Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

São só fotografias

pexels-photo-296649.jpeg

 

Uma das maiores pequenas alegrias que posso ter é entrar numa casa alheia cheia de fotos tiradas ao longo dos anos. É o meu guilty pleasure, derreto-me e amoleço com isto. Sou uma voyeuse de paredes, estantes e de tampos de móveis, gosto de imaginar as histórias por trás das imagens e de reconstruir narrativas familiares através do meu entendimento de visitante. Essas fotografias são a exibição da própria felicidade, das memórias que se querem preservar. Porque estão dentro de casa e não num mural de rede social, não são para os outros, são para quem lá vive - isto é, consistem numa selecção de lembranças preferidas, mesmo que não tenham sido curadas para os olhos dos outros, uma representação do que os habitantes da casa consideram ser o mais importante acerca de si mesmos e que gostam de rever diariamente.

 

E uma família feliz não tem só fotografias das crianças ou dos grandes eventos com pose pensada, tem fotos de tudo e mais alguma coisa: das férias de Verão, retratos da escola, aniversários, casamentos, Natais, momentos de convívio e olhares que saíram fotogénicos. O repertório não se cinge a uma só categoria ou a um grupo de pessoas, não é necessariamente o mesmo que se descarregaria no Facebook, e mais haverá nos álbuns que se imaginam através desta amostra.

 

Não são só fotografias, afinal.

O passado como o lembramos: The Sense of an Ending (Julian Barnes)

LRM_EXPORT_592933701654533_20190911_090350104.jpeg

 

Há livros curtos, mas que valem por três ou quatro. Gostei tanto de The Sense of an Ending (O Sentido do Fim, em português) do autor inglês Julian Barnes. De facto, o peso dum final eminente sente-se por todas as palavras. É um dos livros mais tristes que já li este ano, com pedaços tão, tão bons de ler - ou não tivesse ganho o Man Booker Prize em 2011. É daqueles livros que se lê devagar, porque cada linha se revela importante, bela e sintomática do estado de espírito oscilante do narrador, Tony Webster, porque cada frase é indispensável para a compreensão do resto do livro, da sua história e de como a relembra, e o leitor tem de prestar atenção aos detalhes.

 

IMG_20190908_211301_871.jpg

 

Não sei se lhe hei-de chamar exame minucioso à mente, emoção e pensamento humanos, não sei se lhe hei-de chamar thriller psicológico, nem sequer sei pôr The Sense of an Ending numa caixa. Só sei que é indiscutível a montanhas-russa, turbilhão de acontecimentos e memórias que vão desabrochando da análise ao passado em que Tony se aventura, ficando as questões: será que nós também chegaremos à sua idade relembrando o passado com tantas lacunas e erros de julgamento? Será que também nós, os leitores, iremos envelhecer com uma ideia muito mais elogiosa das nossas acções do que verdadeiramente merecemos, colocando-nos num pedestal moral bem superior aos indivíduos com quem nos vamos cruzando e convivendo?

 

IMG_20190908_211301_872.jpg

IMG_20190908_211301_870.jpg

 

Durante 150 páginas muito ricas ficamos a matutar na nossa própria moral e ética pessoal, no modo como conduzimos as nossas relações e no peso das nossas acções, por mais insignificantes, nas vidas alheias.

 

Li algures uma opinião que dizia que este livro é extraordinário na sua normalidade. É isso mesmo. Não tem um enredo cheio de peripécias. Talvez outras pessoas o achem aborrecido. Tony evoca uma vida medíocre, igual a tantas outras, sem feitos de monta. Ele mesmo reconhece que tentou levar uma existência pacata ao longo dos anos. A vida estóica deste narrador-personagem só é interrompida pela reviravolta da trama, um documento que aparece e invoca fantasmas da sua juventude, colocando em causa a integridade do homem suburbano e rotineiro que se esforçou por ser. É só isso, mais uma vez. Pouco mais vos poderei contar, mas, se se interessam pela forma como o rebuliço interior nos pode pregar partidas e como é que um bom escritor o retrata, The Sense of an Ending é a leitura breve perfeita para passarem umas boas horas em amena agitação mental. Diria que é semelhante, no tema e na abordagem, a As Velas Ardem Até Ao Fim, de Sándor Marái. Nada como desenterrar o passado para melhor nos conhecermos e reconhecermos...

 

A seguir, vou tentar ver o filme. Confesso que tenho curiosidade em perceber como é que uma narrativa tão introspectiva pode ser adaptada para o cinema, e espero não me desiludir.

Quanto vale uma educação: Educated (Tara Westover)

LRM_EXPORT_117328794954292_20190218_132708938.jpeg

 

Quanto valor pode ter uma educação? Quase todos nós tomamos tantas vezes a nossa instrução como garantida. Nos meios onde cresci e estudei, entre o fim do século XX e início do século XXI, nunca conheci ninguém que não tivesse nascido sem ter a certeza de que iria à escola, o que não é o caso da protagonista deste livro: Educated, o livro de memórias de Tara Westover (traduzido em português como Uma Educação, pela Bertrand Editora).

 

Nota: este vai ser um texto longo. Desde que comecei a ler o livro até o terminar dificilmente o larguei. Foi assim que Educated me fez sentir: eu tinha de saber como acabava o relato desta rapariga, nem uma década mais velha que eu, mas com uma vida tão complexa e cheia de feitos tão memoráveis.


Educated descreve os primeiros vinte e tal anos de vida da autora americana; perguntarão vocês como é que alguém tão novo terá tanto (quase 400 páginas!) para contar. Ao contrário do que é esperado duma criança num país desenvolvido, Tara não foi à escola até ter entrado na universidade, aos 17 anos. A família, mórmon, crente no Fim dos Dias e em teorias da conspiração sobre a doutrinação do Governo através da escola e do serviço de saúde, manteve-a longe do resto do mundo até Tara ter seguido os passos dum irmão mais velho rebelde e se ter autoproposto e inscrito na Brigham Young University.


Não vos quero contar muito mais do que as outras sinopses da Internet já contêm, mas deixo-vos uma nota de precaução: este não é um livro fácil, emocionalmente. Tara Westover escreve mesmo muito, muito bem, como se já tivesse uma carreira literária longa, por isso conseguiu prender-me a cada novo parágrafo, mas o que lá está escrito não é bonito. Na infância, adolescência e primeiros anos de idade adulta dela houve muita violência, frustração, mentiras, obstáculos físicos e morais, incompreensão, solidão... É uma daquelas leituras que nos encanta e assombra em simultâneo. A certo ponto, o que mais surpreende deixa de ser o facto de Tara ter chegado a frequentar a universidade, mas sim, contra a vontade de toda a gente que a rodeava, ter alcançado um percurso de sucesso de zero a Harvard em menos de dez anos.


No fim, concluí: a curiosidade pelo mundo recém-descoberto, a cada nova disciplina ou pessoa que conhecia, desempenhou um papel muito importante na vida de Tara. Poder aprender numa sala de aula e usufruir duma educação universitária nalgumas das melhores instituições do mundo não foram experiências que pudesse fazer intuitivamente, ao contrário dos seus colegas. Só quase aos trinta anos é que deixou de se sentir isolada e diferente. No entanto, permaneceu a vontade de saber e conhecer mais. Para nós, os leitores, serve-nos de lição ou para refrescar a memória para valorizarmos a nossa escolarização, socialização e oportunidades de fazer mais e melhor. Relembra-nos que ir à escola ou à universidade não é só ouvir um tipo qualquer falar durante hora e meia. Mesmo a informação mais insignificante que nos possam oferecer deve ser tida em conta, porque, tal como Tara, acabamos por aprender algo novo sobre o que é ser humano, algo sobre o mundo, nem que seja um pretexto para procurarmos mais nos livros, na Internet ou para perguntarmos a quem percebe do assunto. Lutar por uma educação é imprescindível. Uma educação não é escolher o curso com mais empregabilidade; é, acima de tudo e simplesmente, poder aprender.

 

The decisions I made after that moment were not the ones she  would have made. They were the choices of a changed person, a new self. 
You could call this selfhood many things. Transformation. Metamorphosis. Falsity. Betrayal. 
I call it an education.


Enfim. É impressionante como uma miúda cheia de medo e um passado doloroso pôde transformar a sua vida por completo, reinventá-la e reinventar-se. Não quero dizer que não teve momentos de fraqueza, mas na minha opinião é preciso ser-se realmente forte para se ser o protagonista duma vida como esta.


Li em muitos outros textos de opinião que Educated é um livro para todos os gostos e confirmo. Não costumo ler muitos relatos autobiográficos, mas este valeu a pena. É muito difícil deixar a meio um livro assim.


Vejam ainda os textos e vídeos que deixei em hiperligações pelo meio do texto.


Boas leituras! 📚

 

(Este é também o livro que li para o mês de Fevereiro a propósito do desafio Uma Dúzia de Livros, da Rita da Nova).