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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Dos outros #42 - edição especial com comentário

Estou quase a acabar de ler um livro chamado Os Portugueses, do jornalista inglês Barry Hatton (que vive em Portugal há cerca de 28 anos). Este excerto é apenas uma das imensas pérolas que o autor refere acerca dos tugas - perdão, portugueses! - e só lendo o livro todo é que se acredita que, realmente, somos uma sub-espécie humana muito curiosa. Depois de passar 2 semanas a viver com pessoas doutros 4 países, não podia deixar de sublinhar que tudo o que o autor teoriza é verdade, provavelmente em todos os aspectos da nossa vida. Graças a estra grande obra-prima da literatura cultural, fiquei a conhecer-me muito melhor e aos meus compatriotas (pronto, pronto, mais opiniões no outro blogue, quando terminar a leitura).

Apesar de ser um bocadinho longo, aconselho-vos a lerem todo este parágrafo. Vale a pena!

 

Os portugueses tornaram-se adeptos de se irem safando, um talento para a adaptabilidade chamado «desenrascanço», aperfeiçoado por séculos de dificuldades. Trabalhos paralelos ajudam a manter as dificuldades à porta. Fora das cidades, as pessoas têm em geral um bocado de terra onde plantam legumes e, mesmo nas cidades, podem encontrar-se faixas de terreno plantadas no meio do trânsito intenso. A sociedade parece obedecer a regras informais. A ajuda vem da família ou dos vizinhos, ligados por uma rede informal que compensa as limitações do sistema. Não é o modelo da moderna UE, mas mais uma inspiração do passado. Arranjar alguma coisa que é precisa implica alguns telefonemas para amigos dos amigos - relações úteis chamadas «cunhas» - porque o Estado, pensam as pessoas, nunca vos dará nada de bom grado. Estas relações substituem os parâmetros do mérito e da justiça pois, dizem os portugueses, não se trata de «saber como» mas de «conhecer quem». E, esperando por um milagre como o regresso de el-rei D. Sebastião, os portugueses são os europeus que gastam mais, em termos relativos, na lotaria do Euromilhões. Tal como aqueles que afastam os receios de uma repetição do terramoto de 1755, estes jogadores depositam a sua fé na providência e apostam pouco na possibilidade de triunfar através da sua própria iniciativa. 

 

Barry Hatton, Os Portugueses

 

 

 

 

 

 

Encontrou-se "A Gaiola Dourada"

Em primeiro lugar, muito obrigada a todas as respostas que me têm dado acerca de como conseguir ver "A Gaiola Dourada - porque já vi! Mil obrigadas!

 

É, realmente, um bom filme. Dá, realmente, para rir. Tem, realmente, bons actores e tem, realmente, uma boa produção. Porém, também não pensei que fosse, realmente, uma história sobre os reais emigrantes portugueses em França - e não é. Era uma caricatura, está tudo dito! Aliás, é uma óptima caricatura que destaca muitas das particularidades dos portugueses, mas só aquelas que fazem de nós tugas. Por vezes, tal caricatura pode fazer-nos parecer um bocado bimbos, se não percebermos que alguns dos aspectos mostrados são vítimas do exagero na tela, ou seja, este filme é mais uma inside joke de portugueses para portugueses - futebol, bacalhau, fado, gosto em agradar aos outros com o nosso trabalho, ou como porteiros ou como operários na construção civil no país de acolhimento -, que só deve ser verdadeiramente entendida por nós e cuja interpretação por parte dos estrangeiros deve ficar aquém do esperado. De resto, foi uma hora e meia que passou a correr, que me entreteve; isso é que interessa! O fim é um bocado foleiro, com tanto beijo e tanto abraço, mas entendeu-se a ideia... Saudadinhas da família e somos um povo que gosta de calor humano e cenas... E outra vez o futebol.

 

No final, 4 em 5 estrelas.

Dos outros #36

"Acaso alguém seja melhor nalguma coisa que os outros, a regra portuguesa é pedir-lhe que tenha a polidez e o espírito de solidariedade para agir tão mal como o pior. Assim todos, maus ou bons, podem gozar do privilégio reconfortante e demoracrático de dizer: «Ouve lá, se eu quisesse, fazia melhor... mas, para quê, se são todos tão mauzotes, coitados...?» A incompetência portuguesa nada tem de natural: é um conluio maciço, um autêntico contrato social. Quantas vezes perguntamos, atónitos diante de qualquer produção colectiva, cultural, económica ou político: “Como é possível que tantas pessoas, tão inteligentes e talentosas, tenham conseguido fazer tamanha cegada"


Miguel Esteves Cardoso, "Mediocridade", in A Causa das Coisas

Dos estrangeiros

Sou voluntária numa conferência internacional na faculdade até Sábado. Eis as minhas conclusões, após um dia de contacto com os "aliens" estrangeiros:

 

- são todos pró-comida light e têm medo das bombas que pensam ser as bolachas portuguesas, passam a tarde a ar e sumo, mas aposto que se desforram a jantar no McDonalds... hipócritas!;

 

- não conseguiriam encontrar nem uma casa-de-banho nem uma determinada sala, debaixo do nariz deles, para salvar a vida, mesmo com as nossas indicações - não há no mundo gente mais desenrascada do que os belos dos portugueses, pelos vistos;

 

- os professores universitários estrangeiros nem um Power Point conseguem abrir, quando mais colocá-lo em modo de apresentação;

 

- gostam muito do nosso café, mesmo que tirado numa máquina Delta dos anos 80, que imita um tanque de guerra na forma, no tamanho e no ruído de funcionamento (aliás, a máquina em si é um artefacto que já mereceu muitos elogios e admirações);

 

- ficam extremamente surpreendidos por não estarem a ser servidos por empregados, mas sim por estudantes universitários em regime de voluntariado.

 

 

Por agora é tudo.

SPLASH - mais um programa de TV para embrutecer as massas

É mais do que certo e sabido que este nosso povo português é um povo com um enorme coração e sensibilidades agudas. Não há cobra venenosa bebé que não seja alvo de ohs e outras exclamações carinhosas por parte dos expectadores de documentários sobre a vida selvagem, não há história nos programas da Fátima Lopes e da Júlia Pinheiro que não apele a comoções e lágrimas diversas, desde as de crocodilo às que fazem um lamaçal no meio da carpete, não há coitadinho nenhum que escape à piedade do mais comum português (aka 'tuga), não há banda sonora manipuladora que não desperte o seu monstro choramingas das profundezas do seu ser rijo, devidamente concebido para aguentar quando o seu clube de futebol perde a taça da liga. Portanto, aqui se apresenta um povo que, apesar de ter andado, em tempos passados, à cacetada com tudo o que era gente, e que foi suficientemente destemido para largar filhos, mães e mulheres para ir enfrentar um bicho mitológico ao sul de África, nos dias que correm chora com a novela mais paneleira, seja portuguesa ou brasileira (e ainda nem conhece as mexicanas!).
Portanto, foi sem grandes admirações que o "Splash!" estreou ontem, envolvendo muita história de vida cheia de coragem, camaradagem, força de viver... apresentado, é claro, pela Júlia Pinheiro (alguém me há-de dizer por alma de quem é que está lá o Rui Unas, p'lamor de Deus). O pessoal "só" tem de saltar dumas pranchazitas para uma piscina super funda, onde não há risco de baterem com a cabeça - o segredo é apenas saber-se entrar direitinho na água - mas, contra todas as expectativas dos meros mortais, conseguem relacionar a sua história de vida com aquele simples exercício e fazer um aparato digno da corte de Luís XVI. Tudo bem, está lá um atleta paralímpico que nem sempre o foi, uma vez que a sua cegueira foi repentina, e que tem lutado (ah, percebem?, porque ele já foi pugilista) imenso para alcançar novos objectivos de acordo com a sua situação, mas não significa que só por a Raquel Strada ter vertigens devemos todos homenageá-la com um minuto de silêncio (e eu nem vi a parte da Sónia Brazão - até deve ter sido a chorar por ela que encheram as piscinas). E, tirem o cavalinho da chuva, porque o Castelo Branco já começa a enjoar e a perder a sua piadinha.
Ora, dito isto, foi a primeira e última vez que vi este programa. Acho que, para embrutecer o meu cérebro, já me chega ver a MTV.

A culpa não é da Pépa

À semelhança da maioria dos bloggers que se têm insurgido sobre o assunto, também eu concordo que não há nada de chocante no discurso da Pépa que não seja o seu horrível sotaque à menina-bem e a quantidade de vezes que repete, aleatoriamente, a palavra "tipo" (além de que, pessoalmente, a acho extremamente parecida a uma rapariga da minha turma, uma autêntica figurinha, o que é bastante hilariante).
Acho, pelo contrário, que as pessoas estão a dar demasiada importância à felicidade alheia. Sim, porque a rapariga parecia estar bastante satisfeita com a sua vida, realizada pessoalmente e no trabalho. Estas maledicências são apenas o produto de muita mesquinhez à la 'tugas, que parecem não ter mais nada com que se preocuparem senão com a falta de dom para a retórica de miúdas de vinte anos.
Sabiam que 100 mil funcionários públicos, incluindo 50 mil professores, estão em risco de serem despedidos sem qualquer indemnização? Sabiam que ainda não se sabe, em Janeiro!!!, qual vai ser a carga fiscal a ser aplicada nos impostos deste ano? Sabiam que hoje, em plena Assembleia da República, dois deputados se iam comendo vivos, já para não falar das respectivas bancadas partidárias e de que cenários como este não são pontuais, mas sim diários? Sabiam que, após a divulgação destas e de outras péssimas notícias, ainda houve um grupo de políticos e pseudo-figuras do panorama nacional que se riram na cara dos jornalistas, quando confrontados com a reacção do "povo" em relação às novas medidas de austeridade?! Não, a maioria das pessoas que andam a gozar com a Pépa nem sequer consegue ver o telejornal se não for para saber do bom do futebol, que o pontapé na bola é que é interessante e decide quanto dinheiro é que se tem ao fim do mês para alimentar os filhos, principalmente se for logo seguidinho de uma extremamente educativa Casa dos Segredos (o cumular de toda a javardice e labreguice nacional e arredores).
Jamais nos devemos esquecer de que quem se anda a preocupar com a Pépa, a melhor distracção que poderiam arranjar para o dia de hoje em particular, é quem também está em risco de perder o seu emprego, se é que já não perdeu, ou até os filhos dessa gente, a quem o futuro se assemelha a uma noite de nevoeiro cerrado, de tão escuro e imprevisível que se apresenta.
Enquanto as Pépas deste país têm roupinha bonita para vestir, um emprego na área da sua formação e o desejo de ter uma mala de 1000€, mesmo que sejam apontadas como escalabrosas e inconvenientes dada a situação económica internacional, quem lhes nutre dor de cotovelo continuará infeliz, sempre infeliz, com o sonho medíocre de dar umas cambalhotas com o João Mota e ter umas botas Timberland falsificadas, compradas na feira de Carcavelos. Pensem nisso.

é de iniciativa que este país precisa!

A combinar com o actual estado do país, com esta conjuntura caótica, encontramo-nos na época mais pessimista desde que nasci - e isso já é mais que uma década e meia! Falta ânimo ao pessoal, e com muita razão, os jovens pensam logo em emigrar antes sequer de acabarem os seus cursos, alguns até vão estudar para fora se tiverem dinheiro para tal, são mais o desempregados que as mães, não há condições de trabalho para os que o têm, está-se mesmo a ver que não vai haver reformas para ninguém nos próximos milhentos anos, não há esperança, etc, etc, etc, vocês vivem no mesmo país que eu e sabem como é.

Ainda assim, o que é de louvar aos céus, existem pessoas que são capazes de levantar a cabeça e ter INICIATIVA - já que os responsáveis por esta grande borrada nacional/internacional/MUNDIAL não a têm. Um desses exemplos de gente que vai à luta chama-se Sofia Mesquita e arranjou uma maneira surpreendentemente criativa para procurar trabalho. Achei brilhante! Ora dêem uma vista de olhos:

 

é de iniciativa que este país precisa!

A combinar com o actual estado do país, com esta conjuntura caótica, encontramo-nos na época mais pessimista desde que nasci - e isso já é mais que uma década e meia! Falta ânimo ao pessoal, e com muita razão, os jovens pensam logo em emigrar antes sequer de acabarem os seus cursos, alguns até vão estudar para fora se tiverem dinheiro para tal, são mais o desempregados que as mães, não há condições de trabalho para os que o têm, está-se mesmo a ver que não vai haver reformas para ninguém nos próximos milhentos anos, não há esperança, etc, etc, etc, vocês vivem no mesmo país que eu e sabem como é.


Ainda assim, o que é de louvar aos céus, existem pessoas que são capazes de levantar a cabeça e ter INICIATIVA - já que os responsáveis por esta grande borrada nacional/internacional/MUNDIAL não a têm. Um desses exemplos de gente que vai à luta chama-se Sofia Mesquita e arranjou uma maneira surpreendentemente criativa para procurar trabalho. Achei brilhante! Ora dêem uma vista de olhos:


 


'tugas na estrada!

   Se há alguma característica dos portugas de que nos devemos, certamente, orgulhar (ou não) é o dom nato que temos para formar filas de quilómetros e quilómetros no meio da auto-estrada, porque… há um acidente qualquer.


   Na verdade, nem sequer é preciso ser um acidente. Hoje, passei na A2 no sentido Norte-Sul, entre Almada e Corroios, e por lá começava a parar o trânsito. Diz a minha avó “pronto, já estão a ver o acidente!”. Só que, ao contrário do que ela – e eu – pensava, não era acidente, coisa nenhuma. Talvez lhe possamos chamar um “incidente”, com algum jeitinho. Tratava-se somente de um carro que se encontrava à beira da estrada, incólume, aparentando uma mera avaria ligeira ou uma falta de bateria ocasional. No entanto, apesar da pouca importância que a situação tinha, aos olhos de alguém que pensasse objectivamente, o trânsito quase estagnara por quinhentos metros. E não, o condutor do carro nem sequer era muito giro e já lá estava outro rapaz a ajudá-lo (por acaso, esse até tinha um ar interessante!), pelo que não havia motivo para preocupações nem paragens.


   Mas, como é certo e sabido, o bom portuga adora espectáculo, desde que este não seja de qualidade, e quanto mais vulgar for, melhor! Ver dois carros estacionados à beira da estrada e dois homens com colete fluorescente?! Eles alinham! Imaginem lá se fosse uma moça novinha em trajes menores em cima do capot! Estes ‘tugas, ‘pá…

'tugas na estrada!

   Se há alguma característica dos portugas de que nos devemos, certamente, orgulhar (ou não) é o dom nato que temos para formar filas de quilómetros e quilómetros no meio da auto-estrada, porque… há um acidente qualquer.

   Na verdade, nem sequer é preciso ser um acidente. Hoje, passei na A2 no sentido Norte-Sul, entre Almada e Corroios, e por lá começava a parar o trânsito. Diz a minha avó “pronto, já estão a ver o acidente!”. Só que, ao contrário do que ela – e eu – pensava, não era acidente, coisa nenhuma. Talvez lhe possamos chamar um “incidente”, com algum jeitinho. Tratava-se somente de um carro que se encontrava à beira da estrada, incólume, aparentando uma mera avaria ligeira ou uma falta de bateria ocasional. No entanto, apesar da pouca importância que a situação tinha, aos olhos de alguém que pensasse objectivamente, o trânsito quase estagnara por quinhentos metros. E não, o condutor do carro nem sequer era muito giro e já lá estava outro rapaz a ajudá-lo (por acaso, esse até tinha um ar interessante!), pelo que não havia motivo para preocupações nem paragens.

   Mas, como é certo e sabido, o bom portuga adora espectáculo, desde que este não seja de qualidade, e quanto mais vulgar for, melhor! Ver dois carros estacionados à beira da estrada e dois homens com colete fluorescente?! Eles alinham! Imaginem lá se fosse uma moça novinha em trajes menores em cima do capot! Estes ‘tugas, ‘pá…