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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

27/30 (sobre o esquecimento)

Existem lacunas nas memórias que guardo de um certo ano da minha vida. Pessoas com quem estive entre 2018 e 2019 contam-me sobre experiências que vivemos juntos sobre as quais não me recordo. Irmos a um restaurante, irmos a um evento, termo-nos conhecido... Sei mais ou menos o que me aconteceu, e até me lembro bem dos livros que li, de tal forma que acabo por me recordar do que pensava estar esquecido quando me dizem que leituras andava a passear na mala. Mas, de vez em quando, lá vou reparando que não me lembro disto e daquilo. São buracos. Vou-me apercebendo da gravidade do assunto, principalmente quando são memórias ligadas a pessoas de quem gosto muito, ligadas a planos aparentemente divertidos, diferentes e facilmente reconhecíveis entre a espuma dos dias.

 

O que quer isso dizer? Acho que quer dizer que o mais provável era eu sentir-me bastante deprimida. Ou que talvez tivesse falta, ou excesso, de estímulos. Sim, havia muito a passar-se nesse annus horribilis, que simultaneamente foi um período cheio de coisas boas, aprendizagens e decisões importantes. Talvez eu simplesmente não tenha andado a pensar muito nisso, e me vá esquecendo naturalmente de umas coisas ou de outras, por muito estranho que pareça ao primeiro raciocínio.

25/30 (os escritores e as suas personagens)

 

"The truth is that every character has a bit of me. Perhaps an obsession, or a sadness or a dilemma. It could be some kind of wistfulness or definitely a need to know a rootedness in history. So the characters are not really me." É assim que, na plataforma Masterclass, Amy Tan apresenta a relação com as personagens que cria nos seus trabalhos de ficção.

 

Este testemunho consolou-me. Há poucos dias, acabei de escrever um conto sobre o qual tenho pensado mesmo muito e cujas personagens são, sem dúvida, uma mistura de quem eu sou, de quem eu poderia ser, de pessoas à minha volta, de quem elas poderiam ser... e, em geral, as personagens são elas mesmas, como é evidente.

 

Há uma certa fixação dos leitores no que toca a apontar dedos. "Isto é sobre mim? É sobre ti? Quem é esta personagem, afinal?" Quanto mais próximos do escritor, mais as águas se agitam: é uma questão de ego, saber se algo foi escrito sobre si, o que se insinuou, a que luz terão sido retratados. Com essa fixação, surge também a impaciência de parte a parte. Amy Tan diz que, quanto mais receio alguém tem de ter sido retratado (a bem ou a mal, intencional ou não intencionalmente), menos a razão estará do seu lado. Os leitores continuam a procurar resquícios de realidade na ficção, enquanto os ficcionistas pensam no óbvio. Que maçada!

 

Como Dulce Maria Cardoso já tem mencionado em entrevistas, não precisou de alguma vez ser gorda para entender o que uma pessoa como a sua personagem Violeta sente, que dúvidas, inquietações ou pensamentos é que tem. O que interessa, diz a escritora portuguesa, é ter empatia.

 

As personagens que são inventadas por alguém que escreve são o seu autor, ao mesmo tempo que não o são. Apesar de não surgirem do vazio, precisando de ter a sua génese em qualquer plano real, não têm de ser nem o seu autor, nem ninguém à sua volta. A tentativa de identificação é infrutífera.

 

Como tal, as minhas personagens são compósitas (de tudo e mais alguma coisa), para o bem e para o mal. No ano passado, escrevi outro texto cujo protagonista é uma pessoa que conheço. Disse-lhe mesmo que tinha escrito algo baseado na sua pessoa e até na nossa relação; mas a verdade é que esse não deixa de ser um trabalho de ficção. A protagonista não é essa pessoa e, mesmo que fosse... não seria, mesmo assim! Seria uma personagem inevitavelmente misturada doutras impressões, experiências ou indivíduos que eu conheço.

 

O último texto que escrevi é um conto, e só alguns dias depois de o terminar é que concluí: eu aproveitei muitas características minhas e doutros com quem tenho contactado, além de que criei uma personagem que, apesar de morta à partida, é a que mais facilmente identificariam como sendo eu. Mas não sou. E não, eu não tenho vontade de ser a mulher feita de palavras que criei. Nem tenho vontade de ser nenhum dos sujeitos da minha cabeça que transcrevi em texto! Para isso é que a criação serve: para extravasar, para ensaiar ou inventar o que se quiser, sem nos ser cobrado ou questionado qualquer aspecto.

 

A obra é o que é. A obra não é o autor.

24/30 (ler é um dever humanista)

Ler é um dever humanista, disse Maria do Rosário Pedreira, nesta conversa com Francisco José Viegas. É uma afirmação com a qual não poderia concordar mais. Não querendo desapropriar a autora da afirmação, pus-me a pensar nela.

 

Para ganhar o hábito, nem sei se interessa o que se lê, nem onde, nem como, se é no telemóvel, se é no Kobo, se é no computador, se é em livro, jornais, revistas... Mas que se leia! E de forma ininterrupta. Sem ser só "as gordas", que de títulos, manchetes, sensacionalismos e click bait está o mundo cheio. A seguir - e para sempre - que se continue a cultivar o desafio, outras leituras, outras escolhas, outros horizontes.

 

Ler é um dever humanista, porque estar informado mas também saber pensar, seleccionar informação e desafiar o nosso ponto de vista é, acima de tudo, um dever cívico. Imaginar outras vidas, universos, ideias, crenças, ensaiar possibilidades e experiências... Tudo isto é um exercício de empatia. Ficção ou não, ler é um exercício que nos leva a praticar e a confrontar o diferente. Ler obriga-nos a uma dedicação de mais do que ínfimos segundos da nossa atenção plena. Obriga-nos a ler e reler, revisitar ideias, discuti-las mesmo que sozinhos, sem mais ninguém. Ensina-nos a reflectir, dando-nos algumas ferramentas que não obteríamos doutro modo. É uma forma de cuidar da mente, mas também das comunidades ou grupos a que pertencemos, e da sociedade - ainda que indirectamente. É uma forma de aprendizagem, para melhor ser, para melhor estar, para melhor fazer

 

Claro que não é garantido que quem lê mais há-de levar a cabo de forma muito melhor os seus deveres de cidadania. Ainda assim, ler é um bom ponto de partida.

23/30 (porque ouço podcasts, e que podcasts ouço)

Tenho saudades de ter aulas e de assistir a conversas ao vivo, então ouço podcasts. Ouço a voz doutras pessoas, as suas lições de vida mas também o que estudam, ou o que contam sobre experiências de trabalho. Ouço sobre os seus interesses, se são activistas e em quê, como fazem o que fazem, como vêem o mundo, o que andam a ler e a ver, que dúvidas e momentos de fraqueza e fracasso acumulam.

 

Tenho saudades de me sentar e de ouvir, ao vivo e a cores, então dei por mim à procura de podcasts, por vezes só episódios específicos, que tratem do que me interessa. Embora seja como pôr o penso numa ferida que não estanca, vou-me contentando. O Spotify, o Google Podcasts e outras plataformas de streaming ajudam na procura e no encontro entre ouvintes e o produto, seja ele uma entrevista, uma troca de ideias entre amigos, uma mesa redonda, um monólogo, uma reportagem, uma aula ou explicação...

 

Entre os meus temas favoritos, contam-se os livros, a literatura, a psicologia e o ensino de línguas. Com alguma frequência, também gosto de ouvir conversas em que participem pessoas que eu admire ou que aprecie simplesmente ouvir falar.

 

Além disso, dá muito jeito ter um entretenimento paralelo com caminhadas, exercício físico ou tarefas domésticas. Os podcasts fazem tudo isto parecer muito melhor.

 

Deixo-vos com uma lista de podcasts que vou ouvindo de forma mais assídua, em português e em inglês, sem nenhuma ordem particular excepto a da enumeração de cabeça:

  1. Meu Inconsciente Coletivo
  2. Louco Como Eu
  3. A Beleza das Pequenas Coisas
  4. The Happiness Lab
  5. The Journey Talks
  6. Interruptor
  7. Shut Up Brain
  8. Biblioteca de Bolso
  9. 45 Graus
  10. The Science of Happiness
  11. Botequim
  12. Good Life Project
  13. Before Breakfast
  14. Reset

22/30 (quando as palavras se esgotam)

Tenho tentado cumprir o desafio do texto diário, mas tem sido complicado. Entre enxaquecas, sinusite e alergias que me impedem de me concentrar, outros textos aos quais me ando a dedicar de forma mais urgente, fazer as tarefas que me competem em casa, e o trabalho e o mestrado que têm de ser as minhas actividades principais, poucas palavras restam para espremer.

 

No entanto, eu sei que é importante escrever um pouco todos os dias. Obrigar-me a escrever, ou adormecer a tentá-lo (o que já aconteceu) tem-me ajudado a levar a cabo o lema de que a persistência é o melhor caminho. Não há talento que subsista sem dedicação, atenção, tempo e pelo menos a promoção d oportunidade para criar. É importante sentarmo-nos para podermos dar prioridade ao que mais tencionamos valorizar. Afinal, sempre se disse que de boas intenções está o inferno cheio. Escritores que admiro repetem essa ideia: o que diferencia um escritor promissor no seu início de carreira, mas que acabou por não escrever grandes obras, de um escritor que conseguiu ao fim de um certo tempo estabelecer-se no meio pode ser, só e apenas, o segundo ter continuado a insistir até conseguir produzir o trabalho desejado, depois de se frustrar, de se sentir um impostor, de trabalhar noutras áreas e de ter investido tempo a praticar e a experimentar. Claro que há outras variantes a considerar (a sorte, a liberdade financeira e intelectual, as circunstâncias da vida em geral), mas é fácil concluir que escrever não é só chegar lá e já está.

 

Por isso, insistirei até chegar aos 30 textos diários, mesmo que não sejam consecutivos. Quando as palavras se esgotam, continuamos a escrever, nem que seja a última palavra conseguida. Pelo menos, foi isso que aprendi sobre a estratégia da escrita por fluxo de consciência. É continuar lá, marcar o ponto, até que a água da inspiração (e, acima de tudo, da perspiração) volte a jorrar.

21/30 (mentores e autobiografias)

Hoje, escrevo em continuação ao que escrevi anteontem antes de adormecer (e sim, sei bem que falhei um dia do desafio, mas aqui continuo, em direcção às trinta publicações prometidas).

 

Como rematei, não encontro mentores no mundo imediato ao meu, ou com quem possa ou me sinta à vontade para falar, mas encontro palavras: autobiografias, artigos, crónicas, ensaios, testemunhos. Ultimamente, sinto que me vão guiando, que me vão enchendo as medidas do necessário.

 

Os blogs funcionam mais ou menos assim, já agora. São espaços simultaneamente egocêntricos e de partilha, um espaço criado porque o "eu" tinha algo para dizer, mas com a condição de que haja alguém para ler. Procuramos a experiência de pessoas com quem temos, ou talvez com quem queiramos ter, algo em comum. Ou através das quais possamos viver por contágio escrito-lido.

 

E não, não precisamos de ter precisamente a mesma vida dos autores dos textos que lemos. Talvez procuremos apenas consolo, manuais de instruções para existências múltiplas e alheias, soluções imaginadas para um mundo de possibilidades imaginadas, formas de ser, estar e sentir que poderiam ser as nossas e que só não o são por acaso.

 

E se...? E caso..., será que...? O que diz o outro sobre si, que lá no fundo também poderia ser sobre mim?

20/30 (necessidade de mentores)

Quem trabalha numa empresa, organização ou carreira facilmente encontra mentores. É a impressão com que fico. Eu mesma encontrei na minha antiga chefe um exemplo a seguir, caso me tivesse continuado a identificar com a carreira académica naquele momento, e naquelas circunstâncias.

 

Ultimamente, sinto cada vez mais falta de encontrar uma figura que represente um modelo a seguir, alguém mais velho, uma espécie de autoridade, cuja vida profissional me inspire e sob a qual eu possa ir construindo a minha, com quem simultaneamente partilhe interesses e visões do mundo. Sim, eu sou um caso muito específico, o meu trabalho (e qual deles?) não é o mais comum de sempre, mas é mais difícil racionalizar um momento de dúvida acerca do caminho a seguir quando não se conhece ninguém que o tenha calcorreado antes. Como reagir, o que é normal, qual o próximo passo? Serão todas as vidas profissionais criativas diferentes e provocadoras de sentimentos de insegurança relacionados com a fraca identificação ou existência de pares directos?

 

Assim, vou encontrando vários mentores, que não são bem mentores, no sentido de serem pessoas que eu conheça na vida real e com quem possa discutir ideias, mas que são personalidades cujo trabalho respeito. Actualmente, por aproximação e uma certa alucinação, destaco escritores que tenho tentado conhecer melhor (destaco Ann Patchett, Alexander Chee, Susana Moreira Marques ou Tati Bernardi), ou profissionais doutras áreas, como do ensino ou da formação, uns mais anónimos do que outros, que me apresentam, mesmo sem quererem, possíveis trilhos a experimentar na minha longa jornada e princípios que orientaram as suas acções.

 

E precisaremos todos, afinal, desses mentores? Ou será a minha necessidade de me sentir profissionalmente compreendida fruto de um momento mais inquietante, de mudança, transição e questionamento inevitável? E mais: como e onde encontrá-los?

13/30 (nas urgências de um hospital)

No mês passado, fui atendida nas urgências do hospital de Évora. Há dois ou três dias que estava com dificuldade a respirar, tinha um peso no peito como se fosse uma alergia a causar-me expectoração que não saía, tinha perdido a voz e sentia-me em esforço só por andar cem metros. A Primavera estava a começar e eu pensei mesmo que poderia ser essa a causa do desconforto.

 

Quando os anti-histamínicos não funcionaram e não me conseguiram encontrar a causa para o meu quadro no centro de saúde, tive de ir às urgências. Depois de esperar três horas, fui atendida numa sala improvisada e apinhada, a que chamavam o balcão das mulheres. Só uma parede e um par de cortinas separava o balcão das mulheres do balcão dos homens. A equipa de médicos, enfermeiros e auxiliares dividia-se entre os dois.

 

O espaço parecia demasiado pequeno para tanta gente, e eu imaginava a constituição do ar que todos respirávamos como uma massa invisível, mas saturada de partículas disto e daquilo. E o vírus, oh, o vírus. Evitei pensar no assunto. Outras pacientes acamadas urinavam em arrastadeiras, outras vomitavam a sopa que acabavam de comer à hora de jantar. 

 

Senti-me desamparada, sozinha, no meio de tanta gente, no meio de um hospital enorme, mesmo sabendo que no parque de estacionamento estava o João; e, à distância, os meus amigos e família.

 

O médico obrigou-me a falar, apesar de eu estar afónica, apesar de eu ter um relatório dos médicos do centro de saúde dentro de um envelope que ele só usou para rabiscar as suas próprias notas. "Uma coisa é o que o colega escreve, outra coisa é o que o paciente tem para dizer, e eu gosto de ouvir os meus pacientes, tenho todo o tempo do mundo. O paciente é como um cliente, e eu tenho de ouvir o meu cliente", defendeu-se esse médico (e eu, sem voz, fôlego ou energia anímica para lhe explicar que o relatório não tinha sido elaborado por um, mas sim por dois médicos, um dos quais a pessoa com quem vivo, e que o que ele estava a fazer demonstrava um enorme desrespeito para com os colegas; e que, já agora, eu sei como se trata um cliente, porque tenho um negócio e, por isso, sei como funciona um, muito obrigada, dispenso sermões).

 

No final, após eu ter finalmente explicado o que se passava comigo (de forma obviamente incompleta e imprecisa, a chorar, dos nervos e da impotência); depois de exames, raio X, análises, veias e artérias picadas até à nódoa; horas sentada à espera em cima duma maca dura partilhada com outra pessoa, com as costas contra a parede; a ouvir as dores, queixas, gemidos de mais cinquenta mulheres naquele espaço tão pequeno... No final, recebi um diagnóstico de ansiedade.

 

"Vocês, os jovens, têm de ser fortes. Têm a vida toda pela frente." Esse médico esteve uns bons cinco minutos a dizer-me o quanto eu tinha de ultrapassar essa ansiedade, porque era jovem. Não fez mais perguntas. Não pôs sequer em causa que aquele não seria o território dele, não lhe caberia a ele fazer julgamentos. Em vez de me consolar, fez-me sentir culpada pela minha própria ansiedade - ansiedade que eu ainda nem sabia que, nessa altura, poderia ter atingido um nível tão alarmante. Eu só a sentiria, psicologicamente falando, alguns dias depois. Com aquele discurso imprevisto e indesejado, este médico fez-me sentir que estava a mais na urgência, como se saúde mental não fosse saúde, como se eu não tivesse razões para ali estar. 

 

Depois dessa sexta-feira à noite tenebrosa, a minha ansiedade acabou por se manifestar. Tive um ataque de pânico tão grande, que estive umas quantas horas no que me pareceu um estado delirante. Tive de parar de trabalhar durante uns dias. Depois desse episódio, também tive de criar outros hábitos na minha vida profissional e pessoal em geral, procurar outra ajuda e tentar fazer as pazes com o evento. Ainda assim, quero acreditar que quem me atendeu nas urgências de Évora faz parte de um grupo que é a excepção e não a regra no que toca ao tratamento de doentes com sintomatologia que não sejam tão visíveis quanto um ataque cardíaco, um AVC ou um braço partido. Cuidar da saúde mental não é uma mimalhice.

 

Nem todas as feridas deitam sangue ou deformam o corpo.

12/30 (a mulher do doutor)

Passeio a Coffee e as vizinhas sentadas ou encostadas a meio da rua falam comigo. São senhoras com setenta ou oitenta e tal anos, que procuram a sombra para confraternizar aos pares, com máscara e tudo, e também uma ou outra tem cães que passeia pelos mesmos caminhos que eu. Estas são vizinhas a quem me apresento, sou a Beatriz e vivo desde Dezembro naquela casa ali (aponto), perto das esplanadas.

 

As vizinhas acham que sim, que já sabem quem sou. Sou filha daquela senhora que se mudou há pouco tempo, ou sou filha da senhora que trabalha na Câmara, ou sou filha de alguém, pronto. E insistem, sou filha daquela senhora, aquela senhora sobre a qual nem conseguem concordar entre si, sim, mesmo quando digo que não, não, não.

 

Finalmente, consigo cortar-lhes a palavra: o meu namorado é o novo médico do centro de saúde, o Dr. João, que está a trabalhar com o Dr. David. Ah, então o seu marido é o novo médico...? É, sim, confirmo. Nos últimos meses, vim a aprender que não vale a pena negar o estado civil que nos passam ainda sem copo d'água, então eu mesma começo a casar-me só com palavras, o meu marido isto, ou a retorquir sem relação, o meu João aquilo.

 

As pessoas vêem-me todo o dia, ora com as portadas da sala abertas, ora no terraço do telhado, ora a sair e a entrar. Trabalho em casa, gosto de sol e gosto de janelas escancaradas. Raramente vêem o João, que trabalha do outro lado da vila e que raramente é avistado. Não sabem quem ele é, mas sabem quem eu sou, e pedem confirmação à dona do café que existe por baixo da nossa sala. Eles têm uma menina, é aquela menina de óculos, não é? Eles serão o novo médico e uma mulher hipotética. Divertida, a D. Dália responde que a menina é a mulher do doutor, ri-se e vem-me contar sobre o engraçado que é eu parecer tão nova que confundo as vizinhas.

11/30 (as mulheres dizem)

As mulheres dizem, os homens negam.

As mulheres dizem que têm medo de andar na rua, de dia ou de noite, os homens negam.

As mulheres dizem que os piropos, assobios e comentários despropositados são atentados contra a sua integridade física e a sua segurança, os homens negam.

As mulheres dizem que são vítimas desde pequenas, os homens negam.

As mulheres dizem que não saíram de relações física ou psicologicamente violentas antes, porque não tinham força, apoio ou sequer noção do que lhes estava a acontecer, e não por falta de desconforto, dor ou trauma, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem ameaçadas por mensagens sexuais não solicitadas que recebem na Internet, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem discriminadas no mercado de trabalho, ora porque ganham menos, ora porque não têm acesso facilitado às mesmas carreiras e oportunidades, ora porque colegas e chefes do sexo masculino as oprimem e adoptam comportamentos no mínimo condescendentes, os homens negam.

As mulheres dizem que há expectativas irrealistas sobre a sua imagem, os homens negam.

As mulheres dizem que ainda são educadas, de modo mais ou menos consciente, para serem subservientes, os homens negam.

As mulheres dizem que têm demasiadas pessoas a meter o nariz na sua vida pessoal, amorosa ou sexual, os homens negam.

As mulheres dizem que a maternidade não é um paraíso e que licença de maternidade não é o mesmo que férias, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem assoberbadas pelo trabalho doméstico e pelas responsabilidades familiares e profissionais simultâneas, os homens negam.

As mulheres dizem que não vivem tão livremente quanto deveriam, os homens negam.

As mulheres dizem que a sociedade não as entende e recusa entender, os homens negam.

As mulheres dizem que há enviesamentos, preceitos e preconceitos invisíveis e enraizados na nossa linguagem e forma de estar, os homens negam.

As mulheres dizem que, no século XXI, até na Europa, ainda vivemos num mundo de homens, e os homens... é claro que negam.

 

Agora, continuem vocês... o que têm as mulheres para dizer?

 

***

 

Ontem, os Fazedores de Letras publicaram um texto da minha autoria que termina assim: Quem sou eu, se mais ninguém estiver a olhar para mim?

 

É um ensaio que, partindo duma reflexão sobre como a mulher é retratada na arte, pretende questionar de que formas ainda é condicionada e vista na vida real. O texto integral pode ser lido AQUI e também vos deixo um excerto:

A mulher do século XXI ainda vive num mundo onde prevalece o olhar masculino, exterior e que não lhe permite olhar para o seu reflexo como se este lhe pertencesse exclusivamente. (...) Mas não interessa se somos mais famosas ou meras anónimas: os padrões, expectativas e pressão existem para todas. Padrões de beleza, de inteligência, de maternidade, de sexualidade, de conjugalidade, de envelhecimento; a pressão e as expectativas sobre a forma como desempenhamos a nossa profissão, a forma como aparecemos na vida pública, a forma como aparecemos nas redes sociais.