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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

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A culpa é dos médicos de família

Os médicos de família devem estar a coçar o rabo, os enfermeiros e o pessoal administrativo também. Não atendem os telefones no centro de saúde. Quando os utentes pedem satisfações, dizem-lhes que os telefones estão avariados. Não se percebe. Depois, desculpam-se com o COVID. Então, e antes do COVID? Essa é boa, têm sempre desculpa... Isto sempre foi uma bandalheira, e ainda há quem defenda o SNS. É para isto que pagamos impostos? Se é para ser assim atendida, vou mas é marcar no privado.

 

Em Fernão Ferro (no concelho do Seixal), a freguesia onde vive a minha família e onde eu também vivi desde 2005 até ao fim de 2020, este é um discurso comum, não só de agora, como de sempre - desde que me lembro de ser pessoa, pelo menos. Aliás, quando nos mudámos para a zona, não conseguimos médico de família no centro de saúde local e acabámos por continuar a ser acompanhados no centro de saúde da área de residência anterior, por acaso não muito longe. (Uma sorte. Um privilégio.)

 

Compreende-se: Fernão Ferro é uma zona suburbana em expansão, como tantas outras na margem Sul do Tejo, e o investimento em serviços públicos - como o centro de saúde e a escola secundária há tanto, tanto tempo prometida - é nulo.

 

No entanto, sempre me pareceu óbvio que este tipo de problemas e deficiências no serviço à população não tem origem nessas próprias entidades. Não é pelos professores que se deve culpar a ausência de uma escola, tal como não se deve culpar os médicos pela ausência de um bom centro de saúde.

 

Infelizmente, isto parece não ser tão óbvio para todas as pessoas.

 

Ainda há algumas semanas saiu uma notícia alarmante: 1/3 das vagas para especialistas em Medicina Geral e Familiar (vulgo médicos de família) ficou por preencher no concurso deste ano.

 

Um médico recém-especialista leva para casa cerca de 1800€ líquidos. Além disso, é muito provável que tenha de fazer horas extraordinárias, que nem sempre são contabilizadas ou remuneradas. Com o aumento do custo de vida, particularmente nas grandes cidades portuguesas, um salário destes, proveniente de uma tabela desactualizada, não é desejável numa região onde a renda chega a mais de metade do seu salário, para alguém que passou cerca de metade da sua vida a estudar e a especializar-se. Claro que, vistas as condições, é preferível tentar a sorte no privado, emigrar ou escolher viver numa zona onde o custo de vida não seja tão elevado, os serviços não estejam tão saturados e a qualidade de vida exista de facto.

 

Não admira que seja tão difícil preencher as vagas de MGF em zonas como Lisboa e Vale do Tejo.

 

Sem a atualização das tabelas salariais da função pública, nomeadamente dos profissionais do Serviço Nacional de Saúde, e sem existir contratação de acordo com as necessidades, não é surpreendente que encontremos diariamente problemas nos hospitais ou nos centros de saúde. Aliás, formar mais médicos é redundante e mesmo desprestigiante neste país que não abre vagas suficientes para os internatos de especialidade e que, por isso, acaba por estar a formar cada vez mais médicos indiferenciados (tarefeiros, precários).

 

No ano passado, candidataram-se 2279 médicos aos internatos de especialidade, face a um número bastante inferior de vagas: 1885. Isto é, nada mais e nada menos, do que um desperdício de investimento na formação altamente especializada e esforçada de jovens qualificados, além do desperdício óbvio das suas próprias vidas e recursos ao longo do seu longo percurso académico e ainda curto percurso profissional.

 

No que diz respeito aos médicos, internos e todos os profissionais que trabalham em centros de saúde, durante a pandemia têm sido eles a dar a cara num contexto de proximidade imediata com a população, utentes e pacientes. Por outro lado, foram eles que se tiveram de desdobrar para poderem gerir o funcionamento normal no centro de saúde, de prestação de cuidados de saúde primários, assim como o Trace COVID e, nos últimos nove meses, a vacinação.

 

Dito isto, lá no fundo o que me questiono e que também vos posso desafiar a responder é:

Será que algum dia deixarão de pôr constantemente a culpa em cima dos ombros dos profissionais do SNS? Será que deixarão de os ver como os maus da fita, bodes expiatórios convenientes, como se dependesse deles melhorar as condições materiais dos centros de saúde, multiplicar os trabalhadores em funções e dar resposta às mil solicitações diárias?

 

Oxalá consigamos - que alguém consiga! - salvar e defender o SNS de uma governação que privilegia o desinteresse e desinvestimento de um bem tão essencial, tão público, quanto a saúde gratuita e disponível para todos. Porque também é com essa segurança que se vive em democracia.

16/30 (detesto chuva)

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Eu detesto chuva e sinto o desconforto que a humidade me traz fisicamente. Há uns anos, sempre que a humidade aumentava, mesmo que ainda não estivesse a chover, eu ficava com umas dores de cabeça que apareciam de surpresa, até eu ter percebido o que se passava e passar a estar psicologicamente preparada para a depressão externa e interna.

 

Por isso, estou a detestar estas semanas, ainda por cima semanas em que não me faltam actividades nas quais deveria estar a ocupar a cabeça. Já não sofro com as tais dores de cabeça, mas fico desprovida da quantidade mínima de energia para conseguir pensar. Aliás, estou a escrever este texto em cima da hora, isto é, pouco antes da meia noite. Não sei se já notaram, mas já falhei um dos dias do desafio, então acho que pode compensar escrever qualquer coisa hoje, só para não perder o ritmo (um dos princípios que James Clear defende no seu livro Hábitos Atómicos é não deixar de praticar o "show up").

 

Tem estado a chover, e a chuva deixa-me ainda mais exausta, ansiosa e deprimida. Não admira que, quando eu morava em Banguecoque, estivesse muitas vezes a sentir-me eu mesma na sarjeta, apesar de me ter habituado um pouco. Será comum, esta sensação de impotência ou cansaço associados aos fenómenos meteorológicos?

 

Curiosamente, a minha cidade favorita é capaz de ser Edimburgo, onde chove bastante e faz frio, mas quando chove e faz frio enquanto estou em Edimburgo, eu gosto. Acho encantador. Inspirador. Acolhedor. Mal posso esperar por lá poder voltar, assim que seja seguro viajar só porque sim. Quero conhecer mais sítios na Escócia, mesmo que esteja a cair um dilúvio.

 

Por agora, no Alentejo, quero o sol quente de volta. Preciso de escrever e de trabalhar nos próximos dias e não me posso dar ao luxo de aturar a escuridão e estas cores horríveis no horizonte.

 

Na foto: eu a apanhar chuva na Escócia, em Maio de 2018, e a achar muito bonito e pitoresco.

14/30 (ainda a saúde mental)

Este texto é uma continuação do anterior, porque há tanto para dizer sobre a desvalorização da saúde mental! Em primeiro lugar, não preciso de relembrar números, mas deixo-vos alguns aqui de qualquer forma. E aqui também.

 

Acima de tudo, apareço hoje para vos relembrar que a saúde mental não é uma certeza para todos e, por arrasto, da importância de cuidarmos de nós e de acreditarmos que o que sentimos é legítimo, mesmo quando a sociedade e mesmo quando as pessoas que nos são mais próximas descredibilizam ou menosprezam o que é uma simples "ansiedade" ou "angústia". Neste texto, também quero expressar um agradecimento a todas as pessoas que têm sido generosas com o que escrevo, em particular com o número 13. Muito obrigada.

 

O acesso aos cuidados de saúde mental é nulo no SNS (do qual sou apoiante indiscutível, o que não me impede de lhe apontar falhas). O mais próximo que tive de apoio psicológico pelo SNS foi algumas consultas na clínica da Universidade de Lisboa, com preço mais baixo por ser alumna da FLUL, depois de me terem submetido a um teste de diagnóstico para ver se podia entrar para a lista de espera prioritária, na qual não entrei - até ter enviado um e-mail a suplicar à psicóloga que me desse consultas, à conta de um evento específico que me deixou de rastos nessa altura. (E não, a profissional que me seguiu não me ajudou em quase nada. E eu não podia escolher quem me seguia.)

 

Por isso, todas as semanas pago 60€ para ter consultas de psicoterapia com uma psicóloga maravilhosa, com clínica privada, desde Junho do ano passado. É este o preço de alguma clareza, entendimento, auto-conhecimento, auto-cuidado, equilíbrio. Vale cada cêntimo, mas sou uma privilegiada, porque ainda posso escolher pagar. Não tenho mais nenhum luxo, corto noutras despesas para pagar a psicoterapia, vou tendo ajuda da família, mas não há dúvida de que eu pago por algo que deveria ser de acesso universal e gratuito, ou pelo menos subsidiado.

 

Este é um dos primeiros indícios de que a saúde mental é extremamente desvalorizada em Portugal. Quando temos uma gripe, podemos ir ao centro de saúde ou ao hospital e queixar-nos. Somos tratados, dão-nos medicação e conselhos sobre como ficar melhor. Se trabalharmos, dão-nos baixa para apresentar ao empregador. Quando temos uma crise de ansiedade, ou pânico, ou tudo junto... há médicos que não só não têm formação para lidar com a situação, como nem sequer têm bom senso, nem tacto. Nem o SNS tem meios para nos ajudar. É preciso mostrarmos que estamos profundamente deprimidos, basicamente que somos um perigo para nós mesmos ou para os outros, para que façam algo. Senão, dir-nos-ão que somos jovens/saudáveis/sortudos/mal-agradecidos.

 

Eu tenho muita sorte, muita, muita... imensa. Tenho uma pós-graduação num ramo da Psicologia, sei onde encontrar informação, tenho meios e recursos materiais e imateriais para me ir acalmando e ter sempre a certeza de que saúde mental é saúde. Tenho acesso a profissionais que me ajudam. O João é médico e, além disso, fui muito bem tratada no centro de saúde da nossa zona de residência - antes e depois. Não fui totalmente descredibilizada, tenho quem olhe por mim. Mas e as pessoas que não têm esta rede de apoio? E o privilégio que eu tenho por poder, com mais ou menos sacrifício, """esbanjar""" em cuidados de saúde mental?

 

Apesar de tudo isto, sou optimista. O médico sobre quem escrevi ontem é doutra geração. Estamos em tempo de pandemia e ele disse-me que estava a fazer turnos de 24 horas por esses dias. Talvez, noutro contexto, com médicos mais novos, o tratamento - ou o trato - seja outro. Por exemplo, eu sei que o João jamais desvalorizaria um paciente que lhe chegasse à consulta como eu cheguei. Eu sei que ele vai ser - e já é - um excelente médico de família, verdadeiramente atento a todas as queixas, desde a dor no mindinho até à crise de pânico espontânea. O paradigma vai ter de mudar, neste que já é descrito como um "século da saúde mental".

 

Seja como for, aproveito para abrir, como sempre, a minha caixa de comentários, e mesmo o meu e-mail e redes sociais a quem precise ou apenas queira partilhar experiências ou ideias. Estamos todos a passar por tempos muito estranhos, não vai ficar tudo bem, mas resta-nos cuidar de quem pudermos - a começar por nós e pelos que nos rodeiam.

 

Por fim, mais um lembrete: o facto de sentirmos a nossa saúde mental fragilizada não significa que estejamos maluquinhos. Ter ansiedade não é um traço de personalidade. Mas não estarmos sempre a 100% e queixarmo-nos de dias maus não é birra. Não é normal aceitar sintomas de mal-estar psicológico como uma coisa menos séria. E não é vergonha pedir ajuda!

 

Mais outra nota: há linhas telefónicas e entidades que prestam apoio psicológico cujos contactos devem procurar. Principalmente durante a pandemia, câmaras, juntas de freguesia e universidades têm disponibilizado ajuda. Alguns desses contactos estão aqui. Se tiverem conhecimento de mais, partilhem nos comentários.

13/30 (nas urgências de um hospital)

No mês passado, fui atendida nas urgências do hospital de Évora. Há dois ou três dias que estava com dificuldade a respirar, tinha um peso no peito como se fosse uma alergia a causar-me expectoração que não saía, tinha perdido a voz e sentia-me em esforço só por andar cem metros. A Primavera estava a começar e eu pensei mesmo que poderia ser essa a causa do desconforto.

 

Quando os anti-histamínicos não funcionaram e não me conseguiram encontrar a causa para o meu quadro no centro de saúde, tive de ir às urgências. Depois de esperar três horas, fui atendida numa sala improvisada e apinhada, a que chamavam o balcão das mulheres. Só uma parede e um par de cortinas separava o balcão das mulheres do balcão dos homens. A equipa de médicos, enfermeiros e auxiliares dividia-se entre os dois.

 

O espaço parecia demasiado pequeno para tanta gente, e eu imaginava a constituição do ar que todos respirávamos como uma massa invisível, mas saturada de partículas disto e daquilo. E o vírus, oh, o vírus. Evitei pensar no assunto. Outras pacientes acamadas urinavam em arrastadeiras, outras vomitavam a sopa que acabavam de comer à hora de jantar. 

 

Senti-me desamparada, sozinha, no meio de tanta gente, no meio de um hospital enorme, mesmo sabendo que no parque de estacionamento estava o João; e, à distância, os meus amigos e família.

 

O médico obrigou-me a falar, apesar de eu estar afónica, apesar de eu ter um relatório dos médicos do centro de saúde dentro de um envelope que ele só usou para rabiscar as suas próprias notas. "Uma coisa é o que o colega escreve, outra coisa é o que o paciente tem para dizer, e eu gosto de ouvir os meus pacientes, tenho todo o tempo do mundo. O paciente é como um cliente, e eu tenho de ouvir o meu cliente", defendeu-se esse médico (e eu, sem voz, fôlego ou energia anímica para lhe explicar que o relatório não tinha sido elaborado por um, mas sim por dois médicos, um dos quais a pessoa com quem vivo, e que o que ele estava a fazer demonstrava um enorme desrespeito para com os colegas; e que, já agora, eu sei como se trata um cliente, porque tenho um negócio e, por isso, sei como funciona um, muito obrigada, dispenso sermões).

 

No final, após eu ter finalmente explicado o que se passava comigo (de forma obviamente incompleta e imprecisa, a chorar, dos nervos e da impotência); depois de exames, raio X, análises, veias e artérias picadas até à nódoa; horas sentada à espera em cima duma maca dura partilhada com outra pessoa, com as costas contra a parede; a ouvir as dores, queixas, gemidos de mais cinquenta mulheres naquele espaço tão pequeno... No final, recebi um diagnóstico de ansiedade.

 

"Vocês, os jovens, têm de ser fortes. Têm a vida toda pela frente." Esse médico esteve uns bons cinco minutos a dizer-me o quanto eu tinha de ultrapassar essa ansiedade, porque era jovem. Não fez mais perguntas. Não pôs sequer em causa que aquele não seria o território dele, não lhe caberia a ele fazer julgamentos. Em vez de me consolar, fez-me sentir culpada pela minha própria ansiedade - ansiedade que eu ainda nem sabia que, nessa altura, poderia ter atingido um nível tão alarmante. Eu só a sentiria, psicologicamente falando, alguns dias depois. Com aquele discurso imprevisto e indesejado, este médico fez-me sentir que estava a mais na urgência, como se saúde mental não fosse saúde, como se eu não tivesse razões para ali estar. 

 

Depois dessa sexta-feira à noite tenebrosa, a minha ansiedade acabou por se manifestar. Tive um ataque de pânico tão grande, que estive umas quantas horas no que me pareceu um estado delirante. Tive de parar de trabalhar durante uns dias. Depois desse episódio, também tive de criar outros hábitos na minha vida profissional e pessoal em geral, procurar outra ajuda e tentar fazer as pazes com o evento. Ainda assim, quero acreditar que quem me atendeu nas urgências de Évora faz parte de um grupo que é a excepção e não a regra no que toca ao tratamento de doentes com sintomatologia que não sejam tão visíveis quanto um ataque cardíaco, um AVC ou um braço partido. Cuidar da saúde mental não é uma mimalhice.

 

Nem todas as feridas deitam sangue ou deformam o corpo.

Depois de ler a carta da Elodie Almeida

A aflição de perder alguém próximo repentinamente deve ser angustiante. A aflição de perder alguém próximo de maneira totalmente evitável e estúpida deve ser ainda pior. Imagine-se, então, acrescentar-se esta lista ao factor juventude.
Ao contrário do que a comunicação social faz parecer, não concordo que um homem de 29 anos seja ainda considerado jovem. Seja como for, esta foi uma morte jovem, prematura.
Não imagino a agonia em que devem estar a família e a namorada deste homem. Ao ler as palavras da namorada, Elodie Almeida, publicadas no Expresso, até eu experimentei um pouco da angústia que elas veiculavam. Não posso falar pelos pais, nem pelos avós ou tios, porque não sou mãe, muito menos avó ou tia. Mas sou namorada, e é pelas namoradas deste mundo que eu mais sinto.
Quando li o texto da namorada do David Duarte no Expresso, tinha acabado de chegar de um serão com o Ricardo. Todos os dias penso na minha sorte em tê-lo como namorado e como o melhor amigo que alguém alguma vez poderá ter, em todas as dimensões do dia-a-dia. E só de imaginar o que seria dar com ele paralisado, ter de o levar para o hospital, e depois para outro, não encontrando lá resposta nenhuma senão sentimentos de impotência e sabê-lo morto dois dias depois... Só de imaginar que "pode acontecer a qualquer um", fico novamente chocada com a fragilidade e efemeridade da vida humana.
A perda não é completamente expressável. Pensar "e se tivesse comigo" rouba-me muitas palavras.
Só sei que uma morte estúpida (no seu contexto, na medida em que poderia nem ter passado pela cabeça de alguém se as devidas precauções tivessem sido levadas a cabo) não deixa de ser uma morte que choca. Todas as mortes chocam, mas morrer aos 29 anos por negligência médica é diferente de morrer aos 90 de causas naturais.
O que será desta namorada, a pessoa com quem mais me consigo identificar? Ela é que o acompanhou desde que surgiriam os primeiros sintomas de que algo estava mal. Foi também a ela que não se dignaram ligar quando foi declarada a morte cerebral do David. Que trauma!
Teriam eles planos de vida para o futuro, seriam eles felizes? E se os tivessem, e se o fossem, o que vai ser desta mulher de 25 anos? Como é que alguém vive em paz, sabendo que provavelmente lhe terão morto o amor da sua vida antes de terem tido, sequer, a oportunidade de serem felizes durante muitos anos, talvez para sempre? Aliás, até poderia acontecer o amor não perdurar e daqui a umas semanas terminarem a relação por unha do pé e meia. O problema é que a morte tem destas particularidades: elimina a possibilidade de todas as hipóteses futuras, as boas e as más, só deixa perguntas sem resposta.
Se me tivesse acontecido isto a mim... Ao Ricardo... Sei que nunca conseguiria superar a 100% o facto de o meu namorado ter morrido de forma tão violenta e desnecessária. Também sei que a vida continuaria e que a minha teria de ser emocionalmente refeita, ou remendada, mas tal só aconteceria porque eu e ele já falámos sobre estes temas (mórbido ou precavido, a verdade é que devemos estar sempre resolvidos com tudo e todas as pessoas, para que não fiquem pontas soltas na eventualidade). É provável que este casal, o Duarte e a Elodie, nunca tenha tido uma conversa do género e que ela agora fique com um fardo emocional nas mãos porque nem toda a gente que se põe a falar em "se, por algum motivo, te acontecer qualquer coisa" e a encarar realisticamente que a única condição para morrer é estar vivo, mesmo que sejamos os indivíduos mais saudáveis do mundo.
Se eu perdesse o Ricardo neste momento por causas semelhantes, a minha vida nunca mais seria a mesma. Imagino-me mais amarga, menos sorridente, mais nostálgica. Imagino os meses, ou anos, em que ainda ficaria a sonhar com o que teria sido um futuro com ele. Casaríamos? Não casaríamos? Teríamos filhos? Quantos? Com quem se pareceriam mais? E viveríamos num apartamento, ou teríamos conforto financeiro suficiente para vivermos numa moradia e fazer férias no estrangeiro todos os anos? E o Ricardo voltaria à universidade? Ou continuaria a ser um auto-didacta em diversas áreas do saber? Seríamos felizes juntos até ao resto dos nossos dias ou sofreríamos uma crise de meia-idade e pediríamos um divórcio sem concordarmos com as condições um do outro?
É melhor ficar por aqui. Eu sei que ter pena nem sempre é visto como o sentimento mais nobre, mas eu tenho muita pena da família e da namorada do David Duarte, da provação por que tiveram e terão de passar, até que no luto seja encontrado algum consolo.
É preciso morrer alguém e que a essa morte seja dado destaque na comunicação social para que sejam postas mãos à obra. É o país que temos, por enquanto.

 

(Nem a propósito, na semana passada, alguém muito próxima de mim chamou o 112 porque o pai tinha tido um ataque cardíaco, e quem a atendeu nem sequer o nome da rua sabia escrever, tendo perdido imenso tempo a fazer mil e uma perguntas sobre como soletrar, sobre o distrito, sobre referências... E ponho-me a lembrar que quando trabalhei no call center bastava pôr o código postal no Google Maps para saber onde é que a pessoa se encontrava. Verifica-se que o sistema adoptado por uma empresa para encontrar as lojas mais próximas da MiniSom é mais eficiente do que um sistema de cuidados de saúde em emergência do Estado para encontrar uma ambulância.)

O que é que uma miúda magra faz no ginásio? E por que se preocupa ela com o que come?

O ginásio não é só para os gordos e para os que querem ser bisontes musculados. Felizmente, encontramo-nos numa época muito open minded, mais do que nunca virada para o bem-estar e para a acção em prol de uma melhor saúde.
Por isso é que comecei a frequentar o ginásio pelo menos três vezes por semana, mesmo que só treine meia hora. Vou ao ginásio sem outro objectivo prioritário que não combater o sedentarismo. O que eu quero mesmo é superar as minhas limitadas aptidões físicas que me assombram desde sempre. Já fui gordinha, depois da puberdade fiquei um palito, mas nunca deixei de ser pouco flexível, pouco resistente ao esforço físico, pouco flexível e lenta a correr (detesto correr, como bem sabem!). E descoordenada (já aceitei que os cinco anos de dança contemporânea e os dois de hip-hop não me valeram grande coisa). Não vou ao ginásio para emagrecer, nem para perder peso.
Obviamente, ao longo dos últimos três meses de treino tri-semanal tenho notado algumas diferenças. Sou capaz de correr o dobro do tempo com 30% mais velocidade do que em Setembro. Levanto mais 20kg com as pernas e mais 7,5kg com os braços. Já faço flexões aceitáveis. Perdi quase dois quilos, deixei de ter tanta gordura acumulada em zonas estranhas para alguém de 20 anos (costas e braços, mais um duplo queixo em desenvolvimento) e, por consequência, sinto os músculos mais definidos. Durante as primeiras semanas andei cheia de borbulhas na testa e no pescoço, tal era a porcaria acumulada debaixo da pele, mas há dois meses que praticamente não tenho acne.
Tudo isto veio por arrasto, mas provavelmente não resulta somente do exercício físico, porque entretanto também deixei de comer tanto pão branco, doces e bolos e passei a olhar para os valores nutricionais dos alimentos que ingiro (proeza influenciada por uma amiga minha; agora sou uma agarradinha dos rótulos). Deixei ainda de beber tanto leite de vaca, substituindo-o por leite de soja, que não precisa de açúcar, e diminuí a dose de cereais com açúcar (junto arroz tufado com cacau ao arroz de trigo integral). Antes bebia iogurtes líquidos da Activia e da Corpos Danone (poços de açúcares adicionados que nos iludem), mas agora como quase sempre iogurtes naturais e junto-os a meia colher de chá de mel e aos cereais de que já falei, ou aveia. Tento sempre que possível substituir a batata, o arroz ou a massa por salada (adooooro salada, de tudo) ou equilibrar as porções. Ah!, e introduzi a gelatina 0% e mais doses de fruta nos meus lanchinhos.
Depois de começar a evitar o açúcar, a gordura e os hidratos de carbono, tenho-me sentido mais leve e com mais energia. Mesmo que o chocolate e o pão permaneçam os meus grandes amores e nem sempre seja possível evitar os doces e os fritos (afinal, a comida é feita para quatro cá em casa, não só para mim), a pouco e pouco sei que mal já não me fazem, desde que sejam acompanhados ou compensados com outro tipo de refeições.
Em suma, eu sou uma falsa magra de 53,8kg e 1,69m. Sou mais leve e mais magra porque não tenho muita massa muscular, a mais pesada e visível em comparação à massa gorda. Se eu ganhar peso, não há problema, desde que seja pela constituição de músculo.

Já agora, quem acha que as aulas de Step e Zumba são para meninos, devia experimentar umas quantas sem perder o ar e a compostura.

Coisas que me poderiam ter acontecido nos últimos dias, que me tivessem impedido de vir cá escrever

- Ter sido raptada por alíens;

- Ter sido raptada por uma nova raça pseudo-humana com regras anti-procrastinação;

- Ter-me casado nas ilhas Fiji e ter estado, até ao momento, de lua-de-mel em Amesterdão (totalmente legítima e provável!);

- Ter ficado sem computador;

- Ter descoberto que a Internet é um cancro e que eu sofro da doença, pelo que me tenho de curar urgentemente (em parte, foi o que aconteceu realmente, but still);

- Ter feito um implante mamário e estar em repouso em nome das minhas novas copas D;

- Estar a participar num novo reality show género Casa dos Segredos (mas só para universitários!);

- Ter sido descoberta pelo mesmo agente que a Violetta e estar a preparar a minha tour de Natal, "Beatriz On Ice";

- Ter andado a dar os últimos retoques no meu novo romance, Os Procrastinadores Também Choram.

 

O que realmente tem acontecido;

- Procrastinação (portanto, nada de novo);

- Testes, livros e trabalhos da faculdade;

- Curso de fim-de-semana para aprender a criar os meus próprios intercâmbios (SVE, Erasmus +, training courses) e propô-los à União Europeia;

- Ter sido apalpada por dois médicos espanhóis, a minha médica de família e uma máquina de ecografia, para chegar à conclusão de que não, não estou gravemente doente, só tenho um "empastamento" nas glândulas da mama esquerda (sim, estes foram os termos médicos utilizados até agora; amanhã há nova consulta).

 

Aguardem novidades, fofos.

Meanwhile, in bracesland...

Amanhã vou instalar o aparelho no maxilar de baixo da minha boquinha. Já me disseram que vai ser beeeeeem mais doloroso do que foi com o de cima. Eu cá só acredito ao sentir. Quando, há mais de um ano, comecei a aventura do aparelho, não sofri assim tanto. Doeu-me comó caraças nalguns dias, mas c'est la vie. Diz-se que a beleza custa, não é? Eu cá vou-me treinando para quando puser uns implantes mamários de copa H, que vão, obviamente, ajudar imenso a minha escoliose recém-re-descoberta.

 

Ah, ainda não tinha contado? Pois, a modos que o meu fémur esquerdo tem menos 1cm do que o direito, o que me criou uma compensação enorme de músculo no ombro esquerdo e não no direito, causando-me um problemão do camandro na postura corporal. Já quase não posso treinar no ginásio, graças a esta minha peculiaridade, enquanto não arranjar uma palmilha ortopédica para me equilibrar o corpo. Sim, eu sou uma caixinha de anormalidades, obrigada por repararem.

resiste!

   Eram onze horas da manhã quando me ocorreu "porque não vou correr?". O sol estava fraquinho, o vento fresco e eu cheia de energia. Vesti-me a preceito, com a t-shirt vermelha que tem estampado o logótipo do ginásio onde pratiquei hip-hop até ao ano passado (só para que quem me visse passar pensasse que eu era grande coisa, temos desportista e tal), calcinha de fato treino preta a condizer, soquete branca e os ténis mais decentes que encontrei. Também não me esqueci do mp3.


   Uma vez do outro lado do portão, aqueci durante dois curtos minutos - tornozelos, pernas, joelhos, cintura, pescoço, não se fosse dar o caso - e pus-me logo a correr, com o cronómetro a contar o meu esforço ao milésimo de segundo. Não se passaram quarenta e cinco segundos até que eu me visse obrigada a parar, culpa dos ténis. Não tenho nenhuns próprios para atletismo e aqueles balançavam-me nos pés como se pesassem cem quilos. Lá os apertei e, reiniciando a contagem do cronómetro, retomei a corrida.


   É engraçado como um caminho nos parece tão simples quando estamos apenas a andar, sem pressas. A correr, as ruas do meu bairro ganhavam novas inclinações, obstáculos, um solo com muito mais pedrisco espalhado aqui e acolá, todos eles obstáculos à minha fraca resistência. Desafios. Eu não desistiria, levando apenas dois, três minutos de prova, uma prova contra mim própria, a favor da mesma pessoa. Tenho de me superar, tenho de me superar, ia repetindo, mentalmente, descendo ruas, subindo terra calcária batida ou pisando violentamente a areia fofa. Numa dessas ruas forradas a pedrisco, dei de caras com um grupo de rapazes da minha idade, talvez. Ainda pensei voltar para trás, mas era tarde demais, pois eles já me tinham visto. Continuei, olhando em frente, fazendo quase de conta que não reparara neles. Os Muse iam-me despertando e dando alento, tocando-me melodias mais suaves e outras mais fortes aos ouvidos (ultimamente, tenho-me virado muito para este tipo de rock alternativo, revoltando-me contra as baladas e os amorosos pops).


   Só faltavam duas ruas até regressar à minha. Jurei que não havia de sobreviver a mais cinquenta metros, mas consegui, consegui não parar até pisar a rampa de acesso à minha casa. Alívio, alívio, alívio, ufa! Sentia-me desfalecer um pouco a cada inspiração, até que me sentei.


   Canso-me depressa. O cronómetro marcava apenas 07:22:(qualquer coisa), ou seja, menos de sete minutos e meio a correr e já me saltava o coração pela boca, daí a minha actual preocupação. Sou jovem, magra (muito), as minhas aptidões físicas sempre foram fraquíssimas e a tendência é para que piorem, caso eu não me ponha mas é a mexer rapidamente. Não sou das piores alunas a desporto, mas também não sou, de longe, a melhor. Sou ridiculamente mediana. Vale-me o esforço que vou investindo e esta vontade de me superar deve permanecer presente. Vou obrigar-me a correr cada vez mais, durante mais tempo, ainda maiores distâncias. Quero que as subidas deixem de ser uma preocupação quando estou a correr e que venha a conseguir controlar a minha respiração, para não parecer que estou a ter um ataque cardíaco a partir do quarto minuto de corrida.


   Apresento-vos o meu nome projecto, o meu novo objectivo, que é não me tornar daquelas pessoas sedentárias, mal humoradas e que só chegam aos cinquenta com a ajuda de máquinas. Eu sou melhor do que isso, porque quero continuar a ouvir o médico, ano após ano, informar-me do quão saudável sou. Eu consigo.