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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

As férias

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Ainda está por explicar o fenómeno psico-meteorológico que me tem afligido a carteira pelo menos uma vez por ano: em época de introspecção, a criatura Beatriz, presidente do clube de fãs do calor e luz lisboetas, ruma a Norte em modo "one woman show" para uns dias de excepcional clarividência e clareza interiores, convenientemente patrocinadas por nuvens baixas, vento agreste e temperatura/precipitação racha-dente. No destino, põe-se a admirar estantes de paperbacks, toda e cada uma das livrarias que lhe aparecem no diretório, os cenários dos seus romances preferidos ao vivo e a cores, descendentes de vikings a beber café aguado, e a sonhar acordada nos espaços verdes extensos e densos, na sombra de cidades industriais. Gosta de beber chocolate quente, de dormir a sesta nos autocarros das tours, de ligar à família a queixar-se da humidade nos ossos e da quantidade obscena de chineses nas atracções turísticas, e de comprar Toblerone a metade do preço. Diz sempre que vai para descansar, e raramente consegue dormir mais de duas horas seguidas à noite no hostel. Diz que vai para ler, e nunca termina um único livro. Diz que vai para escrever, e não escreve mais de três parágrafos. Enfim, por fim, as férias do espécimen. ✈️

[O Primeiro Capítulo] Quero escrever-lhes a agradecer, mas já esgotámos todas as palavras boas

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Ontem, tivemos "A Primeira Vez" d'O Primeiro Capítulo, com o convidado-cobaia-amigo Nelson Nunes, e eu ia dizer que foi ideia minha e da Elisa, mas não: já todos os presentes a tinham tido, e finalmente encontrámos a companhia que nos faltava. Confesso que, quando decidimos levar o projecto avante, não me ocorreu que suscitasse tanto interesse. Eu sabia que haveríamos de juntar algumas pessoas curiosas, mas... Mais do que isso: ontem demos as boas-vindas a um grupo como eu nunca tinha visto. Da quantidade de cursos de escrita criativa que já frequentei, dos eventos a que já fui, da licenciatura em Letras e das centenas de alunos que já ensinei nos últimos cinco anos, nunca me tinha deparado com tantos ditos escritores amadores numa só sala (dez!) que escrevessem, tão despretensiosos, de forma tão responsável, sensível.

 

Neste primeiro encontro d'O Primeiro Capítulo, tivemos participantes com formações académicas muito distintas, e quase nunca relacionadas com a literatura ou a escrita criativa (engenharia, arquitectura, finanças, enfermagem, ciência política, sociologia, biologia...). No entanto, todos cultivam um enorme amor e prazer pelas letras, provando que não temos de nos definir exclusivamente pelos empregos que nos pagam as contas, e que os nossos interesses podem divergir imenso, enriquecendo-nos tanto. Somos seres com potenciais tão complexos!

 

No final, restou-me uma sensação particular: fiquei cheia. Não sei bem de quê, porque é um tipo de satisfação indescritível. Devo ter deixado todas as palavras com quem as apanhou. Queria agradecer, e nem sei bem por onde começar.

 

O grupo teve muita química, demonstrámos o interesse comum pela elaboração de textos desafiantes, "com qualidade", e mostrámos vulnerabilidade suficiente para ouvirmos a nossa escrita pela voz doutra pessoa, sem por vezes nunca termos tido uma experiência semelhante. Ouvimos, recolhemos e distribuímos opiniões. Acho que fomos generosos. Queríamos, acima de tudo, ajudar e sermos ajudados, dar e receber, mostrando-nos disponíveis durante algumas horas para integramos um colectivo improvisado. Poucas ou nenhumas eram as pessoas que conhecíamos previamente, mas toda a conversa foi harmoniosa e fluiu pelo dobro do tempo previsto (na verdade, até os vizinhos terem afugentado os últimos resistentes, que doutra forma teriam ficado a conversar noite fora, e não só sobre escrita).

 

Em Novembro há mais! Com os mesmos ou outros participantes, contaremos dar as boas-vindas a mais interessados em partilhar os seus primeiros, segundos ou milésimos capítulos (graças ao apoio d'A Sala, um dos melhores espaços para simplesmente se estar e conviver, em Lisboa).

 

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Há uma frase que a Elisa tem dito nos últimos dias e que eu já referi antes: somos a média das cinco pessoas com quem passamos mais tempo. Elas inspiram-nos, mostram-nos caminhos alternativos e partilham o seu conhecimento connosco. Por isso, obrigada à própria Elisa (que é uma máquina de fazer coisas giras acontecerem), ao Nelson (que deve ser das pessoas mais organizadas que conheço, a julgar pela quantidade de livros que lê e pelos projectos em que se envolve) e a esta dezena de escritores de segunda-feira... por fazerem parte dessa equação maravilhosa, promissora. Estes últimos meses foram uma montanha-russa, e agora que a poeira está a assentar sei que é de pessoas assim que tenho de me rodear.

 

✍️ Em breve, divulgaremos a data e o tema para Novembro, tal como todas as outras informações úteis para quem se quiser juntar a nós! E, além disso, também começaremos a gravar o respectivo podcast O Primeiro Capítulo!

 

Até lá, sigam-nos por aqui:

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Gosto tanto de viajar sozinha!

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Falta uma semana para me pôr daqui para fora... Que é como quem diz... Vou dar uma volta, arejar as ideias. Gosto muito de viajar, e gosto muito de viajar sozinha. De vez em quando, faz-me falta estar só, só porque me apetece. Além disso, para mim, uma viagem marca quase sempre um reinício, porque são mais ou menos férias, mas porque é mais um sítio que se conhece, que dá a conhecer outras sensações e emoções, onde tenho de pôr em prática competências e características que são redescobertas.

 

Desta vez, também é uma cidade nublada. Era suposto voltar à Escócia, mas os vôos estavam muito caros, não tenho muita vontade de ir ao Reino Unido durante a trapalhada que deveria ser o período oficial do Brexit, e assim sempre conheço um país onde nunca estive, mas sobre o qual tenho curiosidade. Há uma aura mística, escura, fria e húmida que me atrai nos países mais a Norte, que anuncia renovação, rejuvenescimento, isolamento necessário para pôr as ideias em ordem e realinhar ambições e crenças, que convida à introspecção, conversas com a própria da minha pessoa, austeridade nos pensamentos, libertação sem pressão... Este tipo de clima é absolutamente contrário ao que me atrai no resto dos meus dias (que eu sou mais do sol e do céu limpo), por isso deve ser o contraste a convidar uma mudança temporária de paradigma, desejada.


Provavelmente, se tivesse companhia, faria esta viagem acompanhada. No entanto, adoro planear viagens sem mais ninguém. Se viajasse acompanhada desta vez, iria quase de certeza planear outra aventura em breve, só pelo prazer de ser deixada em paz por alguns dias. Talvez por ser filha única, e ter sido uma criança solitária, talvez porque simplesmente adoro a minha independência e o meu espaço (mais uma vez, contrastando com a procura de quem me acompanhe na vida a longo prazo), estou tão entusiasmada por, um ano e meio depois de Edimburgo, poder explorar mais uma ou duas cidades, paisagens tão diferentes.


Em suma, gosto de me sentir estrangeira de vez em quando, como uma espectadora do mundo e de quem sou durante o resto do ano. Assim, recomendo a todas as pessoas que dêem um pulinho a um sítio onde se sintam assim, estrangeiros, quando precisam de ganhar objectividade sobre si mesmos e a vida rotineira que levam em solo-casa (desejável e desejada, desde que com peso e medida). Não há nada como sentirmo-nos deslocados para repensarmos no que andamos a ser e a fazer. Curiosamente, as minhas últimas viagens, até dentro do país, sozinha ou com outras pessoas, dão a impressão de separarem diferentes fases que ora terminam, ora começam. É poético q.b., mas também a vida deve ter a sua dose de poesia, como a métrica dum soneto. Há pausas que nos devolvem o fôlego, e eu preciso duma com certa urgência.

 

Let there be light, diz a fachada da Biblioteca de Edimburgo, uma frase que me acompanha desde que lhe pus os olhos em cima. A luz são os livros, as viagens reflectidas, as pessoas que vamos conhecendo, as ambições e o conhecimento que promovemos e criamos. A luz até pode existir no Inverno ou numa cidade na penumbra. Nunca sei muito bem do que vou à procura, mas alguma coisa hei-de encontrar. Tem sido sempre assim, um bocado às claras e às escuras.

 

E agora... Onde vou, onde vou? Para um sítio onde o chocolate quente deve saber ainda melhor, pois claro. ☕

O Primeiro Capítulo dum projecto e podcast muito, muito bons!

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Já que não posso começar a rentrée psicológica com o primeiro dia de aulas, venho por este meio lançá-la com um novo projecto para o qual fui arrastada: O Primeiro Capítulo, um encontro por pessoas que gostam de escrever, para pessoas que também gostam de escrever.

 

Desde o início do ano que comecei a ir aos pequenos-almoços mensais das Creative Mornings Lisbon (das quais já vos falei imensas vezes), onde conheci a Elisa Baltazar, a host actual. Parece que a Elisa é uma máquina de fazer coisas acontecer, por isso não foi com grande surpresa que, já não me lembro bem como, decidimos fazer... isto que estamos a fazer! Queríamos escrever, queríamos conhecer mais pessoas que também queiram escrever, e temos vontade de criar uma oportunidade para todos esses escritores de gaveta se encontrarem, trocarem umas quantas ideias e partilharem alguns textos. Acreditamos que esta é uma forma de enriquecimento e crescimento.

 

Sem mais demoras, este é o texto de apresentação do encontro e podcast O Primeiro Capítulo!

 

𝐏𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐠𝐨𝐬𝐭𝐚𝐦 𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐜𝐫𝐞𝐯𝐞𝐫 𝐩𝐫𝐨𝐜𝐮𝐫𝐚𝐦 𝐩𝐞𝐬𝐬𝐨𝐚𝐬 𝐪𝐮𝐞 𝐠𝐨𝐬𝐭𝐚𝐦 𝐝𝐞 𝐞𝐬𝐜𝐫𝐞𝐯𝐞𝐫

Dizem que para bem escrever são necessárias duas coisas, ler e escrever.
Concordamos, mas achamos, também , que é necessário optimizar a forma como se lê e a forma como se escreve.
Não é à toa que escritores tão importantes como Bocage, Alexandre Herculano, Almada Negreiros, Fernando Pessoa ou Mário de Sá Carneiro se juntavam em tertúlias onde, entre outros temas politicos e intelectuais, falavam de literatura.
Acreditamos que a interação também inspira, também ensina e também motiva.
Assim, o Primeiro Capítulo é um ciclo de encontros mensais de partilha entre pessoas que escrevem ou querem escrever.

Nestes encontros o objetivo passa, principalmente, por escrever. Escrever todos os meses ou, pelo menos, uma vez por mês. Não mais que 500 palavras sobre um tema que se mostre desafiante.
Uma vez escrito o texto, juntamo-nos e passamos esse texto a alguém para ler em voz alta. Este exercício permite-nos ver como outra pessoa entoa o nosso texto. Ouvir as nossas palavras pela boca de outro pode dar-nos toda uma nova perspetiva sobre a forma como escrevemos. Durante essa leitura não haverá lugar a comentários ou correções. O objetivo é que esta leitura nos dê espaço para repensar a forma como escrevemos.
Depois desta leitura, haverá espaço para comentários. Todos, exceto aquele que o escreveu, terão a oportunidade de comentar aquilo que sentiram falta no texto ou que possa ter ficado menos claro. Finalmente, serão feitas questões ao autor.
Em nenhum destes momentos, o autor terá a palavra. O objetivo aceitar a crítica como construtiva e ter tempo para refletir sobre a mesma.

Finalmente, contaremos também com a presença de um profissional da indústria para partilhar dicas, ideias comentários e, claro, inspirar-nos.

 

Mais concretamente, o objectivo destes encontros é discutir em conjunto textos que tenhamos produzido, sobre o tema lançado cada mês. Também contaremos com convidados especiais em todos esses encontros, que poderão oferecer críticas mais construtivas e algumas dicas relacionadas com o seu trabalho e possíveis obras.

 

Toda a informação pode ser encontrada online, no Instagram e no Facebook d'O Primeiro Capítulo, assim como no site Meetup.

 

Para Outubro, já temos tudo tratado e combinado, e estamos mesmo a aceitar inscrições! O nosso primeiro convidado no dia 7 (segunda-feira) será o Nelson Nunes, um autor de quem já vos falei por aqui, e conhecendo-o há quase uma década e tendo acompanhado a carreira (e a riqueza da estante) dele durante estes anos todos, tenho a certeza de que vamos ter conversas muito interessantes sobre escrita e livros. Para participarem, enviem-me/enviem-nos uma mensagem pelas plataformas e redes sociais sugeridas, ou um e-mail para podcastprimeirocapitulo@gmail.com.

 

Além do encontro, também faremos um podcast d'O Primeiro Capítulo... Mas falarei de tudo a seu tempo! Por agora, gostava muito que acompanhassem este projecto do meu coração, que  hão-de sair daqui belíssimas ideias. E espero ver alguém dos blogs nos nossos encontros! Conto convosco? 💚

O primeiro dia de aulas

Porque só tenho boas memórias no que toca a aprender. Porque a meio de Julho já não aguentava de entusiasmo pela aproximação a meados de Setembro. Porque fazer ou esperar pelos horários e pelo ritmo semanal que me esperava nos meses seguintes me faz falta. Porque o cheiro dos livros novos e as capas imaculadas dos cadernos acabados de comprar me deixavam adivinhar o momento em que iria começar a escrever neles. Porque o meu último regresso às aulas nesta altura já foi há quatro anos. Porque estudar e ir à escola ou à universidade é também uma actividade social de que tenho saudades. Porque foi na escola que vivi os melhores momentos da minha vida. Porque quero voltar a sonhar com o que ainda não aprendi, os professores com quem ainda não falei e os colegas que ainda não conheci. Porque há três anos lectivos que me falta uma data para marcar o início de um novo ciclo (a conversa da continuidade é engraçada, mas não há nada como a expectativa de poder começar - quase - do zero). Porque este foi apenas mais um dos 3 Verões - consecutivos - mais estranhos de que me lembro. Porque preciso duma rentrée mais suave, como antes.

 

Gostava de poder voltar a ter o primeiro dia de aulas na terceira semana de Setembro.

Feliz ano lectivo para todos! 🍀

Vistos, ouvidos e validados

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Todos queremos ser vistos. Queremos ser vistos, no sentido de não precisarmos de chamar a atenção para a recebermos, no sentido de darmos e ser-nos dado. O que provavelmente todos nós procuramos não é só a admiração dos outros, o que nos obrigaria a algum feito ou conquista extraordinária, mas sim o reconhecimento de que existimos apenas por existirmos.

 

Escrevemos em blogs, criamos redes sociais e escolhemos a melhor foto de perfil, publicamos stories no Instagram, damos o nosso melhor em discussões sociais, aparecemos em meet-ups, criamos listas de leitura no Goodreads, apostamos em relações pessoais diversas com pessoas de alguma forma semelhantes a nós, melhoramos o CV, preparamos apresentações, ensaiamos a forma como nos rimos e vestimos, porque - em grande parte - queremos ser vistos, ouvidos e validados, mas o objectivo final deve com certeza passar por conseguirmos ser vistos, ouvidos e validados por causa natural, isto é, sem precisarmos de nos explicar, nem o que sentimos, sem precisarmos de nos esforçar a todo o momento, sendo nós mesmos.

 

O cliché ganha profundidade quando queremos ser incondicionalmente vistos, ouvidos e validados por quem nos rodeia num Sábado ao final da tarde, sem banho tomado, vestidos com peças de pijama desirmanadas, a mastigar bolachas de sour cream de boca aberta, a espalhar migalhas pelo chão, de pernas escancaradas e a coçar a caspa oleosa para dentro das unhas, com os olhos inchados por termos chorado com a morte do cão Marley na televisão pela 54ª vez na vida - pelo menos tanto quanto nos dias em que o resto do mundo também tem razões para nos ver, ouvir e validar.

 

Aquilo de que andamos todos à procura é quase um amor paternal ou maternal da parte de familiares, amigos e parceiros, uma imitação da segurança sem constrangimentos que idealmente teremos sentido quando éramos pequenos. Por muito independentes e decididos, precisamos de quem tome conta de nós, ou sobre quem nós acreditemos que o pudesse fazer caso fosse necessário, queremos alguém que demonstre afecto só porque lhes apeteceu, que nos perguntem como estamos sem termos de acenar com três sinais de trânsito e uma avioneta, que nos liguem só para desejar um bom dia, sejam espontâneos nas demonstrações e não poupem no afecto e nos elogios - afinal, diz-se que nos tornamos aquilo em que os outros acreditam que somos ou nos podemos tornar.

Procura-se uma alegre casinha, tão modesta quanto eu

Não é para mim, é para uma amiga, começa assim este texto, da forma mais sincera e menos deslumbrada possível. Já vivi do outro lado do mundo e, quando regressei, não me quis iludir: ter onde viver em ou perto de Lisboa é um luxo hoje em dia. Acabei de ver num grupo de Facebook um lote para venda num parque de campismo nos subúrbios por 20.000€. Vamos rir para não chorar? Na zona da minha casa, o preço de vivendas geminadas aumentou cerca de 50.000€ desde o ano passado, quando também andei atenta; já nem há apartamentos para alugar, só para comprar - eu vivo a quase uma hora e meia de Lisboa. Como é que é possível?

 

A minha família deixou Lisboa e mudou-se para a margem Sul do Tejo há mais de 30 anos. Há menos de 20, um certo ministro chamou à margem Sul "um deserto". Certamente nunca terá passado por Almada, Seixal, Amora, Barreiro, Quinta do Conde... Há muitas décadas que a margem Sul já não é o destino de férias e fins-de-semana dos lisboetas. Com o advento da Fertagus e outras empresas de transportes, o distrito de Setúbal foi recebendo cada vez mais pessoas, Lisboa passou a ser cada vez mais acessível, enquanto os passes a custos reduzidos implementados este ano têm aumentado a procura de habitação na extensa área metropolitana de Lisboa. O trânsito e os carros continuam lá, mas os comboios, barcos e autocarros seguem todos os dias um pouco mais cheios do que no dia anterior.

 

Eu ainda não estou activamente à procura de casa, mas os meus amigos estão. Ora porque vivem demasiado longe de Lisboa para que as viagens diárias sejam sustentáveis, ora porque querem constituir a sua própria família, ora porque querem simplesmente ter o seu espaço - e, neste último grupo, também me incluo - precisamos de viver nalgum lado. 

 

Temos falado várias vezes sobre sair de Lisboa. Não será fácil, mas vemo-nos a procurar emprego noutras zonas do país, onde seja mais barato (quiçá possível) viver, onde não tenhamos de ser mais uma formiga numa lata de sardinhas à qual que chamam transporte público, onde possamos respirar, onde não tenhamos de andar aos encontrões com ninguém, onde não tenhamos de perder tempo de vida dum lado para o outro. Lisboa é uma cidade em franco crescimento, mas com elevados custos para o bem-estar da população, reduzindo-se a qualidade de vida constantemente, quando as infraestruturas e os serviços já não conseguem dar resposta a tantos habitantes (quando temos de tirar senha quatro meses antes para renovar o Cartão de Cidadão; ou quando deixamos de ter vaga para os nossos filhos nos jardins de infância e escolas públicas).

 

Os meus amigos querem encontrar casa, eu quero encontrar um escritório só para mim. Lisboa não tem espaço para nós. Será que Lisboa não nos quer? 

 

Claro que nada é tão simples quanto isto. As leis do mercado imobiliário ditam que os preços podem continuar a aumentar. Ainda há muita procura. No entanto, até alguns estrangeiros que se estão agora a mudar ou a pensar mudar-se para Lisboa começam a fazer contas à vida. Eu sei disso em primeira mão, porque são eles os meus clientes e potenciais clientes. Trabalho e falo com eles todos os dias e sei disto em primeira mão: nem os rendimentos médios americanos, ingleses ou alemães conseguem pagar 2000€ ou 3000€ por um apartamento onde possam construir uma família com o conforto desejado. Investimento estrangeiro my ass. Nem os estrangeiros ficam com vontade de investir os seus rendimentos neste país.  Lisboa chegou a ser cool promovendo o seu baixo custo de vida. Agora... agora nada.

 

O que pagamos em impostos, o que recebemos em salários e rendimentos, versus o que nos pedem por um quarto esconso que seja... São desproporcionais. E não, não queremos viver em quartos para sempre, nem em casa das nossas famílias. Em vez de estarmos a progredir, estamos a regredir. Na geração dos meus pais, além de haver emprego, havia a possibilidade de se ter uma casa própria - um luxo, não é verdade? Agora, vivemos em partes de casa, se calhar até dividimos um quarto com mais pessoas. Sabem quem fazia isso aqui em Lisboa?  Os meus bisavós. Há setenta anos. 

 

(E, já viram...? Se as pessoas que conheço não têm a possibilidade de pagar uma habitação própria, sendo efectivos nas empresas e instituições onde trabalham, ganhando pelo menos 50% mais do que o salário mínimo em início de carreira e tendo um nível académico superior, o que será das pessoas que não cumprem estas condições...? Será esta cidade só para os ricos, mesmo ricos, ostracizando todos abaixo da classe média alta...?)

 

Ah e tal, mas isto é tudo porque Lisboa está a desenvolver-se, ou preferimos ter Lisboa como era antes? Este argumento é tão humilhante para quem constrói a sua vida na capital, que nem merece resposta.

 

Então, e quem vive e trabalha em Lisboa, para o que conta? 

 

Durante as férias, passei por Tomar. Fiquei com vontade de me mudar logo. Espreitei várias montras de agências imobiliárias e babei pelos preços apresentados. Pagando o mesmo que pagaria por um mero escritório de 10m2 sem luz natural em Lisboa, poderia arranjar um T2 ou T3 no centro da cidade de Tomar; poderia andar dum lado ao outro em menos duma hora, teria espaços verdes, parques, restaurantes, livrarias, lojas de roupa, museus, cineclube, escolas, o instituto politécnico... Tudo isto ali, a menos de duas horas de Lisboa (da "civilização"). Quão utópico é querer-se viver, em vez de se sobreviver?

 

Pergunto-me se não começaremos a sair de Lisboa, aos poucos. É isso que a maioria dos meus amigos ambiciona neste momento. Afinal, quem está mal muda-se, não é verdade? Eu provavelmente também não terei vontade de continuar por cá, se tiver oportunidade de viver noutro sítio. Lisboa já não me parece uma cidade sustentável. Vivemos no "demais" constante. Já nem o oásis de viver no meio do pinhal e a 20 minutos das praias me parece suficiente nos tempos que correm, se para lá chegar tenho de passar por provações e agitações que me achincalham os nervos e me cansam mais do que o próprio ritmo diário de trabalho e enriquecimento pessoal e profissional. Perco quase metade dum dia de trabalho a deslocar-me, e o que me salva é trabalhar por conta própria e poder evitar horas de ponta e escolher quantas e a que horas trabalho.

 

Não sou economista, apesar de me interessar por estes temas, por isso não vos sei responder o que seria necessário fazer para melhorar Lisboa, se regular os preços do mercado imobiliário, se aumentar os rendimentos das pessoas, se construir e renovar mais casas na Grande Lisboa, se outra coisa qualquer. E se fosse só isso... Ainda teríamos de pensar nos problemas que surgem duma cidade sobrehabitada e sobreexplorada. Sei que não é assim que os indivíduos que contribuem para o desenvolvimento duma cidade que se diz tão na moda, um exemplo de criatividade, inovação e empreendedorismo, merecem viver. Onde está o retorno? Quando essas pessoas deixarem de ter forças e motivação para contribuir, quem é que quererá cá ficar? 

 

Por agora, procura-se uma alegre casinha, tão modesta quanto eu, mas sem pressão. Pode ainda não ser para mim, pode ser para os meus amigos. Ainda tenho outros planos para o meu dinheiro, mas gostava de ter esperança, de saber, que a liberdade de voltar a ter o meu espaço é uma realidade e não um sonho inconcretizável. Ficarei à espera que esta bolha rebente. Plop.

 

(Entretanto, lembrei-me de que já escrevi sobre este tema... É clicar...)

As dores de um blog

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Este texto é para quem tem um blog, para quem não tem, e para quem, não tendo, gostaria de ter - ou seja, para toda a gente. No entanto, mais especificamente, este texto é para quem não sabe se vale a pena ter um blog.

 

Como podem verificar, publiquei pela última vez há duas semanas. Costumo fazê-lo mais frequentemente, mas a vida tem acontecido, o que quer dizer que não há grande coisa sobre a qual me apeteça escrever. Não tem acontecido nada, que, para quem escreve, costuma significar "não tem acontecido nada disruptivo ou dramático, cá andamos felizes e contentes, porque da satisfação não reza a escrita". Normalmente, tenho andado a escrever sobre livros, livros e mais livros. Já escrevi sobre a adolescência (coisas miúdas e desinteressantes), e depois universidade, universidade e mais universidade, e depois sobre viver na Tailândia, viver na Tailândia e mais viver na Tailândia, e depois desgosto de amor, desgosto de amor e mais desgosto de amor, a par de síndrome do regresso, síndrome do regresso e mais síndrome do regresso.

 

Este blog tem oito anos, celebrados há poucos dias, por isso já passou por várias fases. Quando digo às pessoas que tenho um blog, perguntam-me "um blog de quê?", como se isso fosse pergunta que se faça. Tenho um blog de tudo e mais algum acontecimento de vida, interesse, descoberta, partilha e queixinhas. Não lhe encontro categoria possível, e acabo por preferir a vergonha de responder "é um blog pessoal".

 

Então, talvez lhe devesse chamar "repositório". É como aquelas caixas rijas e coloridas que compramos na loja Viva, que levamos para casa a pensar que vão servir para um propósito particular e acabam a acumular tralhas diversas, amadurecidas com pó e mosquitos mortos misteriosamente presos lá dentro.

 

As dores de um blog são as dores da pessoa que o escreve. Expondo mais ou menos a sua vida fora dos écrãs, quem escreve um blog depende dela para criar conteúdo. Mesmo quando os blogs são temáticos, acabam por captar um pouco do que se passa antes de terem surgido aqueles textos. Tal como os livros, afinal. Quem é que nunca tentou perceber o que iria pela cabeça dum escritor ao escrever aquela história, ou sobre aquele tema específico? Quem é que nunca tentou adivinhar as suas motivações e interesses, ou a relação da ficção com a vida fora das páginas? Com um blog, passa-se o mesmo: conhecemos essas pessoas, mesmo sem nunca as termos visto ou falado com elas.

 

Então, o oposto também é possível: quando não se passa nada (ou, pelo menos, quando o autor pensa que não se passa nada), também não há muito para servir de matéria para a escrita. Não consigo inventar, mas posso-vos dizer que vi uma temporada de 22 episódios x 40 minutos duma série absolutamente irrelevante no Netflix em menos de sete dias, não tenho tido muita concentração para ler e tenho dado e preparado aulas até ter o cérebro dormente. Aliás, passei os últimos dias a arrastar-me, em parte porque ando a beber demasiado chocolate quente e a comer demasiadas gomas.

 

Estranhamente, hoje acordei nesse mesmo estado, mas à medida que a manhã se ia passando, fui-me apercebendo de que esse marasmo é cíclico, que é preciso deixá-lo entrar para depois o ver sair e que não me hei-de deixar deslumbrar por séries de crime e paixão para sempre. Depois de drenado o que estava a apodrecer, deixem entrar as novidades. Treinem o cérebro: um episódio de podcast de cada vez, um capítulo dum livro de cada vez, um artista novo de cada vez, uma resolução de cada vez.

 

A ver se regresso às lides menos procrastinantes e mais edificantes ASAP.

 

Seja como for, regressando ao ponto de partida. Este texto é para quem não tem um blog e não tem a certeza se valeria a pena. Talvez não tenham a ideia cimentada - que tema?, que tom?, que ideia de mim? Assinado ou anónimo? Para partilhar com os amigos e a família ou só para desconhecidos (porque é mais fácil escrever para quem não nos conhece)? Mas, volvidos oito anos, eu continuo a apoiar a ideia de que um blog é o que nós quisermos. Ao longo do tempo, apreciamos as metamorfoses e as dores. As metamorfoses de um blog são as de quem o escreve. As dores de um blog são as de quem o escreve. Independentemente do que procuram, vale sempre a pena ter um blog. É catártico, consola e dá-nos um propósito, nem que seja durante um par de horas por semana.

 

Estão a ler este texto? As dores do meu blog são as minhas. Irrelevantes, em geral, no plano universal. Relevantes, mesmo que descartáveis, para os tantos que por aqui passam e param. Imprescindíveis para mim, que o estou a escrever como exercício meta-coiso de quem pretende reafirmar a identidade do seu blog e um pouco a sua. Esta é a minha linha de escrita actual, se é que isso exista. Ora, se já existiram tantas... mais hão-de existir! Isso de se pensar "se é para escrever, que se escreva bem" é o que temos de combater com exercícios anti-ego. Vamos escrever o que nos apetecer, não interessa se mais alguém vai querer ler o que escrevemos ou não.

 

Como imagem ilustrativa deste texto, deixo-vos com uma paisagem a partir do cimo de Óbidos, que fotografei há algumas semanas quanto lá fui. Não tem nada a ver com o resto do conteúdo, mas acho-a extremamente relaxante, devido à quantidade de verde e azul em toda a sua extensão, extensão essa que por sua vez ilustra a quantidade de procrastinação investida na elaboração deste texto. ... Viram? A qualidade literária deste parágrafo nem sequer existe, nicles, e de certeza que alguém o está a ler e a pensar que valeu mais a pena fazê-lo do que voltar ao trabalho, ver uma série de segunda categoria no Netflix ou ler um capítulo do último Prémio Nobel. Também me diverti a escrevê-lo, por isso é recíproco.

 

(Fora de brincadeiras, muito obrigada aos comentários que por aqui vão deixando. Confesso que sou uma respondedora de comentários bastante ausente e, na melhor das hipóteses, atrasada. Mas eu leio e agradeço. Pratico essa coisa da gratidão. Obrigada. Obrigada. Obrigada. Prometo continuar a contribuir para a vossa procrastinação por muitos anos, provavelmente mais oito, dez ou trinta.)

Aos 23

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Hoje, no último dia dos 23, uma aluna que conheci pela primeira vez disse-me, ao ver-me, que estava à espera de alguém mais velho.

 

"For some reason...", justificou, visivelmente confusa. Balbuciei "yes, I am quite young". E, sem saber o que mais responder sobre tal assunto, levei a conversa por outros caminhos.

 

As várias questões ligadas ao tempo na minha vida ocupam grande parte das preocupações que realmente me importam no dia-a-dia. Ora tenho sede de devorar o tempo, de chegar mais depressa não sei onde, de conseguir fazer mais e melhor, para saber o que vai acontecer no próximo capítulo; ora o tempo parece nunca mais passar e eu continuo pequenina, migalha esfarelada no universo; ora querendo pará-lo e esticá-lo. Tem de me servir nas medidas.

 

Aos 21, comecei a dar aulas numa universidade do outro lado do mundo, assinei o meu primeiro contrato de arrendamento para um apartamento num também 21º andar, sentindo-me tão crescida, mas mais pequena do que nunca, tão vulnerável e tão pouco credível. Durante mais de ano e meio, evitei revelar aos meus alunos quantos anos - ou meses - me separavam deles. Especularam sempre o previsível, entre 25 e 30, o que eu também não desmentia.

 

Depois, regressei a Portugal e comecei a trabalhar por conta própria, a criar o que desesperada e orgulhosamente chamo "o meu negócio". Mais uma vez, a questão que me assombra - quantos anos tenho? Lá respondo a verdade, sempre recebida com sobrolhos franzidos, pausas para rir ou admirar o quão nova sou. Um bebé, respondo sempre.

 

E as feições e restante paisagem não mentem: cara de bolacha Maria, acne, corpo franzino, sorridente sempre que possível, mesmo nos dias mais difíceis. Poderia ter, sei lá, 15 anos.

 

É o que vos digo. Um misto de orgulho, desespero e desconforto. "Aos 23, eu só pensava era em festas", já me responderam. Hoje, "estava à espera de alguém mais velho... por algum motivo".

 

Tenho tanto medo de não ser credível, de não me mostrar estando ao nível dos desafios, de ser desmascarada de sei lá o quê. Quero tanto fazer tanto, quero aproveitar para fazer muito enquanto sou nova, mas também quero que me levem a sério, não irei ser só a miúda. 


Depois, as pessoas à minha volta a consolarem-me. "És tão nova", dizem-me, enquanto me sinto e sempre me senti uma alma velha, sem me identificar com a maioria das pessoas da minha idade e a procurar abrigo nos mais velhos, logo eu, que ainda por cima passei os primeiros cinco anos de vida sozinha em casa com a minha avó, que nunca me falou como se eu fosse uma criança, mas sim compreendendo-me e argumentando como se eu fosse sempre capaz de acompanhar qualquer discurso. E as conversas de política à hora de jantar, os livros, a televisão. Sou nova, sem o ser. Até o cansaço mental é o de alguém que já viveu mais do que isto - é o que me parece.

 

Chegará um dia em que hei-de querer voltar a ter esta idade, porque também há o reverso da medalha: ser-se demasiado velho. Por agora, não desgosto assim tanto de ser nova. Uma miúda.

 

Por agora, só quero ficar em casa, não gosto de festas, prefiro convívios ao fim-de-semana, gosto de rotinas, silêncio e estabilidade.

 

Assim escrevi no último dia dos 23, 15/06/2019, e corrigi e editei a 17/06/2019.

Socorro: não consigo fazer planos e não consigo encontrar um propósito!

Por estes dias, andamos todos à procura do nosso "propósito". É uma canseira. Já referi há algumas semanas que me sinto frequentemente assoberbada por estímulos, obrigações e informação, o que me causa ansiedade, mas entretanto tenho conseguido controlar o meu acesso e preocupação no que toca a essas fontes de stress.

 

Nos últimos tempos, parece que há cada vez mais coaches, podcasts, blogs e eventos acerca de ser mais, melhor, tudo. Não desdenhando de toda a investigação e atenção dada a tópicos tão importantes para a nossa sociedade quanto a felicidade, o bem-estar, o desenvolvimento pessoal e o empreendedorismo (até porque o meu mestrado se foca nalguns desses temas e eu adoro estudá-los), sinto que, se não soubermos digerir ou tivermos ferramentas mentais para receber essa informação, acabamos perdidos entre tantas ideias, autores e motivational speakers.


Regressando ao assunto que me leva a escrever este texto, a procura do tal propósito, gostaria de discordar do que tenho lido nas redes sociais. De repente, não há quem não fale de encontrarmos essa agulha no palheiro que é o motivo, a justificação, a motivação para a nossa existência, influência e trabalho. Para mim, o problema não é a procura do propósito. Também eu assino por baixo que é importante termos algumas linhas de orientação em mente para nos concentrarmos no que nos traz satisfação e sermos, em geral, bem-sucedidos. Contudo, o problema é que tenho lido e ouvido vários coaches a defenderem uma espécie de propósito permanente, inflexível, obrigatório, ditatorial. De repente, é como se não prestássemos enquanto pessoas se não tivermos um propósito definido, como se estivéssemos mesmo à procura de falhar redondamente na vida.


Isto é tão errado.


Não, eu não sei qual é o motivo de eu andar por aqui, na Terra, por que nasci. Dou o meu melhor todos os dias para criar algo com significado, nem que seja contribuir para o bem-estar doutra pessoa, mas não me parece necessário escrever uma declaração de intenções acerca disso, pelo menos não uma que tenha de me definir.


Por que é que achas que ainda não encontraste o teu propósito? Li esta pergunta num questionário que me enviaram recentemente. Na altura, respondi de forma curta, mas fiquei a pensar, até chegar a mais ou menos esta conclusão: não encontrei o meu propósito porque ele está sempre a mudar. Não todos os dias, mas sei que todos os meses ele vai sofrendo alterações.


Há dois anos, eu sabia tudo. Quase podia planear a minha vida à semana para os dez anos seguintes. Depois, a vida aconteceu e esses planos, além de terem deixado de fazer sentido, também me deixaram num estado de recriminação constante que se prolonga até hoje e sobre a qual ainda tenho de reflectir e tentar resolver, nomeadamente em sessões de terapia. De vez em quando, ainda penso como é que será possível eu já não ser aquela pessoa, tão cheia de certezas, e como é que eu não fiz X, Y e Z se me tinham dado oportunidade para tal.


Pensar que tinha um propósito e planos a longo prazo foi uma merda para mim. Desde então, passei a planear cada dia, cada semana e cada mês, sem muito mais antecedência, não vá o resto do mundo decidir virar-se e eu ficar de novo na lama por não me ter precavido para tal situação. Uma coisa são projecções, desejos, ideias. Outra coisa é a procura duma definição pessoal enquanto necessidade primária e urgente.


Além disso, qualquer que seja a nossa idade, devemos deixar espaço para as coisas boas. Parece que só tenho falado nas más, mas as boas também podem trocar-nos as voltas e desafiarem todas as crenças que tivéssemos. Podemos conhecer o amor da nossa vida, engravidar ou perder alguém querido, nós ou os nossos companheiros podem arranjar a oportunidade profissional com que sempre sonharam bem longe de onde estamos, podemos adoecer, podemos ter um acidente, podemos descobrir uma vocação inesperada, podemos perder ou ganhar muito dinheiro subitamente, podemos mudar de ideias... Quem sabe...? Então, acredito em estarmo-nos um pouco a lixar para planos que nos limitem, sem criarmos alternativas B, C e Z. Sou pelas alternativas, pelos mil planos diversos, pela dispersão ocasional, pela espontaneidade, pela liberdade de ter um propósito hoje que não terei amanhã. Um dia quero ser professora, no outro quero ter um negócio, a seguir consigo ter os dois, mas daqui a três meses vai-me apetecer viajar pelo mundo, e hei-de encontrar fontes de inspiração diferentes, depois já quero ser escritora, engenheira química, astronauta, estudar tarot ou apostar em corridas de cavalos. Eu sei lá, hoje sou assim, amanhã é que não sei.


Fui educada e vivo numa casa onde se acredita no mote "um dia de cada vez". Combinando essas lições ao que fui adquirindo pela experiência pessoal, penso que planearmos é tão importante quanto permitirmo-nos margem de manobra.

 

Entretanto, também ando a ler O Mundo À Beira de Um Ataque de Nervos, do autor inglês Matt Haig, que me tem ajudado a reflectir e a confirmar que nos encontramos demasiado focados no que seremos e faremos no futuro, uma das principais fontes de ansiedade do nosso tempo, em vez de nos concentrarmos no presente. Em breve, escrevo sobre este livro.


Na altura em que precisei de rever a forma como penso, há pouco mais de um ano, almocei com uns amigos num lugar onde, em cima das mesas, pequenos castiçais tinham sido decorados com mensagens simbólicas. A nossa era "Um plano que não tem espaço para mudanças é um mau plano." Acho que foi uma óptima premissa para o ano que se tem seguido. Sabia lá eu as coisas que me estariam para acontecer em tão pouco tempo...!

 

 

 
 
 
 
 
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