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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Gosto de escrever sobre livros, mas agora não me apetece

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Para mim, gostar de livros é gostar de aprender, ter curiosidade e ter a humildade de reconhecer que há tanto que existe por saber e contar que, não sabendo nós (ainda) o que é, outros no-lo poderão dizer.

 

Além disso, compro muitos livros, bem mais do que consigo ler. Já perdi a conta a quantos livros comprei no último ano, mas vejo pela minha estante que vários ainda aguardam pelo seu momento de glória. Ainda esta semana comprei mais dois - serão os últimos de 2019? O ritmo a que encho prateleiras vai variando, e sonho com o dia em que seja capaz de ler tudo o que lá vai parar; e também com o dia em que seja capaz de escrever sobre tudo o que leio.

 

A propósito, gosto de escrever sobre livros, mas não me apetece fazê-lo neste momento. Um apontamento aqui e outro ali são suficientes por agora. Continuo a ler, mas preciso de tempo para assimilar a leitura, mesmo que não escreva sobre ela. As listas do que li andam por aí, estreladas no Goodreads, mas de palavras para as descrever ando parca. Talvez porque os temas têm sido quase sempre os mesmos, e todos de não-ficção, meio filosofia, meio psicologia, não sei bem o que acrescentar. Só sei que tenho gostado deste silêncio e apreciado a introspecção, tenho aproveitado o conhecimento e as histórias.

 

Assim, deixo-vos com esta reflexão e com alguns dos livros da minha pilha recente, dos que li e vou lendo (ver fotografia no topo). Quando se gosta mesmo daquilo que se estuda (finalmente, já não era sem tempo!), parece que todos os autores que se conhecem e todos os capítulos que se devoram são poucos.

 

Um dia destes, volto com mais ideias livrescas! 📚

Dá vontade de dizer "forever and ever"

Quando comecei a namorar à séria, o meu pai garantiu-me que não havia amor como o primeiro. Na altura, eu já tinha tido um pseudo namorado, mas contei sempre essa pseudo relação como um fling adolescente, passageiro, muito sofrido e quase platónico. Dito isto, passei sete anos com essa deixa na cabeça, de que o primeiro amor é que é, principalmente para justificar por que a minha segunda relação foi boa, mas morna, sempre a faltar qualquer coisa sem saber bem o quê. Afinal, o primeiro amor é que tinha sido o melhor e provavelmente nada nem ninguém o iria superar. Conformei-me e acreditei que era este o fado duma relação adulta e desencantada, assente no real e na experiência palpável, sem os unicórnios e arco-íris de algo que começa quando somos tão novos e tudo também é novo e fresco. Se a minha primeira relação começada na idade adulta não tinha fogo-de-artifício nem confettis, era porque nem sequer era suposto. Afinal, duas pessoas que já viveram grandes e pequenas relações já vêm marcadas, têm as suas manias e hábitos estabelecidos, e têm vícios e expectativas goradas - perdão, devidamente alinhadas.

 

No entanto, parece que o meu pai não tinha razão (não é a primeira vez, claro). Talvez haja quem nos traga os confettis, o fogo-de-artifício, os unicórnios e os arco-íris como se fosse a primeira vez que os vemos, quem nos devolva a expectativa dum segundo ou terceiro amor como se fosse o primeiro, porque - aliás - é o primeiro do seu género, entre estas duas pessoas, nestas circunstâncias específicas. E eu olho para ele e acho que é bom demais para existir; e a pessimista que há em mim tentou alertá-lo para o quão desarranjada sou, mas num ápice ele fez-me ver que afinal eu só não tinha conhecido alguém que me fizesse relembrar o quão inteira posso ser; e aquilo que eu imagino que um homem (e um parceiro na vida) deve ser ele é sem lhe ter sido recomendada a lição; e ficamos bem nas fotografias, mesmo quando ficamos muito mal; e ele faz a minha família rir imenso, tanto quanto sinto que a família dele me faz rir; e ele está sempre a guardar as minhas mãos nas dele; e somos tão diferentes e tão iguais (a concordar quase sempre sem grande esforço, sendo eu tão caótica e ele tão comedido) que preenchemos todos os pré-requisitos para nos ser permitido usar clichés quando nos descrevemos forever and ever.

 

Além disso, ontem houve almoço de família e ele trouxe três tipos de pão artesanal, acrescentado ao facto de comer tudo o que a minha avó lhe põe à frente, alinhar na piada e confusão de ter o mesmo nome que o meu pai, e não fazer soar nenhum alarme à minha tia, por isso só pode ser uma excelente pessoa, a adição perfeita à malta lá de casa.

Procrastinar ainda é viver?

Sento-me ao computador, o que não é tão comum ultimamente. Se antes procrastinava muito ao computador, hoje faço-o no telemóvel; por isso, sento-me ao computador e trabalho. Se antes tinha medo da página em branco, esse medo persistiu. No entanto, escrever no blog sempre foi mais fácil: pela ausência de pressão; pelas expectativas de mero treino como objectivo primário; pela imediatez associada a este tipo de plataformas.

 

Criei este blog como mais uma procrastinação produtiva. Detesto sentir que não estou a fazer nada de jeito, então preciso de ver resultados, até das minhas distracções. Sou obstinada no que toca a não desperdiçar tempo, e uma forma de rentabilizar o tempo que, de qualquer forma seria de trabalho, é usar a procrastinação inevitável para criar novos projectos e para fazer surgir mais ideias. Dessa mesma forma nasceu o lema de que procrastinar também é viver - dependendo de que modo de procrastinação escolhemos. 

 

Oito anos volvidos, assim continua esse lema a crescer e a solidificar. Muito do que tenho feito a nível pessoal e profissional tem origem nesta prática. Sou muito criativa e descubro imensos interesses novos quando me abstraio da tarefa inicial, ganho um raciocínio divergente e mesmo disruptivo quando combino diversas actividades. Claro que é de evitar uma rotação constante de tarefas, mas na minha opinião a distracção ocasional também pode gerar dividendos.

 

Alguns exemplos:

Da procrastinação do estudo, criei o blog. Do blog, pratiquei a escrita e dois anos depois fiz algum trabalho como copywriter, a escrever para blogs de clientes de todos os tipos. Procrastinei esse part-time e o estudo para a licenciatura com formações paralelas. Nessas formações paralelas, aprendi competências e obtive ferramentas que se revelaram extremamente valiosas na prática e no currículo, quando aceitei dar aulas em Banguecoque, e mesmo até hoje. Depois, voltei para Portugal e continuei a escrever e a procrastinar. Procrastinei os mestrados anteriores a estudar tópicos sobre psicologia, que apliquei a bem ou a mal, sempre que possível, nesse âmbito. Comecei a olhar para outros cursos, e descobri o mestrado que frequento neste momento (em Psicologia). Desisti dum, inscrevi-me no outro. Procrastino os trabalhos do mestrado a escrever sobre os mesmos temas para o P3. E procrastino o trabalho com a criação de um clube de escrita. E procrastino projectos do trabalho com outros projectos do trabalho (felizmente, trabalho por conta própria e posso fazer basicamente o que me apetecer para ganhar dinheiro - pronto, com as devidas aspas).

 

É provável que este modus operandi pareça demasiado caótico para muitas pessoas, mas para mim é o ideal. Às vezes, é complicado gerir um horário em que tudo é trabalho e tudo é lazer, ambos com grande potencial, mas eu não conheço outra forma de viver. Por isso é que gosto de ser professora, formadora e eterna estudante. Por isso é que quero continuar sem um único chefe, ou é com vários ou sou eu a CEO do meu tempo (e olhem que posso ser a chefe mais bondosa, mas também a mais implacável de sempre, que já estive um ano e tal sem férias e calha com alguma frequência trabalhar duas ou três semanas seguidas sem folgas, mesmo que equilibre com uma disponibilidade mais flexível e com a procrastinação do costume).

 

Portanto, sim: procrastinar ainda é viver. Pode não ser a opção de gestão de tempo mais óbvia, mas por aqui vai resultando e prosperando.

Sento-me ao computador e escrevo. Escrever é procrastinação, escrever é procrastinado, escrever é omnipresente.

São só fotografias

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Uma das maiores pequenas alegrias que posso ter é entrar numa casa alheia cheia de fotos tiradas ao longo dos anos. É o meu guilty pleasure, derreto-me e amoleço com isto. Sou uma voyeuse de paredes, estantes e de tampos de móveis, gosto de imaginar as histórias por trás das imagens e de reconstruir narrativas familiares através do meu entendimento de visitante. Essas fotografias são a exibição da própria felicidade, das memórias que se querem preservar. Porque estão dentro de casa e não num mural de rede social, não são para os outros, são para quem lá vive - isto é, consistem numa selecção de lembranças preferidas, mesmo que não tenham sido curadas para os olhos dos outros, uma representação do que os habitantes da casa consideram ser o mais importante acerca de si mesmos e que gostam de rever diariamente.

 

E uma família feliz não tem só fotografias das crianças ou dos grandes eventos com pose pensada, tem fotos de tudo e mais alguma coisa: das férias de Verão, retratos da escola, aniversários, casamentos, Natais, momentos de convívio e olhares que saíram fotogénicos. O repertório não se cinge a uma só categoria ou a um grupo de pessoas, não é necessariamente o mesmo que se descarregaria no Facebook, e mais haverá nos álbuns que se imaginam através desta amostra.

 

Não são só fotografias, afinal.

Procrastinando em Público: Eu quero ser feliz, e tu? (P3)

https://www.publico.pt/2019/11/03/p3/cronica/quero-feliz-1891807

 

Dá para acreditar?! Tenho um texto publicado no P3, o suplemento online do Jornal Público. Estou muito contente, principalmente porque escrevi sobre um tema que adoro estudar, e sobre o qual estou mesmo a fazer uma pós-graduação/mestrado (Psicologia Positiva Aplicada, uma mudança que explicarei noutra altura), e porque os comentários têm sido muito simpáticos. Por isso, gostava muito de vos convidar a também ler esta pequena crónica. Obrigada, e estejam à vontade para partilhar, opinar, sugerir...!

 

(Fiquei com muita vontade de repetir, nem que seja para poder encher a minha página de autor)

A última romântica

Para o João, que de repente me pôs a pensar nestas coisas

 

Entristece-me que as pessoas se revelem cada vez mais cépticas quanto à existência dum "amor para sempre". Antes dos casamentos, prevêem já os divórcios. Começam relações com a boca pequenina, passinho a passinho. Não se deixam arrebatar. É tudo morno, não é? 

 

Infelizmente, também eu me sinto vítima deste contexto cuidadosamente contido, muito quadrado. Tento contrariá-lo, mas prevalece um receio constante de prematuridade, que ao não partir de mim há-de partir doutros lados. Não estou a declarar quem afinal terá razão nesta equação que nos melindra, mas sim que nos anexamos à partida a crenças de amor e dedicação forreta, com medo de merecer essa atenção, e com medo de magoar quem nos quer tanto bem. Às vezes, até parece que só não temos medo de quem nos quer um pouco menos, pela familiaridade da potencial rejeição. Desculpamo-nos com antecedência, não se dê isto e aquilo... Desconfiamos até de quem oferece largueza, porque simplesmente não estamos habituados.

 

E contagiamos quem nos rodeia, uns aos outros. Incubamos atitudes defensivas. Cultivamos mais medo do desconhecido, observando à distância os românticos, com uma curiosidade de antropólogo-comentador-de-bancada.

 

Mas eu quero ser romântica - não necessariamente a última, apenas uma em muitos. Quero apreciar a aproximação das pessoas que fazem por isso, quero acreditar que há quem conheçamos hoje para o resto da vida, que veremos envelhecer. Talvez nos faltem modelos, vivos e de pensamento, para nos assegurarem da exequibilidade do amor [e da amizade] que se descobre, constrói, insiste, desconstrói e sobrevive.

 

Onde vamos beber desse conhecimento de causa? Às artes? Aos media? Aos autores contemporâneos ou aos clássicos? Muitos de nós vimos de famílias desmanchadas e remontadas, aprendemos o que é um casamento mas não aquele em que nos pretendemos envolvidos, vivemos na sociedade líquida que só acredita no "até mais ver" e no "por agora é isto". Mas nós queremos fé, onde antes só havia condicionamento, convenção e comodismo. Nós, esta geração que agora procura uma ressignificação do que é o amor para sempre, queremos não só mais, mas melhor.

 

No entanto, não se acha romântica, a geração líquida, porque se acha a meio dum processo que não entende. E eu a querer ser romântica, e por vezes a não conseguir, porque também me encho de dúvidas. Sou uma céptica a tentar curar-se. Paciência a rodos é necessária, minha e de todo o lado. E, acima de tudo, é preciso encontrar e conhecer a pessoa certa, que amoleça e amenize o impacto das paredes que vão caindo, uma a uma. Há que partir as que fui erguendo nos últimos anos. Tenho de aprender a não me sentir permanentemente ansiosa, com medo que as pessoas, amigos, futuros-tudo, não queiram realmente desmanchar a bagagem e ficar por aqui. Habituei-me ao efémero, um conformismo pelo fim que me assustou quando as minhas relações passadas (românticas e de amizade) terminaram. Fica um vazio, muitas perguntas irreplicáveis, alguma nostalgia, mas pouco mais, porque o fim eminente nunca tinha deixado de figurar nos créditos.

 

E se deixar...? Por que haveria eu de perpetuar o sentimento de perda antecipada? E se eu já tiver acordado para um "para sempre" sem o saber?

Porque, no final do dia, eu sinto que até tenho o que é necessário para ser a última romântica dos nossos tempos. Uma romântica com os olhos bem abertos, mas - ainda assim - uma romântica. E das pirosas.

Quase rezei para gostar: Jesus Cristo Bebia Cerveja (Afonso Cruz)

Já vos contei da primeira experiência a ler Afonso Cruz: fiquei triste por pensar que iria ser a revelação do ano, e foi mais a desilusão do semestre. No entanto, decidi dar uma segunda oportunidade, porque outras pessoas confirmaram que, da bibliografia do autor, Flores não era o melhor.

 

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Assim sendo, avancei para o outro livro que já tinha comprado: Jesus Cristo Bebia Cerveja. Neste, Afonso Cruz conta a história duma neta - Rosa - e duma avó - Antónia - que vivem no cimo dum monte, perto duma aldeia caricata. Comecei logo por gostar da premissa, que já tinha conhecido quando ouvi Afonso Cruz numa feira cultural em Banguecoque, há um par de anos. Também eu sou neta única, também eu tenho uma avó que substitui e compensa por qualquer mãe biológica que tenha tido outras ambições na vida, e também eu tenho medo que a minha avó adoeça e perca qualidade de vida, mas certa de que, se fosse necessário, também eu montaria uma Jerusalém no meio do Alentejo.

 

Apesar de achar que não é o melhor livro dum autor português contemporâneo que leio, gostei bastante de Jesus Cristo Bebia Cerveja. Todas as personagens têm uma faceta de loucura que só a literatura poderia catalogar tão bem, e que não me surpreenderiam se existissem na vida real. Na sua falta de sentido, fazem sentido. É um elenco que, senti, enriqueceu o meu imaginário, que me obrigou a pôr-me na pele de Rosa e a alegrar-me e a incomodar-me com a narrativa dos seus dias.

 

A aparente temática religiosa - Jesus Cristo Bebia Cerveja - é só um chavão, mas outras discussões são deixadas no ar para as apanharmos: o papel da mulher como cuidadora primária da família, o papel do homem possivelmente dependente das mulheres na família e na sociedade, o significado do amor romântico, o cosmopolitanismo e as viagens, as relações entre empregados e empregadores, a importância da educação moral e emocional vs. instrução - tudo isto misturando um cenário que não cheira a passado, nem a presente, nem a futuro, mas que me cheirou definitavamente a uma imagem mental do interior de Portugal.

 

Além disso, apesar de o final ser triste q.b., promete um renascimento de igual forma. Quando gosto de uma personagem, prefiro acreditar que outras vidas lhe restarão para outros livros hipotéticos. Depois de decisões difíceis, algo virá, bom ou mau.

 

Jesus Cristo Bebia Cerveja, porque, afinal, todas as histórias podem ser contestadas e reimaginadas.

 

📚 Entretanto, instalou-se na minha casa uma febre de Afonso Cruz, pelo que já tenho Os Livros que Devoraram o Meu Pai O Macaco Bêbedo Foi à Ópera recomendados e preparados para descolarem da estante. Por onde começo - alguma sugestão?

As férias

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Ainda está por explicar o fenómeno psico-meteorológico que me tem afligido a carteira pelo menos uma vez por ano: em época de introspecção, a criatura Beatriz, presidente do clube de fãs do calor e luz lisboetas, ruma a Norte em modo "one woman show" para uns dias de excepcional clarividência e clareza interiores, convenientemente patrocinadas por nuvens baixas, vento agreste e temperatura/precipitação racha-dente. No destino, põe-se a admirar estantes de paperbacks, toda e cada uma das livrarias que lhe aparecem no diretório, os cenários dos seus romances preferidos ao vivo e a cores, descendentes de vikings a beber café aguado, e a sonhar acordada nos espaços verdes extensos e densos, na sombra de cidades industriais. Gosta de beber chocolate quente, de dormir a sesta nos autocarros das tours, de ligar à família a queixar-se da humidade nos ossos e da quantidade obscena de chineses nas atracções turísticas, e de comprar Toblerone a metade do preço. Diz sempre que vai para descansar, e raramente consegue dormir mais de duas horas seguidas à noite no hostel. Diz que vai para ler, e nunca termina um único livro. Diz que vai para escrever, e não escreve mais de três parágrafos. Enfim, por fim, as férias do espécimen. ✈️

O passado como o lembramos: The Sense of an Ending (Julian Barnes)

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Há livros curtos, mas que valem por três ou quatro. Gostei tanto de The Sense of an Ending (O Sentido do Fim, em português) do autor inglês Julian Barnes. De facto, o peso dum final eminente sente-se por todas as palavras. É um dos livros mais tristes que já li este ano, com pedaços tão, tão bons de ler - ou não tivesse ganho o Man Booker Prize em 2011. É daqueles livros que se lê devagar, porque cada linha se revela importante, bela e sintomática do estado de espírito oscilante do narrador, Tony Webster, porque cada frase é indispensável para a compreensão do resto do livro, da sua história e de como a relembra, e o leitor tem de prestar atenção aos detalhes.

 

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Não sei se lhe hei-de chamar exame minucioso à mente, emoção e pensamento humanos, não sei se lhe hei-de chamar thriller psicológico, nem sequer sei pôr The Sense of an Ending numa caixa. Só sei que é indiscutível a montanhas-russa, turbilhão de acontecimentos e memórias que vão desabrochando da análise ao passado em que Tony se aventura, ficando as questões: será que nós também chegaremos à sua idade relembrando o passado com tantas lacunas e erros de julgamento? Será que também nós, os leitores, iremos envelhecer com uma ideia muito mais elogiosa das nossas acções do que verdadeiramente merecemos, colocando-nos num pedestal moral bem superior aos indivíduos com quem nos vamos cruzando e convivendo?

 

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Durante 150 páginas muito ricas ficamos a matutar na nossa própria moral e ética pessoal, no modo como conduzimos as nossas relações e no peso das nossas acções, por mais insignificantes, nas vidas alheias.

 

Li algures uma opinião que dizia que este livro é extraordinário na sua normalidade. É isso mesmo. Não tem um enredo cheio de peripécias. Talvez outras pessoas o achem aborrecido. Tony evoca uma vida medíocre, igual a tantas outras, sem feitos de monta. Ele mesmo reconhece que tentou levar uma existência pacata ao longo dos anos. A vida estóica deste narrador-personagem só é interrompida pela reviravolta da trama, um documento que aparece e invoca fantasmas da sua juventude, colocando em causa a integridade do homem suburbano e rotineiro que se esforçou por ser. É só isso, mais uma vez. Pouco mais vos poderei contar, mas, se se interessam pela forma como o rebuliço interior nos pode pregar partidas e como é que um bom escritor o retrata, The Sense of an Ending é a leitura breve perfeita para passarem umas boas horas em amena agitação mental. Diria que é semelhante, no tema e na abordagem, a As Velas Ardem Até Ao Fim, de Sándor Marái. Nada como desenterrar o passado para melhor nos conhecermos e reconhecermos...

 

A seguir, vou tentar ver o filme. Confesso que tenho curiosidade em perceber como é que uma narrativa tão introspectiva pode ser adaptada para o cinema, e espero não me desiludir.

Vistos, ouvidos e validados

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Todos queremos ser vistos. Queremos ser vistos, no sentido de não precisarmos de chamar a atenção para a recebermos, no sentido de darmos e ser-nos dado. O que provavelmente todos nós procuramos não é só a admiração dos outros, o que nos obrigaria a algum feito ou conquista extraordinária, mas sim o reconhecimento de que existimos apenas por existirmos.

 

Escrevemos em blogs, criamos redes sociais e escolhemos a melhor foto de perfil, publicamos stories no Instagram, damos o nosso melhor em discussões sociais, aparecemos em meet-ups, criamos listas de leitura no Goodreads, apostamos em relações pessoais diversas com pessoas de alguma forma semelhantes a nós, melhoramos o CV, preparamos apresentações, ensaiamos a forma como nos rimos e vestimos, porque - em grande parte - queremos ser vistos, ouvidos e validados, mas o objectivo final deve com certeza passar por conseguirmos ser vistos, ouvidos e validados por causa natural, isto é, sem precisarmos de nos explicar, nem o que sentimos, sem precisarmos de nos esforçar a todo o momento, sendo nós mesmos.

 

O cliché ganha profundidade quando queremos ser incondicionalmente vistos, ouvidos e validados por quem nos rodeia num Sábado ao final da tarde, sem banho tomado, vestidos com peças de pijama desirmanadas, a mastigar bolachas de sour cream de boca aberta, a espalhar migalhas pelo chão, de pernas escancaradas e a coçar a caspa oleosa para dentro das unhas, com os olhos inchados por termos chorado com a morte do cão Marley na televisão pela 54ª vez na vida - pelo menos tanto quanto nos dias em que o resto do mundo também tem razões para nos ver, ouvir e validar.

 

Aquilo de que andamos todos à procura é quase um amor paternal ou maternal da parte de familiares, amigos e parceiros, uma imitação da segurança sem constrangimentos que idealmente teremos sentido quando éramos pequenos. Por muito independentes e decididos, precisamos de quem tome conta de nós, ou sobre quem nós acreditemos que o pudesse fazer caso fosse necessário, queremos alguém que demonstre afecto só porque lhes apeteceu, que nos perguntem como estamos sem termos de acenar com três sinais de trânsito e uma avioneta, que nos liguem só para desejar um bom dia, sejam espontâneos nas demonstrações e não poupem no afecto e nos elogios - afinal, diz-se que nos tornamos aquilo em que os outros acreditam que somos ou nos podemos tornar.