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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Há sortes que não se fazem, que só se têm

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Há sortes que não se fazem, que só se têm. Talvez criemos as condições para as recebermos da melhor forma possível, mas no final do dia o que é fascinante é vê-las chegar, assentar arraiais e criarem raízes na nossa vida, bafejada por ventos com certeza soprados por trevos de quatro folhas. Que sortes são!

 

Saiu-me a sorte grande no amor. Aliás, sai-me a sorte grande todos os dias, no presente do indicativo, repetidamente. Não há hesitação. Não conheço um abundância de amores assim, acho que são poucos, o que sinceramente é uma pena. Felizmente, acho que vários amigos meus lá encontraram sortes semelhantes, mas gostava muito que mais pessoas as pudessem ter.

 

No outro dia, dizia a outra amiga: "quando começa, quando nos estamos a conhecer, não sabemos, e até pensamos que há alguma coisa errada, pensamos que parece tudo muito estranho". De facto, foi isso que me deu toda a certeza de que eu não ia deixá-lo fugir-me entre os dedos, mal conheci o João. Era tudo novo, tudo me parecia novo, sentia tudo de novo e como novo. Fiz bem em acreditar nessa estranheza. Surpreendia-me constantemente e tinha de contrariar o hábito e as crenças de que tudo o que não fosse como eu achava que havia de ser estava mal, porque era exactamente isso que estava bem.

 

Mas, em geral, só pode ter sido sorte, só pode ser sorte. Só preciso de ter encontro marcado com ela no dia-a-dia.

 

E resta-me desejar que todas as pessoas cheguem a encontrar-se numa relação que é de facto uma parceria, onde não há pretensiosismo, falsidade, necessidade de perfeccionismo, nem receios e medos, dúvidas, demasiados dias maus aos quais se perca a conta.

 

É tão bom viver num estado de paz e calma, onde existe uma rede para cair quando se tropeça; e onde há um projecto comum, sonhos comuns, vontades comuns e, por isso, um espaço e um ambiente propícios aos projectos, sonhos e vontades individuais; e onde nos sentimos em família, ligados a alguém que nos rega de amor, humor e fé.

 

Por mais namoros, casamentos, uniões de facto, relações amorosas mais ou menos temporárias ou estáveis assim...!

26/30 (eu isto e o João aquilo)

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Costumo dizer muitas vezes, em tom puramente caricatural: eu e o João falamos línguas diferentes. Depois de mais de ano e meio juntos, começamos a comunicar cada vez melhor, e a arranjar um entendimento partilhado que nos permite uma tradução razoável. Mas isso é o mínimo, a ponta de um iceberg. A simplificação não é sempre o caminho.

 

É difícil conhecerem duas pessoas mais diferentes entre si do que nós - à primeira vista. Quando nos viu juntos e falou connosco pela primeira vez, o nosso vizinho comentou logo o facto de eu ser a parte que fala e o João a parte que ouve. Foi mais ou menos assim que nos descreveu, e eu achei engraçado haver esta dicotomia obrigatória. Uma é isto e o outro é aquilo.

 

Vejamos...

Eu sou criativa, o João é lógico. Eu sou extrovertida, o João é introvertido. Eu sou espontânea, o João é comedido. Eu sou complexa, o João é pragmático. Eu sou batata de sofá, o João fez um ginásio em casa. Eu sou ansiosa, o João é calmo. Eu sou das Letras, o João é das Ciências. Eu penso, o João faz. Eu sonho, o João planeia. Eu digo sim, o João diz não. Podia continuar, mas a amostra já é suficiente para se entender onde quero chegar: como é que duas pessoas tão diferentes se podem fazer tão felizes?

 

Correndo o risco de abusar do cliché, parece-me inevitável invocar o conceito de equipa. O que falha no elemento X abunda no elemento Y. E vice-versa.

 

E, depois, há aspectos que são tão mais importantes para uma relação funcionar: a vontade de estar na relação (óbvia, mas desvalorizada), os desejos para o futuro, os princípios éticos e morais, a visão sobre o dinheiro, o compromisso e a dedicação diária, a capacidade de partilhar os pertences, o espaço e as responsabilidades, o estilo de comunicação, as linguagens não faladas, a admiração mútua, as rotinas. Embora hoje já me faltem palavras e energia para continuar o raciocínio, hei-de voltar a escrever sobre o assunto.

11/30 (as mulheres dizem)

As mulheres dizem, os homens negam.

As mulheres dizem que têm medo de andar na rua, de dia ou de noite, os homens negam.

As mulheres dizem que os piropos, assobios e comentários despropositados são atentados contra a sua integridade física e a sua segurança, os homens negam.

As mulheres dizem que são vítimas desde pequenas, os homens negam.

As mulheres dizem que não saíram de relações física ou psicologicamente violentas antes, porque não tinham força, apoio ou sequer noção do que lhes estava a acontecer, e não por falta de desconforto, dor ou trauma, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem ameaçadas por mensagens sexuais não solicitadas que recebem na Internet, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem discriminadas no mercado de trabalho, ora porque ganham menos, ora porque não têm acesso facilitado às mesmas carreiras e oportunidades, ora porque colegas e chefes do sexo masculino as oprimem e adoptam comportamentos no mínimo condescendentes, os homens negam.

As mulheres dizem que há expectativas irrealistas sobre a sua imagem, os homens negam.

As mulheres dizem que ainda são educadas, de modo mais ou menos consciente, para serem subservientes, os homens negam.

As mulheres dizem que têm demasiadas pessoas a meter o nariz na sua vida pessoal, amorosa ou sexual, os homens negam.

As mulheres dizem que a maternidade não é um paraíso e que licença de maternidade não é o mesmo que férias, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem assoberbadas pelo trabalho doméstico e pelas responsabilidades familiares e profissionais simultâneas, os homens negam.

As mulheres dizem que não vivem tão livremente quanto deveriam, os homens negam.

As mulheres dizem que a sociedade não as entende e recusa entender, os homens negam.

As mulheres dizem que há enviesamentos, preceitos e preconceitos invisíveis e enraizados na nossa linguagem e forma de estar, os homens negam.

As mulheres dizem que, no século XXI, até na Europa, ainda vivemos num mundo de homens, e os homens... é claro que negam.

 

Agora, continuem vocês... o que têm as mulheres para dizer?

 

***

 

Ontem, os Fazedores de Letras publicaram um texto da minha autoria que termina assim: Quem sou eu, se mais ninguém estiver a olhar para mim?

 

É um ensaio que, partindo duma reflexão sobre como a mulher é retratada na arte, pretende questionar de que formas ainda é condicionada e vista na vida real. O texto integral pode ser lido AQUI e também vos deixo um excerto:

A mulher do século XXI ainda vive num mundo onde prevalece o olhar masculino, exterior e que não lhe permite olhar para o seu reflexo como se este lhe pertencesse exclusivamente. (...) Mas não interessa se somos mais famosas ou meras anónimas: os padrões, expectativas e pressão existem para todas. Padrões de beleza, de inteligência, de maternidade, de sexualidade, de conjugalidade, de envelhecimento; a pressão e as expectativas sobre a forma como desempenhamos a nossa profissão, a forma como aparecemos na vida pública, a forma como aparecemos nas redes sociais.

Aniversários, bolachas, e abraços (suprimidos)

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Três dos meus amigos já fizeram anos durante a pandemia. Um. Dois. Três. E eu também. Quatro pessoas. A quinta faz daqui a nove dias.

 

São cinco encontros sem abraços, beijos, apertos, festinhas, nem sequer a liberdade de não nos preocuparmos com o possível desleixo de uma palmadinha. É só uma palmadinha, mas a distância de segurança obriga à eliminação de todo e qualquer ensaio de contacto físico. Até o contacto visual se torna doloroso, como prova última do afastamento coagido.

 

A pandemia trouxe bolachas caseiras ao domicílio a cada um dos meus amigos nos seus aniversários (apesar de hoje ser o dia do terceiro contemplado, ainda se admirou muito que eu lá tivesse aparecido à porta), mas também o desconforto das despedidas sem algo que as marque. Se outros povos vivem bem sem o quente do xi-coração, parabéns a eles. Pelo menos na minha vida, ninguém do meu círculo mais próximo costumava livrar-se de ser esganado pelo pescoço com um "gosto tanto de ti!".

 

O risco de contágio até pode ser irrelevante nalgumas situações: todos nós, à partida, tão isolados quanto possível. No entanto, se todos violássemos esse cuidado, acabávamos a multiplicar exponencialmente a quantidade de interacções. Enfim, é difícil viver estes tempos quando somos pessoas que dependem tanto do contacto de pele com pele, bochecha com bochecha. Hoje, estive duas horas a falar com o amigo aniversariante, primeiro só a caminhar lado a lado, depois sentados num banco de jardim, e a alegria de o ver pela primeira vez em seis meses misturou-se facilmente com a angústia de não me poder aproximar.

 

No meu lanche de aniversário, uma amiga acabou por desafiar a sorte: atirou-se para cima de mim mal me viu. Perdida por um abraço, perdida pelos restantes. Acabei por me render e por deixar que o dia passasse com todo o toque possível. Soube tão bem. Foi, provavelmente, o melhor dia desde meados de Março, porque pude fingir, durante algumas horas, que estava tudo normal, pelo menos em relação a uma pessoa. A minha amiga acabou por beijar e abraçar outros membros da minha família, e fingimos que não fazia mal (não fez, felizmente), que poderia ter sido um dia normal de Junho doutro ano qualquer.

 

Cada vez que vejo amigos, tenho tanta vontade de os abraçar, de violar a distância de segurança, de não fazer nada do que é recomendado. Apetece-me apertá-los tanto, que pareça que lhes vão sair os olhinhos pelas pálpebras. Em vez disso, faço bolachas de côco ou gengibre e aceno-lhes um adeus desenxabido.

 

Esta pandemia está a dar cabo de mim.

 

***

 

Na fotografia, uma das primeiras fornadas de ensaio nas primeiras semanas de quarentena.

Nem a falar nos entendemos: Conversations with Friends (Sally Rooney)

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Declaro-me rendida: depois de Normal People, não descansei enquanto não pus as mãos em Conversations With Friends, o primeiro romance publicado da autora irlandesa Sally Rooney.

 

Conversations with Friends não desiludiu, juntando-se à minha lista de favoritos de 2019. De certa forma, é um romance ainda mais completo do que o segundo. Há mais personagens em destaque, e todas elas com uma vida emocional complexa e bem construída, não descrita, mas sim percebida através de diálogos intensos e até da falta de palavras ocasional (show, don't tell, não é esta a regra que os bons escritores devem seguir...?).

 

O que é ser uma mulher jovem, millennial, na actualidade? Quais os limites da amizade e do amor? O que é uma relação? O que é uma conversa? O que é o amor e como o mostramos? O que liga pais e filhos? Que poder temos uns sobre os outros, entre pares, marido e mulher, amigos, entre admiradores e admirados, mais velhos e mais novos? Pertencemos a lugares ou a pessoas? Onde termina a juventude e começa a idade adulta? E qual o efeito do dinheiro em todos os assuntos mencionados? Estas são algumas das questões que gravitam sobre a intriga a quatro: Frances, Bobbi, Nick e Melissa.

 

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Ainda tendo em mente os desentendimentos entre amigos e amantes, tal como em Normal People, neste primeiro romance Sally Rooney joga com as personagens para revelar a imperfeição que nos rodeia, mas perante a qual tantas vezes somos cegos. Os casais-de-capa-de-revista não são sempre felizes, os melhores amigos também escondem segredos uns dos outros e, em geral, não existe um modelo one size fits all para qualquer tipo de relação. O corpo feminino continua a ser uma peça central nas relações hetero e homossexuais, à semelhança da sua ligação com a mente, com o sexo e com a linguagem do que fica por dizer, questionando-nos sobre o seu valor atribuído pelos outros e como a própria dona do corpo o entende.

 

Se bem que o enredo não é o mais criativo possível, a riqueza das interacções entre personagens faz destas conversas com amigos de Sally Rooney uma experiência que me levou a repensar na forma como as minhas próprias relações são vividas (e descritas, e discutidas, por palavras). Por ter uma idade aproximada à das protagonistas, houve muitas partes do livro em que me senti representada, não pelas circunstâncias, mas pelas reacções, pensamentos e valores defendidos. Será que existe mesmo uma mentalidade "millennial", que transgrida fronteiras e afecte toda uma geração ocidental?

 

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No fim, cheguei à conclusão: nem a falar nos entendemos, porque fica sempre alguma coisa por dizer ou alguma coisa que gostaríamos que o outro dissesse e não diz. Seja por mensagens de texto, e-mails, conversas cara-a-cara, conversas sem palavras, discussões acesas... Fica a lição de que, muitas vezes, é impossível comunicarmos de forma perfeita, mesmo que o tentemos com os nossos melhores amigos, os nossos pais ou parceiros.

 

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📚 Claro que à segunda só pode ser paixão, e não me importo que à terceira, quarta, quinta e por aí adiante seja amor para sempre. Já encomendei um conto da Sally Rooney (Mr Salaryque também parece estar online, mas gosto mais de ler em papel) e vou consumir tudo o que houver pela Internet escrito pela rapariga. Se esgotar os recursos, ela que me mande as listas de compras ou tarefas, que também devem ser mais interessantes do que metade dos livros que por aí andam.

 

📚 E porque ando sintonizada em ondas melancólicas, discussões de identidade e relações complexas com o próprio e os outros, não hesitem em deixar-me recomendações desse género. 

A nécessaire da pessoa com quem fui de férias

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A pessoa com quem fui de férias chega ao quarto e começa logo a arrumar o que tem dentro da mala no roupeiro e gavetas do hotel. No tempo em que eu permaneci estarrecida a apreciar a vista e li uns centímetros de Instagram e Twitter, calças de ganga e t-shirts passadas a ferro, vincadas, ficam no fundo, por baixo dos cabides, que por sua vez penduram três camisolas mais quentes para a noite. A toalha de praia também fica por ali, nem reparei bem, mas tenho a certeza de que tudo encontrou o seu sítio.

 

Perto do espelho por cima do aparador, pousa a nécessaire - e eu nem sabia que haveria à face da terra um homem com nécessaire - preta, sóbria, adulta, sólida, imaculada, lá dentro uma caixa de plástico com a pasta e a escova de dentes, gel de banho e desodorizante, e sei lá mais o que um homem adulto com uma nécessaire preta, sóbria, adulta, imaculada levará para umas férias minúsculas à beira do rio com a namorada que assiste a toda esta ordem sóbria, adulta, sólida, imaculada.

 

Como se não bastasse, pede licença para a mala de viagem ser encostada à janela, do lado da cama que normalmente escolho; e eu finalmente olho em volta do quarto a que chegámos há quinze minutos e percebo que, afinal, a minha avó talvez não me tenha tentado domar nas lides domésticas para que eu viesse a tratar da pessoa com quem fosse de férias, mas sim para eu não me surpreender quando estivesse com um homem que me estendesse o biquíni na varanda depois do banho, que dobrasse as toalhas antes de as pôr no varão e não salpicasse o lavatório quando o usa; para eu não fazer figuras tristes com a minha bolsa (que nem merece ser chamada de nécessaire, denominação fina e por isso inapropriada) de plástico transparente para onde costumo enfiar mil tralhas enquanto lá couberem todas, recolhidas doutros mil cantos do quarto no fim desses dois dias e meio de estadia até ao destino seguinte; para eu parecer menos bicho trapalhão e/ou não ter de levar ninguém ao hospital por causa de alguma queda, ou de volta a Lisboa por causa de simplesmente não ter deixado boa impressão; porque, se eu não namorasse com esta pessoa com quem fui de férias, os meus ténis encardidos teriam ficado no meio do quarto, o meu biquíni teria ficado a demolhar a um canto da banheira e provavelmente teria deixado qualquer coisa pelo caminho ao sair (um par de meias, os chinelos, o lanche da manhã...).

 

Não é que eu me considere muito desorganizada sequer, porque não sou e as últimas linhas são um mero exagero necessário ao assunto da nécessaire, mas faltar-me-ia brio (e vergonha na cara) se não primasse pelos bons exemplos à minha volta, recusando-me a ser melhor do que sou hoje, não pensando em comprar uma nécessaire que não esteja peganhenta de um qualquer condicionador de cabelo vertido há mais de um mês ou não acarinhando a esperança de me rodear sempre de pessoas como aquela com quem fui de férias.

 

*Este texto foi parcialmente escrito na Praia do Alamal, destino fluvial da nécessaire aqui discutida. A fotografia ilustrativa deste post é a tal vista que me distraiu no primeiro parágrafo, aliás tirada durante esse mesmo período de tempo.

Procura de identidade, propósito e pertença: Normal People (Sally Rooney)

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Embirro com modas, por isso não acredito logo nos grandes êxitos de vendas e de Goodreads. Costumo fazer um finca-pé insistente e certamente irracional no que toca aos bestsellers. Como refinada snob, orgulho-me de não acreditar nem à segunda, nem à terceira, às vezes nunca. Ainda por cima, tenho evitado ficção nos últimos tempos, porque simplesmente me sinto incapaz de pôr o nariz na vida doutras personagens, já tendo o suficiente no meu prato. No entanto, apesar da hesitação, mais cedo ou mais tarde dou o braço a torcer, principalmente quando pessoas em cujos gostos eu confio começam a falar muito bem dos ditos.

 

Aconteceu com Normal People, de Sally Rooney. Já andava com vontade de o ler, mas a procrastinação da leitura preliminar continuou, e continuou, e continuou. Até que a Rita falou bem dele no nosso último encontro Uma Dúzia de Livros, desmanchando todas as minhas muralhas anti-êxito de vendas. Pronto, está bem, dois dias depois já o tinha na mão, acabei de o ler em menos de 24 horas... Foi um deslumbramento imediato, uma urgência sôfrega, nem tive tempo de me aperceber o que tinha acontecido. Foi um fartote de chapadas e montanhas-russas, apenas comparável ao meu romance pirosão favorito One Day, e mesmo ao amigo de faca e alguidar, Love, Rosie. Ao longo dos anos, já tenho escrito sobre o primeiro e digo-vos: este Normal People é ainda melhor.

 

Porque não é só lamechice. Não é só sobre o desencontro de protagonistas antagónicos durante vários anos. É tanto, mas tanto mais do que uma história superficial sobre dois jovens adultos. Na verdade, mais do que isso, é uma história sobre assimetrias sociais, sobre as relações entre pares, entre famílias e entre a família, a procura de um propósito na vida, a procura da pertença e um lugar no mundo, a transição para a idade adulta e, enfim, é sobre o que significa (querer-se) ser normal. É sobre como a relação que temos com outras pessoas molda quem somos e em quem nos tornamos, para onde vamos, aquilo de que gostamos. Este livro pôs-me a pensar sobre todas essas variantes, condicionantes e temáticas na minha própria história pessoal e das pessoas que me rodeiam. Assim, sem dúvida que vale a pena ler ficção. 

 

Dito isto, o design do livro e a estrutura do romance podem fazê-lo parecer o corriqueiro young adult, mas não se deixem enganar pelas aparências. Tive de pousar o livro várias vezes, de tão incomodada que me sentia, debatendo-me simultaneamente com a vontade de ler mais um página, e outra, e outra. Não querendo brincar com as vossas expectativas, espero mesmo que gostem de ler Normal People, pelo menos metade daquilo que eu gostei. A autora Sally Rooney rendeu-me, fico a aguardar pela série, e em breve darei uma chance a Conversations with Friends.

Violência doméstica na literatura portuguesa: Preciosa (Nelson Nunes)

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Há livros que são mais difíceis de ler do que outros. Normalmente, são mais difíceis porque têm frases longas, ideias complexas que somos incapazes de seguir. Ou, então, porque não concordamos com o autor, não o entendemos, não conseguimos encontrar nada em comum e que nos estimule a ler mais. (Que outras razões vos atrasam a leitura?)


Depois, há livros que são difíceis de ler porque há coisas que doem só de imaginar, quanto mais saber que muito do que o autor escreveu também lhe aconteceu, tal como a pessoas muito próximas de nós. Felizmente, nem a violência doméstica nem sequer as relações tóxicas fazem parte da história da minha família. Aliás, terão de facto existido, mas antes de eu ter sido gente. No entanto, já assisti a muita coisa nas famílias dos outros e já conheci as consequências em primeira mão do que é viver e ter crescido numa casa em que a violência física e psicológica são um dado adquirido por várias décadas. Pode não me ter acontecido a mim, mas já aconteceu à minha frente e já ouvi vários relatos na primeira pessoa.


Dito isto, foi muito difícil ler o livro Preciosa, do Nelson Nunes (autor que devem conhecer mais à conta da não-ficção), lançado na semana passada. Corri a comprá-lo no dia em que saiu, não só por conhecer o Nelson há alguns anos e adorar as crónicas dele, mas também por curiosidade sobre este livro, cujo tema ainda não faz explicitamente parte da literatura portuguesa. Finalmente, a violência doméstica é retratada na ficção, ou na ficção quase autobiográfica. Acabei por lê-lo em três dias, embora seja um livro curto, porque não conseguia ler muito mais do que 20 páginas de seguida.

 

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Depois de o Preciosa ter sido recomendado por Marcelo Rebelo de Sousa e Cristina Ferreira, há pouco que eu possa acrescentar à opinião pública. Resta-me admirar e agradecer a coragem do Nelson Nunes, que reabriu portas do seu passado para partilhar connosco algo tão perturbador e definidor numa vida quanto a existência dum pai que o inspirou à criação da personagem Isaac. Voltar a expor a ferida para escrever sobre o que nos atormenta para que a história possa ser partilhada como elogio à sobrevivência possível e para a consciencialização pode ser libertador, mas de fácil deve ter muito pouco. Ao mesmo tempo, a homenagem prestada a uma mãe igual a Esmeralda é a parte mais bonita. A acção desta mulher forte deve-nos servir de lição para conseguirmos mais ou menos tudo na nossa vida - se ela foi capaz de se refazer duma fase tão negra e devolver segurança e uma vida boa a um filho, qualquer um fica a sentir que também conseguirá seja o que for.

 

Apesar das falhas na sociedade, do silenciamento das vítimas, da desresponsabilização dos agressores, da desvalorização e normalização da violência nas relações, é-nos deixada uma mensagem de esperança - e de alerta - sobre a possibilidade de pedir ajuda e de a vida poder continuar. Espero que livros como este possam trazer o tema da violência doméstica para cima da mesa colectiva, de modo a quebrar-se o silêncio e a tentar chegar a coragem a quem mais precisa de se fazer ouvir.


Na minha opinião, este Preciosa é também uma chamada de atenção para as tais consequências, na forma de mazelas que, se não físicas, são psicológicas e afectam a forma como quem já viveu num lar a desfazer-se por estes motivos encara a relação consigo mesmo e com os outros pela vida fora, principalmente quando muito jovens. Na minha geração, vejo e conheço exemplos de dois caminhos possíveis na idealização do amor: a concretização do ciclo de relações violentas, que se repete, porque foi assim que se viu fazer, estando enraizado e normalizado; ou exactamente o contrário, a dúvida e a preocupação constante com o bem-estar do outro, o medo de desapontar e de poder magoar, a consciência constante dos precedentes e a sua evitação a qualquer custo, combinados com baixa auto-estima, sentimentos muito bem retratados pelo Nelson Nunes. Penso que ainda existe a sensação de que "temos é de ser fortes", e que o passado fica no passado, e que as coisas passam (mas não passam) e que estas gerações mais novas só se sabem queixar, enquanto deviam era aprender "que é assim a vida, difícil, temos de aguentar". Aguentar coisa nenhuma! Há sempre algo mais que pode ser feito. Não, não nos devemos conformar com esta miséria de espírito e as vítimas devem ser ouvidas e apoiadas, nomeadamente a nível da sua saúde mental. Não há justificação para se bater ou maltratar seja quem for, muito menos alguém de quem se "gosta".


Que a literatura nacional continue a inspirar a mudança nos pseudo-costumes nefastos e nas mentalidades pequenas do nosso país! Que uma voz seja dada a quem a perdeu! Que possamos abrir os olhos para o que se passa à nossa volta e não contribuir para ciclos de violência, para a desvalorização do mais "insignificante" acto de violência e a falta de atenção dada às vítimas pelas autoridades mas também por quem as rodeia, que decide não fazer nada, para não se intrometer. Não podemos ser cúmplices. Como devem saber, as estatísticas da violência doméstica em Portugal nos primeiros meses de 2019 provam o quanto ainda está por conquistar.


(Se puderem, leiam este livro, que não há-de tomar-vos muito tempo, mas que vos poderá relembrar desse tanto que a sociedade tem por conquistar, ou ofereçam-no a quem possa beneficiar desta história e da sua mensagem.)

 

Obrigada, Nelson, por teres escrito (mais) um livro que pode vir a fazer a diferença! 👏

Releitura: The Course of Love (Alain de Botton)

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Reler Alain de Botton foi como regressar a um sítio muito confortável, acolhedor, sem julgamentos, onde as falhas humanas não ditam o carácter, onde o leitor voyeur não pede licença, mas onde vai entrando pé ante pé, para aprender pela experiência dos outros - dos protagonistas. Tudo o que é escrito pelo Alain de Botton tem cariz didático. Não há maus-da-fita, apenas gente normal a habitar a narrativa de The Course of Love. Reler este romance foi como entrar numa casa onde já tinha vivido, com tudo o que há de positivo e negativo nisso. É como rever um sítio querido, e mesmo assim descobrir-lhe novas nuances. Sem surpresa, Alain de Botton continuou incisivo, narrando os traumas de infância que levam Rabih e Kirsten a unirem-se numa relação que se espera para sempre, mas que não é interrompida pelos créditos finais no momento dos votos de casamento nem se revela inequivocamente feliz. Antes pelo contrário, lá fui eu numa visita guiada repetida aos seus primeiros dezassete anos de vida partilhada. Não, um casamento não é fácil. Não é bonito. Não é o "viveram felizes para sempre". Ainda assim, nas páginas finais, fica a promessa dum melhor entendimento.


No entanto, as releituras têm custos. Pode haver desencanto, desilusão, ou apenas mais tendência para um olhar mais atento ao que nos tenha escapado antes. Quase um ano depois, com outras experiências pessoais acumuladas e talvez um olhar mais cínico e menos romântico quanto às relações, tenho a dizer que achei esta união dos protagonistas muito apressada, e que o Sr. Botton cria ali uns cenários pouco credíveis. Se calhar, o Rabih e a Kirsten eram só parvos, ou desinformados, mas aos vinte e tal ou trinta anos não me parece que haja espaço para tanto romanticismo e idealismo. Não é qualquer pessoa que se atira em mergulho para um casamento ao fim duns meses de namoro. Fiquei pasmada quando me apercebi de que as personagens reconhecem só começar a ter uma noção mais completa um do outro após uma quantidade significativa de sessões de terapia de casal e década e meia a viver debaixo do mesmo tecto. É obra...


De resto, claro que as releituras devem ser inevitavelmente mais críticas. Por um lado, há o conforto do que já é esperado a cada página; por outro, essa familiaridade permite estarmos disponíveis para encontrar e juntar peças nas quais não tínhamos tropeçado o suficiente.


Seja como for, o meu livro preferido do Alain de Botton é o Essays in Love, que espero readquirir em breve, depois de um empréstimo falhado - ou seja, duma doação muito bem sucedida - e com toda a legitimidade e carinho do mundo. Essa é a releitura que mais me preocupa, na medida em que posso quebrar a expectativa criada depois da primeira vez que o li. Seria uma pena eu deixar de o colocar no pedestal da literatura de paperback. 

 

E desse lado, o que andam vocês a reler? Há algum livro ao qual gostem de regressar de tempos a tempos? Digam lá quais são os riscos a que se sujeitam em prol de segundas, terceiras e centésimas leituras... 📚