Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Vamos escrever e ler sobre ansiedade: Depois a Louca Sou Eu (Tati Bernardi)

LRM_EXPORT_344244564176851_20190710_094520012.jpeg

 

Dar nome às coisas é terapêutico, e até há bem pouco tempo eu não sabia que essa coisa da ansiedade tinha nome e fama. Pensava que "sofrer dos nervos", ter momentos off, estar em baixo e ter o coração nas mãos do nada era só mais um problema entre tantos, e raramente crónico ou generalizado.

Há cerca de um ano, comecei a ler e a falar cada vez mais sobre o assunto. Afinal, havia outras pessoas à minha volta a passarem pelo mesmo, ou pior, e também pessoas que admiro, incluindo escritores. Curiosamente, apesar de já ter visto o livro que vos apresento hoje à venda no site da editora Tinta da China, decidi comprá-lo depois de ter sido recomendado pela Ana Garcia Martins no Instagram.

Tati Bernardi, argumentista da Globo, também é uma dessas pessoas que quer normalizar a ansiedade, sem a ostracizar, como fica claro em Depois a Louca Sou Eu, um relato autobiográfico sobre a sua experiência como alguém que também foi descobrindo como lidar com essa nuvem constante, desde os momentos em que o peito fica pesado, até à incapacidade de sair de casa e conviver com outras pessoas, passando pelo estigma, incompreensão e descrédito. É verdade que quem tem dessas coisas é que é visto como "louco", mas a autora acaba por concluir que, de facto, há gente ainda mais louca do que ela sem assim ser rotulado.

 

O melhor deste livro é, sem dúvida, o sentido de humor (ainda por cima, com a expressividade do Português do Brasil), sem desvalorizar a seriedade com que o tema é tratado - de tal forma que, se lesse o livro antes de dormir, me sentia agitada. Tati Bernardi conta-nos como tem sido viver refém da ansiedade desde criança até à idade adulta. Depois a Louca Sou Eu está dividido em pequenos capítulos, cada um sobre um momento ou uma situação decorrente desta condução: a necessidade de isolamento, a falta de ar, os ataques de pânico surpresa, o medo de sair à rua, as viagens de avião e nos transportes públicos, a racionalidade ao reflectir na irracionalidade das suas próprias acções e emoções, as relações falhadas, a família igualmente disfuncional, o gap geracional porque as gerações mais velhas não falam sobre saúde mental, a evolução profissional e os deveres sociais, a antiga dependência e a recém-descoberta independência de fármacos...

 

À parte o último ponto, e não sofrendo tanto quanto ela, consegui rever-me em quase tudo o que é contado. Aliás, senti-me bastante aliviada por ler sobre o que também é a minha saga de evitação de espaços apertados e barulhentos, e sobre a dificuldade que por vezes tenho até a enviar um e-mail ou mensagem de texto a outra pessoa, e sobre a fuga constante de planos em grande grupo, e sobre a forma como a ansiedade molda ou influencia as minhas relações pessoais.

 

Gosto muito de saber que a nossa saúde mental está a ganhar espaço nas prateleiras e estantes deste mundo. Não temos de ser loucos, se calhar somos todos ligeiramente abananados do miolo, mas falar sobre as diferentes tonalidades do que sentimos não é queixume, é apenas partilha. Talvez nos comecemos a sentir mais à vontade para o fazer se os meios de comunicação social, os produtos de entretenimento e as manifestações culturais, as celebridades e pessoas que admiramos forem as nossas referências na normalização da procura de bem-estar interior.

 

📚Há algumas semanas, também escrevi sobre O Mundo à Beira de Um Ataque de Nervos. Na minha opinião, ler experiências pessoais de quem também tenta encontrar respostas e calma é catártico e consola-me. Raramente estamos sozinhos nas encruzilhadas humanas, há sempre mais alguém a passar pelo mesmo - não é?

As famílias perfeitas não existem: Little Fires Everywhere (Celeste Ng)

LRM_EXPORT_139386637283631_20190619_201432082.jpeg

 

Mais importante do que ser é parecer - aposto que já ouviram esta frase várias vezes. De facto, há quem viva por esse lema e pense que está tudo bem. Mostrar que somos aquilo que idealizamos é que interessa para manter uma imagem estável, agradável e que faça os outros invejar-nos... Será?

 

A primeira vez que fui confrontada com esta (ir)realidade das aparências já aconteceu bastante tarde: devia ter 12 ou 13 anos quando uma colega me contou que os pais estavam separados... mas que era segredo! O pai até tinha outra família, ela tinha irmãos pequenos dessa união. Mas era segredo! Nada de contar no colégio! Que uma adolescente esconda estes factos, ainda por cima numa idade tão complicadinha, é aceitável. No entanto, permitir que um filho faça segredo de tal coisa... Deve ser tão triste permitir que um filho ache que é melhor varrer as imperfeições para debaixo do tapete! O que motivará alguém a fazê-lo?! E, ainda por cima, já na década de 2000... Claro que, pela vida fora, tenho ouvido e visto ainda mais casos semelhantes, famílias e indivíduos com tectos de vidro tão, tão fino...

 

O livro que vos apresento é exactamente sobre isso, sobre os idealismos de trazer por casa, que se passeiam pela rua e se adoptam em prol do dito bem comum e imagem imaculada da sociedade, perante a sociedade: Little Fires Everywhere, da autora Celeste Ng (em português, Pequenos Fogos em Todo o Lado), publicado em 2017. Não me lembro da última vez que um livro de ficção me interessou tanto, que até a andar pela cidade eu continuava a ler, sem olhar para os pés ou para o caminho. Foi tão, mas tão positivo! Tão empolgante! Tão prazeroso!

 

Vejamos... Shaker Heights, no final dos anos 90, é uma comunidade cuidadosa e especificamente criada para albergar um certo tipo de pessoas, isto é, famílias felizes, bem-sucedidas em casa, no trabalho e na escola, preferencialmente de classe média alta, gente bonita, cumpridora, pacífica, solidária, sensível e inclusiva. Assim são os Richardson, uma família de pai advogado, mãe jornalista e quatro filhos que servem de modelo de virtude para a história, contrastando com as inquilinas do seu pequeno apartamento, uma artista (mãe solteira) chamada Mia e a filha adolescente, Pearl.

 

Desde a primeira página que sabemos que estas duas unidades entrarão em contacto e algo de muito mau acontecerá: a filha mais nova dos Richardson pega fogo à casa perfeita da família, depois de Mia e Pearl finalmente abandonarem Shaker Heights. Todo o livro acaba por trazer clareza às perguntas "porquê?" e "como?", o que Celeste Ng considera ser a sua prioridade ao contar uma história. Saber como acaba uma história é fácil; perceber todo o contexto que leva a esse desfecho é que nos mantém agarrados às páginas, nem que seja pela crítica permanente, ao revelar dos pequenos fogos que consomem cada personagem...

 

Little Fires Everywhere é uma história sobre as imperfeições das famílias perfeitas, imperfeições que todos nós gostaríamos de varrer para debaixo do tapete, mas que entram em ebulição quando são evitadas e reprimidas. É um livro sobre idealismos, é a própria autora quem o diz. Eu digo que também é um livro sobre a hipocrisia. Num mundo que se quer ideal e imaculado, há tanto que fica por fazer e dizer. Há tanta podridão. Ouço dizer desde pequena que só quem vive no convento é que sabe o que lá vai dentro e Celeste Ng escreve não só sobre isso, mas também sobre os segredos e pensamentos mais privados de cada personagem.

 

É tão fácil julgar e ser julgado, mas no final todos procuramos o mesmo, que é fazer parte duma comunidade, pertencer, lançar raízes, ser-se amado e respeitado.

 

No podcast em que ouvi uma entrevista a Celeste Ng, foi dito que o seu livro de estreia, Everything I Never Told You (2014), também se passa em Shaker Heights, onde a própria escritora cresceu. Isto deixa-me mesmo muito curiosa, porque gosto muito de autores que escrevem histórias que, não sendo completamente reais, são inspiradas por e acontecem nos locais que melhor conhecem e onde passaram as suas infâncias (em português, temos o caso de José Luís Peixoto).

 

📚 Se procuram um livro de ficção que não vos dê descanso enquanto não o acabam, Little Fires Everywhere é a resposta às vossas preces. Por exemplo, também ando a ler o livro The Science of Storytelling (de Will Storr, do qual vos falarei dentro de alguns dias), e apercebi-me de que todos os ingredientes recomendados para uma história bem contada estão lá, todos usados pela Celeste Ng.

Já agora, esta foi a minha escolha de Junho para o desafio Uma Dúzia de Livros da Rita da Nova!

E sabiam que vai haver uma série baseada nestes pequenos grandes fogos, com a jeitosa da Reese Witherspoon?!

 

📝 Que outros livros de ficção vos deixam assim, tão empolgados?

Aos 23

InFrame_1560781347138.jpg

 

Hoje, no último dia dos 23, uma aluna que conheci pela primeira vez disse-me, ao ver-me, que estava à espera de alguém mais velho.

 

"For some reason...", justificou, visivelmente confusa. Balbuciei "yes, I am quite young". E, sem saber o que mais responder sobre tal assunto, levei a conversa por outros caminhos.

 

As várias questões ligadas ao tempo na minha vida ocupam grande parte das preocupações que realmente me importam no dia-a-dia. Ora tenho sede de devorar o tempo, de chegar mais depressa não sei onde, de conseguir fazer mais e melhor, para saber o que vai acontecer no próximo capítulo; ora o tempo parece nunca mais passar e eu continuo pequenina, migalha esfarelada no universo; ora querendo pará-lo e esticá-lo. Tem de me servir nas medidas.

 

Aos 21, comecei a dar aulas numa universidade do outro lado do mundo, assinei o meu primeiro contrato de arrendamento para um apartamento num também 21º andar, sentindo-me tão crescida, mas mais pequena do que nunca, tão vulnerável e tão pouco credível. Durante mais de ano e meio, evitei revelar aos meus alunos quantos anos - ou meses - me separavam deles. Especularam sempre o previsível, entre 25 e 30, o que eu também não desmentia.

 

Depois, regressei a Portugal e comecei a trabalhar por conta própria, a criar o que desesperada e orgulhosamente chamo "o meu negócio". Mais uma vez, a questão que me assombra - quantos anos tenho? Lá respondo a verdade, sempre recebida com sobrolhos franzidos, pausas para rir ou admirar o quão nova sou. Um bebé, respondo sempre.

 

E as feições e restante paisagem não mentem: cara de bolacha Maria, acne, corpo franzino, sorridente sempre que possível, mesmo nos dias mais difíceis. Poderia ter, sei lá, 15 anos.

 

É o que vos digo. Um misto de orgulho, desespero e desconforto. "Aos 23, eu só pensava era em festas", já me responderam. Hoje, "estava à espera de alguém mais velho... por algum motivo".

 

Tenho tanto medo de não ser credível, de não me mostrar estando ao nível dos desafios, de ser desmascarada de sei lá o quê. Quero tanto fazer tanto, quero aproveitar para fazer muito enquanto sou nova, mas também quero que me levem a sério, não irei ser só a miúda. 


Depois, as pessoas à minha volta a consolarem-me. "És tão nova", dizem-me, enquanto me sinto e sempre me senti uma alma velha, sem me identificar com a maioria das pessoas da minha idade e a procurar abrigo nos mais velhos, logo eu, que ainda por cima passei os primeiros cinco anos de vida sozinha em casa com a minha avó, que nunca me falou como se eu fosse uma criança, mas sim compreendendo-me e argumentando como se eu fosse sempre capaz de acompanhar qualquer discurso. E as conversas de política à hora de jantar, os livros, a televisão. Sou nova, sem o ser. Até o cansaço mental é o de alguém que já viveu mais do que isto - é o que me parece.

 

Chegará um dia em que hei-de querer voltar a ter esta idade, porque também há o reverso da medalha: ser-se demasiado velho. Por agora, não desgosto assim tanto de ser nova. Uma miúda.

 

Por agora, só quero ficar em casa, não gosto de festas, prefiro convívios ao fim-de-semana, gosto de rotinas, silêncio e estabilidade.

 

Assim escrevi no último dia dos 23, 15/06/2019, e corrigi e editei a 17/06/2019.

Pelos direitos das criancinhas

 

Todas as crianças devem ter direito a quem assista às suas necessidades. Devem ter um porto de abrigo. Devem estar rodeadas de exemplos e figuras protectoras. Devem poder estar acompanhadas na sua descoberta do mundo, fazendo uso das suas faculdades em desenvolvimento, nomeadamente imaginação, empatia, perspicácia, inteligência emocional, comunicação interpessoal.

Em vez disso, cada vez me apercebo mais da quantidade crescente de ditas mães, em particular nos transportes públicos, que preferem ter as fuças (que não há outra referência anatómica possível) na porcaria do telemóvel. Temo pelo dia em que os psicólogos deste mundo comecem a divulgar resultados científicos sobre sintomas de abandono precoce por causa de dispositivos tecnológicos terem sido mais importantes para as figuras parentais do que os filhos, futuros pacientes que encherão os bolsos de terapeutas dentro de menos de uma década.

Sim, é verdade que estas mães podem estar cansadas. Podem querer ter um momento de descanso, nem que seja dois minutos de prazerosa indulgência nas redes sociais desta vida, uma palavrinha no grupinho de WhatsApp com as amigas, alguns momentos em que a mulher com vontade própria se sobrepõe ao chamamento da maternidade...

No entanto, deixem-me insistir nesta crítica: vejo mães com as fuças metidas nos ecrãs, com as crianças a apontarem para aqui e para ali, olha ali, um semáforo, olha ali, outro menino, oh mãe, olha que giro, olha ali, o que é aquilo...? Não é uma vez, não são duas nem três, chegam a ser dez minutos de tortura para quem rodeia estas progenitoras obviamente alienadas da natureza. Está quieto, deixa-me em paz, olha as pessoas, estás a ser chato, estou a ficar sem paciência, estás-aqui-estás-a-levar, epá, cala-te, já não te posso ouvir. Primeiro, as crianças rejubilam ao maravilhar-se com o mundo; depois, começam a falar mais baixinho, com cuidado; finalmente, choramingam e conformam-se.

São não só ignoradas, mas admoestadas e silenciadas. E mais: são ridicularizadas. Crianças pequenas, talvez quatro, cinco ou seis anos, a serem ridicularizadas pelas próprias mães, por estarem a ser chatinhas, por não estarem quietas, por não estarem caladas, por estarem a fazer barulho em público! E tudo isto a ser dito enquanto nem sequer as olham nos olhos, sempre com a merda dos narizes enfocinhados para a frente, cegas, frias, embrutecidas como bestas de carga de palas nos olhos.

Ridículo é este modelo de maternidade (não sendo a minha amostra representativa, ainda nunca vi nenhum pai fazer tal coisa). É ridículo e triste. Teremos toda uma geração muito em breve que terá sido preterida em função de caixas de luz com texto e imagens. Se a minha geração perdeu pais para os amantes, para a bebida, para o jogo, para as dívidas e outros vícios que tais, as vindouras perdê-los-ão para a entropia digital dos nossos dias. A indignidade desta realidade crescente revolta-me e só aumenta o meu descrédito nos cidadãos contemporâneos. Correndo o risco de ser injusta, quiçá politicamente incorrecta (uuuuuuh), quem nem consegue criar os filhos, estimular-lhes as capacidades cognitivas, físicas, ou simplesmente por não lhes conseguir mostrar o que é o amor... não deveria receber uma visitinha das entidades competentes?

Ora, vergonha alheia. Toda a gente sabe que as criancinhas só servem para sacar likes no Instagram.

O luto e a impotência da perda: The Year of Magical Thinking (Joan Didion)

LRM_EXPORT_276497739492560_20190608_131208256.jpeg

 

Life changes fast. Life changes in the instant. You sit down to dinner and life as you know it ends.

 

Já perderam alguém querido de um momento para o outro? Já vos aconteceram situações inesperadas que mudaram a vossa vida para sempre?

 

É este o mote para todo o livro The Year of Magical Thinking, de Joan Didion. Deve ser o livro mais triste, mas também dos mais bonitos que li este ano. Joan Didion é conhecida por ter tido uma carreira completamente ligada à escrita, nomeadamente na Vogue, na revista The New Yorker e como guionista (como o remake de A Star is Born de 1976), mas este é um livro, digamos, de memórias.


Quem também conheceu no trabalho e a acompanhou durante mais de quarenta anos de vida foi o marido, o também escritor John Dunne. The Year of Magical Thinking não é só sobre ele, mas sobre o seu falecimento e o ano que se seguiu. Este é um livro sobre o luto, o que por si só é triste, mas que neste caso tem todo o contexto dum casamento feliz que lhe precedeu.

 

O luto de Didion consiste numa tentativa constante de reconstrução dos factos que levaram ao momento em que John se sentou para jantar e teve um ataque cardíaco, revisitando recordações desde o momento em que se casaram até à noite de 30 de Dezembro de 2003. Por isso, o sentimento de impotência prevalece, mesmo quando são contadas memórias felizes. A autora quer ter respostas que, na verdade, são óbvias. Como e de que morreu o marido? Ela poderia ter feito alguma coisa para o evitar? Como é que poderiam ter tido uma vida ainda melhor? Deveria ter lido melhor os sinais, tanto os sinais médicos quanto os esotéricos? Que entrelinhas lhe falharam?

 

Para mim, o mais importante a reter e a apreciar neste livro é o raciocínio de alguém que perdeu a sua pessoa favorita no mundo, embora não acredite que seja o melhor trabalho escrito fale Didion. O que faz deste livro tão bonito é o carinho omnipresente e a falta que faz a pessoa com quem se escolheu passar a vida.


Por outro lado, a dor. Li a maior parte de The Year of Magical Thinking antes de adormecer e tive quase sempre sonhos relacionados com a perda súbita de alguém, ou com a impotência e casualidade da maioria dos eventos na nossa vida, que não podemos controlar. A procura desse controlo é vã, mas devolve-nos algum conforto, por nos fazer parecer que estamos a tentar tanto quanto possível. No caso de Didion, nada iria mudar o facto de o marido sofrer de problemas cardíacos, com predisposição genética e detectados várias décadas antes da morte, mas mesmo assim a procura incessante de respostas mostra-se tão inevitável quanto a doença (da filha de ambos, Quintana) e a morte.


Assim, se procuram entender melhor o a relação entre os vivos e os mortos, o amor que sobrevive a qualquer um, se perderam um ente querido e precisam de consolo e catarse, se querem ler sobre casamentos e histórias de amor que só a morte separa... The Year of Magical Thinking é o que vos faz falta na estante. Não é uma leitura emocionalmente fácil, mas de certeza que nos enternece.

 

-----

🤯E agora que já terminei este livro fininho, mas pesadote... O que recomendam de mais leve e para a boa disposição das pré-férias, com dias tão bonitos?

O primeiro dia da Feira do Livro de Lisboa 2019

IMG_20190529_205556.jpg

 

Diziam que, em 2019, a Feira do Livro de Lisboa seria maior, mais sustentável e que teria mais actividades. Ainda só fui ao primeiro dia, estive lá por volta da hora do jantar até ao fecho, e estas são as minhas conclusões acerca do que vi.

 

De facto, a Feira do Livro de Lisboa 2019 está maior. Tem mais bancas, mais editoras e projectos, e não é por causa disso que está mais apertada. Continua a haver espaço para circular e é apenas normal que, de vez em quando, tenhamos que esperar pelo leitor anterior para chegar à bancada seguinte. Para quem já tem uma lista de desejos, penso que vai valer imenso a pena esperar pela segunda semana da feira, quando começar a haver Hora H, ou andar à caça dos Livros do Dia. Os descontos parecem ser simpáticos e todas as desculpas são poucas para lá ir arejar as ideias (ainda por cima, trabalho a cinco minutos a pé, que desgraça!!!).

 

Por outro lado, falta comida... de jeito. E em variedade. Apesar de haver opções vegetarianas, há pouco mais do que hambúrgueres, wraps e pitas. As farturas não faltam, mas não fazem um almoço ou jantar. Tudo o resto, que não é muito, é extremamente caro. O meu conselho é que tentem comer antes de ir à FLL ou, se tiverem fome enquanto lá estão, saiam ou levem um lanchinho (e claro que a comida é importante, porque, se forem como eu, são capazes de lá ficar tempo suficiente para precisarem de sustento pelo meio). Também acaba por ser demorado estar nas filas intermináveis ou à espera de se ser servido. Ontem eu e o meu namorado ficámos vinte minutos à espera duma mísera pita de frango com batatas de pacote, tempo esse que gostaríamos de ter gasto a ver livros, o pôr-do-sol ou simplesmente a descansar.

 

No entanto, acho que a minha maior crítica quanto à bebida e comida é outra. Tudo o que era notícia e anúncio à Feira do Livro 2019 declarava que seria OH! tão sustentável! Mas esqueceram-se do mais óbvio: onde podemos encontrar água? Estamos no século XXI, não conheço quase ninguém que não se faça acompanhar garrafas reutilizáveis. Ainda assim, a FLL não tem nenhum sítio onde ir enchê-las, e como se não bastasse vende garrafas de água a 2€. Sendo um evento onde se vai com a família, onde os aficionados ficam bastante tempo e andam dum lado para o outro, debaixo de altas temperaturas, não aleijaria ninguém haver alguns dispensadores de água, mesmo que pagos, em locais estratégicos do recinto. Pouparia os nossos bolsos e o ambiente, tudo ao mesmo tempo. Serei a única a achar que isto faria maravilhas?

 

Quanto às actividades, tenho pena que a Hora H comece só na segunda semana, mas não sei muito mais, porque ainda é demasiado cedo para comentar e porque não costumo ir à Feira do Livro por causa das actividades (excepto os dois clubes de leitura de que faço parte e que já marcaram os encontros de Junho na FLL). Só espero que consigam atrair leitores e potenciais leitores, que propiciem um ambiente familiar agradável e que tornem a Feira do Livro de Lisboa ainda melhor e memorável para os mais novos.

 

-----

 

📚 E por aí, quais as vossas expectativas para a Feira do Livro de Lisboa 2019? Eu portei-me muito bem ontem, não comprei nada e estou-me a guardar para os Livros do Dia e para a Hora H. Não me apetece cair em tentação, por isso já tenho uma lista de compras para a primeira semana, a ver se não gasto por impulso o dinheiro de que vou precisar para fazer tudo o que quero durante o Verão.

 

😈 Aproveitem e deixem as vossas queixinhas nos comentários!

Sobre as relações de vizinhança: Casos do Beco das Sardinheiras (Mário de Carvalho)

IMG_20190525_161308.jpg

 

Tenho pena de quem nunca tenha experimentado a sensação de ter nos seus vizinhos uma mão extra quando falta, a companhia suplente para os grandes eventos, o ingrediente que falta ou as ofertas inesperadas dum bolo, uma fruta trazida da terra, os legumes da horta ou uma boleia quando o carro não pega. A vida é tão melhor quando vivemos perto de pessoas cujos nomes sabemos, a quem podemos sorrir logo de manhã ou com quem nos cruzamos no elevador sem grande constrangimento. Os meus vizinhos em Portugal partilham tudo o que cultivam na horta, e até me venderam o carro deles em segunda mão por um preço simpático; e os do outro lado da rua foram como uma extensão à família durante a minha infância e adolescência. Do outro lado do mundo também tive sorte: uma das minhas vizinhas tailandesas em Bangkok trazia-me mangas e fruta-dragão da terra dela, apesar de nem falarmos a mesma língua e a nossa comunicação se basear em pedaços de inglês aqui e ali e em risos e wais descoordenados.


Pareceu-me ser esse o tema do livro Casos do Beco das Sardinheiras, de Mário de Carvalho: a vizinhança com quem se mantém uma relação amor-ódio, que são realmente tudo de bom, mas que de vez em quando também podem ser só gente metediça e inconveniente. À mistura, temos um bairro muito sui generis, que tem tanto de típico, como de paranormal. Eventos estranhos acontecem no Beco das Sardinheiras, ora por culpa dum vizinho, ora por culpa do outro, ora por sabe-se lá que carga de água.

 

Ler os Casos do Beco das Sardinheiras é como abrir um glossário de expressões idiomáticas que os nossos avós usam, ou que pelo menos se ouvem cada vez menos. A cada página, parece que somos surpreendidos por mais uma, que provavelmente nunca ouvimos antes. Ainda bem que há quem tente preservar este espírito que será enterrado à medida que tais expressões caem em desuso! Sempre que descobria uma nova, só pensava "e se alguém tentasse traduzir isto para outras línguas?!". Acho que nem dava, ou seria precisa muita mestria para abarcar a sua riqueza linguística e cultural.

 

IMG_20190527_105140.jpg


Mesmo assim, foi o último dos Casos do Beco das Sardinheiras que realmente me surpreendeu. Não vos vou contar qual é o desfecho, mas prometo que ficarão surpreendidos e que lhe acharão graça.


Se estão à procura dum livro literalmente levezinho escrito por um autor português, talvez porque, tal como eu, se andam a desleixar na leitura da nossa língua nativa, recomendo este. São casos que nos fazem ficar a pensar que, mesmo quarenta anos depois de serem escritos, continuam a fazer sentido neste modo de estar tão português, tão cosmopolita, e simultaneamente tão provinciano.

 

📚 Têm mais alguma sugestão de leitura em português? Esta foi a minha leitura de Maio, com o tema "Flores", para Uma Dúzia de Livros, promovido pela Rita. 

Encontrámo-nos anteontem para discutir as nossas leituras, no sítio do costume -  A Sala, uma cafetaria/espaço de lazer muito acolhedor em São Bento, onde também já organizei um workshop e onde tento ir sempre que possível! O gelado da primeira foto estava delicioso!

 

IMG_20190525_170230.jpg

 

Andamos cronicamente ansiosos: O mundo à beira de um ataque de nervos (Matt Haig)

IMG_20190520_114755.jpg

 

Ao olhar para a lista de livros que já li este ano, apercebi-me de que tenho andado a ler muita não-ficção, como não me lembro de alguma vez ter lido. Continuei por esse caminho com O mundo à beira de um ataque de nervos (em inglês, com o título original Notes on a Nervous Planet, que faz muito mais sentido), de Matt Haig. Este também é o autor de Razões Para Viver, sobre como ele próprio sobreviveu aos seus problemas de ansiedade, à depressão e aos pensamentos suicidas aos vinte e poucos anos. Por isso, O nundo à beira de um ataque de nervos poderia quase ser a continuação dessa reflexão, agora menos pessoal e mais dirigida a todos nós, parte duma humanidade cronicamente ansiosa e nervosa.


Quando vi este livro pela primeira vez na Fnac, agarrei-o e devorei 30 páginas em quinze minutos. É um livro fácil, tem a letra gordinha e espaçada, a edição em português está bem concebida e por isso e mais alguma coisa dá prazer lê-lo.


Para mim, essa mais alguma coisa é o tema e o facto de não só concordar como também me rever no que está escrito. Segundo Matt Haig, estamos sobrecarregados de informação e estímulos, facilitados pelos constantes avanços tecnológicos e pelo uso da Internet.


Tantos textos que já escrevi sobre isto e, de repente, encontro outra pessoa, a milhares de quilómetros de mim, com um perfil tão distante, a dissertar sobre a mesma coisa, da forma como eu gostaria de também ter escrito, o que eu gostaria de ter escrito. Ao longo desta semana e meia, fui deixando algumas das minhas partes favoritas no Instagram.

 

 
 
 
 
 
Ver esta publicação no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação partilhada por Beatriz (@beatrizcanasmendes) a

 

 

Ao mesmo tempo, repensei o meu uso das redes sociais e das expectativas que criamos ao ver os corpos perfeitos, os planos perfeitos, as relações perfeitas, as refeições mais saborosas, os sorrisos mais contagiantes, as férias mais relaxantes, que na verdade são apenas uma parte da vida das outras pessoas. Afinal, tendenciosamente, publicamos o que de melhor nos acontece, conteúdo que sujeitamos a um processo de curadoria digital, raramente o contrário, pelo que a medida de comparação deve também ser o nosso melhor, não a nossa figura descabelada em pijama no momento em que consome essa (des)informação. E queremos tudo para ontem! Em suma, repensar é o primeiro passo para encontrar soluções e entrar em acção. Além da crítica e autocrítica à utilização das redes sociais, são partilhadas ideias para sermos mais felizes tanto ao usá-las quanto longe delas, e como podemos dosear o consumo de notícias para nos mantermos informados, sem ficarmos assoberbados.


Li as primeiras duzentas páginas em poucos dias, mas a segunda metade do livro custou-me um pouco mais, porque as reflexões começaram a ser repetitivas e acessórias. A ideia principal é sempre: estar consciente dos problemas é como a solução para esses mesmos problemas, para recuperarmos o controlo sobre como nos comportamos enquanto utilizadores dos meios de comunicação e redes sociais. Sobre a tradução, acho que precisa de alguma revisão, mas eu nem costumo gostar de ler traduções portuguesas do inglês e esta não me pareceu terrível.


No entanto, não deixo de recomendar este livro. Matt Haig conseguiu muito bem incitar-me a pensar no que me provoca ansiedade, no meu consumo de informação que não contribui em nada para ser mais feliz e em como nos estamos a tornar, humanos, em estatísticas para o sistema capitalista do marketing digital. Por um lado, acho o marketing uma área extremamente interessante, tal como as ferramentas que utiliza e as estratégias criadas, mas também assustadoramente perigosa quando não utilizada para o bem dos indivíduos (sobre tal assunto, recomendo este livro). A democracia enfrenta novos desafios na era digital, tal como o bem-estar físico e mental dos cidadãos, por isso, à medida que as transformações ocorrem, a sociedade deve encontrar estratégias igualmente funcionais para se proteger dos perigos eminentes.


🧾 E ler, seja não-ficção ou ficção, pode ser uma dessas estratégias! O que andam a ler ultimamente que vos tenha feito abrir os olhos sobre algum tema específico? 📚

Socorro: não consigo fazer planos e não consigo encontrar um propósito!

Por estes dias, andamos todos à procura do nosso "propósito". É uma canseira. Já referi há algumas semanas que me sinto frequentemente assoberbada por estímulos, obrigações e informação, o que me causa ansiedade, mas entretanto tenho conseguido controlar o meu acesso e preocupação no que toca a essas fontes de stress.

 

Nos últimos tempos, parece que há cada vez mais coaches, podcasts, blogs e eventos acerca de ser mais, melhor, tudo. Não desdenhando de toda a investigação e atenção dada a tópicos tão importantes para a nossa sociedade quanto a felicidade, o bem-estar, o desenvolvimento pessoal e o empreendedorismo (até porque o meu mestrado se foca nalguns desses temas e eu adoro estudá-los), sinto que, se não soubermos digerir ou tivermos ferramentas mentais para receber essa informação, acabamos perdidos entre tantas ideias, autores e motivational speakers.


Regressando ao assunto que me leva a escrever este texto, a procura do tal propósito, gostaria de discordar do que tenho lido nas redes sociais. De repente, não há quem não fale de encontrarmos essa agulha no palheiro que é o motivo, a justificação, a motivação para a nossa existência, influência e trabalho. Para mim, o problema não é a procura do propósito. Também eu assino por baixo que é importante termos algumas linhas de orientação em mente para nos concentrarmos no que nos traz satisfação e sermos, em geral, bem-sucedidos. Contudo, o problema é que tenho lido e ouvido vários coaches a defenderem uma espécie de propósito permanente, inflexível, obrigatório, ditatorial. De repente, é como se não prestássemos enquanto pessoas se não tivermos um propósito definido, como se estivéssemos mesmo à procura de falhar redondamente na vida.


Isto é tão errado.


Não, eu não sei qual é o motivo de eu andar por aqui, na Terra, por que nasci. Dou o meu melhor todos os dias para criar algo com significado, nem que seja contribuir para o bem-estar doutra pessoa, mas não me parece necessário escrever uma declaração de intenções acerca disso, pelo menos não uma que tenha de me definir.


Por que é que achas que ainda não encontraste o teu propósito? Li esta pergunta num questionário que me enviaram recentemente. Na altura, respondi de forma curta, mas fiquei a pensar, até chegar a mais ou menos esta conclusão: não encontrei o meu propósito porque ele está sempre a mudar. Não todos os dias, mas sei que todos os meses ele vai sofrendo alterações.


Há dois anos, eu sabia tudo. Quase podia planear a minha vida à semana para os dez anos seguintes. Depois, a vida aconteceu e esses planos, além de terem deixado de fazer sentido, também me deixaram num estado de recriminação constante que se prolonga até hoje e sobre a qual ainda tenho de reflectir e tentar resolver, nomeadamente em sessões de terapia. De vez em quando, ainda penso como é que será possível eu já não ser aquela pessoa, tão cheia de certezas, e como é que eu não fiz X, Y e Z se me tinham dado oportunidade para tal.


Pensar que tinha um propósito e planos a longo prazo foi uma merda para mim. Desde então, passei a planear cada dia, cada semana e cada mês, sem muito mais antecedência, não vá o resto do mundo decidir virar-se e eu ficar de novo na lama por não me ter precavido para tal situação. Uma coisa são projecções, desejos, ideias. Outra coisa é a procura duma definição pessoal enquanto necessidade primária e urgente.


Além disso, qualquer que seja a nossa idade, devemos deixar espaço para as coisas boas. Parece que só tenho falado nas más, mas as boas também podem trocar-nos as voltas e desafiarem todas as crenças que tivéssemos. Podemos conhecer o amor da nossa vida, engravidar ou perder alguém querido, nós ou os nossos companheiros podem arranjar a oportunidade profissional com que sempre sonharam bem longe de onde estamos, podemos adoecer, podemos ter um acidente, podemos descobrir uma vocação inesperada, podemos perder ou ganhar muito dinheiro subitamente, podemos mudar de ideias... Quem sabe...? Então, acredito em estarmo-nos um pouco a lixar para planos que nos limitem, sem criarmos alternativas B, C e Z. Sou pelas alternativas, pelos mil planos diversos, pela dispersão ocasional, pela espontaneidade, pela liberdade de ter um propósito hoje que não terei amanhã. Um dia quero ser professora, no outro quero ter um negócio, a seguir consigo ter os dois, mas daqui a três meses vai-me apetecer viajar pelo mundo, e hei-de encontrar fontes de inspiração diferentes, depois já quero ser escritora, engenheira química, astronauta, estudar tarot ou apostar em corridas de cavalos. Eu sei lá, hoje sou assim, amanhã é que não sei.


Fui educada e vivo numa casa onde se acredita no mote "um dia de cada vez". Combinando essas lições ao que fui adquirindo pela experiência pessoal, penso que planearmos é tão importante quanto permitirmo-nos margem de manobra.

 

Entretanto, também ando a ler O Mundo À Beira de Um Ataque de Nervos, do autor inglês Matt Haig, que me tem ajudado a reflectir e a confirmar que nos encontramos demasiado focados no que seremos e faremos no futuro, uma das principais fontes de ansiedade do nosso tempo, em vez de nos concentrarmos no presente. Em breve, escrevo sobre este livro.


Na altura em que precisei de rever a forma como penso, há pouco mais de um ano, almocei com uns amigos num lugar onde, em cima das mesas, pequenos castiçais tinham sido decorados com mensagens simbólicas. A nossa era "Um plano que não tem espaço para mudanças é um mau plano." Acho que foi uma óptima premissa para o ano que se tem seguido. Sabia lá eu as coisas que me estariam para acontecer em tão pouco tempo...!

 

 

 
 
 
 
 
Ver esta publicação no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação partilhada por Beatriz (@beatrizcanasmendes) a

Violência doméstica na literatura portuguesa: Preciosa (Nelson Nunes)

IMG_20190511_224140_731.jpg

 

Há livros que são mais difíceis de ler do que outros. Normalmente, são mais difíceis porque têm frases longas, ideias complexas que somos incapazes de seguir. Ou, então, porque não concordamos com o autor, não o entendemos, não conseguimos encontrar nada em comum e que nos estimule a ler mais. (Que outras razões vos atrasam a leitura?)


Depois, há livros que são difíceis de ler porque há coisas que doem só de imaginar, quanto mais saber que muito do que o autor escreveu também lhe aconteceu, tal como a pessoas muito próximas de nós. Felizmente, nem a violência doméstica nem sequer as relações tóxicas fazem parte da história da minha família. Aliás, terão de facto existido, mas antes de eu ter sido gente. No entanto, já assisti a muita coisa nas famílias dos outros e já conheci as consequências em primeira mão do que é viver e ter crescido numa casa em que a violência física e psicológica são um dado adquirido por várias décadas. Pode não me ter acontecido a mim, mas já aconteceu à minha frente e já ouvi vários relatos na primeira pessoa.


Dito isto, foi muito difícil ler o livro Preciosa, do Nelson Nunes (autor que devem conhecer mais à conta da não-ficção), lançado na semana passada. Corri a comprá-lo no dia em que saiu, não só por conhecer o Nelson há alguns anos e adorar as crónicas dele, mas também por curiosidade sobre este livro, cujo tema ainda não faz explicitamente parte da literatura portuguesa. Finalmente, a violência doméstica é retratada na ficção, ou na ficção quase autobiográfica. Acabei por lê-lo em três dias, embora seja um livro curto, porque não conseguia ler muito mais do que 20 páginas de seguida.

 

IMG_25620508_231155.jpg


Depois de o Preciosa ter sido recomendado por Marcelo Rebelo de Sousa e Cristina Ferreira, há pouco que eu possa acrescentar à opinião pública. Resta-me admirar e agradecer a coragem do Nelson Nunes, que reabriu portas do seu passado para partilhar connosco algo tão perturbador e definidor numa vida quanto a existência dum pai que o inspirou à criação da personagem Isaac. Voltar a expor a ferida para escrever sobre o que nos atormenta para que a história possa ser partilhada como elogio à sobrevivência possível e para a consciencialização pode ser libertador, mas de fácil deve ter muito pouco. Ao mesmo tempo, a homenagem prestada a uma mãe igual a Esmeralda é a parte mais bonita. A acção desta mulher forte deve-nos servir de lição para conseguirmos mais ou menos tudo na nossa vida - se ela foi capaz de se refazer duma fase tão negra e devolver segurança e uma vida boa a um filho, qualquer um fica a sentir que também conseguirá seja o que for.

 

Apesar das falhas na sociedade, do silenciamento das vítimas, da desresponsabilização dos agressores, da desvalorização e normalização da violência nas relações, é-nos deixada uma mensagem de esperança - e de alerta - sobre a possibilidade de pedir ajuda e de a vida poder continuar. Espero que livros como este possam trazer o tema da violência doméstica para cima da mesa colectiva, de modo a quebrar-se o silêncio e a tentar chegar a coragem a quem mais precisa de se fazer ouvir.


Na minha opinião, este Preciosa é também uma chamada de atenção para as tais consequências, na forma de mazelas que, se não físicas, são psicológicas e afectam a forma como quem já viveu num lar a desfazer-se por estes motivos encara a relação consigo mesmo e com os outros pela vida fora, principalmente quando muito jovens. Na minha geração, vejo e conheço exemplos de dois caminhos possíveis na idealização do amor: a concretização do ciclo de relações violentas, que se repete, porque foi assim que se viu fazer, estando enraizado e normalizado; ou exactamente o contrário, a dúvida e a preocupação constante com o bem-estar do outro, o medo de desapontar e de poder magoar, a consciência constante dos precedentes e a sua evitação a qualquer custo, combinados com baixa auto-estima, sentimentos muito bem retratados pelo Nelson Nunes. Penso que ainda existe a sensação de que "temos é de ser fortes", e que o passado fica no passado, e que as coisas passam (mas não passam) e que estas gerações mais novas só se sabem queixar, enquanto deviam era aprender "que é assim a vida, difícil, temos de aguentar". Aguentar coisa nenhuma! Há sempre algo mais que pode ser feito. Não, não nos devemos conformar com esta miséria de espírito e as vítimas devem ser ouvidas e apoiadas, nomeadamente a nível da sua saúde mental. Não há justificação para se bater ou maltratar seja quem for, muito menos alguém de quem se "gosta".


Que a literatura nacional continue a inspirar a mudança nos pseudo-costumes nefastos e nas mentalidades pequenas do nosso país! Que uma voz seja dada a quem a perdeu! Que possamos abrir os olhos para o que se passa à nossa volta e não contribuir para ciclos de violência, para a desvalorização do mais "insignificante" acto de violência e a falta de atenção dada às vítimas pelas autoridades mas também por quem as rodeia, que decide não fazer nada, para não se intrometer. Não podemos ser cúmplices. Como devem saber, as estatísticas da violência doméstica em Portugal nos primeiros meses de 2019 provam o quanto ainda está por conquistar.


(Se puderem, leiam este livro, que não há-de tomar-vos muito tempo, mas que vos poderá relembrar desse tanto que a sociedade tem por conquistar, ou ofereçam-no a quem possa beneficiar desta história e da sua mensagem.)

 

Obrigada, Nelson, por teres escrito (mais) um livro que pode vir a fazer a diferença! 👏