou capaz de escrever nada de jeito, ou que não tenho experiência de vida que me credibilize.

 

Mas, na verdade... Sabem o que foi? Sabem o que talvez ainda seja? Falta de concentração. Falta de compromisso. Muitas e variadas desculpas. Socorrer-me da alegria e da tristeza para justificar a minha falta de acção. Ora estou tão feliz que nem tenho tempo para escrever, porque uma pessoa feliz não é tão criativa. Ora estou tão infeliz que não arranjo paciência para pensar nos meus dramas, quanto mais nos das personagens.

 

Entretanto, esgotei as desculpas. Tenho trabalhado muito menos do que alguma vez trabalhei nos últimos cinco anos da minha vida. Ando num período em que não me sinto arrasada por nenhum sentimento positivo ou negativo que me permitam desleixar e entrar num novo ciclo de "não tenho cabeça para escrever".

 

No início da semana passada, recomecei a escrever. Uma coisa é escrever um texto para o blogue, que me costuma levar duas ou três horas a escrever, na loucura, e em que só me preocupo com as minhas inquietações. O registo é informal, é só uma espécie de monólogo. O formato é simples, o enredo vai-se desenvolvendo sem eu ter de puxar pela cabeça, a trama é muitas vezes desinteressante e, em geral, não estou preocupada se vou suscitar vozes críticas ou não.

 

Então, comecei a escrever uma coisa qualquer que tem de ter qualidade literária, gerar interesse e ter o potencial de criar reacções nos outros, de ser relevante para mais alguém além de mim. Quer dizer, não sou do tipo de pessoa que escreve para ficar na gaveta. Ah, e também tenho de o fazer de modo a não olhar para o texto, franzir o sobrolho e pensar, de novo, "mas que grande porcaria, ainda não vai ser desta".

 

Escrever um livro, ou essa coisa qualquer (que não tem outro nome) assim é difícil, porque é um compromisso a longo prazo. Não se escrevem dez páginas num dia. Ontem, por exemplo, escrevi um parágrafo. Noutros dias, se calhar vou só reler e rever. Ou pensar. Vou ter de aguentar esta história que tenho na cabeça por meses. Ou pior, anos. Vou ter de arranjar uma lógica para o que quero contar. Quem são os protagonistas... ainda nem sei bem. Tenho de conhecer essa gente toda. Tenho de lhes dar um propósito na vida e um motivo para existirem na minha cabeça.

 

Quando começo a escrever, sei o que quero contar, mas não como o fazer. Por vezes, só quero que essa narrativa passe a existir, à custa de duas cenas que imaginei e que tenho de encaixar algures. Isto quer dizer que ando a tentar escrever pelo menos uma centena de páginas, somente porque ando a idealizar umas quatro. Não faz sentido, mas sinto-me no dever de as pôr na ordem.

 

Outro factor de censura quanto a escrever um livro é ter medo que alguém que faça parte da minha vida real se reveja nem que seja numa borbulha duma personagem e me venha pedir satisfações. "Olha lá, isto não sou eu?" Já aconteceu e a ideia teve de ficar na gaveta. Neste momento, estou a tentar adoptar uma posição mais neutra, mas também mais discreta. Obviamente, é impossível não incluir detalhes, características ou manias de pessoas que eu conheço (nem que seja alguém que eu tenha visto ou ouvido no comboio, o que também já aconteceu), por isso faço questão de entrar em enormes afazeres mentais para camuflar e misturar tudo o que possa. Se não conseguir fazê-lo por algum motivo, tenciono comunicá-lo a quem o tiver de fazer, se essa altura chegar (afinal, o que escrevo até pode nunca chegar a ver a luz do dia).

 

Deixei-me de censuras e auto-censuras, ando mais num "logo se vê", excepto no que toca a escrever com regularidade e disciplina. Por outro lado, há que ver esta tentativa como um passatempo mesclado de ambição pessoal. Sem pressão... Bem, só  bocadinho. Desde que li o Bird by Bird da Anne Lamott que meti na cabeça que "pássaro a pássaro" é a melhor estratégia. Vamos ver se também funciona comigo. Quão difícil pode ser escrever um livro? Muito. Mas ninguém gosta mais de desafios do que eu. 

 

(Se não for desta, têm permissão para me azucrinar a cabeça.)

Acabei de ler "Call Me By Your Name": sobre o amor, migalhas de pão e basílicas

Atenção: possíveis spoilers de importância secundária são partilhados no texto que se segue.

 

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Tenho andado a ler alguns livros alegadamente lamechas, com histórias de amor dentro. Por exemplo, acabei de ler Call Me By Your Name, do autor André Aciman. Já tinha visto o filme há cerca de meio ano e desde então que me andava a perguntar quando teria estômago para aguentar o livro - porque, a ser como o filme, deixar-me-ia emocionalmente de rastos. Um filme vê-se em duas horas; um livro lê-se durante muitos dias.

Não me enganei. Esta história, com mais ou menos detalhes, contada por que meio for, exige alguma preparação mental. Ainda bem que só o li agora, principalmente depois de já me ter aventurado pelo aquecimento que foi Essays in Love. Não aconselho histórias destas a quem se ande a sentir mais em baixo, que esteja a passar por alguma fase pessoal menos positiva. Histórias como a das personagens Elio e Oliver fazem chorar até as pedras da calçada. Metem-nos uma nuvem cheia de chuva por cima (e não adianta pensar que é só uma história; quem realmente consegue entrar nos enredos acaba por se envolver e ser engolido pela narrativa).

 

No entanto, não sendo uma história de amor particularmente feliz, é uma história de amor que nos traz alguma satisfação. É uma história de amor entre dois rapazes, mas acho que todos os que já estiveram apaixonados se conseguem rever no que foi escrito por Aciman. Uma vez que a história é contada do ponto de vista de Elio, são partilhados pensamentos únicos e bastante exactos (digo eu, pela minha experiência nesse domínio) acerca do que significa apaixonarmo-nos por alguém sem saber se essa atracção é recíproca. A incerteza, os olhares desencontrados, os mal-entendidos... Está tudo neste livro.

 

Há uma metáfora que me tocou particularmente cá no fundinho. Foi a metáfora das migalhas de pão. Quando nos apaixonamos, esquecemo-nos muitas vezes de lançar migalhas de pão pelo caminho, como fizeram Hansel e Gretel, como gostaria Elio de ter feito, para sabermos como voltar atrás e qual o caminho anteriormente tomado, quando se torna necessário retroceder após o fim de um grande amor. (Além da metáfora do autor, eu até diria que nem interessa tentar marcar o caminho com migalhas de pão, já que há sempre pássaros que as comem mal viramos costas.) Gostaria ainda de deixar uma nota especial acerca doutra metáfora: tal como a Basílica de São Clemente (em Roma), também o subconsciente, o amor, as memórias, o tempo e as pessoas são construídas camada por cima de camadas, todas anacrónicas, mas que nos permitem ou obrigam a escavar para descobrir a sua história. Metáforas tão simples, mas que nos enchem a alma. Senti que, assim o autor consegue exprimir o que eu nem sempre consegui.

 

Mudando de ambiente, este não é um livro para cépticos no amor, mas também não é um livro para púdicos. Apesar de as cenas de sexo não serem explicitamente descritas, muitos dos pensamentos da personagem Elio contêm ideias... mais engraçadas, carnais. Quem ler irá perceber - já para não falar da existência óbvia duma relação homossexual, quase platónica, mas muito física, tanto quanto emocional.

 

Por outro lado, depois de muito reflectir, decidi que este não é o melhor livro de sempre, porque senti que encheu chouriços quase nas últimas páginas. Custou-me bastante lê-las, demorei imenso tempo. Eram difíceis de perceber, confusas, mas não essenciais para um desfecho brilhante. As últimas páginas, sobre o reencontro dos protagonistas, também poderia não ter acontecido, como no filme. Nisso, acho que o filme foi concebido de forma mais eficiente e até bonita.

 

Desta forma, concluo que, para mim, o tema central deste livro é o amor e a paixão, que primeiro correm o risco de não ser correspondidos, depois são consumados, mas nunca de forma plena, sendo finalmente interrompidos pelas circunstâncias da vida.

 

Para ler:
... enquanto se ouve Ludovico Einaudi ou Andrea Bocelli.
... quando se sente que há leveza de espírito para recuperar da carga emocional desta narrativa.
... se se acreditar no amor - e em histórias de amor épicas, marcantes.
... antes ou depois de ver o filme, que é das primeiras adaptações ao cinema que acho que valem por si, independentemente do livro em que se baseia. Tanto faz.

 

Deixo-vos agora a oportunidade de partilharem os vossos pensamentos nos comentários. Já metade da comunidade do Goodreads leu este livro, mas digam lá de vossa justiça neste blogue, digam-me que impressão vos causou esta história.

 

A Carolina leu Call Me By Your Name ao mesmo tempo que eu e já deixou a opinião dela também. Apesar de por vezes lermos géneros diferentes, hão-de reparar que até mencionamos e destacamos aspectos semelhantes acerca deste. Leiam também o que ela acabou de publicar! 

O meu novo livro preferido: Essays in Love, de Alain de Botton

Alguma vez se depararam com um livro que tenha surgido no momento certo, mas por mero acaso? Fazia-vos falta um livro assim, vocês pensavam que seria impossível alguém contar uma história que vos fizesse sentir menos desamparados ou sozinhos no vosso mundo, na vossa causa, e esse mesmo livre caiu de pára-quedas nos vossos dias?

 

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Eu sei o que isso é. Passei tantos meses à procura dum livro que tivesse tudo na medida certa - introspecção, filosofia, reflexão, carisma, mas que viesse justificar e validar as minhas ideias, sem deixar de ter uma dose de lamechice, sem ser só teoria, acrescentando um enredo que servisse de exemplo às minhas inquietações actuais - e, depois de muitas visitas, a muitas livrarias, em Portugal e na Escócia, encontrei este, um exemplar único, sem destaque, enfiado numa estante a abarrotar duma Waterstones em Glasgow: Essays in Love, do autor multifacetado Alain de Botton.

 

O meu maior problema com os livros sobre a temática "amor" é que considero quase todos um desperdício de tempo, sou incapaz de ler tamanha treta, nunca os levo a sério, têm sempre imenso mel, ou drama, ou futilidade em doses que sou incapaz de digerir. A vida é pirosa, mas não tanto. A vida não é um romance de cordel, mesmo com a sua inevitável banalidade e aleatoriedade.

 

Então, ao encontrar este livro, senti que o autor conseguiu incluir quase todas as posições sobre o amor e relações em que acredito, ou pelas quais já passei. O início da história de amor dos dois protagonistas é um pouco irracional, mas o resto da narrativa faz todo o sentido.

 

Além disso, este livro não é só um romance. Não é só um livro de histórias. Como escreveu o autor, em 2015, num posfácio incluído na edição que tenho, o seu objectivo era ficar a meio, entre um romance e um ensaio sobre o que é o amor entre duas pessoas, como ele surge, acontece e - eventualmente - termina. E recomeça, acreditem ou não.

 

Senti, pela primeira vez na vida, que este é o livro que eu gostaria de ter escrito ou de vir a escrever. Sem tirar nem pôr. Não é "um livro deste género", é "precisamente este livro". Nele, o amor não é idealizado. É narrado um amor, num contexto próximo ao meu (protagonistas jovens em início de carreira, classe média, numa cidade europeia). Consigo identificar-me e encontrar aspectos em comum. É também para isto que serve a arte, para nos representar, e eu fiquei a sentir-me representada. A cada página, eu só pensava "mas isto já me aconteceu!" ou "isto poderia ter-me acontecido!".

 

Sim, este livro conta uma história de amor e desamor, mas fá-lo duma forma pensada, que nos obriga a usar o cérebro. Não é o típico "boy meets girl" dos best-sellers de supermercado. Senti que o Essays in Love me desafiou enquanto leitora, pôs-me a reflectir nas minhas experiências, conferiu ao assunto mais batido, piroso e repetitivo do mundo uma aura de intelectualidade, de assunto académico, didático, de relevância. Deixou de parte a superficialidade das relações, das borboletas na barriga e do vazio a que nos entregamos quando acabam. Fez com que tudo isso se tornasse um assunto de adultos, respeitável. 

 

E sabem da melhor? O autor, Alain de Botton, escreveu este livro no verão dos seus vinte e um anos. 21. Como é possível que tanta sabedoria, ou tacto, tenha saído da cabeça e das mãos dum indivíduo tão jovem? O que é que a maioria de todos nós já tinha feito aos 21 anos? Olhem, eu tinha-me licenciado, tinha ido estagiar para Banguecoque e pouco mais, mas não, não tinha escrito o livro que inauguraria uma carreira brilhante e demonstraria todo o potencial da minha mente. Fica prometido que irei, com toda a certeza, ler mais livros do Alain De Botton, nem que seja o que comprei em simultâneo ao Essays in Love, que se chama The Course of Love (mais lamechice pseudo-intelectual, previsivelmente).

 

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E por aí, alguma sugestão de bons livros que me queiram deixar? Não tem de ser sobre este assunto, claramente, por isso estejam à vontade! Agora, ando também a ler Sapiens, De Animais a Deuses, e estou a gostar bastante. Encontrem-me no Goodreads e vamos falando. 

O resto dos primeiros dias

Já aqui escrevi que há sempre um primeiro dia em tudo, nomeadamente no que toca ao fim duma era, ao fim duma relação, ao fim dum amor. Por acaso, eu lembro-me mais ou menos desse dia que decidi tornar o meu primeiro, mas apenas porque conduziu a uma série de eventos que é possível localizar no tempo com precisão.

 

No entanto, cada vez mais me apercebo de que essa série de eventos constitui, sim, essa série de primeiros dias que tenho experimentado. Há um primeiro dia para quase tudo.

 

Estou a acabar de ler um livro (sobre o qual vos irei escrever, com toda a certeza) que me tem feito pensar no percurso que um amor calca, desde que deitamos os olhos em alguém interessante pela primeira vez, passando por uma relação épica, até que, por algum motivo, pela combinação duma infinidade de circunstâncias, cada um segue o seu caminho. Nesse livro, também se fala dos tais "primeiros dias", o que me tocou bastante.

 

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Essays in Love, Alain de Botton

 

Tocou-me, porque, pela primeira vez, li nas palavras de alguém, tão longe geográfica e temporalmente (o autor é suíço, residente em Londres, e o livro foi escrito antes de eu nascer) o que eu já defendia e que sinto que as pessoas que me rodeiam não compreendem: os primeiros dias são feitos do esforço para criar novas memórias e hábitos. Como numa cassete, gravam-se novas cenas por cima das antigas. Aquele restaurante onde só íamos com X? Há que voltar lá com outras pessoas, talvez os nossos amigos mais queridos, que deixarão uma marca eficiente nas nossas novas memórias. O sofá lá de casa, onde tantas vezes nos aninhávamos? É passar lá mais tempo a realizar um projecto pessoal significante, como ler o nosso novo livro favorito ou mesmo a escrever um - senão, convidar outra vez os amigos para lanchar e para maratonas de filmes. O local A, B, C? Fazer o mesmo, escrever memórias por cima, partilhar esses espaços com outras pessoas e em contextos renovados. O objectivo? Deixar de associar tudo o que possamos encontrar na nossa vida diária, necessariamente, à mesma pessoa, ao mesmo conjunto de emoções.

 

É assim, então, que encaro a criação de primeiros dias. São passos pequenos, quiçá minúsculos, em direcção a alguma paz, para que o coração não entre em sobressaltos constantes. Mal comparado, é como aquele dito popular, "a sarna dum cão cura-se com a sarna doutro". Não digo que precisemos dum "rebound" na forma doutra pessoa como alvo romântico, mas cada vez entendo com maior clareza que o "rebound" pode ter origem em várias pessoas, vários locais, várias razões, várias actividades. O dito "rebound" é multilateral. Não é a sarna dum só cão, é a sarna de vários cães, gatos, periquitos, lebres, roedores, até de tartarugas e peixinhos de aquário. É a minha avó sentada na minha cama até eu conseguir adormecer quando mais me custava, são os meus amigos a dizer-me para eu ter vergonha na cara cada vez que ameaço lamentos por mais de cinco minutos, é uma ou outra nova amizade ou as que se aprofundam, é a viagem à Escócia, é o meu trabalho, são os livros novos que compro e leio, novas músicas, séries e filmes, é a minha festa de aniversário, é a tarde de ontem sozinha na praia, são os almoços-surpresa com o meu pai, as conversas com a minha tia, é a minha sobrinha pequenina que me vê tão poucas vezes mas que parece já ter consciência de quem sou, é este blogue, é o ginásio, são os cursos livres que tirei, o mestrado que aí vem...

 

E, assim, vou coleccionando não só primeiros, como também segundos, terceiros e quartos dias. E por aí fora.

Fui à Feira do Livro 2018 e comprei... um livro (e uma fartura!)

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Lembram-se de 2014? Conseguem ver as diferenças em relação a 2018? 😂Nesse ano, em duas ou três idas à Feira do Livro de Lisboa, devo ter comprado mais de quinze livros. Em 2015, a última FLL a que fui, também não devo ter comprado tantos. Em 2018 - ontem - comprei um. A que se deve esta redução? Talvez já não ande a comprar livros às dúzias só porque sim. Prefiro comprar em qualidade do que em quantidade. Já não compro livros só porque custam 3€ e têm mais de 3,70 estrelas no Goodreads, compro porque os quero mesmo e me interesso pelo que lá espero encontrar. Além disso, já ultrapassei todos os orçamentos quando estive na Escócia e gastei £40 em paperbacks, pelo que também não me falta material de leitura para as próximas semanas. 

No entanto, estou contente com o livro que comprei, A Doença, o Sofrimento e a Morte Entram num Bar, do Ricardo Araújo Pereira. Ainda tive 3€ de desconto em comparação ao PVP normal. Até agora (já vou a meio), ainda não desiludiu. Já o queria desde que soube que ia ser lançado. Aliás, eu só não vou a correr tirar a pós-graduação em Artes da Escrita, da FCSH, onde ele dá aulas (entre tantos outros escritores que admiro), por conflito de horários. 

 

Quanto à FLL... só tenho pena que o tempo - tal como os meus horários malucos de trabalho - não tenha cooperado muito este ano, para lá ter ido mais vezes, nem que fosse comer uma fartura. Fui ontem, comi ontem, já não foi mau. Agora, fica para o ano. Até 2019!

Observações sobre os hábitos de leitura dos escoceses - ao sol

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Princes Street Gardens, Edimburgo

 

Durante a minha viagem à Escócia, que está prestes a terminar enquanto vos escrevo isto, fiquei maravilhada com o seguinte: os escoceses lêem imenso. Não posso falar pelo resto do Reino Unido, porque só estive no Norte de Inglaterra há quatro anos, mas tanto em Edimburgo quanto Glasgow  (e nos comboios entre as duas cidades) fui notando que há imensa gente com livros na mão, seja onde for: na fila para o autocarro, nos transportes públicos em geral, nos parques, nos cafés... Coisa linda de se ver. Até me senti mais inspirada para ler (e, ao contrário de todas as minhas auto-promessas, comprei cinco - CINCO! - livros nos últimos três dias de viagem, quando finalmente sucumbi à pressão da disponibilidade imediata de paperbacks com cheiro a papel reciclado intocado. Adoro paperbacks. Não há como não fazer todos os esforços humanamente possíveis para que caiba mais um, e mais outro, na mala de cabine. Ou na mochila. Ou em sacos extra.

 

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 Kelvingrove Park, Glasgow

 

Parece-me que este é um povo com hábitos de leitura - mais uma achega a contribuir para o meu amor por este país. Além de verde e cheia de história, a Escócia tem livros por todo o lado e gente que gosta deles.

 

Enterneceu-me especialmente o facto de também os escoceses adorarem livros e verde. Nos dias em que fiquei em Glasgow e Edimburgo, esteve quase sempre sol (apesar dum frio bem irritante, mas uma pessoa desculpa o Mar do Norte), por isso os parques públicos, os jardins e os jardins botânicos (mais especificamente, todos os bancos ou bocadinhos de relva disponíveis) estavam sempre cheios de pessoas a comer, a passar tempo com a família e os amigos, a jogar, a dormir a sesta... e a ler. Mal se via um raiozinho de sol... os relvados inundavam-se de pessoas de t-shirt (enquanto eu, friorenta do burgo, fazia frente à brisa cortante com uma camisola interior, uma sweat-shirt e um casaco de Inverno). 

 

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 Jardim Botânico de Glasgow

 

Fico mesmo com vontade de importar estes hábitos saudáveis para Lisboa. Já! Imediatamente! Mal eu aterre hoje à hora de jantar!

"Bird by Bird": 10 instruções sobre a escrita (e sobre a vida), segundo Anne Lamott

Há poucas semanas, li um livro que me pôs a rir duma forma como nenhum me tinha feito nos últimos tempos. Li e ri, mas também li e pensei que, realmente, a escrita e a vida são para ser vividas mesmo assim: pássaro por pássaro.

 

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Bird by Bird: Some Instructions on Writing and Life, assim se chama o livro miraculoso que me relembrou que, tal como joelhos esfolados em gravilha, também os assuntos do coração não se resolvem no momento em que tentamos tratar a ferida. Às vezes, tem mesmo de apanhar ar. Ou, pacientes, temos de ir recolhendo um e outro pássaro. O que interessa é irmos tentando. Como acontece na escrita...

 

A partir do momento em que comecei a ler este livro, passei a adoptar esta forma de viver os obstáculos que vão surgindo. Os imprevistos. As desilusões. Há que conquistá-los um por um. (Na verdade, essa filosofia bird by bird tem origem num trabalho da escola sobre pássaros que o irmão da autora procrastinou até ao último dia quando era criança, mas divago.)

 

Assim, Anne Lamott, esta senhora fantástica que muitos conhecem duma TED Talk, vai-nos apresentando imensas lições sobre a vida e sobre a vida dos escritores. No entanto, o que partilha connosco poder-se-ia aplicar a qualquer profissão ou pessoa, qualquer contexto.

 

Gostei muito das seguintes 10 instruções sobre a escrita (e sobre a vida) que Anne Lamott nos deixa por escrito. Não se encontram necessariamente pela ordem do livro, nem são apresentadas pela autora desta forma. Estas foram seleccionadas e destacadas por mim, nem que seja por serem as que fazem mais sentido para o meu caso pessoal e de escritora amadora a fazer um esforço por voltar a competir e/ou publicar.

 

1. Um escritor é alguém que tem de recuperar o poder de observação, o deslumbramento e a inocência da infância, para poder captar o que os outros podem não ver ou sentir explicitamente;

 

2. A melhor maneira de começar  escrever é em quantidade, mas não necessariamente em qualidade. A partir daí, do exercício de escrita livre, podem surgir pequenos pedaços de informação ou texto que sirvam para começar um rascunho. É ao escrever e a deitar fora que vamos descobrindo o que queremos escrever (um pouco como na vida, digo eu - se nos fecharmos em casa à menor contrariedade, nada nos irá acontecer; já o contrário...);

 

3. Os primeiros rascunhos vão ser sempre maus, por norma, pelo que nunca se deve ter as expectativas elevadas. Até se entregar uma versão final a quem de respeito, o trabalho de edição pode revelar-se o mais moroso;

 

4. Mesmo que não nos sintamos "inspirados" ou com vontade de escrever, é importante que tiremos tempo suficiente para apenas nos sentarmos com disponibilidade para escrever. Pode acontecer que, nesse entretanto, as personagens comecem a querer falar-nos ou que nos occorra uma ideia que complete o texto/enredo e que lhe dê sentido. É como dançar, diz a escritora, parando a mente racional. Quando dançamos, não olhamos para os pés para confirmar se o estamos a fazer bem, apenas dançamos (e, na vida, é não olhar demasiado também);

 

5. Quando não houver motivação para escrever, podemos tentar escrever um livro para alguém, como um filho, um pai ou um amigo. Podemos escrever para lhes dar como presente. No meu caso, mesmo quando não consigo continuar o livro que estou a tentar escrever, escrevo-vos aqui;

 

6. É importante anotar tudo o que for possível. Tudo pode tornar-se material para escrita, detalhes da vida quotidiana. Fazer listas ou ter sempre post-its à mão pode ser útil para anotar ideias súbitas. É provável que a maioria desses itens seja absurdo e que não venha a ser utilizado, mas alguns podem tornar-se centrais para encontrar o sentido do que tentemos criar;

7. Obter diálogos verosímeis pode revelar-se uma tarefa hercúlea, mas resulta da investigação sobre como as pessoas falam na realidade, através da mera atenção que prestamos a quem nos rodeia, por notas ou gravações.

 

8. Escrever em grupo ou encontrar alguém com quem se possa ir trocando ideias é construtivo. Muitas vezes, a crítica da outra pessoa, seja amigo ou colega na criação, pode ser feroz, mas é melhor do que se viesse dum editor. O mesmo pode ser retribuído, para que haja sempre motivação de se escrever qualquer coisa. Idealmente, devem ser estabelecidas datas para esses encontros em que se trocam textos;

 

9. Mesmo que um escritor não seja publicado, o presente da escrita vale por si, por ter sido algo a que se pôde entregar de coração, que importa por causa do espírito e da dedicação. Além disso, escrever diminui a sensação de isolamento, porque, quando escrevemos, fazêmo-lo sempre tendo em conta algum leitor ou grupo;

 

10. Devemos escrever pelo prazer que é. Claro que o objectivo de um escritor é, por norma, chegar aos seus leitores. No entanto, tal como um farol não vai atrás de barcos para salvar, um escritor também deve escrever os seus livros para que existam, mas sem esperar a fama.

 

***

 

E assim ficou a minha lista de lições sobre a escrita e, já agora, sobre a vida. Na minha opinião, é impossível não gostar da Anne Lamott. Tem sentido de humor, aparentemente teve uma vida cheia de peripécias, escreve como quem conversa, fala aos corações. Depois, digam-me o que acharam da lista de lições e do que poderão ter ouvido sobre a autora e a sua obra!

Por que é que passei a ouvir TED Talks diariamente (e por que é que os podcasts são melhores do que a televisão para mim)

Conheço muitas pessoas que chegam a casa e ligam a televisão "para fazer barulho". Eu ouço TED Talks e tenho-me tornado fã de podcasts exactamente pelo mesmo motivo.

 

Antes, fazia-o com a música, mas comecei a aperceber-me de que não sou assim tão produtiva, porque as canções, as letras, os ritmos me distraem. Então, passei a tentar vídeos do YouTube. No entanto, muitas das vezes os meus youtubers favoritos usam efeitos visuais que pedem a minha atenção, ou introduzem imagens ilustrativas que fazem falta à narrativa áudio. 

 

Foi assim que cheguei à conclusão de que teria de encontrar um qualquer barulho de fundo para me distrair, mas que, ao mesmo tempo, também não fosse um desperdício de tempo. Cheguei aos podcasts e às TED Talks dessa forma. Por vezes, nem estou a prestar atenção, mas uma ou outra coisa ficam. O Spotify é uma base excelente para procurarmos aquilo de que mais gostamos. Além disso, a aplicação TED encontra-se dividida em várias categorias, temas e listas de reprodução, que facilitam a navegação.

 

Há temas para todos os gostos, tanto no Spotify quanto na TED. Eu gosto de literatura, educação, cultura, psicologia/desenvolvimento pessoal, estilo de vida saudável, artes e entretenimento. Depois, ainda há desporto, música, humor, notícias, política, jogos, histórias... Porque não tentar um ou outro? Pode ser que gostem. E podem estar a fazer o que quiserem ao mesmo tempo, sem publicidade pelo meio!

Sem literatura portuguesa na biblioteca local?

Tenho lido bastante, principalmente autores portugueses e livros de ciência popular e escrita criativa em inglês. Na verdade, já li quase todos os livros que tinha por ler nas minhas estantes, excepto aqueles com histórias mais pesadotas, de fazer chorar corações empedernidos (estou a olhar para vocês, Vitorino Nemésio e Harper Lee). 

 

Por isso, ontem decidi ir à biblioteca local, da vila onde moro e onde estudei. Costumava ir lá e encontrar sempre um livro qualquer com o qual me conseguisse entreter. Chegava a levar à meia dúzia de livros para casa. Mesmo que não lesse todos, havia sempre um ou outro que me chamava a atenção (por exemplo, os escritos de Martin Luther King Jr., os romances de Murakami, Vasco Graça Moura...). Há alguns anos, até cheguei a trabalhar para a versão de jardim dessa biblioteca local, durante as férias, por isso, depois dalguns anos sem a visitar, tinha na cabeça uma ideia satisfatória do que lá poderia procurar. 

 

Ontem, visitei essa biblioteca local, porque fiquei sem material de leitura em casa que me entretivesse, sem me massacrar a cabeça com tristezas irremediáveis (como aconteceu com dois dos últimos livros que li) mas que também não me fizesse perder tempo. Ia à procura de literatura portuguesa, em particular, talvez Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto, Afonso Cruz, os vencedores de prémios Leya ou APE (todos lidos por imensos portugueses, famosos, com tiragens relativamente altas por edição), ou um autor ainda desconhecido que por lá tivessem.

 

Não tive sorte nenhuma nesta dita biblioteca local. Entre Saramago (cuja obra já vive em grande peso cá em casa), Margarida Rebelo Pinto, Gustavo Santos na prateleira de Psicologia (!!!!!!!), Tiago Rebelo (não faz o meu estilo) e um ou outro Eça, restavam poucas opções. Aliás, os que restavam já eu li durante o ensino secundário, durante a época em que ia à biblioteca todas as semanas. Mesmo as estantes de literatura traduzida pareceram-me, de súbito, insuficientes. Nicholas Sparks, J. D. Robb, Stephanie Meyer, Emily Giffin...

 

Obviamente, saí de lá desiludida. Ficou a sugestão de procurar o que queria na biblioteca municipal (que fica a 20 km de distância, muito perto). É suposto esta biblioteca local, da junta de freguesia, servir pelo menos 25 mil habitantes. No entanto, não sei como poderá esta selecção limitada - e limitativa - de livros suprir as necessidades duma população em aumento constante, e com níveis de literacia também crescentes. 

 

Fica o desabafo. Tenho saudades de estudar na FLUL para poder usar a biblioteca da faculdade.