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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

A felicidade da escrita

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Pega na caneta. Pega no caderno. Escreve. Talvez prefiras o computador ou o telemóvel. Talvez gostes de guardar o texto para ti ou de o partilhar com os teus amigos, talvez na Internet. O que interessa é que escrever te faz feliz, não é? Por que será? Que magia tem a palavra materializada no papel?

 

A verdade é que escrever não é coisa de adolescentes, nem de artistas, nem de gente sentimental. Escrever é das terapias mais baratas de sempre, é gratuita. Escrever faz realmente bem à saúde. Ainda por cima, podemos fazê-lo em qualquer lado, a qualquer hora, sozinhos ou acompanhados, na cama antes de dormir, à hora de almoço no meio da cantina, no nosso diário predilecto ou no verso duma folha de rascunho.

 

Tal como a confissão oral, pela conversa ou pelo desabafo, também a confissão escrita tem benefícios para o nosso bem-estar e, mais do que isso, efeitos surpreendentes na condição física humana. Somos mais saudáveis quando nos expressamos, mesmo se o fizermos exclusivamente na nossa própria companhia. Pode ficar tudo só para nós, e mesmo assim sentimos todos esses efeitos.

 

Há mais de 30 anos que se estuda a escrita expressiva: o acto de escrever sobre emoções, pensamentos, eventos, quiçá traumas, ajuda-nos a reorganizar a narrativa pessoal, diminui a sua intensidade emocional (aquele fulgor, aquela obsessão que nos assombra ou que tentamos reprimir) e permite-nos conhecer melhor a nós mesmos. Enquanto pensamos nas melhores palavras, racionalizamos, revisitamos e ordenamos ideias. Escrever é como uma conversa privada em que nos exploramos. Quem somos? O que sentimos? Como o sentimos?

 

James Pennebaker foi o primeiro a descobrir que estes exercícios de escrita diminuem o stress, aliviam a ansiedade, reforçam o sistema imunitário e, por isso, previnem o aparecimento, progressão ou reincidência de certas patologias - por exemplo, tensão alta, cancro, artrite ou ataques cardíacos. Outros investigadores seguiram as suas pisadas (como Laura King e Megan C. Hayes), e agora temos a certeza de que escrevermos sobre emoções, pensamentos e eventos - negativos e também positivos - nos traz um boost ao bem-estar, à semelhança dum bom sumo vitaminado ao pequeno-almoço.

 

Expressar e fazer sentido do que nos vai na mente é o melhor remédio para pararmos de ruminar, resolvermos problemas, dilemas ou simplesmente para apreciar e relembrar os melhores momentos da nossa vida. Afinal, as emoções positivas e a diminuição do stress potenciam a aprendizagem, a atenção, a criatividade e a resiliência.

 

Depois de lerem este texto, convido-vos ao seguinte: peguem na caneta, peguem no caderno, ou liguem o computador ou o telemóvel. Escolham uma (ou várias) propostas que vos deixo aqui: mas escrevam. Escrevam sobre a vossa recordação favorita ou sobre a maior lição de vida que já aprenderam. Escrevam sobre o amor que sentem por alguém. Escrevam sobre o que mais vos inspira. Escrevam sobre a serenidade, a esperança, o orgulho ou a gratidão. E, se não acreditarem que escrever tem este poder incrível, sempre podem pensar que "mal não faz". Vamos a isso?

 

***

 

Para o próximo dia 10 de Outubro (Sábado), eu e a Andreia Esteves estamos a preparar um workshop de Biblioterapia e Diário Positivo. Se estiverem interessados, encontrem toda a informação aqui e inscrevam-se aqui. Também temos um evento no Facebook e no Meetup.

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"Não se queixem, criem!"

 

Às vezes, passo por fases de queixume agudo. Preciso - precisamos todos - de verbalizar, de explorar, de mandar tudo cá para fora. No entanto, nem sempre consigo recuperar e admiro quem recupera (quem não procrastina o resto da vida, por exemplo, depois destes momentos emocionalmente intensos).

 

Claro que não sou sempre assim, ou não andasse a estudar o que ando a estudar, ou não andasse a fazer as mil e uma coisas que faço, mais ou menos bem feitas. Consigo recuperar, seguir em frente, encontrar novas razões de queixa. Nesses "entretantos", gosto de pessoas que me inspiram com ideias e histórias sobre como passar à acção, contrariando a lamentação (não desvalorizando a verdade universal de que é mais fácil falar do que fazer).

 

Assim, hoje venho só dizer que gosto de ouvir a Tina Roth Eisenberg, de quem a Elisa me tem falado imenso. TRE, a criadora das Creative Mornings, descobriu falhas ou faltas no mundo à sua volta e, em vez de se queixar, diz que acabou por criar ela as soluções para os seus problemas. Vejam a palestra que vos deixo aí em cima. 

 

E, na mesma onda, quero partilhar um dos episódios do podcast "The Happiness Lab" (clicar nesta hiperligação), da investigadora Laurie Santos (professora da disciplina mais concorrida de Yale, também no Coursera, "The Science of Well-Being"), episódio no qual se discutem os efeitos dos queixumes no nosso bem-estar, e como modificar esses padrões de comunicação negativa/agressiva, nomeadamente nas redes sociais.

 

A par destas recomendações, deixo outra absolutamente diferente: um compositor português chamado Rui Massena, que tem feito as delícias do meu Spotify. Dos três álbuns disponíveis, o mais recente, III, é o meu favorito.

Era uma vez, um diário positivo

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Esta é uma publicação um pouco diferente das que são o costume por aqui, mas com um convite que gostaria de partilhar convosco, pessoas que adoram escrever, ou que gostariam de escrever mais, de preferência se isso vos trouxer algo de positivo, tão necessário nestes tempos conturbados que estamos a viver. É engraçado pensar que este workshop foi o meu projecto pessoal, profissional e da pós-graduação nos últimos meses, nunca prevendo que no início de Abril estaríamos... assim, neste espaço psicológico, resguardados em casa. Eu própria me sinto muito feliz por ter andado a estudar o tema, que agora se revela tão útil. Mas adiante.

Se estiverem interessados, ou se conhecerem alguém que esteja, não hesitem em mostrar-lhe este evento.

 

***

 

Comecei a escrever muito miúda (ainda mais do que agora). Escrever era o meu trabalho favorito da escola e fazia de propósito para o meu P.I.T. (quem se lembra do Plano Individual de Trabalho?) calhar sempre com produção escrita. Confesso que fiz muita batota à conta disso. Escrever sempre me fez sentir bem, sempre me fez sentir capaz e mais organizada nas ideias. Aliás, desta necessidade surgiu o blog.
 
 
Seja ficção ou não-ficção, nunca deixei de querer brincar com as palavras, com as observações do mundo e com o mundo interior das personagens. Por isso, quando comecei a estudar Psicologia, encontrei a peça que faltava no meu puzzle: poder partilhar com outras pessoas todos os benefícios para a saúde mental - e, por consequência, física - de escrever regularmente.
 
 
Dito isto, preparei um dia cheio de actividades de Diário Positivo para daqui a uma semana: a data é 4 de Abril (Sábado), e o workshop vai ser completamente online.
 
Descrição:
"Acha que escrever um diário é como uma terapia para acalmar a alma, organizar as ideias e perceber as suas emoções? A escrita é parte de si e escreve para se sentir melhor?
 
O Workshop de Diário Positivo será um dia de aprendizagem sobre como utilizar um diário em prol do bem-estar e duma melhor saúde mental, através de pequenas intervenções e exercícios escritos que podem ser realizados autonomamente.
 
Como o nome do workshop indica, daremos uma importância reforçada às emoções positivas, mas sem nos esquecermos da escrita expressiva e do papel da literacia sobre todos os tipos de emoções e pensamentos numa vida feliz e equilibrada."

 

***

 

O resto das informações está:
 
 
Obrigada, e espero ver-vos em breve!
 
 

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Gosto de escrever sobre livros, mas agora não me apetece

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Para mim, gostar de livros é gostar de aprender, ter curiosidade e ter a humildade de reconhecer que há tanto que existe por saber e contar que, não sabendo nós (ainda) o que é, outros no-lo poderão dizer.

 

Além disso, compro muitos livros, bem mais do que consigo ler. Já perdi a conta a quantos livros comprei no último ano, mas vejo pela minha estante que vários ainda aguardam pelo seu momento de glória. Ainda esta semana comprei mais dois - serão os últimos de 2019? O ritmo a que encho prateleiras vai variando, e sonho com o dia em que seja capaz de ler tudo o que lá vai parar; e também com o dia em que seja capaz de escrever sobre tudo o que leio.

 

A propósito, gosto de escrever sobre livros, mas não me apetece fazê-lo neste momento. Um apontamento aqui e outro ali são suficientes por agora. Continuo a ler, mas preciso de tempo para assimilar a leitura, mesmo que não escreva sobre ela. As listas do que li andam por aí, estreladas no Goodreads, mas de palavras para as descrever ando parca. Talvez porque os temas têm sido quase sempre os mesmos, e todos de não-ficção, meio filosofia, meio psicologia, não sei bem o que acrescentar. Só sei que tenho gostado deste silêncio e apreciado a introspecção, tenho aproveitado o conhecimento e as histórias.

 

Assim, deixo-vos com esta reflexão e com alguns dos livros da minha pilha recente, dos que li e vou lendo (ver fotografia no topo). Quando se gosta mesmo daquilo que se estuda (finalmente, já não era sem tempo!), parece que todos os autores que se conhecem e todos os capítulos que se devoram são poucos.

 

Um dia destes, volto com mais ideias livrescas! 📚

Procrastinando em Público: Eu quero ser feliz, e tu? (P3)

https://www.publico.pt/2019/11/03/p3/cronica/quero-feliz-1891807

 

Dá para acreditar?! Tenho um texto publicado no P3, o suplemento online do Jornal Público. Estou muito contente, principalmente porque escrevi sobre um tema que adoro estudar, e sobre o qual estou mesmo a fazer uma pós-graduação/mestrado (Psicologia Positiva Aplicada, uma mudança que explicarei noutra altura), e porque os comentários têm sido muito simpáticos. Por isso, gostava muito de vos convidar a também ler esta pequena crónica. Obrigada, e estejam à vontade para partilhar, opinar, sugerir...!

 

(Fiquei com muita vontade de repetir, nem que seja para poder encher a minha página de autor)

Socorro: não consigo fazer planos e não consigo encontrar um propósito!

Por estes dias, andamos todos à procura do nosso "propósito". É uma canseira. Já referi há algumas semanas que me sinto frequentemente assoberbada por estímulos, obrigações e informação, o que me causa ansiedade, mas entretanto tenho conseguido controlar o meu acesso e preocupação no que toca a essas fontes de stress.

 

Nos últimos tempos, parece que há cada vez mais coaches, podcasts, blogs e eventos acerca de ser mais, melhor, tudo. Não desdenhando de toda a investigação e atenção dada a tópicos tão importantes para a nossa sociedade quanto a felicidade, o bem-estar, o desenvolvimento pessoal e o empreendedorismo (até porque o meu mestrado se foca nalguns desses temas e eu adoro estudá-los), sinto que, se não soubermos digerir ou tivermos ferramentas mentais para receber essa informação, acabamos perdidos entre tantas ideias, autores e motivational speakers.


Regressando ao assunto que me leva a escrever este texto, a procura do tal propósito, gostaria de discordar do que tenho lido nas redes sociais. De repente, não há quem não fale de encontrarmos essa agulha no palheiro que é o motivo, a justificação, a motivação para a nossa existência, influência e trabalho. Para mim, o problema não é a procura do propósito. Também eu assino por baixo que é importante termos algumas linhas de orientação em mente para nos concentrarmos no que nos traz satisfação e sermos, em geral, bem-sucedidos. Contudo, o problema é que tenho lido e ouvido vários coaches a defenderem uma espécie de propósito permanente, inflexível, obrigatório, ditatorial. De repente, é como se não prestássemos enquanto pessoas se não tivermos um propósito definido, como se estivéssemos mesmo à procura de falhar redondamente na vida.


Isto é tão errado.


Não, eu não sei qual é o motivo de eu andar por aqui, na Terra, por que nasci. Dou o meu melhor todos os dias para criar algo com significado, nem que seja contribuir para o bem-estar doutra pessoa, mas não me parece necessário escrever uma declaração de intenções acerca disso, pelo menos não uma que tenha de me definir.


Por que é que achas que ainda não encontraste o teu propósito? Li esta pergunta num questionário que me enviaram recentemente. Na altura, respondi de forma curta, mas fiquei a pensar, até chegar a mais ou menos esta conclusão: não encontrei o meu propósito porque ele está sempre a mudar. Não todos os dias, mas sei que todos os meses ele vai sofrendo alterações.


Há dois anos, eu sabia tudo. Quase podia planear a minha vida à semana para os dez anos seguintes. Depois, a vida aconteceu e esses planos, além de terem deixado de fazer sentido, também me deixaram num estado de recriminação constante que se prolonga até hoje e sobre a qual ainda tenho de reflectir e tentar resolver, nomeadamente em sessões de terapia. De vez em quando, ainda penso como é que será possível eu já não ser aquela pessoa, tão cheia de certezas, e como é que eu não fiz X, Y e Z se me tinham dado oportunidade para tal.


Pensar que tinha um propósito e planos a longo prazo foi uma merda para mim. Desde então, passei a planear cada dia, cada semana e cada mês, sem muito mais antecedência, não vá o resto do mundo decidir virar-se e eu ficar de novo na lama por não me ter precavido para tal situação. Uma coisa são projecções, desejos, ideias. Outra coisa é a procura duma definição pessoal enquanto necessidade primária e urgente.


Além disso, qualquer que seja a nossa idade, devemos deixar espaço para as coisas boas. Parece que só tenho falado nas más, mas as boas também podem trocar-nos as voltas e desafiarem todas as crenças que tivéssemos. Podemos conhecer o amor da nossa vida, engravidar ou perder alguém querido, nós ou os nossos companheiros podem arranjar a oportunidade profissional com que sempre sonharam bem longe de onde estamos, podemos adoecer, podemos ter um acidente, podemos descobrir uma vocação inesperada, podemos perder ou ganhar muito dinheiro subitamente, podemos mudar de ideias... Quem sabe...? Então, acredito em estarmo-nos um pouco a lixar para planos que nos limitem, sem criarmos alternativas B, C e Z. Sou pelas alternativas, pelos mil planos diversos, pela dispersão ocasional, pela espontaneidade, pela liberdade de ter um propósito hoje que não terei amanhã. Um dia quero ser professora, no outro quero ter um negócio, a seguir consigo ter os dois, mas daqui a três meses vai-me apetecer viajar pelo mundo, e hei-de encontrar fontes de inspiração diferentes, depois já quero ser escritora, engenheira química, astronauta, estudar tarot ou apostar em corridas de cavalos. Eu sei lá, hoje sou assim, amanhã é que não sei.


Fui educada e vivo numa casa onde se acredita no mote "um dia de cada vez". Combinando essas lições ao que fui adquirindo pela experiência pessoal, penso que planearmos é tão importante quanto permitirmo-nos margem de manobra.

 

Entretanto, também ando a ler O Mundo À Beira de Um Ataque de Nervos, do autor inglês Matt Haig, que me tem ajudado a reflectir e a confirmar que nos encontramos demasiado focados no que seremos e faremos no futuro, uma das principais fontes de ansiedade do nosso tempo, em vez de nos concentrarmos no presente. Em breve, escrevo sobre este livro.


Na altura em que precisei de rever a forma como penso, há pouco mais de um ano, almocei com uns amigos num lugar onde, em cima das mesas, pequenos castiçais tinham sido decorados com mensagens simbólicas. A nossa era "Um plano que não tem espaço para mudanças é um mau plano." Acho que foi uma óptima premissa para o ano que se tem seguido. Sabia lá eu as coisas que me estariam para acontecer em tão pouco tempo...!

 

 

 
 
 
 
 
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Como ficar dependente (ou largar a dependência) das apps: Hooked, de Nir Eyal

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Continuo nesta saga de descobrir mais sobre como funciona o cérebro humano e como processa informação. Não é a minha área de estudo, mas é tão interessante!

 

Desta vez, roubei o presente de Natal que encomendei para a minha amiga Inês, o livro Hooked: How to Build Habit-Forming Products, do investigador e consultor Nir Eyal. Ela tinha-mo pedido pelo Natal, mas a encomenda atrasou-se imenso e demorou um mês a chegar. Então, mal ele chegou cá a casa, acabei por lhe pegar e só o larguei depois de o terminar (e porque, enfim, tive de o devolver à destinatária original).


Por coincidência, li o Hooked num momento em que me estou a des(a)pegar das redes sociais. Apesar de muitas das actividades do meu dia-a-dia ainda serem feitas a partir do telemóvel, como questões de trabalho ou escrever no blog, tenho tentado reduzir o uso ao essencial, eliminando tanto quanto possível as redes sociais e as apps que consomem muito tempo. Mesmo que seja um par de minutos aqui e outros ali, o tempo de uso vai-se acumulando ao longo do dia e gera-se uma certa dependência através do hábito de desbloquear o telemóvel, visitar o Instagram, o Facebook, o WhatsApp, o Goodreads, até o extrato do PayPal.


Estar Hooked é estar, de certa forma, preso a qualquer coisa, é vermo-nos envolvidos num processo, imersos num estado de constante curiosidade quanto ao que nos pode revelar a cada instante. É exactamente o hábito que nos leva à dependência, prevista pelos criadores dessas apps, para chamar a atenção de tantos utilizadores quanto possível.


O processo que percorremos até nos sentirmos "enganchados" tem quatro passos: um gatilho (primeiro interno, depois externo), que por sua vez nos leva a uma acção, que gera uma recompensa variável e que nos incentiva a um investimento, voltando ao início do ciclo e do gatilho - uma "comichão" reflexo da necessidade de usar o produto, a app, de novo. Desta forma, criamos um hábito, isto é, um comportamento executado sem pensar.


Agora, perguntam vocês: mas isto de se trazer para o mercado produtos que brincam com a mente dos clientes e que têm em conta o cultivo de hábitos não é manipulação? De facto, o próprio Nir Eyal aborda esta vertente ética. Segundo ele, nos negócios não há maneira de evitar "entrar na mente" dos clientes, e que deve ficar à consciência e responsabilidade dos empreendedores fazê-lo para o "bem" ou para o "mal" - o que mais deve interessar é pensar se o produto melhora ou não a vida dos utilizadores e se o próprio empreendedor também o usaria. Se se responder afirmativamente a essas duas perguntas, tanto melhor!


Por agora, com algumas reservas, acho que concordo com esse método de avaliação ética. Ler este livro foi uma boa experiência, tanto colocando-me do lado dos empreendedores, quanto dos utilizadores. Além disso, ver desconstruído o processo que leva à dependência das tecnologias também me motiva a largá-las, dado que agora conheço a tal "manipulação" e os truques usados para incentivar ao uso a que me encontro sujeita. Devemos usar seja que produto for como vitaminas, não como analgésicos (jargão farmacêutico do autor!).


No que toca a aspectos mais estruturais do livro, primeiro tenho de apontar uma falha: o subtítulo induziu-me ao erro de pensar em "produtos" em geral, mas, na verdade, os produtos discutidos são sempre apps e websites, não propriamente escovas de dentes ou lençóis. Por fim, é de louvar todo o livro Hooked enquanto um produto ele mesmo: não existe edição em paperback, a capa dura vem envolta numa sobrecapa colorida, a impressão é feita em papel daquele que nos leva a enfiar o nariz lá dentro, o tipo de letra é grande e há algumas imagens, tabelas e resumos de ideias aqui e ali, fazendo parecer que a leitura segue escorreita e rápida... É um produto muito eficaz a chamar e a prender a atenção do leitor!

 

Terminado o Hooked, continuo a agradecer sugestões de livros sobre temas afins.


Boas leituras! 📚🤓

Bioliderança: Porque seguimos quem seguimos? (Paulo Finuras)

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O título Bioliderança poderá suscitar algumas dúvidas ao leitor absolutamente leigo, mas o subtítulo deixa pouco espaço para que elas persistam: Porque seguimos quem seguimos?


Ultimamente, tenho-me interessado por muitos temas relacionados com a psicologia humana, muito em parte devido a uma disciplina do mestrado em que me inscrevi como opcional, Cognição e Criatividade. Tenho gostado muito de aprender como é que os nossos cérebros funcionam, seja em termos de emoções, processos cognitivos, percepção, recepção de estímulos, reacções, e ainda como é que ele evoluiu desde os tempos ancestrais até ser o que se pensa ser hoje em dia.


Há algumas semanas, acabei por encontrar uma série de entrevistas sobre psicologia evolutiva do podcast Quarenta e Cinco Graus, apresentado por José Maria Pimentel, e um dos convidados foi o Prof. Paulo Finuras, autor deste livro. Eu nem sabia que em Portugal se faz investigação nesta área, nomeadamente ligando-a às ciências políticas, sociais e à gestão. Fiquei muito interessada na conversa com este convidado e acabei por comprar o Bioliderança.

 


Bioliderança é um livro curto, mas assertivo. Na Introdução, é logo explicado: a maioria dos capítulos rege-se pelo sistema pergunta-resposta, alongando-se por poucas páginas de cada vez, facilitando a leitura e aguçando a curiosidade. Algumas dessas perguntas são:

  • Por que razão nos deve interessar o tema da Liderança? (capítulo 1)
  • Por que razão a maioria dos líderes são homens? (capítulo 7)
  • Por que motivo falham os líderes e a liderança? (capítulo 9)
  • Por que razão continuamos a seguir líderes autoritários e dominadores? (capítulo 11)
  • Qual a relação entre a genética e a liderança (capítulo 15)


Parece muito interessante, não é verdade? Aconselho particularmente a quem ocupa posições de liderança a nível profissional, quem se encontra desagradado com a forma como é liderado e a quem quer perceber melhor como elegemos os nossos políticos/gestores/chefes e como fazê-lo melhor.

 

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A transdisciplinaridade e a fácil transferência deste conhecimento para diferentes áreas e mercados de trabalho é uma das vantagens mais significativas de Bioliderança. Quem diria que poderíamos colocar - entre outros - biologia, psicologia, gestão de recursos humanos e política num só tema?


Entre tantos motivos e conclusões que cada um de nós poderá encontrar para ler um livro assim, destaco alguns que foram centrais para mim. Entender quais as diferenças entre ter poder e ter autoridade; perceber algumas das origens da desigualdade entre homens e mulheres em posições de liderança; quais os vários tipos de líder; qual a razão de haver um perfil físico mais ou menos transversal aos chefes políticos; como é que o nosso cérebro, programado pelas circunstâncias ancestrais, se deixa enganar por esses moldes "desactualizados" no século XXI; quais os desafios resultantes dessa disparidade e como atenuá-los - são estes alguns dos tópicos que mais me suscitaram a atenção.

 

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No entanto, depois de tanto elogio a este livro e ao trabalho do Prof. Paulo Finuras, não posso deixar de apontar algumas falhas que talvez possam ser colmatadas noutras edições ou livros. Por exemplo, a pontuação, as incoerências e as gralhas. Sei que nem todos temos de ser excelentes escritores, mas um livro com tanto potencial para fazer divulgação científica ao grande público poderia ter sido sujeito a uma revisão e edição cuidadas. Ainda por cima, sendo um livro tão curto, nem seria um processo muito demorado ou, quiçá, dispendioso. Posso estar a ser demasiado picuinhas, mas um texto bem elaborado e corrigido é meio caminho andado para uma leitura prazerosa e sem solavancos.


Se também ficaram curiosos, eu encomendei o meu exemplar de Bioliderança pela Wook, demorou alguns dias a chegar, mas leu-se rapidamente. Fica a sugestão!


Boas leituras e procrastinações!

Chafurdando nos sentimentos: Constructive Wallowing (Tina Gilbertson)

Ainda faltam dois dias, mas tenho quase a certeza de que esta terá sido a minha última leitura completa antes de 2019: Constructive Wallowing - how to beat bad feelings by letting yourself have them, da psicóloga americana Tina Gilbertson.

 

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De repente, deu-me esta vontade: em 2018 tenho lido mais livros de desenvolvimento pessoal, psicologia e de dita auto-ajuda do que nos anos anteriores. Também contribui para a equação que eu ande a investir numa desmistificação desse género de leituras, para abater o meu cepticismo. Então, parece que estou a terminar assim, com mais uma. Tenho-me interessado tanto pela forma como o cérebro humano trabalha, quanto como usar o meu de melhor forma. Mesmo no mestrado, tenho tentado fazer trinta por uma linha para estudar fenómenos cognitivos aplicados à cultura e à literatura. Tem sido mesmo giro!


Por isso, não admira que esteja a terminar com Constructive Wallowing. Encontrei este livro por acaso no Book Depository, enquanto dava uma vista de olhos pelas pechinchas do Boxing Day, mas não pude esperar pela encomenda. Procurei logo a edição digital para ler no tablet. Ainda bem, acho que precisava de o ler neste momento.


Provavelmente, este livro ainda me há-de render mais um ou dois textos para o blogue, mas por agora deixo-vos com algumas das ideias que mais me agradaram e que me ocorreram nesta leitura.

 

Em primeiro lugar, atentemos no título: Constructive Wallowing pode ser traduzido para chafurdamento construtivo. É mais bonito em inglês, mas talvez mais expressivo (ou seja, bardajão) em português. E em que devemos nós chafurdar, segundo a autora? Nos nossos sentimentos, mesmo nos mais negativos e que mais dor nos trazem. Embora ninguém se importe de chafurdar em felicidade, orgulho, satisfação, conforto, não há quem preze em particular o embaraço, a tristeza e a desorientação.

 

Daí resulta o subtítulo: como ultrapassar maus sentimentos permitindo-se tê-los, isto é, em vez de os evitarmos, devemos ter compaixão por nós mesmos e deixá-los vir à superfície. Fazer de propósito para os sentir, sem ouvir a voz crítica que nos manda ser mas é felizes, parar de ser choninhas, concentrarmo-nos em coisas mais importantes do que a auto-comiseração, porque afinal há sempre alguém pior do que nós, etc e tal. Ah, e já agora, não existe tal coisa como "maus sentimentos"!


Pessoalmente, isto é uma lição que me estava a fazer falta ouvir, ou ler. Eu chafurdo, mas não costumo fazer de propósito para sentir toda a carga emocional que se quer soltar. Fico-me pelo suficiente. "Vá, agora já chega, que tenho de me levantar da cama/ir trabalhar/ir ao ginásio/ler/estudar!" Quem nunca disse isto a si próprio atire a primeira pedra. Então, por vezes sinto que enterro os problemas lá no fundinho, para lidar com eles mais tarde, preferencialmente nunca!


Temos tendência a pensar assim, nem que seja porque costuma ser esse o espírito de sacrifício incutido pelas gerações anteriores. Ser forte e aguentar é que interessa. O curioso é que, exactamente por declaramos abertamente o que consideramos ser fraquezas é que nos tornamos mais fortes. Já alguma vez tinham pensado nisso?


Tina Gilbertson explica que, ao deixarmo-nos sentir essas emoções, abrimos caminho para as libertarmos. Uma vez que as aceitamos como normais, minimizamo-las sem precisar de as reprimir. O processo de as sentir torna-se natural e menos obsessivo. 


Às vezes, acordo e penso que me sinto incapaz de me levantar. Que tenho tanto para fazer nesse dia que o melhor é ficar na cama. Que estou desiludida com os esforços que tenho feito para o mestrado sem parecer valer a pena.


Sim, o sono tolda-me o discernimento, mas talvez eu deva parar de responder "já chega de ser piegas" e passar a dizer "realmente, vais ter um dia difícil", que despoletará um raciocínio mais equilibrado sem me impedir de realmente tomar acção quando a altura certa chegar. Se não chamaríamos piegas a um amigo, por que o chamamos a nós próprios?


Claro que não sei se concordo totalmente com esta abordagem. Por vezes, até a um amigo deixaríamos uma nota de advertência. "Olha lá, se puseres mãos à obra em vez de ficar a choramingar mais meio ano, talvez consigas ultrapassar esse bloqueio - o que achas?" Não é preciso sermos os generais temidos da nossa vida, mas levar tudo com suavidade também não me parece positivo como sistema. Há que puxar os nossos galões de vez em quando, tomar uma chávena de café e apostar num dinamismo que nos faça sair dum ciclo de palmadinhas nas costas.


Em suma, o livro é muito bom, há imensa informação útil a retirar, mas a segunda parte já me pareceu demasiado lenta, uma repetição alongada da primeira e perdi mais o ritmo de leitura. Se se quiserem aventurar no Constructive Wallowing, façam-no tendo em vista uma leitura descontraída, pouco exigente e, obviamente, construtiva. Até podem passar algumas partes menos interessantes à frente ou apenas ler alguns capítulos (vejam o índice!).


Muito ainda poderia ser escrito sobre este livro, mas o texto já vai longo e daqui a nada perco a vossa atenção. Resta-me apenas deixar a recomendação deste livro para quem esteja à procura de melhores formas de levar a cabo a auto-reflexão e introspecção, para quem quer uma leitura menos pesada ou para quem gostaria de fazer terapia/ir ao psicólogo, mas não sabe o que esperar dessa experiência.


Boas leituras e procrastinações!

Um livro para a auto-reflexão: "O Homem em Busca de um Sentido" (Viktor E. Frankl)

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Este texto demorou, mas chegou! Gostei muito do livro O Homem em Busca de um Sentido (escrito depois da Segunda Guerra Mundial pelo psiquiatra e neurologista Viktor E. Frankl), já que a procura de sentido interessa a provavelmente toda a gente e porque... Bem, porque também precisei de escrever sobre o tema para a faculdade!


Decidi que um dos trabalhos para este semestre de mestrado seria sobre o trauma representado na escrita autobiográfica de Primo Levi, em Se Isto é um Homem. Já escrevi sobre ele e, na sequência dessa leitura, acabei por pegar neste - na medida em que quis reflectir sobre a partilha do testemunho narrativo como forma de ultrapassar um trauma ou dar sentido ao sofrimento da vítima, anteriormente passiva, que através da escrita ganha um papel activo de testemunha. Mas não divaguemos demasiado! 


O Homem em Busca de um Sentido também é, em parte, uma narrativa autobiográfica, e a primeira metade desvenda-nos mais um pouco sobre o que era a vida nos campos de concentração nazis, desta vez dum ponto de vista mais psicológico, quiçá emocional, mas nem por isso menos fiel ao que o autor, o Dr. Frankl, terá passado. Antes pelo contrário, o rigor científico é mantido tanto quanto possível nas suas observações, já que o próprio livro foi escrito com o intuito de informar o mundo desta parte da nossa História Europeia recente.


Outro dos objectivos é, obviamente, a explicação da logoterapia, na segunda metade do livro. A logoterapia é um método de psicoterapia desenvolvido pelo próprio Viktor E. Frankl antes, durante e após a Segunda Guerra Mundial - ou seja, durante toda a sua vida. Nem quando esteve preso deixou de pensar nela!

 

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Frankl dedicou a sua carreira a ajudar os seus pacientes a recuperar o seu logos, ou o seu sentido/propósito, de modo a superarem depressões, fases de luto ou mesmo traumas. A logoterapia é a terapia pela procura e identificação dum propósito na vida do paciente. O próprio Frankl refere que o que o salvou e o manteve vivo durante a guerra terá sido a vontade de concretizar o trabalho que começara antes de ser capturado, uma vez que a primeira versão do livro que andava a escrever fora confiscada quando ele dera entrada no primeiro campo de concentração. Mas, mesmo assim, mantinha a esperança de o reescrever depois da sua libertação! Até foi tirando notas em escrita estenográfica em pedaços de papel. 

 

Em geral, a mensagem deste livro é que, sejam quais forem as condições em que sintamos desmotivação ou desorientação, procurar um sentido, propósito ou objectivo ajuda-nos a planear o futuro e a torná-lo mais visível e atingível, devolvendo-nos o entusiasmo de o perseguir. 


Este é um livro com algumas décadas que ainda se mantém actual, é um livro para quem gosta de psicologia, ciência popular, histórias trágicas que acabam bem, o tema do Holocausto e do aperfeiçoamento e desenvolvimento pessoal, sob quaisquer condições. É um livro com uma mensagem de esperança, recuperação, que raia a escrita científica e a autobiográfica, que enche as medidas dos cépticos, dos crentes e dos assim-assim. Ainda por cima, é curtinho e lê-se numas horas.


Boas leituras procrastinadoras (e sempre com um sentido, pois claro)!