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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Quase rezei para gostar: Jesus Cristo Bebia Cerveja (Afonso Cruz)

Já vos contei da primeira experiência a ler Afonso Cruz: fiquei triste por pensar que iria ser a revelação do ano, e foi mais a desilusão do semestre. No entanto, decidi dar uma segunda oportunidade, porque outras pessoas confirmaram que, da bibliografia do autor, Flores não era o melhor.

 

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Assim sendo, avancei para o outro livro que já tinha comprado: Jesus Cristo Bebia Cerveja. Neste, Afonso Cruz conta a história duma neta - Rosa - e duma avó - Antónia - que vivem no cimo dum monte, perto duma aldeia caricata. Comecei logo por gostar da premissa, que já tinha conhecido quando ouvi Afonso Cruz numa feira cultural em Banguecoque, há um par de anos. Também eu sou neta única, também eu tenho uma avó que substitui e compensa por qualquer mãe biológica que tenha tido outras ambições na vida, e também eu tenho medo que a minha avó adoeça e perca qualidade de vida, mas certa de que, se fosse necessário, também eu montaria uma Jerusalém no meio do Alentejo.

 

Apesar de achar que não é o melhor livro dum autor português contemporâneo que leio, gostei bastante de Jesus Cristo Bebia Cerveja. Todas as personagens têm uma faceta de loucura que só a literatura poderia catalogar tão bem, e que não me surpreenderiam se existissem na vida real. Na sua falta de sentido, fazem sentido. É um elenco que, senti, enriqueceu o meu imaginário, que me obrigou a pôr-me na pele de Rosa e a alegrar-me e a incomodar-me com a narrativa dos seus dias.

 

A aparente temática religiosa - Jesus Cristo Bebia Cerveja - é só um chavão, mas outras discussões são deixadas no ar para as apanharmos: o papel da mulher como cuidadora primária da família, o papel do homem possivelmente dependente das mulheres na família e na sociedade, o significado do amor romântico, o cosmopolitanismo e as viagens, as relações entre empregados e empregadores, a importância da educação moral e emocional vs. instrução - tudo isto misturando um cenário que não cheira a passado, nem a presente, nem a futuro, mas que me cheirou definitavamente a uma imagem mental do interior de Portugal.

 

Além disso, apesar de o final ser triste q.b., promete um renascimento de igual forma. Quando gosto de uma personagem, prefiro acreditar que outras vidas lhe restarão para outros livros hipotéticos. Depois de decisões difíceis, algo virá, bom ou mau.

 

Jesus Cristo Bebia Cerveja, porque, afinal, todas as histórias podem ser contestadas e reimaginadas.

 

📚 Entretanto, instalou-se na minha casa uma febre de Afonso Cruz, pelo que já tenho Os Livros que Devoraram o Meu Pai O Macaco Bêbedo Foi à Ópera recomendados e preparados para descolarem da estante. Por onde começo - alguma sugestão?

As férias

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Ainda está por explicar o fenómeno psico-meteorológico que me tem afligido a carteira pelo menos uma vez por ano: em época de introspecção, a criatura Beatriz, presidente do clube de fãs do calor e luz lisboetas, ruma a Norte em modo "one woman show" para uns dias de excepcional clarividência e clareza interiores, convenientemente patrocinadas por nuvens baixas, vento agreste e temperatura/precipitação racha-dente. No destino, põe-se a admirar estantes de paperbacks, toda e cada uma das livrarias que lhe aparecem no diretório, os cenários dos seus romances preferidos ao vivo e a cores, descendentes de vikings a beber café aguado, e a sonhar acordada nos espaços verdes extensos e densos, na sombra de cidades industriais. Gosta de beber chocolate quente, de dormir a sesta nos autocarros das tours, de ligar à família a queixar-se da humidade nos ossos e da quantidade obscena de chineses nas atracções turísticas, e de comprar Toblerone a metade do preço. Diz sempre que vai para descansar, e raramente consegue dormir mais de duas horas seguidas à noite no hostel. Diz que vai para ler, e nunca termina um único livro. Diz que vai para escrever, e não escreve mais de três parágrafos. Enfim, por fim, as férias do espécimen. ✈️

O passado como o lembramos: The Sense of an Ending (Julian Barnes)

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Há livros curtos, mas que valem por três ou quatro. Gostei tanto de The Sense of an Ending (O Sentido do Fim, em português) do autor inglês Julian Barnes. De facto, o peso dum final eminente sente-se por todas as palavras. É um dos livros mais tristes que já li este ano, com pedaços tão, tão bons de ler - ou não tivesse ganho o Man Booker Prize em 2011. É daqueles livros que se lê devagar, porque cada linha se revela importante, bela e sintomática do estado de espírito oscilante do narrador, Tony Webster, porque cada frase é indispensável para a compreensão do resto do livro, da sua história e de como a relembra, e o leitor tem de prestar atenção aos detalhes.

 

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Não sei se lhe hei-de chamar exame minucioso à mente, emoção e pensamento humanos, não sei se lhe hei-de chamar thriller psicológico, nem sequer sei pôr The Sense of an Ending numa caixa. Só sei que é indiscutível a montanhas-russa, turbilhão de acontecimentos e memórias que vão desabrochando da análise ao passado em que Tony se aventura, ficando as questões: será que nós também chegaremos à sua idade relembrando o passado com tantas lacunas e erros de julgamento? Será que também nós, os leitores, iremos envelhecer com uma ideia muito mais elogiosa das nossas acções do que verdadeiramente merecemos, colocando-nos num pedestal moral bem superior aos indivíduos com quem nos vamos cruzando e convivendo?

 

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Durante 150 páginas muito ricas ficamos a matutar na nossa própria moral e ética pessoal, no modo como conduzimos as nossas relações e no peso das nossas acções, por mais insignificantes, nas vidas alheias.

 

Li algures uma opinião que dizia que este livro é extraordinário na sua normalidade. É isso mesmo. Não tem um enredo cheio de peripécias. Talvez outras pessoas o achem aborrecido. Tony evoca uma vida medíocre, igual a tantas outras, sem feitos de monta. Ele mesmo reconhece que tentou levar uma existência pacata ao longo dos anos. A vida estóica deste narrador-personagem só é interrompida pela reviravolta da trama, um documento que aparece e invoca fantasmas da sua juventude, colocando em causa a integridade do homem suburbano e rotineiro que se esforçou por ser. É só isso, mais uma vez. Pouco mais vos poderei contar, mas, se se interessam pela forma como o rebuliço interior nos pode pregar partidas e como é que um bom escritor o retrata, The Sense of an Ending é a leitura breve perfeita para passarem umas boas horas em amena agitação mental. Diria que é semelhante, no tema e na abordagem, a As Velas Ardem Até Ao Fim, de Sándor Marái. Nada como desenterrar o passado para melhor nos conhecermos e reconhecermos...

 

A seguir, vou tentar ver o filme. Confesso que tenho curiosidade em perceber como é que uma narrativa tão introspectiva pode ser adaptada para o cinema, e espero não me desiludir.

Vistos, ouvidos e validados

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Todos queremos ser vistos. Queremos ser vistos, no sentido de não precisarmos de chamar a atenção para a recebermos, no sentido de darmos e ser-nos dado. O que provavelmente todos nós procuramos não é só a admiração dos outros, o que nos obrigaria a algum feito ou conquista extraordinária, mas sim o reconhecimento de que existimos apenas por existirmos.

 

Escrevemos em blogs, criamos redes sociais e escolhemos a melhor foto de perfil, publicamos stories no Instagram, damos o nosso melhor em discussões sociais, aparecemos em meet-ups, criamos listas de leitura no Goodreads, apostamos em relações pessoais diversas com pessoas de alguma forma semelhantes a nós, melhoramos o CV, preparamos apresentações, ensaiamos a forma como nos rimos e vestimos, porque - em grande parte - queremos ser vistos, ouvidos e validados, mas o objectivo final deve com certeza passar por conseguirmos ser vistos, ouvidos e validados por causa natural, isto é, sem precisarmos de nos explicar, nem o que sentimos, sem precisarmos de nos esforçar a todo o momento, sendo nós mesmos.

 

O cliché ganha profundidade quando queremos ser incondicionalmente vistos, ouvidos e validados por quem nos rodeia num Sábado ao final da tarde, sem banho tomado, vestidos com peças de pijama desirmanadas, a mastigar bolachas de sour cream de boca aberta, a espalhar migalhas pelo chão, de pernas escancaradas e a coçar a caspa oleosa para dentro das unhas, com os olhos inchados por termos chorado com a morte do cão Marley na televisão pela 54ª vez na vida - pelo menos tanto quanto nos dias em que o resto do mundo também tem razões para nos ver, ouvir e validar.

 

Aquilo de que andamos todos à procura é quase um amor paternal ou maternal da parte de familiares, amigos e parceiros, uma imitação da segurança sem constrangimentos que idealmente teremos sentido quando éramos pequenos. Por muito independentes e decididos, precisamos de quem tome conta de nós, ou sobre quem nós acreditemos que o pudesse fazer caso fosse necessário, queremos alguém que demonstre afecto só porque lhes apeteceu, que nos perguntem como estamos sem termos de acenar com três sinais de trânsito e uma avioneta, que nos liguem só para desejar um bom dia, sejam espontâneos nas demonstrações e não poupem no afecto e nos elogios - afinal, diz-se que nos tornamos aquilo em que os outros acreditam que somos ou nos podemos tornar.

Procura-se uma alegre casinha, tão modesta quanto eu

Não é para mim, é para uma amiga, começa assim este texto, da forma mais sincera e menos deslumbrada possível. Já vivi do outro lado do mundo e, quando regressei, não me quis iludir: ter onde viver em ou perto de Lisboa é um luxo hoje em dia. Acabei de ver num grupo de Facebook um lote para venda num parque de campismo nos subúrbios por 20.000€. Vamos rir para não chorar? Na zona da minha casa, o preço de vivendas geminadas aumentou cerca de 50.000€ desde o ano passado, quando também andei atenta; já nem há apartamentos para alugar, só para comprar - eu vivo a quase uma hora e meia de Lisboa. Como é que é possível?

 

A minha família deixou Lisboa e mudou-se para a margem Sul do Tejo há mais de 30 anos. Há menos de 20, um certo ministro chamou à margem Sul "um deserto". Certamente nunca terá passado por Almada, Seixal, Amora, Barreiro, Quinta do Conde... Há muitas décadas que a margem Sul já não é o destino de férias e fins-de-semana dos lisboetas. Com o advento da Fertagus e outras empresas de transportes, o distrito de Setúbal foi recebendo cada vez mais pessoas, Lisboa passou a ser cada vez mais acessível, enquanto os passes a custos reduzidos implementados este ano têm aumentado a procura de habitação na extensa área metropolitana de Lisboa. O trânsito e os carros continuam lá, mas os comboios, barcos e autocarros seguem todos os dias um pouco mais cheios do que no dia anterior.

 

Eu ainda não estou activamente à procura de casa, mas os meus amigos estão. Ora porque vivem demasiado longe de Lisboa para que as viagens diárias sejam sustentáveis, ora porque querem constituir a sua própria família, ora porque querem simplesmente ter o seu espaço - e, neste último grupo, também me incluo - precisamos de viver nalgum lado. 

 

Temos falado várias vezes sobre sair de Lisboa. Não será fácil, mas vemo-nos a procurar emprego noutras zonas do país, onde seja mais barato (quiçá possível) viver, onde não tenhamos de ser mais uma formiga numa lata de sardinhas à qual que chamam transporte público, onde possamos respirar, onde não tenhamos de andar aos encontrões com ninguém, onde não tenhamos de perder tempo de vida dum lado para o outro. Lisboa é uma cidade em franco crescimento, mas com elevados custos para o bem-estar da população, reduzindo-se a qualidade de vida constantemente, quando as infraestruturas e os serviços já não conseguem dar resposta a tantos habitantes (quando temos de tirar senha quatro meses antes para renovar o Cartão de Cidadão; ou quando deixamos de ter vaga para os nossos filhos nos jardins de infância e escolas públicas).

 

Os meus amigos querem encontrar casa, eu quero encontrar um escritório só para mim. Lisboa não tem espaço para nós. Será que Lisboa não nos quer? 

 

Claro que nada é tão simples quanto isto. As leis do mercado imobiliário ditam que os preços podem continuar a aumentar. Ainda há muita procura. No entanto, até alguns estrangeiros que se estão agora a mudar ou a pensar mudar-se para Lisboa começam a fazer contas à vida. Eu sei disso em primeira mão, porque são eles os meus clientes e potenciais clientes. Trabalho e falo com eles todos os dias e sei disto em primeira mão: nem os rendimentos médios americanos, ingleses ou alemães conseguem pagar 2000€ ou 3000€ por um apartamento onde possam construir uma família com o conforto desejado. Investimento estrangeiro my ass. Nem os estrangeiros ficam com vontade de investir os seus rendimentos neste país.  Lisboa chegou a ser cool promovendo o seu baixo custo de vida. Agora... agora nada.

 

O que pagamos em impostos, o que recebemos em salários e rendimentos, versus o que nos pedem por um quarto esconso que seja... São desproporcionais. E não, não queremos viver em quartos para sempre, nem em casa das nossas famílias. Em vez de estarmos a progredir, estamos a regredir. Na geração dos meus pais, além de haver emprego, havia a possibilidade de se ter uma casa própria - um luxo, não é verdade? Agora, vivemos em partes de casa, se calhar até dividimos um quarto com mais pessoas. Sabem quem fazia isso aqui em Lisboa?  Os meus bisavós. Há setenta anos. 

 

(E, já viram...? Se as pessoas que conheço não têm a possibilidade de pagar uma habitação própria, sendo efectivos nas empresas e instituições onde trabalham, ganhando pelo menos 50% mais do que o salário mínimo em início de carreira e tendo um nível académico superior, o que será das pessoas que não cumprem estas condições...? Será esta cidade só para os ricos, mesmo ricos, ostracizando todos abaixo da classe média alta...?)

 

Ah e tal, mas isto é tudo porque Lisboa está a desenvolver-se, ou preferimos ter Lisboa como era antes? Este argumento é tão humilhante para quem constrói a sua vida na capital, que nem merece resposta.

 

Então, e quem vive e trabalha em Lisboa, para o que conta? 

 

Durante as férias, passei por Tomar. Fiquei com vontade de me mudar logo. Espreitei várias montras de agências imobiliárias e babei pelos preços apresentados. Pagando o mesmo que pagaria por um mero escritório de 10m2 sem luz natural em Lisboa, poderia arranjar um T2 ou T3 no centro da cidade de Tomar; poderia andar dum lado ao outro em menos duma hora, teria espaços verdes, parques, restaurantes, livrarias, lojas de roupa, museus, cineclube, escolas, o instituto politécnico... Tudo isto ali, a menos de duas horas de Lisboa (da "civilização"). Quão utópico é querer-se viver, em vez de se sobreviver?

 

Pergunto-me se não começaremos a sair de Lisboa, aos poucos. É isso que a maioria dos meus amigos ambiciona neste momento. Afinal, quem está mal muda-se, não é verdade? Eu provavelmente também não terei vontade de continuar por cá, se tiver oportunidade de viver noutro sítio. Lisboa já não me parece uma cidade sustentável. Vivemos no "demais" constante. Já nem o oásis de viver no meio do pinhal e a 20 minutos das praias me parece suficiente nos tempos que correm, se para lá chegar tenho de passar por provações e agitações que me achincalham os nervos e me cansam mais do que o próprio ritmo diário de trabalho e enriquecimento pessoal e profissional. Perco quase metade dum dia de trabalho a deslocar-me, e o que me salva é trabalhar por conta própria e poder evitar horas de ponta e escolher quantas e a que horas trabalho.

 

Não sou economista, apesar de me interessar por estes temas, por isso não vos sei responder o que seria necessário fazer para melhorar Lisboa, se regular os preços do mercado imobiliário, se aumentar os rendimentos das pessoas, se construir e renovar mais casas na Grande Lisboa, se outra coisa qualquer. E se fosse só isso... Ainda teríamos de pensar nos problemas que surgem duma cidade sobrehabitada e sobreexplorada. Sei que não é assim que os indivíduos que contribuem para o desenvolvimento duma cidade que se diz tão na moda, um exemplo de criatividade, inovação e empreendedorismo, merecem viver. Onde está o retorno? Quando essas pessoas deixarem de ter forças e motivação para contribuir, quem é que quererá cá ficar? 

 

Por agora, procura-se uma alegre casinha, tão modesta quanto eu, mas sem pressão. Pode ainda não ser para mim, pode ser para os meus amigos. Ainda tenho outros planos para o meu dinheiro, mas gostava de ter esperança, de saber, que a liberdade de voltar a ter o meu espaço é uma realidade e não um sonho inconcretizável. Ficarei à espera que esta bolha rebente. Plop.

 

(Entretanto, lembrei-me de que já escrevi sobre este tema... É clicar...)

Estas devem ter espinhos: Flores (Afonso Cruz)

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Quando penso em comprar um livro, tento ler as primeiras páginas antes de o fazer, ou ler sobre ele para nivelar as expectativas. Gosto principalmente de ler opiniões doutros autores ou contactos do Goodreads cujos gostos eu ache semelhantes aos meus.

 

Passei por esse processo com Flores, de Afonso Cruz. Até já me tinham falado sobre ele em mais do que um clube de leitura, por isso estava confiante de que haveria de, pelo menos, achar-lhe piada. Também já me tinham dito que não era o melhor romance do autor, daí tê-lo escolhido antes do outro que comprei, Jesus Cristo Bebia Cerveja, sobre o qual o ouvi falar numa conferência em Banguecoque quando lá vivi (e sobre o qual ainda estou curiosa).

 

No entanto, não foi com Flores que me senti arrebatada. Tem apontamentos interessantes, que me levaram a pousar o livro por alguns momentos para reflectir sobre eles, mas a segunda metade do livro revelou-se penosa com demasiada rapidez. Digo isto tal e qual o senti, o que não quer dizer que o resto das pessoas também não gostem de Flores. Antes pelo contrário, as avaliações que li no Goodreads são positivas, por isso fica a ideia de ser uma mera impressão pessoal.

 

A mim, o que que mais desagradou foi a impressão insistente de que deveria estar a ler ou a fazer outra coisa qualquer, pela repetição, falta de sentido, monólogos insosos, falta de diálogos que - na minha opinião, enriqueceriam tanto o enredo. Penso que esta sensação também se deveu às personagens demasiado semelhantes entre si, com vidas emocionais que me pareceram ser alimentadas por fantasmas da mesma origem, não se conseguindo distinguir uma voz doutra, sem ser pelo conteúdo associado a cada uma. Persistiu a impressão de que faltava qualquer coisa, pelo que infelizmente não me senti interessada em terminar o livro.

 

Estou desconsolada, mas ainda não desisti. Embora não tenha marcado Flores como lido no Goodreads, mas sim como "desistência", darei uma oportunidade a Jesus Cristo Bebia Cerveja e darei notícias assim que possível.

Procura de identidade, propósito e pertença: Normal People (Sally Rooney)

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Embirro com modas, por isso não acredito logo nos grandes êxitos de vendas e de Goodreads. Costumo fazer um finca-pé insistente e certamente irracional no que toca aos bestsellers. Como refinada snob, orgulho-me de não acreditar nem à segunda, nem à terceira, às vezes nunca. Ainda por cima, tenho evitado ficção nos últimos tempos, porque simplesmente me sinto incapaz de pôr o nariz na vida doutras personagens, já tendo o suficiente no meu prato. No entanto, apesar da hesitação, mais cedo ou mais tarde dou o braço a torcer, principalmente quando pessoas em cujos gostos eu confio começam a falar muito bem dos ditos.

 

Aconteceu com Normal People, de Sally Rooney. Já andava com vontade de o ler, mas a procrastinação da leitura preliminar continuou, e continuou, e continuou. Até que a Rita falou bem dele no nosso último encontro Uma Dúzia de Livros, desmanchando todas as minhas muralhas anti-êxito de vendas. Pronto, está bem, dois dias depois já o tinha na mão, acabei de o ler em menos de 24 horas... Foi um deslumbramento imediato, uma urgência sôfrega, nem tive tempo de me aperceber o que tinha acontecido. Foi um fartote de chapadas e montanhas-russas, apenas comparável ao meu romance pirosão favorito One Day, e mesmo ao amigo de faca e alguidar, Love, Rosie. Ao longo dos anos, já tenho escrito sobre o primeiro e digo-vos: este Normal People é ainda melhor.

 

Porque não é só lamechice. Não é só sobre o desencontro de protagonistas antagónicos durante vários anos. É tanto, mas tanto mais do que uma história superficial sobre dois jovens adultos. Na verdade, mais do que isso, é uma história sobre assimetrias sociais, sobre as relações entre pares, entre famílias e entre a família, a procura de um propósito na vida, a procura da pertença e um lugar no mundo, a transição para a idade adulta e, enfim, é sobre o que significa (querer-se) ser normal. É sobre como a relação que temos com outras pessoas molda quem somos e em quem nos tornamos, para onde vamos, aquilo de que gostamos. Este livro pôs-me a pensar sobre todas essas variantes, condicionantes e temáticas na minha própria história pessoal e das pessoas que me rodeiam. Assim, sem dúvida que vale a pena ler ficção. 

 

Dito isto, o design do livro e a estrutura do romance podem fazê-lo parecer o corriqueiro young adult, mas não se deixem enganar pelas aparências. Tive de pousar o livro várias vezes, de tão incomodada que me sentia, debatendo-me simultaneamente com a vontade de ler mais um página, e outra, e outra. Não querendo brincar com as vossas expectativas, espero mesmo que gostem de ler Normal People, pelo menos metade daquilo que eu gostei. A autora Sally Rooney rendeu-me, fico a aguardar pela série, e em breve darei uma chance a Conversations with Friends.

Uma questão de escolha e concentração: Essencialismo (Greg McKeown)

O que é que podemos fazer para simplificar as nossas vidas e torná-las mais fáceis de navegar? (E, já agora, que livro é que vos recomendo para as férias?)

 

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Quando não tenho respostas para algum problema, costumo ir procurá-las nos livros. Com os devidos riscos, não me costumo sair muito mal, já que uma incursão a uma livraria qualquer nos dias de hoje nos oferece uma variedade enorme de títulos simpáticos para todos os gostos e necessidades. Fez ontem uma semana que andei à procura de livros que me tirassem do marasmo intelectual, profissional, pessoal e mesmo de leituras que andava a sentir no ar. Estava para chegar, mas eu não o queria. Lá está, fui procurar nas estantes, antes que me apanhasse.

 

Por acaso, descobri umas promoções engraçadas para alguns livros com títulos interessantes sobre desenvolvimento pessoal. Na maior parte dos meus dias, não acredito em auto-ajuda, mas no último ano tenho-me interessado cada vez mais por temas ligados à psicologia e à cognição, por isso começo a ter um fraquinho por livros sobre produtividade, bons hábitos, tomada de decisão, bem-estar, felicidade no trabalho e empreendedorismo. Foi nesse montinho de livros pré-seleccionados para uma avaliação superficial na sala de leitura que se encontrava Essencialismo - aprenda a fazer menos mas melhor, do consultor Greg McKeown.

 

Suspeito imenso de livros de desenvolvimento pessoal com títulos tipo "catch phrase". Essencialismo quase podia ser o nome de um culto millennial, e eu nem sou nada fã de coisas da onda da Marie Kondo, arrume a sua casa, arrume a sua vida, ou de minimalismo, ou propósito, projecções para o futuro e etc. No entanto, este Essencialismo revelou-se ser mais do que o título. É, de facto, um bom resumo para uma teoria engraçada, a de que às vezes desenvolvemos tantos interesses e ocupações ao mesmo tempo, que nos dispersamos. Fazemos listas de prioridades com 10 itens, mas quão prioritária é uma lista com 10 itens? Por onde devemos começar? Disparamos para todos os lados?

 

Confesso que me tenho sentido assim a minha vida toda. Quero fazer tudo, chegar a tudo, ter todas as experiências, esticar o tempo, ter vários interesses, objectivos para agora e para depois, e ultimamente tenho reconhecido que isso não é produtivo. Enquanto fazemos X, não nos concentramos em Y, e vice-versa. Então, Greg McKeown defende que o melhor é fazer a coisa certa, pela razão certa, no tempo certo. É um pensamento tão simples, mas tão eficiente, não é? Faz bem recordarmos o mais óbvio, quando não o conseguimos ver no meio da confusão.

 

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Além de apresentar uma série de premissas muito cativantes (e tudo devidamente fundamentado segundo estudos científicos), este livro é a típica leitura de Verão - li-o em dois ou três dias, intercalado com outros. Letra grande, parágrafos espaçados e não muito longos, informação disposta visualmente para ilustrar o texto, capítulos curtos e sempre assentes num conselho ou problema, o livro em si responde a problemas dos comuns mortais... Ou seja, é uma leitura prazerosa para quem tira agora férias e procura fazer reset antes de voltar ao trabalho, com uma nova maneira de pensar e agir.

 

🏖️ E desse lado, que leituras de Verão não andam a procrastinar?

Viver sempre como se fosse o último ano: Não Respire (Pedro Rolo Duarte)

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Eu já quis ser jornalista e pensei mesmo que o seria desde os tempos de secundário até ao segundo ano de licenciatura (correspondente ao período de negação sobre o prazer que ensinar me dá). Por isso, até agora, ainda não fui jornalista, pois não. Mas uma coisa é certa: aquilo que eu mais gosto é de escrever (e de saber que há quem leia o que escrevo), continuo a ter o mesmo interesse, assim como de ler, e de ensinar, e de aprender. A recomendação que vos trago hoje relembrou-me por que é que o jornalismo fez parte dos meus planos no passado e, acima de tudo, por que motivo a escrita dificilmente deixará de ocupar um lugar prioritário no meu presente e futuro.

 

Por ter sido um livro tão falado à minha volta, que emocionou tanta gente, não esperava que Não Respire, de Pedro Rolo Duarte, também me engolisse como engoliu. Sou ligeiramente do contra, quase que espero sempre não ser conquistada pelo que conquista os outros. Além disso, mantive as expectativas baixas, principalmente porque me prendia o generation gap e as referências ao passado recente e a círculos profissionais e sociais que desconheço, e porque o autor marcou uma geração e um público que não tinha a certeza de que seriam os meus.

 

Afinal, talvez sejam, mas comecei muito a medo. Aliás, finalmente dei-me por vencida sobre se haveria de comprar o livro quando o encontrei na venda de livros em segunda mão da Rua da Anchieta (e o vendedor me fez um desconto), no dia 1 de Maio, e estive mais de dois meses com ele na estante a ganhar fôlego.

 

Ainda bem que assim foi. Se não me tivesse rendido à curiosidade acumulada, não teria lido as memórias de alguém que ainda tem tanto para ensinar e contar aos mais novos, enquanto recorda a sua infância, juventude e uma idade adulta cheíssima com que outros se identificarão directamente. Sinto que, esteja onde estiver, Pedro Rolo Duarte continua a sua obra por cada leitor que revisitar os seus trabalhos realizados em vida. O legado continua enquanto ainda houver quem o leia.

 

E este livro não é sobre o cancro, não é sobre Pedro Rolo Duarte estar doente e pensar que pode morrer. Antes pelo contrário, sem clichés, é uma celebração do que viveu, um esboço de autobiografia e uma menção especial às pessoas com quem se foi cruzando, pelo bem e pelo mal, sem vergonha ou arrependimento. Até às últimas cinco ou dez páginas, quando finalmente surge alguma preocupação acerca duma cirurgia arriscada, não existe sinal de derrota ou desânimo.

 

Entre textos escritos e publicados no passado, textos inéditos, a homenagem constante ao filho, à família e aos amigos, e notas curtas sobre o dia-a-dia, Pedro Rolo Duarte concentra-se no privilégio que é ter uma vida completa, fazendo-se aquilo de que se gosta e rodeando-se de pessoas inspiradoras e igualmente enérgicas, tudo com uma paixão admirável que transborda livro fora (e que me deu muita vontade para ir procurar mais sobre o seu contributo para o jornalismo português recente, seja na televisão, na imprensa (destaque para o DNA) ou mesmo no blog pessoal. Pelo que escreveu durante o seu último ano de vida e pelas crónicas repescadas, consegui ser contagiada pelo seu bom carácter, ética de trabalho e gozo pela mera possibilidade de estar vivo, não só quando soube que tinha cancro, mas em geral durante os seus cinquenta e três anos de vida. E conseguiu acabar o livro antes da história acabar.

 

Se querem ser ou são jornalistas, têm de ler este livro. Se gostam de bom jornalismo, também têm. Se vos interessam vidas cheias que vos deixem inspirados, força. Este Não Respire é tudo: memórias pessoais e profissionais de alguém que viveu intensamente as primeiras décadas pós-25 de Abril, é um pedaço de história do jornalismo recente em Portugal, na primeira pessoa, pelos olhos e palavras dum agente dessa realidade; é um elogio à vida e ao amor em todas as suas facetas. E vai-se lendo, uns textos mais desafiantes que outros, curtos e longos, bocadinhos de sabedoria de quem a foi acumulando pela experiência.

 

📚 Que outras histórias reais vos têm inspirado? 

As dores de um blog

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Este texto é para quem tem um blog, para quem não tem, e para quem, não tendo, gostaria de ter - ou seja, para toda a gente. No entanto, mais especificamente, este texto é para quem não sabe se vale a pena ter um blog.

 

Como podem verificar, publiquei pela última vez há duas semanas. Costumo fazê-lo mais frequentemente, mas a vida tem acontecido, o que quer dizer que não há grande coisa sobre a qual me apeteça escrever. Não tem acontecido nada, que, para quem escreve, costuma significar "não tem acontecido nada disruptivo ou dramático, cá andamos felizes e contentes, porque da satisfação não reza a escrita". Normalmente, tenho andado a escrever sobre livros, livros e mais livros. Já escrevi sobre a adolescência (coisas miúdas e desinteressantes), e depois universidade, universidade e mais universidade, e depois sobre viver na Tailândia, viver na Tailândia e mais viver na Tailândia, e depois desgosto de amor, desgosto de amor e mais desgosto de amor, a par de síndrome do regresso, síndrome do regresso e mais síndrome do regresso.

 

Este blog tem oito anos, celebrados há poucos dias, por isso já passou por várias fases. Quando digo às pessoas que tenho um blog, perguntam-me "um blog de quê?", como se isso fosse pergunta que se faça. Tenho um blog de tudo e mais algum acontecimento de vida, interesse, descoberta, partilha e queixinhas. Não lhe encontro categoria possível, e acabo por preferir a vergonha de responder "é um blog pessoal".

 

Então, talvez lhe devesse chamar "repositório". É como aquelas caixas rijas e coloridas que compramos na loja Viva, que levamos para casa a pensar que vão servir para um propósito particular e acabam a acumular tralhas diversas, amadurecidas com pó e mosquitos mortos misteriosamente presos lá dentro.

 

As dores de um blog são as dores da pessoa que o escreve. Expondo mais ou menos a sua vida fora dos écrãs, quem escreve um blog depende dela para criar conteúdo. Mesmo quando os blogs são temáticos, acabam por captar um pouco do que se passa antes de terem surgido aqueles textos. Tal como os livros, afinal. Quem é que nunca tentou perceber o que iria pela cabeça dum escritor ao escrever aquela história, ou sobre aquele tema específico? Quem é que nunca tentou adivinhar as suas motivações e interesses, ou a relação da ficção com a vida fora das páginas? Com um blog, passa-se o mesmo: conhecemos essas pessoas, mesmo sem nunca as termos visto ou falado com elas.

 

Então, o oposto também é possível: quando não se passa nada (ou, pelo menos, quando o autor pensa que não se passa nada), também não há muito para servir de matéria para a escrita. Não consigo inventar, mas posso-vos dizer que vi uma temporada de 22 episódios x 40 minutos duma série absolutamente irrelevante no Netflix em menos de sete dias, não tenho tido muita concentração para ler e tenho dado e preparado aulas até ter o cérebro dormente. Aliás, passei os últimos dias a arrastar-me, em parte porque ando a beber demasiado chocolate quente e a comer demasiadas gomas.

 

Estranhamente, hoje acordei nesse mesmo estado, mas à medida que a manhã se ia passando, fui-me apercebendo de que esse marasmo é cíclico, que é preciso deixá-lo entrar para depois o ver sair e que não me hei-de deixar deslumbrar por séries de crime e paixão para sempre. Depois de drenado o que estava a apodrecer, deixem entrar as novidades. Treinem o cérebro: um episódio de podcast de cada vez, um capítulo dum livro de cada vez, um artista novo de cada vez, uma resolução de cada vez.

 

A ver se regresso às lides menos procrastinantes e mais edificantes ASAP.

 

Seja como for, regressando ao ponto de partida. Este texto é para quem não tem um blog e não tem a certeza se valeria a pena. Talvez não tenham a ideia cimentada - que tema?, que tom?, que ideia de mim? Assinado ou anónimo? Para partilhar com os amigos e a família ou só para desconhecidos (porque é mais fácil escrever para quem não nos conhece)? Mas, volvidos oito anos, eu continuo a apoiar a ideia de que um blog é o que nós quisermos. Ao longo do tempo, apreciamos as metamorfoses e as dores. As metamorfoses de um blog são as de quem o escreve. As dores de um blog são as de quem o escreve. Independentemente do que procuram, vale sempre a pena ter um blog. É catártico, consola e dá-nos um propósito, nem que seja durante um par de horas por semana.

 

Estão a ler este texto? As dores do meu blog são as minhas. Irrelevantes, em geral, no plano universal. Relevantes, mesmo que descartáveis, para os tantos que por aqui passam e param. Imprescindíveis para mim, que o estou a escrever como exercício meta-coiso de quem pretende reafirmar a identidade do seu blog e um pouco a sua. Esta é a minha linha de escrita actual, se é que isso exista. Ora, se já existiram tantas... mais hão-de existir! Isso de se pensar "se é para escrever, que se escreva bem" é o que temos de combater com exercícios anti-ego. Vamos escrever o que nos apetecer, não interessa se mais alguém vai querer ler o que escrevemos ou não.

 

Como imagem ilustrativa deste texto, deixo-vos com uma paisagem a partir do cimo de Óbidos, que fotografei há algumas semanas quanto lá fui. Não tem nada a ver com o resto do conteúdo, mas acho-a extremamente relaxante, devido à quantidade de verde e azul em toda a sua extensão, extensão essa que por sua vez ilustra a quantidade de procrastinação investida na elaboração deste texto. ... Viram? A qualidade literária deste parágrafo nem sequer existe, nicles, e de certeza que alguém o está a ler e a pensar que valeu mais a pena fazê-lo do que voltar ao trabalho, ver uma série de segunda categoria no Netflix ou ler um capítulo do último Prémio Nobel. Também me diverti a escrevê-lo, por isso é recíproco.

 

(Fora de brincadeiras, muito obrigada aos comentários que por aqui vão deixando. Confesso que sou uma respondedora de comentários bastante ausente e, na melhor das hipóteses, atrasada. Mas eu leio e agradeço. Pratico essa coisa da gratidão. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Prometo continuar a contribuir para a vossa procrastinação por muitos anos, provavelmente mais oito, dez ou trinta.)