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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Sobre criar e consumir: Marketing de Conteúdo - a moeda do século XXI (Rafael Rez)

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Apesar de ter parcialmente pago as propinas da licenciatura ao fazer trabalhos para uma agência de marketing digital, na produção de conteúdos que apareciam em blogs de empresas e personalidades, acho que só no último ano me tenho apercebido de todo o processo envolvido antes, depois e à volta dos ditos posts que eu já escrevo há alguns anos, pessoal e profissionalmente. Não se tratava apenas dum número estabelecido de regras de SEO e copywriting. Comecei a perceber a articulação com as redes sociais, o storytelling, os links afiliados, as estatísticas do analytics... Todo esse aparato fez-me sentir muito curiosa e comecei a procurar mais informação sobre o marketing de conteúdo.


Desde o fim de 2018 que andava a completar a certificação online em Marketing Digital do Atelier Digital Google. Durante as últimas semanas, finalmente deixei de o arrastar e passei a progredir um pouco todos os dias no curso. Então, descobri que, apesar de eu já ter uma noção bastante boa do que se passa na Internet e como funcionam os respectivos algoritmos e mecanismos, ainda não tinha consolidado todas essas impressões numa narrativa coesa que gerasse conhecimento propriamente dito.


Pelo meio, decidi comprar Marketing de Conteúdo - a moeda do século XXI, escrito pelo especialista brasileiro Rafael Rez. Em primeiro lugar, o livro está escrito duma forma muito clara e realmente útil. Depois, toda a paginação e restantes aspectos de design (sobre os quais não percebo nada, mas que me chamam sempre a atenção) constituíram o argumento final.


Para quem é este Marketing de Conteúdo?
Bem, eu não sou extremamente entendida no assunto, mas acho que é sempre útil perceber o outro lado do mercado. Ser uma parte passiva e desinformada no processo de venda (ou produção) e consumo não é para mim. Faço questão de saber o que se está a passar na Internet, já que ando por aqui tanto tempo por dia e alguns dos meus projectos pessoais e profissionais passam pelo seu uso.

 

Não acho que tenhamos de ter em vista tornarmo-nos criadores de conteúdo online para nos informarmos. Se concordam, talvez devam dar uma vista de olhos a este livro. Ainda por cima, há resumos no final de cada capítulo e muitas vezes o texto é apresentado em bullet points, o que facilita a compreensão. Se só alguns temas acerca do marketing de conteúdo vos interessam, também podem consultar o índice para melhor gerirem a vossa leitura.


Marketing de Conteúdo de Rafael Rez é um excelente convite à reflexão relativamente às mudanças que se estão a operar nos negócios por esse mundo fora. Qual é a empresa ou empreendedor individual que não tem um site, blog, página de Facebook ou de Instagram? Então, mais vale saber como fazê-lo de forma a aproveitar os recursos para tornar o negócio presente e relevante para os consumidores e potenciais clientes, que cada vez mais procuram soluções na Internet para os seus problemas ou necessidades.


O resto não me cabe a mim desvendar, até porque há tanto para escrever. Este livro é um manual irrepreensível, quer para criadores, quer para consumidores de conteúdo. Nem todos os tópicos me interessaram da mesma forma, mas sinto que, em conjunto com o curso em Princípios de Marketing Digital do Atelier Digital Google (que já terminei, aproveitando para recomendar a todos os curiosos!), o livro Marketing de Conteúdo contribuiu para a minha actualização de conhecimentos e para começar a experimentá-los em novos projectos. 

 

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E vocês, o que andam a ler ultimamente? Este tema do marketing digital interessa-vos ou preferem outro tipo de leitura? 📚

Não li sinopses e fui apanhada de surpresa: Dom Casmurro (Machado de Assis)

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Nos últimos meses, tenho lido cada vez menos ficção. Talvez por isso mesmo precise de ser cada vez mais surpreendida, por haver menos oportunidades para ler só porque sim, logo tal contexto convidar à procura de melhores experiências individuais, mesmo que escassas.


Comecei a não ler sinopses. No máximo, tenho lido as contracapas (mas não as badanas). A história tem um título que me agrade? Já ouvi falar bem? As primeiras páginas, lidas ainda na livraria, em amostras online ou em aventuras em estantes alheias lá de casa, conseguem suscitar a minha atenção? Então, não preciso de mais nada para continuar.


Não ler sinopses veio acrescentar-se ao hábito já antigo de não ler informação adicional antes de acabar a leitura do livro. Nada de entrevistas ao autor a propósito do lançamento desse ou doutros livros, comentários da crítica, opiniões várias fora do meio do Goodreads a que já me habituei. Prefiro ter o mínimo de contexto acerca do que gostaram ou não no enredo, estrutura, personagens...


E, depois, por causa destes cuidados redobrados, há surpresas, como Dom Casmurro, de Machado de Assis.


Não quero vir para aqui presentear-vos com spoilers desnecessários, mas digamos que eu nunca pensei que a história de Bentinho Santiago se desenrolasse assim. É daquelas narrativas mornas, muito lentas, mas que de repente ganham velocidade e pegam fogo a todas as nossas expectativas! Nossas... Entenda-se, as de quem não se tenha informado muito acerca do que se trata.


Desde a primeira página que pressenti que Dom Casmurro não chegaria a ser um dos meus livros favoritos. Sim, é um clássico (até o li inserido no tema de Março d'Uma Dúzia de Livros) mas o ritmo dos acontecimentos é irregular, o que ora me entusiasmava, ora me enfastiava. Foram menos de duzentas páginas que valeram por muitas mais - de certa forma, nem sei se duma forma positiva ou negativa.


Claro que, entre o "pára, arranca" da vida de Bentinho Santiago, vieram as surpresas. Estas não são realmente surpresas, porque são mencionadas na biografia de Machado de Assis e em sinopses menos generalistas que as da contracapa da edição que tenho de Dom Casmurro. Quando lá cheguei, até tive de reler algumas páginas. Senti que só podia ter perdido alguma coisa, entre as viagens de metro que gastei a ler, mas não. As fantasias da psique afectada de Dom Casmurro levavam a crer que tinha lido tudo bem. Pregou-me um desgosto.


Entre a análise fina dos costumes da época e dos humores, amores e desamores das personagens, em particular do narrador Bentinho, instalou-se tanta indiferença quanto caos. Restou-me fechar o livro sem saber se gostei ou desgostei em maior intensidade. Dom Casmurro foi um misto de tudo e mais alguma coisa. À parte a riqueza das referências intertextuais, da crítica social, da profundidade dos sentimentos e da vida da psique, ficou sempre a parecer que a loucura do protagonista deixou qualquer coisa a desejar.


Se já leram Dom Casmurro, de Machado de Assis, e também se sentiram desorientados quando finalmente acabou, digam-me como se consolaram dele.

Creative Mornings Lisboa: uma experiência enriquecedora, desafiante e... criativa

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Há cerca de um mês, escrevi sobre o quanto tinha gostado de ir ao evento das Creative Mornings em Lisboa. No culminar de algum mal-estar pessoal, acerca do que eu achava ser parte da minha personalidade não se andar a revelar, sobre o desconforto de interagir com outras pessoas e de me sentir anormalmente desconfortável em situações sociais, decidi confrontar-me com uma situação nova. Apesar de já frequentar os clubes de leitura, a minha vida social além do contacto com os mesmos amigos, namorado e família costuma ser quase inexistente, por isso talvez fizesse sentido pôr-me outra vez "lá fora".

 

Ainda bem que o fiz e gostei tanto de ir às Creative Mornings, de ter conhecido mais pessoas e de me ter obrigado a desatar a língua, que esta sexta-feira acabei a repetir a experiência. 

 

Para quem não conhece, as Creative Mornings são eventos organizados por voluntários em várias cidades do mundo (e que começaram em Nova Iorque), com o objetivo de reunir uma comunidade internacional (vá, inter-tudo) de indivíduos interessados em partilhar as suas experiências pessoais e profissionais, enquanto ouvem a história de oradores convidados e, de preferência, comem um bom pequeno-almoço. Cada grupo de voluntários, em cada cidade, organiza o evento da forma que melhor lhe parecer, mas normalmente deve haver oportunidade para que os participantes se conheçam e, quiçá, partam para conversas construtivas.

 

Não serei a pessoa mais informada sobre o panorama mundial do assunto, mas não posso deixar de recomendar que, se procuram refrescar as vossas ideias, desafiarem a vossa timidez e conhecerem quem possa partilhar interesses e ideias convosco, experimentem aparecer na próxima manhã criativa que houver em Lisboa (estejam atentos ao Facebook).

 

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No encontro do mês passado (que, na verdade já foi no dia 1 de Março), a convidada foi a Rita da Nova. Este mês foi a Kaya-Line Knust, que eu não conhecia, nem a sua marca Stop The Water While Using Me, mas que contou imensas coisas giras sobre como criar marcas e produtos que façam sentido para os empreendedores. Todos os meses há um tema diferente, por isso é possível aprender sempre com os convidados.

 

Ficando a sugestão, espero que seja útil para quem também precisa de mudar de ares por umas horas!

A leitura na era digital: Reader, Come Home (Maryanne Wolf)

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Comecei a ler Reader, Come Home - The Reading Brain in a Digital World (da investigadora Maryanne Wolf) no âmbito das minhas incursões recentes à literatura sobre cognição e a forma como o cérebro lê - ou seja, como nós, seres humanos, lemos. Eis a minha opinião e o resumo das ideias sobre este livro que me encheu as medidas.

 

Mais uma vez, o cérebro. A literacia digital e em papel. O conceito empatia, que tem alcançado algum destaque ultimamente, na academia e fora dela. A leitura (uma invenção cultural e para a qual o cérebro dos homens nem sequer nasce preparado) como meio de tornar as crianças de hoje em dia e dos próximos anos em cidadãos responsáveis, informados e críticos.


Maryanne Wolf tem dedicado a sua carreira académica a estudar o cérebro e a influência da leitura a nível neurológico, em termos interiores e exteriores. Afinal, mudanças causadas pelo exterior ao interior também provocam consequências exteriores. E por aí fora. A criação de hábitos de leitura sólidos desde cedo promove o desenvolvimento da inteligência, da memória, da atenção e do sentido crítico.


No entanto, este seu livro mais recente, Reader, Come Home, é mais um "sinal dos tempos", concentrando-se na passagem da leitura em papel, mais paciente e prolongada, para a leitura digital, facilmente interrompida pelas distrações doutras fontes ou mesmo que estão presentes em recursos do próprio texto (como os e-books para crianças ou até notícias online com hiperligações e pop-ups).

 

Nesta era digital, a própria autora deu por si a debater-se contra a sua incapacidade de apreciar os livros da sua infância e juventude, clássicos da literatura que moldaram a sua vida, mas que agora se apresentavam como obstáculos intransponíveis. Maryanne Wolf tinha perdido a capacidade de se concentrar em leituras mais desafiantes, que lhe pediam paciência e perseverança. Então, tanto a própria autora, quanto o "leitor" que ela interpela, são convidados a regressar à "casa" ou ao "lar" que é a leitura prazerosa, imersiva e prolongada que nos retira deste mundo. Certamente que todos nós que gostamos de ler desde pequenos nos lembramos de ser engolidos por um livro e, provavelmente, ainda hoje guardamos saudades dessas memórias.


Por estas razões, a investigadora da Tufts University, nos EUA, decidiu estudar a alteração nos seus hábitos de leitura e, consequentemente, nos hábitos de toda a gente, em particular de crianças, e o que fazer quando chega a altura de as expor a livros e/ou dispositivos electrónicos. 


Apesar de Reader, Come Home deixar mais hipóteses, preocupações e questões do que respostas empíricas, acho que me fez pensar sobre o que poderá ser feito no futuro para nos asseguramos de que criaremos cidadãos com literacia dupla, bilingues no que toca à leitura em papel e leitura digital, capazes de retirar de cada uma delas os melhores proveitos, atributos e capacidades cognitivas, não desprezando nem uns nem outros meios, mas sim navegando facilmente entre ambos os tipos.


Na minha opinião, Reader, Come Home é um livro para todos aqueles que se interessam pelo futuro dos livros e da leitura. Ler não é um processo cognitivo a que nos expomos "só porque sim". Ler mais deve, idealmente, aguçar a nossa reflexão e empatia, através do conhecimento e compreensão doutras vidas, assuntos que antes ignorávamos, articulação cuidada de pensamentos doutras pessoas. Ler bem, em geral, é uma necessidade e obrigação dos cidadãos que vivem numa democracia.

 

E vocês, ainda sabem o caminho de volta "a casa"?

Leitura de cabeceira: Meio intelectual, meio de esquerda (Antonio Prata)

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Três crónicas por dia, nem sabe o bem que lhe fazia... Podia ser um ditado popular, mas é só uma das muitas recomendações que por aqui vou plantando.


O livro Meio intelectual, meio de esquerda (Antonio Prata) foi a minha leitura de cabeceira das últimas semanas, depois de o ter encomendado através da promoção de Inverno da Tinta-da-China. Apesar de o ter escolhido às cegas, somente pelo prazer de comprar um livro a preço reduzido, acho que fiz muito bem.

 

Esta edição portuguesa de Meio intelectual, meio de esquerda reúne crónicas do autor e guionista brasileiro desde 2003 até 2016, por isso deu-me sempre a impressão de que, desde a primeira até à última, estava a acompanhar um amigo que ia crescendo, amadurecendo e evoluindo na sua vida pessoal e profissional - e escrevendo sobre isso. Ao contrário do que o título possa indicar, raras são as crónicas de cariz político, preteridas ao futebol (do qual eu percebo muito), amor, filhos e reflexões várias, mais ou menos disparatadas.


Se pensarmos que, em 2003, Antonio Prata tinha vinte e poucos anos, alguém que os tenha ao ler estas crónicas poder-se-á deparar com uma máquina do tempo, em que o futuro se apresenta com a sucessão de eventos (viajar juntos pela primeira vez vs. o casamento; o início duma carreira vs. a sua consolidação), problemas (como usar a palavra "tomate" vs. mãozadas de cocó de bebé) e preocupações (bares ruins vs. recibos e contabilistas) de quem vai registando pequenos apontamentos da sua vida durante mais duma década. Talvez, um dia, também nós sejamos mais ou menos assim. Talvez eu seja mais ou menos assim.


À semelhança do que acontece com a maioria das colectâneas de crónicas, prefiro ir lendo poucas de cada vez, daí ter nomeado Meio intelectual, meio de esquerda como leitura de cabeceira. Antes de dormir, para acalmar a cabeça dos ecrãs, da rotina e do entusiasmo do dia, bastam alguns minutos e páginas. Crónicas de duas ou três são ideais, por não serem demasiado exigentes, nem desinteressantes, enquanto a variedade de temas nos entretém e embala para um sono mais descansado (idealmente!).


Em suma, Meio intelectual, meio de esquerda não é o melhor livro de crónicas de sempre, não é o mais perspicaz ou criativo, mas presta-se a um óptimo trabalho de entretenimento!


[Acabado este, está na altura de passar para Silêncio na Era do Ruído (Erling Kagge).]

Quanto vale uma educação: Educated (Tara Westover)

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Quanto valor pode ter uma educação? Quase todos nós tomamos tantas vezes a nossa instrução como garantida. Nos meios onde cresci e estudei, entre o fim do século XX e início do século XXI, nunca conheci ninguém que não tivesse nascido sem ter a certeza de que iria à escola, o que não é o caso da protagonista deste livro: Educated, o livro de memórias de Tara Westover (traduzido em português como Uma Educação, pela Bertrand Editora).

 

Nota: este vai ser um texto longo. Desde que comecei a ler o livro até o terminar dificilmente o larguei. Foi assim que Educated me fez sentir: eu tinha de saber como acabava o relato desta rapariga, nem uma década mais velha que eu, mas com uma vida tão complexa e cheia de feitos tão memoráveis.


Educated descreve os primeiros vinte e tal anos de vida da autora americana; perguntarão vocês como é que alguém tão novo terá tanto (quase 400 páginas!) para contar. Ao contrário do que é esperado duma criança num país desenvolvido, Tara não foi à escola até ter entrado na universidade, aos 17 anos. A família, mórmon, crente no Fim dos Dias e em teorias da conspiração sobre a doutrinação do Governo através da escola e do serviço de saúde, manteve-a longe do resto do mundo até Tara ter seguido os passos dum irmão mais velho rebelde e se ter autoproposto e inscrito na Brigham Young University.


Não vos quero contar muito mais do que as outras sinopses da Internet já contêm, mas deixo-vos uma nota de precaução: este não é um livro fácil, emocionalmente. Tara Westover escreve mesmo muito, muito bem, como se já tivesse uma carreira literária longa, por isso conseguiu prender-me a cada novo parágrafo, mas o que lá está escrito não é bonito. Na infância, adolescência e primeiros anos de idade adulta dela houve muita violência, frustração, mentiras, obstáculos físicos e morais, incompreensão, solidão... É uma daquelas leituras que nos encanta e assombra em simultâneo. A certo ponto, o que mais surpreende deixa de ser o facto de Tara ter chegado a frequentar a universidade, mas sim, contra a vontade de toda a gente que a rodeava, ter alcançado um percurso de sucesso de zero a Harvard em menos de dez anos.


No fim, concluí: a curiosidade pelo mundo recém-descoberto, a cada nova disciplina ou pessoa que conhecia, desempenhou um papel muito importante na vida de Tara. Poder aprender numa sala de aula e usufruir duma educação universitária nalgumas das melhores instituições do mundo não foram experiências que pudesse fazer intuitivamente, ao contrário dos seus colegas. Só quase aos trinta anos é que deixou de se sentir isolada e diferente. No entanto, permaneceu a vontade de saber e conhecer mais. Para nós, os leitores, serve-nos de lição ou para refrescar a memória para valorizarmos a nossa escolarização, socialização e oportunidades de fazer mais e melhor. Relembra-nos que ir à escola ou à universidade não é só ouvir um tipo qualquer falar durante hora e meia. Mesmo a informação mais insignificante que nos possam oferecer deve ser tida em conta, porque, tal como Tara, acabamos por aprender algo novo sobre o que é ser humano, algo sobre o mundo, nem que seja um pretexto para procurarmos mais nos livros, na Internet ou para perguntarmos a quem percebe do assunto. Lutar por uma educação é imprescindível. Uma educação não é escolher o curso com mais empregabilidade; é, acima de tudo e simplesmente, poder aprender.

 

The decisions I made after that moment were not the ones she  would have made. They were the choices of a changed person, a new self. 
You could call this selfhood many things. Transformation. Metamorphosis. Falsity. Betrayal. 
I call it an education.


Enfim. É impressionante como uma miúda cheia de medo e um passado doloroso pôde transformar a sua vida por completo, reinventá-la e reinventar-se. Não quero dizer que não teve momentos de fraqueza, mas na minha opinião é preciso ser-se realmente forte para se ser o protagonista duma vida como esta.


Li em muitos outros textos de opinião que Educated é um livro para todos os gostos e confirmo. Não costumo ler muitos relatos autobiográficos, mas este valeu a pena. É muito difícil deixar a meio um livro assim.


Vejam ainda os textos e vídeos que deixei em hiperligações pelo meio do texto.


Boas leituras! 📚

 

(Este é também o livro que li para o mês de Fevereiro a propósito do desafio Uma Dúzia de Livros, da Rita da Nova).

Não terminar livros

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Não terminar um livro nunca foi um problema para mim. Sempre senti que, se tinha de parar a leitura por não me interessar, "das três uma":

 

... ou teria de lá voltar mais tarde por não ser a melhor altura para o apreciar devidamente (como n'As Memórias de Adriano, falta de maturidade e experiência de vida; como no Handbook of Cultural Economics, porque li grande parte dos capítulos mas não sinto que precise de completar a leitura para perceber tudo aquilo que me faz falta agora).


... ou o livro e os meus interesses não corresponderam, pelo que nos restaria procurar melhores parceiros de serão.


... ou o livro seria apenas mais uma bela perda de tempo, por pecar em falta de qualidade e capacidades argumentativas para prender o leitor; talvez o autor de devesse dedicar a outros misteres.


Não terminar livros não costuma ser um drama por aqui, é antes uma parte do dia-a-dia de quem acredita não ter tempo para insistir em batalhas sem proveito.


Ainda assim, ultimamente tenho deixado várias leituras a meio. Ando a ler bastantes livros ao mesmo tempo, talvez demasiados. É verdade. Não lhes dedico toda a minha atenção e vou-me esquecendo deles pelo caminho. Nalguns casos, perco o entusiasmo e sigo em frente sem permitir que me dêem provas do seu valor.


Sei que não terminar livros é uma questão temporária, como já é costume, mas é inevitável pensar que a culpa é - sempre - minha. Tal é a razia de livros arrasados por tal azarada conduta!


Devo concentrar-me mais em cada um dos livros que escolho e levar a cabo o compromisso, desafiando-me a embarcar em leituras estóicas, mas pelo menos terminadas e justamente avaliadas? Ou devo continuar a largá-las para dar oportunidade às seguintes, porventura melhores ou mais adequadas?

Distopia comentada: Regresso ao Admirável Mundo Novo (Aldous Huxley)

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Já andava para ler este livro há quatro anos, desde que li a "obra-mãe", o Admirável Mundo Novo. Finalmente, perdi as desculpas pelo caminho e investi alguns dias a ler o Regresso ao Admirável Mundo Novo, do escritor inglês Aldous Huxley.

 

Desde as primeiras páginas que li escritas por Aldous Huxley que soube que esta distopia seria um dos meus livros favoritos por muito tempo - ainda é! Por isso, já sabia que Huxley só pode ter sido um visionário no seu tempo. É certo que algumas das conclusões do autor são generalistas, mas temos de pensar que este livro foi escrito há sessenta anos e que o mundo se tem alterado a enorme velocidade nas últimas duas ou três décadas.


Além disso, achei o comentário à sua própria obra e a comparação feita com 1984 (de George Orwell) muito elucidativos. Note-se que Admirável Mundo Novo foi escrito antes da 2ª Guerra Mundial e o Regresso foi escrito depois. Desta forma, só falta Huxley dizer "eu tinha razão"... Porque tinha. As ditaduras aconteceram, a indústria do entretenimento aconteceu, a manipulação das mentes aconteceu, até uma tentativa de engenharia genética aconteceu. E não foi preciso muito tempo, apenas uma década depois da publicação da distopia!


Os dois últimos capítulos, sem previsões, mas sim baseados em conselhos e ideias para o futuro, continuam actuais. Chamam-se "Educação para a liberdade" e "Que podemos fazer?". Desafio-vos a lerem-nos, mesmo que não leiam as duzentas páginas anteriores. Após tantas notas negativas acerca do presente de Huxley, ele decide deixar-nos qualquer coisa em que pensar no pós-guerra. Fica a ideia de resistência contra a opressão e o desenvolvimento urgente dum espírito crítico através do questionamento e instrução escolar  (independente de ideologias) dos cidadãos.


Boas leituras!

 

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Como ficar dependente (ou largar a dependência) das apps: Hooked, de Nir Eyal

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Continuo nesta saga de descobrir mais sobre como funciona o cérebro humano e como processa informação. Não é a minha área de estudo, mas é tão interessante!

 

Desta vez, roubei o presente de Natal que encomendei para a minha amiga Inês, o livro Hooked: How to Build Habit-Forming Products, do investigador e consultor Nir Eyal. Ela tinha-mo pedido pelo Natal, mas a encomenda atrasou-se imenso e demorou um mês a chegar. Então, mal ele chegou cá a casa, acabei por lhe pegar e só o larguei depois de o terminar (e porque, enfim, tive de o devolver à destinatária original).


Por coincidência, li o Hooked num momento em que me estou a des(a)pegar das redes sociais. Apesar de muitas das actividades do meu dia-a-dia ainda serem feitas a partir do telemóvel, como questões de trabalho ou escrever no blog, tenho tentado reduzir o uso ao essencial, eliminando tanto quanto possível as redes sociais e as apps que consomem muito tempo. Mesmo que seja um par de minutos aqui e outros ali, o tempo de uso vai-se acumulando ao longo do dia e gera-se uma certa dependência através do hábito de desbloquear o telemóvel, visitar o Instagram, o Facebook, o WhatsApp, o Goodreads, até o extrato do PayPal.


Estar Hooked é estar, de certa forma, preso a qualquer coisa, é vermo-nos envolvidos num processo, imersos num estado de constante curiosidade quanto ao que nos pode revelar a cada instante. É exactamente o hábito que nos leva à dependência, prevista pelos criadores dessas apps, para chamar a atenção de tantos utilizadores quanto possível.


O processo que percorremos até nos sentirmos "enganchados" tem quatro passos: um gatilho (primeiro interno, depois externo), que por sua vez nos leva a uma acção, que gera uma recompensa variável e que nos incentiva a um investimento, voltando ao início do ciclo e do gatilho - uma "comichão" reflexo da necessidade de usar o produto, a app, de novo. Desta forma, criamos um hábito, isto é, um comportamento executado sem pensar.


Agora, perguntam vocês: mas isto de se trazer para o mercado produtos que brincam com a mente dos clientes e que têm em conta o cultivo de hábitos não é manipulação? De facto, o próprio Nir Eyal aborda esta vertente ética. Segundo ele, nos negócios não há maneira de evitar "entrar na mente" dos clientes, e que deve ficar à consciência e responsabilidade dos empreendedores fazê-lo para o "bem" ou para o "mal" - o que mais deve interessar é pensar se o produto melhora ou não a vida dos utilizadores e se o próprio empreendedor também o usaria. Se se responder afirmativamente a essas duas perguntas, tanto melhor!


Por agora, com algumas reservas, acho que concordo com esse método de avaliação ética. Ler este livro foi uma boa experiência, tanto colocando-me do lado dos empreendedores, quanto dos utilizadores. Além disso, ver desconstruído o processo que leva à dependência das tecnologias também me motiva a largá-las, dado que agora conheço a tal "manipulação" e os truques usados para incentivar ao uso a que me encontro sujeita. Devemos usar seja que produto for como vitaminas, não como analgésicos (jargão farmacêutico do autor!).


No que toca a aspectos mais estruturais do livro, primeiro tenho de apontar uma falha: o subtítulo induziu-me ao erro de pensar em "produtos" em geral, mas, na verdade, os produtos discutidos são sempre apps e websites, não propriamente escovas de dentes ou lençóis. Por fim, é de louvar todo o livro Hooked enquanto um produto ele mesmo: não existe edição em paperback, a capa dura vem envolta numa sobrecapa colorida, a impressão é feita em papel daquele que nos leva a enfiar o nariz lá dentro, o tipo de letra é grande e há algumas imagens, tabelas e resumos de ideias aqui e ali, fazendo parecer que a leitura segue escorreita e rápida... É um produto muito eficaz a chamar e a prender a atenção do leitor!

 

Terminado o Hooked, continuo a agradecer sugestões de livros sobre temas afins.


Boas leituras! 📚🤓

Viver na ditadura da popularidade, criatividade, identidade única e algoritmos

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A Internet também me traz ansiedade. A volatilidade da informação e da forma como circula assusta-me: a rapidez vertiginosa com que as regras são alteradas, o tipo de discurso, as mil e uma artimanhas que surgem todos os dias para se ter o blog ou site mais lido ou o produto mais popular.


Como dizia Bauman, é tudo tão líquido. Quando sinto que estou, finalmente, a habituar-me a um tipo de linguagem e objectivos na Internet, eis que o jogo dá outra vez a volta. Também não sentem que, muitas vezes, vivemos submissos ao poder dos algoritmos e da manipulação da mente dos outros? Temos de ter as fotos de Instagram mais XPTO, definir uma paleta de cores pessoal, as palavras-chave certas, os títulos que causam mais sensação... E onde ficam a honestidade, simplicidade e autenticidade nisto tudo?


Já não nos representamos a nós mesmos. Representamos uma marca - agora, somos uma marca. Temos de investir em branding, porque, dizem, há que mostrar aquilo que nos distingue de todos os outros, mas, atenção, sempre seguindo regras estéticas, e de marketing, e de linguagem, e de não sei o quê que tem de ser feito, senão nunca sairemos da cepa-torta da produção caseira e amadora.


Como se houvesse mal nisso!


Para mim, alguns blogs e perfis continuam a ser um reduto do que eu esperava que toda a Internet continuasse a ser. Felizmente, nem toda a gente foi contaminada pelo jargão empresarial que retira a alegria de criar um projecto pessoal desinteressado.


A gestão de redes sociais fascina-me e, ao mesmo tempo, faz-me sentir pequenina. Fascina-me enquanto negócio, fascina-me que as empresas tentem acompanhar o ritmo dos dias e que tenham de se reinventar para sobreviver no mercado. Mas, então... e as pessoas? As pessoas também têm de se vender como se fossem empresas? Eu sei que há quem, realmente, seja uma empresa (o seu ganha-pão assim o determina), mas, então... e os outros?


Há dez anos que crio blogs só porque sim, porque gosto de escrever, de partilhar, de desabafar. Este foi criado há sete anos e meio e por aqui fiquei, e pode ter mudado muita coisa deste lado, mas o que não mudou foi a intenção de escrever mais e melhor enquanto desafio pessoal e de superação, sem olhar demasiado a números. Embora os números me digam quantas pessoas andam por aqui (o que é gratificante) continuo sempre a manter este espaço por gosto e não por quaisquer expectativas ou contrapartidas mercantilistas.


Um dia, pode ser que engula estas palavras e me renda a parcerias, estatísticas, dividendos. Quem sabe...? A verdade é que até o meu trabalho e ambições profissionais futuras dependem um pouco da Internet. No entanto, hoje não é esse dia. Por enquanto, o meu blog, Instagram e Facebook são meros passatempos, nos quais invisto sem ter em vista mais do que a diversão que me permitem ter e, quiçá, oferecer. São o meu laboratório de experiências, ocupam o tempo que não gasto a olhar para as paredes ou a consumir-me em aborrecimentos vários. Há quem faça miniaturas, há quem coleccione moedas, há quem catalogue passarinhos. Eu ando por aqui a debitar sobre coisas aleatórias que me interessam.


Os meus blogs e perfis preferidos continuam a ser aqueles que têm "gente dentro", e que não se vendem por tuta e meia. Não julgo quem se vende, mas sim o facto de que, hoje em dia, sinto que estão todos a vender-se e que é tudo mais do mesmo.


No outro dia, dizia um professor meu que "as tendências estão a mudar, ser-se criativo começa a ser exactamente não ter criatividade". E eu não digo que tenhamos de deixar de ser totalmente criativos, mas neste momento já me é muito difícil acompanhar tanta "criatividade". Fico cansada, desgastada pela produção constante, pela urgência das mensagens, pelo conceito de storytelling a ser usado para tudo e mais alguma coisa, em nome da popularidade e da tal "identidade única" que procuramos. Na esperança de estabelecermos um monopólio sobre a nossa auto-imagem, gritamos que somos diferentes de todos os outros, mas depois fazemos quase o mesmo, andamos pelas modas.


Estes são alguns motivos pelos quais me tenho tentado afastar das redes sociais. O desfile de histórias inspiradoras que vendem e que se vendem, do networking, da luta pelo primeiro lugar num mural de rede social alheio pedem de mim energia que não tenho. Até duma perspectiva empresarial e profissional, por mais quanto tempo aguentaremos tamanhas avalanches? Ainda será possível viver e ser-se relevante offline?


Serve este texto como desabafo e reflexão da própria.