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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

O trabalho, o tempo, a produtividade e o capital (entre outros)

Quando decidi estudar Línguas e Humanidades na escola secundária, ouvi muitas vezes a ameaça-feita-pergunta "que emprego é que vais ter? Professora?" seguida de sugestões de cursos muito mais proveitosos, como ir para Economia e depois tirar Finanças ou Gestão na universidade, tornar-me solicitadora ou vir a trabalhar numa multinacional tipo Deloitte e ganhar dinheiro (muiiito dinheiro, pelo menos mais dinheiro do que se me tornasse, Deus nos livre, professora).

 

A ditadura do capital e da produtividade esteve presente na minha vida desde cedo. Sempre que expressava as minhas inclinações mais criativas, literárias e artísticas, era incentivada, mas não se isso me impedisse, por exemplo, de seguir Direito, ou mesmo Antropologia, as últimas tentativas de argumento do meu pai. "Porque são disciplinas com nome, não são uma coisa inventada", como quem quer dizer que ficariam bem num currículo.

 

Felizmente, arranjei sempre maneira de fazer valer a minha licenciatura com cheirinho a artes liberais, o meu interesse pelas letras, a minha paixão pela escrita, a minha recusa veemente em ter a cabeça a prémio no jogo da empregabilidade. Apesar de o objectivo inicial ter sido o jornalismo, em breve percebi que a profecia alheia era mesmo uma das minhas paixões: aos 21 anos, fiz-me professora sem dramas ou espinhas, porque, acima de tudo, fui proactiva, fui esforçada, trabalhei,  estagiei e fiz formação profissional durante a licenciatura, e tive boas notas que me puseram um pé na porta nalgumas situações.

 

Desde a infância, a geração dos millennials ouve a ladainha "é pelo teu bem" ou "é pelo teu futuro". A matriz cristã católica está bem enraizada nestas crenças, porque sofrer e fazer sacrifícios só pode ser igual a obter a salvação, ou sucesso. É isso que interessa. Claro que todos os pais querem o melhor para os filhos, mas por que tem de ser este "o melhor" que conseguem imaginar?

 

Hoje, estou em paz por ter decidido não carregar nenhuma cruz. Pessoas felizes são bem-sucedidas e rodeiam-se de pessoas bem-sucedidas - seja lá o que isso do sucesso possa significar.

 

Para mim, sucesso é ocupar-me do que me faz sentir útil e apreciada, não é ganhar montes de dinheiro, mas sim ter tempo, saúde mental e oportunidades de crescimento constante. Tive-o no meu primeiro e único emprego como leitora numa universidade em Banguecoque; quando voltei para Portugal, sempre soube que só o conseguiria nos meus termos se criasse o meu próprio emprego.

 

E assim foi. Não há dinheiro que pague o tempo que tenho para continuar sempre a estudar, a fazer trabalho criativo paralelo, coleccionar projectos profissionais simultâneos e decidir quando tenho férias (na verdade, acabo por ter menos dias de férias, mas isso é porque também posso ter meios dias de trabalho e outras regalias). Tudo isto, sem ter um esgotamento.

 

Para mim, ter sucesso é ter tempo para pensar, experimentar e criar - ou simplesmente não ser produtiva. É ter tempo para estar com as pessoas que amo, conhecer novos sítios, ler, escrever, passear.

 

A ditadura da produtividade é a melhor amiga da ditadura do capital, como se o ser humano só se concretizasse plenamente pelo seu volume de trabalho. E o que é esse trabalho? Muitas vezes, nada muito edificante, como contribuir para o fluxo de burocracia e entropia já existente. Parecer ocupado é o que mais interessa na sociedade que preza a produtividade, não é ocuparmo-nos de algo significativo.

 

Fica mal dizer-se outra coisa que não "tenho estado tão ocupada, que mal consigo respirar". Mais uma vez, temos de provar e alimentar o sacrifício diário. Claro que há pessoas ocupadas, eu mesma também passo por períodos mais cheios de trabalho (como nos próximos meses), mas estar ocupada é diferente de me fazer parecer ocupada.

 

Esta é apenas uma reflexão sobre o modo como vemos o mundo do trabalho. Gostava que as próximas gerações, ou mesmo quem se candidata este ano ao ensino profissional e superior, pudesse ver o seu futuro activo além dos títulos, das horas de trabalho, do prestígio e do dinheiro. Aviso-vos de coração: tenho amigos e colegas mais velhos que passaram anos e anos a trabalhar em indústrias e sectores que não lhes acrescentavam nada à vida, e que, chegados a uma certa idade, acabaram por repensar as suas prioridades, escolhendo o que deveria ter sido sempre escolhido: ser feliz e realizado.

 

Claro que o dinheiro é imprescindível: o bem-estar material precisa de estar minimamente assegurado para que outros objectivos surjam. Claro que o prestígio é importante, desde que seja aquele que nos motiva e permite continuar a evoluir.

 

Ainda assim, acredito que apareçam ambos na quantidade necessária como consequência de um sentimento de plenitude e preenchimento, de espírito de missão de que nos imbuímos quando descobrimos a profissão (ou profissões, ou ocupações) que nos fazem sentir que estamos a contribuir para o mundo da melhor forma, aquela que nos compete e melhor se ajusta, de acordo com os nossos interesses e talentos.

 

É com estas cores que vejo o mundo aos 25. Não digo que jamais mude de ideias, mas não custa ser idealista por um bocadinho.

 

***

 

A ler: How to Do Nothing, Jenny Odell

Comprar livros em Portugal, durante e após a pandemia

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Bom fim-de-semana, com uma nova crónica minha no P3 do Público - um apelo relacionado com os efeitos da crise recente nas indústrias dos livros em Portugal, mas também sobre o amor que tenho por eles. 📚

 

Deixo-vos um trecho:

"O medo é uma emoção muito comum nestes dias. No entanto, a sugestão que deixo é a seguinte: se tiverem condições para tal, aliviem parte desse medo com livros. Escolham livros que vos consolem, que vos façam companhia, que vos inspirem, que vos informem e (ou) que vos distraiam, que vos façam felizes."

 

Boas leituras! E boas compras!

Considerações sobre o fio da navalha (ou as dificuldades invisíveis dos trabalhadores independentes)

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Sob o pretexto de estarmos à beira duma crise económica, ou de estarmos a atravessar tempos difíceis, há quem se queixe de que os profissionais independentes (como é o caso de professores e formadores, ou seja, o meu caso) estão a cobrar demasiado dinheiro pelos seus serviços. Não podemos cobrar X valores, temos de cobrar Y, porque X é muito para esta época. Temos de baixar os preços, dizem essas pessoas. Temos de ser solidários.

 

Assim, sob um pretexto de falsas boas intenções e hipocrisia, este desprezo dedicado aos trabalhadores independentes, vulgo freelancers, uma classe tão vulnerável quanto qualquer outra, deixa-me bastante desapontada. Não sabe quem reclama dos preços praticados que, com crise ou não, as obrigações fiscais, legais e contributivas continuam a ser as mesmas? Não sabem essas pessoas que o facto de estarmos em teletrabalho não invalida o facto de estarmos a negociar o nosso tempo e a nossa sanidade mental? Não sabem essas pessoas que os trabalhadores por conta própria também vivem no fio da navalha? Não sabem que também estamos expostos à recessão que se adivinha?

 

O meu tempo tem um preço. Os serviços que presto têm um preço. É o meu preço justo e não o aumentei nem diminuí nas últimas semanas. Aliás, continuo a trabalhar com um estoicismo e em tentativa de normalidade que me surpreendem na mesma medida que me deixam ainda mais exausta ao final dum dia à frente do computador, mais do que seria, lá está, normal.

 

Tenho muita sorte, porque acertei numa actividade profissional que vinga, apesar de tudo, no meio da pandemia, e que neste momento até tem algum potencial de desenvolvimento. Contudo, tal como tenho sorte, não me falta engenho. O que me pagam não se justifica apenas pelo meu tempo a trabalhar; uma hora de trabalho não é uma hora. Na minha opinião, o que me pagam deve ser proporcional à formação contínua e ao desenvolvimento de competências e conhecimento nos quais invisto de forma constante. No ano passado, completei quase dez cursos de formação em áreas relacionadas com a minha actividade, além da formação universitária que continuo a frequentar em paralelo. Por esse e tantos outros motivos, não me peçam borlas.

 

Além disso, o que adoptei como vocação e profissão não é um bem ou serviço de primeira necessidade. É, se quisermos, um luxo. Há alternativas, algumas - muitas - delas gratuitas. Os mesmos queixosos que defendem que os professores/formadores por conta própria deveriam cobrar preços mais baixos, porque se pode aprender essas mesmas coisas na Internet, através de apps, sites e programas chapa 0, são os mesmos sujeitos que não utilizam essas ferramentas e que quase exigem ter um criado que sabe coisas ao seu dispor.

 

Correndo já o risco inevitável de enveredar pela personalização da minha mensagem, remato com um apelo: não questionem cegamente quanto custa recorrer ao trabalho de um profissional independente (sim, aquela pessoa dos recibos verdes, que pode ser um canalizador, um professor, um técnico de manutenção, um empregado de limpeza, um consultor, um médico privado ...). Comparem, informem-se, tenham noção, mas não ditem o que outra pessoa deve ganhar sem pensar em tudo isto. Num mundo onde o low cost e a precariedade são banais, apelo a que valorizem a qualidade pelo seu custo justo. Desta forma, se não concordarem com a primeira proposta que receberem, o melhor a fazer é procurar quem vos possa apresentar uma melhor, ou uma mais adequada às vossas necessidades e possibilidades.

 

Quem quer fazer omeletes sem ovos deveria resignar-se ao facto de que tal fenómeno, por norma, não existe. Ainda estou para conhecer um produto ou um profissional de notória qualidade e eficiência que não tenha valido todos os meus cêntimos. É assim que quero que os meus clientes/alunos se sintam: que eu não sou uma profissional low cost, mas que o retorno faz valer a pena - seja em tempos prósperos ou de escassez.

 

E, se o leitor também for trabalhador independente, não se deixe enganar, reduzindo o valor do que faz. Uma coisa é negociar, outra coisa é ser desvalorizado.

Encomendar livros durante o estado de emergência: um dilema

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Hoje encomendei imensos livros dum site nacional, porque têm um dia de descontos e eu quis aproveitar para conseguir alguns livros que tenho vontade de ler/ter há muito tempo.


Sei que muitas pessoas têm o emprego em risco, empresas que não sabem o dia de amanhã, e sinto o assunto de forma aguda porque o meu pai trabalha na Sá da Costa (Lisboa) e tiveram de fechar ao público. As perdas vão ser mais que muitas. Na Sá da Costa, continuam a trabalhar em armazém, dizem que têm trabalho para dois meses, mas e depois...? Tenho medo que os serviços e indústrias ligados aos livros, que me são tão queridos, sejam irreversivelmente afectados e que, mesmo a meio gás, seja uma parte da economia a sucumbir (ainda por cima, sendo Portugal um mercado muito pequeno). Assim, ao fazer a encomenda, pensei "é uma empresa portuguesa, mandei vir livros da autores e editoras nacionais, vou dar-lhes um empurrão." Infelizmente, a realidade é espinhosa e fui alertada para o seguinte: há pessoas a trabalhar na distribuição, que estão na rua, enquanto eu estou resguardada em casa. Nem todos temos trabalho durante esta pandemia, e muito menos são aqueles que o podem fazer a partir do seu lar.


E, agora, devemos parar tudo? Ou devemos continuar a tentar estimular o que ainda sobrevive nestes tempos estranhos, principalmente pequenas empresas do país? Afinal, sabe-se lá até quando é que poderemos, sequer, fazer encomendas...

 

Fica por aqui o dilema.

Ainda a despenalização da eutanásia

No outro dia, a minha avó disse-me uma das coisas mais dolorosas de sempre. A minha avó disse-me que, no dia em que se vir sem liberdade de movimentos, sem conseguir garantir a sua independência e autonomia, com dores físicas (e principalmente uma grande dor interior), vai pensar em suicidar-se.


No que toca a esta discussão sobre a despenalização da eutanásia em Portugal, confesso que me poderão faltar argumentos técnicos, médicos ou legais. No entanto, o que não me falta é a sensibilidade de alguém que ama e pretende proteger os seus entes queridos de qualquer dor, até ao fim dos seus dias, não importa quando ou porquê. Quero que vivam por gosto, não por obrigação. Mas não é fácil chegar a consenso nestes assuntos, pois não?


A minha avó é a minha heroína. Quando me faltou uma mãe, foi ela que se chegou à frente para ocupar essa função. É a pessoa mais generosa, abnegada e também senhora do seu nariz e da sua liberdade que conheço. A minha avó tem 78 anos, mas pega no carro e nas suas pernas e lá vai ela a todo o lado, principalmente pelos outros. Claro que a idade pesa e não vai para trás, por isso também sente que a agilidade e a rapidez do corpo de outrora já não são as mesmas. As pessoas não são eternas, o corpo humano é falível.


A minha avó é a pessoa mais importante da minha vida e eu não quero que a pessoa mais importante da minha vida vá dormir a pensar que, se sofrer um envelhecimento incapacitante, a única solução para terminar os seus dias com a dignidade que acha necessária (o que inclui a sua individualidade, a sua liberdade, a sua saúde e conforto) passará por morrer sozinha e de sabe-se lá que forma, em segredo, por desespero.


E, assim como no toca à minha avó, não quero que nenhum português tenha de ouvir da boca dos seus familiares ou amigos que, um dia que percam as condições necessárias para viver com a dignidade que consideram necessária, por motivos de falta de saúde, pretendam suicidar-se, ou que sequer pensem nisto.
Infelizmente, há outro lado. Eu também não quero que a alternativa a esse fim aconteça sem lei, sem garantias de suporte psicológico, sem consenso entre médicos, sem condições hospitalares, sem fundamentação, sem garantias, sem mecanismos que possam proteger as famílias que assim escolhem. Tomar uma decisão colectiva seria só o primeiro passo: e o resto?


No fundo, o que me preocupa é que a sociedade e o horizonte político do país ainda não estejam preparados para um passo tão significativo como a legalização da eutanásia. Nem a lei, nem as pessoas me parecem ter os recursos e o entendimento necessário para levar esta decisão e respectivas consequências avante. Se eu gostava que estivéssemos protegidos e pudéssemos confiar nas autoridades médicas e legais, caso alguém que amamos já não tenha assegurada a condição humana intacta? Caso esteja em tamanha dor física e/ou psicológica que mantê-lo vivo seria pura crueldade? Gostava muito.


Mas será possível confiar que erros de julgamento e diagnóstico, buracos na legislação e na discussão filosófica e societal não vão ocorrer, mesmo que por acidente? Disso já não tenho a certeza. Por isso, sobra-me pensar que a discussão sobre a legalização da eutanásia nos deveria fazer dar as mãos e unir esforços, em vez de nos colocar nos extremos da bancada. Este não é um assunto de esquerda, de centro ou de direita. É um assunto de humanidade, que pede tolerância, cautela e muita cooperação na procura de respostas. Afinal, não se brinca com a vida (e a morte) humana. Sim, eu sou a favor da possibilidade de eutanásia, mas talvez não num país como o Portugal de hoje. A minha avó merece melhor.

 

***

Entretanto, depois de eu ter escrito este texto, o parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida foi divulgado: aqui.

Quem é que escreveu o teu texto?

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Nos dias que correm, parecemos ser todos produtores de conteúdo instantâneos. Independentemente da faixa etária, utilizamos a Internet e aplicamos  asnossas competências digitais de forma inata, porque nascemos com cada vez mais dispositivos electrónicos à nossa volta e são-nos dadas cada vez mais comandos, telemóveis, computadores, tablets e mil engenhocas para as mãos quando somos cada vez mais novos. Por isso, a possibilidade de produzir conteúdo para um público vasto é um dado adquirido, ainda por cima num país como Portugal, onde facilmente nascemos com veia de escritor (até aqueles que pouco lêem). 

 

Tenho passado algum tempo no LinkedIn e, nesta rede social em particular, fico assoberbada pela quantidade do que por lá se escreve, a rodos. Fica a impressão de que há sempre algo para contar, toda a gente tem algo a contar, toda a gente é inspiradora e toda a gente conhece outro alguém com uma história inspiradora. Atenção: os textos que por lá se lêem nem são maus; são só "poucochinhos". A democratização das técnicas de storytelling (meras fórmulas) não traz necessariamente histórias que interessam, sem criar mais ruído. À parte a prática do amor próprio e ao próximo, que muito admiro e prezo, olho para esta entropia de histórias com pesar e cepticismo. A verdade é que quantidade não é qualidade, e muito menos novidade.

 

Felizmente, há histórias bem contadas e textos muito bons, que perfazem uma boa fatia do que tenho lido. E o que é uma história bem contada ou um texto muito bom? Claro que este meu próprio texto resulta de um exercício de altivez propositado, e que haverá critérios para todos os gostos. Assim, atrevo-me a apontar que, para mim, acima de tudo, um bom texto é um texto em que consigo ler a voz do autor. É um texto que não se parece com outros, seja pelo género, registo, tema, conteúdo, forma, respeito ou desrespeito pelas regras gramaticais... É um texto onde (sobre)vive alguém, e onde se nota um esforço de inovação e de permanência de uma tal voz autêntica, que não se copia. Quem escreveu o teu texto? Quem é que habita o teu texto? Quem é o autor assumido do teu texto? Foste tu a escrevê-lo ou poderia ter sido outra pessoa qualquer?

 

Como resposta a estas perguntas, não há mesmo fórmulas possíveis. Não há "princípio-meio-fim", título cativante ou primeira frase cheia de impulso que salve um texto. Estes são só o ponto de partida para algo que pode ser nosso, se o deixarmos acontecer, porque há mais além manuais de escrita criativa. Há pessoas.

Quase rezei para gostar: Jesus Cristo Bebia Cerveja (Afonso Cruz)

Já vos contei da primeira experiência a ler Afonso Cruz: fiquei triste por pensar que iria ser a revelação do ano, e foi mais a desilusão do semestre. No entanto, decidi dar uma segunda oportunidade, porque outras pessoas confirmaram que, da bibliografia do autor, Flores não era o melhor.

 

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Assim sendo, avancei para o outro livro que já tinha comprado: Jesus Cristo Bebia Cerveja. Neste, Afonso Cruz conta a história duma neta - Rosa - e duma avó - Antónia - que vivem no cimo dum monte, perto duma aldeia caricata. Comecei logo por gostar da premissa, que já tinha conhecido quando ouvi Afonso Cruz numa feira cultural em Banguecoque, há um par de anos. Também eu sou neta única, também eu tenho uma avó que substitui e compensa por qualquer mãe biológica que tenha tido outras ambições na vida, e também eu tenho medo que a minha avó adoeça e perca qualidade de vida, mas certa de que, se fosse necessário, também eu montaria uma Jerusalém no meio do Alentejo.

 

Apesar de achar que não é o melhor livro dum autor português contemporâneo que leio, gostei bastante de Jesus Cristo Bebia Cerveja. Todas as personagens têm uma faceta de loucura que só a literatura poderia catalogar tão bem, e que não me surpreenderiam se existissem na vida real. Na sua falta de sentido, fazem sentido. É um elenco que, senti, enriqueceu o meu imaginário, que me obrigou a pôr-me na pele de Rosa e a alegrar-me e a incomodar-me com a narrativa dos seus dias.

 

A aparente temática religiosa - Jesus Cristo Bebia Cerveja - é só um chavão, mas outras discussões são deixadas no ar para as apanharmos: o papel da mulher como cuidadora primária da família, o papel do homem possivelmente dependente das mulheres na família e na sociedade, o significado do amor romântico, o cosmopolitanismo e as viagens, as relações entre empregados e empregadores, a importância da educação moral e emocional vs. instrução - tudo isto misturando um cenário que não cheira a passado, nem a presente, nem a futuro, mas que me cheirou definitavamente a uma imagem mental do interior de Portugal.

 

Além disso, apesar de o final ser triste q.b., promete um renascimento de igual forma. Quando gosto de uma personagem, prefiro acreditar que outras vidas lhe restarão para outros livros hipotéticos. Depois de decisões difíceis, algo virá, bom ou mau.

 

Jesus Cristo Bebia Cerveja, porque, afinal, todas as histórias podem ser contestadas e reimaginadas.

 

📚 Entretanto, instalou-se na minha casa uma febre de Afonso Cruz, pelo que já tenho Os Livros que Devoraram o Meu Pai O Macaco Bêbedo Foi à Ópera recomendados e preparados para descolarem da estante. Por onde começo - alguma sugestão?

Como se chamam as ruas do futuro?

No seu último livro, Não Respire, Pedro Rolo Duarte conta-nos sobre o entusiasmo que sentiu ao ouvir que a uma rua se tinha dado o nome de alguém que ele tinha conhecido e respeitado. A vida começa e termina, mas há quem ganhe uma espécie de segunda existência quando um rádio de taxista pede um "móvel" para a Rua Helena Vaz da Silva, a senhora que ele conheceu - jornalista, fundadora do Expresso -, que muitos outros não saberão quem é, por muitas vezes que lá passem; ou para a Rua Ana de Castro Osório, que o autor só soube que era escritora quando já nem morava nessa rua.

 

Isto pôs-me a pensar: que nomes terão as ruas do futuro? Quem dos dias de hoje será eternizado através do seu nome na geografia nacional (quiçá internacional)? Alguém que eu conheça? E - a questão mais egocêntrica de sempre - serei eu parte dessa paisagem? Imagino-me daqui a cinquenta anos - haja saúde! - a reflectir nas duas primeiras décadas dos anos 2000. E nas personalidades que fazem parte dos meus dias, da minha geração, da minha formação contemporânea.

 

Terão as ruas nomes de actores? Políticos? Escritores? Apresentadores de televisão? Humoristas? Ou nomes de plantas? Ou nomes conceptuais, como um bairro perto da minha casa com nomes como Amor, Amizade, Paz, Sossego e Vitória?

 

No que toca às personalidades eternizadas (ou reduzidas) com o seu nome numa pedra suja ou placa enferrujada de rua, muita água há-de correr nas próximas décadas. Quando ganharmos objectividade sobre os tempos que vivemos actualmente, o que será tido como prioridade a transmitir aos que virão? Que gente, eventos e valores recordaremos?

Viver sempre como se fosse o último ano: Não Respire (Pedro Rolo Duarte)

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Eu já quis ser jornalista e pensei mesmo que o seria desde os tempos de secundário até ao segundo ano de licenciatura (correspondente ao período de negação sobre o prazer que ensinar me dá). Por isso, até agora, ainda não fui jornalista, pois não. Mas uma coisa é certa: aquilo que eu mais gosto é de escrever (e de saber que há quem leia o que escrevo), continuo a ter o mesmo interesse, assim como de ler, e de ensinar, e de aprender. A recomendação que vos trago hoje relembrou-me por que é que o jornalismo fez parte dos meus planos no passado e, acima de tudo, por que motivo a escrita dificilmente deixará de ocupar um lugar prioritário no meu presente e futuro.

 

Por ter sido um livro tão falado à minha volta, que emocionou tanta gente, não esperava que Não Respire, de Pedro Rolo Duarte, também me engolisse como engoliu. Sou ligeiramente do contra, quase que espero sempre não ser conquistada pelo que conquista os outros. Além disso, mantive as expectativas baixas, principalmente porque me prendia o generation gap e as referências ao passado recente e a círculos profissionais e sociais que desconheço, e porque o autor marcou uma geração e um público que não tinha a certeza de que seriam os meus.

 

Afinal, talvez sejam, mas comecei muito a medo. Aliás, finalmente dei-me por vencida sobre se haveria de comprar o livro quando o encontrei na venda de livros em segunda mão da Rua da Anchieta (e o vendedor me fez um desconto), no dia 1 de Maio, e estive mais de dois meses com ele na estante a ganhar fôlego.

 

Ainda bem que assim foi. Se não me tivesse rendido à curiosidade acumulada, não teria lido as memórias de alguém que ainda tem tanto para ensinar e contar aos mais novos, enquanto recorda a sua infância, juventude e uma idade adulta cheíssima com que outros se identificarão directamente. Sinto que, esteja onde estiver, Pedro Rolo Duarte continua a sua obra por cada leitor que revisitar os seus trabalhos realizados em vida. O legado continua enquanto ainda houver quem o leia.

 

E este livro não é sobre o cancro, não é sobre Pedro Rolo Duarte estar doente e pensar que pode morrer. Antes pelo contrário, sem clichés, é uma celebração do que viveu, um esboço de autobiografia e uma menção especial às pessoas com quem se foi cruzando, pelo bem e pelo mal, sem vergonha ou arrependimento. Até às últimas cinco ou dez páginas, quando finalmente surge alguma preocupação acerca duma cirurgia arriscada, não existe sinal de derrota ou desânimo.

 

Entre textos escritos e publicados no passado, textos inéditos, a homenagem constante ao filho, à família e aos amigos, e notas curtas sobre o dia-a-dia, Pedro Rolo Duarte concentra-se no privilégio que é ter uma vida completa, fazendo-se aquilo de que se gosta e rodeando-se de pessoas inspiradoras e igualmente enérgicas, tudo com uma paixão admirável que transborda livro fora (e que me deu muita vontade para ir procurar mais sobre o seu contributo para o jornalismo português recente, seja na televisão, na imprensa (destaque para o DNA) ou mesmo no blog pessoal. Pelo que escreveu durante o seu último ano de vida e pelas crónicas repescadas, consegui ser contagiada pelo seu bom carácter, ética de trabalho e gozo pela mera possibilidade de estar vivo, não só quando soube que tinha cancro, mas em geral durante os seus cinquenta e três anos de vida. E conseguiu acabar o livro antes da história acabar.

 

Se querem ser ou são jornalistas, têm de ler este livro. Se gostam de bom jornalismo, também têm. Se vos interessam vidas cheias que vos deixem inspirados, força. Este Não Respire é tudo: memórias pessoais e profissionais de alguém que viveu intensamente as primeiras décadas pós-25 de Abril, é um pedaço de história do jornalismo recente em Portugal, na primeira pessoa, pelos olhos e palavras dum agente dessa realidade; é um elogio à vida e ao amor em todas as suas facetas. E vai-se lendo, uns textos mais desafiantes que outros, curtos e longos, bocadinhos de sabedoria de quem a foi acumulando pela experiência.

 

📚 Que outras histórias reais vos têm inspirado? 

Há um ano em Portugal

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Fez ontem um ano que estou em Portugal e muito do que eu esperava não se concretizou nestes primeiros doze meses a seguir ao regresso. Parte da rede de apoio desmoronou-se, o mestrado com o qual eu tinha andado a sonhar não me entusiasma tanto quanto eu previa, a alegria de voltar para o pé da família e dos amigos reveza-se com contas interiores por ajustar.


No entanto, fecham-se portas e abrem-se janelas. Já não dou aulas numa universidade, mas gosto bastante do que faço e vou gostando do que estudo. A viagem à Escócia, onde prometi voltar a cada novo dia no meio duma cidade de betão, realizou-se. Continuei a escrever, tive tempo e disposição para ler e para fazer planos que me entusiasmam. Conheci quem me inspire e faça bem, nunca me faltaram abraços.


O que eu quero dizer é que a vida aconteceria inevitavelmente lá ou cá, assim ou assado. Não é um sentimento de impotência, mas sim de controlo: a vida não parou, porque me tenho esforçado para que não pare e para que vá seguindo um rumo agradável à navegação. A iniciativa própria tem peso nos eventos; não controlamos tudo, mas aquele bocadinho que aterra nas nossas mãos é um óptimo começo.


Além disso, tem sido um ano de reaprendizagem. Reaprendi a depender um pouco dos outros, reaprendi a estar acompanhada, reaprendi a confiar nas minhas decisões e reaprendi a não me preocupar demasiado por antecipação, mas sim a esforçar-me apenas dando o meu melhor, de acordo com as circunstâncias, não almejando a feitos heróicos e, certamente, irreais. Neste caso, aprendi mesmo, pela primeira vez, que não sou de ferro. Foi um ligeiro passo atrás para poder continuar em frente.


Ao chegar ao aeroporto de Lisboa, após 30h de viagem, deparei-me com esta frase de José Luís Peixoto (que, por coincidência, eu conhecera algumas semanas antes em Banguecoque):

 

Quando chegares, não te esqueças de onde partiste.

 

(Frase esta que eu lera, também algumas semanas antes, no livro O Caminho Imperfeito, que JLP escreveu sobre algumas das suas experiências na Tailândia e sobre viagens.)

 

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De facto, não nos podemos esquecer de onde vamos partindo, seja territorial, mas também profissional ou emocionalmente. É difícil prever o próximo destino, mas costuma-se dizer que devemos, em vez disso, apreciar a viagem. Talvez os clichés tenham razão.

 

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