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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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36 perguntas que levam ao amor - a minha experiência pessoal

(contém alguns spoilers)

 

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Decidi deixar-vos um texto de opinião sincera acerca da minha experiência pessoal com as 36 perguntas que levam ao amor, desenvolvidas por uma equipa de investigadores e (viralmente) testadas por uma escritora - dado que é uma prática que podemos levar a cabo para sermos mais felizes, e que até já vos recomendei há poucos dias.

 

De facto, confirmo que, mais do que levar ao amor, as ditas 36 questões constituem um exercício que ajuda a criar intimidade em geral (até podem ser respondidas com um amigo ou um relativo desconhecido), mas, mais do que isso, acabo por considerá-las um desbloqueador de conversa. Até podemos pensar que sabemos tudo acerca de alguém, mas estas 36 perguntas provam que há sempre uma preferência, sonho, memória ou curiosidade sobre o nosso "parceiro de questionário" que nos faltava perguntar-lhe mais directamente.

 

Uma vez que fiz as 36 perguntas que levam ao amor com alguém de quem gosto muito e de quem me tenho tornado bastante próxima (em grande parte por já termos partilhado muita informação pessoal semelhante à pretendida pelo presente questionário e por termos muito em comum), sentimos que as nossas respostas choviam no molhado, ou que já sabíamos/prevíamos algumas sobre um e sobre outro, ou que eram frequentemente "eu também". Segundo o estudo, as questões deveriam ser feitas entre dois relativos estranhos - o que provavelmente corresponde ao propósito de muitas, só que em outras não faz sentido. Mas já lá iremos...

 

Em termos de duração do questionário, penso que depende muito do vosso perfil: são indivíduos muito faladores? Sentem-se acanhados? Já terão partilhado recentemente algumas das respostas a estas perguntas ou perguntas semelhantes? Em média, recomendo cerca de uma a uma hora e meia para responder à totalidade do questionário. Hão-de encontrar perguntas fáceis de responder e outras que vos farão reflectir ou discutir por algum tempo, uma vez que o exercício se divide em três partes, sendo a primeira composta por perguntas mais banais e a segunda e terceira por perguntas cada vez mais delicadas.

 

Ainda assim, tenho algumas falhas a apontar, falhas essas que me surpreenderam, talvez por causa das expectativas elevadas que tantos artigos, talks e divulgação me fizeram construir.

 

Como já referi, as 36 perguntas que levam ao amor são mais úteis quando não somos muito íntimos do nosso parceiro de questionário, caso contrário, o desenrolar da actividade revela-se previsível e repetitivo.

 

Contudo, as minhas maiores reservas partem do facto de algumas perguntas parecerem ter sido desenvolvidas para quem já tem alguma relação, por exemplo, quando temos que nomear 5 factos positivos sobre o nosso parceiro (pergunta 22) ou temos que referir aquilo de que honestamente gostamos nele (pergunta 28). Então, e se o tivermos acabado de conhecer? Só se respondermos "bom cabelo, boas pernas, bom traseiro, sorriso simpático, voz clara", que podem ser apenas banalidades insignificantes (passe-se o pleonasmo).

 

Finalmente, impõe-se a derradeira questão: mas estas 36 perguntas levam mesmo ao amor?

 

Não, não levam. Acho que esse título que lhe atribuíram funciona na qualidade de "golpe de marketing", mas o amor deveria ser, obviamente, mais do que responder a perguntas. Estas 36 perguntas levam, sim, à sensação de maior proximidade, ao estabelecer-se uma espécie de compromisso quanto à aceitação mútua das vulnerabilidades de cada participante. Criam uma oportunidade para sinceridade, generosidade e abertura que se querem recíprocas. Deste modo, no final resta a gratidão pela partilha.

 

(E compreende-se por que motivo podem ser usadas para aproximar indivíduos de comunidades, religiões, etnias, crenças distintas; ou para reaproximar casais cuja relação não esteja a passar pelos melhores dias.)

 

No final do exercício, é-nos proposto que nos olhemos nos olhos por quatro minutos, um tipo de jogo do sério. Eu e o meu parceiro conseguimos aguentar mais ou menos... quatro segundos (demos o nosso melhor, juro). Seja como for, claro que os quatro minutos podem ser determinantes para se criar intimidade com alguém que não se conheça bem. Sinceramente, não entendi que fizesse uma grande diferença no nosso caso, mas cada caso é um caso - não é o que se costuma dizer? 

 

Agora, desafio-vos a tentar estas 36 perguntas que levam ao amor com alguém igualmente disposto a ser uma cobaia para a ciência contemporânea. Quais serão as vossas conclusões? O que virão a sentir? Se o fizerem, partilhem os resultados connosco. Boa sorte! 💪

Vergonha alheia

Uma gargalhada tropeçada liberta-se. Cerramos os dentes num esgar sorrido que distende os lábios mecanicamente. Rebeldes, os olhos acompanham a sinfonia da agitação, desapegando-se das órbitas em movimentos circulares interrompidos quando se vêem obrigados a piscar, numa tentativa de limpar a incredulidade suspensa no ar, pastosa, áspera. A face cora. As bochechas incham e elevam-se. Mas a testa franze. Rugas miúdas afundam desconforto latente, causado por estímulos recentes na cavidade auditiva. Ou mesmo por actividade na córnea. Ou por ambos. (Eu sei lá, sou professora de português, não de anatomia...)

 

A vergonha alheia também nos flagela de tempos a tempos. Alguém que conhecemos ou de quem ouvimos falar atreve-se a feitos impressionantes... que, de facto, impressionam. E nós sofremos, não sabemos com clareza se com eles, se por eles, se pelos outros sobre os quais pesam as acções dos desditosos que nos envergonham por contágio. É um sacrifício.

O meu novo livro preferido: Essays in Love, de Alain de Botton

Alguma vez se depararam com um livro que tenha surgido no momento certo, mas por mero acaso? Fazia-vos falta um livro assim, vocês pensavam que seria impossível alguém contar uma história que vos fizesse sentir menos desamparados ou sozinhos no vosso mundo, na vossa causa, e esse mesmo livre caiu de pára-quedas nos vossos dias?

 

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Eu sei o que isso é. Passei tantos meses à procura dum livro que tivesse tudo na medida certa - introspecção, filosofia, reflexão, carisma, mas que viesse justificar e validar as minhas ideias, sem deixar de ter uma dose de lamechice, sem ser só teoria, acrescentando um enredo que servisse de exemplo às minhas inquietações actuais - e, depois de muitas visitas, a muitas livrarias, em Portugal e na Escócia, encontrei este, um exemplar único, sem destaque, enfiado numa estante a abarrotar duma Waterstones em Glasgow: Essays in Love, do autor multifacetado Alain de Botton.

 

O meu maior problema com os livros sobre a temática "amor" é que considero quase todos um desperdício de tempo, sou incapaz de ler tamanha treta, nunca os levo a sério, têm sempre imenso mel, ou drama, ou futilidade em doses que sou incapaz de digerir. A vida é pirosa, mas não tanto. A vida não é um romance de cordel, mesmo com a sua inevitável banalidade e aleatoriedade.

 

Então, ao encontrar este livro, senti que o autor conseguiu incluir quase todas as posições sobre o amor e relações em que acredito, ou pelas quais já passei. O início da história de amor dos dois protagonistas é um pouco irracional, mas o resto da narrativa faz todo o sentido.

 

Além disso, este livro não é só um romance. Não é só um livro de histórias. Como escreveu o autor, em 2015, num posfácio incluído na edição que tenho, o seu objectivo era ficar a meio, entre um romance e um ensaio sobre o que é o amor entre duas pessoas, como ele surge, acontece e - eventualmente - termina. E recomeça, acreditem ou não.

 

Senti, pela primeira vez na vida, que este é o livro que eu gostaria de ter escrito ou de vir a escrever. Sem tirar nem pôr. Não é "um livro deste género", é "precisamente este livro". Nele, o amor não é idealizado. É narrado um amor, num contexto próximo ao meu (protagonistas jovens em início de carreira, classe média, numa cidade europeia). Consigo identificar-me e encontrar aspectos em comum. É também para isto que serve a arte, para nos representar, e eu fiquei a sentir-me representada. A cada página, eu só pensava "mas isto já me aconteceu!" ou "isto poderia ter-me acontecido!".

 

Sim, este livro conta uma história de amor e desamor, mas fá-lo duma forma pensada, que nos obriga a usar o cérebro. Não é o típico "boy meets girl" dos best-sellers de supermercado. Senti que o Essays in Love me desafiou enquanto leitora, pôs-me a reflectir nas minhas experiências, conferiu ao assunto mais batido, piroso e repetitivo do mundo uma aura de intelectualidade, de assunto académico, didático, de relevância. Deixou de parte a superficialidade das relações, das borboletas na barriga e do vazio a que nos entregamos quando acabam. Fez com que tudo isso se tornasse um assunto de adultos, respeitável. 

 

E sabem da melhor? O autor, Alain de Botton, escreveu este livro no verão dos seus vinte e um anos. 21. Como é possível que tanta sabedoria, ou tacto, tenha saído da cabeça e das mãos dum indivíduo tão jovem? O que é que a maioria de todos nós já tinha feito aos 21 anos? Olhem, eu tinha-me licenciado, tinha ido estagiar para Banguecoque e pouco mais, mas não, não tinha escrito o livro que inauguraria uma carreira brilhante e demonstraria todo o potencial da minha mente. Fica prometido que irei, com toda a certeza, ler mais livros do Alain De Botton, nem que seja o que comprei em simultâneo ao Essays in Love, que se chama The Course of Love (mais lamechice pseudo-intelectual, previsivelmente).

 

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E por aí, alguma sugestão de bons livros que me queiram deixar? Não tem de ser sobre este assunto, claramente, por isso estejam à vontade! Agora, ando também a ler Sapiens, De Animais a Deuses, e estou a gostar bastante. Encontrem-me no Goodreads e vamos falando. 

Com o que se parece um desgosto?

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Duma forma estranhamente masoquista, mas acima de tudo curiosa acerca da condição humana e das emoções, sempre me interroguei com o que se assemelharia um desgosto - não daqueles de criança ou adolescente, não um sentimento vão; um desgosto adulto, com proporções significativas e consequências reais. 

 

Entretanto, esse tipo de desgosto não tardou. Ou não tardaram. Foram logo vários, uns a seguir aos outros. E eu só sei que foram realmente desgostos porque, de facto, nunca tinha sentido nada assim na vida (que ainda não é longa, apesar de tudo). 

 

Com o que se parece um desgosto? Ironicamente, não se parece com muito. É uma mistura de tudo e não é nada. Os meus deixaram-me apenas a ausência de qualquer coisa que lá estava antes, deixando de estar. Ao mesmo tempo, há desapontamento, desorientação, desamparo, desequilíbrio, des-tudo. No apogeu dessa série de desapontamentos, pensei que talvez se pudessem comparar com um ovo: um ovo que andou a ser carregado por uma quantidade razoável de tempo, circulou por caminhos diversos, dum lado para o outro, passeou até por algumas mãos, depositaram-se expectativas naquele pequeno peso, mas alguém ou alguma circunstância fê-lo cair, apenas para se descobrir que, partido, não tinha nada lá dentro. 

 

E depois? Fica a casca, picada, pisada, incompleta, a desmanchar-se nas mãos de quem o tenha apanhado. 

Como a perturbação do regresso, ou síndrome do retorno, tem afectado a minha vida

O que será a perturbação do regresso - também conhecida por síndrome do retorno e outros nomes - e como afecta a vida de quem a sente? Nunca tinha ouvido tal coisa até uma prima, que também vive fora do país, ter partilhado um artigo sobre este assunto no Facebook. 

 

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 (A vista da janela do meu quarto, um cenário que, passem os anos que passem, e mesmo quando construíram as casas no horizonte, parece nunca mudar... Um cenário que me fascina e me faz sentir, realmente, em casa.)

 

No passado...

Sempre senti a perturbação do regresso depois de regressar das minhas viagens de curta duração (o máximo foi duas semanas há três anos e meio, quando fiz duas semanas de intercâmbio em Newcastle), mas nunca juntei todos os sintomas para chegar a um resultado conclusivo, sumário. Sentia-me mais do que cansada da viagem, sentia-me exausta, tinha alguma necessidade de estar sozinha enfiada na cama. No entanto, este estado letárgico durava apenas um ou dois dias e depois a vida retomava o seu ritmo.

Obviamente, não há comparação entre essas emoções e sensações depois de viagens tão curtas e a grande viagem que foi a minha vida em Banguecoque. Desta vez, penso que, seja lá o que isso for, a perturbação do regresso não só me tocou, como me deu um chapadão com mão rija. Mais dum mês depois, ainda não me sinto completamente refeita deste susto.

 

Mas a perturbação do regresso é uma coisa a sério?

Parece que esta perturbação do regresso pode não ser um fenómeno médico/mental/psicológico com muita literatura científica na qual nos possamos basear para afirmar tudo com muita certeza e clareza. No entanto, sinto que este conceito faz sentido e que até me ajuda a organizar o que sinto e penso. Talvez outros o percebam da mesma forma. 

 

O que sinto eu, realmente?

Que é reconfortante, consolador, perceber que este avalanche de sentimentos e pensamentos tem uma razão de ser, não sendo uma anormalidade no planeta. Que haverá por aí mais gente com o mesmo. Que esta desorientação tem uma origem... e, por consequência, um fim à vista. Depois de tantos estímulos ininterruptos por tanto tempo, depois de tanto desconforto e adaptação, desconforto e adaptação... Depois de tanto entusiasmo e grandes expectativas acerca do regresso... Depois de tantas experiências que não pude partilhar... Depois de tudo o que vivi... Depois de tanto tempo longe das pessoas mais próximas, mesmo que sempre em contacto à distância...

Depois de tudo isto, ficou-me a sensação de aborrecimento sem causa, de incompreensão, de desconforto até nos lugares que me deixariam mais à vontade em circunstâncias normais (em casa, por exemplo), de despertença, de desconhecimento até das pessoas que melhor conheço e até o contrário: as pessoas que me rodeiam sentem também este afastamento. E, ainda depois de tudo isto, fica o sentimento de culpa exactamente pelo que sinto, que é descabido! (Afinal, eu queria era voltar para casa! E agora, que voltei, qual é o meu problema???) 

 

Só quem volta o sente?

Pessoalmente, acho que todos os envolvidos no dia-a-dia de quem vai e regressa acabam por sentir um certo choque. Há alterações na interacção, nos encontros, por causa do que aconteceu dos dois lados entretanto. Nem que seja pelo hábito ou pela falta de hábito, todos sentimos surpresa, apreensão, incompreensão...

 

Essa perturbação é para sempre?

Claro que tudo isto é irracional. Aos poucos, a normalidade dos dias vai-se reconstituindo. Já comecei a estar com mais amigos. Mesmo tendo recomeçado a trabalhar uns dias depois de voltar, agora começo a fazê-lo aproveitando-o. A perturbação do regresso não existe para sempre. Qualquer coisa chamada síndrome do retorno só pode existir após... o retorno. Há que pensar que isto é o que chamamos simplesmente "o choque inicial".

 

O que fazer para ultrapassar a parte difícil do regresso?

Além disso, arranjei estratégias para combater emoções menos positivas relacionadas com esta síndrome do retorno. Tenho-me tentado desafiar, trabalhando com pessoas diferentes, tentando pensar em projectos pessoais, investindo em formação em áreas profissionais com as quais não lidei ultimamente, mas relacionadas com a minha formação anterior (como o jornalismo). Até me inscrevi numa pós-graduação, mas não abriu por falta de candidatos. Em Setembro, começo o meu mestrado, e até lá vou-me entretendo com trabalho e outros estudos paralelos. Quanto à parte humana do assunto... É tentar levar as reaproximações com calma. Tudo há-de voltar ao seu sítio de antes, ou, em alternativa, de encontrar novas posições e alinhamentos. 

 

Estou mesmo a tentar ver o copo meio cheio, pode ser que funcione!

 

E vocês, têm alguma experiência semelhante ao que se descreve sobre a perturbação do regresso? Já passaram pelo mesmo? Têm algumas dicas para quem está a levar com esta bomba no momento?

Sobre o que eu penso ser o choque cultural

Não houve qualquer hipótese da minha licenciatura em Ciências da Cultura, ou as experiências de intercâmbio em que participei, me prepararem para o que é o choque cultural sobre o qual vos venho escrever.

 

Quase no fim desta experiência a viver no estrangeiro, cheguei à conclusão de que há vários graus de choque cultural, que nalguns aspectos traz habituação, noutros traz frustração. 

 

Habituei-me à comida picante, ao trânsito louco, à falta de raciocínio rápido e pragmatismo, à ausência de pontualidade, à língua (que aprendi a falar, pelo menos de forma a desenrascar-me e a mostrar educação e gratidão), aos contrastes da população, à mistura de mundos, às casas de madeira à beira dos canais a conviverem ao lado dos condomínios modernos de 20+ andares, à hierarquização e aos alunos que se prostram aos meus pés para me falarem, aos tailandeses que estudaram no estrangeiro e dos quais não se sabe o que esperar, ao sotaque tailandês que esquarteja as outras línguas em arestas flácidas. 

 

Mas, depois de todo este processo de habituação e de tantas outras alterações a concessões a que submeti a minha forma de pensar, comportar e viver, também cabe aos tailandeses decidirem se querem acolher-me (ou a qualquer outro estrangeiro) na sua própria comunidade. Eles dizem que sim, e é verdade, eu sei que eles querem mesmo acolher os estrangeiros. 

 

O problema é que falar é mais fácil do que concretizar. Na minha opinião, as relações entre pessoas resultam de negociações bilaterais constantes. Dá-se e recebe-se. A maioria dos tailandeses dá o suficiente, não dá aquilo a que não é obrigado. Assim, as relações que fui estabelecendo ficam pela rama.

 

Não me queixo, apenas tento analisar. Fiz amigos, estou-lhes agradecida por me terem acolhido, dentro do que se conseguiu, mas o meu conceito de amizade quer ir mais longe, precisa de mais, quando o deles não. Trabalhar e viver num meio exclusivamente tailandês, trabalhar para o governo, viver nos subúrbios, leva-me a sentir que necessito de mais do que o que me querem dar e talvez seja isso o verdadeiro "choque cultural": a negociação mal sucedida ou insuficiente de conceitos tão abstractos quanto amizade, carinho, sentimentos, emoções, visões do mundo.

 

Para mim, todos estes conceitos estão no fim da linha da adaptação cultural, porque não são uma necessidade vital, mas sim o que sustém a vida a longo prazo, o que torna possível viver no estrangeiro ou longe do sítio onde crescemos.

 

Há vários níveis de choque cultural. Primeiro, não gostamos da comida. Depois, perdemos a paciência com a maneira diferente de fazer as coisas. Quando já nos resolvemos quanto aos primeiros choques ("é mesmo assim!"), mais desafios se apresentam. E mais. E mais. E mais complexos. E a exigirem mais de nós. E podemos vencê-los, moldando indefinidamente a forma como pensamos, comportamos e vivemos; ou chega a uma altura em que já não dá mais. É assim que eu me sinto.

 

Não me sentir parte de nenhum grupo ou comunidade é o derradeiro efeito do meu choque cultural, que é um choque do que se sente no coração e no fundo do estômago. É o resultado da procura de sentido na vida dos outros, quando só se encontram portas meio abertas. É o choque de se tentar aprofundar o superficial, de passar os colegas a amigos, que não funciona. O derradeiro desafio da transculturalidade.

 

Mas não faz mal! É mesmo assim. Faz tudo parte desta experiência que é a vida humana. A minha vida. Estou em paz com o que posso dar e receber. Já referi o quão agradecida me sinto por poder, sequer, escrever acerca de tudo isto? 

 

(E, não tendo concluído o meu mestrado por cá, posso dizer que aprendi o suficiente para uma pós-graduação em gestão da interculturalidade! )

Do amor inquantificável

Texto escrito a 4 de Abril de 2013, quinta-feira...

Hoje, surgiu-me uma questão: até que ponto é que sabemos quantificar o que sentimos pelos outros? Eu acho que isso é, simplesmente, impossível. Acho que os sentimentos (e, em geral, as emoções), sendo algo imaterial, são inquantificáveis. É impensável, numa relação interpessoal, dizer quem gosta mais de quem. Haverá sempre maneiras diferentes de expressar o mesmo sentimento. Não podemos afirmar que amamos alguém a nível 20 e saber se a outra parte nos ama a nível 18, 19 ou 21. Podemos - e devemos - somente tentar demonstrá-lo através das nossas acções e comportamentos. Afinal, ninguém é igual a ninguém. Uns são mais dados ao afecto e/ou à explicitação verbal dos seus sentimentos; outros retraem-se mais. Mas a personalidade mais ou menos extrovertida de cada um não interferirá, em princípio, na intensidade do que sente.

É o amor... (mas em português!)

Há qualquer coisa de muito dissimulado quando um português diz “I love you” a outro português. É como dizer “eu amo você”, mas ainda pior. Parece-me simplesmente que não faz sentido expressarmos os nossos sentimentos mais genuínos por meio de outra língua que não a nossa. Uma coisa é dizermos muitas expressões em inglês noutras conversas do dia-a-dia, por ser divertido e… sei lá. Totó. (You shall get my point!) Outra totalmente diferente é declararmos amor a alguém com um já muito gasto “I love you”, proferido por milhões de pessoas do pé para a mão, estampado em t-shirts comercializadas para turistas em todo o mundo (I love Lisbon! I love Portugal!), em bonés, malas, postais, publicações de Facebook…
Será que não nos chega o sincero “amo-te”, em bom português? Não será um “amo-te” ainda mais belo que quaisquer outras palavras, não soará ele tão humilde e curto, sem deixar de ser verdadeiro e sonante? Acrescentem-lhe um, dois, três pontos de exclamação e vejam se não fica maravilhoso: “amo-te!!!”. Haverá confissão mais bela de se ouvir ou de se ler? Mais um advérbio de modo, que há vários, e obteremos “amo-te muito!!!”, “amo-te bastante!!!”, ou até outras expressões lamechas como “amo-te daqui até à Lua, passando pelo Sol e voltando!!!”.
Para quê “i love you”? Nem o clássico do francês “je t’aime/je t’adore, mon amour!!!” bate o nosso “amo-te!!!”. Aposto que, tal como eu, vocês também acham o “ich liebe diech” (sem pontos de exclamação, assim em seco, como consta que são os alemães) demasiado rude para exprimir o que quer que seja, quanto mais amor!
E, tratando-se de chamar o “meu amor”, também prefiro que assim seja, pelo menos nas ocasiões mais sérias e cujo ambiente é mais sentimental, pedindo que se fale do fundo do coração (ei, que lamechice!), apesar de, por vezes, brincar um pouco com expressões inglesas e francesas (já que são as outras duas línguas que vou dominando).
Para descrever sentimentos, chega-me o português. Gosto mais assim!

Uma cena profunda, ...

... duas cenas profundas, três cenas profundas [...], cinco mil cenas profundas. Queria mesmo contar-vos cenas profundas, mas não vou além disto. Talvez ande a ficar insensível (poderá ser da idade?) e a tornar-me, progressivamente, num ser sem sentimentos, sem discernimento emocional... Ou não. Apenas já não sinto a mesma necessidade efusiva e incontrolável de escrever sobre lamechices, e amores e desamores, e encantos e desencantos que sentia há um, dois, três anos. Ah, que saudades que não tenho desses tempos! (E escrevendo sobre não os escrever não estarei a escrever sobre eles?!) Se quiserem conhecer melhor essa minha triste face/fase, consultem as primeiras publicações procrastinadoras. Se, por outro lado, a ignorância é o melhor caminho (acreditem que é!), não se atrevam a regredir mais de doze meses no arquivo blogosférico (até porque algumas das publicações ainda estão por copiar do endereço no Sapo).