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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

24/30 (ler é um dever humanista)

Ler é um dever humanista, disse Maria do Rosário Pedreira, nesta conversa com Francisco José Viegas. É uma afirmação com a qual não poderia concordar mais. Não querendo desapropriar a autora da afirmação, pus-me a pensar nela.

 

Para ganhar o hábito, nem sei se interessa o que se lê, nem onde, nem como, se é no telemóvel, se é no Kobo, se é no computador, se é em livro, jornais, revistas... Mas que se leia! E de forma ininterrupta. Sem ser só "as gordas", que de títulos, manchetes, sensacionalismos e click bait está o mundo cheio. A seguir - e para sempre - que se continue a cultivar o desafio, outras leituras, outras escolhas, outros horizontes.

 

Ler é um dever humanista, porque estar informado mas também saber pensar, seleccionar informação e desafiar o nosso ponto de vista é, acima de tudo, um dever cívico. Imaginar outras vidas, universos, ideias, crenças, ensaiar possibilidades e experiências... Tudo isto é um exercício de empatia. Ficção ou não, ler é um exercício que nos leva a praticar e a confrontar o diferente. Ler obriga-nos a uma dedicação de mais do que ínfimos segundos da nossa atenção plena. Obriga-nos a ler e reler, revisitar ideias, discuti-las mesmo que sozinhos, sem mais ninguém. Ensina-nos a reflectir, dando-nos algumas ferramentas que não obteríamos doutro modo. É uma forma de cuidar da mente, mas também das comunidades ou grupos a que pertencemos, e da sociedade - ainda que indirectamente. É uma forma de aprendizagem, para melhor ser, para melhor estar, para melhor fazer

 

Claro que não é garantido que quem lê mais há-de levar a cabo de forma muito melhor os seus deveres de cidadania. Ainda assim, ler é um bom ponto de partida.

23/30 (porque ouço podcasts, e que podcasts ouço)

Tenho saudades de ter aulas e de assistir a conversas ao vivo, então ouço podcasts. Ouço a voz doutras pessoas, as suas lições de vida mas também o que estudam, ou o que contam sobre experiências de trabalho. Ouço sobre os seus interesses, se são activistas e em quê, como fazem o que fazem, como vêem o mundo, o que andam a ler e a ver, que dúvidas e momentos de fraqueza e fracasso acumulam.

 

Tenho saudades de me sentar e de ouvir, ao vivo e a cores, então dei por mim à procura de podcasts, por vezes só episódios específicos, que tratem do que me interessa. Embora seja como pôr o penso numa ferida que não estanca, vou-me contentando. O Spotify, o Google Podcasts e outras plataformas de streaming ajudam na procura e no encontro entre ouvintes e o produto, seja ele uma entrevista, uma troca de ideias entre amigos, uma mesa redonda, um monólogo, uma reportagem, uma aula ou explicação...

 

Entre os meus temas favoritos, contam-se os livros, a literatura, a psicologia e o ensino de línguas. Com alguma frequência, também gosto de ouvir conversas em que participem pessoas que eu admire ou que aprecie simplesmente ouvir falar.

 

Além disso, dá muito jeito ter um entretenimento paralelo com caminhadas, exercício físico ou tarefas domésticas. Os podcasts fazem tudo isto parecer muito melhor.

 

Deixo-vos com uma lista de podcasts que vou ouvindo de forma mais assídua, em português e em inglês, sem nenhuma ordem particular excepto a da enumeração de cabeça:

  1. Meu Inconsciente Coletivo
  2. Louco Como Eu
  3. A Beleza das Pequenas Coisas
  4. The Happiness Lab
  5. The Journey Talks
  6. Interruptor
  7. Shut Up Brain
  8. Biblioteca de Bolso
  9. 45 Graus
  10. The Science of Happiness
  11. Botequim
  12. Good Life Project
  13. Before Breakfast
  14. Reset

22/30 (quando as palavras se esgotam)

Tenho tentado cumprir o desafio do texto diário, mas tem sido complicado. Entre enxaquecas, sinusite e alergias que me impedem de me concentrar, outros textos aos quais me ando a dedicar de forma mais urgente, fazer as tarefas que me competem em casa, e o trabalho e o mestrado que têm de ser as minhas actividades principais, poucas palavras restam para espremer.

 

No entanto, eu sei que é importante escrever um pouco todos os dias. Obrigar-me a escrever, ou adormecer a tentá-lo (o que já aconteceu) tem-me ajudado a levar a cabo o lema de que a persistência é o melhor caminho. Não há talento que subsista sem dedicação, atenção, tempo e pelo menos a promoção d oportunidade para criar. É importante sentarmo-nos para podermos dar prioridade ao que mais tencionamos valorizar. Afinal, sempre se disse que de boas intenções está o inferno cheio. Escritores que admiro repetem essa ideia: o que diferencia um escritor promissor no seu início de carreira, mas que acabou por não escrever grandes obras, de um escritor que conseguiu ao fim de um certo tempo estabelecer-se no meio pode ser, só e apenas, o segundo ter continuado a insistir até conseguir produzir o trabalho desejado, depois de se frustrar, de se sentir um impostor, de trabalhar noutras áreas e de ter investido tempo a praticar e a experimentar. Claro que há outras variantes a considerar (a sorte, a liberdade financeira e intelectual, as circunstâncias da vida em geral), mas é fácil concluir que escrever não é só chegar lá e já está.

 

Por isso, insistirei até chegar aos 30 textos diários, mesmo que não sejam consecutivos. Quando as palavras se esgotam, continuamos a escrever, nem que seja a última palavra conseguida. Pelo menos, foi isso que aprendi sobre a estratégia da escrita por fluxo de consciência. É continuar lá, marcar o ponto, até que a água da inspiração (e, acima de tudo, da perspiração) volte a jorrar.

21/30 (mentores e autobiografias)

Hoje, escrevo em continuação ao que escrevi anteontem antes de adormecer (e sim, sei bem que falhei um dia do desafio, mas aqui continuo, em direcção às trinta publicações prometidas).

 

Como rematei, não encontro mentores no mundo imediato ao meu, ou com quem possa ou me sinta à vontade para falar, mas encontro palavras: autobiografias, artigos, crónicas, ensaios, testemunhos. Ultimamente, sinto que me vão guiando, que me vão enchendo as medidas do necessário.

 

Os blogs funcionam mais ou menos assim, já agora. São espaços simultaneamente egocêntricos e de partilha, um espaço criado porque o "eu" tinha algo para dizer, mas com a condição de que haja alguém para ler. Procuramos a experiência de pessoas com quem temos, ou talvez com quem queiramos ter, algo em comum. Ou através das quais possamos viver por contágio escrito-lido.

 

E não, não precisamos de ter precisamente a mesma vida dos autores dos textos que lemos. Talvez procuremos apenas consolo, manuais de instruções para existências múltiplas e alheias, soluções imaginadas para um mundo de possibilidades imaginadas, formas de ser, estar e sentir que poderiam ser as nossas e que só não o são por acaso.

 

E se...? E caso..., será que...? O que diz o outro sobre si, que lá no fundo também poderia ser sobre mim?

20/30 (necessidade de mentores)

Quem trabalha numa empresa, organização ou carreira facilmente encontra mentores. É a impressão com que fico. Eu mesma encontrei na minha antiga chefe um exemplo a seguir, caso me tivesse continuado a identificar com a carreira académica naquele momento, e naquelas circunstâncias.

 

Ultimamente, sinto cada vez mais falta de encontrar uma figura que represente um modelo a seguir, alguém mais velho, uma espécie de autoridade, cuja vida profissional me inspire e sob a qual eu possa ir construindo a minha, com quem simultaneamente partilhe interesses e visões do mundo. Sim, eu sou um caso muito específico, o meu trabalho (e qual deles?) não é o mais comum de sempre, mas é mais difícil racionalizar um momento de dúvida acerca do caminho a seguir quando não se conhece ninguém que o tenha calcorreado antes. Como reagir, o que é normal, qual o próximo passo? Serão todas as vidas profissionais criativas diferentes e provocadoras de sentimentos de insegurança relacionados com a fraca identificação ou existência de pares directos?

 

Assim, vou encontrando vários mentores, que não são bem mentores, no sentido de serem pessoas que eu conheça na vida real e com quem possa discutir ideias, mas que são personalidades cujo trabalho respeito. Actualmente, por aproximação e uma certa alucinação, destaco escritores que tenho tentado conhecer melhor (destaco Ann Patchett, Alexander Chee, Susana Moreira Marques ou Tati Bernardi), ou profissionais doutras áreas, como do ensino ou da formação, uns mais anónimos do que outros, que me apresentam, mesmo sem quererem, possíveis trilhos a experimentar na minha longa jornada e princípios que orientaram as suas acções.

 

E precisaremos todos, afinal, desses mentores? Ou será a minha necessidade de me sentir profissionalmente compreendida fruto de um momento mais inquietante, de mudança, transição e questionamento inevitável? E mais: como e onde encontrá-los?

19/30 (blogs, livros e a liberdade de expressão)

Demoramos cinco minutos a criar um blog, talvez mais dez a escrever a primeira publicação. Podemos opinar, deitar cá para fora as nossas postas de pescada, bastando clicar no botão azul que permite que o nosso texto vá para o ar. Nas redes sociais, idem; aliás, nelas é ainda mais rápido e intuitivo escrever e dizer o que quisermos, mesmo quando ainda não pensámos muito no assunto, ou mesmo quando o que escrevemos ou dizemos não faz sentido, ou atenta contra alguém, ou quando não era bem aquilo que queríamos comunicar.

 

Assim é a liberdade de expressão em 2021, em Portugal. Qualquer pessoa dispõe de recursos, ferramentas e conhecimentos para, em curtos minutos, contar ao mundo o que lhe vai na mente. Desde o acesso universal à educação, até ao poder de nos fazermos ouvir quando, onde e como queremos, passando pela generalização do uso das tecnologias da informação, a liberdade é um dado adquirido.

 

Sabiam que, na Tailândia, o livro 1984 é proibido? Na altura em que vivi em Banguecoque, fui ver uma peça de teatro baseada na obra, e todos naquela sala, numa das melhores universidades do país, sabiam que faziam parte de um acto colectivo de rebelião contra as amarras da ditadura militar e da monarquia absoluta, inquestionável. Antes de entrarmos, apontava-se e murmurava-se para um jovem. "Ele já foi preso por ter ido ler passagens do 1984 para a porta da Embaixada dos Estados Unidos".

 

A certa altura, não sei se antes ou depois de ir ver essa peça encenada por alunos da Universidade Chulalongkorn, comprei o 1984 para o ler pela primeira vez, encontrado na minha livraria de eleição, de livros usados em inglês, a Dasa Books, na avenida Sukhumvit. Eu sabia que, sendo estrangeira, esse estatuto poderia beneficiar-me ou, infelizmente, colocar-me em maior perigo se fosse apanhada com o livro nas mãos. Decidi não arriscar, e envolvi a capa em papel branco.

 

Em Portugal, antes do 25 de Abril de 1974, seria impossível ter um blog livre, que não fosse detalhadamente escrutinado (se os houvesse, é claro), tal como seria impossível ler qualquer livro que se quisesse (se se soubesse ler e escrever), ou obtê-lo ou trazê-lo para Portugal, tal como na Tailândia, em 2017. A minha avó conta-me que o meu avô ia à Livraria Barata comprar livros proibidos, por exemplo. Já se imaginaram a viver num mundo em que há leituras e obras proibidas e censuradas? Eu não.

 

Quando alguém recusa ou desvaloriza a importância de vivermos em democracia em Portugal, é impossível não sentir a profunda injustiça dessa sua tomada de posição. Eu, mulher, que nasci num país em paz, que não dependo do poder patriarcal para sobreviver e tomar as decisões da minha vida, que jamais vi o que escrevo, digo ou crio censurado, que nunca me senti perseguida por ter opiniões (sejam elas mais ou menos acertadas, mais ou menos reflectidas), sinto-me privilegiada. Escrevo e estudo sobre o que quero e me apetece, vivo com um homem com quem não estou casada, beijo em público, dou a mão em público, sinto-me livre e os meus actos, se não lesarem ou magoarem ninguém, podem mesmo nem sequer ter quaisquer consequências. O mesmo não puderam dizer mulheres como as Três Marias, e mesmo a minha avó ou a minha bisavó.

 

Quem viveu a ditadura e o 25 de Abril está a envelhecer. A cada nova celebração do Dia da Liberdade, temos cada vez menos testemunhos na primeira pessoa prontos a refrescarem-nos a memória. Dentro de duas gerações, os pais e os avós dos filhos da madrugada (pegando na canção de Zeca Afonso ou no título do programa de Anabela Mota Ribeiro) não estarão cá para contar que Portugal era esse. Pode tornar-se cada vez mais difícil recordar como era viver no nosso país antes de 1974, ou acreditar que vivemos realmente num país melhor. A memória pode atraiçoar, o enviesamento é inevitável. Resta-nos cuidar do legado e preservar o que for possível da memória de grande parte do século XX, ainda tão recente, mas mais distante a cada dia que passa.

 

Não, a democracia como a conhecemos hoje não é perfeita, longe disso. Muitas desigualdades continuam a existir, tal como corrupção, pobreza, desemprego, desespero, falta de oportunidades. Mesmo assim, não tenhamos ilusões: a vida é melhor agora do que há 47 anos. Tratemos de acrescentar qualquer coisa, dentro das nossas possibilidades, a essa liberdade que outras gerações não tiveram.

18/30 (escrever sobre as falhas)

Se há algo que tenho aprendido ultimamente sobre a escrita, isso será sem dúvida que o mais difícil de escrever é aquilo que mais tem de ser escrito.

 

As palavras não são presas fáceis. Devemos saber manipulá-las, chamá-las à nossa teia, enredá-las em relações inesperadas e mesmo forçadas. Aquilo que mais sinto necessidade de escrever é aquilo que não sai. Talvez não saia porque, inconscientemente, eu sei que será doloroso ler o que está na folha, será um confronto com a minha imperfeição e a imperfeição do meu pensamento, mas principalmente com a imperfeição do mundo que eu ainda não consigo comunicar.

 

Sobre o que queres escrever, Beatriz? Quero escrever sobre as falhas. Todos nós temos falhas, somos resultados de falhas e não temos outra hipótese senão ir navegando todo o falhanço que nos rodeia. Penso que é para isso que a literatura serve, para deixar um registo do que mais nos incomoda, assim como aquilo que, por contraste, mais desejamos.

 

Catarse. Escritores e leitores procuram a libertação através da explicação da ordem do mundo, esse mundo cheio de falhas e, por isso, todo ele imperfeito. É impressão minha, ou os escritores procuram, com os recursos que têm ao dispor, racionalizar o que é irracional?

 

É por isso que me custa tanto escrever. Eu tenho muito medo de encarar a falha, quer a que materializo, quer a que fica por materializar. No fundo, eu sei que faço parte e que quero contribuir activamente para um processo que nunca terá fim, quiçá anti-catárctico.

17/30 (se me tivessem dito)

Se me tivessem dito o quão difícil seria, eu nunca teria saído do meu lugar. Se me tivessem dito o quão doloroso seria, eu teria antes continuado a minha vida de todos os dias, uma vida com certeza mais pacata e facilitada. Se me tivessem dito o quanto eu me iria arrepender (para no segundo seguinte só ter espaço para me orgulhar dos meus feitos), eu jamais escolheria cegamente continuar a estudar enquanto trabalho, pelo quase oitavo ano consecutivo.

 

Não sei o que é a vida sem trabalhar e estudar ao mesmo tempo. No máximo, talvez tenha passado seis meses sem o fazer em simultâneo, desde os 18 anos. O que é meio ano, principalmente quando se sabe que é apenas um interregno, umas pequenas férias de fazer imenso, fazendo só muito?

 

Se me tivessem dito o quanto me custa não poder terminar o dia de trabalho e ir fazer o que quer que me apeteça, eu nunca teria decidido ir avante com o primeiro mestrado, aulas ao Sábado e ao Domingo, e a ter por vezes jornadas de 9 horas de aulas para dar nos dias úteis. Mas ninguém me disse, e foi assim que me transformei de estudante-trabalhadora em trabalhadora-estudante. Depois disso, nunca mais parei, antes pelo contrário. Acumulei sempre o trabalho e os estudos pós-graduados, ora mestrados ora uma pós-graduação, e também formação profissional. E tantas outras coisas, que o povo pode chamar de "sarna para me coçar". De qualquer forma, há qualquer coisa assustadora na adrenalina obtida que me obriga a realizar matrículas ano após ano.

 

Fico tão contente quando me aceitam e quando me lançam notas e emitem diplomas, mesmo quando desespero em noites de sexta-feira, achando que não deveria estar a ler sobre teoria da literatura, mas sim a ler outra qualquer literatura numa ocasião como esta. E, antes de adormecer, confirmo: eu gosto mesmo disto, não gosto? Disto que é estar sempre a aprender estruturadamente, de saber que tudo o que sei é imperfeito, e que consigo passar a ser e pensar melhor se a tal me propuser.

 

Se me tivessem dito que aqui continuo, não acho que fosse acreditar. Ainda assim, assim é. Lá vou eu atrás da cenoura da minha montada. Nesta etapa, já não consigo parar a corrida.

16/30 (detesto chuva)

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Eu detesto chuva e sinto o desconforto que a humidade me traz fisicamente. Há uns anos, sempre que a humidade aumentava, mesmo que ainda não estivesse a chover, eu ficava com umas dores de cabeça que apareciam de surpresa, até eu ter percebido o que se passava e passar a estar psicologicamente preparada para a depressão externa e interna.

 

Por isso, estou a detestar estas semanas, ainda por cima semanas em que não me faltam actividades nas quais deveria estar a ocupar a cabeça. Já não sofro com as tais dores de cabeça, mas fico desprovida da quantidade mínima de energia para conseguir pensar. Aliás, estou a escrever este texto em cima da hora, isto é, pouco antes da meia noite. Não sei se já notaram, mas já falhei um dos dias do desafio, então acho que pode compensar escrever qualquer coisa hoje, só para não perder o ritmo (um dos princípios que James Clear defende no seu livro Hábitos Atómicos é não deixar de praticar o "show up").

 

Tem estado a chover, e a chuva deixa-me ainda mais exausta, ansiosa e deprimida. Não admira que, quando eu morava em Banguecoque, estivesse muitas vezes a sentir-me eu mesma na sarjeta, apesar de me ter habituado um pouco. Será comum, esta sensação de impotência ou cansaço associados aos fenómenos meteorológicos?

 

Curiosamente, a minha cidade favorita é capaz de ser Edimburgo, onde chove bastante e faz frio, mas quando chove e faz frio enquanto estou em Edimburgo, eu gosto. Acho encantador. Inspirador. Acolhedor. Mal posso esperar por lá poder voltar, assim que seja seguro viajar só porque sim. Quero conhecer mais sítios na Escócia, mesmo que esteja a cair um dilúvio.

 

Por agora, no Alentejo, quero o sol quente de volta. Preciso de escrever e de trabalhar nos próximos dias e não me posso dar ao luxo de aturar a escuridão e estas cores horríveis no horizonte.

 

Na foto: eu a apanhar chuva na Escócia, em Maio de 2018, e a achar muito bonito e pitoresco.

14/30 (ainda a saúde mental)

Este texto é uma continuação do anterior, porque há tanto para dizer sobre a desvalorização da saúde mental! Em primeiro lugar, não preciso de relembrar números, mas deixo-vos alguns aqui de qualquer forma. E aqui também.

 

Acima de tudo, apareço hoje para vos relembrar que a saúde mental não é uma certeza para todos e, por arrasto, da importância de cuidarmos de nós e de acreditarmos que o que sentimos é legítimo, mesmo quando a sociedade e mesmo quando as pessoas que nos são mais próximas descredibilizam ou menosprezam o que é uma simples "ansiedade" ou "angústia". Neste texto, também quero expressar um agradecimento a todas as pessoas que têm sido generosas com o que escrevo, em particular com o número 13. Muito obrigada.

 

O acesso aos cuidados de saúde mental é nulo no SNS (do qual sou apoiante indiscutível, o que não me impede de lhe apontar falhas). O mais próximo que tive de apoio psicológico pelo SNS foi algumas consultas na clínica da Universidade de Lisboa, com preço mais baixo por ser alumna da FLUL, depois de me terem submetido a um teste de diagnóstico para ver se podia entrar para a lista de espera prioritária, na qual não entrei - até ter enviado um e-mail a suplicar à psicóloga que me desse consultas, à conta de um evento específico que me deixou de rastos nessa altura. (E não, a profissional que me seguiu não me ajudou em quase nada. E eu não podia escolher quem me seguia.)

 

Por isso, todas as semanas pago 60€ para ter consultas de psicoterapia com uma psicóloga maravilhosa, com clínica privada, desde Junho do ano passado. É este o preço de alguma clareza, entendimento, auto-conhecimento, auto-cuidado, equilíbrio. Vale cada cêntimo, mas sou uma privilegiada, porque ainda posso escolher pagar. Não tenho mais nenhum luxo, corto noutras despesas para pagar a psicoterapia, vou tendo ajuda da família, mas não há dúvida de que eu pago por algo que deveria ser de acesso universal e gratuito, ou pelo menos subsidiado.

 

Este é um dos primeiros indícios de que a saúde mental é extremamente desvalorizada em Portugal. Quando temos uma gripe, podemos ir ao centro de saúde ou ao hospital e queixar-nos. Somos tratados, dão-nos medicação e conselhos sobre como ficar melhor. Se trabalharmos, dão-nos baixa para apresentar ao empregador. Quando temos uma crise de ansiedade, ou pânico, ou tudo junto... há médicos que não só não têm formação para lidar com a situação, como nem sequer têm bom senso, nem tacto. Nem o SNS tem meios para nos ajudar. É preciso mostrarmos que estamos profundamente deprimidos, basicamente que somos um perigo para nós mesmos ou para os outros, para que façam algo. Senão, dir-nos-ão que somos jovens/saudáveis/sortudos/mal-agradecidos.

 

Eu tenho muita sorte, muita, muita... imensa. Tenho uma pós-graduação num ramo da Psicologia, sei onde encontrar informação, tenho meios e recursos materiais e imateriais para me ir acalmando e ter sempre a certeza de que saúde mental é saúde. Tenho acesso a profissionais que me ajudam. O João é médico e, além disso, fui muito bem tratada no centro de saúde da nossa zona de residência - antes e depois. Não fui totalmente descredibilizada, tenho quem olhe por mim. Mas e as pessoas que não têm esta rede de apoio? E o privilégio que eu tenho por poder, com mais ou menos sacrifício, """esbanjar""" em cuidados de saúde mental?

 

Apesar de tudo isto, sou optimista. O médico sobre quem escrevi ontem é doutra geração. Estamos em tempo de pandemia e ele disse-me que estava a fazer turnos de 24 horas por esses dias. Talvez, noutro contexto, com médicos mais novos, o tratamento - ou o trato - seja outro. Por exemplo, eu sei que o João jamais desvalorizaria um paciente que lhe chegasse à consulta como eu cheguei. Eu sei que ele vai ser - e já é - um excelente médico de família, verdadeiramente atento a todas as queixas, desde a dor no mindinho até à crise de pânico espontânea. O paradigma vai ter de mudar, neste que já é descrito como um "século da saúde mental".

 

Seja como for, aproveito para abrir, como sempre, a minha caixa de comentários, e mesmo o meu e-mail e redes sociais a quem precise ou apenas queira partilhar experiências ou ideias. Estamos todos a passar por tempos muito estranhos, não vai ficar tudo bem, mas resta-nos cuidar de quem pudermos - a começar por nós e pelos que nos rodeiam.

 

Por fim, mais um lembrete: o facto de sentirmos a nossa saúde mental fragilizada não significa que estejamos maluquinhos. Ter ansiedade não é um traço de personalidade. Mas não estarmos sempre a 100% e queixarmo-nos de dias maus não é birra. Não é normal aceitar sintomas de mal-estar psicológico como uma coisa menos séria. E não é vergonha pedir ajuda!

 

Mais outra nota: há linhas telefónicas e entidades que prestam apoio psicológico cujos contactos devem procurar. Principalmente durante a pandemia, câmaras, juntas de freguesia e universidades têm disponibilizado ajuda. Alguns desses contactos estão aqui. Se tiverem conhecimento de mais, partilhem nos comentários.