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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és!

Nos últimos meses, tenho sentido e dado cada vez mais valor a esta expressão tão popular: diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és! Apesar de ser inútil querermos ser iguaizinhos a alguém, quer física, quer psicologicamente, acredito que as pessoas com quem nos relacionamos - e de quem, idealmente, escolhemos rodear-nos - tem muita influência na forma como pensamos e agimos.


Acho que, em primeiro lugar, é indispensável encontrarmos quem nos sirva de exemplo a seguir. Estar com quem me mostre "como se faz" é meio caminho para me sentir mais motivada a ser e a fazer melhor. Não tenho de procurar sempre alguém para admirar fora do meu alcance imediato, por contar com modelos próximos e que, não sendo os mais ricos, reconhecidos ou irrepreensíveis, me permitem vê-los a uma escala mais humana e real. Em suma, vejo nos meus amigos uma fonte de inspiração e também de apoio - o que me leva ao segundo ponto.


Partilhar interesses, áreas de estudo, ambições, estilos de vida e/ou visões sobre a vida em geral com quem me rodeia é um consolo por poder sentir que não estou sozinha, mesmo à distância. Claro que devemos constituir uma dose saudável de desafio uns para os outros - não é só acenarmos sempre que sim e concordarmos -, mas, no meio de tanta confusão, ansiedade e receio do desconhecido que enfrentamos no dia-a-dia, é indispensável poder contar com alguns focos de apoio e conforto.


Além disto tudo, a positividade que as relações interpessoais me trazem é a garantia de que podemos juntar todos os nossos dias negativos e torná-los suportáveis, quiçá dar-lhes sentido. Sinto que os meus amigos são, neste momento, a família que eu vou escolhendo. No entanto, também a minha família nuclear se insere neste contexto. São pessoas generosas, preocupadas e doces, mas também são, cada um à sua maneira, pessoas lutadoras, a quem a vida nem sempre é facilitada, mas que insistem em fazer e ser melhores sempre que possível.


Escrevo este texto porque tanto eu quanto todas estas pessoas à minha volta estão a passar por fases pessoais, académicas e profissionais particularmente turbulentas. Há quem esteja a começar a carreira, há quem a esteja a tentar consolidar ou a apostar numa nova. Há quem esteja a criar e há quem esteja a refazer a sua vida, há quem precise de qualquer coisa mais. Cada um de nós em áreas diferentes, acabamos por partilhar o facto de andarmos a saltar obstáculos relativamente novos.


Escrevi no início do texto "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és". No entanto, não sei se sou igual às pessoas com quem ando, mas posso tentar olhar para cima e tentar lá chegar. Não desfazendo nas minhas próprias qualidades, admiro-os bastante. Consigo ver-lhes os defeitos, mas também tantas qualidades que também espero ter e poder oferecer-lhes.


No meio disto tudo, fica a gratidão por saber que estamos a navegar em barcos tão distintos e tão iguais e, ainda assim, nos vejo disponíveis para os outros. Às vezes são almoços ou lanches de meia hora, jantares tardios encaixados em fins de dia caóticos ou uma mensagem desirmanada. Enfim, continuamos por aqui.


E que, depois da tempestade, venha a bonança. Ou, pelo menos, o descanso merecido e a recompensa justa.

Emprestar livros: uma reflexão simpática

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Nunca gostei de emprestar livros quando era pequena. Ao crescer, descobri que me sentia assim, porque o empréstimo era sempre pouco recíproco, emprestar sem o outro retirar prazer da leitura, emprestar só porque sim, para ser simpático. Mais tarde, percebi que emprestar pode ser uma experiência enriquecedora, pelo prazer partilhado, ao dar a ler e ao ler aqueles livros não só saboreando a mera descoberta do que alguém escreveu, mas também do que aquela pessoa que conhecemos leu - o que terá pensado?, o que terá sentido?, o que terá motivado a vontade de adquirir e ler as páginas por onde vamos igualmente passando?

 

Aprecio em particular o empréstimo que não pedimos, mas sim que é sugerido do outro lado. "Lê, acho que vais gostar. Eu, pelo menos, gostei muito." Ficamos a imaginar o que terá motivado aquela opinião, qual a parte favorita, ou o que terão pensado que poderíamos também vir a gostar.

 

Recentemente, olhei para a pilha de livros que me têm emprestado, isto é, que tenho por devolver. Parece que nunca mais acaba, mas lá chegaremos, um a um. Talvez eu nem acabe por ler todos, talvez alguns me aborreçam ou me desiludam. No entanto, senti-me bastante satisfeita, feliz, por relembrar que a dita pilha de livros é um sinal de confiança e da tal partilha. De forma semelhante, também eu empresto os meus. Emprestar livros entre amigos e entre quem conhecemos bem é o melhor, porque podemos aconselhar de acordo com o que achamos que eles precisam e preferem ler. Recentemente, emprestei um livro muito especial para mim a uma amiga que, mal lhe pousou nas mãos, encheu-o de rabiscos, dobras e sublinhados. De tanto a ter marcado, ainda foi re-emprestado a uma terceira pessoa.

 

Aquele livro nunca mais será meu outra vez, pelo menos aquele exemplar. Se o contexto fosse outro, teria ficado bastante arreliada por me vandalizarem um livro que me pertence - ainda por cima, sem licença! Mas a alegria da minha amiga ao lê-lo foi de tal forma significativa, que eu nem quis saber. Só me queixo por gozo, pela troça.

 

Viva os livros emprestados! E os emprestadados também!

Na foto estão oito, entretanto a pilha reduziu para sete. 

Indo eu, indo eu... a caminho do segundo trimestre de 2019

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O segundo trimestre de 2019 começou hoje e eu já sei que vai ter de abarcar muita aventura. É como uma mala de viagem: no início não sabemos como, mas no final tem de caber tudo. Tanta coisa parece estar para acontecer ainda antes de o Verão chegar... Por exemplo - e entre outras mil coisas já na lista - hoje mudei-me para um espaço de co-working e foi o primeiro dia em que levei isto do trabalho por conta própria a 100%. Apesar de já o fazer informalmente há um ano, só nos últimos tempos é que tenho pensado em estratégias a médio e longo prazo para levar um negócio meu a bom porto. Tem de dar para mais do que pagar as propinas e a gasolina. Sinto que assumi um compromisso. Então, mas não sou eu a procrastinadora de serviço? Já dizia em 2014 que procrastino tarefas importantes com outras recém-criadas, uma prática obviamente saudável. Ainda em fase de experiências, estou optimista. No entanto, por hoje ter sido "este primeiro dia", parece que ainda nem é real. Ainda não tive oportunidade de assimilar esta pequena, grande alteração na minha forma de estar e pensar, mas lá chegarei.

 

Há cerca de duas semanas, também comecei a escrever no Ano 13. Não sei se é blog, se é site, se é ideia empreendedora ou lá o que os meus professores do mestrado lhe chamariam, mas sei que é algo que me tem feito repensar no que faço pessoal, profissional e academicamente. Ainda está muito incompleto, mas não me importo se lhe derem uma vista de olhos. Que tal?

 

E, depois, todo o buliço do mestrado, estágio, tese ou relatório. Novas ideias todos os dias, mais livros e artigos para ler, autores para descobrir. Entro em qualquer livraria, online ou física, e apetece-me encomendar ou trazer de lá metade da loja. Trabalhos para aqui, apresentações para acolá, e este semestre quase todos os seminários são sobre empreendedorismo e gestão e tudo parece feito para nos levar ao limite do entusiasmo, e eu sinto-me realmente entusiasmada, mas só espero ter energia, e estofo, e fôlego para tanta criatividade, e inovação, e ideias para (mais) negócios, e houvesse mais dinheiro, e horas em cada dia, e vontade de explodir, e vocês haviam de ver se eu não passava tudo do papel para a vida real.

 

Então, como podem verificar por este relato aproximado e apressado, ando um pouco ocupada e muito calma - maaaaas... nunca o suficiente para não tirar um curso em Stress e Relaxamento em Contexto Escolar. AH AH AH! Como diz a minha psicóloga (ou será que fui eu que pensei? ou ambas?), é fácil falar e dizer aos outros o que fazer; mais difícil é fazê-lo nós mesmos. Viva o desafio do que é humanamente possível!

 

O primeiro trimestre de 2019 já se passou. Também não sei como, mas acho que é um sentimento partilhado por algumas pessoas à minha volta. Não dei por nada, os dias correram. Será que o mesmo vai acontecer com os próximos meses? Quantas mudanças cabem em três meses, cerca de 90 dias? Quantas decisões importantes? Quantos compromissos inaugurados? Quantas oportunidades para alterar o curso dos eventos actuais? 

 

Vou dando notícias. Entretanto, se precisarem de aulas de Português ou Inglês em Lisboa, lembrem-se de que eu sou professora dessas línguas e que o meu escritório fica bem no centro da cidade, a cinco minutos de duas estações de Metro. Faço atenções aos leitores procrastinadores, sem códigos de desconto internéticos e tudo.

Creative Mornings Lisboa: uma experiência enriquecedora, desafiante e... criativa

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Há cerca de um mês, escrevi sobre o quanto tinha gostado de ir ao evento das Creative Mornings em Lisboa. No culminar de algum mal-estar pessoal, acerca do que eu achava ser parte da minha personalidade não se andar a revelar, sobre o desconforto de interagir com outras pessoas e de me sentir anormalmente desconfortável em situações sociais, decidi confrontar-me com uma situação nova. Apesar de já frequentar os clubes de leitura, a minha vida social além do contacto com os mesmos amigos, namorado e família costuma ser quase inexistente, por isso talvez fizesse sentido pôr-me outra vez "lá fora".

 

Ainda bem que o fiz e gostei tanto de ir às Creative Mornings, de ter conhecido mais pessoas e de me ter obrigado a desatar a língua, que esta sexta-feira acabei a repetir a experiência. 

 

Para quem não conhece, as Creative Mornings são eventos organizados por voluntários em várias cidades do mundo (e que começaram em Nova Iorque), com o objetivo de reunir uma comunidade internacional (vá, inter-tudo) de indivíduos interessados em partilhar as suas experiências pessoais e profissionais, enquanto ouvem a história de oradores convidados e, de preferência, comem um bom pequeno-almoço. Cada grupo de voluntários, em cada cidade, organiza o evento da forma que melhor lhe parecer, mas normalmente deve haver oportunidade para que os participantes se conheçam e, quiçá, partam para conversas construtivas.

 

Não serei a pessoa mais informada sobre o panorama mundial do assunto, mas não posso deixar de recomendar que, se procuram refrescar as vossas ideias, desafiarem a vossa timidez e conhecerem quem possa partilhar interesses e ideias convosco, experimentem aparecer na próxima manhã criativa que houver em Lisboa (estejam atentos ao Facebook).

 

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No encontro do mês passado (que, na verdade já foi no dia 1 de Março), a convidada foi a Rita da Nova. Este mês foi a Kaya-Line Knust, que eu não conhecia, nem a sua marca Stop The Water While Using Me, mas que contou imensas coisas giras sobre como criar marcas e produtos que façam sentido para os empreendedores. Todos os meses há um tema diferente, por isso é possível aprender sempre com os convidados.

 

Ficando a sugestão, espero que seja útil para quem também precisa de mudar de ares por umas horas!

Como concretizar todas as ideias que nos aterram na cabeça?

Ultimamente, parece que a minha cabeça anda a mil. Se de vez em quando lá vêm dias em que nem me apetece levantar da cama, noutros nem consigo adormecer, tal é o ruído cerebral gerado pela combustão de ideias, projetos, questões por resolver - e obviamente que toda a gente concorda que as 3 da manhã são as novas 4 da tarde para quem se vê consumido por tal trabalho mental, tardio e temporariamente despropositado, ainda que sempre bem-vindo.

 

Estava eu a dizer que isto me tem acontecido ultimamente. De repente, parece que há tanto por fazer no mundo, e por que raio não hei-de ser eu a fazê-lo, entre tantos biliões de gente? Claro que não sonho em ser eu a erradicar a fome mundial, nem a encontrar cura para o cancro, mas, dentro do meu expectro de conhecimentos e acção, parece que a minha irmã gémea hiperactiva tomou conta das minhas vontades e me quer puxar para todo o lado a fazer dezenas de coisas ao mesmo tempo (infelizmente, ainda não se estendeu ao trabalho semestral que tenho de entregar até ao próximo fim-de-semana, mas até lá não perderei a fé de que irei ser socorrida pela urgência do prazo; também é pena esta irmã gémea ter semelhante preguiça de ir ao ginásio, o que até se justifica, porque parece andar demasiado ocupada a apagar fogos bem longe da mencionada infraestrutura).

 

E como concretizar todas as ideias que nos aterram na cabeça? Isso é que eu adorava saber, pelo menos enquanto as que tenho agora não são vorazmente substituídas por outras.

 

Por hoje é só isto, que tenho de ir dormir. No entanto, se não tivesse de o fazer, tenho a certeza de que este texto se alongaria em longas e filosóficas reflexões. Será dos pólens? Fiquem por aí para o próximo, aposto que não tardará.

Escrever, pôr tudo cá fora: Bullet Journal, journalling, to-do lists e outros estrangeirismos de caneta no papel

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Tenho blocos de notas e ideias desde o primeiro ou segundo ano da faculdade. Ao longo dos anos, fui escrevendo maioritariamente listas de tarefas, pensamentos súbitos, algo de importante que me dissessem, partes de livros que achasse conterem ensinamentos para a vida (a certo ponto, tive a sensação de que teria de copiar todo The Four Loves de C. S. Lewis...). A Inês também desde cedo percebeu o quanto eu comecei a gostar de blocos e bloquinhos, então num Natal ofereceu-me um bloco com uma encadernação tão amorosa que ainda hoje se encontra em branco (tenho pena de o conspurcar com a mundanidade da minha caligrafia desnivelada) e, o que despoletou uma nova mania nos hábitos de escrita, uma caneta Sheaffer que me acompanhou durante dois anos até ter ficado sem tinta e eu me ter conformado à preguiça e esquecimento de comprar uma nova recarga (nota mental: fazê-lo hoje, por fim).


No entanto, perdi um pouco desse hábito quando comecei a viver sozinha e ao mudar-me para o outro lado do mundo. As rotinas ficaram todas trocadas, graças a esse maravilhoso fenómeno de brincar aos adultos e tentar perceber as regras do jogo. Comecei a escrever cada vez menos, até no blog, e a perder pensamentos pelo caminho, sem os anotar e organizar. Não me saía nada, não tinha sequer concentração, apesar de continuar a comprar cadernos, blocos e canetas de forma praticamente compulsiva. Ainda me pergunto de vez em quando se não terá sido essa uma das falhas logísticas que contribuíram para o meu mal-estar. Quem sabe?! No final de 2017, antes de regressar a Portugal, recomecei a escrever, mas em poucos meses essa vontade readquirida voltou a extinguir-se quando a materialização de pensamentos no papel insistia em relembrar-me o quão triste algumas coisas me deixavam e eu preferia não lidar com elas.


Assim, passadas essas fases em que o papel e canetas ficaram arrumados, foi no final de 2018 que recomecei a escrever mais consistentemente à mão e a ter sempre um bloco ou caderno por perto, por influência da ideia do Bullet Journal, o qual conheci através do livro homónimo sobre o sistema.


Apesar de não ter adoptado à risca o sistema original de Bullet Journal, comecei a criar as minhas próprias "colecções" ou secções temáticas. Em primeiro lugar, voltei a escrever e a vigiar listas de tarefas, objectivos e eventos. Três meses mais tarde, também tenho criado repositórios de ideias para projectos pessoais, para o blog e, a pouco e pouco, tento cultivar o hábito de escrever em forma de diário, o que hoje chamam journalling, cujas técnicas mais criativas ainda estou para aprender.


Diz que faz bem à cabeça registar por escrito o que só causa ruído e ocupa espaço desnecessário na memória de trabalho. Diz que faz bem ao coração para diminuir a ansiedade, ganhar distância e, consequentemente, objectividade. Por exemplo, foi-me recomendado pela psicóloga que me começou a seguir fazer listas e mais listas e também um "mapa de emoções", onde registe e me confronte com o que precisa de ser destrinçado, para analisar comportamentos, pensamentos, sentimentos e procurar-lhes padrões e novidades.


É como nas sopas que a minha avó faz: vai tudo lá para dentro, sem receita, é o que houver na altura, o que estiver à mão. Assim escrevo eu no bloco actual. O que interessa é fazê-lo. 

 

***

 

Nota: ao escrever este texto, comecei a procurar outros que ilustram as situações referidas, e é incrível relembrar a longevidade deste blog, o que me levou tão longe quanto 2012 nas minhas recordações, quando parece que escrevi tudo anteontem. Um cliché blogosférico, é o que vos digo!

Sobre quem conversa e quer conversar

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Hoje, desmantelei um dos meus receios. 

 

Não me considero uma pessoa tímida, antes pelo contrário, mas ultimamente tenho sentido muita dificuldade em travar conversas com desconhecidos. Acho que esta fase começou com a entrada no mestrado: tentei falar com alguns dos meus colegas, conhecê-los melhor, mas não sou de insistir, então também perdi motivação para iniciar contactos. Motivação e confiança, na verdade.


Então, esse desconforto começou a transbordar para outros contextos. Passei a sentir que, ao falar com pessoas novas, ao falar-lhes do que conheço, faço e penso, estaria a maçá-las. Por isso é que escrever aqui se tornou, mais do que nunca nos últimos três ou quatro anos, um escape para organizar ideias e comunicá-las sem ter medo de estar a importunar; afinal, quem lê o que escrevo fá-lo porque, à partida, tem essa intenção.


Note-se que eu nunca senti este pudor, que me é tão estranho e fez parte da minha perda de autoconfiança recente. Eu gosto de falar, daí gostar de ser professora. Gosto de estar com pessoas, não costumo ter fobias sociais. Não faz sentido ter vergonha de iniciar conversas, na forma como leio a minha narrativa pessoal. Talvez eu tenha mudado e já não possa definir-me da mesma forma. Talvez já não seja tão extrovertida quanto imagino. Ou talvez seja, mais uma vez, uma fase.


Dito isto, tenho tentado expor-me outra vez a situações em que seja obrigada a falar com mais gente e conhecê-las pela primeira vez. Se o músculo social existir, há que exercitá-lo. Se essa veia da extroversão existir, há que bombear sangue para lá.


Sendo assim, depois dalgumas tentativas nos últimos meses (como ir aos clubes de leitura), hoje, nas Creative Mornings, voltei a sentir prazer em conhecer e interagir com desconhecidos. A oportunidade de exposição ao julgamento alheio não me deixou ansiosa. Deixou-me extenuada, mas feliz e, de facto, criativa.


Nem sequer aconteceu nada de especial no evento, pelo menos nada que não fosse previsto. No entanto, desta vez, não me senti censurada ou vulnerável. Senti-me parte de qualquer coisa. Não forcei a conversa com ninguém. As pessoas vieram ter comigo, na maior parte das vezes. Quiseram-me falar dos seus projectos e ideias, perguntaram pelos meus. Não houve nenhuma voz a sussurrar "por que haveriam os outros de te querer ouvir?".


Foi libertador voltar a sentir-me - e a ver-me - assim. É quase como rever uma amiga antiga com quem tivesse perdido contacto. Gosto disto, de não ter receio de, simplesmente, estar.

Falar outra língua

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Em Banguecoque, comecei a dar aulas ocasionais de Português a estrangeiros, nomeadamente a quem era casado com portugueses, o que tenho feito desde então. Precisam de quem fale com eles, de quem lhes explique como funciona a nossa língua. E eu sempre muito intrigada por que raio não eram os respectivos que lha ensinavam, por que insistiam em fazer do inglês a única língua em comum, quando obviamente poderiam começar a introduzir outra na vida a dois, de forma tão natural!


Isto era o que eu pensava. Depois, conheci o Rui. O Rui é português, felizmente temos isso a nosso favor, mas gosta de futebol, que é um idioma que eu nunca dominei, nem para salvar a vida.


Os meus alunos costumam dizer que os namorados e maridos nunca arranjam tempo para lhes ensinar nada. Eu argumentava que, algures no futuro, eles haveriam de ter filhos e falariam uma língua que não iria ser compreendida por todos, deixando sempre alguém em desvantagem. Que é bom saber a língua materna do respectivo para conseguir falar também com a família dele. Que é todo um mundo de vantagens que já lhes poderia ter sido apresentado.


Agora sou eu quem está desse lado ingrato do processo de comunicação.


Já pedi ao Rui que me ensinasse o que se passa num jogo. Ele diz que eu podia estudar sozinha. Já pedi que me levasse a ver um jogo. Ele diz que sim, que me leva, mas que não vou perceber nada, porque não há comentário como na televisão.


Depois, também sinto esta incompreensão: como é que uma multidão se pode interessar tanto por uma bola, de forma tão apaixonada? Não domino essa cultura, que me trava de entender toda a abrangência da língua correspondente. Vejo os outros vibrarem com os jogos e sim, eu também consigo vibrar com algumas coisas, mas há muito que me passa ao lado num relvado. 


Agora, sei o que é não partilhar uma língua e a outra parte achar que é mais fácil falar uma língua comum do que introduzir uma nova (futebolês, portanto). É uma posição muito ingrata, já que nenhum dos meus amigos ou familiares me pode ajudar. Talvez tenha mesmo de me tornar uma autodidata nesta nova matéria.

Não terminar livros

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Não terminar um livro nunca foi um problema para mim. Sempre senti que, se tinha de parar a leitura por não me interessar, "das três uma":

 

... ou teria de lá voltar mais tarde por não ser a melhor altura para o apreciar devidamente (como n'As Memórias de Adriano, falta de maturidade e experiência de vida; como no Handbook of Cultural Economics, porque li grande parte dos capítulos mas não sinto que precise de completar a leitura para perceber tudo aquilo que me faz falta agora).


... ou o livro e os meus interesses não corresponderam, pelo que nos restaria procurar melhores parceiros de serão.


... ou o livro seria apenas mais uma bela perda de tempo, por pecar em falta de qualidade e capacidades argumentativas para prender o leitor; talvez o autor de devesse dedicar a outros misteres.


Não terminar livros não costuma ser um drama por aqui, é antes uma parte do dia-a-dia de quem acredita não ter tempo para insistir em batalhas sem proveito.


Ainda assim, ultimamente tenho deixado várias leituras a meio. Ando a ler bastantes livros ao mesmo tempo, talvez demasiados. É verdade. Não lhes dedico toda a minha atenção e vou-me esquecendo deles pelo caminho. Nalguns casos, perco o entusiasmo e sigo em frente sem permitir que me dêem provas do seu valor.


Sei que não terminar livros é uma questão temporária, como já é costume, mas é inevitável pensar que a culpa é - sempre - minha. Tal é a razia de livros arrasados por tal azarada conduta!


Devo concentrar-me mais em cada um dos livros que escolho e levar a cabo o compromisso, desafiando-me a embarcar em leituras estóicas, mas pelo menos terminadas e justamente avaliadas? Ou devo continuar a largá-las para dar oportunidade às seguintes, porventura melhores ou mais adequadas?

Há um ano em Portugal

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Fez ontem um ano que estou em Portugal e muito do que eu esperava não se concretizou nestes primeiros doze meses a seguir ao regresso. Parte da rede de apoio desmoronou-se, o mestrado com o qual eu tinha andado a sonhar não me entusiasma tanto quanto eu previa, a alegria de voltar para o pé da família e dos amigos reveza-se com contas interiores por ajustar.


No entanto, fecham-se portas e abrem-se janelas. Já não dou aulas numa universidade, mas gosto bastante do que faço e vou gostando do que estudo. A viagem à Escócia, onde prometi voltar a cada novo dia no meio duma cidade de betão, realizou-se. Continuei a escrever, tive tempo e disposição para ler e para fazer planos que me entusiasmam. Conheci quem me inspire e faça bem, nunca me faltaram abraços.


O que eu quero dizer é que a vida aconteceria inevitavelmente lá ou cá, assim ou assado. Não é um sentimento de impotência, mas sim de controlo: a vida não parou, porque me tenho esforçado para que não pare e para que vá seguindo um rumo agradável à navegação. A iniciativa própria tem peso nos eventos; não controlamos tudo, mas aquele bocadinho que aterra nas nossas mãos é um óptimo começo.


Além disso, tem sido um ano de reaprendizagem. Reaprendi a depender um pouco dos outros, reaprendi a estar acompanhada, reaprendi a confiar nas minhas decisões e reaprendi a não me preocupar demasiado por antecipação, mas sim a esforçar-me apenas dando o meu melhor, de acordo com as circunstâncias, não almejando a feitos heróicos e, certamente, irreais. Neste caso, aprendi mesmo, pela primeira vez, que não sou de ferro. Foi um ligeiro passo atrás para poder continuar em frente.


Ao chegar ao aeroporto de Lisboa, após 30h de viagem, deparei-me com esta frase de José Luís Peixoto (que, por coincidência, eu conhecera algumas semanas antes em Banguecoque):

 

Quando chegares, não te esqueças de onde partiste.

 

(Frase esta que eu lera, também algumas semanas antes, no livro O Caminho Imperfeito, que JLP escreveu sobre algumas das suas experiências na Tailândia e sobre viagens.)

 

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De facto, não nos podemos esquecer de onde vamos partindo, seja territorial, mas também profissional ou emocionalmente. É difícil prever o próximo destino, mas costuma-se dizer que devemos, em vez disso, apreciar a viagem. Talvez os clichés tenham razão.

 

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