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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

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A última romântica

Para o João, que de repente me pôs a pensar nestas coisas

 

Entristece-me que as pessoas se revelem cada vez mais cépticas quanto à existência dum "amor para sempre". Antes dos casamentos, prevêem já os divórcios. Começam relações com a boca pequenina, passinho a passinho. Não se deixam arrebatar. É tudo morno, não é? 

 

Infelizmente, também eu me sinto vítima deste contexto cuidadosamente contido, muito quadrado. Tento contrariá-lo, mas prevalece um receio constante de prematuridade, que ao não partir de mim há-de partir doutros lados. Não estou a declarar quem afinal terá razão nesta equação que nos melindra, mas sim que nos anexamos à partida a crenças de amor e dedicação forreta, com medo de merecer essa atenção, e com medo de magoar quem nos quer tanto bem. Às vezes, até parece que só não temos medo de quem nos quer um pouco menos, pela familiaridade da potencial rejeição. Desculpamo-nos com antecedência, não se dê isto e aquilo... Desconfiamos até de quem oferece largueza, porque simplesmente não estamos habituados.

 

E contagiamos quem nos rodeia, uns aos outros. Incubamos atitudes defensivas. Cultivamos mais medo do desconhecido, observando à distância os românticos, com uma curiosidade de antropólogo-comentador-de-bancada.

 

Mas eu quero ser romântica - não necessariamente a última, apenas uma em muitos. Quero apreciar a aproximação das pessoas que fazem por isso, quero acreditar que há quem conheçamos hoje para o resto da vida, que veremos envelhecer. Talvez nos faltem modelos, vivos e de pensamento, para nos assegurarem da exequibilidade do amor [e da amizade] que se descobre, constrói, insiste, desconstrói e sobrevive.

 

Onde vamos beber desse conhecimento de causa? Às artes? Aos media? Aos autores contemporâneos ou aos clássicos? Muitos de nós vimos de famílias desmanchadas e remontadas, aprendemos o que é um casamento mas não aquele em que nos pretendemos envolvidos, vivemos na sociedade líquida que só acredita no "até mais ver" e no "por agora é isto". Mas nós queremos fé, onde antes só havia condicionamento, convenção e comodismo. Nós, esta geração que agora procura uma ressignificação do que é o amor para sempre, queremos não só mais, mas melhor.

 

No entanto, não se acha romântica, a geração líquida, porque se acha a meio dum processo que não entende. E eu a querer ser romântica, e por vezes a não conseguir, porque também me encho de dúvidas. Sou uma céptica a tentar curar-se. Paciência a rodos é necessária, minha e de todo o lado. E, acima de tudo, é preciso encontrar e conhecer a pessoa certa, que amoleça e amenize o impacto das paredes que vão caindo, uma a uma. Há que partir as que fui erguendo nos últimos anos. Tenho de aprender a não me sentir permanentemente ansiosa, com medo que as pessoas, amigos, futuros-tudo, não queiram realmente desmanchar a bagagem e ficar por aqui. Habituei-me ao efémero, um conformismo pelo fim que me assustou quando as minhas relações passadas (românticas e de amizade) terminaram. Fica um vazio, muitas perguntas irreplicáveis, alguma nostalgia, mas pouco mais, porque o fim eminente nunca tinha deixado de figurar nos créditos.

 

E se deixar...? Por que haveria eu de perpetuar o sentimento de perda antecipada? E se eu já tiver acordado para um "para sempre" sem o saber?

Porque, no final do dia, eu sinto que até tenho o que é necessário para ser a última romântica dos nossos tempos. Uma romântica com os olhos bem abertos, mas - ainda assim - uma romântica. E das pirosas.

Modern Romance: como a Internet mudou as nossas relações e vidas amorosas

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Solteiros ou comprometidos, casados, divorciados ou até viúvos, quem é que no século XXI não se perguntou já como será isso do online dating - encontros proporcionados por sites e apps, maioritariamente desenvolvidos desde os anos 90?

 

A verdade é que vejo imensa gente à minha volta a alinhar nestas ferramentas usadas para conhecer pessoas novas, incluindo eu. Há umas semanas, por coincidência depois duma experiência mais ou menos desapontante neste domínio, decidi ir à Fnac (os livros animam logo uma pessoa, não é?). E descobri este livro, Modern Romance, escrito pelo comediante Aziz Ansari em parceria com o sociólogo Eric Klinenberg. Fiquei particularmente curiosa, porque também eu já passei por um par de situações sobre as quais gostaria de ler, dum ponto de vista mais científico e universal. É para isso que os livros servem, não é?

 

Em primeiro lugar, sei que este ainda é um assunto "engraçado" para muita gente. Sair com pessoas que se conhece pela Internet ainda parece ser relativamente novo ou pouco generalizado em Portugal. Mas é um fenómeno tão válido quanto qualquer outro a ser investigado e discutido na área das ciências sociais e humanas.

 

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Sabiam que, à data de publicação do livro, um terço dos casamentos americanos tinha sido possível por o casal se ter conhecido pela Internet? E a tendência é estas estatísticas aumentarem ainda mais com o passar dos anos.

 

Como é referido em Modern Romance, há cinquenta ou sessenta anos os casais conheciam-se de forma diferente e tinham expectativas de vida quase opostas às nossas. O importante era casar com alguém minimamente decente, que vivesse perto, o homem trabalharia e a mulher seria quase sempre dona de casa, criariam uma família e morreriam felizes e contentes dessa forma - se tivessem sorte, senão estariam apenas reservados para uma vida comum medíocre.

 

Hoje em dia, a maioria dos jovens estuda até muito mais tarde, procura uma vida profissional satisfatória e estável, viaja e muda de cidade ou país com relativa facilidade, e, no que toca a casar e a ter filhos, procuramos fazê-lo com a nossa alma gémea, ou pelo menos com alguém que nos faça sentir não só confortáveis e amados, quanto também desafiados e atraídos de maneiras muito variadas. Chegamos a namorar muitos anos com a mesma pessoa, ou a gastar muitos anos de vida em busca dessa tal cara-metade.

 

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(Perdoem-me a falta de qualidade das imagens, nem sempre é possível ver bem os gráficos.)

 

Neste contexto académico e profissional tão intenso, em que os círculos sociais acabam por ser limitados, é compreensível que não tenhamos tanta disponibilidade para conhecer alguém realmente especial, pelo que o uso das tecnologias, não sendo um fim em si mesmo, é uma ferramenta que nos proporciona conhecer mais gente além do alcance das nossas vidas turbulentas, porventura encontrando alguém que nos encha as medidas.

 

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Contudo, paralelamente a esta parte mais teórica, o livro também expõe imensos dos problemas de quem utiliza as ferramentas de online dating. Eu já escrevi sobre algumas das minhas próprias experiências no blogue, mas foi sempre em tom de gozo, o que nem sempre espelha a minha atitude real perante o tema. Eu até levo o Tinder, a app que eu uso, mais ou menos a sério, mas, separadas as devidas excepções, poucas das pessoas com quem tenho chegado à fala encaram as interacções como seria esperado, quando comparamos a realidade do online dating em Portugal com a dos EUA, em destaque em Modern Romance. O livro menciona, por exemplo, o facto de haver pessoas que se envolvem pouco ou que deixam de responder de repente, após conversas extensas e aparentemente muito interessantes. Pensamos "olha que individuo tão agradável" e depois ele desaparece do mapa, após uma ou duas desculpas pouco convincentes. Ou mesmo silêncio.

 

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Por isso, já é a segunda vez que me inscrevo e já é a segunda vez que elimino a app, porque acaba por ser uma experiência que nem sempre traz à superfície o melhor de nós, e é preciso respirar fundo. Em suma, ler este livro trouxe-me algum consolo, por perceber que "pode acontecer a qualquer um de nós e são riscos que temos de correr".

 

Por outro lado, também sei de histórias fantásticas de quem se conheceu online e o livro conta outras tantas, que se apanharam nos grupos de indivíduos estudados pelos autores ou no trabalho doutros investigadores. Nem tudo é mau, nem tudo é bom, num catálogo tão vasto de possibilidades. O mesmo aconteceria, numa escala diferente, ao conhecer alguém pessoalmente desde o início. 

 

No entanto, os autores deixam claro: a chave para as coisas correrem bem é não nos esquecermos que, apesar de as pessoas com quem falamos por mensagens serem quase irreais até ao momento em que as vemos, todos continuamos a ser humanos do outro lado do ecrã. Temos sentimentos, preocupações, traumas, receios, experiências de vida únicas. Assim, devemos tentar ser tão decentes quanto possível, tal como seríamos se essas pessoas estivessem à nossa frente. E não nos devemos esquecer: as ferramentas online levam-nos a contactá-las, mas não substituem a parte do dating em si, conhecê-las ao vivo e a cores.

Aqui seguem alguns excertos que achei muito sucintos:

 

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Dito isto, adorei o livro Modern Romance. Apresenta um bom equilíbrio entre livro de ciência popular (quem gosta de antropologia, sociologia e psicologia como eu vai gostar desta leitura) e entretenimento. Tem apontamentos fora do comum, nomeadamente acerca da vida sexual dos japoneses, e os autores dão alguns testemunhos pessoais e dicas de como comunicar de forma mais eficiente. São estudados ainda outros temas, como a infidelidade e o fim das relações na era das mensagens instantâneas, as diferenças culturais no namoro à volta do mundo, o sexting e as redes sociais. Por vezes, há piadas desnecessárias, mas faz parte.

 

Excelente tentativa de desmistificar um assunto do qual tanta gente ri, mas que ainda nem toda a gente compreende!

Porque eu também tenho 'guilty pleasures'

Por vezes, dou por mim, inconscientemente, a ver comédias românticas no canal Hollywood, daquelas tão, mas tão lamechas que até se me dá a volta ao estômago, enquanto ingiro porcarias calóricas, como bolachas de manteiga e chocolate ou quantidades industriais de gelado. Quem me visse nestes preparos sem me conhecer provavelmente diria que eu sou uma jovem já frustrada com a vida, desorientada e desencontrada de amores, possuidora de um apetite devorador de frigoríficos, uma autêntica Bridget Jones antes de se resolver com o seu Mark Darcy - tudo aquilo que eu não sou, mas por que passo muito bem quando contagiada por bandas sonoras foleiras, lideradas por violinos demasiado afinados, que introduzem trocas de saliva e beijos à francesa pouco aconselháveis a menores de 25 anos.

Na companhia de Anna Karenina

Por vezes, é preciso termos presente a ideia de que existe uma adaptação cinematográfica de um romance antes de nos aventurarmos a ler as suas cerca de mil páginas. Funciona como um incentivo, pelo menos para mim, que adoro comparar a história original ao filme que lhe corresponde, produzido mais de um século depois de ter sido escrita. Adoro os clássicos criados entre o fim do século XIX e o início do século XX e sinto-me um pouco fascinada pela literatura dessa época. A minha autora preferida da altura é, até agora, a Jane Austen, capaz de tornar uma descrição exaustiva num deleite para o coração e de construir personagens como poucos conseguem. Há uns dias, quando soube que "Anna Karenina", de Liev Tolstói, já foi adaptado e está quase a estrear nos cinemas, peguei, finalmente, no exemplar do romance que existe na biblioteca da minha escola e comecei a lê-lo. Surpreendi-me bastante: a escrita é relativamente simples, o vocabulário não é muito exigente e há grande destaque para a descrição das emoções e das relações entre as personagens. Poderia tratar-se de algo escrito em pleno século XXI, apenas retratando tempos passados! Entretanto, vou continuar a ler o livro, para depois ver o filme e cumprir a minha mania das comparações.

best. romantic comedy. EVEEEEEEEEEEEER.



Muito corny, muito cliché, muito previsível, tudo no sítio, tal e qual uma comédia romântica se quer, principalmente se nos identificarmos com alguma das personagens, senão com todo o enredo. Ou, se forem como eu, sempre podem sonhar que uma situação semelhante venha dar cor às vossas vidas, num futuro a médio ou longo prazo, hipoteticamente falando.

o meu romance de cinco minutos

   Hoje à tarde, vivi uma louca paixão, carregada de sentimento e desejo, na fila do supermercado...! Ele era alto, elegante, com porte, com estilo e olhar enigmático. Vestia um casaco de cabedal escuro, uma camisa branca a vermelha e calças de ganga, vestidas como um autêntico gentleman da nossa geração - nem muito acima, nem muito abaixo, mas sim no ponto certo, sem qualquer indício de roupa interior visualmente indesejada. Fazia-se acompanhar pela mamã, ou, pelo menos, por uma figura algo maternal. No final, até a ajudou a carregar os sacos das compras.


    Enquanto esperavam na fila e, a seguir, pagavam as compras, manteve-se sempre silencioso, espreitando-me de vez em quando, sem um sorriso sequer. Mas eu via-o espreitar-me repetitivamente... Devolvi-lhe o mistério, cruzando os braços, em vários olhares curtos e profundos e, por fim... um mais prolongado. Foi bonito. E fugiu.


    Eu ainda fiquei para trás. Ele seguiu em frente. Foi um encontro relâmpago de primeira categoria. Devo admitir que não me importaria nada de partilhar momentos de maior duração com tal bela e formosa criatura.