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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Ser jovem - mas a que custo?

Jovens. Hoje em dia, chamam-nos jovens até termos 40 anos. A partir dos 40, começamos a dizer "os 40 são os novos 30", e por aí fora. Jovens, para sempre, até que esse sempre se acabe.

 

Há alguns meses que ando a escrever uma data de crónicas sobre dores várias, sendo uma delas inteiramente dedicada esta inquietação (que é minha, e que talvez também seja vossa):

- Ser "jovem", mas a que custo?

 

Por um lado, queremos ser jovens à força (se os outros indivíduos, a sociedade e as instituições querem que o sejamos, como não haveríamos de o desejar de igual forma?), seja jovem de idade, de condição física, de aspecto, de leveza. Mas, repito, a que custo?

 

Pessoalmente, vejo-me a braços com uma frequente infantilização e frequente desdém por ser nova, e por parecer ainda mais nova. Por ser jovial. Como quase tudo na vida, é coisa que não mata, mas que mói. E dói. É coisa que, paradoxalmente, envelhece, se não o rosto, talvez a alma. Algum dia serei um ser humano pleno de direitos e de presença?

 

Sou incapaz de perdoar a condescendência e a displicência com que tantos sujeitos (homens e mulheres, sem distinção de nota) tratam a minha geração. A sobranceria. A superioridade. A irresponsabilidade com que se dirigem a nós, que temos agora 20 ou 30 anos. Caramba, até 40.

 

Ora somos a promessa para o futuro, os derradeiros arautos iluminados, nascidos para curar o sofrimento da humanidade; ora somos bebés de colo, irredutivelmente inábeis e carentes de cuidados, mas imerecedores de atenção, porque ainda não somos parte desse grupo selecto de "crescidos". Eles é que sabem. Nós vamos comendo na mesa do canto. Nós, "jovens", somos, para tantos, homens e mulheres pela metade. Rapazes e raparigas. Miúdos. Crianças.

 

Ser "jovem" pode tão rapidamente ser um elogio (tão jovem e já alcançou tanto!) ou pode ser desprezo (é jovem, sabe lá da vida!).

 

Parece resmunguice, mas de um ponto de vista social, da organização da vida em comunidade, a infantilização crónica de uma determinada geração é grave. Atrasar o "crescimento" dos indivíduos no jargão partilhado é nocivo, porque, se somos "jovens", não somos humanos plenos de direitos e com acesso ao kit mais básico de dignidade - nomeadamente, um salário que condiga com as nossas qualificações (e com a condição humana), autoridade no nosso meio académico e profissional, respeito por parte de entidades de serviço público com os quais temos de lidar para, simplesmente, viver (bancos, hospitais, mercado imobiliário, instituições políticas...). Afinal, um dia acordamos e somos "velhos" que nunca tiveram a chave para a existência plena. E, mais uma vez, somos descartados. É essa uma face do meu medo.

 

Somos "jovens", portanto não somos adultos. Aos 26, começo a acreditar que, aos olhos de algumas pessoas com quem me venho cruzando, talvez nunca chegue aos 15. Talvez passe directamente para a terceira idade.

 

E por isso é que guardo sentimentos ambíguos quanto aos chavões "Qualquer Coisa para os Jovens". Estarão mais próximos duma benção ou duma maldição?

Cansada de opiniões

Deve ser muito cansativo ter sempre uma opinião. E mais: deve ser muito cansativo ter sempre uma opinião e achar que esta é a mais correcta de todas. Uma opinião-verdade, indiscutível, infalível, do género "como é que não conseguem todos ver isto, que é tão claro, tão óbvio?".

 

À hora de jantar, estava a ouvir um segmento de notícias sobre o Orçamento do Estado e, em vez de conseguir realmente perceber qual a celeuma do momento, passaram a emissão para o comentário não sei de quem, isto é, de um comentador profissional. Acabei por não entender perfeitamente qual era o tema do Orçamento que pretendiam destacar (só apanhei uns minutos da ministra da Saúde a falar sobre autonomia de contratação), não fiquei minimamente informada, e enfiaram-me um tipo de fato, com voz grave e tom solene, pelos olhos e pelos ouvidos adentro. Um tipo sério. Um opinador de profissão, entenda-se.

 

Nos dias que correm, tanto me faz quem é o opinador. Soa-me tudo a bitaites de tasca. Estou cansada do chico-espertimo-achismo, da opinião que todos parecem ter sobre tudo, quer no mundo real, quer nas redes sociais. No Twitter e no Facebook, então, é uma cascata de gente inteligentíssima, que só peca por lhe faltarem credenciais, moderação e bom senso, porque de resto são exímios na arte das postas de pescada. Na televisão, preferem pôr o Zé-Não-Sei-das-Quantas (que pode ser um reformado antecipado da política, do jornalismo ou de coisíssima nenhuma) a deitar umas larachas frequentemente mal informadas e pouco informativas. Noticiar à hora das notícias, no canal das notícias, 'tá quieto. Tanto, tanto ruído.

 

(Caramba, eu só quero saber o que se passa no país e no mundo, não pretendo que me tentem endoutrinar após trinta segundos de breve e incompleta notícia!)

 

Como vêem, este não é um blog de opinião. Opiniões, tenho uma ou outra sobre alguns livros, porventura podcasts, filmes ou séries, mas nem essas partilho em barda. Eu cá sou mais de sugestões, o que talvez denote que nasci no tempo errado e que vivo contra a corrente. Isto não implica que eu deixe de ter princípios. Alto lá! Sou uma moça às direitas que vota sempre à esquerda, defendo certas causas e visões do mundo e, apesar de não gostar de atritos, não hesito quando é necessário ter uma discussão acesa porque me chegaram as mostardas e os vinagres ao nariz.

 

Ainda assim, tenho tantas dúvidas sobre quase tudo que me abstenho, por vezes nem por falta de vontade de me insurgir, mas sinceramente por me sentir assoberbada contra as Grandes Certezas dos outros, por sentir que gastarei o meu português a falar para a parede, porque discutir para eles não tem sentido pedagógico, mas sim apenas mostrar que sabem mais e melhor (do quê, porquê e como é que me escapa). E eu sei que eles devem estar cansados, mas estou cansada eu também, provavelmente ainda mais.

 

Escrever este texto deixou-me cansada, mesmo exausta, por isso não me alongo mais com a minha opinião sobre opiniões, despedindo-me apenas com duas - lá está - sugestões que me parecem modestamente sensatas e largamente geniais. São elas o podcast Quem Lê Tanta Notícia e o programa Dados Contados (da RTP). Sinto que, graças a estes minutos semanais, finalmente compreendo qualquer coisa sobre a actualidade. E, como até as sugestões podem ser tendenciosas, aviso desde já que a primeira tem a participação da minha ídola Tati Bernardi e que o segundo é produzido pela minha amiga Daniela Ferreira Pinto, duas mulheres que admiro arregaladamente, uma escritora e outra jornalista, mas ambas autoras e produtoras de cenas divinais que vemos e ouvimos por aí.

 

Por ora, este será um blog pouquíssimo insurgente, sempre cheio de dúvidas sobre se tem sequer algo para acrescentar ao espaço público, mas confiante de que faz apenas o barulho necessário para espicaçar as ideias de quem por aqui aparece, sem as moer. (Confirmando que tal é possível, note-se que nas caixas de comentários deste blog existem leitores que discordam de mim, e que mo escrevem, mas que o fazem com uma elegância e uma delicadeza, que eu quase penso estar numa realidade paralela. Obrigada por estarem desse lado, que é como quem diz, voltem sempre!)

Escolhi ler mais mulheres para me conhecer melhor

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No ano passado, comecei a fazer um esforço para ler mais livros escritos por mulheres. Achei que, mesmo já lendo muitas por acidente, ou simplesmente sem pensar, podia vir a conhecer mais autoras. Nos últimos anos, tenho tido cada vez mais consciência de que, apesar de não ser propositado, acabamos por viver numa sociedade mais definida pelas ideias, valores, causas e palavras de homens, acabando por insistir num viés delineado pela perspectiva masculina, cisgénero, heterossexual, europeia e/ou ocidental. E, ao começarmos uma cadeia de leituras com uma certa orientação (seja ela de género, geografia, ideologia política...), é normal que continuemos em temas e autores semelhantes ou mais parecidos.

 

Por isso, mudar o rumo das nossas leituras ou escolhê-las mais criteriosa e conscientemente pode ajudar-nos a descobrir novos caminhos, inclusivamente novos interesses.

 

Podia ter escolhido literaturas ou escritores doutras paragens, podia ter procurado assuntos sobre os quais não sei muito. De certa forma, ter escolhido ler mais mulheres, começando em mulheres escritoras ou artistas da Europa Central e Ocidental, ou da América do Norte, ou mesmo brasileiras, que originalmente escrevem em língua portuguesa ou inglesa, acaba por continuar a ser a minha zona de conforto. Não inovei coisa nenhuma, só tentei saber mais sobre vidas como as que admiro profundamente, mas sobre as quais sentia que não sabia o suficiente. Ainda assim, tenho aprendido imenso.

 

Tenho aprendido a analisar e questionar o papel da mulher ao longo do último século, de que matéria e de preocupações é feita a mulher contemporânea, quais as dúvidas e os anseios que tem, o que tem conquistado e o que há para conquistar, qual o seu lugar de fala, as suas responsabilidades. E qual a sua voz no meio da multidão, e de que forma se ouve. E como é que essa voz tem sido retratada pelos outros, nomeadamente pelos homens, sendo por vezes tão diferente do que a fazem parecer. Particularmente neste Verão, li muita crónica, muita autobiografia, ouvi muito podcast - e com as mulheres como protagonistas.

 

Em geral, penso que ler mais mulheres me tem ajudado a aprender com possíveis, mesmo que surpreendentes, exemplos a seguir. Ler e ouvir outras mulheres tem-me ajudado, por um lado a escavar, e por outro a trilhar, uma genealogia de género, de pensamento, de crenças e de feitos incríveis dos quais não teria noção se só continuasse a ler os "grandes autores".

 

Aos poucos, até acabo por procurar autoras doutros lados do mundo, com histórias e uma História diferente. Acabo por espreitar áreas do conhecimento ou artes sobre as quais nunca estudei. (No último semestre, até acabei por estudar pintoras do sudeste asiático e temas do orientalismo.) Acabo por bater à porta do inesperado, do menos óbvio. O efeito borboleta das leituras lá tem a sua razão de ser.

 

Continuo a admirar os clássicos, a achar que têm um papel central, que devem ser estudados e lidos, que devem ser promovidos. Continuo a admirar escritores que são homens, pois não perderam o seu encanto, interesse ou mérito. Contudo, agora tenho uma estante mais rica por ter criado espaço para Dulce Maria Cardoso, Tati Bernardi, Maria Judite de Carvalho, Maria Teresa Horta, Rebecca Solnit, Ruth Manus, Rosa Montero, Natalia Ginzburg, bell hooks, Rachel Cusk, Virginia Woolf, Anne Patchett ou Anne Enright. Mesmo tendo só lido alguns textos ou um livro ou outro de algumas destas autoras, muitas outras obras suas e das suas contemporâneas já ganharam prioridade na lista das minhas próximas aquisições e desejos.

 

Afinal, como poderia um homem, por muito próximo que esteja e por muito empático que seja, testemunhar de forma tão real e familiar situações e experiências como a maternidade, a posição de desigualdade, a relação com o corpo, a luta por direitos, os desafios do mercado de trabalho, a criação artística e literária, o seu legado...?

 

A história destas mulheres é, também, a nossa. O vocabulário é aquele que procuramos e que nos situa no mundo, os seus verbos contam-nos mais sobre as nossas próprias acções. Consequentemente, a nossa história é apenas uma continuação das suas histórias. Estaremos cá paraas contar e recontar, construir e ir reconstruindo.

 

Escolhi ler mais mulheres para as conhecer melhor, mas também para me conhecer melhor.

24/30 (ler é um dever humanista)

Ler é um dever humanista, disse Maria do Rosário Pedreira, nesta conversa com Francisco José Viegas. É uma afirmação com a qual não poderia concordar mais. Não querendo desapropriar a autora da afirmação, pus-me a pensar nela.

 

Para ganhar o hábito, nem sei se interessa o que se lê, nem onde, nem como, se é no telemóvel, se é no Kobo, se é no computador, se é em livro, jornais, revistas... Mas que se leia! E de forma ininterrupta. Sem ser só "as gordas", que de títulos, manchetes, sensacionalismos e click bait está o mundo cheio. A seguir - e para sempre - que se continue a cultivar o desafio, outras leituras, outras escolhas, outros horizontes.

 

Ler é um dever humanista, porque estar informado mas também saber pensar, seleccionar informação e desafiar o nosso ponto de vista é, acima de tudo, um dever cívico. Imaginar outras vidas, universos, ideias, crenças, ensaiar possibilidades e experiências... Tudo isto é um exercício de empatia. Ficção ou não, ler é um exercício que nos leva a praticar e a confrontar o diferente. Ler obriga-nos a uma dedicação de mais do que ínfimos segundos da nossa atenção plena. Obriga-nos a ler e reler, revisitar ideias, discuti-las mesmo que sozinhos, sem mais ninguém. Ensina-nos a reflectir, dando-nos algumas ferramentas que não obteríamos doutro modo. É uma forma de cuidar da mente, mas também das comunidades ou grupos a que pertencemos, e da sociedade - ainda que indirectamente. É uma forma de aprendizagem, para melhor ser, para melhor estar, para melhor fazer

 

Claro que não é garantido que quem lê mais há-de levar a cabo de forma muito melhor os seus deveres de cidadania. Ainda assim, ler é um bom ponto de partida.

14/30 (ainda a saúde mental)

Este texto é uma continuação do anterior, porque há tanto para dizer sobre a desvalorização da saúde mental! Em primeiro lugar, não preciso de relembrar números, mas deixo-vos alguns aqui de qualquer forma. E aqui também.

 

Acima de tudo, apareço hoje para vos relembrar que a saúde mental não é uma certeza para todos e, por arrasto, da importância de cuidarmos de nós e de acreditarmos que o que sentimos é legítimo, mesmo quando a sociedade e mesmo quando as pessoas que nos são mais próximas descredibilizam ou menosprezam o que é uma simples "ansiedade" ou "angústia". Neste texto, também quero expressar um agradecimento a todas as pessoas que têm sido generosas com o que escrevo, em particular com o número 13. Muito obrigada.

 

O acesso aos cuidados de saúde mental é nulo no SNS (do qual sou apoiante indiscutível, o que não me impede de lhe apontar falhas). O mais próximo que tive de apoio psicológico pelo SNS foi algumas consultas na clínica da Universidade de Lisboa, com preço mais baixo por ser alumna da FLUL, depois de me terem submetido a um teste de diagnóstico para ver se podia entrar para a lista de espera prioritária, na qual não entrei - até ter enviado um e-mail a suplicar à psicóloga que me desse consultas, à conta de um evento específico que me deixou de rastos nessa altura. (E não, a profissional que me seguiu não me ajudou em quase nada. E eu não podia escolher quem me seguia.)

 

Por isso, todas as semanas pago 60€ para ter consultas de psicoterapia com uma psicóloga maravilhosa, com clínica privada, desde Junho do ano passado. É este o preço de alguma clareza, entendimento, auto-conhecimento, auto-cuidado, equilíbrio. Vale cada cêntimo, mas sou uma privilegiada, porque ainda posso escolher pagar. Não tenho mais nenhum luxo, corto noutras despesas para pagar a psicoterapia, vou tendo ajuda da família, mas não há dúvida de que eu pago por algo que deveria ser de acesso universal e gratuito, ou pelo menos subsidiado.

 

Este é um dos primeiros indícios de que a saúde mental é extremamente desvalorizada em Portugal. Quando temos uma gripe, podemos ir ao centro de saúde ou ao hospital e queixar-nos. Somos tratados, dão-nos medicação e conselhos sobre como ficar melhor. Se trabalharmos, dão-nos baixa para apresentar ao empregador. Quando temos uma crise de ansiedade, ou pânico, ou tudo junto... há médicos que não só não têm formação para lidar com a situação, como nem sequer têm bom senso, nem tacto. Nem o SNS tem meios para nos ajudar. É preciso mostrarmos que estamos profundamente deprimidos, basicamente que somos um perigo para nós mesmos ou para os outros, para que façam algo. Senão, dir-nos-ão que somos jovens/saudáveis/sortudos/mal-agradecidos.

 

Eu tenho muita sorte, muita, muita... imensa. Tenho uma pós-graduação num ramo da Psicologia, sei onde encontrar informação, tenho meios e recursos materiais e imateriais para me ir acalmando e ter sempre a certeza de que saúde mental é saúde. Tenho acesso a profissionais que me ajudam. O João é médico e, além disso, fui muito bem tratada no centro de saúde da nossa zona de residência - antes e depois. Não fui totalmente descredibilizada, tenho quem olhe por mim. Mas e as pessoas que não têm esta rede de apoio? E o privilégio que eu tenho por poder, com mais ou menos sacrifício, """esbanjar""" em cuidados de saúde mental?

 

Apesar de tudo isto, sou optimista. O médico sobre quem escrevi ontem é doutra geração. Estamos em tempo de pandemia e ele disse-me que estava a fazer turnos de 24 horas por esses dias. Talvez, noutro contexto, com médicos mais novos, o tratamento - ou o trato - seja outro. Por exemplo, eu sei que o João jamais desvalorizaria um paciente que lhe chegasse à consulta como eu cheguei. Eu sei que ele vai ser - e já é - um excelente médico de família, verdadeiramente atento a todas as queixas, desde a dor no mindinho até à crise de pânico espontânea. O paradigma vai ter de mudar, neste que já é descrito como um "século da saúde mental".

 

Seja como for, aproveito para abrir, como sempre, a minha caixa de comentários, e mesmo o meu e-mail e redes sociais a quem precise ou apenas queira partilhar experiências ou ideias. Estamos todos a passar por tempos muito estranhos, não vai ficar tudo bem, mas resta-nos cuidar de quem pudermos - a começar por nós e pelos que nos rodeiam.

 

Por fim, mais um lembrete: o facto de sentirmos a nossa saúde mental fragilizada não significa que estejamos maluquinhos. Ter ansiedade não é um traço de personalidade. Mas não estarmos sempre a 100% e queixarmo-nos de dias maus não é birra. Não é normal aceitar sintomas de mal-estar psicológico como uma coisa menos séria. E não é vergonha pedir ajuda!

 

Mais outra nota: há linhas telefónicas e entidades que prestam apoio psicológico cujos contactos devem procurar. Principalmente durante a pandemia, câmaras, juntas de freguesia e universidades têm disponibilizado ajuda. Alguns desses contactos estão aqui. Se tiverem conhecimento de mais, partilhem nos comentários.

11/30 (as mulheres dizem)

As mulheres dizem, os homens negam.

As mulheres dizem que têm medo de andar na rua, de dia ou de noite, os homens negam.

As mulheres dizem que os piropos, assobios e comentários despropositados são atentados contra a sua integridade física e a sua segurança, os homens negam.

As mulheres dizem que são vítimas desde pequenas, os homens negam.

As mulheres dizem que não saíram de relações física ou psicologicamente violentas antes, porque não tinham força, apoio ou sequer noção do que lhes estava a acontecer, e não por falta de desconforto, dor ou trauma, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem ameaçadas por mensagens sexuais não solicitadas que recebem na Internet, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem discriminadas no mercado de trabalho, ora porque ganham menos, ora porque não têm acesso facilitado às mesmas carreiras e oportunidades, ora porque colegas e chefes do sexo masculino as oprimem e adoptam comportamentos no mínimo condescendentes, os homens negam.

As mulheres dizem que há expectativas irrealistas sobre a sua imagem, os homens negam.

As mulheres dizem que ainda são educadas, de modo mais ou menos consciente, para serem subservientes, os homens negam.

As mulheres dizem que têm demasiadas pessoas a meter o nariz na sua vida pessoal, amorosa ou sexual, os homens negam.

As mulheres dizem que a maternidade não é um paraíso e que licença de maternidade não é o mesmo que férias, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem assoberbadas pelo trabalho doméstico e pelas responsabilidades familiares e profissionais simultâneas, os homens negam.

As mulheres dizem que não vivem tão livremente quanto deveriam, os homens negam.

As mulheres dizem que a sociedade não as entende e recusa entender, os homens negam.

As mulheres dizem que há enviesamentos, preceitos e preconceitos invisíveis e enraizados na nossa linguagem e forma de estar, os homens negam.

As mulheres dizem que, no século XXI, até na Europa, ainda vivemos num mundo de homens, e os homens... é claro que negam.

 

Agora, continuem vocês... o que têm as mulheres para dizer?

 

***

 

Ontem, os Fazedores de Letras publicaram um texto da minha autoria que termina assim: Quem sou eu, se mais ninguém estiver a olhar para mim?

 

É um ensaio que, partindo duma reflexão sobre como a mulher é retratada na arte, pretende questionar de que formas ainda é condicionada e vista na vida real. O texto integral pode ser lido AQUI e também vos deixo um excerto:

A mulher do século XXI ainda vive num mundo onde prevalece o olhar masculino, exterior e que não lhe permite olhar para o seu reflexo como se este lhe pertencesse exclusivamente. (...) Mas não interessa se somos mais famosas ou meras anónimas: os padrões, expectativas e pressão existem para todas. Padrões de beleza, de inteligência, de maternidade, de sexualidade, de conjugalidade, de envelhecimento; a pressão e as expectativas sobre a forma como desempenhamos a nossa profissão, a forma como aparecemos na vida pública, a forma como aparecemos nas redes sociais.

9/30 (clientes que não pagam)

Sou trabalhadora independente a tempo inteiro há mais de dois anos. Maioritariamente, dou formação e dou aulas de Português para estrangeiros. Sou muito pontual e peço desculpa até se me atrasar uns míseros dois minutos. Emito e envio faturas atempadamente, muitas vezes antes de receber qualquer pagamento.

 

Por outro lado, enquanto cliente, preocupo-me sempre em pagar os serviços dos quais usufruo mal seja necessário. Mal seja hora de pagar. Mal fique acordado que receberei o serviço. Não fico a dever a ninguém, nem espero por segundo aviso que já passou a hora de pagar. Principalmente quando são negócios pequenos, de empresas familiares ou de outros trabalhadores independentes, sei que todos os cêntimos podem contar para essas pessoas pagarem as suas próprias contas.

 

Por isso, é com alguma incredulidade que ultimamente me tenho deparado com mais do que um caso em que tenho de avisar uma, duas ou três vezes de que a fatura está passada e que ainda nenhuma transferência foi recebida. Sinceramente, não me importo se, por algum motivo, o cliente não pode pagar de imediato e pelo menos me avisa, ou quando me indicam uma data prevista em que terei o dinheiro na conta. Eu confio. Eu percebo. Eu sei como é. O problema é, nos últimos tempos, eu estar a ganhar consciência sobre a injustiça desta situação, a ansiedade adicional que cria em mim e a "descontracção" com que me respondem quando pergunto mais do que uma vez onde pára o meu pagamento, respondendo que terá sido esquecimento.

 

Também tenho uma opinião pouco simpática quanto às desmarcações não remuneradas de última hora, que deixam um horário em branco, assim como a oportunidade de ter arranjado outro cliente para aquele período, quando ainda por cima nem há falta de quem esteja interessado; mas esse subtema teria indignação para um segundo texto.

 

Em suma, o que quero deixar por escrito é uma chamada de atenção para quem ainda não tenha pensado nisto, e um lembrete para quem já tenha: os pequenos negócios dependem da nossa preocupação e conduta para que sejam bem-sucedidos.

 

Por fim, não esquecendo os próprios trabalhadores independentes ou pequenas empresas, gostaria de lhes/vos recomendar: não tenham medo do que os vossos clientes vos respondam, peçam aquilo a que têm direito, insistam e, se não obtiverem a resposta que vos é devida, rejeitem quem desvaloriza o vosso trabalho. Não são poucas as vezes em que tenho dificuldade em lembrar-me destes princípios, mas são indispensáveis para a minha saúde mental e financeira.

Faz parte

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Faz parte a ansiedade. Faz parte o silêncio. Faz parte ter dias bons. Faz parte ter dias maus. Andamos todos nesta roleta russa de emoções, horas vagas e ocupadas, novidades e notícias, opiniões e impressões. Faz parte não saber muito, nem saber nada.

 

Também me sinto assim, mas estou a tentar interiorizar: faz parte. Não sei muito bem como me sinto, na verdade, só sei que é assim. Há momentos em que acho mesmo que estou contente e bem-disposta, mesmo que na hora seguinte dê comigo a ruminar de peito apertado. Aliás, escrevo este texto porque preciso de esvaziar tudo. Faz parte desabafar, mais do que nunca, e talvez a vulnerabilidade se torne mais popular daqui para a frente. Faz parte ser-se vulnerável, ter dúvidas e dores.

 

As pessoas à minha volta também estão assim. Agora, estamos em todo o lado, sem estarmos em lado algum. Tenho falado diariamente com amigos, continuo a dar aulas por videoconferência e a trabalhar pela Internet e no computador. Não me canso nos transportes, tenho mais tempo para dormir; só que não tenho sono, tal como não tenho concentração, e ando presa num ciclo de escassez. (O tempo encolheu, ou faz parte?)

 

Não é copo meio cheio, nem meio vazio – é só ter um copo e não saber o que se verte lá para dentro. Mas faz parte não ter respostas às perguntas que nos ocorrem agora, não é?

 

Faz parte ter saudades, sem data de regresso. Faz parte ter quebras de rede a meio duma conversa e ter de renovar votos pelo Skype. Faz parte mudar para o Zoom, porque o Skype está em baixo.

 

Faz parte olhar com preocupação, e ao mesmo tempo curiosidade, para as mudanças que se prevêem na economia. As estruturas económicas e sociais vão mudando, ainda que temporariamente, ainda temporariamente, e o desconhecido, a ameaça e a instabilidade fazem parte. Isto faz tudo parte duma receita que nunca experimentámos.

 

Faz parte não discernir o espaço de trabalho e de lazer, faz parte sentir a revolta de quem vê o seu emprego em risco, faz parte sentir um luto colectivo pelas vítimas. Faz parte acharmo-nos todos um bocadinho vítimas. Faz parte viver um dia de cada vez, porque não somos imunes ao que acontece aos outros. Enfim, faz parte pensarmos que isto está a correr muito mal, mas que por outros motivos tem seriamente de correr bem – para guardarmos a nossa sanidade mental, a dos que nos são próximos, a dos que estão longe, a de toda a gente. E ter esperança, faz parte? Espero que sim.

 

Faz parte juntar pânico e optimismo, chorar e rir no mesmo dia, sentirmo-nos sós e tão bem acompanhados. Faz parte ter partes e viver por partes.

Ler as notícias

Nos últimos meses, andei a sentir, mais do que nunca, a redundância das redes sociais e da comunicação social. No ano passado, o excesso de informação chegou mesmo a contribuir para os meus ataques de pânico e para o estado de pânico em que vivia em geral, mas continuei a consumi-la, ou a tentar consumi-la até ao início deste ano.

 

O excesso de informação fez-me sentir insuficiente. Eu queria ler as notícias, queria ler tudo, estar a par de tudo o que me interessava. Nunca achei que fosse FOMO (fear of missing out), porque eu não tinha medo, só tinha pena, antes considerando esta vontade de não estar alheia a nada como uma sede aparentemente saudável de saber mais. Afinal, se eu soubesse mais, também teria mais chances de ter tudo sob controlo.

 

Obviamente, isto não correu bem a longo prazo. A ansiedade constante é o preço a pagar, mas felizmente comecei a olhar em volta. Olhei para duas pessoas como exemplos especiais: o meu namorado só vê o telejornal ou vai ouvindo os canais de informação enquanto come, prepara a comida ou limpa a cozinha; uma amiga que é jornalista assegurou-me que nem ela está a par de tudo, apesar de trabalhar em notícias europeias para o nosso canal público. Nenhum deles é fã acérrimo de redes sociais, nem essa minha amiga, cujo trabalho também passa pela gestão de notícias no Twitter, Facebook, Instagram e por aí fora. Ambos consomem informação de forma equilibrada. Há momentos específicos para o fazer.

 

Aos poucos, apercebi-me da quantidade de tempo que passava com o nariz enfiado no telemóvel. Primeiro, instalei uma app para vigiar a utilização diária. Apesar de parte desse tempo ser gasto a trabalhar ou estudar (marcar aulas, tomar notas, falar com futuros clientes e parceiros, escrever, ler), a verdade é que cheguei marcar recordes inacreditáveis: entre cinco a sete horas por dia.

 

Desculpei-me a médio prazo com o facto de também passar muito tempo a falar com amigos e com o meu namorado por mensagens, e por nem sequer utilizar o computador. Por fim, descobri uma série nova de que gosto muito e concluí que aquelas três horas diárias a devorar episódios provavelmente correspondiam a três horas que eu passava a procrastinar na Internet noutros dias. Ora... Se tinha arranjado três horas para ver uma série, poderia continuar a arranjá-las sistematicamente para tantas outras actividades, certo?

 

Assim foi. Pelo meio, li o livro As Notícias, do meu autor favorito do momento, Alain de Botton. Neste livro confirmam-se as minhas suspeitas. Por exemplo, muitas das notícias que consumimos diariamente não são tão importantes quanto a urgência dos media faz parecer (e quem diz notícias diz conteúdos vários que nos passam pelos olhos avulso). Há uma tendência para a catástrofe, para o voyeurismo e para o que confirma a nossa suspeita de que o ser humano não presta. É normal, porque o nosso cérebro ainda não está formatado para a recepção constante de informação do século XXI, ainda não sabe seleccionar intuitivamente.

 

Enquanto consumidora, acho importante escolher conteúdos úteis e notícias que também sejam positivas, que não mostrem só a face negra da condição humana. Ser humano é saber o que vai mal no mundo, para assim sobrevivermos e sabermos o que há para melhorar, que batalhas lutar. Por outro lado, ser-se humano também é olhar para as conquistas, para feitos alheios e personalidades que admiremos, procurar respostas para o que podemos emular para nos desenvolvermos e crescermos; é regozijarmo-nos pela generosidade e talento alheios, é reconhecermos o valor acrescentado. É lermos e vermos informação graças à qual podemos tomar acção.

 

Em suma: nem sempre é imprescindível ler as fofocas sobre a celulite daquela cantora, nem conhecer os pormenores sórdidos do homem que assassinou a família com um machado, nem destrinçar a falência duma empresa do Japão ou o mais recente escândalo sexual ou político. Tal como no trânsito, podemos questionar-nos: que bem fará eu olhar? Que bem fará eu ler as notícias? 

 

Enquanto andamos distraídos a olhar para o lado - isto é, para as manchetes, alertas de última hora, títulos infindáveis sobre a nova crise da época, últimas descobertas científicas sobre propriedades antioxidantes do abacate colhido em lua cheia - podemos estar a perder algo realmente importante, bonito ou útil.

A última romântica

Para o João, que de repente me pôs a pensar nestas coisas

 

Entristece-me que as pessoas se revelem cada vez mais cépticas quanto à existência dum "amor para sempre". Antes dos casamentos, prevêem já os divórcios. Começam relações com a boca pequenina, passinho a passinho. Não se deixam arrebatar. É tudo morno, não é? 

 

Infelizmente, também eu me sinto vítima deste contexto cuidadosamente contido, muito quadrado. Tento contrariá-lo, mas prevalece um receio constante de prematuridade, que ao não partir de mim há-de partir doutros lados. Não estou a declarar quem afinal terá razão nesta equação que nos melindra, mas sim que nos anexamos à partida a crenças de amor e dedicação forreta, com medo de merecer essa atenção, e com medo de magoar quem nos quer tanto bem. Às vezes, até parece que só não temos medo de quem nos quer um pouco menos, pela familiaridade da potencial rejeição. Desculpamo-nos com antecedência, não se dê isto e aquilo... Desconfiamos até de quem oferece largueza, porque simplesmente não estamos habituados.

 

E contagiamos quem nos rodeia, uns aos outros. Incubamos atitudes defensivas. Cultivamos mais medo do desconhecido, observando à distância os românticos, com uma curiosidade de antropólogo-comentador-de-bancada.

 

Mas eu quero ser romântica - não necessariamente a última, apenas uma em muitos. Quero apreciar a aproximação das pessoas que fazem por isso, quero acreditar que há quem conheçamos hoje para o resto da vida, que veremos envelhecer. Talvez nos faltem modelos, vivos e de pensamento, para nos assegurarem da exequibilidade do amor [e da amizade] que se descobre, constrói, insiste, desconstrói e sobrevive.

 

Onde vamos beber desse conhecimento de causa? Às artes? Aos media? Aos autores contemporâneos ou aos clássicos? Muitos de nós vimos de famílias desmanchadas e remontadas, aprendemos o que é um casamento mas não aquele em que nos pretendemos envolvidos, vivemos na sociedade líquida que só acredita no "até mais ver" e no "por agora é isto". Mas nós queremos fé, onde antes só havia condicionamento, convenção e comodismo. Nós, esta geração que agora procura uma ressignificação do que é o amor para sempre, queremos não só mais, mas melhor.

 

No entanto, não se acha romântica, a geração líquida, porque se acha a meio dum processo que não entende. E eu a querer ser romântica, e por vezes a não conseguir, porque também me encho de dúvidas. Sou uma céptica a tentar curar-se. Paciência a rodos é necessária, minha e de todo o lado. E, acima de tudo, é preciso encontrar e conhecer a pessoa certa, que amoleça e amenize o impacto das paredes que vão caindo, uma a uma. Há que partir as que fui erguendo nos últimos anos. Tenho de aprender a não me sentir permanentemente ansiosa, com medo que as pessoas, amigos, futuros-tudo, não queiram realmente desmanchar a bagagem e ficar por aqui. Habituei-me ao efémero, um conformismo pelo fim que me assustou quando as minhas relações passadas (românticas e de amizade) terminaram. Fica um vazio, muitas perguntas irreplicáveis, alguma nostalgia, mas pouco mais, porque o fim eminente nunca tinha deixado de figurar nos créditos.

 

E se deixar...? Por que haveria eu de perpetuar o sentimento de perda antecipada? E se eu já tiver acordado para um "para sempre" sem o saber?

Porque, no final do dia, eu sinto que até tenho o que é necessário para ser a última romântica dos nossos tempos. Uma romântica com os olhos bem abertos, mas - ainda assim - uma romântica. E das pirosas.