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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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A propina de 1000€ (fora o resto)

Vocês perdoem-me a teimosia em falar de universidade, universidade, universidade e só universidade nos últimos dias, mas prometo que esta há-de ser a minha última intervenção acerca do assunto durante os próximos tempos. E prometo ser breve.

 

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(em http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?id_news=764210) 

 

Não sei qual é a vossa situação, não sei se andam na faculdade, se têm bolsas, se andam a trabalhar para pagar os estudos. Provavelmente, se andam, têm alguma bolsa E trabalham. Porquê? Porque as bolsas da DGES, mesmo aquelas que cobrem a totalidade do custo da propina anual no ensino superior público (entre os 1000 e os 1400€, pelo que sei), não são suficientes. O que são 1400€ de bolsa dos Serviços de Acção Social (SAS), quando há, não só as propinas, mas também o transporte e os materiais de estudo (livros, fotocópias, material técnico) para pagar? Ou o que são 2000€ quando, além desses gastos, ainda nos encontramos deslocados de casa, a viver numa residência para estudantes - ou num quarto, porque não há residências suficientes para tanta procura?

Infelizmente, nem toda a gente pensa assim. Um exemplo desses sujeitos menos iluminados é o reitor da Universidade de Lisboa (onde eu estudo), António Cruz Serra, que acha que usufruímos todos de um excelente SAS, sendo-nos permitido estudar sem nos preocuparmos com mais nada. A entrevista para que vos remeto no início da publicação é apenas o reflexo de uma profunda hipocrisia e autismo quanto à realidade do nosso país, de tantas famílias de Norte a Sul.

O maior problema para as famílias é não ter o rendimento do trabalho de uma pessoa que, em vez de trabalhar, foi estudar, diz ele. Mas eu discordo. Antes de entrarmos para a faculdade, por norma também não trabalhávamos. Já marcávamos presença na equação do orçamento familiar. Seja como for, mesmo quando trabalhamos, os nossos pais não ficam à espera que entreguemos todo o nosso salário, religiosamente. Já que trabalhamos, talvez possamos ajudar numa despesa ou outra, mas, se pudéssemos sequer trabalhar, se encontrássemos um emprego estável e bem pago, mais facilmente sairíamos de casa dos papás e pronto. Por isso, não, o maior problema dos alunos do ensino superior não é não serem economicamente produtivos para as suas famílias.

(...) daí resulta um valor de 1.060 e poucos euros por ano, que não afasta ninguém do Ensino Superior (...), continua. Lembram-se de eu referir que certos professores universitários vivem dentro de uma bolha, onde não são atingidos pelas causalidades do resto do mundo? É isso mesmo que se passa com este reitor, António Cruz Serra. E que sorte que ele teve, pois terminou a licenciatura em 1978 - numa altura em que não se pagava propinas no ensino superior em Portugal! Claro que a mencionada figurinha representa o culminar de toda a estupidez possível, graças a esta saída muito infeliz, e que nem todos os professores, até considerando os mauzinhos, são assim. But still...

Encontramo-nos num país onde há pessoas a passarem fome e frio, onde há pessoas que nem para pagarem a renda ou a comida têm dinheiro. É um insulto um gajo - sim, um gajo! - vir dizer ao pessoal que está tudo bem, obrigada, e que 1000€ (fora o resto) no orçamento familiar anual não representa that big of a deal, que é peanuts! Nem 100€, quanto mais 1000€! Há certos indivíduos nesta sociedade que ainda não perceberam que, numa casa onde se passam dificuldades, onde há desemprego, ou aperto, ou doença, ou cortes nos salários, ou "apenas" aumento de impostos, até 1€ que exceda o orçamento já faz mossa.

Falo por experiência própria: também tive de trabalhar para poder estudar, também tive de procurar bolsas extra-DGES que me ajudassem a colmatar o resto das despesas e para, de vez em quando, poder ajudar a minha família! Agora, em princípio, já estou mais orientada (porque, lá está, trabalhei e estudei para manter a bolsa de mérito), mas não deixo de me sentir solidária para com aqueles que, ao contrário do que o fofuxo do António Cruz Serra diz, são realmente obrigados a deixar de estudar por causa da mísera propina de 1000€ (que, no final de contas, nem nos garante certas condições materiais para o decorrer pacífico do nosso dia-a-dia de estudantes, sendo recorrente os edifícios estarem degradados, o corpo docente envelhecido e em número insuficiente, e por aí fora).

O ensino superior é um dos meios pelos quais se atinge o progresso numa comunidade, numa sociedade, num país. Se os alunos de outros tipos de ensino alternativos não pagam propinas, por que haveríamos nós de ter de as pagar? Temos caras de elite ou quê? Somos menos do que os outros? (E não, não estou a sugerir que os outros as deviam pagar, é apenas e exactamente o contrário.)

Emprego ou não, eis a questão!

A minha família não me deixa trabalhar, uma vez que o meu único trabalho deve ser estudar, e querem que eu o faça sendo a minha prioridade.
Talvez nas férias, diz a minha avó. Não, não, diz o meu pai, deves é aproveitar estes meses, esta altura, enquanto podes, ir para a universidade sem outras preocupações, porque nós não sabemos o dia de amanhã, nem como estará o país daqui a uns meses...
Está bem, eu entendo. E é sobre isto que vos quero escrever.
Enquanto estudantes sem nenhuma especialização (falo, pelo menos, em nome dos que enveredaram pelo ensino regular não profissionalizante, tal como eu), porventura ainda no ensino secundário ou nos primeiros anos de faculdade, os empregos que poderemos, possivelmente, arranjar, no campo dos part-times, é andar a virar hambúrgueres ou frangos, sermos vendedores por telefone, darmos explicações, caso tenhamos, sequer, habilitações e credibilidade para tal ou (tentar) vender cosméticos por catálogo (mais no caso das raparigas). Principalmente nos dois primeiros, somos mais do que explorados. Recebemos uma miséria, já temos de descontar para os impostos, graças aos novos procedimentos e controlos fiscais por parte do Estado e, no fim, sobra-nos quanto dinheiro…? 100 euros por mês? 150? E com alguma sorte! Por uma média de 88 horas de trabalho mensal (contando que se trabalham 4 horas todos os 22 dias úteis), isso é uma ninharia, fora o transporte, a alimentação e outros descontos que possamos ter no ordenado.
Eu quero muito trabalhar, uma vez que mal tenho dinheiro para pagar a faculdade que começa já em Setembro, mas não sei se valerá a pena. Além de, por agora, não me deixarem arranjar nada, apesar de já ter sido chamada para duas entrevistas, talvez tenham razão quando argumentam que desperdiçarei tempo quase desnecessariamente, tempo esse que posso utilizar a estudar, a escrever (porventura, concorrendo a alguns concursos literários em que poderei arrecadar dinheiro livre de impostos, se ganhar algum prémio), a namorar e a estar com os amigos... Enfim, a divertir-me enquanto estou na idade de o fazer com maior liberdade. Há todo um conjunto de prós e contras que tem de ser pesado.
Arranjar um emprego poderia trazer-me a experiência profissional que ainda mal tenho, poderia dar um jeito ao meu CV, dar-me uma primeira perspectiva do que é realmente o mercado do trabalho e permitir-me amealhar algum dinheiro para as propinas da faculdade. Por outro lado, estaria a perder horas de estudo e de descanso, teria que deixar as aulas da Alliance Française em suspenso, nem que fosse temporariamente, não conseguiria ter nenhuma disponibilidade para escrever nem ler… Percebem o meu dilema?
Portanto, deste modo, decidi-me apenas a inscrever para monitora das actividades de Verão da freguesia onde estudo. Em princípio, julgo que decorram somente durante o mês de Julho e farei algo de que gosto: ou tomar conta de crianças, ou da biblioteca de praia/jardim. No ano passado, fiquei como “suplente” para as bibliotecas, mas ninguém desistiu da vaga que lhe fora atribuída e acabei por não ser chamada. Este ano, tenho mais hipóteses: já terei o 12º ano terminado, mais um diploma de nível C1 a Inglês (fora o B2 de Francês, para o qual ainda tentarei a sorte no próximo dia 10) e serei maior de idade. Sei que não se ganha muito mais nestes empregos de Verão a tempo inteiro do que em qualquer outro a tempo parcial, mas não custa tentar por apenas quatro semanas.