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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Cansada de opiniões

Deve ser muito cansativo ter sempre uma opinião. E mais: deve ser muito cansativo ter sempre uma opinião e achar que esta é a mais correcta de todas. Uma opinião-verdade, indiscutível, infalível, do género "como é que não conseguem todos ver isto, que é tão claro, tão óbvio?".

 

À hora de jantar, estava a ouvir um segmento de notícias sobre o Orçamento do Estado e, em vez de conseguir realmente perceber qual a celeuma do momento, passaram a emissão para o comentário não sei de quem, isto é, de um comentador profissional. Acabei por não entender perfeitamente qual era o tema do Orçamento que pretendiam destacar (só apanhei uns minutos da ministra da Saúde a falar sobre autonomia de contratação), não fiquei minimamente informada, e enfiaram-me um tipo de fato, com voz grave e tom solene, pelos olhos e pelos ouvidos adentro. Um tipo sério. Um opinador de profissão, entenda-se.

 

Nos dias que correm, tanto me faz quem é o opinador. Soa-me tudo a bitaites de tasca. Estou cansada do chico-espertimo-achismo, da opinião que todos parecem ter sobre tudo, quer no mundo real, quer nas redes sociais. No Twitter e no Facebook, então, é uma cascata de gente inteligentíssima, que só peca por lhe faltarem credenciais, moderação e bom senso, porque de resto são exímios na arte das postas de pescada. Na televisão, preferem pôr o Zé-Não-Sei-das-Quantas (que pode ser um reformado antecipado da política, do jornalismo ou de coisíssima nenhuma) a deitar umas larachas frequentemente mal informadas e pouco informativas. Noticiar à hora das notícias, no canal das notícias, 'tá quieto. Tanto, tanto ruído.

 

(Caramba, eu só quero saber o que se passa no país e no mundo, não pretendo que me tentem endoutrinar após trinta segundos de breve e incompleta notícia!)

 

Como vêem, este não é um blog de opinião. Opiniões, tenho uma ou outra sobre alguns livros, porventura podcasts, filmes ou séries, mas nem essas partilho em barda. Eu cá sou mais de sugestões, o que talvez denote que nasci no tempo errado e que vivo contra a corrente. Isto não implica que eu deixe de ter princípios. Alto lá! Sou uma moça às direitas que vota sempre à esquerda, defendo certas causas e visões do mundo e, apesar de não gostar de atritos, não hesito quando é necessário ter uma discussão acesa porque me chegaram as mostardas e os vinagres ao nariz.

 

Ainda assim, tenho tantas dúvidas sobre quase tudo que me abstenho, por vezes nem por falta de vontade de me insurgir, mas sinceramente por me sentir assoberbada contra as Grandes Certezas dos outros, por sentir que gastarei o meu português a falar para a parede, porque discutir para eles não tem sentido pedagógico, mas sim apenas mostrar que sabem mais e melhor (do quê, porquê e como é que me escapa). E eu sei que eles devem estar cansados, mas estou cansada eu também, provavelmente ainda mais.

 

Escrever este texto deixou-me cansada, mesmo exausta, por isso não me alongo mais com a minha opinião sobre opiniões, despedindo-me apenas com duas - lá está - sugestões que me parecem modestamente sensatas e largamente geniais. São elas o podcast Quem Lê Tanta Notícia e o programa Dados Contados (da RTP). Sinto que, graças a estes minutos semanais, finalmente compreendo qualquer coisa sobre a actualidade. E, como até as sugestões podem ser tendenciosas, aviso desde já que a primeira tem a participação da minha ídola Tati Bernardi e que o segundo é produzido pela minha amiga Daniela Ferreira Pinto, duas mulheres que admiro arregaladamente, uma escritora e outra jornalista, mas ambas autoras e produtoras de cenas divinais que vemos e ouvimos por aí.

 

Por ora, este será um blog pouquíssimo insurgente, sempre cheio de dúvidas sobre se tem sequer algo para acrescentar ao espaço público, mas confiante de que faz apenas o barulho necessário para espicaçar as ideias de quem por aqui aparece, sem as moer. (Confirmando que tal é possível, note-se que nas caixas de comentários deste blog existem leitores que discordam de mim, e que mo escrevem, mas que o fazem com uma elegância e uma delicadeza, que eu quase penso estar numa realidade paralela. Obrigada por estarem desse lado, que é como quem diz, voltem sempre!)

Escolhi ler mais mulheres para me conhecer melhor

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No ano passado, comecei a fazer um esforço para ler mais livros escritos por mulheres. Achei que, mesmo já lendo muitas por acidente, ou simplesmente sem pensar, podia vir a conhecer mais autoras. Nos últimos anos, tenho tido cada vez mais consciência de que, apesar de não ser propositado, acabamos por viver numa sociedade mais definida pelas ideias, valores, causas e palavras de homens, acabando por insistir num viés delineado pela perspectiva masculina, cisgénero, heterossexual, europeia e/ou ocidental. E, ao começarmos uma cadeia de leituras com uma certa orientação (seja ela de género, geografia, ideologia política...), é normal que continuemos em temas e autores semelhantes ou mais parecidos.

 

Por isso, mudar o rumo das nossas leituras ou escolhê-las mais criteriosa e conscientemente pode ajudar-nos a descobrir novos caminhos, inclusivamente novos interesses.

 

Podia ter escolhido literaturas ou escritores doutras paragens, podia ter procurado assuntos sobre os quais não sei muito. De certa forma, ter escolhido ler mais mulheres, começando em mulheres escritoras ou artistas da Europa Central e Ocidental, ou da América do Norte, ou mesmo brasileiras, que originalmente escrevem em língua portuguesa ou inglesa, acaba por continuar a ser a minha zona de conforto. Não inovei coisa nenhuma, só tentei saber mais sobre vidas como as que admiro profundamente, mas sobre as quais sentia que não sabia o suficiente. Ainda assim, tenho aprendido imenso.

 

Tenho aprendido a analisar e questionar o papel da mulher ao longo do último século, de que matéria e de preocupações é feita a mulher contemporânea, quais as dúvidas e os anseios que tem, o que tem conquistado e o que há para conquistar, qual o seu lugar de fala, as suas responsabilidades. E qual a sua voz no meio da multidão, e de que forma se ouve. E como é que essa voz tem sido retratada pelos outros, nomeadamente pelos homens, sendo por vezes tão diferente do que a fazem parecer. Particularmente neste Verão, li muita crónica, muita autobiografia, ouvi muito podcast - e com as mulheres como protagonistas.

 

Em geral, penso que ler mais mulheres me tem ajudado a aprender com possíveis, mesmo que surpreendentes, exemplos a seguir. Ler e ouvir outras mulheres tem-me ajudado, por um lado a escavar, e por outro a trilhar, uma genealogia de género, de pensamento, de crenças e de feitos incríveis dos quais não teria noção se só continuasse a ler os "grandes autores".

 

Aos poucos, até acabo por procurar autoras doutros lados do mundo, com histórias e uma História diferente. Acabo por espreitar áreas do conhecimento ou artes sobre as quais nunca estudei. (No último semestre, até acabei por estudar pintoras do sudeste asiático e temas do orientalismo.) Acabo por bater à porta do inesperado, do menos óbvio. O efeito borboleta das leituras lá tem a sua razão de ser.

 

Continuo a admirar os clássicos, a achar que têm um papel central, que devem ser estudados e lidos, que devem ser promovidos. Continuo a admirar escritores que são homens, pois não perderam o seu encanto, interesse ou mérito. Contudo, agora tenho uma estante mais rica por ter criado espaço para Dulce Maria Cardoso, Tati Bernardi, Maria Judite de Carvalho, Maria Teresa Horta, Rebecca Solnit, Ruth Manus, Rosa Montero, Natalia Ginzburg, bell hooks, Rachel Cusk, Virginia Woolf, Anne Patchett ou Anne Enright. Mesmo tendo só lido alguns textos ou um livro ou outro de algumas destas autoras, muitas outras obras suas e das suas contemporâneas já ganharam prioridade na lista das minhas próximas aquisições e desejos.

 

Afinal, como poderia um homem, por muito próximo que esteja e por muito empático que seja, testemunhar de forma tão real e familiar situações e experiências como a maternidade, a posição de desigualdade, a relação com o corpo, a luta por direitos, os desafios do mercado de trabalho, a criação artística e literária, o seu legado...?

 

A história destas mulheres é, também, a nossa. O vocabulário é aquele que procuramos e que nos situa no mundo, os seus verbos contam-nos mais sobre as nossas próprias acções. Consequentemente, a nossa história é apenas uma continuação das suas histórias. Estaremos cá paraas contar e recontar, construir e ir reconstruindo.

 

Escolhi ler mais mulheres para as conhecer melhor, mas também para me conhecer melhor.

A culpa é dos médicos de família

Os médicos de família devem estar a coçar o rabo, os enfermeiros e o pessoal administrativo também. Não atendem os telefones no centro de saúde. Quando os utentes pedem satisfações, dizem-lhes que os telefones estão avariados. Não se percebe. Depois, desculpam-se com o COVID. Então, e antes do COVID? Essa é boa, têm sempre desculpa... Isto sempre foi uma bandalheira, e ainda há quem defenda o SNS. É para isto que pagamos impostos? Se é para ser assim atendida, vou mas é marcar no privado.

 

Em Fernão Ferro (no concelho do Seixal), a freguesia onde vive a minha família e onde eu também vivi desde 2005 até ao fim de 2020, este é um discurso comum, não só de agora, como de sempre - desde que me lembro de ser pessoa, pelo menos. Aliás, quando nos mudámos para a zona, não conseguimos médico de família no centro de saúde local e acabámos por continuar a ser acompanhados no centro de saúde da área de residência anterior, por acaso não muito longe. (Uma sorte. Um privilégio.)

 

Compreende-se: Fernão Ferro é uma zona suburbana em expansão, como tantas outras na margem Sul do Tejo, e o investimento em serviços públicos - como o centro de saúde e a escola secundária há tanto, tanto tempo prometida - é nulo.

 

No entanto, sempre me pareceu óbvio que este tipo de problemas e deficiências no serviço à população não tem origem nessas próprias entidades. Não é pelos professores que se deve culpar a ausência de uma escola, tal como não se deve culpar os médicos pela ausência de um bom centro de saúde.

 

Infelizmente, isto parece não ser tão óbvio para todas as pessoas.

 

Ainda há algumas semanas saiu uma notícia alarmante: 1/3 das vagas para especialistas em Medicina Geral e Familiar (vulgo médicos de família) ficou por preencher no concurso deste ano.

 

Um médico recém-especialista leva para casa cerca de 1800€ líquidos. Além disso, é muito provável que tenha de fazer horas extraordinárias, que nem sempre são contabilizadas ou remuneradas. Com o aumento do custo de vida, particularmente nas grandes cidades portuguesas, um salário destes, proveniente de uma tabela desactualizada, não é desejável numa região onde a renda chega a mais de metade do seu salário, para alguém que passou cerca de metade da sua vida a estudar e a especializar-se. Claro que, vistas as condições, é preferível tentar a sorte no privado, emigrar ou escolher viver numa zona onde o custo de vida não seja tão elevado, os serviços não estejam tão saturados e a qualidade de vida exista de facto.

 

Não admira que seja tão difícil preencher as vagas de MGF em zonas como Lisboa e Vale do Tejo.

 

Sem a atualização das tabelas salariais da função pública, nomeadamente dos profissionais do Serviço Nacional de Saúde, e sem existir contratação de acordo com as necessidades, não é surpreendente que encontremos diariamente problemas nos hospitais ou nos centros de saúde. Aliás, formar mais médicos é redundante e mesmo desprestigiante neste país que não abre vagas suficientes para os internatos de especialidade e que, por isso, acaba por estar a formar cada vez mais médicos indiferenciados (tarefeiros, precários).

 

No ano passado, candidataram-se 2279 médicos aos internatos de especialidade, face a um número bastante inferior de vagas: 1885. Isto é, nada mais e nada menos, do que um desperdício de investimento na formação altamente especializada e esforçada de jovens qualificados, além do desperdício óbvio das suas próprias vidas e recursos ao longo do seu longo percurso académico e ainda curto percurso profissional.

 

No que diz respeito aos médicos, internos e todos os profissionais que trabalham em centros de saúde, durante a pandemia têm sido eles a dar a cara num contexto de proximidade imediata com a população, utentes e pacientes. Por outro lado, foram eles que se tiveram de desdobrar para poderem gerir o funcionamento normal no centro de saúde, de prestação de cuidados de saúde primários, assim como o Trace COVID e, nos últimos nove meses, a vacinação.

 

Dito isto, lá no fundo o que me questiono e que também vos posso desafiar a responder é:

Será que algum dia deixarão de pôr constantemente a culpa em cima dos ombros dos profissionais do SNS? Será que deixarão de os ver como os maus da fita, bodes expiatórios convenientes, como se dependesse deles melhorar as condições materiais dos centros de saúde, multiplicar os trabalhadores em funções e dar resposta às mil solicitações diárias?

 

Oxalá consigamos - que alguém consiga! - salvar e defender o SNS de uma governação que privilegia o desinteresse e desinvestimento de um bem tão essencial, tão público, quanto a saúde gratuita e disponível para todos. Porque também é com essa segurança que se vive em democracia.

Uma visita rápida (mas muito prazerosa) à Livraria Déjà Lu

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Gosto de livrarias. Gosto de procurar e encontrar pechinchas. Portanto, gosto de livrarias e de procurar e encontrar pechinchas em livrarias.

 

Por isso, não admira que tenha gostado da Déjà Lu imediatamente, ao primeiro passo. A Déjà Lu é uma livraria solidária em Cascais, que vende livros em segunda mão (já lidos, tal como indica o seu nome), e cuja receita reverte para causas e instituições de apoio a pessoas com Trissomia 21. Por todas estas razões e mais algumas, é uma livraria incrível para os amantes de boas leituras e de um bom cantinho onde as encontrar.

 

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Desde que conheci o João que pensei "agora é que vou conhecer a Déjà Lu !". Ele é de Cascais, então eu ainda achava que teria mil desculpas para ir à Cidadela. Entretanto, já passaram quase dois anos, a pandemia meteu-se pelo caminho, algumas mudanças na vida e na geografia roubaram-nos a atenção e só este fim de semana é que lá fomos, para aproveitar um curto passeio nestes últimos dias de Verão.

 

Finalmente, saciei a curiosidade.

É preciso salientar que, se um dia eu puder ter uma livraria, ela vai ter de ser tão acolhedora quanto a Déjà Lu. Vai ser bem arejada e iluminada, vai ter tapetes, sofás, cores quentes e uma decoração alusiva à paixão pelas viagens, pelos autores, pela escrita, pelo ambiente aconchegante e convidativo.

 

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Eis uma livraria arrumada, com pessoas simpáticas a atender (a quem nem perguntei o nome, agora que penso nisso...), os livros organizados de forma impecável, as sugestões personalizadas a piscarem-nos o olho, variedade e quantidade para todos os gostos (incluindo uma selecção de livros de arte muito jeitosa, que cativou logo o João). Ainda por cima, os preços são realmente justos e acessíveis - o livro mais caro que terei visto custava 8€, salvo erro, mas na secção de livros em inglês encontrei alguns a 3€!

 

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Gostei de tudo e só tive pena de chegar uma hora antes do fecho. Se tivesse tido mais tempo, teria explorado todos os títulos e cantinhos com maior atenção e disponibilidade. Assim, restou-me procurar e perguntar por títulos específicos, dar uma volta mais ou menos apressada pelas três salas que compõem a livraria Déjà Lu e prometer mais visitas para breve.

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Desta primeira visita, trouxe Deixem Passar o Homem Invisível, de Rui Cardoso Martins (6€), um autor português que quero ler assim que possível.

 

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A Livraria Déjà Lu fica na Cidadela de Cascais, no primeiro edifício logo à esquerda de quem entra no forte, no primeiro andar. Se vierem de carro, podem tentar deixá-lo no parque de estacionamento mesmo à entrada, nos parques pagos subterrâneos ali perto ou, como nós, no parque do Cascais Villa, assim aproveitando um passeio a pé mais longo.

Vocês sabem quem é A Louca da Casa?

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Primeiro, adorei. Depois, estranhei. Finalmente, entendi.

 

A Louca da Casa não é um livro fácil, desafiando convenções do que é um género literário, ora registo autobiográfico, de memórias; ora ficção, invenções sem fim, enredos românticos e romanceados; ora ensaio sobre a vida de escritora, a escrita, o mistério da criatividade e imaginação (a tal "louca da casa").

 

Passei a leitura das duzentas e tal páginas a querer confiar em Rosa Montero, a querer que ela me dissesse: isto aconteceu mesmo, isto não. Mas não foi possível arranjar caixinhas. O objectivo de Rosa Montero foi quebrar essa definição tão rígida e explorar as potencialidades de géneros que podem ser distantes, mas que são mais próximos do que os julgamos.

 

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Afinal, o que nos garante que uma autobiografia é isenta e que conta tudo tal como aconteceu? Aliás, como cheguei à conclusão através da leitura, ao ouvir outras pessoas e na minha própria terapia: cada vez que tentamos contar uma história, acabamos por contar uma história diferente. É sempre, idealmente, a mesma história, só que a vida muda, a nossa perspectiva muda, acrescentamos um ou outro detalhe, real, imaginado ou tão bem fabricado que achamos verídico. A autora prova-o, por exemplo, usando a história de como conheceu M., um actor famoso. Não direi mais nada, para que possam descobrir do que se trata ao vosso ritmo.

 

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Ao longo deste livro, somos lembrados de que, até quando queremos contar a verdade mais pura sobre as nossas vidas, é inevitável contarmos outra coisa qualquer, e que os escritores contam a verdade sem querer, enquanto podem não ser totalmente verdadeiros quando tem de acontecer de propósito. Sem o leitor saber, e até sem eles mesmo se aperceberem, podem embelezar as suas histórias de vida, puxar a brasa à sua sardinha, tornar os pormenores mais interessantes, concentrar-se mais no que lhes convém e esquecer agruras várias que poriam em causa a opinião alheia e a sua reputação.

 

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Assim sendo, o leitor é convidado a sentir incómodo à conta da exploração do conceito de verdade. Queremos, sempre, a verdade. E nada mais do que a verdade, mesmo que ela seja uma verdade só de boca, irremediavelmente coxa, apenas idealizada e não necessariamente isenta. Por isso, temos de aprender a conviver com a inquietação e a dúvida, aceitando que os limites entre o mundo real e o mundo irreal numa obra literária de cariz (supõe-se) autobiográfico se encontram naturalmente esbatidos, nebulosos.

 

Quanto a mim e à minha experiência de leitora, fiquei especialmente intrigada com os acontecimentos da vida de Rosa Montero, uma vez que me ando a interessar por ler e ouvir sobre vidas de mulheres escritoras, qual a sua experiência de vida enquanto artistas. Por isso, tive, também eu, de aprender a aceitar que as partes mais inventadas poderiam ser tão verdadeiras, à sua maneira, quanto as outras. Que também elas são capazes de revelar o que há de mais íntimo para contar, apenas não do modo literal que eu pretendia.

 

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No final, este é o livro certo para quem procura uma exploração e divagação (sim, uma longa e intricada divagação!) sobre o poder das palavras e o ofício que é escrever.

 

Este livro é um trabalho um pouco meta e metafórico, sem deixar de nos impelir a ler um e outro capítulo, mesmo quando já nos sentimos prontos para fazer uma pausa. Não há muitas pausas possíveis, porque, tal como a escrita, a leitura é de igual forma um acto que absorve, consome e agarra quando assim tem de ser. Chega o momento e precisamos de entender, estudar e tentar convocar a louca da casa, com a ajuda deste A Louca da Casa.

 

Não acho que as opiniões sejam unânimes, mas, feitas as contas, gostei disto a valer.

 

Nota: preparem-se para ir apontando as referências a outros livros e autores extremamente interessantes, para sublinhar e para ir relendo as páginas anteriores.

 

Nota 2: este livro é mencionado neste episódio do podcast "Meu Inconsciente Coletivo", criação da escritora mais mencionada neste blog, Tati Bernardi.

 

Nota 3: já repararam na associação constante da loucura à criatividade artística, nomeadamente à criação literária? Entre os meus podcasts favoritos, encontra-se "Louco Como Eu" (entrevistas a escritores, com Susana Moreira Marques). A própria Tati Bernardi escreveu o livro Depois a Louca Sou Eu. E, em geral, os meus escritores favorito são quase todos, se não loucos, pelo menos neurodivergentes.

O livro mais útil para trabalhadores independentes e freelancers

Gostei tanto da minha chefe no primeiro trabalho sério da minha vida, que jurei nunca mais voltar a trabalhar por conta de outrem se não pudesse ter superiores tão bons líderes, generosos e apoiantes do meu desenvolvimento quanto ela. Foi aquela senhora, professora catedrática, sonhadora, imparável, que me mostrou o quão decisivo é alguém acreditar no nosso potencial para ser inovador, pensar criativamente e empreender esforço em prol de projectos que nos mudam e mudam os outros. Era exigente e não permitia desculpas quando tinha de ser, mas também sabia cuidar dos seus e zelar pela sua alegria e bem-estar.

 

Eu já sabia que dificilmente voltaria a ter uma chefe assim. Sabia que teria sempre dificuldade em aceitar menos do que já me tinha sido dado e que lidar com maus chefes, ou chefes insuficientes, seria um tormento.

 

Por isso, do alto da minha ingenuidade propus-me a não me contentar com qualquer tipo de trabalho como um princípio fundador da minha vida profissional futura, e até agora tenho tido a alegria de continuar a ter condições para ser trabalhadora independente.

 

Mas ser trabalhadora independente tem desafios para os quais raramente estamos preparados, porque só os conhecemos realmente quando os temos de enfrentar, quando eles inegavelmente aparecem na nossa vida para ficar.

 

É sobre isso que a jornalista e escritora britânica Rebecca Seal escreve no seu livro Solo: how to work alone (and not lose your mind). Em Portugal, chama-se A solo: como trabalhar sozinho (e não dar em doido), e está publicado pela chancela Vogais.

 

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Para mim, as maiores dificuldades passam pela gestão do tempo e da motivação. Mas também sei que, em grande parte, essas são dificuldades resultantes do isolamento e da sensação consequente de estar só, para o bem e também para o mal.

Como já escrevi sobre este livro e a minha experiência como trabalhadora independente há alguns dias, não me alongarei muito mais agora. Ainda assim, não posso deixar de o recomendar a quem estiver na mesma situação profissional e precisar de relembrar ou aprender mais sobre como não perder o juízo, o tempo ou o dinheiro. Em Solo, Rebecca Seal conta-nos muito do que devemos saber sobre a gestão de expectativas, sobre a ansiedade e o equilíbrio emocional, sobre finanças pessoais, sobre perseverança, chamadas de Zoom e hábitos saudáveis que podem ser adoptados. E, quase no fim, ainda dá umas dicas de decoração e conselhos para quem, apesar de trabalhar noutro sítio qualquer, num ambiente mais tradicional, coabita com pessoas que trabalham a partir de casa (que eu imediatamente partilhei com o João e que aproveito para deixar aqui numa mini-galeria - porque isto, meus amigos, é serviço público).

 

 

Destes últimos pontos mencionados, devemos salientar que é essencial darmos prioridade ao conforto e funcionalidade no local onde nascem as nossas melhores ideias e onde temos de passar pelas situações mais aborrecidas; e que devemos, já hoje, conversar e mostrar às nossas famílias de que forma podem contribuir e ajudar-nos.

 

Este foi, até ao momento, o livro que melhor resumiu o caminho profissional que escolhi e que melhor respondeu às minhas dificuldades de trabalhadora por conta própria. Solo talvez seja o livro mais útil para trabalhadores independentes ou freelancers, seja para os que já sabem a lição toda de cor ou para aqueles que precisam de uma espécie de raspanete ou de uma dose de realidade (sempre com bom humor, boa disposição e bons testemunhos).

 

Além disso, se estiverem a pensar numa mudança de carreira, esta também é uma leitura obrigatória, a que vos vai convencer ou dissuadir deste caminho profissional.

 

Entretanto, se tiverem mais sugestões de leitura semelhantes, por favor, avisem! E, se tiverem dúvidas sobre este caminho profissional, podem sempre enviar-me um comentário, mensagem ou e-mail.

Fui à Feira do Livro de Lisboa e já tive de arranjar uma nova estante

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1. Feiroooou! Sim, estou muito contente, e sim, já tive de arranjar outra estante.

2. Sou uma pessoa bastante nostálgica. Depois de Março de 2020, passei a trabalhar exclusivamente em casa, por isso já estava cheia de saudades de Lisboa, onde só voltei umas cinco vezes desde então, todas elas visitas rápidas ou por motivos muito específicos e nunca no centro. Ontem, tinha planos para lá passar o dia. O trânsito na A2 fluía; o céu azul e a brisa fresca indicavam o início deste dia maravilhoso; a ideia de rever amigos queridos deixava-me num estado de entusiasmo leve pelo qual esperei vários meses. No entanto, assim que cheguei ao túnel do Marquês, lembrei-me de que gosto é de conduzir (pouco, muito pouco) fora da cidade, de viver longe de semáforos e lugares de estacionamento duvidosos, e de não ter de apanhar o metro e o comboio todos os dias.

3. Terei sempre Lisboa guardada no coração, principalmente pelas livrarias e pelos amigos. Por uns e por outros, vale sempre a pena regressar.

 

Aproveito para também vos deixar com os livros que comprei na Feira do Livro:

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Já leram algum destes? E têm recomendações do género "crónica (mais ou menos) autobiográfica"?

A propósito, o livro Depois a Louca Sou Eu, da autora Tati Bernardi, é um dos livros da minha vida. Acho que, depois de o ler pela primeira vez, há dois anos, nem me cheguei a aperceber de quanto mudaria a minha vida, a minha própria escrita, a minha forma de ver o mundo. Comprei para oferecer, claro está, agora que tem uma nova edição pela Tinta-da-China.

30/30 (recomendar livros)

Nunca pedi a um livreiro que me recomendasse um livro. Revelar desejos e expectativas a um desconhecido, cuja única ligação a mim é, em abstracto, o livro, parece-se demasiado com a confissão católica, numa versão mais intelectualizada.

(Valeria Luiselli, em Deserto Sonoro, p. 104, edição da Bazarov)

 

É difícil descrever os livros de que precisamos, tanto mais se o tivermos de dizer a um desconhecido. Para recomendações, procura-as junto dos meus amigos. Só uma vez pedi ajuda a uma livreira (na Bookshop Bivar, em Lisboa), por me ter sentido acolhida, o que, regra geral, é difícil em livrarias massificadas e de compra impessoal, despachada. Para as leituras futuras sobre as quais tenho a certeza, compro nessas últimas. Para quando não sei realmente o que quero, prefiro as livrarias pequenas, com gente, apesar de me sentir invariavelmente acanhada, apesar de até ter o hábito de trocar meia dúzia de palavras com os livreiros, apesar de desperdiçar quase sempre a simples pergunta:

Tem algum livro que isto e aquilo?

 

Ou ainda:

Que livro mais tocou a Senhora Livreira ou o Senhor Livreiro?

 

Ora, poderão os livreiros ser uma espécie de confessores dos crentes na religião das palavras?

 

Não sendo eu livreira e ainda não tendo o tal à-vontade para abordar os livreiros, vejo nas trocas informais na Internet um lugar de partilha que pode ecoar pelo mundo fora, às vezes seguindo esse eco sem encontrar parede onde bata, outras tropeçando nesta e naquela. Tenho pouca fé no bookstagram e noutros canais já viciados pelos números, pelas parcerias e pelos egos, mas vou tirando proveito do Goodreads, de alguns blogs e das opiniões de pessoas específicas nas quais confio. Por isso, continuo a escrever sobre livros, textos e escritores. Faço-o desinteressada, troca por troca, prazer por prazer. Porque valorizo a generosidade e a disponibilidade que temos uns para os outros, entre pessoas que nem se conhecem, ou umas que, mesmo assim, conhecem outras um bocadinho melhor. Porque é tão bom partilhar impressões espontâneas sobre aquilo que nos alegra, estimula, faz viver, dá alento. Acredito em recomendações extremamente personalizadas que são feitas por acaso, mesmo que nunca cheguemos a saber que as fizemos.

 

Dito isto, aqui vos deixo as minhas últimas leituras preferidas, com a nota de que ando muitíssimo interessada no processo criativo, e até logístico, dos escritores, principalmente de escritoras mulheres, assim como das suas circunstâncias familiares e sociais:

 

A propósito, cumprindo-se os primeiros seis meses de 2021, esta é a minha lista completa de leituras terminadas neste período:

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***

 

Com este texto, termino o desafio mil vezes interrompido de escrever 30 dias seguidos, que de seguidos pouco tiveram,  tal qual uma relação imberbe, a primeira doutras seguramente mais comprometidas. Além de ter sido um desafio interessante, por me ter obrigado a escrever e a treinar a desenvoltura na escrita, e por me ter obrigado a esmiuçar o que só a mim me atormenta ou alimenta os dias, também o acabo com a sensação de que servirá de retrato instantâneo, como uma fotografia de polaroid, dos meus interesses e pensamentos actuais.

 

Doravante, encontrarão todos os textos sob a etiqueta 30 em 2021. Quem sabe... poderei repeti-lo em anos futuros!

29/30 (semear e cuidar)

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Durante os últimos meses, tenho-me apercebido do interesse por plantas que muitas pessoas têm, principalmente quando se mudam para uma nova casa. À minha volta, tal como arranjam gatos, também arranjam plantas.

 

Eu, que também adoptei um gato quando vivia sozinha, e que adoptei uma cadela quando me mudei para esta casa há meio ano com o João, reconhecia-me na primeira parte, mas nunca me tinha passado pela cabeça ter plantas, nem que fosse pela naturalidade com que a minha família cuida do jardim da casa onde cresci. Para mim, as plantas quase apareciam por geração espontânea, e nunca me demorei a pensar nelas.

 

No meu aniversário, no ano passado, a minha amiga Daniela deu-me um vaso. Disse que era para me incentivar a ter plantas, um interesse que ela também havia descoberto algum tempo antes, e que lhe trazia muita alegria. Ela e outras amigas começavam a falar-me de plantas pelos seus nomes pomposos em latim, sabiam quais eram as venenosas para os animais domésticos, e quais eram as esquisitinhas, que morriam ao primeiro descuido. Enquanto isso, eu ia enchendo o meu novo vaso com tralhas várias, tralhas inanimadas, como comida do gato, moedas soltas ou clips perdidos que por algum motivo não cabiam em cima da secretária. Algum tempo depois, outra amiga convertida às hortas urbanas, a Elisa, ofereceu-me um vaso de malaguetas, mas deixei-a no parapeito da cozinha, e até hoje ficou a pertencer à minha avó, acolhido entre ervas aromáticas.

 

Os meses passaram, eu mudei de casa, mudei de distrito, mudei de região, mudei de vida. Ainda por cima, mudei-me para um dos sítios mais floridos onde alguma vez estive. Em Vila Viçosa, há poucos parapeitos sem flores, seja Verão ou Inverno. Todas as casas, caiadas: pintalgadas de todos os tons que se possam imaginar, como numa Primavera perpétua, debaixo de chuva ou de sol.

 

Antes, já tinha lido um texto de Jia Tolentino a discorrer sobre este interesse súbito por plantas, por pessoas da minha geração. Mas acho que fiquei realmente convencida depois de, com os parapeitos dos meus vizinhos no horizonte, ter lido o ensaio "The Rosary", de Alexander Chee.

 

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Após essa leitura, e certamente influenciada pelos canteiros alheios, não demorei muito até comprar uns vasos de flores (cuja espécie desconheço) no Lidl. Custavam 4€, quatro vasos pequenos, e parecim ser daquelas "rafeiras" que aguentam com intempéries e falta de rega. Achei-as capazes de aguentarem a minha potencial negligência, e assim foi. Ao fim de duas semanas, imbuída da confiança de as ver sobreviver e florir ainda mais, comprei um saco de terra e sementes para mais flores doutras espécies, isto é, das que vêm nos saquinhos mais baratos que encontrei.

 

E, dias mais tarde, fui de férias, por isso não semeei nada nessa altura. A minha vizinha, com a qual partilho o meu parapeito, virado para a sua esplanada, cuidou das minhas flores, que acabam por ser um bocadinho "nossas". Voltei e, apesar de ligeiramente queimadas pelo sol, continuam a crescer. Foi mais um desafio que superaram, as fortes.

 

Por isso, lá decidi dar uma oportunidade às tais sementes. Semeei-as na segunda-feira, num impulso, sem vasos mas dentro de canecas decorativas que tinha no escritório. Levei muito tempo a fazê-lo, por achar que não seria uma actividade "produtiva", ou útil, como se semear e cuidar de uma planta, de um animal, ou de uma pessoa não fosse uma tarefa com valor. Lá deixei de pensar em perdas de tempo, porque a maior perda seria não ter parapeitos floridos, que me animem a mim e a quem mais olhar para eles ao passar. Resta-me esperar que germinem. No final, é só isto: a beleza.

26/30 (eu isto e o João aquilo)

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Costumo dizer muitas vezes, em tom puramente caricatural: eu e o João falamos línguas diferentes. Depois de mais de ano e meio juntos, começamos a comunicar cada vez melhor, e a arranjar um entendimento partilhado que nos permite uma tradução razoável. Mas isso é o mínimo, a ponta de um iceberg. A simplificação não é sempre o caminho.

 

É difícil conhecerem duas pessoas mais diferentes entre si do que nós - à primeira vista. Quando nos viu juntos e falou connosco pela primeira vez, o nosso vizinho comentou logo o facto de eu ser a parte que fala e o João a parte que ouve. Foi mais ou menos assim que nos descreveu, e eu achei engraçado haver esta dicotomia obrigatória. Uma é isto e o outro é aquilo.

 

Vejamos...

Eu sou criativa, o João é lógico. Eu sou extrovertida, o João é introvertido. Eu sou espontânea, o João é comedido. Eu sou complexa, o João é pragmático. Eu sou batata de sofá, o João fez um ginásio em casa. Eu sou ansiosa, o João é calmo. Eu sou das Letras, o João é das Ciências. Eu penso, o João faz. Eu sonho, o João planeia. Eu digo sim, o João diz não. Podia continuar, mas a amostra já é suficiente para se entender onde quero chegar: como é que duas pessoas tão diferentes se podem fazer tão felizes?

 

Correndo o risco de abusar do cliché, parece-me inevitável invocar o conceito de equipa. O que falha no elemento X abunda no elemento Y. E vice-versa.

 

E, depois, há aspectos que são tão mais importantes para uma relação funcionar: a vontade de estar na relação (óbvia, mas desvalorizada), os desejos para o futuro, os princípios éticos e morais, a visão sobre o dinheiro, o compromisso e a dedicação diária, a capacidade de partilhar os pertences, o espaço e as responsabilidades, o estilo de comunicação, as linguagens não faladas, a admiração mútua, as rotinas. Embora hoje já me faltem palavras e energia para continuar o raciocínio, hei-de voltar a escrever sobre o assunto.