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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

então

   Estavas a olhar profunda e atentamente para mim. Estarias curioso, impaciente ou inexpressivo? Não sei, não sei. No entanto, ali estavas, tão perto e disponível...! Podia ter congelado o momento. Nós os dois, mortais em nada iguais, víamo-nos frequentemente em situações tais que difícil seria esquecê-las. Tu, moreno, despenteado, nada meu, alimentavas a minha aura, tornando-a superior a qualquer dimensão.


   Então, abracei-te. Perdoa-me - não resisti. Culparei, assim, a tua irresistibilidade e aroma de mais ninguém. Saciei o desejo de um aperto, aproximando os meus erros dos teus, tornando-os um pouco menos humanos e mais perdoáveis. Não foram bons, aqueles efémeros segundos? Não te marcaram? Não, eu sou a tua marca e, tu, a minha. 


   O derradeiro momento da separação, do beijo de despedida e do leve, breve e desmotivado aceno chegou, mas tu fugiste dele. Não olhaste para trás; nunca olhas para trás. Porquê? Só queria, uma vez na vida, ter a satisfação e o consolo de te poder atirar um beijo ou presentear-te com um sorriso (já) saudoso.


   Sinto saudades de um desses momentos de despedida, porque, antes dele, haverá sempre um abraço.


 


" saudade dada "

Em horas inda louras, lindas


Clorindas e Belindas, brandas,


Brincam no tempo das berlindas,


As vindas vendo das varandas.


De onde ouvem vir a rir as vindas


Fitam a fio as frias bandas.


 


Mas em torno à tarde se entorna


A atordoar o ar que arde


Que a eterna tarde já não torna!


E em tom de atoarda todo o alarde


Do adornado ardor transtorna


No ar de torpor da tarda tarde.


 


E há nevoentos desencantos


Dos encantos dos pensamentos


Nos santos lentos dos recantos


Dos bentos cantos dos conventos…


Prantos de intentos, lentos, tantos


Que encantam os atentos ventos.


[Fernando Pessoa, 1917]

peculiar

   Fico ressentida quando não há um olhar sorrateiro ou um adeus prolongado. Cai o Carmo e a Trindade quando algo parece não ter sido dito. Espero eternamente pelo gesto que jamais acontecerá ou pelo momento ideal para mudar algo inalterável, enquanto o tempo vai passando e as oportunidades vão surgindo e fugindo, num jogo inconsistente, insistente e persistente de sentimentos e ressentimentos.


 


   Não é dor. Não dói, não queima, não mata, mas mexe. Porquê? - não sei. Tal incógnita mantém a chama acesa e água alguma a apagará. O vento que fustiga o lume só o ateia contra a lenha, envolvendo as farpas em fogo forte, consumindo a madeira até o último toro se ter tornado cinza.


   Porém, quando durmo ao relento, não tenho frio. Haverá sempre uma brasa incandescente, insistente, persistente que me manterá viva e estará do meu lado, contra todas as geadas de Inverno, tempestades e, até, Eras glaciares. Terei as mãos frias, mas, o coração... esse permanecerá quente.

a ilusão da cinderela

   Foste um possível imprevisto dentro das remotas impossibilidades que eu julgava improváveis de acontecerem. Tiraste-me o chão, deste-me o céu e eu perdi-me. Levantei a cabeça, ergui o coração, ofereci a alma e deitei fora os medos. Não tive receio, enlouqueci, continuo louca, entristecida. Escrevo, escrevo, escrevo. Não sei onde páro. Não sei quando assentar. Não sei decidir.


   Reavi o que perdera. Foi árduo, foi cruel, foi difícil, quando pararia, quando pararia? Pensei ver o fim, mas era só o virar da página - próximo capítulo. Gritei.


   E chorei e recolhi-me num passado anterior, remotamente alcançável, onde não repousava arrependimento, onde a tristeza não chegava e onde ainda sonhava com príncipes encantados. Mas o encanto desvaneceu. A Cinderela rasgou o vestido, enterrou os sapatos na lama e o cabelo voou ao vento. A tiara rachou.


   Acordei da ilusão e desiludi-me. Rompi num pranto de quebrar a alma, discuti com o Diabo e fiz as pazes com Deus. Estava errada, estava errada - quantas vezes não o estivera?


   Tenho saudades do risco que implicava amar sem princípios, de amar imoral e constantemente, permanentemente com o coração nas mãos e as mãos no coração... dele.

o encontro

Olha para nós, tão perto e tão longe
a escassos passos de um aperto, um abraço,
mas cegos do que não vemos e não sentimos.

Dar-te-ia a mão, o pulso, até os medos,
fundindo os teus com os meus,
do jeito que a saudade criou.

Olha para nós, tão perto!
Como seria bom ouvir a tua voz mais alto que a do mundo,
enquanto o mundo de nós falaria!

Quase no pôr-do-sol, quem me dera não lhe ligar,
pois o meu horizonte em ti acabaria
e, o de amanhã, em nada seria igual.


 


Beatriz Canas Mendes

o detergente

 


   De repente, senti-o por perto. Dei por mim a procurar a suposta origem do cheiro, aquele peito, aquela camisa. Lembrei-me do padrão do tecido - vermelho, preto, branco, muitas listas, formando, entre si, inúmeras perpendiculares e paralelas. Mas onde se escondiam?


   Olhei em volta do quarto, analisando cada canto. Não. Decididamente, ele não se encontrava ali. Afinal, já não nos víamos há algum tempo.


   No entanto, o odor prevalecia e despertava todos os meus sentidos. Conseguia imaginá-lo tal e qual como era na realidade, o seu toque, o seu desejo e a respiração ofegante. Envolvi-me num abraço, apesar de estar completamente sozinha, arrepiada, no meio do meu próprio quarto, onde, excepto eu, apenas a minha família entrava.


   Instantes decorridos, mentalizei-me de que seria impossível estar mais alguém em casa. Deitei-me em cima da cama e, então, entendi. Os lençóis lavados eram a fonte do aroma familiar que, outrora, inspirara vezes sem conta. A explicação para toda aquela confusão sensorial encontrava-se num mero frasco de detergente - o detergente da roupa. Tive a certeza de que a mãe dele usava o mesmo que a minha avó passara a comprar.


  Mas, tal como aconteceu com certos pormenores dessa outra vida, com essas memórias, também o aroma floral dos lençóis desvaneceu. A minha avó encontrou um detergente mais barato, eu nunca mais o vi ou abracei, enterrando o nariz na sua roupa lavada, e as nossas vidas desencruzilharam-se. 


   Daí em diante, ficou somente a certeza de que o detergente nunca mais seria o mesmo.