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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

14/30 (ainda a saúde mental)

Este texto é uma continuação do anterior, porque há tanto para dizer sobre a desvalorização da saúde mental! Em primeiro lugar, não preciso de relembrar números, mas deixo-vos alguns aqui de qualquer forma. E aqui também.

 

Acima de tudo, apareço hoje para vos relembrar que a saúde mental não é uma certeza para todos e, por arrasto, da importância de cuidarmos de nós e de acreditarmos que o que sentimos é legítimo, mesmo quando a sociedade e mesmo quando as pessoas que nos são mais próximas descredibilizam ou menosprezam o que é uma simples "ansiedade" ou "angústia". Neste texto, também quero expressar um agradecimento a todas as pessoas que têm sido generosas com o que escrevo, em particular com o número 13. Muito obrigada.

 

O acesso aos cuidados de saúde mental é nulo no SNS (do qual sou apoiante indiscutível, o que não me impede de lhe apontar falhas). O mais próximo que tive de apoio psicológico pelo SNS foi algumas consultas na clínica da Universidade de Lisboa, com preço mais baixo por ser alumna da FLUL, depois de me terem submetido a um teste de diagnóstico para ver se podia entrar para a lista de espera prioritária, na qual não entrei - até ter enviado um e-mail a suplicar à psicóloga que me desse consultas, à conta de um evento específico que me deixou de rastos nessa altura. (E não, a profissional que me seguiu não me ajudou em quase nada. E eu não podia escolher quem me seguia.)

 

Por isso, todas as semanas pago 60€ para ter consultas de psicoterapia com uma psicóloga maravilhosa, com clínica privada, desde Junho do ano passado. É este o preço de alguma clareza, entendimento, auto-conhecimento, auto-cuidado, equilíbrio. Vale cada cêntimo, mas sou uma privilegiada, porque ainda posso escolher pagar. Não tenho mais nenhum luxo, corto noutras despesas para pagar a psicoterapia, vou tendo ajuda da família, mas não há dúvida de que eu pago por algo que deveria ser de acesso universal e gratuito, ou pelo menos subsidiado.

 

Este é um dos primeiros indícios de que a saúde mental é extremamente desvalorizada em Portugal. Quando temos uma gripe, podemos ir ao centro de saúde ou ao hospital e queixar-nos. Somos tratados, dão-nos medicação e conselhos sobre como ficar melhor. Se trabalharmos, dão-nos baixa para apresentar ao empregador. Quando temos uma crise de ansiedade, ou pânico, ou tudo junto... há médicos que não só não têm formação para lidar com a situação, como nem sequer têm bom senso, nem tacto. Nem o SNS tem meios para nos ajudar. É preciso mostrarmos que estamos profundamente deprimidos, basicamente que somos um perigo para nós mesmos ou para os outros, para que façam algo. Senão, dir-nos-ão que somos jovens/saudáveis/sortudos/mal-agradecidos.

 

Eu tenho muita sorte, muita, muita... imensa. Tenho uma pós-graduação num ramo da Psicologia, sei onde encontrar informação, tenho meios e recursos materiais e imateriais para me ir acalmando e ter sempre a certeza de que saúde mental é saúde. Tenho acesso a profissionais que me ajudam. O João é médico e, além disso, fui muito bem tratada no centro de saúde da nossa zona de residência - antes e depois. Não fui totalmente descredibilizada, tenho quem olhe por mim. Mas e as pessoas que não têm esta rede de apoio? E o privilégio que eu tenho por poder, com mais ou menos sacrifício, """esbanjar""" em cuidados de saúde mental?

 

Apesar de tudo isto, sou optimista. O médico sobre quem escrevi ontem é doutra geração. Estamos em tempo de pandemia e ele disse-me que estava a fazer turnos de 24 horas por esses dias. Talvez, noutro contexto, com médicos mais novos, o tratamento - ou o trato - seja outro. Por exemplo, eu sei que o João jamais desvalorizaria um paciente que lhe chegasse à consulta como eu cheguei. Eu sei que ele vai ser - e já é - um excelente médico de família, verdadeiramente atento a todas as queixas, desde a dor no mindinho até à crise de pânico espontânea. O paradigma vai ter de mudar, neste que já é descrito como um "século da saúde mental".

 

Seja como for, aproveito para abrir, como sempre, a minha caixa de comentários, e mesmo o meu e-mail e redes sociais a quem precise ou apenas queira partilhar experiências ou ideias. Estamos todos a passar por tempos muito estranhos, não vai ficar tudo bem, mas resta-nos cuidar de quem pudermos - a começar por nós e pelos que nos rodeiam.

 

Por fim, mais um lembrete: o facto de sentirmos a nossa saúde mental fragilizada não significa que estejamos maluquinhos. Ter ansiedade não é um traço de personalidade. Mas não estarmos sempre a 100% e queixarmo-nos de dias maus não é birra. Não é normal aceitar sintomas de mal-estar psicológico como uma coisa menos séria. E não é vergonha pedir ajuda!

 

Mais outra nota: há linhas telefónicas e entidades que prestam apoio psicológico cujos contactos devem procurar. Principalmente durante a pandemia, câmaras, juntas de freguesia e universidades têm disponibilizado ajuda. Alguns desses contactos estão aqui. Se tiverem conhecimento de mais, partilhem nos comentários.

Procrastinação em tempos de pandemia

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Este podia ser apenas mais um texto com uma data de dicas sobre como lidar com a procrastinação enquanto temos de ficar em casa a trabalhar. Mas não é, e acho que devo prevenir a leitora ou leitor de que é provável que eu não escreva nada que já não se saiba. Ainda assim, se tiver um par de minutos para gastar e não sabe como, fique comigo aqui a procrastinar.

 

Então, de que se trata este texto afinal? Respondo já, antes que me apeteça ir lavar a loiça do almoço em vez de me concentrar na escrita: trata-se de não-ficção, é claro. Aspira principalmente a ser crónica, mas acho que é capaz de ficar mais aproximado a um queixume de café (se os cafés estivessem abertos nesta altura, claro está). Em geral, a qualidade literária não é muito melhor do que a já comprovada nas linhas anteriores, as ideias ficarão pela rama, e o leitor guardará sobre mim a impressão de que sou daquelas pessoas irritantes que gosta de se queixar de barriga cheia (e talvez eu seja obrigada a dar-lhe razão).

 

Portanto, vamos ao que interessa. No dia 16 de Março, celebrei um ano de teletrabalho a tempo inteiro. É uma maçada, porque eu gostava mesmo de estar com outras pessoas cara a cara. Por outro lado, aprendi a gostar de estar com elas ecrã a ecrã, e temo ser tarde de mais para me voltar a habituar ao primeiro cenário, até porque me mudei para longe de toda a gente e fica caro e demorado voltar a ir para Lisboa todos os dias. 

 

O único senão desta situação à qual me fui acomodando é ter mais liberdade para passar uma inesculpável parte do dia a fazer coisas que, apesar de úteis no fim de contas, mormente empatam. A minha preferida é preparar comida e comer. Descobri uma grande paixão nestas duas tarefas, que me consomem mais tempo do que eu lhes quero destinar quando acordo de manhã e penso que a jornada tem uma quantidade muito satisfatória de horas para aproveitarmos - se ao menos o soubermos fazer.

 

Mas não sou esquisita com as actividades procrastinatórias a que me entrego de alma e coração.

 

Na verdade, em geral, todas as tarefas domésticas me parecem apelativas, apesar de eu as detestar nas horas vagas, ou seja, aquelas que não estão pré-destinadas ao trabalho. Consequentemente, acabo a ter de trabalhar nessas mesmas horas vagas, e não me queixo, porque é essa a belíssima vantagem em ser trabalhadora independente - o que não me impede de sentir uma dose de culpa desmesurada, que me consome a paciência e a tolerância que reservo para as minhas neuras. Só é lamentável acabar por me aborrecer a mim própria, apesar de conscientemente não me desejar outra coisa senão tudo do bom e do melhor. Como se costuma dizer: por bem fazer, mal haver... e tudo na primeira pessoa.

 

A auto-sabotagem é bastante angustiante. Porque raio insisto em sabotar a minha paz de espírito, em prol dumas trocas e baldrocas no meu horário? Haverá algo mais profundo a analisar, do que o simples ímpeto para a procrastinação? Não será defeito, apenas feitio? Ou vice-versa? Seja como for, esse é um tema para outras incursões e discussões.

 

Como é óbvio, escrevi este texto para procrastinar não sei o quê que tinha de fazer depois de almoço há uns dias, mas seguindo o modelo sugerido pelo nome deste blog, não se esqueçam de que procrastinar também é viver. E que estranha forma de vida é...!

Partir em caso de emergência

Sou uma pessoa cheia de medos:

Medo das alturas

Medo de não ser capaz

Medo de me revelar insuficiente

Medo de ser abandonada

Medo de falhar

 

Como se esta lista ainda não fosse suficiente, o tempo presente tem-me trazido ainda mais medos.

 

Medo de não poder abraçar

Medo do isolamento

Medo da doença (e da morte)

Medo de estar longe

Medo da estagnação

Medo da ausência

 

Se a segunda metade do Verão me deixou sair para aproveitar o sol e até algum afecto dum par pessoas de quem sentia falta, não acredito que consiga manter esta proximidade com aquilo e aqueles que me consolam até ao final do ano. Como uma sentença, mesmo que auto-imposta, tenho quase a certeza de que chegará o dia em que terei de decidir recolher-me, ou afastar-me, deixar de abraçar até de fugida. É provável que nem precise de restrições anunciadas na televisão, mas apenas da minha própria acumulação de medos, sublimados.

 

Conto as pessoas indispensáveis ao meu mundo com poucos dedos esticados, nunca fui de festas ou ajuntamentos, não bebo, gosto de ir cedo para a cama e sou ligeiramente claustrofóbica. Trabalho por conta própria, gosto que me deixem quieta a ler, a ver filmes lamechas e a ouvir música no conforto do sofá de casa ou da cama. Mas gosto demasiado de abraços e de passear sem destino para me sentir confortável dentro de quatro paredes por dias a fio.

 

O que é que faz uma pessoa como eu, que tem medo até da própria sombra, ao enfrentar a incerteza regente?

 

O inverno está aí, mas já comecei a compilar uma lista de pequenos consolos que me possam manter activa e motivada, à tona da água.

 

Que vidros podemos partir em caso de emergência?

Sobre a pandemia, as novas dinâmicas sociais e a saúde mental

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Esta semana, escrevi um texto para o P3 sobre uma data de coisas que sinto, e que imagino serem comuns a muitas outras pessoas. Pelos motivos que lá partilho, também me tem sido difícil escrever no blog com tanta assuidade quanto penso ser ideal. No entanto, tenho vontade de continuar a escrever, mesmo que nem sempre tenha a inspiração suficiente ou temas interessantes para um texto com sentido. Assim... Aqui vos deixo o texto do P3, é só clicarem - ou procurarem-no na secção do Megafone!

 

Espero que continuem por aí, e que estejam a aproveitar o Verão. 

Um elogio à Internet (já agora, este blog completou ontem 9 anos)

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Terminada uma relação, a primeira começada numa idade adulta, reconheci em mim a necessidade de voltar a sentir-me vista. Apreciada. Amada. Desejada. Queria sentir que alguém poderia olhar para mim e pensar "que maravilhoso exemplar feminino da espécie humana", "quanta inteligência e formosura numa só jovem" ou mesmo "comia" (este era o meu grau de exigência, infelizmente, mas melhores dias vieram).

 

Como qualquer millennial dedicada ao seu trabalho, trabalho esse mais solitário, uma millennial que odeia festas e encontros com mais de cinco pessoas, e que já tinha a piscina de "oportunidades imediatas" esgotada, virei-me para o fiel online dating. Cenário familiar do ano anterior, em que, perante o fim duma relação muito mais longa e com um fim três mil vezes mais doloroso do que a presente, as redes sociais para conhecer pessoas com fins de interesse mais ou menos exclusivo já não eram território estrangeiro. No entanto, desta vez descarreguei e experimentei todas as aplicações relacionadas, qual estudo de mercado, o que não me impediu de acabar a usar apenas a do costume, a favorita, aquela que eu recomendo até às pedras da rua: OkCupid.

 

Acredito ferozmente que a Internet e as ferramentas que nos oferece têm o poder de mudar a nossa vida para melhor. Muito melhor. Basta saber seleccionar o que interessa e fazer valer o que nos é oferecido. Ficarei eternamente agradecida a quem teve a brilhante ideia de criar redes sociais, as de matchmaking também. 

 

Se não tivesse sido pela Internet, eu não conheceria pelo menos três amigas a quem cheguei por algum evento que, apesar de ocorrer offline, se divulgou online; e não conheceria o meu ex-namorado, de quem fiquei amiga, e cuja convivência me tem enriquecido emocional e intelectualmente; e não conheceria o meu actual namorado, sobre quem tenho escrito imenso, que me inspira todos os dias e que tem todo o potencial para ser, também, o meu último namorado de sempre ou, pelo menos, por muito tempo.

 

Fico maravilhada ao enfrentar os factos: qual a probabilidade de conhecer estas pessoas que são, hoje, praticamente indissociáveis da identidade que projecto para mim própria? Qual a probabilidade de acordar ao lado dum sujeito chamado João, com quem partilho muito poucos interesses, que cresceu a cinquenta quilómetros de mim? Qual a probabilidade de o João e eu nos termos cruzado, porque estudámos a menos de quinhentos metros durante três anos, mas nada nos ligava à partida, excepto o nome da universidade que ambos apresentamos no currículo?

 

Qual a probabilidade de termos começado a conversar, não fosse eu ter terminado uma relação umas semanas antes dele achar que se deveria concentrar para o grande exame, quase a tornar-se médico e a mudar-se para outra cidade? E se o João não tivesse esperado mais umas semanas, como os pais lhe andavam a recomendar? E se eu tivesse continuado a insistir na minha relação anterior, mesmo que por apenas mais uma quinzena?  E se eu não tivesse ressuscitado a minha conta do OkCupid? E se eu não tivesse publicado uma fotografia com o meu gato que o João veio a comentar, e se o João não tivesse tido uma segunda chance de tentar chegar à fala comigo, apesar de rezar a lenda que eu já ignorara uma mensagem dele antes de apagar a minha primeira conta?

 

A abrangência da Internet e a probabilidade dum grande amor, ou de grandes amizades, convergem aleatoriamente em narrativas que poderiam ter acontecido doutra forma qualquer. Doutra forma qualquer. Mas não assim. É com este pensamento que me permito invadir por uma gratidão infinita pelo efeito borboleta que me trouxe até ao momento presente. Talvez até me sentisse agradecida por outros resultados, se fosse o caso, mas permitam-me questionar: como é que é possível melhorar? Não existe melhor, pois não? Gosto tanto desta realidade como a conheço.

 

A Internet contém uma vida de possibilidades. Tivesse eu nascido uns anos antes, não me identificaria como nativa, não navegaria tão bem os mares da tecnologia que me trouxeram o João e outras pessoas de quem gosto tanto. Sem preconceitos ou amarras, uso ferramentas apenas visíveis através de um ecrã de seis polegadas para construir o mundo como ele é para mim, agora. Porque sei que tenho, de facto, um mundo nas minhas mãos. Um mundo abstracto que se materializa num mundo palpável. Um mundo onde podemos conhecer o amor da nossa vida, onde podemos conhecer amigos que nos trazem tanta bonança, onde podemos encontrar o emprego dos nossos sonhos, onde podemos partilhar as nossas obras, onde podemos aprender e partilhar conhecimento ao qual não teríamos acesso há duas décadas.

 

Estamos a meio de 2020, no meio dum pandemia. Estamos a meio duma vivência crescentemente digital, fugindo do mundo físico e dos encontros cara-a-cara, alimentando uma existência por mensagens escritas e conferências em vídeo. E que existência poderosa pode ser, se aprendermos a retirar o melhor que a Internet tem para nos sugerir! Afinal, considero que o melhor do mundo online é ter o condão de enriquecer o mundo offline, se soubermos orquestrar a transição e a complementaridade. Esta é uma época instrumental para testarmos mais modos de ser e estar num contexto único.

 

Quando abraço o João, lembro-me frequentemente do quão frágil esta realidade - esta, assim - será sempre. Oh, os pequenos acasos que nos fizeram finalmente cruzar - se não na Cidade Universitária, pelo menos num "não-lugar" chamado OkCupid. Um pequeno "se", nada deste abraço. Nada de ter conhecido o João. Nada de tudo o que surgiu. Nem, na verdade, este dia 1 de Julho de 2020 em que me sinto tão satisfeita com o que a Internet me tem dado - incluindo este blog e toda a partilha e procrastinação proporcionadas em - fez ontem - 9 anos.

 

No topo, fotografia tirada ontem, 30 de Junho de 2020, às 21h50 (em jeito de celebração de mais um marco na existência do Procrastinar Também é Viver). A minha janela e o pôr-do-sol estival, tardio, claro. Quase parece anunciar o bem que há-de chegar.

Comprar livros em Portugal, durante e após a pandemia

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Bom fim-de-semana, com uma nova crónica minha no P3 do Público - um apelo relacionado com os efeitos da crise recente nas indústrias dos livros em Portugal, mas também sobre o amor que tenho por eles. 📚

 

Deixo-vos um trecho:

"O medo é uma emoção muito comum nestes dias. No entanto, a sugestão que deixo é a seguinte: se tiverem condições para tal, aliviem parte desse medo com livros. Escolham livros que vos consolem, que vos façam companhia, que vos inspirem, que vos informem e (ou) que vos distraiam, que vos façam felizes."

 

Boas leituras! E boas compras!