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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Escolhi ler mais mulheres para me conhecer melhor

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No ano passado, comecei a fazer um esforço para ler mais livros escritos por mulheres. Achei que, mesmo já lendo muitas por acidente, ou simplesmente sem pensar, podia vir a conhecer mais autoras. Nos últimos anos, tenho tido cada vez mais consciência de que, apesar de não ser propositado, acabamos por viver numa sociedade mais definida pelas ideias, valores, causas e palavras de homens, acabando por insistir num viés delineado pela perspectiva masculina, cisgénero, heterossexual, europeia e/ou ocidental. E, ao começarmos uma cadeia de leituras com uma certa orientação (seja ela de género, geografia, ideologia política...), é normal que continuemos em temas e autores semelhantes ou mais parecidos.

 

Por isso, mudar o rumo das nossas leituras ou escolhê-las mais criteriosa e conscientemente pode ajudar-nos a descobrir novos caminhos, inclusivamente novos interesses.

 

Podia ter escolhido literaturas ou escritores doutras paragens, podia ter procurado assuntos sobre os quais não sei muito. De certa forma, ter escolhido ler mais mulheres, começando em mulheres escritoras ou artistas da Europa Central e Ocidental, ou da América do Norte, ou mesmo brasileiras, que originalmente escrevem em língua portuguesa ou inglesa, acaba por continuar a ser a minha zona de conforto. Não inovei coisa nenhuma, só tentei saber mais sobre vidas como as que admiro profundamente, mas sobre as quais sentia que não sabia o suficiente. Ainda assim, tenho aprendido imenso.

 

Tenho aprendido a analisar e questionar o papel da mulher ao longo do último século, de que matéria e de preocupações é feita a mulher contemporânea, quais as dúvidas e os anseios que tem, o que tem conquistado e o que há para conquistar, qual o seu lugar de fala, as suas responsabilidades. E qual a sua voz no meio da multidão, e de que forma se ouve. E como é que essa voz tem sido retratada pelos outros, nomeadamente pelos homens, sendo por vezes tão diferente do que a fazem parecer. Particularmente neste Verão, li muita crónica, muita autobiografia, ouvi muito podcast - e com as mulheres como protagonistas.

 

Em geral, penso que ler mais mulheres me tem ajudado a aprender com possíveis, mesmo que surpreendentes, exemplos a seguir. Ler e ouvir outras mulheres tem-me ajudado, por um lado a escavar, e por outro a trilhar, uma genealogia de género, de pensamento, de crenças e de feitos incríveis dos quais não teria noção se só continuasse a ler os "grandes autores".

 

Aos poucos, até acabo por procurar autoras doutros lados do mundo, com histórias e uma História diferente. Acabo por espreitar áreas do conhecimento ou artes sobre as quais nunca estudei. (No último semestre, até acabei por estudar pintoras do sudeste asiático e temas do orientalismo.) Acabo por bater à porta do inesperado, do menos óbvio. O efeito borboleta das leituras lá tem a sua razão de ser.

 

Continuo a admirar os clássicos, a achar que têm um papel central, que devem ser estudados e lidos, que devem ser promovidos. Continuo a admirar escritores que são homens, pois não perderam o seu encanto, interesse ou mérito. Contudo, agora tenho uma estante mais rica por ter criado espaço para Dulce Maria Cardoso, Tati Bernardi, Maria Judite de Carvalho, Maria Teresa Horta, Rebecca Solnit, Ruth Manus, Rosa Montero, Natalia Ginzburg, bell hooks, Rachel Cusk, Virginia Woolf, Anne Patchett ou Anne Enright. Mesmo tendo só lido alguns textos ou um livro ou outro de algumas destas autoras, muitas outras obras suas e das suas contemporâneas já ganharam prioridade na lista das minhas próximas aquisições e desejos.

 

Afinal, como poderia um homem, por muito próximo que esteja e por muito empático que seja, testemunhar de forma tão real e familiar situações e experiências como a maternidade, a posição de desigualdade, a relação com o corpo, a luta por direitos, os desafios do mercado de trabalho, a criação artística e literária, o seu legado...?

 

A história destas mulheres é, também, a nossa. O vocabulário é aquele que procuramos e que nos situa no mundo, os seus verbos contam-nos mais sobre as nossas próprias acções. Consequentemente, a nossa história é apenas uma continuação das suas histórias. Estaremos cá paraas contar e recontar, construir e ir reconstruindo.

 

Escolhi ler mais mulheres para as conhecer melhor, mas também para me conhecer melhor.

Ser escritor é profissão, passatempo, estatuto ou mania?

Sou pequena, mas já demasiado alta. Sou desengonçada, distraída do resto do mundo e até da minha própria existência. Passo os dias a imaginar não estar ali, seja ali onde for, porque é sempre ali que não quero estar, onde me sinto presa e demasiado borbulhenta e oleosa entre as mesmas pessoas que conheço desde os 5 anos.

 

Durante as aulas, leio e ouço música com um só fone. Com o outro ouvido, posso ouvir se chamarem o meu nome para responder a alguma pergunta. E, para minha enorme surpresa mais de uma década volvida, respondo sempre com a resposta correcta.

 

Por vezes, escrevo. Lembro-me de ideias que escrevo em papel ou que repito mentalmente, apenas para meu deleite e vaidade. "Que bem que soa!", haveria de pensar. Mas, logo a seguir, acho a frase parva e faço por esquecê-la.

 

Desde a primária que sou batoteira. Ninguém sabe, mas eu escolhia sempre as actividades do Plano Individual de Trabalho que envolvem escrever ou, na pior das hipóteses, ler. Ficava muito frustrada ou aborrecida quando era obrigada a fingir que o facto de me calhar sempre isso era pura aleatoriedade, e lá tirava um pequeno cartão ou folha de papel com instruções para realizar uma operação matemática sem qualquer entusiasmo, um sacrifício necessário.

 

Enquanto sou pequena, apesar de já passar a minha avó em altura, a Professora Antónia inscreve-me no meu primeiro concurso literário, da Editorial Caminho, alusivo à colecção d'Uma Aventura. Nesse concurso, ganho menções honrosas dois ou três anos seguidos. Depois, começo a perceber que o Google não serve só para procurar informação sobre os livros e os filmes do Harry Potter, e passo a inscrever-me em todos os concursos que encontro que permitem a uma miúda de treze ou catorze anos concorrer. A minha avó diz, a brincar:

- Um dia, deixas de ter paredes para tantos diplomas e certificados!

 

Ela está a brincar, mas eu sei que também está a falar a sério, porque ela sabe que isso pode ser um desafio para mim.

 

Com o dinheiro dos prémios, compro CDs dos Jonas Brothers, roupa na Bershka e na Pull&Bear do Rio Sul Shopping, livros da saga Crepúsculo e uma máquina fotográfica de 12MP. Afinal, sou uma adolescente bastante igual às outras, e com esse dinheiro tento remediar um bocadinho do fosso que existe entre o orçamento da minha família e o orçamento das famílias da maioria dos meus colegas no colégio para traquitanas fúteis, às quais alguns parecem ter acesso ilimitado.

 

Nos últimos anos da adolescência, também guardo o dinheiro para pequenas despesas e para as propinas da faculdade. Orgulho-me dessas conquistas e desse talento: eu escrevo. E escrever deu-me dinheiro para ser uma adolescente fútil entre os 13 e os 18 anos.

 

Aos 18, começo a trabalhar e escolho estudar Letras. Quero ser jornalista, apesar de ter um biscate a escrever publicações para blogs publicitários de terceira categoria, mas curiosamente deixo de escrever aquilo de que eu realmente gosto, à excepção deste blog. Não tenho tempo para mais.

 

Mesmo que tivesse esse tempo, estudar literatura mata-me o bicho. Tantos gigantes já vieram antes de mim e escreveram tanto e com tão melhor qualidade. Afinal, para que escreveria eu? Aprender a ler é um presente envenenado, que contamina a admiração que tinha por mim mesma e pelas minhas palavras, pontapeando qualquer esperança de um dia poder ser como esses autores. 

 

Faço o penúltimo semestre da licenciatura na Universidade Católica e escolho a electiva de Escrita Criativa. Conheço a Daniela, a primeira pessoa que conheço que escreve e lê como eu, na mesma quantidade, com o mesmo amor. O nosso professor é o Jorge Vaz de Carvalho, e graças a ele confirmo que afinal não escrevo mal; por outro lado, graças a ele também deixo de ler com prazer durante um par de anos, sempre atenta às falhas dos escritores, mesmo aqueles de quem gosto tanto. Nunca mais perdi completamente esse olhar incansável cheio de julgamento até por quem admiro, mas felizmente vou aprender a geri-lo até ao dia em que escrevo este texto, por fim mais reconciliada com a imperfeição da escrita e da leitura - as minhas e as dos outros.

 

Os meus vinte e poucos anos passam numa nuvem de descobertas, de alegrias profundas e de desgostos inesquecíveis, de lições e de muitos, muitos livros. Já não compro CDs, mas subscrevo o Spotify. Não me tornei na jornalista que queria (mas a Daniela conseguiu), porque me tornei na professora que afinal andava a esconder debaixo da pele e porque já não tenho dúvidas: o que me interessa é escrever. Depois de conhecer a Daniela, conheci o Rui. Depois de conhecer o Rui, conheci a Elisa. Pelo meio, surgiram outras amizades mais passageiras, e não me lembro de quase nenhuma que tenha sido imensamente importante e que não tenha partido pelo menos de uma pergunta ou de um comentário sobre livros e escritores. Estas foram as pessoas que, depois da minha família, me convenceram a continuar a escrever, que insistiram e fizeram questão de ler os meus textos.

 

Se escrever é uma vocação que não depende de prémios (nunca mais ganhei nenhum depois dos 17 anos) ou de títulos (olho com sobranceria para quem se acha escritor por auto-nomeação), eu escrevo. Preciso de escrever, até nos dias em que acho que a minha necessidade frequentemente obsessiva de palavras e clareza vocabular e verbal é mais um entrave do que uma benção. Sofro dos nervos, há dias em que podia rebentar com pânico, mas ter de escrever é uma inevitabilidade.

 

No podcast "10 000 horas", Afonso Cruz explica que escrever é a transpiração do que lê - em primeiro lugar, Afonso Cruz diz-se leitor.

É certo que há suores mais refinados do que outros, por isso não há grande surpresa ao constatar que o meu é inodoro e invisível, mas extremamente pastoso e incontrolável, um pouco como o chichi de um bebé, que é incontinente, inconveniente e desagradável, por muito fofo que também nos pareça.

 

Eu acredito mesmo que quem quer ser escritor ou quem se torna escritor em alguma fase da vida, e sobretudo na infância, foi posto um bocadinho de lado. E, sendo posto de lado, foi possível olhar as coisas de fora [00:05:30].

 

Assim o diz Filipa Melo - escritora, jornalista, crítica literária e, entre todas essas ocupações e mais algumas, também professora da pós-graduação que vou começar este mês, em Escrita de Ficção. (Assistam à conversa completa no vídeo que se segue!)

 

 

Alguns minutos depois, ainda no início da conversa, continua:

Acho que a identidade de todo o artista vem de um certo sofrimento de não pertencer completamente ao mundo dos outros e ficar numa posição de observador. [00:08:49]

 

Ouvir estas declarações é, para mim, como encontrar um cadeirão de braços num cantinho com lareira, onde posso encolher-me a dormitar no meio do Inverno mais frio. Rodeada de adultos, única criança na família, com falta de jeito para fazer amigos, elogiada por ser contida e ter sempre o comportamento adequado e as frases certas na ponta da língua, lembro-me de ensaiar alternativas e outras formas de ser, de pensar, de imaginar e de me fazer entender.

 

Também tenho pensado muito nessa questão: quem é um escritor? Ou melhor: o que é um escritor?

 

A alfabetização crescente e o acesso aos meios de promoção de obras em nome próprio têm gerado o fenómeno dos escritores autopublicados, que procuram ferramentas e formas de distribuir as suas criações . Estes também costumam ser, em simultâneo, os escritores autonomeados. Já vos contei da minha aversão à vaidade das comunicações que recebo por e-mail e pelas redes sociais? Crucifiquem-me!, mas só porque eu faço bolos isso não faz de mim pasteleira. Escrever também não fará de ninguém escritor sem as credenciais e o reconhecimento necessário dos leitores, por isso não me compenetro com a penetração insistente de mensagens na minha inbox de Fulano Etc e Tal | Escritor e Poeta que só vende livros à mãe, ao pai, aos avós e aos padrinhos, mas que se ofende gravemente quando perfeitos desconhecidos não lhe fazem sequer like no perfil de Instagram.

 

Seja como for, eu sei quem não é escritora: eu. E também sei o que não é ser escritora: não escrever e ficar com o texto na cabeça até se evaporar da memória, como eu costumava fazer, só por ter medo que não seja a frase perfeita. Não sendo escritora, ainda assim, escrevo. Sem alternativa, escrevo. Com medo de perder o fôlego pelo caminho um dia destes, volto a estudar literatura e escrita para me forçar a continuar a aprender e a melhorar.

 

Escrever é uma maratona. [00:44:15]

 

É Dulce Maria Cardoso quem o afirma, no programa de rádio de Luís Caetano, "A Ronda da Noite". Logo eu, a quem não é aconselhada a corrida por causa da escoliose, sou obrigada a investir noutros desportos radicais, como passar horas a bater com os dedos no teclado ou a apontar ideias inconsequentes em blocos de notas em papel e no telemóvel. E a evitar a procrastinação por medo, quando não me serve para nada adiar o carácter inadiável da escrita como prioridade na minha vida.

 

Ainda não sei se ser escritor é profissão, passatempo, estatuto ou mania. Nem me interessa, por agora, porque eu sou muitas coisas, entre as quais uma pessoa muito teimosa e obstinada que, por acaso, tenta escrever umas coisas entre ataques de pânico, metades de Victan e muito colo. Na pior das hipóteses fico para professora (quem não faz ensina!, dirá quem merece arder no inferno dos castigos virados para a parede), e isso é outra inevitabilidade muito feliz da minha vida sobre a qual vos posso maçar noutra altura.

 

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Fotografia tirada em Abril de 2021.

Escrevo quase tudo o que lêem neste blog na companhia da Coffee, que ora dorme, ora me corta o raciocínio porque quer brincar, ora está simplesmente perto de mim - de preferência, subornada com um osso.

Este Verão

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É provável que eu já tenha aqui escrito sobre o assunto, mas nunca é demais reconhecê-lo e relembrá-lo: semana a semana, mês a mês, dia a dia, achamos sempre que pouco acontece.

 

A nossa vida parece não mudar, parece estar sempre "na mesma como a lesma", raros são os eventos de monta, os momentos passam sem andarmos sempre a reparar neles a cada segundo. Mas o caminho é em frente. Há quem costume dizê-lo, e realmente faz sentido. Vai-se fazendo, pensando, criando, evoluindo - sabe-se lá o quê, do quê.

 

Por isso, é sempre com grande admiração que chego a Setembro, a olhar para o que se passou nos oito ou nove meses anteriores, como se fosse quase impossível ter feito tanto em tão pouco tempo. E o mundo e as outras pessoas também não pararam. Ainda agora era Junho e eu pensava que nada de especial acontecera ou poderia vir a acontecer, e de repente é Setembro e...

 

É como magia. De facto, menosprezo e subestimo insistentemente a acumulação natural de pequenos feitos e alterações na minha própria vida ao longo do tempo. Tudo junto dá uma bela conta de somar com que me distraí.

 

Este Verão, em particular, parece ter permitido o florescimento de várias primaveras.

 

Em Julho, escrevi algumas ideias sobre o que esperava fazer nos meses seguintes - um prazo a terminar por volta desta altura em que faço o famoso balanço da última estação. Queria atingir com antecedência a minha meta de 30 livros para 2021, queria escrever como nunca me convenci a escrever, queria adoptar um novo passatempo... E consegui fazer tudo isso e mais alguma coisita.

 

Principalmente os dois últimos meses passaram a voar. Ainda mal acredito.

 

Portanto, agora posso dizer que estou a escrever um livro que já conta com 87 000 caracteres. Pelo meio, escrevi contos, anotei ideias para empreitadas futuras e voltei a inscrever-me em concursos literários.

 

Passei a ter ao meu cuidado cerca de 20 a 30 vasos de plantas (árvores, suculentas, flores...). Estou incrédula, este novo interesse apoderou-se de mim.

 

Tenho lido com curiosidade e em abundância. E até ando a ler quase todos os livros que compro!

 

Ouvi dezenas de horas de podcasts, quase todos sobre escrita, autores, escritores e psicologia.

 

Finalmente estou a conseguir organizar o meu espaço de trabalho. E comecei a cobrar mais na minha actividade profissional e a estabelecer limites horários, o que me permitirá trabalhar menos e melhor, para poder escrever e estudar.

 

Consegui publicar com alguma regularidade e o blog foi destacado muitas vezes nas páginas dos Blogs do Sapo e no Sapo.

 

Ao fim de mais de dez anos, voltei a fazer crochet.

 

Fui estando com família e amigos que me visitaram ou que pude visitar, e falei muitas horas ao telefone com eles.

 

Nos últimos dias, retomei o exercício físico. 

 

Pensei muito bem no que quero mesmo fazer nos próximos anos, e como fazê-lo, a começar agora.

 

O Outono começou, de dia ainda faz calor apesar de as noites já estarem frias, daqui a três semanas recomeço o mestrado e começo a pós-graduação.

 

Os meus alunos vão voltar das suas férias e mudanças de casa, por isso vou voltar a dar a quantidade de aulas do costume.

 

Este fim de semana, vou arrumar a roupa fresca e vou buscar a roupa quente ao roupeiro da tralha.

 

Daqui a pouco, vai cheirar ao fumo das chaminés, a primeira versão do meu livro vai estar terminada e o meu cérebro vai voltar a pensar que os dias são aborrecidos, escuros e pouco produtivos por causa da meteorologia adversa e a luz fraca que me deprimem. A minha lista de tarefas vai ficar a abarrotar com trabalhos, projetos e novidades com as quais ainda nem sonho.

 

Daqui a pouco, há-de chegar outra fase. Mais uma. Só mais uma, antes de todas as outras, a toda a velocidade ou sem pressa nenhuma.

Uma visita rápida (mas muito prazerosa) à Livraria Déjà Lu

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Gosto de livrarias. Gosto de procurar e encontrar pechinchas. Portanto, gosto de livrarias e de procurar e encontrar pechinchas em livrarias.

 

Por isso, não admira que tenha gostado da Déjà Lu imediatamente, ao primeiro passo. A Déjà Lu é uma livraria solidária em Cascais, que vende livros em segunda mão (já lidos, tal como indica o seu nome), e cuja receita reverte para causas e instituições de apoio a pessoas com Trissomia 21. Por todas estas razões e mais algumas, é uma livraria incrível para os amantes de boas leituras e de um bom cantinho onde as encontrar.

 

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Desde que conheci o João que pensei "agora é que vou conhecer a Déjà Lu !". Ele é de Cascais, então eu ainda achava que teria mil desculpas para ir à Cidadela. Entretanto, já passaram quase dois anos, a pandemia meteu-se pelo caminho, algumas mudanças na vida e na geografia roubaram-nos a atenção e só este fim de semana é que lá fomos, para aproveitar um curto passeio nestes últimos dias de Verão.

 

Finalmente, saciei a curiosidade.

É preciso salientar que, se um dia eu puder ter uma livraria, ela vai ter de ser tão acolhedora quanto a Déjà Lu. Vai ser bem arejada e iluminada, vai ter tapetes, sofás, cores quentes e uma decoração alusiva à paixão pelas viagens, pelos autores, pela escrita, pelo ambiente aconchegante e convidativo.

 

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Eis uma livraria arrumada, com pessoas simpáticas a atender (a quem nem perguntei o nome, agora que penso nisso...), os livros organizados de forma impecável, as sugestões personalizadas a piscarem-nos o olho, variedade e quantidade para todos os gostos (incluindo uma selecção de livros de arte muito jeitosa, que cativou logo o João). Ainda por cima, os preços são realmente justos e acessíveis - o livro mais caro que terei visto custava 8€, salvo erro, mas na secção de livros em inglês encontrei alguns a 3€!

 

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Gostei de tudo e só tive pena de chegar uma hora antes do fecho. Se tivesse tido mais tempo, teria explorado todos os títulos e cantinhos com maior atenção e disponibilidade. Assim, restou-me procurar e perguntar por títulos específicos, dar uma volta mais ou menos apressada pelas três salas que compõem a livraria Déjà Lu e prometer mais visitas para breve.

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Desta primeira visita, trouxe Deixem Passar o Homem Invisível, de Rui Cardoso Martins (6€), um autor português que quero ler assim que possível.

 

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A Livraria Déjà Lu fica na Cidadela de Cascais, no primeiro edifício logo à esquerda de quem entra no forte, no primeiro andar. Se vierem de carro, podem tentar deixá-lo no parque de estacionamento mesmo à entrada, nos parques pagos subterrâneos ali perto ou, como nós, no parque do Cascais Villa, assim aproveitando um passeio a pé mais longo.

Vocês sabem quem é A Louca da Casa?

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Primeiro, adorei. Depois, estranhei. Finalmente, entendi.

 

A Louca da Casa não é um livro fácil, desafiando convenções do que é um género literário, ora registo autobiográfico, de memórias; ora ficção, invenções sem fim, enredos românticos e romanceados; ora ensaio sobre a vida de escritora, a escrita, o mistério da criatividade e imaginação (a tal "louca da casa").

 

Passei a leitura das duzentas e tal páginas a querer confiar em Rosa Montero, a querer que ela me dissesse: isto aconteceu mesmo, isto não. Mas não foi possível arranjar caixinhas. O objectivo de Rosa Montero foi quebrar essa definição tão rígida e explorar as potencialidades de géneros que podem ser distantes, mas que são mais próximos do que os julgamos.

 

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Afinal, o que nos garante que uma autobiografia é isenta e que conta tudo tal como aconteceu? Aliás, como cheguei à conclusão através da leitura, ao ouvir outras pessoas e na minha própria terapia: cada vez que tentamos contar uma história, acabamos por contar uma história diferente. É sempre, idealmente, a mesma história, só que a vida muda, a nossa perspectiva muda, acrescentamos um ou outro detalhe, real, imaginado ou tão bem fabricado que achamos verídico. A autora prova-o, por exemplo, usando a história de como conheceu M., um actor famoso. Não direi mais nada, para que possam descobrir do que se trata ao vosso ritmo.

 

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Ao longo deste livro, somos lembrados de que, até quando queremos contar a verdade mais pura sobre as nossas vidas, é inevitável contarmos outra coisa qualquer, e que os escritores contam a verdade sem querer, enquanto podem não ser totalmente verdadeiros quando tem de acontecer de propósito. Sem o leitor saber, e até sem eles mesmo se aperceberem, podem embelezar as suas histórias de vida, puxar a brasa à sua sardinha, tornar os pormenores mais interessantes, concentrar-se mais no que lhes convém e esquecer agruras várias que poriam em causa a opinião alheia e a sua reputação.

 

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Assim sendo, o leitor é convidado a sentir incómodo à conta da exploração do conceito de verdade. Queremos, sempre, a verdade. E nada mais do que a verdade, mesmo que ela seja uma verdade só de boca, irremediavelmente coxa, apenas idealizada e não necessariamente isenta. Por isso, temos de aprender a conviver com a inquietação e a dúvida, aceitando que os limites entre o mundo real e o mundo irreal numa obra literária de cariz (supõe-se) autobiográfico se encontram naturalmente esbatidos, nebulosos.

 

Quanto a mim e à minha experiência de leitora, fiquei especialmente intrigada com os acontecimentos da vida de Rosa Montero, uma vez que me ando a interessar por ler e ouvir sobre vidas de mulheres escritoras, qual a sua experiência de vida enquanto artistas. Por isso, tive, também eu, de aprender a aceitar que as partes mais inventadas poderiam ser tão verdadeiras, à sua maneira, quanto as outras. Que também elas são capazes de revelar o que há de mais íntimo para contar, apenas não do modo literal que eu pretendia.

 

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No final, este é o livro certo para quem procura uma exploração e divagação (sim, uma longa e intricada divagação!) sobre o poder das palavras e o ofício que é escrever.

 

Este livro é um trabalho um pouco meta e metafórico, sem deixar de nos impelir a ler um e outro capítulo, mesmo quando já nos sentimos prontos para fazer uma pausa. Não há muitas pausas possíveis, porque, tal como a escrita, a leitura é de igual forma um acto que absorve, consome e agarra quando assim tem de ser. Chega o momento e precisamos de entender, estudar e tentar convocar a louca da casa, com a ajuda deste A Louca da Casa.

 

Não acho que as opiniões sejam unânimes, mas, feitas as contas, gostei disto a valer.

 

Nota: preparem-se para ir apontando as referências a outros livros e autores extremamente interessantes, para sublinhar e para ir relendo as páginas anteriores.

 

Nota 2: este livro é mencionado neste episódio do podcast "Meu Inconsciente Coletivo", criação da escritora mais mencionada neste blog, Tati Bernardi.

 

Nota 3: já repararam na associação constante da loucura à criatividade artística, nomeadamente à criação literária? Entre os meus podcasts favoritos, encontra-se "Louco Como Eu" (entrevistas a escritores, com Susana Moreira Marques). A própria Tati Bernardi escreveu o livro Depois a Louca Sou Eu. E, em geral, os meus escritores favorito são quase todos, se não loucos, pelo menos neurodivergentes.

O livro mais útil para trabalhadores independentes e freelancers

Gostei tanto da minha chefe no primeiro trabalho sério da minha vida, que jurei nunca mais voltar a trabalhar por conta de outrem se não pudesse ter superiores tão bons líderes, generosos e apoiantes do meu desenvolvimento quanto ela. Foi aquela senhora, professora catedrática, sonhadora, imparável, que me mostrou o quão decisivo é alguém acreditar no nosso potencial para ser inovador, pensar criativamente e empreender esforço em prol de projectos que nos mudam e mudam os outros. Era exigente e não permitia desculpas quando tinha de ser, mas também sabia cuidar dos seus e zelar pela sua alegria e bem-estar.

 

Eu já sabia que dificilmente voltaria a ter uma chefe assim. Sabia que teria sempre dificuldade em aceitar menos do que já me tinha sido dado e que lidar com maus chefes, ou chefes insuficientes, seria um tormento.

 

Por isso, do alto da minha ingenuidade propus-me a não me contentar com qualquer tipo de trabalho como um princípio fundador da minha vida profissional futura, e até agora tenho tido a alegria de continuar a ter condições para ser trabalhadora independente.

 

Mas ser trabalhadora independente tem desafios para os quais raramente estamos preparados, porque só os conhecemos realmente quando os temos de enfrentar, quando eles inegavelmente aparecem na nossa vida para ficar.

 

É sobre isso que a jornalista e escritora britânica Rebecca Seal escreve no seu livro Solo: how to work alone (and not lose your mind). Em Portugal, chama-se A solo: como trabalhar sozinho (e não dar em doido), e está publicado pela chancela Vogais.

 

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Para mim, as maiores dificuldades passam pela gestão do tempo e da motivação. Mas também sei que, em grande parte, essas são dificuldades resultantes do isolamento e da sensação consequente de estar só, para o bem e também para o mal.

Como já escrevi sobre este livro e a minha experiência como trabalhadora independente há alguns dias, não me alongarei muito mais agora. Ainda assim, não posso deixar de o recomendar a quem estiver na mesma situação profissional e precisar de relembrar ou aprender mais sobre como não perder o juízo, o tempo ou o dinheiro. Em Solo, Rebecca Seal conta-nos muito do que devemos saber sobre a gestão de expectativas, sobre a ansiedade e o equilíbrio emocional, sobre finanças pessoais, sobre perseverança, chamadas de Zoom e hábitos saudáveis que podem ser adoptados. E, quase no fim, ainda dá umas dicas de decoração e conselhos para quem, apesar de trabalhar noutro sítio qualquer, num ambiente mais tradicional, coabita com pessoas que trabalham a partir de casa (que eu imediatamente partilhei com o João e que aproveito para deixar aqui numa mini-galeria - porque isto, meus amigos, é serviço público).

 

 

Destes últimos pontos mencionados, devemos salientar que é essencial darmos prioridade ao conforto e funcionalidade no local onde nascem as nossas melhores ideias e onde temos de passar pelas situações mais aborrecidas; e que devemos, já hoje, conversar e mostrar às nossas famílias de que forma podem contribuir e ajudar-nos.

 

Este foi, até ao momento, o livro que melhor resumiu o caminho profissional que escolhi e que melhor respondeu às minhas dificuldades de trabalhadora por conta própria. Solo talvez seja o livro mais útil para trabalhadores independentes ou freelancers, seja para os que já sabem a lição toda de cor ou para aqueles que precisam de uma espécie de raspanete ou de uma dose de realidade (sempre com bom humor, boa disposição e bons testemunhos).

 

Além disso, se estiverem a pensar numa mudança de carreira, esta também é uma leitura obrigatória, a que vos vai convencer ou dissuadir deste caminho profissional.

 

Entretanto, se tiverem mais sugestões de leitura semelhantes, por favor, avisem! E, se tiverem dúvidas sobre este caminho profissional, podem sempre enviar-me um comentário, mensagem ou e-mail.

Fui à Feira do Livro de Lisboa e já tive de arranjar uma nova estante

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1. Feiroooou! Sim, estou muito contente, e sim, já tive de arranjar outra estante.

2. Sou uma pessoa bastante nostálgica. Depois de Março de 2020, passei a trabalhar exclusivamente em casa, por isso já estava cheia de saudades de Lisboa, onde só voltei umas cinco vezes desde então, todas elas visitas rápidas ou por motivos muito específicos e nunca no centro. Ontem, tinha planos para lá passar o dia. O trânsito na A2 fluía; o céu azul e a brisa fresca indicavam o início deste dia maravilhoso; a ideia de rever amigos queridos deixava-me num estado de entusiasmo leve pelo qual esperei vários meses. No entanto, assim que cheguei ao túnel do Marquês, lembrei-me de que gosto é de conduzir (pouco, muito pouco) fora da cidade, de viver longe de semáforos e lugares de estacionamento duvidosos, e de não ter de apanhar o metro e o comboio todos os dias.

3. Terei sempre Lisboa guardada no coração, principalmente pelas livrarias e pelos amigos. Por uns e por outros, vale sempre a pena regressar.

 

Aproveito para também vos deixar com os livros que comprei na Feira do Livro:

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Já leram algum destes? E têm recomendações do género "crónica (mais ou menos) autobiográfica"?

A propósito, o livro Depois a Louca Sou Eu, da autora Tati Bernardi, é um dos livros da minha vida. Acho que, depois de o ler pela primeira vez, há dois anos, nem me cheguei a aperceber de quanto mudaria a minha vida, a minha própria escrita, a minha forma de ver o mundo. Comprei para oferecer, claro está, agora que tem uma nova edição pela Tinta-da-China.

As dores do trabalhador independente

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Living with solitude is a skill we all need and one we can improve, but being alone all day, every day or even most days, can be tough. It is much harder to frown out your inner critic when you don't have other, noisier people around to shout over it, or quieter ones to talk you down, and though it might spur on creativity and innovation, it's also much easier for unwanted thoughts to bubble up and overtake you. - Rebecca Seal, em How to Work Alone (and Not Lose Your Mind)

 

Trabalhar por conta própria torna as nossas dores muito solitárias. Se, por um lado, todas as vitórias parecem arrancadas a ferro e fogo, contra todas as expectativas, provando o esforço empreendido e a argúcia que lá encontrámos para resolver os desafios, por outro, todas as dores permanecem no nosso peito, quais batatas quentes que ficaram a arder no nosso colo, por não termos a quem passar o fardo. Não temos ninguém com quem partilhar o fardo das dificuldades, das desilusões ou dos insucessos. Estamos por nossa conta, para o bem (efémero, fácil de esquecer) e, acima de tudo, para o mal (o que mais relembramos, insistentemente).

 

De facto, é mais fácil prestar atenção ao que corre mal, do que ao que corre bem. Maldito enviesamento cognitivo! Diz a ciência que, para cada coisa negativa, devemos ter três positivas. Para quem trabalha sozinho, esta percepção errónea mata aos poucos a nossa confiança e o nosso bem-estar global.

 

Ultimamente, a existência de altos e baixos nas minhas atividades tem-me deixado mais cansada. Parece que, para cada nova alegria e fonte de satisfação, germina um novo obstáculo. Por outro lado, tenho de me recordar com frequência que o que interessa é não regredir, mesmo quando não há progresso. E que, além dessas atividades profissionais mais óbvias, tenho outras atividades nas quais posso encontrar consolo e realização - a escrita e o estudo sendo exemplos claros disso, não me trazendo remuneração neste momento, mas representando vitórias de um tipo diferente, não menos válido e, decerto, valioso na mesma medida.

 

Para colmatar alguma solidão sentida no processo, sinto que tem ajudado falar com uma amiga, também ela freelancer. Ultimamente, partilhamos dores muito parecidas, nas suas causas, manifestações, efeitos. Seja a ansiedade, seja a autoestima (temporariamente) posta em causa, seja as mil interrogações sobre o que fazer, quando fazer e como fazer... Sem dúvida, ajuda dividir as dores, mesmo que numa curta chamada ou mensagem, como faríamos ao almoço com colegas de trabalho, se trabalhássemos no mesmo espaço físico, no mesmo emprego.

 

Aliás, esse é um dos conselhos que li este fim-de-semana no livro que vos sugiro até sem ter chegado a meio da leitura, Solo: How to Work Alone (and Not Lose Your Mind):

Ser trabalhador independente a partir de casa, no meio duma pandemia, a viver longe da cidade, não tem de ser uma atividade solitária e isolada, ainda que pela sua natureza tenha de ser uma atividade realizada de forma individual, a sós com a nossa própria pessoa e mais ninguém (a tal que, tantas vezes, se tem de desdobrar em empregado, chefe, contabilista, marketeer, criativo, estafeta, gestor de equipa...; e que, por isso, se encontra exausta).

 

Ou seja, partilhar a experiência com mais gente da nossa confiança, que num contexto de empresa adoraríamos ter como colegas, pode ser uma solução para não nos sentirmos tão desacompanhados e para, acima de tudo, eles nos irem lembrando daquilo que teimamos em esquecer - como a normalidade das dores absolutamente inevitáveis, quiçá fundamentais, desta escolha profissional/económica que tomámos há uns anos. E que está tudo bem. E que não há problema sério nenhum, só as queixas habituais.

30/30 (recomendar livros)

Nunca pedi a um livreiro que me recomendasse um livro. Revelar desejos e expectativas a um desconhecido, cuja única ligação a mim é, em abstracto, o livro, parece-se demasiado com a confissão católica, numa versão mais intelectualizada.

(Valeria Luiselli, em Deserto Sonoro, p. 104, edição da Bazarov)

 

É difícil descrever os livros de que precisamos, tanto mais se o tivermos de dizer a um desconhecido. Para recomendações, procura-as junto dos meus amigos. Só uma vez pedi ajuda a uma livreira (na Bookshop Bivar, em Lisboa), por me ter sentido acolhida, o que, regra geral, é difícil em livrarias massificadas e de compra impessoal, despachada. Para as leituras futuras sobre as quais tenho a certeza, compro nessas últimas. Para quando não sei realmente o que quero, prefiro as livrarias pequenas, com gente, apesar de me sentir invariavelmente acanhada, apesar de até ter o hábito de trocar meia dúzia de palavras com os livreiros, apesar de desperdiçar quase sempre a simples pergunta:

Tem algum livro que isto e aquilo?

 

Ou ainda:

Que livro mais tocou a Senhora Livreira ou o Senhor Livreiro?

 

Ora, poderão os livreiros ser uma espécie de confessores dos crentes na religião das palavras?

 

Não sendo eu livreira e ainda não tendo o tal à-vontade para abordar os livreiros, vejo nas trocas informais na Internet um lugar de partilha que pode ecoar pelo mundo fora, às vezes seguindo esse eco sem encontrar parede onde bata, outras tropeçando nesta e naquela. Tenho pouca fé no bookstagram e noutros canais já viciados pelos números, pelas parcerias e pelos egos, mas vou tirando proveito do Goodreads, de alguns blogs e das opiniões de pessoas específicas nas quais confio. Por isso, continuo a escrever sobre livros, textos e escritores. Faço-o desinteressada, troca por troca, prazer por prazer. Porque valorizo a generosidade e a disponibilidade que temos uns para os outros, entre pessoas que nem se conhecem, ou umas que, mesmo assim, conhecem outras um bocadinho melhor. Porque é tão bom partilhar impressões espontâneas sobre aquilo que nos alegra, estimula, faz viver, dá alento. Acredito em recomendações extremamente personalizadas que são feitas por acaso, mesmo que nunca cheguemos a saber que as fizemos.

 

Dito isto, aqui vos deixo as minhas últimas leituras preferidas, com a nota de que ando muitíssimo interessada no processo criativo, e até logístico, dos escritores, principalmente de escritoras mulheres, assim como das suas circunstâncias familiares e sociais:

 

A propósito, cumprindo-se os primeiros seis meses de 2021, esta é a minha lista completa de leituras terminadas neste período:

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***

 

Com este texto, termino o desafio mil vezes interrompido de escrever 30 dias seguidos, que de seguidos pouco tiveram,  tal qual uma relação imberbe, a primeira doutras seguramente mais comprometidas. Além de ter sido um desafio interessante, por me ter obrigado a escrever e a treinar a desenvoltura na escrita, e por me ter obrigado a esmiuçar o que só a mim me atormenta ou alimenta os dias, também o acabo com a sensação de que servirá de retrato instantâneo, como uma fotografia de polaroid, dos meus interesses e pensamentos actuais.

 

Doravante, encontrarão todos os textos sob a etiqueta 30 em 2021. Quem sabe... poderei repeti-lo em anos futuros!

25/30 (os escritores e as suas personagens)

 

"The truth is that every character has a bit of me. Perhaps an obsession, or a sadness or a dilemma. It could be some kind of wistfulness or definitely a need to know a rootedness in history. So the characters are not really me." É assim que, na plataforma Masterclass, Amy Tan apresenta a relação com as personagens que cria nos seus trabalhos de ficção.

 

Este testemunho consolou-me. Há poucos dias, acabei de escrever um conto sobre o qual tenho pensado mesmo muito e cujas personagens são, sem dúvida, uma mistura de quem eu sou, de quem eu poderia ser, de pessoas à minha volta, de quem elas poderiam ser... e, em geral, as personagens são elas mesmas, como é evidente.

 

Há uma certa fixação dos leitores no que toca a apontar dedos. "Isto é sobre mim? É sobre ti? Quem é esta personagem, afinal?" Quanto mais próximos do escritor, mais as águas se agitam: é uma questão de ego, saber se algo foi escrito sobre si, o que se insinuou, a que luz terão sido retratados. Com essa fixação, surge também a impaciência de parte a parte. Amy Tan diz que, quanto mais receio alguém tem de ter sido retratado (a bem ou a mal, intencional ou não intencionalmente), menos a razão estará do seu lado. Os leitores continuam a procurar resquícios de realidade na ficção, enquanto os ficcionistas pensam no óbvio. Que maçada!

 

Como Dulce Maria Cardoso já tem mencionado em entrevistas, não precisou de alguma vez ser gorda para entender o que uma pessoa como a sua personagem Violeta sente, que dúvidas, inquietações ou pensamentos é que tem. O que interessa, diz a escritora portuguesa, é ter empatia.

 

As personagens que são inventadas por alguém que escreve são o seu autor, ao mesmo tempo que não o são. Apesar de não surgirem do vazio, precisando de ter a sua génese em qualquer plano real, não têm de ser nem o seu autor, nem ninguém à sua volta. A tentativa de identificação é infrutífera.

 

Como tal, as minhas personagens são compósitas (de tudo e mais alguma coisa), para o bem e para o mal. No ano passado, escrevi outro texto cujo protagonista é uma pessoa que conheço. Disse-lhe mesmo que tinha escrito algo baseado na sua pessoa e até na nossa relação; mas a verdade é que esse não deixa de ser um trabalho de ficção. A protagonista não é essa pessoa e, mesmo que fosse... não seria, mesmo assim! Seria uma personagem inevitavelmente misturada doutras impressões, experiências ou indivíduos que eu conheço.

 

O último texto que escrevi é um conto, e só alguns dias depois de o terminar é que concluí: eu aproveitei muitas características minhas e doutros com quem tenho contactado, além de que criei uma personagem que, apesar de morta à partida, é a que mais facilmente identificariam como sendo eu. Mas não sou. E não, eu não tenho vontade de ser a mulher feita de palavras que criei. Nem tenho vontade de ser nenhum dos sujeitos da minha cabeça que transcrevi em texto! Para isso é que a criação serve: para extravasar, para ensaiar ou inventar o que se quiser, sem nos ser cobrado ou questionado qualquer aspecto.

 

A obra é o que é. A obra não é o autor.