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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Quando viajo

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Quando viajo para o estrangeiro, normalmente não quero saber. Viajo de cara lavada. Não me preocupo em arranjar o cabelo e visto roupa elástica. Umas calças de ganga e uma camisola ou uma t-shirt servem para o efeito. Muitas vezes, deixo as lentes de contacto na caixa, vou de óculos e acabou. Não me preocupo demasiado em parecer perfeita nas fotos, para as publicar nas redes sociais. Se me apetecer publicá-las, seguem sem acessórios ou filtros. Para mim, viajar e ser-se turista é adoptar a filosofia do pragmatismo, principalmente porque o costumo praticar sem quem faça questão de me ver linda e maravilhosa. É preciso poupar no espaço e peso da bagagem e no tempo gasto na casa-de-banho, que podem ser todos utilizados noutras coisas a que dou mais valor quando tenho oportunidade para as apreciar.

 

Por isso, não entendo quem se arranja como se fosse para o baile de debutantes, enquanto vai ali subir o Arthur's seat!

 

Talvez eu mude com o tempo e com as situações. Nem sempre sou, nem sempre viajo, assim como vos escrevo. Também sei fazê-lo, nomeadamente, com maquilhagem no nécessaire, vestidos e mais de dois pares de sapatos. No entanto, por agora, sinto-me muito "turista de fato-de-treino", less is more. Sinto-me turista acorda-e-sai. Já tenho as fotos do LinkedIn e do Tinder para provar que uma pessoa pode ser o que quiser, para quem quiser, de acordo com os contextos. Por agora, viajar é não querer saber de muito (excepto comida e paisagens) e procurar alguma sensação de libertação que possa surgir.

 

Aliás, é para isso que servem as sweat-shirts das nossas faculdades, certo? #teamfluldesde1911

O primeiro dia

Não eras o meu amor, eras o meu amigo. Não me davas só flores, davas-me abrigo. Agora, não sei quem és, já não sei com quem vivo. És só alguém que se parece contigo.

("Agora", Carolina Deslandes)

 

Acho que escrevo isto para quem está desse lado e que poderá estar a passar pelo mesmo. Ou que terá passado por alguma situação semelhante. Ou que poderá vir a passar. São só meia dúzia de pensamentos, umas quantas conclusões sobre quase nada.

 

Costuma a sabedoria popular avisar que ninguém é de ninguém, que não devemos tomar pessoa nenhuma como garantida, mas isso são tudo frases bonitas, que na realidade não se aplicam com tamanho grau ético. Se não descansássemos o coração, se não pensássemos que tudo há-de correr bem, que há estabilidade e que poderemos contar às cegas com os outros, o que seria feito de nós? Passaríamos a vida inteira com o coração nas mãos; morreríamos, novos e exaustos, de ansiedade.

 

Portanto, quando surgem falhas, ou quando somos apanhados pela imprevisibilidade do que vai na cabeça - na vida - da outra parte, corremos o risco inevitável de levar um banho de água gelada, de nos sentirmos engolidos, incapacitados, consumidos e amputados duma parte do corpo que nem sabíamos que existia. O pior é começar de novo. Encharcados. A patinhar o chão. A salpicar todos por quem passamos. 

 

Metáforas à parte, o pior é começar de novo. Acordar num dia aleatório dessa fase da qual nem nos recordamos bem (porque é tudo tão igual, mas tão confuso), pensar que já chega e colocar todos os mecanismos de superação em trabalho reforçado. Este é só o primeiro dia, custa horrores e se calhar nem nos lembramos de quando ou como aconteceu. É um dia sobre o qual nem reza a história.

 

Ligamos aos amigos todos, aguentamos mais uns sermões sobre como o outro lado é que terá ficado a perder (até também acreditarmos nisso de forma veemente), experimentamos todos os argumentos que apoiam uma última mensagem (só mais uma!), os amigos levam-nos a jantar a ver se o mal é da fome, deixam-nos brincar com os filhos para despistar o relógio biológico, contam-nos as histórias deles (que, por norma, tendem a ser mais conflituosas, tortuosas e conturbadas do que as nossas), planeiam arranjinhos com outros amigos solteiros, distraem-nos com mais comida... 

 

Algum tempo depois, damos por nós a pensar cada vez menos nessa pessoa, a pensar que, de facto, a coisa não correu bem, mas que nem tudo foi mau e há que lembrar isso com carinho e respeito, que a hipótese de reconciliação nem a nós nos agradaria porque o que era já não é, mas que - surpresa - se calhar até há pessoas bestiais que andam por aí e que ainda nem conhecemos. E que todos merecemos encontrar a felicidade e que não nos devemos martirizar nem aos outros por tentarem também o melhor que podem, porque não é justo deixarem-se ficar como estão e serem infelizes.

 

Além disso, começamos também a acreditar no que andávamos a repetir como um mantra: temos saúde, trabalho, amigos que nos alimentam e nos emprestam os filhos, uma família que nos desculpa passarmos as noites inteiras fechados no quarto a ouvir discursos motivacionais, que há mais peixe no mar, etc.

 

O que fica definitivamente é um sentimento irremediável de incompreensão. Como é que é possível sermos, sentirmo-nos, tão próximos de alguém e, numa questão de dias, passarmos a habitar esferas que nem se tocam? "Porquê a mim, que fiz o melhor que pude e soube?" Por que é que nem há notícias, um cuidado, uma chamada? "Nunca mais vou encontrar alguém assim!" Enchemos esse vazio de respostas, primeiro com comida (um elemento omnipresente na minha recuperação, viva os mil-folhas e o ginásio), depois com gente positiva ou que faça por nos compreender, com novos hobbies, com novas rotinas, deixamos de achar piada a músicas de The Script (I am the woman who can't be moved, I'm still alive but I'm barely breathing, you're going through six degrees of separation, lá lá lá, pronto, já chega, Beatriz) e passamos a evitá-las, experimentamos redes sociais onde nunca tínhamos imaginado entrar... tentando sempre perceber até que ponto é possível separar o antes do depois. Testamos limites, possibilidades de recuperação. 

 

Mas tudo se vai fazendo, garanto-vos que o panorama vai melhorando a pouco e pouco, praticamente sem notarmos.

 

Para mim, a chave tem sido levar um dia de cada vez, sem elevar demasiado as expectativas, tentanto aceitar que não podemos controlar tudo. Podemos querer muito que aconteça qualquer coisa que talvez nunca venha a acontecer (ou vice-versa, podemos tentar impedir que aconteça sem o conseguirmos evitar). 

 

Por isso, cada dia é um primeiro dia. 

 

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"Bird by Bird": 10 instruções sobre a escrita (e sobre a vida), segundo Anne Lamott

Há poucas semanas, li um livro que me pôs a rir duma forma como nenhum me tinha feito nos últimos tempos. Li e ri, mas também li e pensei que, realmente, a escrita e a vida são para ser vividas mesmo assim: pássaro por pássaro.

 

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Bird by Bird: Some Instructions on Writing and Life, assim se chama o livro miraculoso que me relembrou que, tal como joelhos esfolados em gravilha, também os assuntos do coração não se resolvem no momento em que tentamos tratar a ferida. Às vezes, tem mesmo de apanhar ar. Ou, pacientes, temos de ir recolhendo um e outro pássaro. O que interessa é irmos tentando. Como acontece na escrita...

 

A partir do momento em que comecei a ler este livro, passei a adoptar esta forma de viver os obstáculos que vão surgindo. Os imprevistos. As desilusões. Há que conquistá-los um por um. (Na verdade, essa filosofia bird by bird tem origem num trabalho da escola sobre pássaros que o irmão da autora procrastinou até ao último dia quando era criança, mas divago.)

 

Assim, Anne Lamott, esta senhora fantástica que muitos conhecem duma TED Talk, vai-nos apresentando imensas lições sobre a vida e sobre a vida dos escritores. No entanto, o que partilha connosco poder-se-ia aplicar a qualquer profissão ou pessoa, qualquer contexto.

 

Gostei muito das seguintes 10 instruções sobre a escrita (e sobre a vida) que Anne Lamott nos deixa por escrito. Não se encontram necessariamente pela ordem do livro, nem são apresentadas pela autora desta forma. Estas foram seleccionadas e destacadas por mim, nem que seja por serem as que fazem mais sentido para o meu caso pessoal e de escritora amadora a fazer um esforço por voltar a competir e/ou publicar.

 

1. Um escritor é alguém que tem de recuperar o poder de observação, o deslumbramento e a inocência da infância, para poder captar o que os outros podem não ver ou sentir explicitamente;

 

2. A melhor maneira de começar  escrever é em quantidade, mas não necessariamente em qualidade. A partir daí, do exercício de escrita livre, podem surgir pequenos pedaços de informação ou texto que sirvam para começar um rascunho. É ao escrever e a deitar fora que vamos descobrindo o que queremos escrever (um pouco como na vida, digo eu - se nos fecharmos em casa à menor contrariedade, nada nos irá acontecer; já o contrário...);

 

3. Os primeiros rascunhos vão ser sempre maus, por norma, pelo que nunca se deve ter as expectativas elevadas. Até se entregar uma versão final a quem de respeito, o trabalho de edição pode revelar-se o mais moroso;

 

4. Mesmo que não nos sintamos "inspirados" ou com vontade de escrever, é importante que tiremos tempo suficiente para apenas nos sentarmos com disponibilidade para escrever. Pode acontecer que, nesse entretanto, as personagens comecem a querer falar-nos ou que nos occorra uma ideia que complete o texto/enredo e que lhe dê sentido. É como dançar, diz a escritora, parando a mente racional. Quando dançamos, não olhamos para os pés para confirmar se o estamos a fazer bem, apenas dançamos (e, na vida, é não olhar demasiado também);

 

5. Quando não houver motivação para escrever, podemos tentar escrever um livro para alguém, como um filho, um pai ou um amigo. Podemos escrever para lhes dar como presente. No meu caso, mesmo quando não consigo continuar o livro que estou a tentar escrever, escrevo-vos aqui;

 

6. É importante anotar tudo o que for possível. Tudo pode tornar-se material para escrita, detalhes da vida quotidiana. Fazer listas ou ter sempre post-its à mão pode ser útil para anotar ideias súbitas. É provável que a maioria desses itens seja absurdo e que não venha a ser utilizado, mas alguns podem tornar-se centrais para encontrar o sentido do que tentemos criar;

7. Obter diálogos verosímeis pode revelar-se uma tarefa hercúlea, mas resulta da investigação sobre como as pessoas falam na realidade, através da mera atenção que prestamos a quem nos rodeia, por notas ou gravações.

 

8. Escrever em grupo ou encontrar alguém com quem se possa ir trocando ideias é construtivo. Muitas vezes, a crítica da outra pessoa, seja amigo ou colega na criação, pode ser feroz, mas é melhor do que se viesse dum editor. O mesmo pode ser retribuído, para que haja sempre motivação de se escrever qualquer coisa. Idealmente, devem ser estabelecidas datas para esses encontros em que se trocam textos;

 

9. Mesmo que um escritor não seja publicado, o presente da escrita vale por si, por ter sido algo a que se pôde entregar de coração, que importa por causa do espírito e da dedicação. Além disso, escrever diminui a sensação de isolamento, porque, quando escrevemos, fazêmo-lo sempre tendo em conta algum leitor ou grupo;

 

10. Devemos escrever pelo prazer que é. Claro que o objectivo de um escritor é, por norma, chegar aos seus leitores. No entanto, tal como um farol não vai atrás de barcos para salvar, um escritor também deve escrever os seus livros para que existam, mas sem esperar a fama.

 

***

 

E assim ficou a minha lista de lições sobre a escrita e, já agora, sobre a vida. Na minha opinião, é impossível não gostar da Anne Lamott. Tem sentido de humor, aparentemente teve uma vida cheia de peripécias, escreve como quem conversa, fala aos corações. Depois, digam-me o que acharam da lista de lições e do que poderão ter ouvido sobre a autora e a sua obra!

Por que é que passei a ouvir TED Talks diariamente (e por que é que os podcasts são melhores do que a televisão para mim)

Conheço muitas pessoas que chegam a casa e ligam a televisão "para fazer barulho". Eu ouço TED Talks e tenho-me tornado fã de podcasts exactamente pelo mesmo motivo.

 

Antes, fazia-o com a música, mas comecei a aperceber-me de que não sou assim tão produtiva, porque as canções, as letras, os ritmos me distraem. Então, passei a tentar vídeos do YouTube. No entanto, muitas das vezes os meus youtubers favoritos usam efeitos visuais que pedem a minha atenção, ou introduzem imagens ilustrativas que fazem falta à narrativa áudio. 

 

Foi assim que cheguei à conclusão de que teria de encontrar um qualquer barulho de fundo para me distrair, mas que, ao mesmo tempo, também não fosse um desperdício de tempo. Cheguei aos podcasts e às TED Talks dessa forma. Por vezes, nem estou a prestar atenção, mas uma ou outra coisa ficam. O Spotify é uma base excelente para procurarmos aquilo de que mais gostamos. Além disso, a aplicação TED encontra-se dividida em várias categorias, temas e listas de reprodução, que facilitam a navegação.

 

Há temas para todos os gostos, tanto no Spotify quanto na TED. Eu gosto de literatura, educação, cultura, psicologia/desenvolvimento pessoal, estilo de vida saudável, artes e entretenimento. Depois, ainda há desporto, música, humor, notícias, política, jogos, histórias... Porque não tentar um ou outro? Pode ser que gostem. E podem estar a fazer o que quiserem ao mesmo tempo, sem publicidade pelo meio!

5 coisas que aprendi a trabalhar por conta própria

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Eu sei que há muitas pessoas que prezam horários de trabalho fixos, apenas da hora X à hora Y. Gostam de entrar no trabalho sempre à mesma hora, sair e bater com a porta, não pensar em nada que fique dentro do escritório. Eu não sou assim. Prefiro trabalhar por conta própria, a título individual, mesmo que tenha de fazer alguns sacrifícios.

 

No entanto, desde que o comecei a fazer há uns meses que tenho aprendido que trabalhar a título individual, trabalhar por conta própria ou em freelance tem as suas peculiaridades.

 

Aqui segue uma lista de algumas das coisas que tenho aprendido sobre este regime de trabalho, que fui reunindo nos últimos tempos!

 

1. Não há horários fixos semanais, não há folgas, não há fins-de-semana... a menos que os criemos!

Quando há trabalho, há trabalho. Esta é a lição que mais me custou aprender. Posso desde já dizer que não tenho um dia completamente livre há cerca dum mês, mas que, entretanto, decidi bater com a mão na mesa e começar a impor-me algum descanso. A saúde vem primeiro, tanto a física quanto a mental. Ter uma manhã ou uma tarde livre é bom; no entanto, não serve para muito, quando muitas das vezes até temos assuntos pessoais para tratar, pessoas que precisam da nossa ajuda, um recado qualquer para fazer... Muitas das vezes, o trabalho aparece a meio do dia e até corta o ritmo do descanso, por muito que nos tentemos abstrair. 

Por isso, esta semana estabeleci que vou ter o feriado e o Domingo sem trabalho. Há quem aguente muito tempo sem um dia inteiro para espairecer, mas eu já estou a atingir o meu nível de ruptura. Mesmo que os restantes dias sejam mais ocupados, há que fazer escolhas. Se há clientes, se há aulas para dar... terão de esperar, terão de se cingir ao horário que lhes apresento. Considero indispensável criar estes limites, não só para com os outros, mas também para connosco, nós mesmos.

 

2. É muito fácil nunca dizer "não" ao trabalho que nos é dado

Uma das características do trabalho em freelance ou por conta própria é a instabilidade. Para mim, ela pode ser aproveitada de forma positiva (detesto manter rotinas por mais do que umas semanas, adoro desafios e conhecer ou estar com pessoas novas), só que há sempre o risco eminente de se tornar uma fonte de insegurança - por exemplo, insegurança financeira.

É difícil dizer "não" a trabalho que me dêem, por ter noção de que tenho de aproveitar enquanto ele existe. Duma semana para a outra, posso ficar um montante equivalente no rendimento. Ou pode acontecer algum imprevisto doutro lado. Por isso, tento aceitar todo o trabalho que surja, porque "nunca se sabe". E, depois... regressamos ao ponto #1! 

Quaisquer que sejam os benefícios mais imediatos, estabelecer limites e horários de trabalho diário e semanal é indispensável. Tenho tentado impor isto à forma como lido com o meu trabalho. Às vezes, nem tem de ver com a quantidade, mas sim com a intensidade e o esforço mental e físico. Puxar a corda invisível da nossa resistências, vezes sem conta, pode não beneficiar todas as partes da nossa vida. Se não é por nós que decidimos parar, que seja pelos outros, por aqueles que nos rodeiam e se preocupam e querem/precisam de passar tempo connosco.

 

3. Se formos bons no que fazemos, há feedback positivo imediato na forma de recomendação (em inglês, word of mouth)

Gosto muito de trabalhar desta forma, porque estou em contacto directo com muitas pessoas, possibilitando uma interacção próxima e uma partilha de pensamentos e opiniões imediata. Se gostarem do meu trabalho, é-me dito na hora e consigo assistir a reacções ao vivo. Além disso, se formos bons no que fazemos, se as pessoas com quem trabalhamos (alunos, no meu caso) ficarem satisfeitas, irão contá-lo aos amigos ou conhecidos, registar uma boa avaliação se for a nível digital, promover o nosso trabalho duma ou doutra maneira. Poderão até começar a criar redes e recomendações em cadeia (já me aconteceu!). A palavra será passada, trabalho puxa trabalho. 

 

4. Desafios constantes são necessários

É fácil acomodarmo-nos, quando não temos estímulos externos que nos vão empurrando para o próximo degrau (uma reunião a aproximar-se, um chefe ou supervisor, uma mãe, uma avaliação profissional ou escolar, uma oportunidade de promoção em vista). Desta forma, ao trabalhar por conta própria, podemos cair na tentação de apenas fazer o que já é seguro e cujos resultados já conhecemos. No entanto, não é assim que entramos num ciclo vicioso, pouco saudável e motivador? Não digo que nos tenhamos sempre de desafiar a nível profissional, mas então não devemos encontrar outras fontes de desafio, como um novo passatempo? Ou apenas trabalhar num local diferente dos dias anteriores? Ou trocar ideias, marcar um lanche, com alguém que também queira partilhar as suas ideias - por exemplo, outro freelancer, mesmo que doutra área? Estas são algumas das minhas sugestões para manter a sanidade inteira e a criatividade a fluir.

 

5. Trabalhar como freelancer pode ser solitário, mas não estamos sozinhos

Pessoalmente, este aspecto não me afecta tanto. Afinal, uma professora, ainda que por conta própria, precisa de alunos, e os alunos são pessoas. Passo quase todo o dia acompanhada, pessoalmente ou à distância. No entanto, é importante destacá-lo - se não fosse este o meu caso, se eu apenas trabalhasse à frente do computador ou ao telemóvel, sei que esta seria uma vida mais solitária. Há muita gente nestas condições, cada vez mais, à medida que o trabalho remoto se torna um fenómeno mais frequente. Felizmente, temos espaços recentes de co-working, o que poderá atenuar o isolamento de quem trabalha sozinho. Trabalhar por conta própria não tem de ser "a partir de casa", pode ser a partir de sítios onde outros se juntem a fazer o mesmo (por exemplo, procurem em grupos de Facebook outros freelancers/nómadas digitais que se reúnam informalmente em cafés!). 

A nível pessoal, à falta dos colegas de trabalho tradicionais, há que manter relações fortes após o fim do dia. Podem ser relações mais superficiais, de circunstância ou próximas, que nos assegurem a ideia de que, mesmo que trabalhemos sozinhos, continuamos a estar rodeados de pessoas que não nos deixam ficar sós.

 

***

Por fim, gostaria de deixar uma "porta" aberta aos restantes trabalhadores por conta própria ou em título individual: o que aprenderam com a vossa rotina? E que dicas deixam aos mais inexperientes? Partilhem tudo isto na caixa de comentários!

Sem literatura portuguesa na biblioteca local?

Tenho lido bastante, principalmente autores portugueses e livros de ciência popular e escrita criativa em inglês. Na verdade, já li quase todos os livros que tinha por ler nas minhas estantes, excepto aqueles com histórias mais pesadotas, de fazer chorar corações empedernidos (estou a olhar para vocês, Vitorino Nemésio e Harper Lee). 

 

Por isso, ontem decidi ir à biblioteca local, da vila onde moro e onde estudei. Costumava ir lá e encontrar sempre um livro qualquer com o qual me conseguisse entreter. Chegava a levar à meia dúzia de livros para casa. Mesmo que não lesse todos, havia sempre um ou outro que me chamava a atenção (por exemplo, os escritos de Martin Luther King Jr., os romances de Murakami, Vasco Graça Moura...). Há alguns anos, até cheguei a trabalhar para a versão de jardim dessa biblioteca local, durante as férias, por isso, depois dalguns anos sem a visitar, tinha na cabeça uma ideia satisfatória do que lá poderia procurar. 

 

Ontem, visitei essa biblioteca local, porque fiquei sem material de leitura em casa que me entretivesse, sem me massacrar a cabeça com tristezas irremediáveis (como aconteceu com dois dos últimos livros que li) mas que também não me fizesse perder tempo. Ia à procura de literatura portuguesa, em particular, talvez Valter Hugo Mãe, José Luís Peixoto, Afonso Cruz, os vencedores de prémios Leya ou APE (todos lidos por imensos portugueses, famosos, com tiragens relativamente altas por edição), ou um autor ainda desconhecido que por lá tivessem.

 

Não tive sorte nenhuma nesta dita biblioteca local. Entre Saramago (cuja obra já vive em grande peso cá em casa), Margarida Rebelo Pinto, Gustavo Santos na prateleira de Psicologia (!!!!!!!), Tiago Rebelo (não faz o meu estilo) e um ou outro Eça, restavam poucas opções. Aliás, os que restavam já eu li durante o ensino secundário, durante a época em que ia à biblioteca todas as semanas. Mesmo as estantes de literatura traduzida pareceram-me, de súbito, insuficientes. Nicholas Sparks, J. D. Robb, Stephanie Meyer, Emily Giffin...

 

Obviamente, saí de lá desiludida. Ficou a sugestão de procurar o que queria na biblioteca municipal (que fica a 20 km de distância, muito perto). É suposto esta biblioteca local, da junta de freguesia, servir pelo menos 25 mil habitantes. No entanto, não sei como poderá esta selecção limitada - e limitativa - de livros suprir as necessidades duma população em aumento constante, e com níveis de literacia também crescentes. 

 

Fica o desabafo. Tenho saudades de estudar na FLUL para poder usar a biblioteca da faculdade. 

Sobre a felicidade dos outros

Ultimamente, tenho pensado muito em felicidade. Tenho pensado, em particular, na felicidade dos outros. Tenho-me perguntado muitas vezes "o que é que leva estas pessoas a serem tão felizes?". Por isso, concluí, é que muita gente passa imenso tempo imersa nas redes sociais. Queremos saber qual é a solução dos outros. O que é que eles fazem, como é a sua vida, o que os leva a estarem tão satisfeitos quanto aparentam? Como é que se constroem e mantêm aqueles sorrisos?

 

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 https://www.pexels.com/

 

No entanto, é raro encontrar essa solução para a felicidade dos outros ao virar da esquina duma foto de Instagram ou dum texto num blogue, não é? Com alguma frequência, dou por mim a apenas ver fotografias de gente feliz, gente de bem consigo e com o mundo, gente inteira. Uma foto depois de correrem a maratona; um amor imaculado; um prato cheio de verdes com aspecto gourmet; uma catarata em Bali; um grupo de amigos à volta duma mesa; um diploma de excelência; um corpo definido.

 

É normal, todos queremos conhecer e partilhar histórias de sucesso. É mais intuitivo mostrar e consumir conteúdo que transmita energias positivas do que energias negativas.

 

Mas só vemos, uma e outra vez, uma parte do processo: o final, o happy ending, o desfecho, tal como na ficção.

 

Nota intermédia: quando eu era miúda, saltava sempre a parte das cassetes em que a Cinderela era humilhada pelas irmãs más e em que a Bela Adormecida se picava na roca de fiar. 

 

Acho que é isso que nós fazemos e repetimos enquanto adultos, num ciclo vicioso. O meio, a forma como se atinge o ideal de picture perfect, é propositada ou inadvertidamente omitido. Pode ser intencional, ou pode mesmo acontecer sem querer. 

 

Raramente encontro esse "meio" do processo nas redes sociais. Não há para amostra as noites que se passaram no ginásio para se abater aquelas dez gramas a mais de gordura corporal (talvez dez segundos numa story); ou as horas, dias, anos de desespero e bloqueio que um criativo passou à frente do computador ou do bloco de notas até aquela ideia fantástica lhe ocorrer; ou as dificuldades que um casal aguentou, os desentendimentos, as discussões, o ata e o desata que veio a culminar num casamento de sonho; ou as mil e uma relações falhadas que se coleccionaram até se conhecer "o tal"; ou as horas extra que o viajante teve de trabalhar para poder visitar o seu destino; ou o lixo e a loiça que se teve de limpar duma cozinha ao preparar dois pratos que se comeram em dez minutos; ou as noitadas e o esgotamento nervoso a que aquele aluno brilhante se teve de submeter até alcançar o mérito.

 

A verdade deve ser, na minha opinião: muitas vezes, também não queremos saber. Não interessa. Queremos é distrair-nos, ver coisas felizes.

E a verdade é, sem dúvida: num momento de tensão ou desilusão, quase ninguém se lembra de tirar uma fotografia aos lenços de papel em que chorou lágrimas, baba e ranho, entranhas e dois terços da alma. Simplesmente, não se faz.

 

Sem querermos, sem ser essa a nossa vontade racional, só olhamos para o que é bom e final. Depois, perguntamo-nos "como é que ele consegue? como é que ela faz?". Então, eu passei sempre a relembrar(-me): para isto ter acontecido, qualquer coisa veio antes. Pode ter sido boa, pode ter sido má. Com uma ou outra variação, as vidas humanas não são assim tão diferentes entre si. Há um rol limitado de enredos, embora cada um com as suas especificidades (tal como no teatro grego).

 

Para alguém ter o que mostra ter, seja massa muscular, dinheiro, fama, sucesso profissional, uma relação duradoura, um doutoramento, um livro, uma família feliz... algo há-de ter acontecido antes, ou nos bastidores, sem que o voyeur inquisitivo se dê conta. Claro que o grau de dificuldade pode variar de pessoa para pessoa, de contexto para contexto. Mas não sintamos pressão desnecessária para copiar ou almejar ao que os outros são capazes de fazer, de forma instantânea. Tiremos um dia de cada vez, pássaro por pássaro, para construir aquilo que queremos para nós (diz a autora Anne Lamott no livro que ando a ler agora, Bird by Bird).

 

No outro dia, eu dizia a uma amiga (bem, na verdade devo tê-lo dito a todos quanto me tenham querido ouvir nas últimas semanas): "sinto que poucos me compreendem, porque nunca ninguém passou por esta situação que me aflige, nestas circunstâncias em que me encontro". E ela confirmou que, de facto, poucas pessoas me compreenderiam.

 

Mas, mais uma vez, todos já passámos por fases terríveis ou acidentadas, por um ou por outro motivo. Já todos sofremos desgostos. É cliché, mas "podia ter sido pior", ou "há quem tenha passado por pior", ou curto e grosso "há pior"; "tu tens tanto e queixas-te", "o que é que queres mais?", "agradece aquilo que tens".

 

Em alternativa, recomendo a abordagem ligeiramente passivo-agressiva, ainda que hilariante, doutro amigo (doutorando em Psicologia, que lá sabe o que faz): "tu já ouviste o que estás a dizer???".

 

Aceitam-se mais sugestões e opiniões. Vamos lá discutir isto da felicidade, vamos?

 

Mais uma vez, tudo é mais facilmente escrito do que feito. Se tu, leitor(a), estás a passar por uma fase menos plena... também eu. Força nisso. Não nos esqueçamos de que há sempre qualquer restinho de qualquer bocadinho de vida para aproveitar. Um dia de cada vez. É isto que eu repito ao meu lado mais emocional e dramático. Amanhã há-de ser melhor. Não faz mal andar de estômago virado, com os ácidos a transbordarem. E, se nos sentirmos voltar atrás... Acontece... Vamos lá!

Para um fim-de-semana positivo, alguns passos

Acordar cedo, mas ouvir música, uma TEDTalk ou um podcast enquanto se prepara tudo, come, veste. Planear uma viagem ou ler um livro enquanto se vai de comboio para o trabalho. Encontrar ou ligar a alguém de quem se goste, para lhe desejar um bom dia. Ouvir os outros. Andar a pé, nem que seja até ao café ou por cinco minutos num espaço verde. Agradecer as coisinhas pequeninas, a cidade mais vazia, o dia de sol, a limpeza da rua, o silêncio ou o vento a passar pelas árvores. Pensar em potenciais passatempos, hobbies, para experimentar. Aproveitar as pausas para respirar fundo e - porque não - comer um chocolate, um pacote de gomas, uma gulodice qualquer. Brincar com os animais lá de casa. Reflectir no que há de negativo nesta vida, mas fazendo um esforço para lhe encontrar contrapartidas que tragam benefícios. Enviar aquelas mensagens ou e-mails que se tem andado a adiar. Comprar algo de que se goste e que traga conforto - talvez uma manta, talvez uma peça de roupa, talvez um bolo, talvez umas pantufas, talvez uma vela, talvez um livro ou um CD.

 

Repetir.

Os bebés podem curar tudo, não é?

Em 2016, por coincidência na mesma altura em que decidi ficar a trabalhar noutro continente, deram-me uma sobrinha. Na verdade, não me foram apresentados os termos e condições deste presente, nem sequer o modelo de que se tratava (na altura, até poderia ser um sobrinho, ou dois, ou três). Só sabia que, daí a alguns meses, se tudo corresse bem, existiria pelo menos mais uma pessoa cá fora, neste mundo: acabou por ser uma luzinha chamada Luizinha.

 

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Não pude acompanhar a Luizinha enquanto cresceu na barriga da sua mãe, a minha amiga Daniela. Mas fui a segunda ou terceira pessoa a saber da possibilidade de ela existir. Pude assistir a uma das ecografias, quando vim a Portugal no Natal. Nessa manhã, confirmei: um bebé emociona-nos, mesmo quando ainda não está deste lado. Choramos por eles, quase antecipando o quanto nos farão rir, as alegrias que trarão a quem os rodeia. Das restantes ecografias, recebi as imagens pelo telemóvel. Até receber as primeiras fotografias duma recém-nascida, e depois duma bebé a rir-se, e depois duma bebé palradora numa chamada de vídeo, e depois duma bebé que comia sopa, e depois duma bebé que se empoleirava no berço a dançar. 

 

Tive de deixar passar grande parte do primeiro ano da Maria Luiza. Durante muito tempo, não pude pegar-lhe enquanto foi pequenina e frágil, não a pude visitar, não pude ser uma presença assídua, nem abraçar a Daniela para lhe agradecer o facto de, desde o primeiro resquício de vida desta pessoa, me ter sido permitido fazer parte deste processo, da vida desta criança. No entanto, desde o primeiro dia, eu fui a Tia Bea, graças a esta sobrinha que me ofereceram pela via do coração.

 

Agora que tenho passado mais tempo com esta família que me faz tão bem à alma e que, ao visitá-la, me acolhe como se também eu fosse uma extensão do seu núcleo, tenho a certeza:

 

Os bebés podem curar tudo.

 

Um bebé é uma data de coisas: sendo um novo ser humano, constitui a prova de que o futuro está ali à esquina; é uma fonte de amor que jorra de mãos gordinhas e gengivas tenras, cabeças aveludadas, aroma a leite e toalhitas, rendas na roupa, gorros tricotados, sapatos onde nem cabem os nossos dedos;

...um bebé é a personificação do optimismo, porque um bebé ri e nós rimos também, um bebé descobre as folhas e as árvores e nós sentimos que também os vemos pela primeira vez; um bebé atira-se para o nosso colo e faz-nos acreditar que somos especiais (mesmo quando faz o mesmo a mais mil e quinze pessoas); um bebé olha-nos nos olhos e os astros alinham-se para que tudo pareça estar no sítio onde sempre tivera de estar; um bebé nem está connosco e é como se estivesse sempre ao nosso lado.

 

Um bebé nem sabe falar e já deixa a sensação de que, bem feitas as contas, já sabe tudo sobre a vida. Quando estou com a Luizinha (infelizmente, não tantas vezes quanto gostaria), ou quando a vejo em fotos, vídeos, ou memórias, sinto que tudo tem remédio. Sinto que tudo no mundo está alinhado. Sinto que há paz. Ela sorri e eu não posso deixar de sorrir. Ela grita e eu grito também. Dizem que os bebés imitam o que os adultos fazem... e se formos nós a imitá-los? 

 

Os bebés curam, nem que seja temporariamente, o que nos fere sem se ver. Não são enfermeiros, nem médicos, nem políticos, mas tiram-nos de letargias e permitem-nos ter esperança. Não são comediantes, mas arrancam-nos as maiores gargalhadas. Não são professores, mas ensinam-nos a reparar no mundo como se fosse a primeira vez. Se só passassem anúncios da Dodot, da Johnson & Johnson e da Chicco em horário nobre na televisão, provavelmente o mundo seria um bocadinho melhor. 

 

Adoro bebés - em particular, a minha luzinha chamada Luizinha. ♥

 

 

Uma luzinha chamada Luizinha... 😍

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(Se eu sou assim com os filhos dos outros, imaginem como será quando me calhar a mim...) 

 

Nota: a Luizinha é, provavelmente, a bebé mais calma que eu já vi. Desta forma, talvez a minha opinião aqui expressa reflicta essa paz que ela emana. Conselho... consultem um especialista antes de arranjar um exemplar. 

 

 

Com o que se parece um desgosto?

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Duma forma estranhamente masoquista, mas acima de tudo curiosa acerca da condição humana e das emoções, sempre me interroguei com o que se assemelharia um desgosto - não daqueles de criança ou adolescente, não um sentimento vão; um desgosto adulto, com proporções significativas e consequências reais. 

 

Entretanto, esse tipo de desgosto não tardou. Ou não tardaram. Foram logo vários, uns a seguir aos outros. E eu só sei que foram realmente desgostos porque, de facto, nunca tinha sentido nada assim na vida (que ainda não é longa, apesar de tudo). 

 

Com o que se parece um desgosto? Ironicamente, não se parece com muito. É uma mistura de tudo e não é nada. Os meus deixaram-me apenas a ausência de qualquer coisa que lá estava antes, deixando de estar. Ao mesmo tempo, há desapontamento, desorientação, desamparo, desequilíbrio, des-tudo. No apogeu dessa série de desapontamentos, pensei que talvez se pudessem comparar com um ovo: um ovo que andou a ser carregado por uma quantidade razoável de tempo, circulou por caminhos diversos, dum lado para o outro, passeou até por algumas mãos, depositaram-se expectativas naquele pequeno peso, mas alguém ou alguma circunstância fê-lo cair, apenas para se descobrir que, partido, não tinha nada lá dentro. 

 

E depois? Fica a casca, picada, pisada, incompleta, a desmanchar-se nas mãos de quem o tenha apanhado.