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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

coisas do fim-de-semana

   Ela tem os pés frios, mas continua a escrever. Estendida em cima da cama, espreita para a janela, um pouco à frente, por onde entram algumas das luzes da rua… por onde entra a escuridão que as combate.


   Pela aparelhagem (três módulos – um corpo, duas colunas) a mulher, essa cantora comercial, grita ameaças ao ex-namorado, insulta-o, ridiculariza-o, recorda-o. São melodias fáceis de decorar, as que saem pelas colunas, com a voz da pobre abandonada e traída e desiludida a rasgar o instrumental. Troca de faixa, troca de sentimento - e de parágrafo.


   No quarto, existem dois roupeiros de madeira escura. Um tem espelhos, o outro tem barrigas nas portas, resultado dos largos aros dos vestidos antigos que lá dentro, outrora, eram guardados. Este último já foi herança de, pelo menos, umas tantas gerações, talvez as que tem uma mão. Nos dias que correm, alberga blusões de ganga, casacos de malha, casacos de desporto e casacões de Inverno, um vestido de baile, vários pares de calças e, na gaveta inferior, mais não sei quantos quilos de roupa de rapariga – roupa dela, claro está.


   E inicia-se a última faixa do CD que gira na aparelhagem. Lá fora, já é noite cerrada. A rapariga ignora o decorrer do tempo e continua a escrever, sem nunca conhecer a linha seguinte.


   À medida que escreve, lembra-se dos seus amigos. É engraçado como nunca lhe saem da cabeça. É capaz de se esquecer de si própria, mas jamais deles. São todos muito diferentes uns dos outros, pensa. Por vezes, pergunta-se sobre o que aconteceria se os juntasse numa única divisão. O provável seria desentenderem-se durante a primeira hora. Sim, ela tem amigos demasiado diferentes entre si.


   Ouvem-se carros a passar na estrada em frente da sua janela. Até há quem faça corridas nessa mesma estrada, tão comprida, com mais de um quilómetro e sem muito tráfego, principalmente à noite. Ela não sabe quem os conduz, mas imagina que se tratem de jovens inconscientes (ou mesmo de adultos inconscientes) que têm por hábito gastar montes de dinheiro a transformar bólides com matrícula de 98, para parecerem ser mais recentes… mais fixes. Os motores rugem, os pneus guincham, o alcatrão fede a borracha queimada e os corredores ao volante acordam os moradores.


   O CD já parou de tocar, mas ela, que ainda consegue ouvir as músicas a ecoarem-lhe ao ouvido, só se apercebe mais tarde.


   Agora, são os cães que ladram lá fora. Existem montes de cães na vizinhança, porque cada casa, por motivos de segurança ou amor, tem pelo menos um. Há grandes que, apesar de ladrarem grosso, são uns medricas envergonhados; há pequenos que ladram fininho, mas que mordem como gente crescida; há médios que fazem o que bem lhes apetece.


   No quarto da rapariga que não consegue parar de escrever, também há uma estante de seis prateleiras. A de cima tem peluches, a segunda tem montes de livros, a terceira tem CDs, canecas de colecção, objectos do dia-a-dia e as três últimas encontram-se cheias de mais tralha: livros e material escolar, pastas, capas, papelada, inutilidades.


   Como tem de ir jantar, ela começa a tentar imaginar um parágrafo final, apressadamente, de modo a que o texto não termine abruptamente. Rebusca possíveis reflexões inteligentes, conclusões floreadas ou o que mais não seja uma última frase que permita ao leitor continuar a imaginar o que mais poderia vir a ler. Infelizmente, não consegue, e o seu estômago ronca, desagradado.


   Não, não há mais nada que possa ser dito. Apetece-lhe chorar de frustração, pelo que poderia ter escrito e não escreveu. Já é tarde, não é? Terá de se levantar em breve e reiniciar a rotina nocturna de quem ainda tem de ir jantar.


   Hambúrguer grelhado no pão?, oferece ela. Desculpem, mas só há para mim.

coisas do fim-de-semana

   Ela tem os pés frios, mas continua a escrever. Estendida em cima da cama, espreita para a janela, um pouco à frente, por onde entram algumas das luzes da rua… por onde entra a escuridão que as combate.

   Pela aparelhagem (três módulos – um corpo, duas colunas) a mulher, essa cantora comercial, grita ameaças ao ex-namorado, insulta-o, ridiculariza-o, recorda-o. São melodias fáceis de decorar, as que saem pelas colunas, com a voz da pobre abandonada e traída e desiludida a rasgar o instrumental. Troca de faixa, troca de sentimento - e de parágrafo.

   No quarto, existem dois roupeiros de madeira escura. Um tem espelhos, o outro tem barrigas nas portas, resultado dos largos aros dos vestidos antigos que lá dentro, outrora, eram guardados. Este último já foi herança de, pelo menos, umas tantas gerações, talvez as que tem uma mão. Nos dias que correm, alberga blusões de ganga, casacos de malha, casacos de desporto e casacões de Inverno, um vestido de baile, vários pares de calças e, na gaveta inferior, mais não sei quantos quilos de roupa de rapariga – roupa dela, claro está.

   E inicia-se a última faixa do CD que gira na aparelhagem. Lá fora, já é noite cerrada. A rapariga ignora o decorrer do tempo e continua a escrever, sem nunca conhecer a linha seguinte.

   À medida que escreve, lembra-se dos seus amigos. É engraçado como nunca lhe saem da cabeça. É capaz de se esquecer de si própria, mas jamais deles. São todos muito diferentes uns dos outros, pensa. Por vezes, pergunta-se sobre o que aconteceria se os juntasse numa única divisão. O provável seria desentenderem-se durante a primeira hora. Sim, ela tem amigos demasiado diferentes entre si.

   Ouvem-se carros a passar na estrada em frente da sua janela. Até há quem faça corridas nessa mesma estrada, tão comprida, com mais de um quilómetro e sem muito tráfego, principalmente à noite. Ela não sabe quem os conduz, mas imagina que se tratem de jovens inconscientes (ou mesmo de adultos inconscientes) que têm por hábito gastar montes de dinheiro a transformar bólides com matrícula de 98, para parecerem ser mais recentes… mais fixes. Os motores rugem, os pneus guincham, o alcatrão fede a borracha queimada e os corredores ao volante acordam os moradores.

   O CD já parou de tocar, mas ela, que ainda consegue ouvir as músicas a ecoarem-lhe ao ouvido, só se apercebe mais tarde.

   Agora, são os cães que ladram lá fora. Existem montes de cães na vizinhança, porque cada casa, por motivos de segurança ou amor, tem pelo menos um. Há grandes que, apesar de ladrarem grosso, são uns medricas envergonhados; há pequenos que ladram fininho, mas que mordem como gente crescida; há médios que fazem o que bem lhes apetece.

   No quarto da rapariga que não consegue parar de escrever, também há uma estante de seis prateleiras. A de cima tem peluches, a segunda tem montes de livros, a terceira tem CDs, canecas de colecção, objectos do dia-a-dia e as três últimas encontram-se cheias de mais tralha: livros e material escolar, pastas, capas, papelada, inutilidades.

   Como tem de ir jantar, ela começa a tentar imaginar um parágrafo final, apressadamente, de modo a que o texto não termine abruptamente. Rebusca possíveis reflexões inteligentes, conclusões floreadas ou o que mais não seja uma última frase que permita ao leitor continuar a imaginar o que mais poderia vir a ler. Infelizmente, não consegue, e o seu estômago ronca, desagradado.

   Não, não há mais nada que possa ser dito. Apetece-lhe chorar de frustração, pelo que poderia ter escrito e não escreveu. Já é tarde, não é? Terá de se levantar em breve e reiniciar a rotina nocturna de quem ainda tem de ir jantar.

   Hambúrguer grelhado no pão?, oferece ela. Desculpem, mas só há para mim.

eu: leitora

   Quando leio um livro, apercebo-me de peculiaridades muito estranhas sobre mim enquanto leitora. Considero-me um bocado anormal, se me permitem. Anormal. Ainda não se habituaram a conhecer alguém que se ache ela própria uma anormal? ANORMAL. EU SOU ANORMAL.


   E porque é que sou anormal? Porque nunca vi ninguém agir como eu, a partir do momento em que pega num livro.


   A partir do momento em que pego num livro, não me coíbo de me rir às gargalhadas, se a narrativa assim o proporcionar. Mesmo que esteja num local público, se ler algo que me agrada particularmente, que me deixa bem-disposta e a que eu acho imensa piada, rio-me com vontade e ainda sou capaz de me virar para quem estiver por perto, ouve só isto. Depois, se essa pessoa tiver a mesma opinião que eu sobre o que lhe leio, fico feliz e volto ao que estava a fazer antes, em silêncio; se, por outro lado, me julgar louca e me fizer uma careta, não percebi a piada, volto simplesmente a ler. Igualmente em silêncio.


   Mas, de vez em quando, também choro. E, quando choro por motivos literários, choro que nem uma madalena. Quanto a essas passagens que me comovem, não as costumo partilhar. Evito-o. Prefiro anotá-las no meu bloco de notas, para poder recordá-las na posterioridade. Há pessoas que se emocionam com filmes; eu emociono-me com filmes e livros.


   Mas a lista não se fica por aqui. Outro dos aspectos que me torna uma leitora absolutamente hilariante (eufemismo para estranha) são as posições em que me coloco a ler. Até agora, a mais particular de que me lembro foi ter-me deitado na cama com os pés para a cabeceira, só que, não contente em os ter em cima da almofada, decidi que estaria bem mais confortável com eles a empurrar o tecto rebaixado (o meu quarto fica no sótão). E também já houve uma vez em que fiz exercícios para aumentar a flexibilidade, no chão, enquanto estudava, a sugestão da minha professora de Educação Física.


   No entanto, nada se iguala à minha capacidade de concentração (exagero que vocês, decerto, compreenderão). Certa vez, quando a minha turma foi obrigada a ler individual e silenciosamente A Cidade e as Serras durante uma aula de Português, ninguém estava muito motivado a fazê-lo e, claro, essa falta de vontade resultou numa galinácea barulheira. Admito que fui incapaz de ler sem parar durante hora e meia uma obra de que nem sequer gosto, mas orgulho-me de dizer que consegui ler os três primeiros parágrafos, a muito custo, abstraindo-me do ruído. Isso levou-me trinta minutos de aula. Nos restantes sessenta, como devem calcular, não fiz ponta de nada (quase. Li mais um capítulo, mas mais devagarinho).


   A última proeza de que me orgulho é conseguir comer enquanto leio, sem sujar as páginas com chocolate, gordura ou outro ingrediente qualquer. Não soube dela até há pouquíssimo tempo, quando decidi que, apesar de gelado e José Luís Peixoto não rimarem, havia alguma probabilidade de ambos conjugarem harmoniosamente um com o outro. (Pensando bem, talvez haja por aí muita gente que consegue fazê-lo melhor do que eu… Mas deixem-me vangloriar-me, vá lá!)


   Além das que já enumerei, também faço outras coisas ao mesmo tempo que leio, mas considero-as demasiado vulgares. Toda a gente consegue cantar ao mesmo tempo que lê; toda a gente consegue ir fazendo festinhas aos seus cães ao mesmo tempo que lê; toda a gente consegue ouvir música techno ao mesmo tempo que lê (menos eu). No fundo, eu sou só mais uma anormal que escreveu este texto, à espera que ninguém lhe venha dizer “ei, eu também consigo fazer isso!”


 


(Está bem, podem dizer…)

a vaca com asas

Imaginem uma vaca com asas. O que é que vêem? Conseguem vê-la, sequer? Eu não sei se a vejo, se a imagino, se a defino numa imagem, mas tenho uma vaga ideia desta criatura.


É uma vaca malhada, com manchas pretas sobre manchas brancas - ou manchas brancas sobre manchas pretas. Do seu dorso saem duas asas minúsculas e brilhantes, que o peso da realidade impediria de suportarem um animal tão pesado, mas que, hipoteticamente, na minha dimensão imaginada, podem levar a vaquinha aos mais berdejantes prados do céu. Aparentam ser frágeis, quase quebradiças, como vidro de açúcar. São mais ficas do que o papel e fazem-se cobrir de escamas minúsculas do que os peixes mais minúsculos têm. 

A vaca olha o mundo através de dois olhos enormes e expressivos, escuros, ternos, alegres e transparentes, deixando ver a sua alma pura, lavada pelo orvalho que salpica a erva do seu almoço.

As suas patas assentam no solo húmido com uma segura firmeza de gente crescida, mas que pousam, fraternamente, lado a lado, com os pequenos bichos que vivem colados ao chão. Apesar da imponência do seu tamanho e estrutura, ela não deseja esmagá-los.

E, quando passa pelas outras vacas - aborrecidas, normais, entediantes vacas - não hesita em exibir a sua diferença. Ela tem asas, algo com que mais nenhuma pode sonhar! Se a olham de viés, cépticas e trocistas, a vaquinha continua o seu caminho, de focinho erguido em direcção ao infinito, porque ela é a especial. Ela é diferente e as diferenças é que fazem o mundo.


E agora? Já conseguem vê-la?

ode às dores de barriga

Oh, cintura que dói, cintura que maça,


Mais comprimidos? Ai, que desgraça!


Nem me deixas sentar correctamente... 


É-te indiferente estas guinadas que dás


Mais o desconforto que cada uma traz.


 


(as dores são demasiadas para continuar a escrever, afectando-me a parte do cérebro que tem a capacidade de inspiração para escrever coisas parvas)