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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

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A culpa é dos médicos de família

Os médicos de família devem estar a coçar o rabo, os enfermeiros e o pessoal administrativo também. Não atendem os telefones no centro de saúde. Quando os utentes pedem satisfações, dizem-lhes que os telefones estão avariados. Não se percebe. Depois, desculpam-se com o COVID. Então, e antes do COVID? Essa é boa, têm sempre desculpa... Isto sempre foi uma bandalheira, e ainda há quem defenda o SNS. É para isto que pagamos impostos? Se é para ser assim atendida, vou mas é marcar no privado.

 

Em Fernão Ferro (no concelho do Seixal), a freguesia onde vive a minha família e onde eu também vivi desde 2005 até ao fim de 2020, este é um discurso comum, não só de agora, como de sempre - desde que me lembro de ser pessoa, pelo menos. Aliás, quando nos mudámos para a zona, não conseguimos médico de família no centro de saúde local e acabámos por continuar a ser acompanhados no centro de saúde da área de residência anterior, por acaso não muito longe. (Uma sorte. Um privilégio.)

 

Compreende-se: Fernão Ferro é uma zona suburbana em expansão, como tantas outras na margem Sul do Tejo, e o investimento em serviços públicos - como o centro de saúde e a escola secundária há tanto, tanto tempo prometida - é nulo.

 

No entanto, sempre me pareceu óbvio que este tipo de problemas e deficiências no serviço à população não tem origem nessas próprias entidades. Não é pelos professores que se deve culpar a ausência de uma escola, tal como não se deve culpar os médicos pela ausência de um bom centro de saúde.

 

Infelizmente, isto parece não ser tão óbvio para todas as pessoas.

 

Ainda há algumas semanas saiu uma notícia alarmante: 1/3 das vagas para especialistas em Medicina Geral e Familiar (vulgo médicos de família) ficou por preencher no concurso deste ano.

 

Um médico recém-especialista leva para casa cerca de 1800€ líquidos. Além disso, é muito provável que tenha de fazer horas extraordinárias, que nem sempre são contabilizadas ou remuneradas. Com o aumento do custo de vida, particularmente nas grandes cidades portuguesas, um salário destes, proveniente de uma tabela desactualizada, não é desejável numa região onde a renda chega a mais de metade do seu salário, para alguém que passou cerca de metade da sua vida a estudar e a especializar-se. Claro que, vistas as condições, é preferível tentar a sorte no privado, emigrar ou escolher viver numa zona onde o custo de vida não seja tão elevado, os serviços não estejam tão saturados e a qualidade de vida exista de facto.

 

Não admira que seja tão difícil preencher as vagas de MGF em zonas como Lisboa e Vale do Tejo.

 

Sem a atualização das tabelas salariais da função pública, nomeadamente dos profissionais do Serviço Nacional de Saúde, e sem existir contratação de acordo com as necessidades, não é surpreendente que encontremos diariamente problemas nos hospitais ou nos centros de saúde. Aliás, formar mais médicos é redundante e mesmo desprestigiante neste país que não abre vagas suficientes para os internatos de especialidade e que, por isso, acaba por estar a formar cada vez mais médicos indiferenciados (tarefeiros, precários).

 

No ano passado, candidataram-se 2279 médicos aos internatos de especialidade, face a um número bastante inferior de vagas: 1885. Isto é, nada mais e nada menos, do que um desperdício de investimento na formação altamente especializada e esforçada de jovens qualificados, além do desperdício óbvio das suas próprias vidas e recursos ao longo do seu longo percurso académico e ainda curto percurso profissional.

 

No que diz respeito aos médicos, internos e todos os profissionais que trabalham em centros de saúde, durante a pandemia têm sido eles a dar a cara num contexto de proximidade imediata com a população, utentes e pacientes. Por outro lado, foram eles que se tiveram de desdobrar para poderem gerir o funcionamento normal no centro de saúde, de prestação de cuidados de saúde primários, assim como o Trace COVID e, nos últimos nove meses, a vacinação.

 

Dito isto, lá no fundo o que me questiono e que também vos posso desafiar a responder é:

Será que algum dia deixarão de pôr constantemente a culpa em cima dos ombros dos profissionais do SNS? Será que deixarão de os ver como os maus da fita, bodes expiatórios convenientes, como se dependesse deles melhorar as condições materiais dos centros de saúde, multiplicar os trabalhadores em funções e dar resposta às mil solicitações diárias?

 

Oxalá consigamos - que alguém consiga! - salvar e defender o SNS de uma governação que privilegia o desinteresse e desinvestimento de um bem tão essencial, tão público, quanto a saúde gratuita e disponível para todos. Porque também é com essa segurança que se vive em democracia.

13/30 (nas urgências de um hospital)

No mês passado, fui atendida nas urgências do hospital de Évora. Há dois ou três dias que estava com dificuldade a respirar, tinha um peso no peito como se fosse uma alergia a causar-me expectoração que não saía, tinha perdido a voz e sentia-me em esforço só por andar cem metros. A Primavera estava a começar e eu pensei mesmo que poderia ser essa a causa do desconforto.

 

Quando os anti-histamínicos não funcionaram e não me conseguiram encontrar a causa para o meu quadro no centro de saúde, tive de ir às urgências. Depois de esperar três horas, fui atendida numa sala improvisada e apinhada, a que chamavam o balcão das mulheres. Só uma parede e um par de cortinas separava o balcão das mulheres do balcão dos homens. A equipa de médicos, enfermeiros e auxiliares dividia-se entre os dois.

 

O espaço parecia demasiado pequeno para tanta gente, e eu imaginava a constituição do ar que todos respirávamos como uma massa invisível, mas saturada de partículas disto e daquilo. E o vírus, oh, o vírus. Evitei pensar no assunto. Outras pacientes acamadas urinavam em arrastadeiras, outras vomitavam a sopa que acabavam de comer à hora de jantar. 

 

Senti-me desamparada, sozinha, no meio de tanta gente, no meio de um hospital enorme, mesmo sabendo que no parque de estacionamento estava o João; e, à distância, os meus amigos e família.

 

O médico obrigou-me a falar, apesar de eu estar afónica, apesar de eu ter um relatório dos médicos do centro de saúde dentro de um envelope que ele só usou para rabiscar as suas próprias notas. "Uma coisa é o que o colega escreve, outra coisa é o que o paciente tem para dizer, e eu gosto de ouvir os meus pacientes, tenho todo o tempo do mundo. O paciente é como um cliente, e eu tenho de ouvir o meu cliente", defendeu-se esse médico (e eu, sem voz, fôlego ou energia anímica para lhe explicar que o relatório não tinha sido elaborado por um, mas sim por dois médicos, um dos quais a pessoa com quem vivo, e que o que ele estava a fazer demonstrava um enorme desrespeito para com os colegas; e que, já agora, eu sei como se trata um cliente, porque tenho um negócio e, por isso, sei como funciona um, muito obrigada, dispenso sermões).

 

No final, após eu ter finalmente explicado o que se passava comigo (de forma obviamente incompleta e imprecisa, a chorar, dos nervos e da impotência); depois de exames, raio X, análises, veias e artérias picadas até à nódoa; horas sentada à espera em cima duma maca dura partilhada com outra pessoa, com as costas contra a parede; a ouvir as dores, queixas, gemidos de mais cinquenta mulheres naquele espaço tão pequeno... No final, recebi um diagnóstico de ansiedade.

 

"Vocês, os jovens, têm de ser fortes. Têm a vida toda pela frente." Esse médico esteve uns bons cinco minutos a dizer-me o quanto eu tinha de ultrapassar essa ansiedade, porque era jovem. Não fez mais perguntas. Não pôs sequer em causa que aquele não seria o território dele, não lhe caberia a ele fazer julgamentos. Em vez de me consolar, fez-me sentir culpada pela minha própria ansiedade - ansiedade que eu ainda nem sabia que, nessa altura, poderia ter atingido um nível tão alarmante. Eu só a sentiria, psicologicamente falando, alguns dias depois. Com aquele discurso imprevisto e indesejado, este médico fez-me sentir que estava a mais na urgência, como se saúde mental não fosse saúde, como se eu não tivesse razões para ali estar. 

 

Depois dessa sexta-feira à noite tenebrosa, a minha ansiedade acabou por se manifestar. Tive um ataque de pânico tão grande, que estive umas quantas horas no que me pareceu um estado delirante. Tive de parar de trabalhar durante uns dias. Depois desse episódio, também tive de criar outros hábitos na minha vida profissional e pessoal em geral, procurar outra ajuda e tentar fazer as pazes com o evento. Ainda assim, quero acreditar que quem me atendeu nas urgências de Évora faz parte de um grupo que é a excepção e não a regra no que toca ao tratamento de doentes com sintomatologia que não sejam tão visíveis quanto um ataque cardíaco, um AVC ou um braço partido. Cuidar da saúde mental não é uma mimalhice.

 

Nem todas as feridas deitam sangue ou deformam o corpo.