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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Como gostava de ser recordada?

Tenho muita curiosidade em saber que tipo de biografia - chegando eu a uma fase tardia ou ao fim da minha vida - se poderá escrever sobre mim. Mais do que vision boards, entradas de diário ou qualquer outro exercício de imaginação presente quanto a um momento futuro, entusiasmo-me verdadeiramente com a perspectiva de contribuir para o que um dia pode vir a ser dito ou escrito a propósito dum possível legado semeado ao longo dos anos que me restam gozar.

 

Comecei a fazer este exercício de forma mais consciente, desde que me deparei com um questionário feito pela Ariana Amorim. Diz a penúltima pergunta: Como gostava de ser recordada?

 

Se no primeiro par de anos da idade adulta me foquei em atingir grandes metas em muito pouco tempo, em tentar ser imbatível e inesquecível, acho que amadureci no sentido de agora me interessar mais em ir atingindo outras mais pequenas por períodos de tempo mais longos, mas de forma mais consistente. Afinal, acredito cada vez mais que uma pessoa não se faz das conquistas pontuais, mas sim da sua repetição, insistência ou permanência. Prefiro fazer pequenas escolhas, aqui e ali, que me levem à história que um dia contarão sobre mim - mas terei realmente poder sobre elas?

 

Desde que tentei responder à pergunta da Ariana, tenho mantido a atenção em tal hipótese a muito longo prazo. Que tipo de histórias se contarão sobre mim dentro de quarenta ou cinquenta anos? E até que ponto me cabe a mim a responsabilidade de as ir concretizando?

 

Na Introdução ao seu livro de memórias, Bilhete de Identidade, Maria Filomena Mónica conclui que o livre-arbítrio que julgamos ter enquanto vivemos a nossa vida e fazemos determinadas escolhas é, no final de contas, ilusório. Ao escrever sobre a sua infância e juventude, foi isto que a própria sentiu, que pensava ter tido mais poder nos acontecimentos da sua vida do que lhe parece décadas depois.

 

Esta descoberta relembra-me uma conversa que tive há algumas semanas com um amigo. O efeito-borboleta é um fenómeno maravilhoso, quando percebemos que, se não nos tivéssemos conhecido, ou se não tivéssemos reunido as condições ou circunstâncias que levaram ao dia em que nos conhecemos, as nossas vidas ter-se-iam tornado muito diferentes das vidas que agora reclamamos como nossas. E que poder tivemos nós na sua construção? Eu diria que não muito, mas pouco. Entre pequenos e grandes encontros, tornamo-nos seres com biografias imprevisíveis.

 

Em geral, não querendo ser pessimista, sei que podemos apenas tentar escolher o melhor possível de acordo com a matéria-prima dos dias. É a partir daí que pretendo contribuir para o que será o tal legado de memórias, a tal "marca" que gostava de deixar no mundo.

 

São estas referências para a acção, uma espécie de código de conduta, que mais importam. O resto será sempre volátil e efémero.

Partir em caso de emergência

Sou uma pessoa cheia de medos:

Medo das alturas

Medo de não ser capaz

Medo de me revelar insuficiente

Medo de ser abandonada

Medo de falhar

 

Como se esta lista ainda não fosse suficiente, o tempo presente tem-me trazido ainda mais medos.

 

Medo de não poder abraçar

Medo do isolamento

Medo da doença (e da morte)

Medo de estar longe

Medo da estagnação

Medo da ausência

 

Se a segunda metade do Verão me deixou sair para aproveitar o sol e até algum afecto dum par pessoas de quem sentia falta, não acredito que consiga manter esta proximidade com aquilo e aqueles que me consolam até ao final do ano. Como uma sentença, mesmo que auto-imposta, tenho quase a certeza de que chegará o dia em que terei de decidir recolher-me, ou afastar-me, deixar de abraçar até de fugida. É provável que nem precise de restrições anunciadas na televisão, mas apenas da minha própria acumulação de medos, sublimados.

 

Conto as pessoas indispensáveis ao meu mundo com poucos dedos esticados, nunca fui de festas ou ajuntamentos, não bebo, gosto de ir cedo para a cama e sou ligeiramente claustrofóbica. Trabalho por conta própria, gosto que me deixem quieta a ler, a ver filmes lamechas e a ouvir música no conforto do sofá de casa ou da cama. Mas gosto demasiado de abraços e de passear sem destino para me sentir confortável dentro de quatro paredes por dias a fio.

 

O que é que faz uma pessoa como eu, que tem medo até da própria sombra, ao enfrentar a incerteza regente?

 

O inverno está aí, mas já comecei a compilar uma lista de pequenos consolos que me possam manter activa e motivada, à tona da água.

 

Que vidros podemos partir em caso de emergência?

Três conselhos para alunos de Letras

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Na semana passada, recebi um e-mail dum futuro aluno da minha licenciatura (Ciências da Cultura, na FLUL, que agora se chama Estudos de Cultura e Comunicação). Nesse e-mail, o remetente pedia-me conselhos para quem começa agora esse percurso universitário, o que me despertou sentimentos ambivalentes.

 

Por um lado, parece extremamente irreal pedir apenas um conselho, como se dele dependessem os três anos seguintes, e tendo eu escrito tanto sobre o assunto no blog (a ver tags como "universidade", "estudar", "faculdade" ou "flul", ainda que correndo o risco de lerem o que já escrevi há vários anos e com o qual já não me identifico). Por outro lado, não foi há muito tempo que estava eu nesse lugar, que para mim foi tão feliz e cheio de esperança. Entrar para a universidade foi dos momentos mais felizes da minha vida. Por um conselho ou dois, se soubesse para onde e para quem enviar e-mails, eu tê-lo-ia feito.

 

Por isso, aqui nos encontramos, neste texto. Decidi lembrar-me da miúda que era, dos meus colegas, do nervoso que migrava para o estômago, do entusiasmo, da expectativa. Quis ajudar, aproveitando ao mesmo tempo para fazer um balanço ao fim de sete anos desde a minha primeira aula.

 

Portanto, não sabendo mais nada sobre o remetente do tal e-mail, além do nome e licenciatura, partilho convosco não um, não dois, mas três conselhos especialmente dirigidos a quem entra ou está em Estudos de Cultura e Comunicação na FLUL (aplicáveis a outros cursos de Letras, como Línguas, Literaturas e Culturas). Que sejam boas sugestões intemporais para quem tiver paciência para os ler!

 

1. Ler tanto quanto possível é o mais importante

Para se tirar um qualquer curso em Letras, é preciso gostar-se de ler. Não basta “gostar-se de estudar umas coisas”. Nem sempre ler vai ser uma actividade prazerosa ou de lazer nos próximos anos, mas é importante ler todos os dias, em quantidade e variedade. Por isso, também é essencial saber o que ler, onde encontrar o que se quer ler e como selecionar informação. Se passei os três anos de licenciatura sem ter propriamente “estudado”, tal só foi possível porque senti sempre que ia apenas lendo, tirando notas quando sentia essa necessidade, cultivando e saciando a minha curiosidade.

 

Os materiais que os professores fornecem nas bibliografias e nas antologias são óptimos para quem quer apenas saber o essencial ou por onde pode "começar". No entanto, há sempre temas sobre os quais queremos saber mais, e mais, e mais. Se encontrarmos um interesse específico em cada cadeira, conseguimos aprender muito melhor o que há para aprender, e as nossas relações com os professores e notas acabam por reflecti-lo - principalmente dado que muitas cadeiras têm como elemento de avaliação final um trabalho com tema à escolha ou negociado com o professor.

 

2. Saber escrever, para bem pensar e bem falar

Se noutra qualquer instituição de ensino superior é obrigatório saber escrever, numa faculdade de letras é pecado não saber fazê-lo correctamente e com destreza. O primeiro passo é saber pontuar um texto. O segundo passo é utilizar as palavras certas. O terceiro deve ser organizar as ideias. A maior parte dos elementos de avaliação são entregues em formato escrito e nenhum professor da universidade vai estar disponível para ensinar o que deveria ter ficado sabido no ensino secundário. Não me interpretem mal: tive professores maravilhosos na FLUL, e os maus de que me lembro contam-se pelos dedos duma mão. Mas quem entra numa faculdade de letras tem a obrigação de saber ao que vai e ter uma preparação melhor nesse sentido, não necessariamente da escola, mas acima de tudo por interesse pessoal.

 

A propósito do ensino secundário, a verdade é que é inevitável sentirmos que estamos a dar um salto maior do que a perna, quando passamos do 12º ano para o 1º ano de licenciatura. Neste mundo da universidade, geralmente os professores já não nos querem tratar por “tu”, nem podem baixar a fasquia. É o mundo dos “crescidos” e já não há quem nos dê o desconto.

 

Seja como for, bem escrever resulta em bem falar e em bem pensar - três em linha, e é isso que se quer.

 

3. Aproveitar todas as oportunidades

Com certeza que quem se candidata a cursos de Humanidades ou Ciências Sociais já terá ouvido a sua dose de “e isso dá para o quê?”, ou outras variações do enredo novelístico “vais ficar desempregado para o resto da vida, e agora?!”.

 

Confio que já terei escrito muitas linhas sobre isto durante os últimos anos e mantenho a minha palavra: vamos todos ficar no desemprego se não nos mexermos e esperarmos que, acabadinhos de sair da última aula do curso, nos vá cair uma proposta de trabalho no colo. Não interessa se nos licenciamos em Estudos de Cultura e Comunicação, em Direito, em Gestão, em Arquitectura ou em Engenharia do Ambiente.

 

É preciso fazer pelo menos um pedacinho mais do que o mínimo indispensável, como tirar outro tipo de formação profissional, fazer um intercâmbio europeu (mesmo que de curta duração), fazer parte da comissão do curso ou da Associação de Estudantes, fazer um estágio (mesmo que em part-part-part-time, num centro de estudos), um programa Erasmus ou um Almeida Garrett, arranjar trabalho durante o Verão ou conciliando com as aulas… You name it!

 

A minha experiência pessoal também dita que, se não tivesse feito um pouco de todas essas coisas, não teria realmente vivido ou aprendido muito, além de ter enfiado a cabeça nos livros, antologias e fotocópias.

 

Não se deixem intimidar pelos comentários alheios. Se tiverem gosto pelo que estudam, vão viver três anos inesquecíveis de crescimento. E não, uma licenciatura numa universidade não é um curso profissional: não se aprende realmente a fazer "algo", mas a pensar (sugestão: o discurso This is Water, de David Foster Wallace).

 

Espero que as Letras vos façam tão felizes quanto me fizeram (fazem) a mim!

A felicidade da escrita

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Pega na caneta. Pega no caderno. Escreve. Talvez prefiras o computador ou o telemóvel. Talvez gostes de guardar o texto para ti ou de o partilhar com os teus amigos, talvez na Internet. O que interessa é que escrever te faz feliz, não é? Por que será? Que magia tem a palavra materializada no papel?

 

A verdade é que escrever não é coisa de adolescentes, nem de artistas, nem de gente sentimental. Escrever é das terapias mais baratas de sempre, é gratuita. Escrever faz realmente bem à saúde. Ainda por cima, podemos fazê-lo em qualquer lado, a qualquer hora, sozinhos ou acompanhados, na cama antes de dormir, à hora de almoço no meio da cantina, no nosso diário predilecto ou no verso duma folha de rascunho.

 

Tal como a confissão oral, pela conversa ou pelo desabafo, também a confissão escrita tem benefícios para o nosso bem-estar e, mais do que isso, efeitos surpreendentes na condição física humana. Somos mais saudáveis quando nos expressamos, mesmo se o fizermos exclusivamente na nossa própria companhia. Pode ficar tudo só para nós, e mesmo assim sentimos todos esses efeitos.

 

Há mais de 30 anos que se estuda a escrita expressiva: o acto de escrever sobre emoções, pensamentos, eventos, quiçá traumas, ajuda-nos a reorganizar a narrativa pessoal, diminui a sua intensidade emocional (aquele fulgor, aquela obsessão que nos assombra ou que tentamos reprimir) e permite-nos conhecer melhor a nós mesmos. Enquanto pensamos nas melhores palavras, racionalizamos, revisitamos e ordenamos ideias. Escrever é como uma conversa privada em que nos exploramos. Quem somos? O que sentimos? Como o sentimos?

 

James Pennebaker foi o primeiro a descobrir que estes exercícios de escrita diminuem o stress, aliviam a ansiedade, reforçam o sistema imunitário e, por isso, previnem o aparecimento, progressão ou reincidência de certas patologias - por exemplo, tensão alta, cancro, artrite ou ataques cardíacos. Outros investigadores seguiram as suas pisadas (como Laura King e Megan C. Hayes), e agora temos a certeza de que escrevermos sobre emoções, pensamentos e eventos - negativos e também positivos - nos traz um boost ao bem-estar, à semelhança dum bom sumo vitaminado ao pequeno-almoço.

 

Expressar e fazer sentido do que nos vai na mente é o melhor remédio para pararmos de ruminar, resolvermos problemas, dilemas ou simplesmente para apreciar e relembrar os melhores momentos da nossa vida. Afinal, as emoções positivas e a diminuição do stress potenciam a aprendizagem, a atenção, a criatividade e a resiliência.

 

Depois de lerem este texto, convido-vos ao seguinte: peguem na caneta, peguem no caderno, ou liguem o computador ou o telemóvel. Escolham uma (ou várias) propostas que vos deixo aqui: mas escrevam. Escrevam sobre a vossa recordação favorita ou sobre a maior lição de vida que já aprenderam. Escrevam sobre o amor que sentem por alguém. Escrevam sobre o que mais vos inspira. Escrevam sobre a serenidade, a esperança, o orgulho ou a gratidão. E, se não acreditarem que escrever tem este poder incrível, sempre podem pensar que "mal não faz". Vamos a isso?

 

***

 

Para o próximo dia 10 de Outubro (Sábado), eu e a Andreia Esteves estamos a preparar um workshop de Biblioterapia e Diário Positivo. Se estiverem interessados, encontrem toda a informação aqui e inscrevam-se aqui. Também temos um evento no Facebook e no Meetup.

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Hotel do Parque, Curia - o destino ideal para uns dias a ler e a escrever

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O Hotel do Parque, na Curia, foi inaugurado em Julho de 1922. Aos 98 anos de idade, dá-nos o conforto dum bisavô meio esquecido do passado, sonolento, enrugado, mas cheio de histórias, ou não fosse a sua decoração ao estilo Belle Époque, como nas séries Downton Abbey e A Espia (na verdade, esta última foi mesmo gravada no Hotel do Parque).

 

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Situado numa rua cheia de hotéis, incluindo o Hotel Termas da Curia, o Hotel do Parque destaca-se por ser o mais pequeno dos edifícios, parcialmente coberto de hera nas paredes exteriores e rodeado de árvores e arbustos por todos os lados. Quando passámos à sua frente pela primeira vez, ainda perdidas e abandonadas pela falta de sinal do GPS, a minha avó exclamou a brincar “é esta casa que eu vou comprar”. E não é que foi precisamente aqui que passámos estes últimos cinco dias?

 

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Inicialmente, escolhi o Hotel do Parque por me parecer o sítio ideal para vir sozinha escrever, ler e descansar, baseando-me numa recomendação blogosférica. Entretanto, a minha avó decidiu também vir comigo, alterei a reserva de uma para duas pessoas e ambas confirmamos: o Hotel do Parque fica numa zona calma, bonita, verde, silenciosa, central. Felizmente, os hóspedes com quem nos cruzámos respeitavam o espaço uns dos outros e conseguimos estar horas e horas na piscina ou no salão sem mais ninguém.

 

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(Tenho ainda a destacar que, nestes tempos em que o distanciamento social é necessário, o Hotel do Parque tem todas as condições e segue todas as medidas de prevenção ao contágio por coronavírus - assim como os restaurantes e pequeno comércio e restaurantes muito acessíveis e variados.)

 

Ao pequeno-almoço, comemos no buffet incluído no preço da estadia, do qual recomendo especialmente o pão de cereais e os bolos feitos pela proprietária, a D. Maria João. Ao almoço e jantar, ora comemos num restaurante a três minutos a pé (com pratos do dia bem confecionados e baratos), ora comemos no próprio hotel, onde é servida comida mais leve, como tostas, saladas, hambúrgueres, bebidas e outros snacks.

 

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Quanto aos espaços, todos são preciosos. Os corredores nos dois pisos são uma caixinha de surpresas para os apreciadores de loiça antiga; o salão (sem televisão) é o poiso ideal para ler e escrever nas horas de maior calor e depois do jantar; a piscina e o jardim entretêm miúdos e graúdos; os quartos são frescos, fofos e acolhedores para boas noites de sono. A cada esquina, embarcamos numa viagem de regresso ao passado, onde reina o saudosismo e uma atmosfera romântica do início do século.

 

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Pela sua antiguidade, o hotel precisaria de uns arranjos aqui e ali, o que justificará não ter mais estrelas do que 2*. Os canos são mais ruidosos, o papel de parede descola nalgumas pontas, o soalho e os armários rangem, as colchas têm buraquinhos… Só que, tal como se ele fosse uma pessoa, gosto ainda mais deste hotel vivido, imperfeito e com vestígios dos anos, do que se tudo fosse previsivelmente perfeito.

 

Last but not least, o Hotel do Parque colecciona uma data de pormenores curiosos, mas o meu preferido é a tentativa de preservação do património histórico, mas também familiar. O Hotel do Parque pertence à mesma família há quatro gerações, três das quais servem e convivem com os hóspedes ainda hoje – a D. Maria João, que nos recebe e está sempre atenta aos nossos pedidos e perguntas; o filho Zé Pedro, que acumula funções de cozinheiro, restaurador, handy man e cuidador da horta; e a mãe, D. Alda, que vamos vendo pela sala ou pelo jardim. O resto dos funcionários do hotel, incluindo a Joana, as senhoras que servem o pequeno-almoço e as que fazem as limpezas, só nos confirmam o quão agradável é estarmos neste cantinho e nem sentirmos necessidade de sair.

 

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Sentimo-nos muito bem acolhidas e aconchegadas, por isso todas as nossas recomendações são poucas. Nem o facto de termos de fazer 300km de estrada será suficiente para não voltarmos cá assim que possível, agora que descobrimos o Hotel do Parque. As estadias por noite rondam os 30€ poe quarto individual, 50-60€ por quarto duplo, ou 60-70€ por quarto triplo.

 

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(Ainda por cima, ficámos de ir ao Buçaco, ao Luso, Aveiro e Coimbra nas próximas visitas, já que acabámos por permanecer sempre no hotel.)

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Sobre a pandemia, as novas dinâmicas sociais e a saúde mental

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Esta semana, escrevi um texto para o P3 sobre uma data de coisas que sinto, e que imagino serem comuns a muitas outras pessoas. Pelos motivos que lá partilho, também me tem sido difícil escrever no blog com tanta assuidade quanto penso ser ideal. No entanto, tenho vontade de continuar a escrever, mesmo que nem sempre tenha a inspiração suficiente ou temas interessantes para um texto com sentido. Assim... Aqui vos deixo o texto do P3, é só clicarem - ou procurarem-no na secção do Megafone!

 

Espero que continuem por aí, e que estejam a aproveitar o Verão. 

Os livros certos que surgem na altura errada

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Tenho tentado lembrar-me da noite em que o meu pai me ofereceu Walden ou a Vida nos Bosques, de Thoreau. Esse é um dos livros certos da minha vida que surgiu na altura errada. Sei que o meu pai mo ofereceu quando eu era muito nova, algures entre os 9 e os 12 anos, porque ele já confiava que eu poderia ler livros grandes, mas também me lembro de achar aquele livro tão fascinante (um livro de adultos!) quanto impossível de ler. Eu era demasiado pequena, imatura para entender o tema, ou mesmo a não-ficção, muito menos um livro de memórias com um cariz político, ambiental, económico, social. Além disso, os parágrafos apertados assustavam-me, havia demasiadas palavras por página.

 

Voltei a ler Walden aos 20 anos. O papel amarelou e ficou cheio de manchinhas, mas não ficou por ler. A curiosidade aguçou-se com os anos e, afinal, recusei-me a ter uma licenciatura em Letras sem conhecer uma obra fundamental para o pensamento contemporâneo como esta. Li-o com o carinho de quem tem um livro que guardou até se sentir preparada, sempre por ali, à espera, paciente. Espero relê-lo ainda este ano, cinco anos depois.

 

Tal como Walden, fui arranjando outros livros, principalmente nos últimos dois anos, que sei que hei-de ler um dia, quando sentir que tenho o conhecimento e a profundidade para os apreciar. Por agora, sei onde os posso encontrar e isso chega-me. Há um tempo certo para todas as leituras. E para o tsundoku.

 

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Quero escolher menos

 

Less is more, dizem os gurus da moda. No entanto, cada vez mais percebo a sua centralidade, quiçá omnipresença, em todo e qualquer cantinho da minha vida - da nossa vida. Quando era mais nova, sonhava com carreiras bem-sucedidas, reconhecimento, estatuto, liberdade, viagens, conhecer tudo, todos e o mundo inteiro... Ter a possibilidade de fazer o que me apetecesse, ter os meios para escolher o que quer que fosse.

 

Depois, aprendi que mais escolha não significa mais felicidade. À medida que os meus princípios e valores se solidificaram, à medida que acumulei mais alguma experiência e tive tempo para pensar, percebi que o mais importante é simplificar. Deixei de querer as mesmas coisas e de ter as mesmas ambições, porque ter mais opções não oferece mais conforto ou liberdade, mas sim desconforto acrescido e a sensação de aprisionamento.

 

Paradoxalmente, o mundo actual oferece cada vez mais opções para tudo: planos de saúde, apps, livros, lojas, entretenimento, telemóveis, computadores, cursos, filmes, comida, até marcas de água e interesses amorosos (vejam-se as redes sociais de matchmaking)... Acabamos por viver o paradoxo da escolha, sem sabermos muito bem para onde nos devemos virar e vivendo assombrados pela inacção perante um tão alargado número de hipóteses, paralizados, assombrados pelo fardo das escolhas erradas, quando parece que temos todos os motivos para não nos enganarmos. No meio de tantas alternativas, errar parece impossível; é imperativo acertar. Temos mais escolha, mas retiramos menos satisfação.

 

O passo seguinte do meu crescimento, aquele que estou a viver neste momento, é a aceitação de que escolher o simples em detrimento do complicado é bastante menos simples do que parece. Eu só quero reviver, ou ressuscitar, um estado de graça cheio de paz e facilidade. Só quero aprender a apontar e saber que "é este" o caminho a seguir, seja na decisão dum mestrado ou na compra dum biquíni.

 

Quanto a isto, tenho aprendido novos hábitos: ir ao supermercado e trazer sempre os mesmos artigos; fazer sempre as mesmas actividades todas as semanas, repetindo rotinas; escolhendo antecipadamente uma selecção de artistas e podcasts que me interessa ouvir; apostar numa alimentação baseada nos mesmos ingredientes e combinações; ter uma lista limitada de opções de actividades para fazer no tempo livre. Ainda não acho que estas decisões me surjam automáticas, mas confio que as hei-de tornar mais intuitivas ao longo do tempo. Não quero sofrer por ter de escolher quem sou, o que faço e o que penso a cada segundo. Não quero que a minha identidade dependa tanto de escolhas fugazes e sempre novas.

 

Quero escolher menos e fazer mais. Quero sentir-me leve. Para isso, pede-se equilíbrio e menos ruído mental, menos esforço até em decisões mais rotineiras. Mais leveza.

 

E, já agora, ouçam ou leiam o que Barry Schwartz tem para dizer sobre o assunto.

"Não se queixem, criem!"

 

Às vezes, passo por fases de queixume agudo. Preciso - precisamos todos - de verbalizar, de explorar, de mandar tudo cá para fora. No entanto, nem sempre consigo recuperar e admiro quem recupera (quem não procrastina o resto da vida, por exemplo, depois destes momentos emocionalmente intensos).

 

Claro que não sou sempre assim, ou não andasse a estudar o que ando a estudar, ou não andasse a fazer as mil e uma coisas que faço, mais ou menos bem feitas. Consigo recuperar, seguir em frente, encontrar novas razões de queixa. Nesses "entretantos", gosto de pessoas que me inspiram com ideias e histórias sobre como passar à acção, contrariando a lamentação (não desvalorizando a verdade universal de que é mais fácil falar do que fazer).

 

Assim, hoje venho só dizer que gosto de ouvir a Tina Roth Eisenberg, de quem a Elisa me tem falado imenso. TRE, a criadora das Creative Mornings, descobriu falhas ou faltas no mundo à sua volta e, em vez de se queixar, diz que acabou por criar ela as soluções para os seus problemas. Vejam a palestra que vos deixo aí em cima. 

 

E, na mesma onda, quero partilhar um dos episódios do podcast "The Happiness Lab" (clicar nesta hiperligação), da investigadora Laurie Santos (professora da disciplina mais concorrida de Yale, também no Coursera, "The Science of Well-Being"), episódio no qual se discutem os efeitos dos queixumes no nosso bem-estar, e como modificar esses padrões de comunicação negativa/agressiva, nomeadamente nas redes sociais.

 

A par destas recomendações, deixo outra absolutamente diferente: um compositor português chamado Rui Massena, que tem feito as delícias do meu Spotify. Dos três álbuns disponíveis, o mais recente, III, é o meu favorito.

Aniversários, bolachas, e abraços (suprimidos)

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Três dos meus amigos já fizeram anos durante a pandemia. Um. Dois. Três. E eu também. Quatro pessoas. A quinta faz daqui a nove dias.

 

São cinco encontros sem abraços, beijos, apertos, festinhas, nem sequer a liberdade de não nos preocuparmos com o possível desleixo de uma palmadinha. É só uma palmadinha, mas a distância de segurança obriga à eliminação de todo e qualquer ensaio de contacto físico. Até o contacto visual se torna doloroso, como prova última do afastamento coagido.

 

A pandemia trouxe bolachas caseiras ao domicílio a cada um dos meus amigos nos seus aniversários (apesar de hoje ser o dia do terceiro contemplado, ainda se admirou muito que eu lá tivesse aparecido à porta), mas também o desconforto das despedidas sem algo que as marque. Se outros povos vivem bem sem o quente do xi-coração, parabéns a eles. Pelo menos na minha vida, ninguém do meu círculo mais próximo costumava livrar-se de ser esganado pelo pescoço com um "gosto tanto de ti!".

 

O risco de contágio até pode ser irrelevante nalgumas situações: todos nós, à partida, tão isolados quanto possível. No entanto, se todos violássemos esse cuidado, acabávamos a multiplicar exponencialmente a quantidade de interacções. Enfim, é difícil viver estes tempos quando somos pessoas que dependem tanto do contacto de pele com pele, bochecha com bochecha. Hoje, estive duas horas a falar com o amigo aniversariante, primeiro só a caminhar lado a lado, depois sentados num banco de jardim, e a alegria de o ver pela primeira vez em seis meses misturou-se facilmente com a angústia de não me poder aproximar.

 

No meu lanche de aniversário, uma amiga acabou por desafiar a sorte: atirou-se para cima de mim mal me viu. Perdida por um abraço, perdida pelos restantes. Acabei por me render e por deixar que o dia passasse com todo o toque possível. Soube tão bem. Foi, provavelmente, o melhor dia desde meados de Março, porque pude fingir, durante algumas horas, que estava tudo normal, pelo menos em relação a uma pessoa. A minha amiga acabou por beijar e abraçar outros membros da minha família, e fingimos que não fazia mal (não fez, felizmente), que poderia ter sido um dia normal de Junho doutro ano qualquer.

 

Cada vez que vejo amigos, tenho tanta vontade de os abraçar, de violar a distância de segurança, de não fazer nada do que é recomendado. Apetece-me apertá-los tanto, que pareça que lhes vão sair os olhinhos pelas pálpebras. Em vez disso, faço bolachas de côco ou gengibre e aceno-lhes um adeus desenxabido.

 

Esta pandemia está a dar cabo de mim.

 

***

 

Na fotografia, uma das primeiras fornadas de ensaio nas primeiras semanas de quarentena.