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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Digam vocês agora "Se Isto É Um Homem" (Primo Levi)

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Gosto tanto de ler, mas ler nem sempre é fácil, nem sempre é um passatempo prazeroso. Já sabia que Se Isto É Um Homem (Primo Levi) seria um desses casos em que nem sempre há coragem para agarrar no livro e prosseguir sem interrupções. Já tinha estudado excertos da obra durante a licenciatura e decidi usá-lo para um estudo de caso no âmbito do mestrado, exactamente para explorar conceitos como a "irrepresentação" do trauma, as respostas ao trauma (por exemplo, por via da arte, como espaço de encontro), o pós-memória e a sua relevância.


De vez em quando, não aguentei a imersão numa realidade assim, ainda por cima sabendo-a real - aconteceu, tudo o que se lê neste livro aconteceu, e não há muito tempo. Podia ter acontecido com um avô ou outro familiar, alguém próximo e contemporâneo aos nossos dias. Por isso, fui parando quase sempre de vinte em vinte páginas.

 

Cheguei a lê-lo antes de adormecer e acabei por ter um sono agitado, mesmo que não me parecesse sentir-me muito mal com o relato de Primo Levi. Se Isto É Um Homem é uma descrição surpreendentemente lúcida de meses traumáticos, que me tocou e ficou "por trás dos olhos", como se costuma dizer. Conscientemente, consegui filtrar alguns efeitos secundários deste livro (que os há sempre, para o bem e para o mal), mas senti algumas reacções inconscientes.

 

No entanto, acho que não devemos necessariamente fugir deste mal estar que alguns livros nos possam causar. Também é importante ler coisas desagradáveis, se isso nos pode tornar melhores pessoas, com mais conhecimento acerca do mundo em que vivemos, mais consciência, empatia, simpatia.

 

Livros como Se Isto É Um Homem, relacionados ou sobre o tema do Holocausto, ou outros eventos da História mundial, deveriam ensinar-nos a ser melhores. Relembram-nos das situações das quais ninguém está isento. Podemos não nos tornar especialistas no que se sucedeu, mas esses pedaços de memória registados e memorizados pela ficção e não-ficção são a prova do que a humanidade é capaz. E tudo pode começar por alterações muito subtis na sociedade.

 

Ler nem sempre é fácil, mas por vezes tem mesmo de incomodar e doer.

Não falo de política neste blogue: porquê?

Quando comecei este blogue, escrevia frequentemente sobre política, sobre notícias ou sobre assuntos actuais. Deixei de o fazer por alguns motivos, ao longo dos anos. Passei a escrever mais sobre trivialidades e nulidades, deixando as actualidades para quem de respeito e autoridade. Ou coragem.

 

É preciso ter coragem para comentar seja o que for. Há sempre quem leia a nossa opinião e partilhe a sua de forma construtiva e diplomática, há quem perca a noção e entre pelo ridículo de atacar a pessoa que escreve de imediato. Aliás, até a comentar um filme se vê o que espera quem queira escrever sobre seja o que for. É preciso comentar tudo com pés de lã. 

 

Por vezes, sinto que há problemas de interpretação do outro lado. Ou talvez seja eu quem os tem, quem sabe? Há quem não entenda sarcasmo, ironia, piadas, há quem não tenha sensibilidade quando se trata de assuntos sensíveis. Certas pessoas perdem-se no conteúdo. Por exemplo, quando escrevi sobre as minhas primeiras experiências do Tinder (apenas o assunto mais inócuo e engraçado de sempre), há uns meses, emergiram imensos ofendidinhos. Perdiam-se nas entrelinhas, atiravam logo pedrinhas em vez de lerem a totalidade do texto. Até assuntos banais ganham a dimensão de catástrofe social. 

 

E o meu blogue nem é muito conhecido! Sim, tenho alguns leitores habituais (cujos comentários e reacções me deixam muito feliz, obrigada por estarem desse lado ♥), mas também recebo feedback de algumas pessoas que caem aqui de pára-quedas e entram logo na ofensiva. Nem imagino quem tenha blogues com projecção, porque eu bem leio o tipo de comentários que recebem por dá cá aquela palha

 

Desta forma, tento não escrever sobre assuntos sérios, como política ou economia, porque sinto que, além de não ter o conhecimento suficiente para me poder defender em caso de ataque, há sempre o perigo de ser mal interpretada à espreita.

 

Logo eu, que escrevo mais para entreter e deixar as pessoas felizes, do que para causar o caos e o drama!

Desculpem o desabafo. Às vezes, tem de ser.

Uma terra para gente mesmo muito rica

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Tenho andado a evitar politiquices aqui pelo blogue, mas há um tema actual que me mexe com os nervos e que eu também sinto necessidade de partilhar convosco, para que mais vozes se possam juntar e mais cabeças possam pensar. Vamos falar sobre o preço das rendas em Lisboa e arredores, vamos falar da impossibilidade de viver em Lisboa ou num raio de 50km, vamos falar sobre a eminência daquela voz que nos diz - a nós, gente miúda quase graúda que quer sair de casa dos papás - que nunca iremos passar da cepa torta, porque tudo aponta para que nunca tenhamos dinheiro para ir viver sozinhos, ou mesmo com as caras metades, ou amigos, ou sequer constituir família.

 

Porque isso, viver em Lisboa, em 2018, é só para ricos. Mas gente mesmo muito rica. 

 

Neste momento, é cada vez mais difícil para qualquer pessoa encontrar uma casa para arrendar em Lisboa e arredores. O preço das rendas (e dos imóveis para venda) é superior aos salários e reformas dos cidadãos, há até quem se veja despejado da casa onde morou toda a vida por causa da actualização do contrato (sempre com valores a apontar para cima) ou porque o proprietário quer vender. Poder ter um tecto em Lisboa é um luxo. 

 

Para alguém da minha geração, é impossível entrar no mercado imobiliário; para as restantes gerações, é impossível ficar. Mesmo com rendimentos superiores ao salário mínimo, com 1000€ ou 2000€...

 

Como é que alguém com um salário líquido de 1000€ consegue pagar um T0 a 500€ em Lisboa? Ou um T2 a 1300€? Ou um T3 a 2000€? Até no concelho onde eu resido, a 30km de Lisboa, um apartamento T2 custa 400€ e os preços têm estado a subir constantemente nos últimos dois anos, porque muitas famílias se têm mudado ainda mais para Sul desta Margem. Soma-se o passe combinado de transportes públicos, 100€, três horas na deslocação diária, e aí está a Matemática feita.

 

Por causa destas rendas ridículas - e rendimentos ainda mais incompatíveis com todo o cenário nacional - pessoas como eu e até as restantes pessoas que vivem comigo não conseguem deixar de viver todas num agregado familiar gigante e, apesar de unido, cheio de incompatibilidades que vão surgindo por causa dessa condição. Em alternativa, estamos condenados a ter roommates para sempre. 

 

E eu... 

Como todas as pessoas, quero ter um espaço só meu, sobre o qual se possa dizer que fui eu que conquistei. Pode não ser agora. Contudo, um dia, talvez daqui a um par de anos, cinco, aos trinta, aos trinta e cinco...

 

Se arrumei, arrumei; se desarrumei, desarrumado estará. Se cheguei tarde, seja. Cedo, ainda bem. Convidar alguém sem pedir licença, entrar e sair porque sim, gerir o que é mesmo meu.

 

Todos têm direito a ter um tecto sobre as suas cabeças, a formarem família, a tornarem-se independentes, a deixarem os pais gozar a sua própria independência depois duma vida a criarem-nos.

 

Nem sei porque me estou a justificar.

 

No outro dia, pensei "nunca vou conseguir sair daqui [da casa da minha família]". É triste, mas uma verdade que se aproxima a passos largos da minha vida. 

 

Quando é que esta bolha vai abrandar? Ou rebentar? 

 

E há quem ache mal a minha geração gostar de lanchar nos cafés da moda... é das únicas coisas que [ainda] nos resta! 

O discurso de Marcelo

Hoje, antes de actuar no concerto comemorativo de tomada de posse de Marcelo Rebelo de Sousa, Paulo de Carvalho dizia que só esperava que o nosso novo Presidente da República tomasse para si a função de moralizar o país.
 
De facto, Marcelo começou bem. Deu uma lição de retórica, de História, de Geografia e de Literatura a Portugal, logo que chegou. Falou sobre a sociedade, a cultura e a economia. Citou escritores que nos são próximos. Deixou uma mensagem de encorajamento e esperança para quem mais precisa dela. Foi educado, correcto no discurso e nos modos. Pareceu-me transparente, coerente e genuíno nas palavras e nas emoções. 
Da minha parte, resta-me ficar na expectativa de que faça justiça ao seu primeiro discurso enquanto PR durante os próximos anos e de que não se torne em mais um bibelot na cena política portuguesa.
 

 
 

Doutores: a saga

Que vivemos num país flagelado pelos títulos... Isso já nós sabemos! Qualquer criatura com um bacharelatozito candidata-se a um "doutor" ou "senhor doutor" prefixado ao seu nome. É incrível a importância que atribuímos aos Drs. deste nosso Portugal, o país dos Drs.. Ironicamente, a minha experiência indica que quem menos se parece importar com essas cortesias são os Doutores (por extenso e tudo) legítimos. E já nem precisamos que nos relembrem dos Engenheiros, ou Engs. para poupar espaço.
No entanto, a geração de quem nasceu a partir dos anos 80 já não se importa tanto com a miscelânea titulária que a estrutura hierarquizada da sociedade portuguesa acarreta. Tornou-se relativamente comum tirar-se um curso superior, razão à qual atribuo a inversão do dito fenómeno.
Além disso, quem mais se vê a dispor do Dr. (isto é, sem contar com os médicos) são os políticos. Uma alegria!, saber que a governação se encontra entregue a indivíduos com estudos, especialistas nas respectivas áreas!!! Só que não; muitas das vezes, é só letras de vista.
Mas ainda não cheguei ao cerne da questão que desejo escrutinar. Calma...
Então e uma mulher? Pode ela ser Drª, à semelhança dos seus pares? Claro que sim: temos a Drª Maria de Belém, a Drª Maria Cavaco Silva e até a Drª Júlia Pinheiro (juro que este exemplo é verídico)!
Então e se for mulher E de esquerda? Bem, essa é outra realidade. A Mariana é tão novinha que nem os quase três graus académicos em Economia lhe valem. E a Catarina, cruzes credo, alguma vez se viu uma Drª como deve ser em Linguística?
Aiiiii, os paternalismos, senhoras e senhores! Ai, os debates da SIC Notícias e Companhias Ilimitadas, em que qualquer badameco é logo Senhor Doutor, Senhor Professor, Senhor e Deus do comentário semanal! Já a Marisa, coitada... É só marisa2016.net. Nem o doutoramento em Sociologia e a actividade de investigadora lhe valem.
Num país tão preocupado com os títulos, não será coincidência que a fome se junte à vontade de comer, e à gulodice também. Forte Tradição Hierárquica + Títulos + Paternalismo = BFF, citando um antigo jornalista da nossa praça.

Só em Portugal, a selva humana de edição limitada

O Governo (de Portugal, what else?) quer limitar o número de animais domésticos por apartamento para, no máximo, três cães ou quatro gatos. A boa notícia é que eu vivo numa moradia e, de momento, tenho "apenas" dois cães, dois gatos e uma tartaruga, não sendo, de qualquer modo, vítima directa dessa infeliz ideia que os nossos caríssimos políticos querem implementar.

Aliás, será que eles têm alguma coisa contra as tartarugas? Ou contra os próprios cães ou gatos, já agora. Que mal é que eles fizeram às pessoas, afinal? Se alguém tiver um apartamento grande, ou com uma varanda, ou uma vida que lhe permita passear os bicharocos as vezes suficientes de modo a dar-lhes um bom lar e boas condições de vida, não entendo por que haveriam de o proibir de os ter. Pessoalmente, acho muito mais problemático ter uma aranha, seja num apartamento ou numa mansão. Ainda mais problemático que qualquer aranha, ou réptil exótico (tipo anacondas e cenas malucas do género, que isto existe de tudo), é haver animais abandonados aos montes ou a serem treinados para... actividades menos agradáveis. Desde que a presença de vários animais por apartamento não incomode vizinhos, esta nova proposta de lei é uma farsa, um desvio de atenção para assuntos prementemente mais importantes. Não é verdade? 

 

Senhores ministros, senhores deputados, senhores-sejam-lá-quem-forem, sempre tive animais de estimação e penso que só tenho retirado benefícios dessa convivência permanente com eles. E não é só de mim: já foram feitas investigações científicas que provaram que o contacto com animais (domesticados, não como uns certos sujeitos engravatados) reduz o stress e combate eventuais depressões, trazendo-nos sensações positivas de conforto, calma e altruísmo. Como é óbvio, quem aprovou esta proposta decerto nunca terá conhecido tais relações como as que se estabelecem entre um ser humano e um companheiro de quatro patas.

 

Infelizmente, há indivíduos que, de humanos, só têm o polegar oponível e a posição anatómica erecta.

Contudo, felizmente, também há bichos que, de animais, só têm o nome.

A ciência da trivialidade

Os telejornais da televisão portuguesa já são suficientemente maus num dia normal, em que se pode falar da so called política que neste país se pratica, mas, no dia de reflexão antes das eleições... a produção de conteúdos acerca das compotas da Ti Marília e do cão do vizinho Chico (entre outros) ganha uma outra dimensão, muito, muito mais avançada, como que elevada à categoria de ciência!