Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Universidade #5 - Praxe ou não, eis a questão!

E... as aulas do ensino superior estão prestes a começar! Faltam mais ou menos 5 dias para o aclichézado "primeiro dia do resto das vossas vidas" e, com ele, chega a altura de decidir serem praxados. Ou não serem praxados.

Recentemente, o Governo lançou uma campanha de sensibilização para a existência de praxes violentas, com o intuito de que estas sejam denunciadas. O que é certo é que o que é bom para uns é terrível para outros e cada um gosta do que gosta. Reconheço que deve haver por aí muita praxe a atentar contra os direitos dos colegas, pessoalmente acho a maioria (violenta ou não violenta) um bocado ofensiva contra a minha personalidade, mas há muita gente que as adora e o que é que se pode fazer? Por isso, penso que esta campanha de sensibilização terá como principal objectivo pôr-nos a reflectir no que é realmente adequado em contexto de praxe, o que é óptimo. Assim, ninguém tem de ameaçar acabar com as praxes, não correndo também o risco de se ser encarado como apoiante cego.

 

No ano passado, contei-vos que desertei da minha praxe ao fim de três horas. Enfim, aquilo não era meeeeesmo para mim. Detesto que mandem em mim, detesto que me gritem e que me coloquem imposições, ainda que seja "na brincadeira". Para mim, a melhor integração parte do facto de sermos todos iguais, num contexto de equidade e de disponibilidade. Não quis saber se, algumas horas depois, ao final do dia, aqueles colegas iriam despir as suas capas e revelarem-se uns bacanos para mim. Ao iniciar o meu 1º ano na faculdade, o que eu precisava era de colegas que fossem bacanos desde o início até ao fim, que me ajudassem a qualquer momento e que não me dissessem que ou escolhia ser praxada durante duas semanas, sem ir a quase aula nenhuma, ou então não valia a pena fazê-la.

Obviamente, escolhi não ser praxada. Não ando a pagar mais de 1000€ por ano e a trabalhar que nem uma louca para depois andar a baldar-me logo às primeiras aulas. Se a praxe não coincidisse com o período de aulas, ainda era capaz de repensar a minha decisão. No entanto, dadas as circunstâncias, jamais me arrependi neste último ano de não ter alinhado.

 

Ao não ir à praxe, tive tempo de conhecer igualmente alguns colegas que, esses sim, me ajudaram ao longo de todo o ano. A faculdade é conhecida pelas festas e pelos bons bocados que se passam com o "pessoal", mas também é um período em que toda a ajuda é pouca para nos mantermos fiéis aos nossos objectivos. Por isso, só tenho a agradecer tê-los conhecido, aos colegas que me fizeram sentir bem-vinda, mesmo sendo caloiros como eu.

Duas semanas depois do início das aulas, quando a praxe finalmente terminou, os que haviam participado nela caíram de pára-quedas nas aulas. Muitos aguentaram-se bem, outros nem por isso. O meu curso não é o mais difícil, mas exige empenho, assim como todos os outros. 

 

Não achei que tivesse perdido alguma da minha (suposta) experiência académica por não ter sido praxada e, por este ano, não praxar. O traje não me seduz muito, travei amizades na mesma. Há tanto em frequentar o ensino superior sem ser a praxe! Há tanto de inédito, há tanto de agradável.

 

Não pensem que, por não participarem na praxe, não farão amigos e que não travarão bons conhecimentos. Pensem sempre que dizer "sim" ou "não" fica ao vosso critério. Que todas as praxes são diferentes. Que as pessoas são diferentes. Que cada um deve ficar na sua. O vosso melhor amigo pode estar a adorar a praxe dele, e ser fixe, e ser divertidíssimo, mas que isso não significa que a vossa seja tão positiva quanto a dele - às vezes nem sequer por ser perigosa ou humilhante, apenas porque vocês não são do tipo de entrar nessas coisas.

 

A minha opinião não é anti-praxe. A minha opinião é anti-abusos e anti-falta de auto-estima, é pró-decisões tomadas com responsabilidade e reflexão acerca daquilo que realmente nos agrada na vida, acerca das nossas prioridades. Aquilo que defendo é que, em caso de dúvida, experimentar não custa!

Não sou (totalmente) contra a praxe

   Como cheguei a contar-vos, abandonei a “minha” praxe ao fim de três horas. Não me identifiquei, achei que a minha vida não dependia daquilo e que tinha mais que fazer. Tive colegas que passaram, noite e dia, durante duas semanas, imersos nos rituais de praxe. Não foram às aulas durante esses dez dias úteis e julgo que continuaram a faltar pontualmente sempre que havia algum evento relacionado.

   (Não me interpretem mal: eu falto a algumas das minhas aulas, chego atrasada propositadamente, sei que muitas delas são inúteis. Porém, nos primeiros dias de faculdade, eu queria era assistir a tudo e mais alguma coisa, pôr-me a par do que se passava naquele mundo novo, que tipo de professores eram os meus, se as matérias eram fáceis ou difíceis. Afinal, é para isso que estou a pagar mais de mil euros por ano - fora o resto.)

   Mas, voltando ao tópico inicial, a ideia dos doutores e veteranos era que os caloirinhos passassem o máximo de tempo possível nas praxes, mesmo que tivessem que faltar a compromissos e por aí fora. Eu é que fugi enquanto pude, eu que trabalhava na altura e eu que não ousava que colocassem em questão a minha assiduidade e participação nas aulas. Sim, foi uma escolha, e não fui a única a tomá-la, de entre todos os colegas.

   O que ainda me faz comichão é dizerem que é preciso haver praxe para os alunos se poderem integrar e conhecerem-se uns aos outros e à cidade onde estudam. Por acaso, infelizmente, na minha faculdade, até acho que isso é uma realidade: depois de abandonar a praxe, foram mais as vozes que se desagradaram do que as que apoiaram, e nenhum suposto doutor ou veterano se chegou ao pé de mim e se voluntariou para me apresentar fosse o que fosse. Se não tivessem sido alguns amigos mais velhos que conhecia noutros cursos a orientarem-me, os meus primeiros dias na FLUL ter-se-iam passado num reboliço, sem conhecer os cantos à casa nem as suas histórias e particularidades. Porém, nada de preocupações! Fiz bons conhecimentos na mesma, estabeleci óptimas relações com os meus novos colegas e no espaço de três ou quatro dias já estava fina, como se sempre ali tivesse estudado!

   Então, é preciso participar na praxe para sermos ajudados? É preciso participar na praxe para fazermos amigos? É preciso ser-se um doutor ou veterano trajado para se ajudar um caloiro não praxante? É preciso ser-se aceite em determinado grupo para nos sentirmos integrados nalguma coisa? É preciso faltar às aulas e sair-se à noite e tratar pessoas com a nossa idade na terceira pessoa, com deferência, para se ter toda a experiência académica em dia?

   Se não têm “aptidões sociais”, meus caros, arranjem-nas. Chamam-se carisma, simpatia, abertura de espírito, lata, desenrascanço. Chama-se “saber-se afirmar perante os outros”, “ter-se personalidade”. Não é preciso ir-se para a praxe para se fazerem amigos para a vida durante os nossos tempos universitários! Mas esperem…

   Não me quero aqui armar em desmancha-prazeres ou chata-do-contra, quero apenas mostrar a minha opinião, e ela é: não sou contra a praxe. Sou sim, contra a praxe violenta, que desrespeita os direitos individuais dos que nela participam. Sou, também, contra a praxe elitista, através da qual se estipulam hierarquias e lugares sociais – todos os seres humanos devem conviver em equidade, logo, se os estudantes são seres humanos (acho eu!), devem respeitar esse preceito.

   E a minha opinião é, igualmente: que haja fiscalização. Que ponham a polícia, as direcções das faculdades, as associações de estudantes ou o diabo a quatro, mas as praxes têm de ser fiscalizadas, para evitar que aconteçam mais desgraças como a que aconteceu no Meco e, provavelmente, em tantos outros pontos do país. E – aí sim – se a fiscalização ainda for ineficiente e não houver outra maneira de parar os excessos, não vejo que arranjem mais soluções senão ilegalizar o ritual de praxe em definitivo e absoluto. Será mesmo complicado…

   Por isso, não sou totalmente contra a praxe porque cada um tem o que quer e merece, e, se gosta de levar com farinha e pastilha elástica no cabelo, isso é lá com a sua pessoa; e, se gosta que lhe façam monocelhas e que o obriguem a rastejar na lama, ninguém lhe deve negar tal prazer masoquista. Até acredito que existam boas e recomendáveis praxes, cheias de boas intenções e excelentes para semear amizades duradouras e inesquecíveis. No entanto, alguém tem de defender os caloiros que não sabem dizer não quando existem abusos. Alguém tem de os fazer ver a luz, seja ela o que for, para que o ciclo não se perpetue e para que no ano que vem ou para o próximo eles não ajam da mesma maneira enquanto doutores, veteranos, duxes ou o que raio lhes chamarem, face às novas larvas, bichos, caloiros.

   E vejam mas é se começam a ajudar os caloiros não praxados a integrar-se, porque eles também são caloiros e também precisam de novos amigos! ‘Tá bem? Pode ser?