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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

30/30 (recomendar livros)

Nunca pedi a um livreiro que me recomendasse um livro. Revelar desejos e expectativas a um desconhecido, cuja única ligação a mim é, em abstracto, o livro, parece-se demasiado com a confissão católica, numa versão mais intelectualizada.

(Valeria Luiselli, em Deserto Sonoro, p. 104, edição da Bazarov)

 

É difícil descrever os livros de que precisamos, tanto mais se o tivermos de dizer a um desconhecido. Para recomendações, procura-as junto dos meus amigos. Só uma vez pedi ajuda a uma livreira (na Bookshop Bivar, em Lisboa), por me ter sentido acolhida, o que, regra geral, é difícil em livrarias massificadas e de compra impessoal, despachada. Para as leituras futuras sobre as quais tenho a certeza, compro nessas últimas. Para quando não sei realmente o que quero, prefiro as livrarias pequenas, com gente, apesar de me sentir invariavelmente acanhada, apesar de até ter o hábito de trocar meia dúzia de palavras com os livreiros, apesar de desperdiçar quase sempre a simples pergunta:

Tem algum livro que isto e aquilo?

 

Ou ainda:

Que livro mais tocou a Senhora Livreira ou o Senhor Livreiro?

 

Ora, poderão os livreiros ser uma espécie de confessores dos crentes na religião das palavras?

 

Não sendo eu livreira e ainda não tendo o tal à-vontade para abordar os livreiros, vejo nas trocas informais na Internet um lugar de partilha que pode ecoar pelo mundo fora, às vezes seguindo esse eco sem encontrar parede onde bata, outras tropeçando nesta e naquela. Tenho pouca fé no bookstagram e noutros canais já viciados pelos números, pelas parcerias e pelos egos, mas vou tirando proveito do Goodreads, de alguns blogs e das opiniões de pessoas específicas nas quais confio. Por isso, continuo a escrever sobre livros, textos e escritores. Faço-o desinteressada, troca por troca, prazer por prazer. Porque valorizo a generosidade e a disponibilidade que temos uns para os outros, entre pessoas que nem se conhecem, ou umas que, mesmo assim, conhecem outras um bocadinho melhor. Porque é tão bom partilhar impressões espontâneas sobre aquilo que nos alegra, estimula, faz viver, dá alento. Acredito em recomendações extremamente personalizadas que são feitas por acaso, mesmo que nunca cheguemos a saber que as fizemos.

 

Dito isto, aqui vos deixo as minhas últimas leituras preferidas, com a nota de que ando muitíssimo interessada no processo criativo, e até logístico, dos escritores, principalmente de escritoras mulheres, assim como das suas circunstâncias familiares e sociais:

 

A propósito, cumprindo-se os primeiros seis meses de 2021, esta é a minha lista completa de leituras terminadas neste período:

2021.png

 

***

 

Com este texto, termino o desafio mil vezes interrompido de escrever 30 dias seguidos, que de seguidos pouco tiveram,  tal qual uma relação imberbe, a primeira doutras seguramente mais comprometidas. Além de ter sido um desafio interessante, por me ter obrigado a escrever e a treinar a desenvoltura na escrita, e por me ter obrigado a esmiuçar o que só a mim me atormenta ou alimenta os dias, também o acabo com a sensação de que servirá de retrato instantâneo, como uma fotografia de polaroid, dos meus interesses e pensamentos actuais.

 

Doravante, encontrarão todos os textos sob a etiqueta 30 em 2021. Quem sabe... poderei repeti-lo em anos futuros!

25/30 (os escritores e as suas personagens)

 

"The truth is that every character has a bit of me. Perhaps an obsession, or a sadness or a dilemma. It could be some kind of wistfulness or definitely a need to know a rootedness in history. So the characters are not really me." É assim que, na plataforma Masterclass, Amy Tan apresenta a relação com as personagens que cria nos seus trabalhos de ficção.

 

Este testemunho consolou-me. Há poucos dias, acabei de escrever um conto sobre o qual tenho pensado mesmo muito e cujas personagens são, sem dúvida, uma mistura de quem eu sou, de quem eu poderia ser, de pessoas à minha volta, de quem elas poderiam ser... e, em geral, as personagens são elas mesmas, como é evidente.

 

Há uma certa fixação dos leitores no que toca a apontar dedos. "Isto é sobre mim? É sobre ti? Quem é esta personagem, afinal?" Quanto mais próximos do escritor, mais as águas se agitam: é uma questão de ego, saber se algo foi escrito sobre si, o que se insinuou, a que luz terão sido retratados. Com essa fixação, surge também a impaciência de parte a parte. Amy Tan diz que, quanto mais receio alguém tem de ter sido retratado (a bem ou a mal, intencional ou não intencionalmente), menos a razão estará do seu lado. Os leitores continuam a procurar resquícios de realidade na ficção, enquanto os ficcionistas pensam no óbvio. Que maçada!

 

Como Dulce Maria Cardoso já tem mencionado em entrevistas, não precisou de alguma vez ser gorda para entender o que uma pessoa como a sua personagem Violeta sente, que dúvidas, inquietações ou pensamentos é que tem. O que interessa, diz a escritora portuguesa, é ter empatia.

 

As personagens que são inventadas por alguém que escreve são o seu autor, ao mesmo tempo que não o são. Apesar de não surgirem do vazio, precisando de ter a sua génese em qualquer plano real, não têm de ser nem o seu autor, nem ninguém à sua volta. A tentativa de identificação é infrutífera.

 

Como tal, as minhas personagens são compósitas (de tudo e mais alguma coisa), para o bem e para o mal. No ano passado, escrevi outro texto cujo protagonista é uma pessoa que conheço. Disse-lhe mesmo que tinha escrito algo baseado na sua pessoa e até na nossa relação; mas a verdade é que esse não deixa de ser um trabalho de ficção. A protagonista não é essa pessoa e, mesmo que fosse... não seria, mesmo assim! Seria uma personagem inevitavelmente misturada doutras impressões, experiências ou indivíduos que eu conheço.

 

O último texto que escrevi é um conto, e só alguns dias depois de o terminar é que concluí: eu aproveitei muitas características minhas e doutros com quem tenho contactado, além de que criei uma personagem que, apesar de morta à partida, é a que mais facilmente identificariam como sendo eu. Mas não sou. E não, eu não tenho vontade de ser a mulher feita de palavras que criei. Nem tenho vontade de ser nenhum dos sujeitos da minha cabeça que transcrevi em texto! Para isso é que a criação serve: para extravasar, para ensaiar ou inventar o que se quiser, sem nos ser cobrado ou questionado qualquer aspecto.

 

A obra é o que é. A obra não é o autor.

24/30 (ler é um dever humanista)

Ler é um dever humanista, disse Maria do Rosário Pedreira, nesta conversa com Francisco José Viegas. É uma afirmação com a qual não poderia concordar mais. Não querendo desapropriar a autora da afirmação, pus-me a pensar nela.

 

Para ganhar o hábito, nem sei se interessa o que se lê, nem onde, nem como, se é no telemóvel, se é no Kobo, se é no computador, se é em livro, jornais, revistas... Mas que se leia! E de forma ininterrupta. Sem ser só "as gordas", que de títulos, manchetes, sensacionalismos e click bait está o mundo cheio. A seguir - e para sempre - que se continue a cultivar o desafio, outras leituras, outras escolhas, outros horizontes.

 

Ler é um dever humanista, porque estar informado mas também saber pensar, seleccionar informação e desafiar o nosso ponto de vista é, acima de tudo, um dever cívico. Imaginar outras vidas, universos, ideias, crenças, ensaiar possibilidades e experiências... Tudo isto é um exercício de empatia. Ficção ou não, ler é um exercício que nos leva a praticar e a confrontar o diferente. Ler obriga-nos a uma dedicação de mais do que ínfimos segundos da nossa atenção plena. Obriga-nos a ler e reler, revisitar ideias, discuti-las mesmo que sozinhos, sem mais ninguém. Ensina-nos a reflectir, dando-nos algumas ferramentas que não obteríamos doutro modo. É uma forma de cuidar da mente, mas também das comunidades ou grupos a que pertencemos, e da sociedade - ainda que indirectamente. É uma forma de aprendizagem, para melhor ser, para melhor estar, para melhor fazer

 

Claro que não é garantido que quem lê mais há-de levar a cabo de forma muito melhor os seus deveres de cidadania. Ainda assim, ler é um bom ponto de partida.

22/30 (quando as palavras se esgotam)

Tenho tentado cumprir o desafio do texto diário, mas tem sido complicado. Entre enxaquecas, sinusite e alergias que me impedem de me concentrar, outros textos aos quais me ando a dedicar de forma mais urgente, fazer as tarefas que me competem em casa, e o trabalho e o mestrado que têm de ser as minhas actividades principais, poucas palavras restam para espremer.

 

No entanto, eu sei que é importante escrever um pouco todos os dias. Obrigar-me a escrever, ou adormecer a tentá-lo (o que já aconteceu) tem-me ajudado a levar a cabo o lema de que a persistência é o melhor caminho. Não há talento que subsista sem dedicação, atenção, tempo e pelo menos a promoção d oportunidade para criar. É importante sentarmo-nos para podermos dar prioridade ao que mais tencionamos valorizar. Afinal, sempre se disse que de boas intenções está o inferno cheio. Escritores que admiro repetem essa ideia: o que diferencia um escritor promissor no seu início de carreira, mas que acabou por não escrever grandes obras, de um escritor que conseguiu ao fim de um certo tempo estabelecer-se no meio pode ser, só e apenas, o segundo ter continuado a insistir até conseguir produzir o trabalho desejado, depois de se frustrar, de se sentir um impostor, de trabalhar noutras áreas e de ter investido tempo a praticar e a experimentar. Claro que há outras variantes a considerar (a sorte, a liberdade financeira e intelectual, as circunstâncias da vida em geral), mas é fácil concluir que escrever não é só chegar lá e já está.

 

Por isso, insistirei até chegar aos 30 textos diários, mesmo que não sejam consecutivos. Quando as palavras se esgotam, continuamos a escrever, nem que seja a última palavra conseguida. Pelo menos, foi isso que aprendi sobre a estratégia da escrita por fluxo de consciência. É continuar lá, marcar o ponto, até que a água da inspiração (e, acima de tudo, da perspiração) volte a jorrar.

21/30 (mentores e autobiografias)

Hoje, escrevo em continuação ao que escrevi anteontem antes de adormecer (e sim, sei bem que falhei um dia do desafio, mas aqui continuo, em direcção às trinta publicações prometidas).

 

Como rematei, não encontro mentores no mundo imediato ao meu, ou com quem possa ou me sinta à vontade para falar, mas encontro palavras: autobiografias, artigos, crónicas, ensaios, testemunhos. Ultimamente, sinto que me vão guiando, que me vão enchendo as medidas do necessário.

 

Os blogs funcionam mais ou menos assim, já agora. São espaços simultaneamente egocêntricos e de partilha, um espaço criado porque o "eu" tinha algo para dizer, mas com a condição de que haja alguém para ler. Procuramos a experiência de pessoas com quem temos, ou talvez com quem queiramos ter, algo em comum. Ou através das quais possamos viver por contágio escrito-lido.

 

E não, não precisamos de ter precisamente a mesma vida dos autores dos textos que lemos. Talvez procuremos apenas consolo, manuais de instruções para existências múltiplas e alheias, soluções imaginadas para um mundo de possibilidades imaginadas, formas de ser, estar e sentir que poderiam ser as nossas e que só não o são por acaso.

 

E se...? E caso..., será que...? O que diz o outro sobre si, que lá no fundo também poderia ser sobre mim?

19/30 (blogs, livros e a liberdade de expressão)

Demoramos cinco minutos a criar um blog, talvez mais dez a escrever a primeira publicação. Podemos opinar, deitar cá para fora as nossas postas de pescada, bastando clicar no botão azul que permite que o nosso texto vá para o ar. Nas redes sociais, idem; aliás, nelas é ainda mais rápido e intuitivo escrever e dizer o que quisermos, mesmo quando ainda não pensámos muito no assunto, ou mesmo quando o que escrevemos ou dizemos não faz sentido, ou atenta contra alguém, ou quando não era bem aquilo que queríamos comunicar.

 

Assim é a liberdade de expressão em 2021, em Portugal. Qualquer pessoa dispõe de recursos, ferramentas e conhecimentos para, em curtos minutos, contar ao mundo o que lhe vai na mente. Desde o acesso universal à educação, até ao poder de nos fazermos ouvir quando, onde e como queremos, passando pela generalização do uso das tecnologias da informação, a liberdade é um dado adquirido.

 

Sabiam que, na Tailândia, o livro 1984 é proibido? Na altura em que vivi em Banguecoque, fui ver uma peça de teatro baseada na obra, e todos naquela sala, numa das melhores universidades do país, sabiam que faziam parte de um acto colectivo de rebelião contra as amarras da ditadura militar e da monarquia absoluta, inquestionável. Antes de entrarmos, apontava-se e murmurava-se para um jovem. "Ele já foi preso por ter ido ler passagens do 1984 para a porta da Embaixada dos Estados Unidos".

 

A certa altura, não sei se antes ou depois de ir ver essa peça encenada por alunos da Universidade Chulalongkorn, comprei o 1984 para o ler pela primeira vez, encontrado na minha livraria de eleição, de livros usados em inglês, a Dasa Books, na avenida Sukhumvit. Eu sabia que, sendo estrangeira, esse estatuto poderia beneficiar-me ou, infelizmente, colocar-me em maior perigo se fosse apanhada com o livro nas mãos. Decidi não arriscar, e envolvi a capa em papel branco.

 

Em Portugal, antes do 25 de Abril de 1974, seria impossível ter um blog livre, que não fosse detalhadamente escrutinado (se os houvesse, é claro), tal como seria impossível ler qualquer livro que se quisesse (se se soubesse ler e escrever), ou obtê-lo ou trazê-lo para Portugal, tal como na Tailândia, em 2017. A minha avó conta-me que o meu avô ia à Livraria Barata comprar livros proibidos, por exemplo. Já se imaginaram a viver num mundo em que há leituras e obras proibidas e censuradas? Eu não.

 

Quando alguém recusa ou desvaloriza a importância de vivermos em democracia em Portugal, é impossível não sentir a profunda injustiça dessa sua tomada de posição. Eu, mulher, que nasci num país em paz, que não dependo do poder patriarcal para sobreviver e tomar as decisões da minha vida, que jamais vi o que escrevo, digo ou crio censurado, que nunca me senti perseguida por ter opiniões (sejam elas mais ou menos acertadas, mais ou menos reflectidas), sinto-me privilegiada. Escrevo e estudo sobre o que quero e me apetece, vivo com um homem com quem não estou casada, beijo em público, dou a mão em público, sinto-me livre e os meus actos, se não lesarem ou magoarem ninguém, podem mesmo nem sequer ter quaisquer consequências. O mesmo não puderam dizer mulheres como as Três Marias, e mesmo a minha avó ou a minha bisavó.

 

Quem viveu a ditadura e o 25 de Abril está a envelhecer. A cada nova celebração do Dia da Liberdade, temos cada vez menos testemunhos na primeira pessoa prontos a refrescarem-nos a memória. Dentro de duas gerações, os pais e os avós dos filhos da madrugada (pegando na canção de Zeca Afonso ou no título do programa de Anabela Mota Ribeiro) não estarão cá para contar que Portugal era esse. Pode tornar-se cada vez mais difícil recordar como era viver no nosso país antes de 1974, ou acreditar que vivemos realmente num país melhor. A memória pode atraiçoar, o enviesamento é inevitável. Resta-nos cuidar do legado e preservar o que for possível da memória de grande parte do século XX, ainda tão recente, mas mais distante a cada dia que passa.

 

Não, a democracia como a conhecemos hoje não é perfeita, longe disso. Muitas desigualdades continuam a existir, tal como corrupção, pobreza, desemprego, desespero, falta de oportunidades. Mesmo assim, não tenhamos ilusões: a vida é melhor agora do que há 47 anos. Tratemos de acrescentar qualquer coisa, dentro das nossas possibilidades, a essa liberdade que outras gerações não tiveram.

18/30 (escrever sobre as falhas)

Se há algo que tenho aprendido ultimamente sobre a escrita, isso será sem dúvida que o mais difícil de escrever é aquilo que mais tem de ser escrito.

 

As palavras não são presas fáceis. Devemos saber manipulá-las, chamá-las à nossa teia, enredá-las em relações inesperadas e mesmo forçadas. Aquilo que mais sinto necessidade de escrever é aquilo que não sai. Talvez não saia porque, inconscientemente, eu sei que será doloroso ler o que está na folha, será um confronto com a minha imperfeição e a imperfeição do meu pensamento, mas principalmente com a imperfeição do mundo que eu ainda não consigo comunicar.

 

Sobre o que queres escrever, Beatriz? Quero escrever sobre as falhas. Todos nós temos falhas, somos resultados de falhas e não temos outra hipótese senão ir navegando todo o falhanço que nos rodeia. Penso que é para isso que a literatura serve, para deixar um registo do que mais nos incomoda, assim como aquilo que, por contraste, mais desejamos.

 

Catarse. Escritores e leitores procuram a libertação através da explicação da ordem do mundo, esse mundo cheio de falhas e, por isso, todo ele imperfeito. É impressão minha, ou os escritores procuram, com os recursos que têm ao dispor, racionalizar o que é irracional?

 

É por isso que me custa tanto escrever. Eu tenho muito medo de encarar a falha, quer a que materializo, quer a que fica por materializar. No fundo, eu sei que faço parte e que quero contribuir activamente para um processo que nunca terá fim, quiçá anti-catárctico.

10/30 (o prazer de estudar Letras)

No episódio 9 do podcast "Louco Como Eu", a jornalista e escritora Susana Moreira Marques entrevista Rita Taborda Duarte, também ela escritora, crítica e professora universitária. Tenho acompanhado este podcast com grande alegria e entusiasmo, porque não há nada mais interessante para quem gosta de escrever do que ouvir escritores a falar sobre a sua experiência enquanto escritores, mas também leitores.

 

Neste episódio em particular, Rita Taborda Duarte fala sobre a alegria que foi, enquanto estudante de Letras, saber que estava a "estudar" enquanto lia livros, sem a culpa por estar a divertir-se. A incredulidade por estudar ser aquela actividade que lhe dava imenso prazer. E eu, ouvinte assídua e atenta, também antiga (e actual) estudante de Letras, conheço tão bem essa sensação! No mestrado (bem... nos mestrados) já não é tão fácil sentir essa liberdade e riqueza de opções, porque os temas de estudo são mais específicos, mas passei os três anos da licenciatura com a impressão de que não poderia ter feito escolha mais acertada do que aquela, a de entrar num curso que me enchia as medidas, que tanto me saciava e me espicaçava a curiosidade. Eu fui o que já ouvi Djaimilia Pereira de Almeida apelidar-se a si mesma: uma leitora omnívora.

 

Assim fui uma privilegiada. Não tendo ficado isenta de uma dose de sacrifício para manter boas notas por causa duma bolsa de estudo (além de ter objectivos que realmente vieram a depender da minha média final de curso), e ter de trabalhar e estagiar em simultâneo, tive três anos muito felizes.

 

Poder ler o que eu tenho lido por motivos de estudo é uma obrigação muito bonita. Poder transformar leituras inicialmente desinteressadas em ideias de escrita e investigação é uma expectativa que quero continuar a ter para o resto da vida.

6/30 (leio muito devagar)

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Ao contrário do que possa parecer, eu demoro muito tempo a ler. Demoro tempo a ler livros, a estudar, a interpretar, a entender, a estabelecer ligações. A brincar, costumo dizer que sou esperta, mas que nem sempre sou inteligente. Acho que sou rápida e assertiva a tirar conclusões quando tenho a informação toda, gosto de escrever e de falar, sou curiosa, e isso é que me vai mantendo motivada a prosseguir com certas leituras mais densas (quero sempre obter respostas), mas não leio em quantidade.

 

Por isso, compro mais livros do que alguma vez serei capaz de ler. Adorava ter tempo para dar uma vista de olhos a todos os materiais que os professores recomendam nas bibliografias do mestrado. Na maior parte das vezes, não resisto e leio mesmo tudo, em detrimento de tempo livre e de alguma sanidade mental. Sofro de cada vez que tenho de ler mais de 100 páginas por semana.

 

Preciso de tirar notas, de procurar mais informação, de sublinhar, de reler, de pensar no que já li. Adoro estudar, mas ainda não sei se a investigação será uma opção profissional viável a médio ou longo prazo - não por falta de vocação, mas porque não consigo ler cinco páginas seguidas de qualquer texto sem ter de fazer uma pausa. Será que conseguiria dar conta do recado...?

 

Além disso, tenho memória curta. Ainda hoje estava a ler textos que sublinhei e anotei há menos de um mês, quando me fui surpreendendo com a sensatez e completude das notas tiradas pelo meu eu passado, apesar de não me lembrar conscientemente dessas páginas. Muitas vezes, agradeço a essa versão mais antiga de mim mesma por me ter proporcionando uma segunda experiência de leitura personalizada, como se fosse a primeira.

 

Não admira que, desde 2020, ande a reler alguns dos meus livros favoritos. Poder ler algo pela segunda vez, mas guiada pela mão, pelas notas, sublinhados e impressões que eu própria quis destacar, ir relembrando o que eu já pensava estar esquecido, e por isso ganhando alguma velocidade e maior facilidade de leitura... Tudo isto, é um alívio!

 

(Na fotografia: o último livro que li, e o que estou a ler agora.)

Ler sobre a morte

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Há alguns dias, no clube de leitura do Sapo24, "É Desta que Leio Isto", falámos com a convidada Inês Maria Meneses sobre um dos livros que mais gostei de ler na vida, mas também dos que mais me custaram: The Year of Magical Thinking, de Joan Didion.

 

Neste encontro, uma das participantes comentou que recomendaria o livro a qualquer pessoa, que todos o deveriam ler. Quanto a isto, tive de discordar sem hesitação. Eu cá não recomendo livros sobre a morte e sobre o luto a qualquer pessoa. Diziam depois outros participantes: mas é preciso lidar com a morte, conhecer as histórias, não é por não lermos sobre a morte que ela desaparece, ou que deixa de existir.

 

Continuei a defender o meu ponto de vista. Claro que não é por evitarmos leituras sobre a morte, como em obras autobiográficas, que ela deixa de existir. Não é por isso que a perda de um ente querido não vai acontecer. No entanto, um livro não é uma vacina. O papel de um livro não deve ser preparar-nos contra os males do mundo, em doses pequenas, aqui e ali, até criarmos imunidade a partir das ideias, das palavras e das experiências dos outros. Depois desta argumentação, quase ninguém concordou comigo.

 

Penso que jamais recomendarei um livro como o de Joan Didion a qualquer pessoa. Só eu sei a angústia que senti ao lê-lo. Adorei lê-lo, mas foi uma leitura sofrida. Nessa altura, andava muito ansiosa, e bem sei que o leitor também sofre, o leitor também chora, e há momentos em que não é indicado ler certos livros. Não está certo martirizarmo-nos. Enquanto lia The Year of Magical Thinking, só me passavam pela cabeça cenários hipotéticos de perda de alguém que amo, não só pela morte, mas também pelo desaparecimento dessas pessoas da minha vida, em geral e em abstracto. De vez em quando, continuo a folheá-lo, e essas releituras breves, ainda que as continue a achar belas, só servem para o voltar a pousar na estante. Ler não é indolor, nem é sempre feliz. Ler sobre a morte não é um passeio no parque, como se diz em inglês.

 

Ontem, recebi alguns livros novos. Um deles é Agora e na Hora da Nossa Morte, da jornalista e escritora portuguesa Susana Moreira Marques. Li-o em poucas horas, entre o intervalo da tarde e o pós-jantar. Tudo o que leio desta autora parece ser suficiente, e simultaneamente incapaz de preencher um qualquer vazio que permanece depois de terminarmos os seus textos ou livros.

 

Mas lá está: fui para a cama angustiada. É uma angústia que não é totalmente negativa, e ainda assim relembrou-me do que já referi: há temas sobre os quais devemos ler só, e apenas, quando estamos preparados para sentir o que inevitavelmente vamos sentir. Podemos escolher certos livros pela experiência - literária, estética... - mas não pelo prazer em si mesmo. Não pelo entretenimento. É preciso saber escolher as nossas batalhas, e também os livros.