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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Há dias

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Há dias que correm bem - com sol, metafórico e literal. Continuo a acreditar que é possível atrair boas energias, se assim o desejarmos. Nem sempre nos rodeamos de quem as tenha, mas fica a oportunidade de remarmos contra a maré, de também sermos nós a começar essa cadeia e partilha. Há dias em que quase tudo parece estar onde deve estar, pelo menos nesse momento, tudo encaixa. Há dias em que sentimos uma gratidão enorme pelo que nos foi reservado devido ao encontro de todos os efeitos-borboleta e circunstâncias que nos levaram até ao ponto actual. Há dias que, não sendo os mais felizes de sempre, nos alegram. Há dias em que a energia não falta, em que há motivação. É difícil alguma vez alcançar a perfeição e a paz total, também há sempre qualquer coisinha que poderia cair melhor nos eixos. No entanto, por que não parar e apreciar o que já temos à frente? Afinal, há ainda mais dias pela frente para tentar alcançar o que nos falta. Nunca estaremos absolutamente contentes, mas o melhor disso é viver para e pela experiência.

Amanhã, até podemos não nos lembrar do bem que nos soube o dia anterior, só que isso já é só problema do nosso "eu" futuro, ele que se amanhe. Mesmo assim, temos aquela sensação de que há-de correr tudo bem. Há-de fazer tudo sentido outra vez, tal como no dia em que estes pensamentos de invencibilidade nos ocorrem. 

 

Há dias assim. 

 

"Happiness can be found, even in the darkest of times, if one only remembers to turn on the light." - já dizia o maior feiticeiro de todos os tempos, Albus Dumbledore. 

As viagens também servem para arejar as ideias

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 Porta da Edinburgh Central Library, foto minha (não me querendo gabar, está catita)

 

Planeei esta viagem à Escócia, não só por ser um dos meus destinos de sonho, não só por ser uma terra verde que representaria um novo começo depois da Banguecoque caótica e cinzenta, mas também porque era uma viagem que eu precisava de fazer para arejar as ideias depois de quase dois anos incríveis, mas extenuantes e muito confusos.

 

Vir à Escócia e estar nesta cidade maravilhosa e mágica de Edimburgo, ir a sítios que não pensava visitar tão cedo (Loch Ness, por exemplo) tem-me permitido sair do meu ponto de vista habitual e tomar uma nova perspectiva, exterior, sobre o que me vai acontecendo.

 

Viajar permite-nos ganhar um novo olhar, porque deixamos o nosso "eu" de sempre em casa e, ao estar em sítios novos, passamos a vê-lo de fora, de maneira renovada. Ganhamos um olhar mais objectivo que nos ajuda a reflectir melhor sobre o que deixámos em Portugal.

 

Viajar sozinha pode parecer estranho a muita gente, mas a mim não me faz impressão, talvez porque já vivi assim antes durante algum tempo. Antes pelo contrário, aproveito estas oportunidades para estar só e apenas na minha própria onda, sincronia e vontade. Por vezes, gostaria de partilhar o que vivo com mais pessoas, mas haverá hipótese de o fazer no futuro, pelo que não me sinto pressionada a sentir a falta de ninguém neste momento. Há coisas que temos de fazer sozinhos. Ir à Escócia é a minha.

 

Este silêncio, que só se quebra com o ruído dos locais, dos turistas, dos guias e das colegas de quarto, é um descanso. Adoro estar assim, principalmente porque sei que tenho o oposto em Portugal. Só daria valor a um e a outro cenário, tendo os dois. É o caso.

 

Também nunca tinha viajado com esta disponibilidade de orçamento antes. É um alívio estar entregue aos meus planos e à minha carteira, mesmo com as suas limitações do costume. Adoro tomar decisões assim.

 

E viajar é ainda melhor quando se deixam amigos fantásticos em Portugal, uma família que só nos surpreende, um ambiente cheio de energias positivas, gente de bem com a vida... De facto, há sempre linhas por encarrilar, mas existirá tempo para o fazer.

 

Não querendo agoirar, esta viagem (e as suas condições de silêncio, aventura, desconhecido, desejado)  tem-me feito sentir ainda mais optimista e tem-me realmente ajudado a reflectir no que pode ser feito e continuar quando o bem bom das férias de Primavera improvisadas tiver um fim. A ser possível, até guardava um pedaço deste optimismo momentâneo, porque na volta ainda hei-de precisar de me lembrar dele.

 

Se eu tivesse que nomear apenas uma lição que vou tentar levar bem reflectida daqui, nomearia aquela ideia da serendipity, ou serendipidade (anglicismo feio, soa melhor no original). É deixar andar, não ceder às preocupações, fazer por liderar o que nos compete porque quase nada cai do céu, mas na volta aceitar também que há acasos, coincidências e simples acontecimentos sobre os quais não temos grande hipótese senão ceder, acontecem e pronto, até de forma feliz, mesmo que não andemos à procura deles (um bocado a forma como tenho planeado, ou deixado de planear, esta viagem). É desfrutar desses ares involuntários que sopram, dessa descontracção de quem não deve a mais ninguém, desse take it easylet it flow. Acho que já andei demasiado tempo a tentar controlar o incontrolável. 

 

Isto das viagens deixa uma pessoa ligeiramente filosófica, não deixa? Não liguem. 

Quando viajo

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Quando viajo para o estrangeiro, normalmente não quero saber. Viajo de cara lavada. Não me preocupo em arranjar o cabelo e visto roupa elástica. Umas calças de ganga e uma camisola ou uma t-shirt servem para o efeito. Muitas vezes, deixo as lentes de contacto na caixa, vou de óculos e acabou. Não me preocupo demasiado em parecer perfeita nas fotos, para as publicar nas redes sociais. Se me apetecer publicá-las, seguem sem acessórios ou filtros. Para mim, viajar e ser-se turista é adoptar a filosofia do pragmatismo, principalmente porque o costumo praticar sem quem faça questão de me ver linda e maravilhosa. É preciso poupar no espaço e peso da bagagem e no tempo gasto na casa-de-banho, que podem ser todos utilizados noutras coisas a que dou mais valor quando tenho oportunidade para as apreciar.

 

Por isso, não entendo quem se arranja como se fosse para o baile de debutantes, enquanto vai ali subir o Arthur's seat!

 

Talvez eu mude com o tempo e com as situações. Nem sempre sou, nem sempre viajo, assim como vos escrevo. Também sei fazê-lo, nomeadamente, com maquilhagem no nécessaire, vestidos e mais de dois pares de sapatos. No entanto, por agora, sinto-me muito "turista de fato-de-treino", less is more. Sinto-me turista acorda-e-sai. Já tenho as fotos do LinkedIn e do Tinder para provar que uma pessoa pode ser o que quiser, para quem quiser, de acordo com os contextos. Por agora, viajar é não querer saber de muito (excepto comida e paisagens) e procurar alguma sensação de libertação que possa surgir.

 

Aliás, é para isso que servem as sweat-shirts das nossas faculdades, certo? #teamfluldesde1911

As pessoas não se sentam para beber café

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As pessoas não se sentam para beber café. Esta constatação ocorreu-me enquanto eu, sentada a beber café, percebi que a maioria dos clientes se ficava pelo balcão. Um café. Um café e um pastel de nata, por algum golpe do acaso. Até há quem leve o café num daqueles copos de plástico ou cartão para "ir bebendo".

 

Estas pessoas não se sentam para beber café. Então, pergunto-me: quão triste ou sintomático é este facto? Não há tempo a perder. Não há tempo para beber café. Alguns só se sentam para tomar o pequeno-almoço, mas não os vejo permanecerem no mesmo lugar por mais do que o estritamente necessário. É tudo à pressa.

 

Não há tempo para apreciar o momento. Não há tempo para as pessoas se sentarem a beber café. É tudo a correr.

 

Para mim, não há melhor do que me poder sentar, nem que seja por dez minutos, a beber café e a ler (ou a escrever, que é o que estou a fazer neste instante, como podem conferir nestas palavras).

 

Só há tempo para trabalhar. Dá-se o nosso tempo aos outros, mas não de forma directa. Troca-se tempo por um rendimento e não há oportunidade para se trocar esse tempo por memórias em família, enriquecimento pessoal, saídas com amigos, sítios novos, um café e um livro.

 

Esta é uma das minhas dores do crescimento. Tenho uma fobia enorme a ser também contagiada por esta falta de dez minutos para parar e pensar. Ou, apenas, desligar.

 

Fotografia ilustrativa não patrocinada, infelizmente. 

Sobre a felicidade dos outros

Ultimamente, tenho pensado muito em felicidade. Tenho pensado, em particular, na felicidade dos outros. Tenho-me perguntado muitas vezes "o que é que leva estas pessoas a serem tão felizes?". Por isso, concluí, é que muita gente passa imenso tempo imersa nas redes sociais. Queremos saber qual é a solução dos outros. O que é que eles fazem, como é a sua vida, o que os leva a estarem tão satisfeitos quanto aparentam? Como é que se constroem e mantêm aqueles sorrisos?

 

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 https://www.pexels.com/

 

No entanto, é raro encontrar essa solução para a felicidade dos outros ao virar da esquina duma foto de Instagram ou dum texto num blogue, não é? Com alguma frequência, dou por mim a apenas ver fotografias de gente feliz, gente de bem consigo e com o mundo, gente inteira. Uma foto depois de correrem a maratona; um amor imaculado; um prato cheio de verdes com aspecto gourmet; uma catarata em Bali; um grupo de amigos à volta duma mesa; um diploma de excelência; um corpo definido.

 

É normal, todos queremos conhecer e partilhar histórias de sucesso. É mais intuitivo mostrar e consumir conteúdo que transmita energias positivas do que energias negativas.

 

Mas só vemos, uma e outra vez, uma parte do processo: o final, o happy ending, o desfecho, tal como na ficção.

 

Nota intermédia: quando eu era miúda, saltava sempre a parte das cassetes em que a Cinderela era humilhada pelas irmãs más e em que a Bela Adormecida se picava na roca de fiar. 

 

Acho que é isso que nós fazemos e repetimos enquanto adultos, num ciclo vicioso. O meio, a forma como se atinge o ideal de picture perfect, é propositada ou inadvertidamente omitido. Pode ser intencional, ou pode mesmo acontecer sem querer. 

 

Raramente encontro esse "meio" do processo nas redes sociais. Não há para amostra as noites que se passaram no ginásio para se abater aquelas dez gramas a mais de gordura corporal (talvez dez segundos numa story); ou as horas, dias, anos de desespero e bloqueio que um criativo passou à frente do computador ou do bloco de notas até aquela ideia fantástica lhe ocorrer; ou as dificuldades que um casal aguentou, os desentendimentos, as discussões, o ata e o desata que veio a culminar num casamento de sonho; ou as mil e uma relações falhadas que se coleccionaram até se conhecer "o tal"; ou as horas extra que o viajante teve de trabalhar para poder visitar o seu destino; ou o lixo e a loiça que se teve de limpar duma cozinha ao preparar dois pratos que se comeram em dez minutos; ou as noitadas e o esgotamento nervoso a que aquele aluno brilhante se teve de submeter até alcançar o mérito.

 

A verdade deve ser, na minha opinião: muitas vezes, também não queremos saber. Não interessa. Queremos é distrair-nos, ver coisas felizes.

E a verdade é, sem dúvida: num momento de tensão ou desilusão, quase ninguém se lembra de tirar uma fotografia aos lenços de papel em que chorou lágrimas, baba e ranho, entranhas e dois terços da alma. Simplesmente, não se faz.

 

Sem querermos, sem ser essa a nossa vontade racional, só olhamos para o que é bom e final. Depois, perguntamo-nos "como é que ele consegue? como é que ela faz?". Então, eu passei sempre a relembrar(-me): para isto ter acontecido, qualquer coisa veio antes. Pode ter sido boa, pode ter sido má. Com uma ou outra variação, as vidas humanas não são assim tão diferentes entre si. Há um rol limitado de enredos, embora cada um com as suas especificidades (tal como no teatro grego).

 

Para alguém ter o que mostra ter, seja massa muscular, dinheiro, fama, sucesso profissional, uma relação duradoura, um doutoramento, um livro, uma família feliz... algo há-de ter acontecido antes, ou nos bastidores, sem que o voyeur inquisitivo se dê conta. Claro que o grau de dificuldade pode variar de pessoa para pessoa, de contexto para contexto. Mas não sintamos pressão desnecessária para copiar ou almejar ao que os outros são capazes de fazer, de forma instantânea. Tiremos um dia de cada vez, pássaro por pássaro, para construir aquilo que queremos para nós (diz a autora Anne Lamott no livro que ando a ler agora, Bird by Bird).

 

No outro dia, eu dizia a uma amiga (bem, na verdade devo tê-lo dito a todos quanto me tenham querido ouvir nas últimas semanas): "sinto que poucos me compreendem, porque nunca ninguém passou por esta situação que me aflige, nestas circunstâncias em que me encontro". E ela confirmou que, de facto, poucas pessoas me compreenderiam.

 

Mas, mais uma vez, todos já passámos por fases terríveis ou acidentadas, por um ou por outro motivo. Já todos sofremos desgostos. É cliché, mas "podia ter sido pior", ou "há quem tenha passado por pior", ou curto e grosso "há pior"; "tu tens tanto e queixas-te", "o que é que queres mais?", "agradece aquilo que tens".

 

Em alternativa, recomendo a abordagem ligeiramente passivo-agressiva, ainda que hilariante, doutro amigo (doutorando em Psicologia, que lá sabe o que faz): "tu já ouviste o que estás a dizer???".

 

Aceitam-se mais sugestões e opiniões. Vamos lá discutir isto da felicidade, vamos?

 

Mais uma vez, tudo é mais facilmente escrito do que feito. Se tu, leitor(a), estás a passar por uma fase menos plena... também eu. Força nisso. Não nos esqueçamos de que há sempre qualquer restinho de qualquer bocadinho de vida para aproveitar. Um dia de cada vez. É isto que eu repito ao meu lado mais emocional e dramático. Amanhã há-de ser melhor. Não faz mal andar de estômago virado, com os ácidos a transbordarem. E, se nos sentirmos voltar atrás... Acontece... Vamos lá!

Sobre flores (e copos, vá)

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Quando era pequena, achava as flores murchas uma aberração doutro mundo: descoloradas, feias, a deitarem muco pelos caules cortados, com as folhas e pétalas a caírem por terra. No entanto, ao crescer, acho que lhes fui ganhando uma certa admiração. As flores murchas também têm a sua beleza. Já foram flores vivas, que distribuíram cor ao mundo, que alegraram o dia de alguém, que foram invejadas. Já foram mais do que natureza em decomposição.

 

Tudo isto para dizer que, tal como a metáfora do copo meio cheio, que está igualmente meio vazio, também aqui venho (re?)criar a metáfora das flores murchas, que já foram flores radiosas. Há sempre um quê de positivo a retirar de todas e quaisquer situações, qualquer coisa que se ganha ou ganhou. Por isso, não entendo as pessoas que insistem em ver sempre caules putrefactos, sem se lembrarem que flores são flores, já estiveram num jardim a saborear o vento ou num ramo que alguém já terá recebido. O que existe numa medida, existe noutra.

 

Nota: prestar atenção à inteireza do que nos rodeia e acontece. 

 

(Eu não disse que iria recomeçar os posts motivacionais-inspiradores? Já agora, atentai no meu material fotográfico mais recente, estou feita uma pró...caria! :p)

Feeling blue(iiiiish)

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O cérebro, a memória... são lugarejos estranhos do nosso ser (digo eu, que de Anatomia e Psicologia pouco entendo).

Passam-se tempos sem fim de felicidade fácil, passam-se mesmo a voar.

Mas apenas um dia mau é capaz de contaminar toda essa longitude temporal. Aliás - uma erva espigada é capaz de aniquilar o roseiral mais frondoso. Um calo milimétrico desequilibra a locomoção dum corpo inteiro. Uma agulha aplicada no ponto errado termina uma vida. Não é aterrador? Não dá para não nos sentirmos pequeninos e impotentes perante a falibilidade do controlo que pensamos ter.

E, de volta à relatividade do tempo... Porque, quando nos sentimos bem, o calendário desfolha-se em rajada, sopram os ventos da bonança. Um dia é mais um dia. Quando algo nos incomoda, o tempo arrasta-se connosco. Um dia também é só mais um dia, mas um dia muito longo. 

 

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(Aviso à procrastinação: este blogue é que tem sido um lugarejo mal frequentado - em emoções, minhas - nas últimas semanas, não tem? Promete-se parlatório mais favorável em breve; por agora, este azul cor de Tejo, ou cor de azulejo, é o único tom possível. O que vale é que, depois de eu regressar com toda uma paleta de canetas Giotto, terei imenso material motivational para criar e partilhar! Viva a blogosgera!)

Com o que se parece um desgosto?

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Duma forma estranhamente masoquista, mas acima de tudo curiosa acerca da condição humana e das emoções, sempre me interroguei com o que se assemelharia um desgosto - não daqueles de criança ou adolescente, não um sentimento vão; um desgosto adulto, com proporções significativas e consequências reais. 

 

Entretanto, esse tipo de desgosto não tardou. Ou não tardaram. Foram logo vários, uns a seguir aos outros. E eu só sei que foram realmente desgostos porque, de facto, nunca tinha sentido nada assim na vida (que ainda não é longa, apesar de tudo). 

 

Com o que se parece um desgosto? Ironicamente, não se parece com muito. É uma mistura de tudo e não é nada. Os meus deixaram-me apenas a ausência de qualquer coisa que lá estava antes, deixando de estar. Ao mesmo tempo, há desapontamento, desorientação, desamparo, desequilíbrio, des-tudo. No apogeu dessa série de desapontamentos, pensei que talvez se pudessem comparar com um ovo: um ovo que andou a ser carregado por uma quantidade razoável de tempo, circulou por caminhos diversos, dum lado para o outro, passeou até por algumas mãos, depositaram-se expectativas naquele pequeno peso, mas alguém ou alguma circunstância fê-lo cair, apenas para se descobrir que, partido, não tinha nada lá dentro. 

 

E depois? Fica a casca, picada, pisada, incompleta, a desmanchar-se nas mãos de quem o tenha apanhado. 

Uma terra para gente mesmo muito rica

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Tenho andado a evitar politiquices aqui pelo blogue, mas há um tema actual que me mexe com os nervos e que eu também sinto necessidade de partilhar convosco, para que mais vozes se possam juntar e mais cabeças possam pensar. Vamos falar sobre o preço das rendas em Lisboa e arredores, vamos falar da impossibilidade de viver em Lisboa ou num raio de 50km, vamos falar sobre a eminência daquela voz que nos diz - a nós, gente miúda quase graúda que quer sair de casa dos papás - que nunca iremos passar da cepa torta, porque tudo aponta para que nunca tenhamos dinheiro para ir viver sozinhos, ou mesmo com as caras metades, ou amigos, ou sequer constituir família.

 

Porque isso, viver em Lisboa, em 2018, é só para ricos. Mas gente mesmo muito rica. 

 

Neste momento, é cada vez mais difícil para qualquer pessoa encontrar uma casa para arrendar em Lisboa e arredores. O preço das rendas (e dos imóveis para venda) é superior aos salários e reformas dos cidadãos, há até quem se veja despejado da casa onde morou toda a vida por causa da actualização do contrato (sempre com valores a apontar para cima) ou porque o proprietário quer vender. Poder ter um tecto em Lisboa é um luxo. 

 

Para alguém da minha geração, é impossível entrar no mercado imobiliário; para as restantes gerações, é impossível ficar. Mesmo com rendimentos superiores ao salário mínimo, com 1000€ ou 2000€...

 

Como é que alguém com um salário líquido de 1000€ consegue pagar um T0 a 500€ em Lisboa? Ou um T2 a 1300€? Ou um T3 a 2000€? Até no concelho onde eu resido, a 30km de Lisboa, um apartamento T2 custa 400€ e os preços têm estado a subir constantemente nos últimos dois anos, porque muitas famílias se têm mudado ainda mais para Sul desta Margem. Soma-se o passe combinado de transportes públicos, 100€, três horas na deslocação diária, e aí está a Matemática feita.

 

Por causa destas rendas ridículas - e rendimentos ainda mais incompatíveis com todo o cenário nacional - pessoas como eu e até as restantes pessoas que vivem comigo não conseguem deixar de viver todas num agregado familiar gigante e, apesar de unido, cheio de incompatibilidades que vão surgindo por causa dessa condição. Em alternativa, estamos condenados a ter roommates para sempre. 

 

E eu... 

Como todas as pessoas, quero ter um espaço só meu, sobre o qual se possa dizer que fui eu que conquistei. Pode não ser agora. Contudo, um dia, talvez daqui a um par de anos, cinco, aos trinta, aos trinta e cinco...

 

Se arrumei, arrumei; se desarrumei, desarrumado estará. Se cheguei tarde, seja. Cedo, ainda bem. Convidar alguém sem pedir licença, entrar e sair porque sim, gerir o que é mesmo meu.

 

Todos têm direito a ter um tecto sobre as suas cabeças, a formarem família, a tornarem-se independentes, a deixarem os pais gozar a sua própria independência depois duma vida a criarem-nos.

 

Nem sei porque me estou a justificar.

 

No outro dia, pensei "nunca vou conseguir sair daqui [da casa da minha família]". É triste, mas uma verdade que se aproxima a passos largos da minha vida. 

 

Quando é que esta bolha vai abrandar? Ou rebentar? 

 

E há quem ache mal a minha geração gostar de lanchar nos cafés da moda... é das únicas coisas que [ainda] nos resta! 

Desistir

Aprender a desistir não tem de ser negativo, repito.

 

Desisti outra vez. Desisti dum curso. Ao fim de quatro em seis aulas, fui para casa a pensar "o que é que me prende?". Quase nada, não sou obrigada a lá estar, já está pago e tiradas estão as teimas. Nada me prende, excepto... a perda eminente de face (sobretudo no confronto interior, não com os outros), os pensamentos constantes de que seria só mais uma semana, mais um bocadinho, e que depois me poderei arrepender, e se...

 

Ainda assim, ignorando a minha própria teimosia, desisti. Ultimamente, é isso que tenho aprendido a fazer, não de maneira consecutiva, mas sim produtiva. Desisti deste curso, porque os motivos para o fazer começaram a surgir-me com maior frequência e insistência do que os benefícios - tal como tem acontecido noutras dimensões desta minha vida.

 

Aprender a desistir não tem de ser negativo, repito.


Aprender a desistir não tem de ser negativo, porque não somos feitos de ferro, nem temos de gostar de tudo aquilo que fazemos, nem temos de ser felizes todo o dia, todos os dias, porque ao desistir de algo que nos envolve em amarras podemos ganhar tempo para desenvolver o que nos poderá apaixonar, inspirar e ser bem sucedidos. Poderemos dedicar-nos a outra coisa qualquer, nem que seja a pensar. Ou a descansar.

 

Desistir pode ser bom, pode ser um caminho que, não sendo fácil de tomar para quem está habituado a ser combativo, também poderá revelar-se necessário. Pode ser que crie espaço para caminhos ainda melhores. Pode ser...

 

(É como desistir dum livro que nos tenha desapontado, para poder escolher um outro do qual realmente tiremos proveito!)