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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

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Amanhã é Dia da Mãe

Provavelmente, amanhã não vou conseguir estar aqui no computador, por isso aqui fica o meu pensamento deste ano.

 

Não devo ser um caso único no que toca a filhos cujas mães os deixaram de contactar, só porque sim. No entanto, é capaz de haver casos bem mais complicados do que o meu.

Eu tive uma mãe quando nasci e agora tenho outra. Sempre tive pelo menos uma mãe, pelo que não me posso queixar. Tive a minha mãe-mãe e, mais ou menos desde sempre, tenho tido a minha mãe-avó, que é a minha mãe-mais-do-que-tudo-na-vida. Ao contrário de mim, há mais pessoas por este mundo fora que só tiveram uma mãe e que ficaram sem ela, tanto por vontade das ditas, quanto pelas circunstâncias da vida (e, sejamos directos, da morte). Ou ficaram com os respectivos pais, irmãos ou outros parentes, ou tiveram de se orientar sozinhos. Eu tive sorte: tenho a minha avó, o meu pai e a minha tia.

Nunca me considerei desafortunada por não ter a mãe de sangue que todas as crianças merecem, nunca me martirizei, nunca pensei "coitadinha de mim, rejeitada pela própria mãe". Eu tenho muito mais do que a maioria das pessoas poderia alguma vez querer, mesmo aquelas que têm mães e pais de sangue vivos e de boa saúde. Eu tenho amor e o resto é treta. 

A minha família não é perfeita, como é evidente. Nem a minha mãe-avó é perfeita. Vai-se a ver e o que importa realmente é tentarmos sê-lo, nada mais. A minha avó não tem o dever de me criar, mas criou. A minha avó não tem o dever de me dar tudo o que pode e de me pagar os estudos, a comida, a roupa, a casa que construiu para que um dia seja minha, mas faz tudo isso, todos os dias, e muito mais. A minha avó não tem o dever de me vir aconchegar os lençóis e de me dar um beijo de boa noite quando vou para a cama, principalmente agora que já não sou bem uma criança, mas ela fá-lo e ainda me adormece com festas na cara. Sempre foi para casa da minha avó que eu quis ir - desde que me lembro que é o meu local preferido - e, involuntariamente, acabei por cá ficar para sempre.

Gosto de pensar que tenho uma sorte do caraças. Eu tive quem olhasse por mim a todas as horas, incondicionalmente, uma vez que a minha avó está reformada há imenso tempo. Por isso é que nunca me sinto uma vítima, porque não tenho motivos para tal. As pessoas podem achar estranho eu falar tão abertamente do assunto, mesmo com quem não tenho grandes afinidades, mas não há aqui tabús.

Não vão mais longe: quando o meu pai quis pedir uma pensão de alimentos à minha mãe, ainda que ela não me quisesse contactar, abriu-se um processo no tribunal, devia eu ter uns onze ou doze anos. Pelo meio, tive de me encontrar com uma psicóloga (ou assistente social?) e de ir a uma sessão com a juíza. A juíza, com idade para já ser mãe de família, ficou muito chocada quando lhe disse abertamente que não me importava de não ver a minha, que não tinha saudades, que tinha avó, pai e tia. Fartou-se de me perguntar se eu tinha a certeza, se era mesmo assim que eu pensava, e eu repetia que não fazia mal, que estava tudo bem - por que não haveria de estar? Só mais tarde, no último par de anos, é que me comecei a questionar acerca de como seria a minha vida se a minha mãe continuasse a manter contacto comigo, o que é que eu lhe perguntaria, o que saberia sobre ela, as coisas que teríamos em comum...

Mas para quê, afinal? Para quê remoer em perguntas que jamais terão resposta? Eu já sou o resultado pelo qual a minha avó trabalhou - sou igual a ela, de feitio, nas respostas, nas manias, nas irritações, nos objectivos, na preserverança, na maneira de pensar, na maneira de me relacionar com os outros... Eu sou como sou porque tenho uma mãe em quem me revejo e, por outro lado, eu sou uma filha em quem ela se revê. 

Esta é a minha realidade. Mãe é aquela pessoa que dá tudo por nós e que nos molda à imagem que imagina do que deve ser uma pessoa bem formada de espírito, quem nos segue até Marte se for necessário e quem, acima de tudo, nunca deixa de acreditar no bem que temos dentro de nós e no nosso potencial. É quem nos incute valores que nos acompanham para o resto da vida. É para a nossa mãe que olhamos à procura de referências - o que é que ela faria/diria/responderia/pensaria?

 

 

 

Para mim, a verdadeira Mãe é a figura que nos persegue até em sonhos para ralhar que estamos atrasados para o autocarro/andamos a comer mal/precisamos de engomar as calças/temos de fazer a depilação, só para que não a desiludamos e para que nos tornemos melhores indivíduos, dia após dia. E, se for como a minha mãe-avó, declara sempre que possível que depois de morrer vai continuar a tomar conta de nós e que vai estar sempre a ver-nos, para nos poder proteger. Hoje foi até colocada a hipótese de ela se meter na cama comigo e com o Ricardo (ou seja com quem for que eu fique), se ele alguma vez me falhar. Eu cá, se já lhe tenho muito respeitinho enquanto viva, não arriscaria desafiá-la noutra condição de existência.

 

Enfim.

Feliz Dia da Mãe!

A cena de se ser filho único

Ser filha única é moderadamente fixe. Tanto me queixo eu, que não tenho irmãos, como outra pessoa qualquer que os tenha, pois haverão sempre benefícios e desvantagens a apontar por ambos os pontos de vista.
Para mim, ser a menina do papá, da avó e da tia, com quem vivo, implica ter seis olhos atentos a cada passo que dou. O que um não observa, os outros não descuidam. Sei que sou muito mais protegida do que a maioria das pessoas da minha idade ou até mais novas. Se já me atrevi a dar um passo em falso, garanto-vos que correu quase sempre mal. Não há outra opção para mim que não a de continuar a viver consoante as expectativas. Nisso, considero-me uma adolescente submissa (apesar de a minha submissão ter melhores dias que outros, evidentemente… mas também sou uma miúda moderadamente calma).
Contudo, ser filha única não deixa de ser epicamente bom, trazendo as vantagens que traz - tal como sou o centro das atenções para o mal, sou-o igualmente para o bem, o que acaba por “compensar”: o orçamento da casa tem-me unicamente a mim em consideração; se fico doente, correm logo a encher-me de mimos e, se necessário, medicamentos (ou levam-me ao hospital sem se preocuparem com quem fica o resto dos filhos porque… não os há!); quando se trata de dar prendas, não há cá divisões de capital disponível (é tudo para mim, *riso maléfico não convincente*); não tenho de seguir nem de servir de exemplo a ninguém; só têm de se preocupar com uma reunião de pais na escola; “só” têm de pagar doze anos de escolaridade obrigatória; “só” têm de pagar uma universidade; há mais orçamento familiar para ter animais de estimação; morrerei com o coração virgem de sentimentos negativos fraternais; posso ter um quarto só para mim; no Inverno, o aquecedor é só meu; não preciso de partilhar… E a lista de egoísmos continua. Podem crer que sou uma daquelas filhas únicas mimadas até ao tutano.
Ainda assim, reconheço que a experiência de ter irmãos deve ser fascinante, pelo menos nalguns casos (não me refiro, claramente, àqueles que quase se matam durante uma mera discussão sobre peúgas). Na minha opinião, ter um irmão implica, num sentido muito figurativo, ter um coração maior. Afinal, ele é mais uma pessoa que existe para amarmos (e odiarmos, quando calha) incondicionalmente e que faz parte da nossa vida, quer queiramos, quer não. Os irmãos acabam por se compreender e apoiar entre si de uma maneira única: o “inimigo” é o mesmo, os desejos são idênticos e é sempre mais fácil entender e ser entendido por alguém que seja da nossa geração. Ser o irmão mais velho é aprender a ser paciente e generoso; ser o irmão mais novo é ter uma referência fiável sem ser as figuras paternais. Não é preciso ter irmãos para conhecer essa realidade.