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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Nem a falar nos entendemos: Conversations with Friends (Sally Rooney)

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Declaro-me rendida: depois de Normal People, não descansei enquanto não pus as mãos em Conversations With Friends, o primeiro romance publicado da autora irlandesa Sally Rooney.

 

Conversations with Friends não desiludiu, juntando-se à minha lista de favoritos de 2019. De certa forma, é um romance ainda mais completo do que o segundo. Há mais personagens em destaque, e todas elas com uma vida emocional complexa e bem construída, não descrita, mas sim percebida através de diálogos intensos e até da falta de palavras ocasional (show, don't tell, não é esta a regra que os bons escritores devem seguir...?).

 

O que é ser uma mulher jovem, millennial, na actualidade? Quais os limites da amizade e do amor? O que é uma relação? O que é uma conversa? O que é o amor e como o mostramos? O que liga pais e filhos? Que poder temos uns sobre os outros, entre pares, marido e mulher, amigos, entre admiradores e admirados, mais velhos e mais novos? Pertencemos a lugares ou a pessoas? Onde termina a juventude e começa a idade adulta? E qual o efeito do dinheiro em todos os assuntos mencionados? Estas são algumas das questões que gravitam sobre a intriga a quatro: Frances, Bobbi, Nick e Melissa.

 

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Ainda tendo em mente os desentendimentos entre amigos e amantes, tal como em Normal People, neste primeiro romance Sally Rooney joga com as personagens para revelar a imperfeição que nos rodeia, mas perante a qual tantas vezes somos cegos. Os casais-de-capa-de-revista não são sempre felizes, os melhores amigos também escondem segredos uns dos outros e, em geral, não existe um modelo one size fits all para qualquer tipo de relação. O corpo feminino continua a ser uma peça central nas relações hetero e homossexuais, à semelhança da sua ligação com a mente, com o sexo e com a linguagem do que fica por dizer, questionando-nos sobre o seu valor atribuído pelos outros e como a própria dona do corpo o entende.

 

Se bem que o enredo não é o mais criativo possível, a riqueza das interacções entre personagens faz destas conversas com amigos de Sally Rooney uma experiência que me levou a repensar na forma como as minhas próprias relações são vividas (e descritas, e discutidas, por palavras). Por ter uma idade aproximada à das protagonistas, houve muitas partes do livro em que me senti representada, não pelas circunstâncias, mas pelas reacções, pensamentos e valores defendidos. Será que existe mesmo uma mentalidade "millennial", que transgrida fronteiras e afecte toda uma geração ocidental?

 

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No fim, cheguei à conclusão: nem a falar nos entendemos, porque fica sempre alguma coisa por dizer ou alguma coisa que gostaríamos que o outro dissesse e não diz. Seja por mensagens de texto, e-mails, conversas cara-a-cara, conversas sem palavras, discussões acesas... Fica a lição de que, muitas vezes, é impossível comunicarmos de forma perfeita, mesmo que o tentemos com os nossos melhores amigos, os nossos pais ou parceiros.

 

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📚 Claro que à segunda só pode ser paixão, e não me importo que à terceira, quarta, quinta e por aí adiante seja amor para sempre. Já encomendei um conto da Sally Rooney (Mr Salaryque também parece estar online, mas gosto mais de ler em papel) e vou consumir tudo o que houver pela Internet escrito pela rapariga. Se esgotar os recursos, ela que me mande as listas de compras ou tarefas, que também devem ser mais interessantes do que metade dos livros que por aí andam.

 

📚 E porque ando sintonizada em ondas melancólicas, discussões de identidade e relações complexas com o próprio e os outros, não hesitem em deixar-me recomendações desse género. 

Procura de identidade, propósito e pertença: Normal People (Sally Rooney)

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Embirro com modas, por isso não acredito logo nos grandes êxitos de vendas e de Goodreads. Costumo fazer um finca-pé insistente e certamente irracional no que toca aos bestsellers. Como refinada snob, orgulho-me de não acreditar nem à segunda, nem à terceira, às vezes nunca. Ainda por cima, tenho evitado ficção nos últimos tempos, porque simplesmente me sinto incapaz de pôr o nariz na vida doutras personagens, já tendo o suficiente no meu prato. No entanto, apesar da hesitação, mais cedo ou mais tarde dou o braço a torcer, principalmente quando pessoas em cujos gostos eu confio começam a falar muito bem dos ditos.

 

Aconteceu com Normal People, de Sally Rooney. Já andava com vontade de o ler, mas a procrastinação da leitura preliminar continuou, e continuou, e continuou. Até que a Rita falou bem dele no nosso último encontro Uma Dúzia de Livros, desmanchando todas as minhas muralhas anti-êxito de vendas. Pronto, está bem, dois dias depois já o tinha na mão, acabei de o ler em menos de 24 horas... Foi um deslumbramento imediato, uma urgência sôfrega, nem tive tempo de me aperceber o que tinha acontecido. Foi um fartote de chapadas e montanhas-russas, apenas comparável ao meu romance pirosão favorito One Day, e mesmo ao amigo de faca e alguidar, Love, Rosie. Ao longo dos anos, já tenho escrito sobre o primeiro e digo-vos: este Normal People é ainda melhor.

 

Porque não é só lamechice. Não é só sobre o desencontro de protagonistas antagónicos durante vários anos. É tanto, mas tanto mais do que uma história superficial sobre dois jovens adultos. Na verdade, mais do que isso, é uma história sobre assimetrias sociais, sobre as relações entre pares, entre famílias e entre a família, a procura de um propósito na vida, a procura da pertença e um lugar no mundo, a transição para a idade adulta e, enfim, é sobre o que significa (querer-se) ser normal. É sobre como a relação que temos com outras pessoas molda quem somos e em quem nos tornamos, para onde vamos, aquilo de que gostamos. Este livro pôs-me a pensar sobre todas essas variantes, condicionantes e temáticas na minha própria história pessoal e das pessoas que me rodeiam. Assim, sem dúvida que vale a pena ler ficção. 

 

Dito isto, o design do livro e a estrutura do romance podem fazê-lo parecer o corriqueiro young adult, mas não se deixem enganar pelas aparências. Tive de pousar o livro várias vezes, de tão incomodada que me sentia, debatendo-me simultaneamente com a vontade de ler mais um página, e outra, e outra. Não querendo brincar com as vossas expectativas, espero mesmo que gostem de ler Normal People, pelo menos metade daquilo que eu gostei. A autora Sally Rooney rendeu-me, fico a aguardar pela série, e em breve darei uma chance a Conversations with Friends.