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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Fé, questionamento e sentido de humor: Caim (José Saramago)

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Quem é que nunca se zangou com Deus? Quem é que não Lhe fez perguntas que acabam por ecoar no vazio? Quem é que nunca se sentiu endrominado, frustrado, descrente?


Mesmo que não nos identifiquemos com elas, muitos de nós cresceram no meio de referências cristãs, quiçá católicas. Sempre ouvimos falar de Deus e do poder que tem sobre as nossas vidas, das histórias da Bíblia e da sua relação com a História. Este livro é para quem tem muitas perguntas e poucas respostas, crente ou descrente, praticante ou não praticante, desde que consiga encontrar um escape no humor e na exposição do absurdo.


Há quase duas semanas, acabei de ler o livro Caim, de José Saramago. Gostei muito e só tenho pena de me faltar cultura bíblica para entender tudo ainda melhor, para ainda mais me rir. É um livro tão pequeno, mas tão engraçado. E tão polémico. Sei que pode haver quem se ofenda. Ainda assim, ao ler sobre as aventuras de Caim pelas palavras de Saramago, imaginei-o numa discussão acesa com Deus, porque nem todos podemos manter a fé perante tantas dúvidas, porque Deus nem sempre assiste, ao que parece, e porque somos apenas humanos e procuramos sentido em tudo, sem conseguirmos encontrá-lo sempre. Para os crentes, penso que pode ser uma forma de reler a religião, de forma a testar a sua própria fé e... enfim, sentido de humor.


Por ter sido Saramago a escrevê-lo, também imaginei a leitura na voz dum avô resmungão, revoltado contra as injustiças do universo nos últimos anos da sua vida - que provavelmente foi o caso. Por estar cheio de provocações, é daqueles livros de que se gosta muito ou que se odeia, mas é impossível ficar indiferente ao questionamento constante de Deus, cheio de falhas, não só antropomórfico, como também humanizado, rival-amigo de Satanás, chefe dos anjos, vivendo a eternidade a seu belprazer.


Infelizmente, Caim não é um dos meus livros favoritos escritos por Saramago - não pela parte religiosa, mas pela literária. Não lhe encontrei nada de especial, além da indagação e da ridicularização da crença no divino, porque o resto me pareceu vulgar, pouco ambicioso e surpreendente. Além disso, claro que não ajuda a minha falta de conhecimento profundo acerca da Bíblia! De resto, por ser um romance curto e cheio de imprecações que fariam um adolescente corar, recomendo para quando precisarem de uma leitura rápida e bem disposta, mas não menos desafiante.

 

📝 Pergunta para queijinho: qual é o vosso livro favorito de Saramago? E porquê?

O papel da religião na minha vida

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Recentemente, aproveitei o facto de a minha tia ter passado o Natal e o Ano Novo em Banguecoque comigo para visitar uma data de igrejas cristãs [católicas], legado maior dos franceses e portugueses, desde o século XVI, nas margens do rio Chao Phraya. Estas visitas, apesar de curtas, deram-me para pensar no papel da religião na minha vida.

 

A verdade é que eu sou daquelas pessoas que "não sabe rezar". Raramente vou à missa, quando vou é por alguma ocasião especial, sou baptizada mas nem fiz a primeira comunhão, todos os membros da minha família tiveram uma educação religiosa (incluindo escolas de freiras pelo meio da equação), praticam a sua fé mas não explicitamente na igreja... e, apesar de me incutirem valores cristãos todos os dias, mesmo depois de maior e vacinada, nunca me forçaram a acreditar num Deus específico, apenas a acreditar nalguma coisa (e a respeitar esse entidade, sem o que ou quem for).

 

Acho que foi assim que o papel da religião na minha vida se tornou, acima de tudo, orientar-me para ser uma melhor pessoa e ter esperança de que nós, humanos, não estejamos sozinhos neste mundo, que haja algo maior do que nós que nos ajude e que olhe pelas nossas vidas. Pensando bem, tudo isto se tornou mais uma questão espiritual do que religiosa. Vejo-me como uma pessoa que acredita (e não é pouco), que sabe que há muita coisa sem explicação que me/nos acontece, que sabe haver - no entanto - muitas perguntas sem respostas, que se sente curiosa sobre todas as religiões e os princípios e valores que as regem. 

 

De qualquer forma, penso que outro papel da religião, não só na minha vida como o de todos os seres humanos, é o de providenciar elementos comuns a uma sociedade, uniformizar práticas e crenças. Infelizmente, muito é feito em nome de Deus no sentido oposto. Não me conformo com os usos que certos povos e indivíduos conferem às suas religiões, nem com a fixação em agradar a Deus através de práticas absurdas para o século XXI.

 

Gosto de pensar que mantenho uma mente aberta sobre a questão da religião, pelo menos por agora. Viver num país estrangeiro - com duas outras religiões dominantes (a maior parte dos tailandeses é budista e outra grande parte é muçulmana), e cuja população cristã vive as suas crenças e rotinas de forma muito diferente do que é feito em Portugal ou na Europa - ter-me-á ajudado bastante a reflectir no papel não só da "religião", como também do que significa "acreditar em Deus". 

 

Em geral, a minha pergunta, considerando o papel da religião nas nossas vidas, continua a ser "por que é que alguém escolheria ter uma visão limitada acerca do assunto, se hoje em dia há recursos que nos trazem uma perspectiva mais abrangente, holística?" O mais difícil, no entanto, também continua a ser formular uma resposta estruturada para uma pergunta que levanta tantas outras questões. Mesmo que eu escolha ver a religião dum ponto de vista cultural, social, simultaneamente pessoal, há muito mais que eu desconheço e que me colocará perante novas experiências e, consequentemente, novas perguntas e alternativas de resposta.

 

De certeza que voltarei a tocar neste tópico. 

Fado, Fátima e Futebol*

Hoje, estive presente numa cerimónia de confirmação de fé (também chamada simplesmente de crisma), na Sé de Lisboa, em que participaram dezenas de jovens. Todos eles iam bonitinhos, quase todos vestidos de cores claras, cabelos penteados, colarinhos engomados para eles e maquilhagem leve para elas, modos beatos, velinhas em riste, literalmente com o Cristo na boca (e, esperemos, no coração).

 

Qual é a primeira coisa que a Beatriz ouve ao sair da missa?

- Então e logo, pá, vamos ao Marquês?

 

*Só faltou o fado!

A Páscoa

Estamos na Páscoa. Enviam-se mensagens de Santa Páscoa, Páscoa Feliz, Boa Páscoa para ti e para os teus, e para os meus também. Toda a gente o faz, eu também o desejo às pessoas com quem falo durante estes dias. No entanto, estou naquela fase em que, por vezes, o faço mais por hábito e imitação do que por crença. Ainda acredito menos na tradição católica por trás da Páscoa do que naquela que está por trás do Natal. Contudo, celebro-as às duas do mesmo modo e pela mesma razão: pela união da família e como épocas de darmos graças pelo que temos na nossa vida. Nisso, as duas fazem todo o sentido. Quanto à questão da carne, nem sequer a conheço muito bem, apesar de a minha família a seguir. A mim, é-me indiferente. 

Em geral, acho que não é necessário seguir nenhuma religião em especial para ter fé e acreditar numa força superior, Deus ou o que lhe quiserem chamar. Se temos essa necessidade, basta acreditarmos e pronto, para quê contextualizar a crença no paradigma duma religião? Eu nem sequer sou praticante de religião nenhuma, nem estou assim muito familiarizada com a religião católica (a da minha família) para me sentir confortável a opinar sobre ela.

 

Dito isto, uma Feliz Páscoa para todos vocês e respectivas famílias, em que o mais importante seja a comunhão daqueles que amam, de preferência com saúde, comida na mesa e boa disposição! Ah, e chocolate aos montes!