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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

quando o povo grita

   Muitas são as pessoas que andam a criticar estas últimas manifestações de ontem, 15 de Setembro de 2012, todas elas apresentando o seu ponto de vista e os respectivos argumentos que entendo como extremamente válidos. Contudo, devo confessar que sou mais do que a favor destas manifestações, depois de pesado o que é conveniente e inconveniente.


   Como cheguei a referir, ontem estive em Setúbal desde manhã cedo até ao final da tarde, pelo que tive a oportunidade de assistir à formação e ao decorrer da manifestação que deu a volta à Avenida Luísa Todi, terminando na Praça do Bocage, em frente da Câmara Municipal, onde a multidão permaneceu durante mais de uma hora, continuando os cânticos e manifestos. Claro que, em termos de dimensão, não chegou nem aos tornozelos das de Lisboa e do Porto, o que não invalidou que se sentisse a força de todas aquelas pessoas que reivindicavam aquilo a que têm direito.


   No que toca a estas manifestações, sou realmente a favor que seja organizadas e  levadas a cabo. Independentemente de haver certas pessoas que vão para lá flanar, outras tantas, a maior parte, leva a situação muito a sério. Além disso, qual é o problema de algumas pessoas serem apanhadas a sorrir, enquanto marcham? São horas e horas a percorrer as ruas e, como é evidente, vai crescendo um sentimento de camaradagem e de (ilusória?) esperança entre a população que une forças e faz por impressionar.


   Infelizmente, eu e o meu pai estivemos ocupados na feira de antiguidades de Setúbal (a venda de livros não é o nosso sustento, mas é algo que, de duas em duas semanas, vai ajudando a pagar certas despesas que não conseguiríamos aguentar de outro modo) mas, se tivéssemos tido disponibilidade, ter-nos-íamos juntado à multidão e gritado com todas as nossas forças! Temos motivos para isso! Sim, foi o “povo” que votou nestes crápulas que dizem “andar a fazer o melhor que podem”… No entanto, não foi a minha família que o fez, nem as famílias de muitas dessas pessoas que, ontem, se fizeram ouvir. E, mesmo que tivéssemos parte da culpa no cartório, jamais o senhor ministro, durante as eleições, referiu que tomaria as medidas drásticas que está a tomar, enquanto vai contratando mais uns quantos guarda-costas e seguranças, tudo financiado pelo bolso do contribuinte, antes que alguém tenha a coragem de o atacar fisicamente. Talvez imensa gente tenha sido ingénua ao ponto de acrescentar mais uns pontinhos à vitória dos nossos líderes, é verdade. Todavia, temos de enfrentar a verdade: na altura, ou se votava em branco ou se fazia um-dó-li-tá, que os candidatos eram todos da mesma laia. Não me venham dizer que, com mais umas eleições, ainda gastaríamos mais dinheiro, porque o país, antes de elas acontecerem, teria era de aguentar com uma revolução de todo o tamanho, em que o sistema político e social fosse todo renomeado e reformado. Isto não se resolve com umas meras eleiçõezinhas da treta… Para metermos no governo uma qualquer figura como o António José Seguro, que em muito me parece semelhante ao Passos Coelho (chamem-lhe mania da perseguição, sexto sentido, o que preferirem), entre outros camaradas do género, mais vale estarmos quietinhos. O povo não anda a manifestar-se para que o resultado seja nulo, não senhor!


   Podem achar-me demasiado nova para ser dona de uma opinião que valha a pena ser ouvida, mas é assim que me sinto quando a universidade, para mim, poderá tratar-se de uma mera miragem, quando o meu pai diz que tem de pensar depressa em emigrar, que isto só tem tendência a piorar, quando me lembro que a minha avó tem quase setenta e um anos e toda a reforma que tem serve para nos ajudar a sobreviver um dia de cada vez, quando a minha tia (com quem também vivemos) e o meu pai são indivíduos altamente qualificados, que estudaram - e estudam! - durante anos a fio e continuam a ganhar uma miséria de um salário que nem provém de uma actividade ligada à sua formação académica – e sorte a deles, a de terem emprego!


   Eu, por meu turno, vou escrevendo, e cada prémio literário amealhado, cada cêntimo que me é dado por eles, entra de imediato numa conta poupança que se destina a financiar parte dos meus estudos universitários – que, mais uma vez, nem sei se conseguirei sustentar, dado que as bolsas de estudo e de mérito foram quase todas cortadas.


   É muito triste saber que, ainda há pouco tempo, eu tinha os próximos anos planeados e que, como quem não quer a coisa, essas expectativas se encontram cada vez mais baixas, bem baixas. Hoje, aumentam os preços de X e Y; amanhã, criam mais uma nova taxa absurda; daqui a uns dias, voltam a baixar os salários e as reformas. Em suma, começaremos a desejar não ter nascido, se o panorama persistir.


   Já agora, quais são as minhas expectativas para o futuro? Nenhumas, pois mais vale nem as ter, não é verdade? Sei que quero continuar a estudar durante muitos anos, ser profissionalmente bem-sucedida, casar, ter filhos, sentir-me realizada – enfim, seguir o curso natural da vida que um jovem idealiza em pensamento. Porém, de que serve o meu querer ou o dos restantes portugueses? Não serve de nada.


   Portanto, penso que sim, que devemos continuar a manifestar o nosso desagrado, nem que seja para nos sentirmos melhor ao fim do dia, sabendo que tentámos, ainda que em vão. Devemos permanecer unidos! Estou solidária para todos os que abandonam o país, as suas famílias e tudo o que conhecem, sem bilhete de regresso, sem qualquer esperança que os faça ficar por cá. Deixo aqui a minha mensagem de apelo a todos os que se sentem ultrajados pelos seus próprios governantes, que tanto prometem, nada fazem e, como se não bastasse, continuam a humilhar quem depositou a sua confiança neles.

quando o povo grita

   Muitas são as pessoas que andam a criticar estas últimas manifestações de ontem, 15 de Setembro de 2012, todas elas apresentando o seu ponto de vista e os respectivos argumentos que entendo como extremamente válidos. Contudo, devo confessar que sou mais do que a favor destas manifestações, depois de pesado o que é conveniente e inconveniente.

   Como cheguei a referir, ontem estive em Setúbal desde manhã cedo até ao final da tarde, pelo que tive a oportunidade de assistir à formação e ao decorrer da manifestação que deu a volta à Avenida Luísa Todi, terminando na Praça do Bocage, em frente da Câmara Municipal, onde a multidão permaneceu durante mais de uma hora, continuando os cânticos e manifestos. Claro que, em termos de dimensão, não chegou nem aos tornozelos das de Lisboa e do Porto, o que não invalidou que se sentisse a força de todas aquelas pessoas que reivindicavam aquilo a que têm direito.

   No que toca a estas manifestações, sou realmente a favor que seja organizadas e  levadas a cabo. Independentemente de haver certas pessoas que vão para lá flanar, outras tantas, a maior parte, leva a situação muito a sério. Além disso, qual é o problema de algumas pessoas serem apanhadas a sorrir, enquanto marcham? São horas e horas a percorrer as ruas e, como é evidente, vai crescendo um sentimento de camaradagem e de (ilusória?) esperança entre a população que une forças e faz por impressionar.

   Infelizmente, eu e o meu pai estivemos ocupados na feira de antiguidades de Setúbal (a venda de livros não é o nosso sustento, mas é algo que, de duas em duas semanas, vai ajudando a pagar certas despesas que não conseguiríamos aguentar de outro modo) mas, se tivéssemos tido disponibilidade, ter-nos-íamos juntado à multidão e gritado com todas as nossas forças! Temos motivos para isso! Sim, foi o “povo” que votou nestes crápulas que dizem “andar a fazer o melhor que podem”… No entanto, não foi a minha família que o fez, nem as famílias de muitas dessas pessoas que, ontem, se fizeram ouvir. E, mesmo que tivéssemos parte da culpa no cartório, jamais o senhor ministro, durante as eleições, referiu que tomaria as medidas drásticas que está a tomar, enquanto vai contratando mais uns quantos guarda-costas e seguranças, tudo financiado pelo bolso do contribuinte, antes que alguém tenha a coragem de o atacar fisicamente. Talvez imensa gente tenha sido ingénua ao ponto de acrescentar mais uns pontinhos à vitória dos nossos líderes, é verdade. Todavia, temos de enfrentar a verdade: na altura, ou se votava em branco ou se fazia um-dó-li-tá, que os candidatos eram todos da mesma laia. Não me venham dizer que, com mais umas eleições, ainda gastaríamos mais dinheiro, porque o país, antes de elas acontecerem, teria era de aguentar com uma revolução de todo o tamanho, em que o sistema político e social fosse todo renomeado e reformado. Isto não se resolve com umas meras eleiçõezinhas da treta… Para metermos no governo uma qualquer figura como o António José Seguro, que em muito me parece semelhante ao Passos Coelho (chamem-lhe mania da perseguição, sexto sentido, o que preferirem), entre outros camaradas do género, mais vale estarmos quietinhos. O povo não anda a manifestar-se para que o resultado seja nulo, não senhor!

   Podem achar-me demasiado nova para ser dona de uma opinião que valha a pena ser ouvida, mas é assim que me sinto quando a universidade, para mim, poderá tratar-se de uma mera miragem, quando o meu pai diz que tem de pensar depressa em emigrar, que isto só tem tendência a piorar, quando me lembro que a minha avó tem quase setenta e um anos e toda a reforma que tem serve para nos ajudar a sobreviver um dia de cada vez, quando a minha tia (com quem também vivemos) e o meu pai são indivíduos altamente qualificados, que estudaram - e estudam! - durante anos a fio e continuam a ganhar uma miséria de um salário que nem provém de uma actividade ligada à sua formação académica – e sorte a deles, a de terem emprego!

   Eu, por meu turno, vou escrevendo, e cada prémio literário amealhado, cada cêntimo que me é dado por eles, entra de imediato numa conta poupança que se destina a financiar parte dos meus estudos universitários – que, mais uma vez, nem sei se conseguirei sustentar, dado que as bolsas de estudo e de mérito foram quase todas cortadas.

   É muito triste saber que, ainda há pouco tempo, eu tinha os próximos anos planeados e que, como quem não quer a coisa, essas expectativas se encontram cada vez mais baixas, bem baixas. Hoje, aumentam os preços de X e Y; amanhã, criam mais uma nova taxa absurda; daqui a uns dias, voltam a baixar os salários e as reformas. Em suma, começaremos a desejar não ter nascido, se o panorama persistir.

   Já agora, quais são as minhas expectativas para o futuro? Nenhumas, pois mais vale nem as ter, não é verdade? Sei que quero continuar a estudar durante muitos anos, ser profissionalmente bem-sucedida, casar, ter filhos, sentir-me realizada – enfim, seguir o curso natural da vida que um jovem idealiza em pensamento. Porém, de que serve o meu querer ou o dos restantes portugueses? Não serve de nada.

   Portanto, penso que sim, que devemos continuar a manifestar o nosso desagrado, nem que seja para nos sentirmos melhor ao fim do dia, sabendo que tentámos, ainda que em vão. Devemos permanecer unidos! Estou solidária para todos os que abandonam o país, as suas famílias e tudo o que conhecem, sem bilhete de regresso, sem qualquer esperança que os faça ficar por cá. Deixo aqui a minha mensagem de apelo a todos os que se sentem ultrajados pelos seus próprios governantes, que tanto prometem, nada fazem e, como se não bastasse, continuam a humilhar quem depositou a sua confiança neles.