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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Cansada de opiniões

Deve ser muito cansativo ter sempre uma opinião. E mais: deve ser muito cansativo ter sempre uma opinião e achar que esta é a mais correcta de todas. Uma opinião-verdade, indiscutível, infalível, do género "como é que não conseguem todos ver isto, que é tão claro, tão óbvio?".

 

À hora de jantar, estava a ouvir um segmento de notícias sobre o Orçamento do Estado e, em vez de conseguir realmente perceber qual a celeuma do momento, passaram a emissão para o comentário não sei de quem, isto é, de um comentador profissional. Acabei por não entender perfeitamente qual era o tema do Orçamento que pretendiam destacar (só apanhei uns minutos da ministra da Saúde a falar sobre autonomia de contratação), não fiquei minimamente informada, e enfiaram-me um tipo de fato, com voz grave e tom solene, pelos olhos e pelos ouvidos adentro. Um tipo sério. Um opinador de profissão, entenda-se.

 

Nos dias que correm, tanto me faz quem é o opinador. Soa-me tudo a bitaites de tasca. Estou cansada do chico-espertimo-achismo, da opinião que todos parecem ter sobre tudo, quer no mundo real, quer nas redes sociais. No Twitter e no Facebook, então, é uma cascata de gente inteligentíssima, que só peca por lhe faltarem credenciais, moderação e bom senso, porque de resto são exímios na arte das postas de pescada. Na televisão, preferem pôr o Zé-Não-Sei-das-Quantas (que pode ser um reformado antecipado da política, do jornalismo ou de coisíssima nenhuma) a deitar umas larachas frequentemente mal informadas e pouco informativas. Noticiar à hora das notícias, no canal das notícias, 'tá quieto. Tanto, tanto ruído.

 

(Caramba, eu só quero saber o que se passa no país e no mundo, não pretendo que me tentem endoutrinar após trinta segundos de breve e incompleta notícia!)

 

Como vêem, este não é um blog de opinião. Opiniões, tenho uma ou outra sobre alguns livros, porventura podcasts, filmes ou séries, mas nem essas partilho em barda. Eu cá sou mais de sugestões, o que talvez denote que nasci no tempo errado e que vivo contra a corrente. Isto não implica que eu deixe de ter princípios. Alto lá! Sou uma moça às direitas que vota sempre à esquerda, defendo certas causas e visões do mundo e, apesar de não gostar de atritos, não hesito quando é necessário ter uma discussão acesa porque me chegaram as mostardas e os vinagres ao nariz.

 

Ainda assim, tenho tantas dúvidas sobre quase tudo que me abstenho, por vezes nem por falta de vontade de me insurgir, mas sinceramente por me sentir assoberbada contra as Grandes Certezas dos outros, por sentir que gastarei o meu português a falar para a parede, porque discutir para eles não tem sentido pedagógico, mas sim apenas mostrar que sabem mais e melhor (do quê, porquê e como é que me escapa). E eu sei que eles devem estar cansados, mas estou cansada eu também, provavelmente ainda mais.

 

Escrever este texto deixou-me cansada, mesmo exausta, por isso não me alongo mais com a minha opinião sobre opiniões, despedindo-me apenas com duas - lá está - sugestões que me parecem modestamente sensatas e largamente geniais. São elas o podcast Quem Lê Tanta Notícia e o programa Dados Contados (da RTP). Sinto que, graças a estes minutos semanais, finalmente compreendo qualquer coisa sobre a actualidade. E, como até as sugestões podem ser tendenciosas, aviso desde já que a primeira tem a participação da minha ídola Tati Bernardi e que o segundo é produzido pela minha amiga Daniela Ferreira Pinto, duas mulheres que admiro arregaladamente, uma escritora e outra jornalista, mas ambas autoras e produtoras de cenas divinais que vemos e ouvimos por aí.

 

Por ora, este será um blog pouquíssimo insurgente, sempre cheio de dúvidas sobre se tem sequer algo para acrescentar ao espaço público, mas confiante de que faz apenas o barulho necessário para espicaçar as ideias de quem por aqui aparece, sem as moer. (Confirmando que tal é possível, note-se que nas caixas de comentários deste blog existem leitores que discordam de mim, e que mo escrevem, mas que o fazem com uma elegância e uma delicadeza, que eu quase penso estar numa realidade paralela. Obrigada por estarem desse lado, que é como quem diz, voltem sempre!)

Ser escritor é profissão, passatempo, estatuto ou mania?

Sou pequena, mas já demasiado alta. Sou desengonçada, distraída do resto do mundo e até da minha própria existência. Passo os dias a imaginar não estar ali, seja ali onde for, porque é sempre ali que não quero estar, onde me sinto presa e demasiado borbulhenta e oleosa entre as mesmas pessoas que conheço desde os 5 anos.

 

Durante as aulas, leio e ouço música com um só fone. Com o outro ouvido, posso ouvir se chamarem o meu nome para responder a alguma pergunta. E, para minha enorme surpresa mais de uma década volvida, respondo sempre com a resposta correcta.

 

Por vezes, escrevo. Lembro-me de ideias que escrevo em papel ou que repito mentalmente, apenas para meu deleite e vaidade. "Que bem que soa!", haveria de pensar. Mas, logo a seguir, acho a frase parva e faço por esquecê-la.

 

Desde a primária que sou batoteira. Ninguém sabe, mas eu escolhia sempre as actividades do Plano Individual de Trabalho que envolvem escrever ou, na pior das hipóteses, ler. Ficava muito frustrada ou aborrecida quando era obrigada a fingir que o facto de me calhar sempre isso era pura aleatoriedade, e lá tirava um pequeno cartão ou folha de papel com instruções para realizar uma operação matemática sem qualquer entusiasmo, um sacrifício necessário.

 

Enquanto sou pequena, apesar de já passar a minha avó em altura, a Professora Antónia inscreve-me no meu primeiro concurso literário, da Editorial Caminho, alusivo à colecção d'Uma Aventura. Nesse concurso, ganho menções honrosas dois ou três anos seguidos. Depois, começo a perceber que o Google não serve só para procurar informação sobre os livros e os filmes do Harry Potter, e passo a inscrever-me em todos os concursos que encontro que permitem a uma miúda de treze ou catorze anos concorrer. A minha avó diz, a brincar:

- Um dia, deixas de ter paredes para tantos diplomas e certificados!

 

Ela está a brincar, mas eu sei que também está a falar a sério, porque ela sabe que isso pode ser um desafio para mim.

 

Com o dinheiro dos prémios, compro CDs dos Jonas Brothers, roupa na Bershka e na Pull&Bear do Rio Sul Shopping, livros da saga Crepúsculo e uma máquina fotográfica de 12MP. Afinal, sou uma adolescente bastante igual às outras, e com esse dinheiro tento remediar um bocadinho do fosso que existe entre o orçamento da minha família e o orçamento das famílias da maioria dos meus colegas no colégio para traquitanas fúteis, às quais alguns parecem ter acesso ilimitado.

 

Nos últimos anos da adolescência, também guardo o dinheiro para pequenas despesas e para as propinas da faculdade. Orgulho-me dessas conquistas e desse talento: eu escrevo. E escrever deu-me dinheiro para ser uma adolescente fútil entre os 13 e os 18 anos.

 

Aos 18, começo a trabalhar e escolho estudar Letras. Quero ser jornalista, apesar de ter um biscate a escrever publicações para blogs publicitários de terceira categoria, mas curiosamente deixo de escrever aquilo de que eu realmente gosto, à excepção deste blog. Não tenho tempo para mais.

 

Mesmo que tivesse esse tempo, estudar literatura mata-me o bicho. Tantos gigantes já vieram antes de mim e escreveram tanto e com tão melhor qualidade. Afinal, para que escreveria eu? Aprender a ler é um presente envenenado, que contamina a admiração que tinha por mim mesma e pelas minhas palavras, pontapeando qualquer esperança de um dia poder ser como esses autores. 

 

Faço o penúltimo semestre da licenciatura na Universidade Católica e escolho a electiva de Escrita Criativa. Conheço a Daniela, a primeira pessoa que conheço que escreve e lê como eu, na mesma quantidade, com o mesmo amor. O nosso professor é o Jorge Vaz de Carvalho, e graças a ele confirmo que afinal não escrevo mal; por outro lado, graças a ele também deixo de ler com prazer durante um par de anos, sempre atenta às falhas dos escritores, mesmo aqueles de quem gosto tanto. Nunca mais perdi completamente esse olhar incansável cheio de julgamento até por quem admiro, mas felizmente vou aprender a geri-lo até ao dia em que escrevo este texto, por fim mais reconciliada com a imperfeição da escrita e da leitura - as minhas e as dos outros.

 

Os meus vinte e poucos anos passam numa nuvem de descobertas, de alegrias profundas e de desgostos inesquecíveis, de lições e de muitos, muitos livros. Já não compro CDs, mas subscrevo o Spotify. Não me tornei na jornalista que queria (mas a Daniela conseguiu), porque me tornei na professora que afinal andava a esconder debaixo da pele e porque já não tenho dúvidas: o que me interessa é escrever. Depois de conhecer a Daniela, conheci o Rui. Depois de conhecer o Rui, conheci a Elisa. Pelo meio, surgiram outras amizades mais passageiras, e não me lembro de quase nenhuma que tenha sido imensamente importante e que não tenha partido pelo menos de uma pergunta ou de um comentário sobre livros e escritores. Estas foram as pessoas que, depois da minha família, me convenceram a continuar a escrever, que insistiram e fizeram questão de ler os meus textos.

 

Se escrever é uma vocação que não depende de prémios (nunca mais ganhei nenhum depois dos 17 anos) ou de títulos (olho com sobranceria para quem se acha escritor por auto-nomeação), eu escrevo. Preciso de escrever, até nos dias em que acho que a minha necessidade frequentemente obsessiva de palavras e clareza vocabular e verbal é mais um entrave do que uma benção. Sofro dos nervos, há dias em que podia rebentar com pânico, mas ter de escrever é uma inevitabilidade.

 

No podcast "10 000 horas", Afonso Cruz explica que escrever é a transpiração do que lê - em primeiro lugar, Afonso Cruz diz-se leitor.

É certo que há suores mais refinados do que outros, por isso não há grande surpresa ao constatar que o meu é inodoro e invisível, mas extremamente pastoso e incontrolável, um pouco como o chichi de um bebé, que é incontinente, inconveniente e desagradável, por muito fofo que também nos pareça.

 

Eu acredito mesmo que quem quer ser escritor ou quem se torna escritor em alguma fase da vida, e sobretudo na infância, foi posto um bocadinho de lado. E, sendo posto de lado, foi possível olhar as coisas de fora [00:05:30].

 

Assim o diz Filipa Melo - escritora, jornalista, crítica literária e, entre todas essas ocupações e mais algumas, também professora da pós-graduação que vou começar este mês, em Escrita de Ficção. (Assistam à conversa completa no vídeo que se segue!)

 

 

Alguns minutos depois, ainda no início da conversa, continua:

Acho que a identidade de todo o artista vem de um certo sofrimento de não pertencer completamente ao mundo dos outros e ficar numa posição de observador. [00:08:49]

 

Ouvir estas declarações é, para mim, como encontrar um cadeirão de braços num cantinho com lareira, onde posso encolher-me a dormitar no meio do Inverno mais frio. Rodeada de adultos, única criança na família, com falta de jeito para fazer amigos, elogiada por ser contida e ter sempre o comportamento adequado e as frases certas na ponta da língua, lembro-me de ensaiar alternativas e outras formas de ser, de pensar, de imaginar e de me fazer entender.

 

Também tenho pensado muito nessa questão: quem é um escritor? Ou melhor: o que é um escritor?

 

A alfabetização crescente e o acesso aos meios de promoção de obras em nome próprio têm gerado o fenómeno dos escritores autopublicados, que procuram ferramentas e formas de distribuir as suas criações . Estes também costumam ser, em simultâneo, os escritores autonomeados. Já vos contei da minha aversão à vaidade das comunicações que recebo por e-mail e pelas redes sociais? Crucifiquem-me!, mas só porque eu faço bolos isso não faz de mim pasteleira. Escrever também não fará de ninguém escritor sem as credenciais e o reconhecimento necessário dos leitores, por isso não me compenetro com a penetração insistente de mensagens na minha inbox de Fulano Etc e Tal | Escritor e Poeta que só vende livros à mãe, ao pai, aos avós e aos padrinhos, mas que se ofende gravemente quando perfeitos desconhecidos não lhe fazem sequer like no perfil de Instagram.

 

Seja como for, eu sei quem não é escritora: eu. E também sei o que não é ser escritora: não escrever e ficar com o texto na cabeça até se evaporar da memória, como eu costumava fazer, só por ter medo que não seja a frase perfeita. Não sendo escritora, ainda assim, escrevo. Sem alternativa, escrevo. Com medo de perder o fôlego pelo caminho um dia destes, volto a estudar literatura e escrita para me forçar a continuar a aprender e a melhorar.

 

Escrever é uma maratona. [00:44:15]

 

É Dulce Maria Cardoso quem o afirma, no programa de rádio de Luís Caetano, "A Ronda da Noite". Logo eu, a quem não é aconselhada a corrida por causa da escoliose, sou obrigada a investir noutros desportos radicais, como passar horas a bater com os dedos no teclado ou a apontar ideias inconsequentes em blocos de notas em papel e no telemóvel. E a evitar a procrastinação por medo, quando não me serve para nada adiar o carácter inadiável da escrita como prioridade na minha vida.

 

Ainda não sei se ser escritor é profissão, passatempo, estatuto ou mania. Nem me interessa, por agora, porque eu sou muitas coisas, entre as quais uma pessoa muito teimosa e obstinada que, por acaso, tenta escrever umas coisas entre ataques de pânico, metades de Victan e muito colo. Na pior das hipóteses fico para professora (quem não faz ensina!, dirá quem merece arder no inferno dos castigos virados para a parede), e isso é outra inevitabilidade muito feliz da minha vida sobre a qual vos posso maçar noutra altura.

 

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Fotografia tirada em Abril de 2021.

Escrevo quase tudo o que lêem neste blog na companhia da Coffee, que ora dorme, ora me corta o raciocínio porque quer brincar, ora está simplesmente perto de mim - de preferência, subornada com um osso.

Este Verão

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É provável que eu já tenha aqui escrito sobre o assunto, mas nunca é demais reconhecê-lo e relembrá-lo: semana a semana, mês a mês, dia a dia, achamos sempre que pouco acontece.

 

A nossa vida parece não mudar, parece estar sempre "na mesma como a lesma", raros são os eventos de monta, os momentos passam sem andarmos sempre a reparar neles a cada segundo. Mas o caminho é em frente. Há quem costume dizê-lo, e realmente faz sentido. Vai-se fazendo, pensando, criando, evoluindo - sabe-se lá o quê, do quê.

 

Por isso, é sempre com grande admiração que chego a Setembro, a olhar para o que se passou nos oito ou nove meses anteriores, como se fosse quase impossível ter feito tanto em tão pouco tempo. E o mundo e as outras pessoas também não pararam. Ainda agora era Junho e eu pensava que nada de especial acontecera ou poderia vir a acontecer, e de repente é Setembro e...

 

É como magia. De facto, menosprezo e subestimo insistentemente a acumulação natural de pequenos feitos e alterações na minha própria vida ao longo do tempo. Tudo junto dá uma bela conta de somar com que me distraí.

 

Este Verão, em particular, parece ter permitido o florescimento de várias primaveras.

 

Em Julho, escrevi algumas ideias sobre o que esperava fazer nos meses seguintes - um prazo a terminar por volta desta altura em que faço o famoso balanço da última estação. Queria atingir com antecedência a minha meta de 30 livros para 2021, queria escrever como nunca me convenci a escrever, queria adoptar um novo passatempo... E consegui fazer tudo isso e mais alguma coisita.

 

Principalmente os dois últimos meses passaram a voar. Ainda mal acredito.

 

Portanto, agora posso dizer que estou a escrever um livro que já conta com 87 000 caracteres. Pelo meio, escrevi contos, anotei ideias para empreitadas futuras e voltei a inscrever-me em concursos literários.

 

Passei a ter ao meu cuidado cerca de 20 a 30 vasos de plantas (árvores, suculentas, flores...). Estou incrédula, este novo interesse apoderou-se de mim.

 

Tenho lido com curiosidade e em abundância. E até ando a ler quase todos os livros que compro!

 

Ouvi dezenas de horas de podcasts, quase todos sobre escrita, autores, escritores e psicologia.

 

Finalmente estou a conseguir organizar o meu espaço de trabalho. E comecei a cobrar mais na minha actividade profissional e a estabelecer limites horários, o que me permitirá trabalhar menos e melhor, para poder escrever e estudar.

 

Consegui publicar com alguma regularidade e o blog foi destacado muitas vezes nas páginas dos Blogs do Sapo e no Sapo.

 

Ao fim de mais de dez anos, voltei a fazer crochet.

 

Fui estando com família e amigos que me visitaram ou que pude visitar, e falei muitas horas ao telefone com eles.

 

Nos últimos dias, retomei o exercício físico. 

 

Pensei muito bem no que quero mesmo fazer nos próximos anos, e como fazê-lo, a começar agora.

 

O Outono começou, de dia ainda faz calor apesar de as noites já estarem frias, daqui a três semanas recomeço o mestrado e começo a pós-graduação.

 

Os meus alunos vão voltar das suas férias e mudanças de casa, por isso vou voltar a dar a quantidade de aulas do costume.

 

Este fim de semana, vou arrumar a roupa fresca e vou buscar a roupa quente ao roupeiro da tralha.

 

Daqui a pouco, vai cheirar ao fumo das chaminés, a primeira versão do meu livro vai estar terminada e o meu cérebro vai voltar a pensar que os dias são aborrecidos, escuros e pouco produtivos por causa da meteorologia adversa e a luz fraca que me deprimem. A minha lista de tarefas vai ficar a abarrotar com trabalhos, projetos e novidades com as quais ainda nem sonho.

 

Daqui a pouco, há-de chegar outra fase. Mais uma. Só mais uma, antes de todas as outras, a toda a velocidade ou sem pressa nenhuma.

A culpa é dos médicos de família

Os médicos de família devem estar a coçar o rabo, os enfermeiros e o pessoal administrativo também. Não atendem os telefones no centro de saúde. Quando os utentes pedem satisfações, dizem-lhes que os telefones estão avariados. Não se percebe. Depois, desculpam-se com o COVID. Então, e antes do COVID? Essa é boa, têm sempre desculpa... Isto sempre foi uma bandalheira, e ainda há quem defenda o SNS. É para isto que pagamos impostos? Se é para ser assim atendida, vou mas é marcar no privado.

 

Em Fernão Ferro (no concelho do Seixal), a freguesia onde vive a minha família e onde eu também vivi desde 2005 até ao fim de 2020, este é um discurso comum, não só de agora, como de sempre - desde que me lembro de ser pessoa, pelo menos. Aliás, quando nos mudámos para a zona, não conseguimos médico de família no centro de saúde local e acabámos por continuar a ser acompanhados no centro de saúde da área de residência anterior, por acaso não muito longe. (Uma sorte. Um privilégio.)

 

Compreende-se: Fernão Ferro é uma zona suburbana em expansão, como tantas outras na margem Sul do Tejo, e o investimento em serviços públicos - como o centro de saúde e a escola secundária há tanto, tanto tempo prometida - é nulo.

 

No entanto, sempre me pareceu óbvio que este tipo de problemas e deficiências no serviço à população não tem origem nessas próprias entidades. Não é pelos professores que se deve culpar a ausência de uma escola, tal como não se deve culpar os médicos pela ausência de um bom centro de saúde.

 

Infelizmente, isto parece não ser tão óbvio para todas as pessoas.

 

Ainda há algumas semanas saiu uma notícia alarmante: 1/3 das vagas para especialistas em Medicina Geral e Familiar (vulgo médicos de família) ficou por preencher no concurso deste ano.

 

Um médico recém-especialista leva para casa cerca de 1800€ líquidos. Além disso, é muito provável que tenha de fazer horas extraordinárias, que nem sempre são contabilizadas ou remuneradas. Com o aumento do custo de vida, particularmente nas grandes cidades portuguesas, um salário destes, proveniente de uma tabela desactualizada, não é desejável numa região onde a renda chega a mais de metade do seu salário, para alguém que passou cerca de metade da sua vida a estudar e a especializar-se. Claro que, vistas as condições, é preferível tentar a sorte no privado, emigrar ou escolher viver numa zona onde o custo de vida não seja tão elevado, os serviços não estejam tão saturados e a qualidade de vida exista de facto.

 

Não admira que seja tão difícil preencher as vagas de MGF em zonas como Lisboa e Vale do Tejo.

 

Sem a atualização das tabelas salariais da função pública, nomeadamente dos profissionais do Serviço Nacional de Saúde, e sem existir contratação de acordo com as necessidades, não é surpreendente que encontremos diariamente problemas nos hospitais ou nos centros de saúde. Aliás, formar mais médicos é redundante e mesmo desprestigiante neste país que não abre vagas suficientes para os internatos de especialidade e que, por isso, acaba por estar a formar cada vez mais médicos indiferenciados (tarefeiros, precários).

 

No ano passado, candidataram-se 2279 médicos aos internatos de especialidade, face a um número bastante inferior de vagas: 1885. Isto é, nada mais e nada menos, do que um desperdício de investimento na formação altamente especializada e esforçada de jovens qualificados, além do desperdício óbvio das suas próprias vidas e recursos ao longo do seu longo percurso académico e ainda curto percurso profissional.

 

No que diz respeito aos médicos, internos e todos os profissionais que trabalham em centros de saúde, durante a pandemia têm sido eles a dar a cara num contexto de proximidade imediata com a população, utentes e pacientes. Por outro lado, foram eles que se tiveram de desdobrar para poderem gerir o funcionamento normal no centro de saúde, de prestação de cuidados de saúde primários, assim como o Trace COVID e, nos últimos nove meses, a vacinação.

 

Dito isto, lá no fundo o que me questiono e que também vos posso desafiar a responder é:

Será que algum dia deixarão de pôr constantemente a culpa em cima dos ombros dos profissionais do SNS? Será que deixarão de os ver como os maus da fita, bodes expiatórios convenientes, como se dependesse deles melhorar as condições materiais dos centros de saúde, multiplicar os trabalhadores em funções e dar resposta às mil solicitações diárias?

 

Oxalá consigamos - que alguém consiga! - salvar e defender o SNS de uma governação que privilegia o desinteresse e desinvestimento de um bem tão essencial, tão público, quanto a saúde gratuita e disponível para todos. Porque também é com essa segurança que se vive em democracia.

Há sempre dez coisas sobre as duas pessoas (uma lista absolutamente aleatória, mas verídica)

1. Há sempre uma pessoa que dorme 6 horas (por exemplo, entre a uma e as sete da manhã) e fica fresca, pronta para conquistar o mundo logo de manhã. Infelizmente, eu sou a outra pessoa, a que precisa de dormir um mínimo de sete e que, ainda por cima, tem o sono leve.

 

2. Há sempre uma pessoa que acaba por ficar com a responsabilidade de limpar a areia do gato, e depois há a outra, que não sou eu. Sim, era eu quem limpava chichis e cocós do gato e da cadela, mas, enquanto escrevia este texto, acabei por assistir com alegria a uma mudança na distribuição da tarefa, a chegar aos 50/50. Reivindiquei os meus direitos, e fui compreendida. 💙

 

3. Há sempre uma pessoa que tem cuidado com tudo. Atenta aos pormenores, atenta à duração de todos os objectos a longo prazo, e depois há a outra. Juro que estou a aprender a melhorar o meu lado mais laissez-faire e a zelar pelos meus pertences. No entanto, lamento, mas o frigorífico vai ter uma lista magnética para as compras e tarefas. Com certeza não será por isso que a superfície vai ficar riscada!

 

4. Há sempre uma pessoa que presta atenção à decoração, que gosta de viver num espaço agradável e confortável e que compra flores, pauzinhos de ambientador e molduras para fotos. A outra desfruta e surpreende-se quando, ao fim de uma semana, descobre que tem um pátio com estética millennial repleto de suculentas, ou armações de vasos a pender dos varandins.

 

5. Há sempre uma pessoa que mantém tudo anotado em ficheiros Excel. Ainda bem, porque a outra é mais dos post-its e das listas no frigorífico. Pode ser um trabalho de organização em equipa!

 

6. Há sempre uma pessoa que gosta de estar em casa, no seu cantinho, a ouvir a sua música, sem se ralar com o resto do mundo. Isto exaspera a outra pessoa, que lá vai perguntando "tens falado com os teus amigos?", ou "vamos um bocadinho à esplanada arejar as ideias?", ou ainda "quando vamos ver um filme/visitar sítio X/apanhar ar?".

 

7. Há sempre uma pessoa sonhadora, criativa, orgulhosa do seu pensamento divergente, e outra com os pés bem assentes na terra, pragmática, matemática. Em certos momentos, estas diferenças podem desestabilizar o entendimento, mas normalmente criam um equilíbrio saudável a manter, porque nem tanto ao mar nem tanto à terra, nem tanto às nuvens nem tanto ao solo.

 

8. Há sempre uma pessoa que se encontra mais desanimada e ansiosa do que a outra, que precisa de validação e consolo, que pede atenção seja em carinho ou em actos práticos. E essa pessoa pode ser uma ou outra, consoante as necessidades pessoais, profissionais, sociais... Há sempre pessoas, tal como há sempre fases.

 

9. Há sempre uma pessoa que não descarta o seu chocolatinho, que gosta demasiado de batatas fritas, que não passa uma semana inteira sem pão e seria capaz de comer dois bolos por dia sem ganhar uma grama, tendo sido abençoado por um metabolismo eficiente como na adolescência (obrigada, universo, por esta lotaria genética). Há sempre a outra pessoa, que lá vai convencendo a primeira dos benefícios de comer mais verduras, menos gorduras e encontrar a doçura além do açúcar.

 

10. Há sempre uma pessoa que repara nas semelhanças e nas diferenças, que lhes acha piada, que as vai anotando. E a outra, que provavelmente nunca vai ler isto, mesmo sabendo que talvez exista uma lista do género, algures num caderno, algures num blog.

O livro mais útil para trabalhadores independentes e freelancers

Gostei tanto da minha chefe no primeiro trabalho sério da minha vida, que jurei nunca mais voltar a trabalhar por conta de outrem se não pudesse ter superiores tão bons líderes, generosos e apoiantes do meu desenvolvimento quanto ela. Foi aquela senhora, professora catedrática, sonhadora, imparável, que me mostrou o quão decisivo é alguém acreditar no nosso potencial para ser inovador, pensar criativamente e empreender esforço em prol de projectos que nos mudam e mudam os outros. Era exigente e não permitia desculpas quando tinha de ser, mas também sabia cuidar dos seus e zelar pela sua alegria e bem-estar.

 

Eu já sabia que dificilmente voltaria a ter uma chefe assim. Sabia que teria sempre dificuldade em aceitar menos do que já me tinha sido dado e que lidar com maus chefes, ou chefes insuficientes, seria um tormento.

 

Por isso, do alto da minha ingenuidade propus-me a não me contentar com qualquer tipo de trabalho como um princípio fundador da minha vida profissional futura, e até agora tenho tido a alegria de continuar a ter condições para ser trabalhadora independente.

 

Mas ser trabalhadora independente tem desafios para os quais raramente estamos preparados, porque só os conhecemos realmente quando os temos de enfrentar, quando eles inegavelmente aparecem na nossa vida para ficar.

 

É sobre isso que a jornalista e escritora britânica Rebecca Seal escreve no seu livro Solo: how to work alone (and not lose your mind). Em Portugal, chama-se A solo: como trabalhar sozinho (e não dar em doido), e está publicado pela chancela Vogais.

 

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Para mim, as maiores dificuldades passam pela gestão do tempo e da motivação. Mas também sei que, em grande parte, essas são dificuldades resultantes do isolamento e da sensação consequente de estar só, para o bem e também para o mal.

Como já escrevi sobre este livro e a minha experiência como trabalhadora independente há alguns dias, não me alongarei muito mais agora. Ainda assim, não posso deixar de o recomendar a quem estiver na mesma situação profissional e precisar de relembrar ou aprender mais sobre como não perder o juízo, o tempo ou o dinheiro. Em Solo, Rebecca Seal conta-nos muito do que devemos saber sobre a gestão de expectativas, sobre a ansiedade e o equilíbrio emocional, sobre finanças pessoais, sobre perseverança, chamadas de Zoom e hábitos saudáveis que podem ser adoptados. E, quase no fim, ainda dá umas dicas de decoração e conselhos para quem, apesar de trabalhar noutro sítio qualquer, num ambiente mais tradicional, coabita com pessoas que trabalham a partir de casa (que eu imediatamente partilhei com o João e que aproveito para deixar aqui numa mini-galeria - porque isto, meus amigos, é serviço público).

 

 

Destes últimos pontos mencionados, devemos salientar que é essencial darmos prioridade ao conforto e funcionalidade no local onde nascem as nossas melhores ideias e onde temos de passar pelas situações mais aborrecidas; e que devemos, já hoje, conversar e mostrar às nossas famílias de que forma podem contribuir e ajudar-nos.

 

Este foi, até ao momento, o livro que melhor resumiu o caminho profissional que escolhi e que melhor respondeu às minhas dificuldades de trabalhadora por conta própria. Solo talvez seja o livro mais útil para trabalhadores independentes ou freelancers, seja para os que já sabem a lição toda de cor ou para aqueles que precisam de uma espécie de raspanete ou de uma dose de realidade (sempre com bom humor, boa disposição e bons testemunhos).

 

Além disso, se estiverem a pensar numa mudança de carreira, esta também é uma leitura obrigatória, a que vos vai convencer ou dissuadir deste caminho profissional.

 

Entretanto, se tiverem mais sugestões de leitura semelhantes, por favor, avisem! E, se tiverem dúvidas sobre este caminho profissional, podem sempre enviar-me um comentário, mensagem ou e-mail.

Fui à Feira do Livro de Lisboa e já tive de arranjar uma nova estante

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1. Feiroooou! Sim, estou muito contente, e sim, já tive de arranjar outra estante.

2. Sou uma pessoa bastante nostálgica. Depois de Março de 2020, passei a trabalhar exclusivamente em casa, por isso já estava cheia de saudades de Lisboa, onde só voltei umas cinco vezes desde então, todas elas visitas rápidas ou por motivos muito específicos e nunca no centro. Ontem, tinha planos para lá passar o dia. O trânsito na A2 fluía; o céu azul e a brisa fresca indicavam o início deste dia maravilhoso; a ideia de rever amigos queridos deixava-me num estado de entusiasmo leve pelo qual esperei vários meses. No entanto, assim que cheguei ao túnel do Marquês, lembrei-me de que gosto é de conduzir (pouco, muito pouco) fora da cidade, de viver longe de semáforos e lugares de estacionamento duvidosos, e de não ter de apanhar o metro e o comboio todos os dias.

3. Terei sempre Lisboa guardada no coração, principalmente pelas livrarias e pelos amigos. Por uns e por outros, vale sempre a pena regressar.

 

Aproveito para também vos deixar com os livros que comprei na Feira do Livro:

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Já leram algum destes? E têm recomendações do género "crónica (mais ou menos) autobiográfica"?

A propósito, o livro Depois a Louca Sou Eu, da autora Tati Bernardi, é um dos livros da minha vida. Acho que, depois de o ler pela primeira vez, há dois anos, nem me cheguei a aperceber de quanto mudaria a minha vida, a minha própria escrita, a minha forma de ver o mundo. Comprei para oferecer, claro está, agora que tem uma nova edição pela Tinta-da-China.

Há sortes que não se fazem, que só se têm

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Há sortes que não se fazem, que só se têm. Talvez criemos as condições para as recebermos da melhor forma possível, mas no final do dia o que é fascinante é vê-las chegar, assentar arraiais e criarem raízes na nossa vida, bafejada por ventos com certeza soprados por trevos de quatro folhas. Que sortes são!

 

Saiu-me a sorte grande no amor. Aliás, sai-me a sorte grande todos os dias, no presente do indicativo, repetidamente. Não há hesitação. Não conheço um abundância de amores assim, acho que são poucos, o que sinceramente é uma pena. Felizmente, acho que vários amigos meus lá encontraram sortes semelhantes, mas gostava muito que mais pessoas as pudessem ter.

 

No outro dia, dizia a outra amiga: "quando começa, quando nos estamos a conhecer, não sabemos, e até pensamos que há alguma coisa errada, pensamos que parece tudo muito estranho". De facto, foi isso que me deu toda a certeza de que eu não ia deixá-lo fugir-me entre os dedos, mal conheci o João. Era tudo novo, tudo me parecia novo, sentia tudo de novo e como novo. Fiz bem em acreditar nessa estranheza. Surpreendia-me constantemente e tinha de contrariar o hábito e as crenças de que tudo o que não fosse como eu achava que havia de ser estava mal, porque era exactamente isso que estava bem.

 

Mas, em geral, só pode ter sido sorte, só pode ser sorte. Só preciso de ter encontro marcado com ela no dia-a-dia.

 

E resta-me desejar que todas as pessoas cheguem a encontrar-se numa relação que é de facto uma parceria, onde não há pretensiosismo, falsidade, necessidade de perfeccionismo, nem receios e medos, dúvidas, demasiados dias maus aos quais se perca a conta.

 

É tão bom viver num estado de paz e calma, onde existe uma rede para cair quando se tropeça; e onde há um projecto comum, sonhos comuns, vontades comuns e, por isso, um espaço e um ambiente propícios aos projectos, sonhos e vontades individuais; e onde nos sentimos em família, ligados a alguém que nos rega de amor, humor e fé.

 

Por mais namoros, casamentos, uniões de facto, relações amorosas mais ou menos temporárias ou estáveis assim...!

As dores do trabalhador independente

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Living with solitude is a skill we all need and one we can improve, but being alone all day, every day or even most days, can be tough. It is much harder to frown out your inner critic when you don't have other, noisier people around to shout over it, or quieter ones to talk you down, and though it might spur on creativity and innovation, it's also much easier for unwanted thoughts to bubble up and overtake you. - Rebecca Seal, em How to Work Alone (and Not Lose Your Mind)

 

Trabalhar por conta própria torna as nossas dores muito solitárias. Se, por um lado, todas as vitórias parecem arrancadas a ferro e fogo, contra todas as expectativas, provando o esforço empreendido e a argúcia que lá encontrámos para resolver os desafios, por outro, todas as dores permanecem no nosso peito, quais batatas quentes que ficaram a arder no nosso colo, por não termos a quem passar o fardo. Não temos ninguém com quem partilhar o fardo das dificuldades, das desilusões ou dos insucessos. Estamos por nossa conta, para o bem (efémero, fácil de esquecer) e, acima de tudo, para o mal (o que mais relembramos, insistentemente).

 

De facto, é mais fácil prestar atenção ao que corre mal, do que ao que corre bem. Maldito enviesamento cognitivo! Diz a ciência que, para cada coisa negativa, devemos ter três positivas. Para quem trabalha sozinho, esta percepção errónea mata aos poucos a nossa confiança e o nosso bem-estar global.

 

Ultimamente, a existência de altos e baixos nas minhas atividades tem-me deixado mais cansada. Parece que, para cada nova alegria e fonte de satisfação, germina um novo obstáculo. Por outro lado, tenho de me recordar com frequência que o que interessa é não regredir, mesmo quando não há progresso. E que, além dessas atividades profissionais mais óbvias, tenho outras atividades nas quais posso encontrar consolo e realização - a escrita e o estudo sendo exemplos claros disso, não me trazendo remuneração neste momento, mas representando vitórias de um tipo diferente, não menos válido e, decerto, valioso na mesma medida.

 

Para colmatar alguma solidão sentida no processo, sinto que tem ajudado falar com uma amiga, também ela freelancer. Ultimamente, partilhamos dores muito parecidas, nas suas causas, manifestações, efeitos. Seja a ansiedade, seja a autoestima (temporariamente) posta em causa, seja as mil interrogações sobre o que fazer, quando fazer e como fazer... Sem dúvida, ajuda dividir as dores, mesmo que numa curta chamada ou mensagem, como faríamos ao almoço com colegas de trabalho, se trabalhássemos no mesmo espaço físico, no mesmo emprego.

 

Aliás, esse é um dos conselhos que li este fim-de-semana no livro que vos sugiro até sem ter chegado a meio da leitura, Solo: How to Work Alone (and Not Lose Your Mind):

Ser trabalhador independente a partir de casa, no meio duma pandemia, a viver longe da cidade, não tem de ser uma atividade solitária e isolada, ainda que pela sua natureza tenha de ser uma atividade realizada de forma individual, a sós com a nossa própria pessoa e mais ninguém (a tal que, tantas vezes, se tem de desdobrar em empregado, chefe, contabilista, marketeer, criativo, estafeta, gestor de equipa...; e que, por isso, se encontra exausta).

 

Ou seja, partilhar a experiência com mais gente da nossa confiança, que num contexto de empresa adoraríamos ter como colegas, pode ser uma solução para não nos sentirmos tão desacompanhados e para, acima de tudo, eles nos irem lembrando daquilo que teimamos em esquecer - como a normalidade das dores absolutamente inevitáveis, quiçá fundamentais, desta escolha profissional/económica que tomámos há uns anos. E que está tudo bem. E que não há problema sério nenhum, só as queixas habituais.