Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Este Verão

IMG_20210927_144524.jpg

 

É provável que eu já tenha aqui escrito sobre o assunto, mas nunca é demais reconhecê-lo e relembrá-lo: semana a semana, mês a mês, dia a dia, achamos sempre que pouco acontece.

 

A nossa vida parece não mudar, parece estar sempre "na mesma como a lesma", raros são os eventos de monta, os momentos passam sem andarmos sempre a reparar neles a cada segundo. Mas o caminho é em frente. Há quem costume dizê-lo, e realmente faz sentido. Vai-se fazendo, pensando, criando, evoluindo - sabe-se lá o quê, do quê.

 

Por isso, é sempre com grande admiração que chego a Setembro, a olhar para o que se passou nos oito ou nove meses anteriores, como se fosse quase impossível ter feito tanto em tão pouco tempo. E o mundo e as outras pessoas também não pararam. Ainda agora era Junho e eu pensava que nada de especial acontecera ou poderia vir a acontecer, e de repente é Setembro e...

 

É como magia. De facto, menosprezo e subestimo insistentemente a acumulação natural de pequenos feitos e alterações na minha própria vida ao longo do tempo. Tudo junto dá uma bela conta de somar com que me distraí.

 

Este Verão, em particular, parece ter permitido o florescimento de várias primaveras.

 

Em Julho, escrevi algumas ideias sobre o que esperava fazer nos meses seguintes - um prazo a terminar por volta desta altura em que faço o famoso balanço da última estação. Queria atingir com antecedência a minha meta de 30 livros para 2021, queria escrever como nunca me convenci a escrever, queria adoptar um novo passatempo... E consegui fazer tudo isso e mais alguma coisita.

 

Principalmente os dois últimos meses passaram a voar. Ainda mal acredito.

 

Portanto, agora posso dizer que estou a escrever um livro que já conta com 87 000 caracteres. Pelo meio, escrevi contos, anotei ideias para empreitadas futuras e voltei a inscrever-me em concursos literários.

 

Passei a ter ao meu cuidado cerca de 20 a 30 vasos de plantas (árvores, suculentas, flores...). Estou incrédula, este novo interesse apoderou-se de mim.

 

Tenho lido com curiosidade e em abundância. E até ando a ler quase todos os livros que compro!

 

Ouvi dezenas de horas de podcasts, quase todos sobre escrita, autores, escritores e psicologia.

 

Finalmente estou a conseguir organizar o meu espaço de trabalho. E comecei a cobrar mais na minha actividade profissional e a estabelecer limites horários, o que me permitirá trabalhar menos e melhor, para poder escrever e estudar.

 

Consegui publicar com alguma regularidade e o blog foi destacado muitas vezes nas páginas dos Blogs do Sapo e no Sapo.

 

Ao fim de mais de dez anos, voltei a fazer crochet.

 

Fui estando com família e amigos que me visitaram ou que pude visitar, e falei muitas horas ao telefone com eles.

 

Nos últimos dias, retomei o exercício físico. 

 

Pensei muito bem no que quero mesmo fazer nos próximos anos, e como fazê-lo, a começar agora.

 

O Outono começou, de dia ainda faz calor apesar de as noites já estarem frias, daqui a três semanas recomeço o mestrado e começo a pós-graduação.

 

Os meus alunos vão voltar das suas férias e mudanças de casa, por isso vou voltar a dar a quantidade de aulas do costume.

 

Este fim de semana, vou arrumar a roupa fresca e vou buscar a roupa quente ao roupeiro da tralha.

 

Daqui a pouco, vai cheirar ao fumo das chaminés, a primeira versão do meu livro vai estar terminada e o meu cérebro vai voltar a pensar que os dias são aborrecidos, escuros e pouco produtivos por causa da meteorologia adversa e a luz fraca que me deprimem. A minha lista de tarefas vai ficar a abarrotar com trabalhos, projetos e novidades com as quais ainda nem sonho.

 

Daqui a pouco, há-de chegar outra fase. Mais uma. Só mais uma, antes de todas as outras, a toda a velocidade ou sem pressa nenhuma.

O livro mais útil para trabalhadores independentes e freelancers

Gostei tanto da minha chefe no primeiro trabalho sério da minha vida, que jurei nunca mais voltar a trabalhar por conta de outrem se não pudesse ter superiores tão bons líderes, generosos e apoiantes do meu desenvolvimento quanto ela. Foi aquela senhora, professora catedrática, sonhadora, imparável, que me mostrou o quão decisivo é alguém acreditar no nosso potencial para ser inovador, pensar criativamente e empreender esforço em prol de projectos que nos mudam e mudam os outros. Era exigente e não permitia desculpas quando tinha de ser, mas também sabia cuidar dos seus e zelar pela sua alegria e bem-estar.

 

Eu já sabia que dificilmente voltaria a ter uma chefe assim. Sabia que teria sempre dificuldade em aceitar menos do que já me tinha sido dado e que lidar com maus chefes, ou chefes insuficientes, seria um tormento.

 

Por isso, do alto da minha ingenuidade propus-me a não me contentar com qualquer tipo de trabalho como um princípio fundador da minha vida profissional futura, e até agora tenho tido a alegria de continuar a ter condições para ser trabalhadora independente.

 

Mas ser trabalhadora independente tem desafios para os quais raramente estamos preparados, porque só os conhecemos realmente quando os temos de enfrentar, quando eles inegavelmente aparecem na nossa vida para ficar.

 

É sobre isso que a jornalista e escritora britânica Rebecca Seal escreve no seu livro Solo: how to work alone (and not lose your mind). Em Portugal, chama-se A solo: como trabalhar sozinho (e não dar em doido), e está publicado pela chancela Vogais.

 

IMG_20210809_233814.jpg

 

Para mim, as maiores dificuldades passam pela gestão do tempo e da motivação. Mas também sei que, em grande parte, essas são dificuldades resultantes do isolamento e da sensação consequente de estar só, para o bem e também para o mal.

Como já escrevi sobre este livro e a minha experiência como trabalhadora independente há alguns dias, não me alongarei muito mais agora. Ainda assim, não posso deixar de o recomendar a quem estiver na mesma situação profissional e precisar de relembrar ou aprender mais sobre como não perder o juízo, o tempo ou o dinheiro. Em Solo, Rebecca Seal conta-nos muito do que devemos saber sobre a gestão de expectativas, sobre a ansiedade e o equilíbrio emocional, sobre finanças pessoais, sobre perseverança, chamadas de Zoom e hábitos saudáveis que podem ser adoptados. E, quase no fim, ainda dá umas dicas de decoração e conselhos para quem, apesar de trabalhar noutro sítio qualquer, num ambiente mais tradicional, coabita com pessoas que trabalham a partir de casa (que eu imediatamente partilhei com o João e que aproveito para deixar aqui numa mini-galeria - porque isto, meus amigos, é serviço público).

 

 

Destes últimos pontos mencionados, devemos salientar que é essencial darmos prioridade ao conforto e funcionalidade no local onde nascem as nossas melhores ideias e onde temos de passar pelas situações mais aborrecidas; e que devemos, já hoje, conversar e mostrar às nossas famílias de que forma podem contribuir e ajudar-nos.

 

Este foi, até ao momento, o livro que melhor resumiu o caminho profissional que escolhi e que melhor respondeu às minhas dificuldades de trabalhadora por conta própria. Solo talvez seja o livro mais útil para trabalhadores independentes ou freelancers, seja para os que já sabem a lição toda de cor ou para aqueles que precisam de uma espécie de raspanete ou de uma dose de realidade (sempre com bom humor, boa disposição e bons testemunhos).

 

Além disso, se estiverem a pensar numa mudança de carreira, esta também é uma leitura obrigatória, a que vos vai convencer ou dissuadir deste caminho profissional.

 

Entretanto, se tiverem mais sugestões de leitura semelhantes, por favor, avisem! E, se tiverem dúvidas sobre este caminho profissional, podem sempre enviar-me um comentário, mensagem ou e-mail.

As dores do trabalhador independente

IMG_20210809_233814.jpg

 

Living with solitude is a skill we all need and one we can improve, but being alone all day, every day or even most days, can be tough. It is much harder to frown out your inner critic when you don't have other, noisier people around to shout over it, or quieter ones to talk you down, and though it might spur on creativity and innovation, it's also much easier for unwanted thoughts to bubble up and overtake you. - Rebecca Seal, em How to Work Alone (and Not Lose Your Mind)

 

Trabalhar por conta própria torna as nossas dores muito solitárias. Se, por um lado, todas as vitórias parecem arrancadas a ferro e fogo, contra todas as expectativas, provando o esforço empreendido e a argúcia que lá encontrámos para resolver os desafios, por outro, todas as dores permanecem no nosso peito, quais batatas quentes que ficaram a arder no nosso colo, por não termos a quem passar o fardo. Não temos ninguém com quem partilhar o fardo das dificuldades, das desilusões ou dos insucessos. Estamos por nossa conta, para o bem (efémero, fácil de esquecer) e, acima de tudo, para o mal (o que mais relembramos, insistentemente).

 

De facto, é mais fácil prestar atenção ao que corre mal, do que ao que corre bem. Maldito enviesamento cognitivo! Diz a ciência que, para cada coisa negativa, devemos ter três positivas. Para quem trabalha sozinho, esta percepção errónea mata aos poucos a nossa confiança e o nosso bem-estar global.

 

Ultimamente, a existência de altos e baixos nas minhas atividades tem-me deixado mais cansada. Parece que, para cada nova alegria e fonte de satisfação, germina um novo obstáculo. Por outro lado, tenho de me recordar com frequência que o que interessa é não regredir, mesmo quando não há progresso. E que, além dessas atividades profissionais mais óbvias, tenho outras atividades nas quais posso encontrar consolo e realização - a escrita e o estudo sendo exemplos claros disso, não me trazendo remuneração neste momento, mas representando vitórias de um tipo diferente, não menos válido e, decerto, valioso na mesma medida.

 

Para colmatar alguma solidão sentida no processo, sinto que tem ajudado falar com uma amiga, também ela freelancer. Ultimamente, partilhamos dores muito parecidas, nas suas causas, manifestações, efeitos. Seja a ansiedade, seja a autoestima (temporariamente) posta em causa, seja as mil interrogações sobre o que fazer, quando fazer e como fazer... Sem dúvida, ajuda dividir as dores, mesmo que numa curta chamada ou mensagem, como faríamos ao almoço com colegas de trabalho, se trabalhássemos no mesmo espaço físico, no mesmo emprego.

 

Aliás, esse é um dos conselhos que li este fim-de-semana no livro que vos sugiro até sem ter chegado a meio da leitura, Solo: How to Work Alone (and Not Lose Your Mind):

Ser trabalhador independente a partir de casa, no meio duma pandemia, a viver longe da cidade, não tem de ser uma atividade solitária e isolada, ainda que pela sua natureza tenha de ser uma atividade realizada de forma individual, a sós com a nossa própria pessoa e mais ninguém (a tal que, tantas vezes, se tem de desdobrar em empregado, chefe, contabilista, marketeer, criativo, estafeta, gestor de equipa...; e que, por isso, se encontra exausta).

 

Ou seja, partilhar a experiência com mais gente da nossa confiança, que num contexto de empresa adoraríamos ter como colegas, pode ser uma solução para não nos sentirmos tão desacompanhados e para, acima de tudo, eles nos irem lembrando daquilo que teimamos em esquecer - como a normalidade das dores absolutamente inevitáveis, quiçá fundamentais, desta escolha profissional/económica que tomámos há uns anos. E que está tudo bem. E que não há problema sério nenhum, só as queixas habituais.

20/30 (necessidade de mentores)

Quem trabalha numa empresa, organização ou carreira facilmente encontra mentores. É a impressão com que fico. Eu mesma encontrei na minha antiga chefe um exemplo a seguir, caso me tivesse continuado a identificar com a carreira académica naquele momento, e naquelas circunstâncias.

 

Ultimamente, sinto cada vez mais falta de encontrar uma figura que represente um modelo a seguir, alguém mais velho, uma espécie de autoridade, cuja vida profissional me inspire e sob a qual eu possa ir construindo a minha, com quem simultaneamente partilhe interesses e visões do mundo. Sim, eu sou um caso muito específico, o meu trabalho (e qual deles?) não é o mais comum de sempre, mas é mais difícil racionalizar um momento de dúvida acerca do caminho a seguir quando não se conhece ninguém que o tenha calcorreado antes. Como reagir, o que é normal, qual o próximo passo? Serão todas as vidas profissionais criativas diferentes e provocadoras de sentimentos de insegurança relacionados com a fraca identificação ou existência de pares directos?

 

Assim, vou encontrando vários mentores, que não são bem mentores, no sentido de serem pessoas que eu conheça na vida real e com quem possa discutir ideias, mas que são personalidades cujo trabalho respeito. Actualmente, por aproximação e uma certa alucinação, destaco escritores que tenho tentado conhecer melhor (destaco Ann Patchett, Alexander Chee, Susana Moreira Marques ou Tati Bernardi), ou profissionais doutras áreas, como do ensino ou da formação, uns mais anónimos do que outros, que me apresentam, mesmo sem quererem, possíveis trilhos a experimentar na minha longa jornada e princípios que orientaram as suas acções.

 

E precisaremos todos, afinal, desses mentores? Ou será a minha necessidade de me sentir profissionalmente compreendida fruto de um momento mais inquietante, de mudança, transição e questionamento inevitável? E mais: como e onde encontrá-los?

17/30 (se me tivessem dito)

Se me tivessem dito o quão difícil seria, eu nunca teria saído do meu lugar. Se me tivessem dito o quão doloroso seria, eu teria antes continuado a minha vida de todos os dias, uma vida com certeza mais pacata e facilitada. Se me tivessem dito o quanto eu me iria arrepender (para no segundo seguinte só ter espaço para me orgulhar dos meus feitos), eu jamais escolheria cegamente continuar a estudar enquanto trabalho, pelo quase oitavo ano consecutivo.

 

Não sei o que é a vida sem trabalhar e estudar ao mesmo tempo. No máximo, talvez tenha passado seis meses sem o fazer em simultâneo, desde os 18 anos. O que é meio ano, principalmente quando se sabe que é apenas um interregno, umas pequenas férias de fazer imenso, fazendo só muito?

 

Se me tivessem dito o quanto me custa não poder terminar o dia de trabalho e ir fazer o que quer que me apeteça, eu nunca teria decidido ir avante com o primeiro mestrado, aulas ao Sábado e ao Domingo, e a ter por vezes jornadas de 9 horas de aulas para dar nos dias úteis. Mas ninguém me disse, e foi assim que me transformei de estudante-trabalhadora em trabalhadora-estudante. Depois disso, nunca mais parei, antes pelo contrário. Acumulei sempre o trabalho e os estudos pós-graduados, ora mestrados ora uma pós-graduação, e também formação profissional. E tantas outras coisas, que o povo pode chamar de "sarna para me coçar". De qualquer forma, há qualquer coisa assustadora na adrenalina obtida que me obriga a realizar matrículas ano após ano.

 

Fico tão contente quando me aceitam e quando me lançam notas e emitem diplomas, mesmo quando desespero em noites de sexta-feira, achando que não deveria estar a ler sobre teoria da literatura, mas sim a ler outra qualquer literatura numa ocasião como esta. E, antes de adormecer, confirmo: eu gosto mesmo disto, não gosto? Disto que é estar sempre a aprender estruturadamente, de saber que tudo o que sei é imperfeito, e que consigo passar a ser e pensar melhor se a tal me propuser.

 

Se me tivessem dito que aqui continuo, não acho que fosse acreditar. Ainda assim, assim é. Lá vou eu atrás da cenoura da minha montada. Nesta etapa, já não consigo parar a corrida.

11/30 (as mulheres dizem)

As mulheres dizem, os homens negam.

As mulheres dizem que têm medo de andar na rua, de dia ou de noite, os homens negam.

As mulheres dizem que os piropos, assobios e comentários despropositados são atentados contra a sua integridade física e a sua segurança, os homens negam.

As mulheres dizem que são vítimas desde pequenas, os homens negam.

As mulheres dizem que não saíram de relações física ou psicologicamente violentas antes, porque não tinham força, apoio ou sequer noção do que lhes estava a acontecer, e não por falta de desconforto, dor ou trauma, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem ameaçadas por mensagens sexuais não solicitadas que recebem na Internet, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem discriminadas no mercado de trabalho, ora porque ganham menos, ora porque não têm acesso facilitado às mesmas carreiras e oportunidades, ora porque colegas e chefes do sexo masculino as oprimem e adoptam comportamentos no mínimo condescendentes, os homens negam.

As mulheres dizem que há expectativas irrealistas sobre a sua imagem, os homens negam.

As mulheres dizem que ainda são educadas, de modo mais ou menos consciente, para serem subservientes, os homens negam.

As mulheres dizem que têm demasiadas pessoas a meter o nariz na sua vida pessoal, amorosa ou sexual, os homens negam.

As mulheres dizem que a maternidade não é um paraíso e que licença de maternidade não é o mesmo que férias, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem assoberbadas pelo trabalho doméstico e pelas responsabilidades familiares e profissionais simultâneas, os homens negam.

As mulheres dizem que não vivem tão livremente quanto deveriam, os homens negam.

As mulheres dizem que a sociedade não as entende e recusa entender, os homens negam.

As mulheres dizem que há enviesamentos, preceitos e preconceitos invisíveis e enraizados na nossa linguagem e forma de estar, os homens negam.

As mulheres dizem que, no século XXI, até na Europa, ainda vivemos num mundo de homens, e os homens... é claro que negam.

 

Agora, continuem vocês... o que têm as mulheres para dizer?

 

***

 

Ontem, os Fazedores de Letras publicaram um texto da minha autoria que termina assim: Quem sou eu, se mais ninguém estiver a olhar para mim?

 

É um ensaio que, partindo duma reflexão sobre como a mulher é retratada na arte, pretende questionar de que formas ainda é condicionada e vista na vida real. O texto integral pode ser lido AQUI e também vos deixo um excerto:

A mulher do século XXI ainda vive num mundo onde prevalece o olhar masculino, exterior e que não lhe permite olhar para o seu reflexo como se este lhe pertencesse exclusivamente. (...) Mas não interessa se somos mais famosas ou meras anónimas: os padrões, expectativas e pressão existem para todas. Padrões de beleza, de inteligência, de maternidade, de sexualidade, de conjugalidade, de envelhecimento; a pressão e as expectativas sobre a forma como desempenhamos a nossa profissão, a forma como aparecemos na vida pública, a forma como aparecemos nas redes sociais.

9/30 (clientes que não pagam)

Sou trabalhadora independente a tempo inteiro há mais de dois anos. Maioritariamente, dou formação e dou aulas de Português para estrangeiros. Sou muito pontual e peço desculpa até se me atrasar uns míseros dois minutos. Emito e envio faturas atempadamente, muitas vezes antes de receber qualquer pagamento.

 

Por outro lado, enquanto cliente, preocupo-me sempre em pagar os serviços dos quais usufruo mal seja necessário. Mal seja hora de pagar. Mal fique acordado que receberei o serviço. Não fico a dever a ninguém, nem espero por segundo aviso que já passou a hora de pagar. Principalmente quando são negócios pequenos, de empresas familiares ou de outros trabalhadores independentes, sei que todos os cêntimos podem contar para essas pessoas pagarem as suas próprias contas.

 

Por isso, é com alguma incredulidade que ultimamente me tenho deparado com mais do que um caso em que tenho de avisar uma, duas ou três vezes de que a fatura está passada e que ainda nenhuma transferência foi recebida. Sinceramente, não me importo se, por algum motivo, o cliente não pode pagar de imediato e pelo menos me avisa, ou quando me indicam uma data prevista em que terei o dinheiro na conta. Eu confio. Eu percebo. Eu sei como é. O problema é, nos últimos tempos, eu estar a ganhar consciência sobre a injustiça desta situação, a ansiedade adicional que cria em mim e a "descontracção" com que me respondem quando pergunto mais do que uma vez onde pára o meu pagamento, respondendo que terá sido esquecimento.

 

Também tenho uma opinião pouco simpática quanto às desmarcações não remuneradas de última hora, que deixam um horário em branco, assim como a oportunidade de ter arranjado outro cliente para aquele período, quando ainda por cima nem há falta de quem esteja interessado; mas esse subtema teria indignação para um segundo texto.

 

Em suma, o que quero deixar por escrito é uma chamada de atenção para quem ainda não tenha pensado nisto, e um lembrete para quem já tenha: os pequenos negócios dependem da nossa preocupação e conduta para que sejam bem-sucedidos.

 

Por fim, não esquecendo os próprios trabalhadores independentes ou pequenas empresas, gostaria de lhes/vos recomendar: não tenham medo do que os vossos clientes vos respondam, peçam aquilo a que têm direito, insistam e, se não obtiverem a resposta que vos é devida, rejeitem quem desvaloriza o vosso trabalho. Não são poucas as vezes em que tenho dificuldade em lembrar-me destes princípios, mas são indispensáveis para a minha saúde mental e financeira.

8/30 (uma espécie de resgate)

Quando era adolescente, tinha uma ideia sobre quem eu gostaria de me tornar enquanto adulta. Havia uma data de objectivos que eu gostaria de ver cumpridos, certos passatempos que eu imaginava ainda manter, um tipo de relações que idealizava - assim queria ser, uma década depois, por volta da idade que tenho agora.

 

Por alguns anos, acho que perdi tudo isso de vista. Andei a tentar descobrir outros caminhos, outras formas de ver e de fazer - e faz parte. Quis fazer diferente, fugir de todas as check lists que pudesse ter criado aos 14, 15 ou 16 anos.

 

No entanto, uma data de factores tem-me feito regressar a essas referências. Ultimamente, tenho sentido falta de me questionar "o que diria eu quando era adolescente, se soubesse quem sou agora?" Então, lá me forço a relembrar os sonhos que tinha e quem era nessa altura. Ainda serei essa pessoa? Porque, tantos anos depois e mesmo com tanto que fiz e experienciei desde então, tenho muita vontade de revisitar o que fui e de me tornar quem eu me queria tornar.

 

É engraçado como, por volta dos 15 anos, eu já tinha uma noção geral, e que agora considero bastante sensata, de que linhas devem orientar a minha vida aos 25. Quem era eu, antes de outras pessoas, eventos e ruídos se terem atravessado à minha frente? E ainda será possível resgatar-me?

Procrastinação em tempos de pandemia

EuA2CfoWQAASeFl.jpg

 

Este podia ser apenas mais um texto com uma data de dicas sobre como lidar com a procrastinação enquanto temos de ficar em casa a trabalhar. Mas não é, e acho que devo prevenir a leitora ou leitor de que é provável que eu não escreva nada que já não se saiba. Ainda assim, se tiver um par de minutos para gastar e não sabe como, fique comigo aqui a procrastinar.

 

Então, de que se trata este texto afinal? Respondo já, antes que me apeteça ir lavar a loiça do almoço em vez de me concentrar na escrita: trata-se de não-ficção, é claro. Aspira principalmente a ser crónica, mas acho que é capaz de ficar mais aproximado a um queixume de café (se os cafés estivessem abertos nesta altura, claro está). Em geral, a qualidade literária não é muito melhor do que a já comprovada nas linhas anteriores, as ideias ficarão pela rama, e o leitor guardará sobre mim a impressão de que sou daquelas pessoas irritantes que gosta de se queixar de barriga cheia (e talvez eu seja obrigada a dar-lhe razão).

 

Portanto, vamos ao que interessa. No dia 16 de Março, celebrei um ano de teletrabalho a tempo inteiro. É uma maçada, porque eu gostava mesmo de estar com outras pessoas cara a cara. Por outro lado, aprendi a gostar de estar com elas ecrã a ecrã, e temo ser tarde de mais para me voltar a habituar ao primeiro cenário, até porque me mudei para longe de toda a gente e fica caro e demorado voltar a ir para Lisboa todos os dias. 

 

O único senão desta situação à qual me fui acomodando é ter mais liberdade para passar uma inesculpável parte do dia a fazer coisas que, apesar de úteis no fim de contas, mormente empatam. A minha preferida é preparar comida e comer. Descobri uma grande paixão nestas duas tarefas, que me consomem mais tempo do que eu lhes quero destinar quando acordo de manhã e penso que a jornada tem uma quantidade muito satisfatória de horas para aproveitarmos - se ao menos o soubermos fazer.

 

Mas não sou esquisita com as actividades procrastinatórias a que me entrego de alma e coração.

 

Na verdade, em geral, todas as tarefas domésticas me parecem apelativas, apesar de eu as detestar nas horas vagas, ou seja, aquelas que não estão pré-destinadas ao trabalho. Consequentemente, acabo a ter de trabalhar nessas mesmas horas vagas, e não me queixo, porque é essa a belíssima vantagem em ser trabalhadora independente - o que não me impede de sentir uma dose de culpa desmesurada, que me consome a paciência e a tolerância que reservo para as minhas neuras. Só é lamentável acabar por me aborrecer a mim própria, apesar de conscientemente não me desejar outra coisa senão tudo do bom e do melhor. Como se costuma dizer: por bem fazer, mal haver... e tudo na primeira pessoa.

 

A auto-sabotagem é bastante angustiante. Porque raio insisto em sabotar a minha paz de espírito, em prol dumas trocas e baldrocas no meu horário? Haverá algo mais profundo a analisar, do que o simples ímpeto para a procrastinação? Não será defeito, apenas feitio? Ou vice-versa? Seja como for, esse é um tema para outras incursões e discussões.

 

Como é óbvio, escrevi este texto para procrastinar não sei o quê que tinha de fazer depois de almoço há uns dias, mas seguindo o modelo sugerido pelo nome deste blog, não se esqueçam de que procrastinar também é viver. E que estranha forma de vida é...!

A felicidade da escrita

IMG_20200916_122317.jpg

 

Pega na caneta. Pega no caderno. Escreve. Talvez prefiras o computador ou o telemóvel. Talvez gostes de guardar o texto para ti ou de o partilhar com os teus amigos, talvez na Internet. O que interessa é que escrever te faz feliz, não é? Por que será? Que magia tem a palavra materializada no papel?

 

A verdade é que escrever não é coisa de adolescentes, nem de artistas, nem de gente sentimental. Escrever é das terapias mais baratas de sempre, é gratuita. Escrever faz realmente bem à saúde. Ainda por cima, podemos fazê-lo em qualquer lado, a qualquer hora, sozinhos ou acompanhados, na cama antes de dormir, à hora de almoço no meio da cantina, no nosso diário predilecto ou no verso duma folha de rascunho.

 

Tal como a confissão oral, pela conversa ou pelo desabafo, também a confissão escrita tem benefícios para o nosso bem-estar e, mais do que isso, efeitos surpreendentes na condição física humana. Somos mais saudáveis quando nos expressamos, mesmo se o fizermos exclusivamente na nossa própria companhia. Pode ficar tudo só para nós, e mesmo assim sentimos todos esses efeitos.

 

Há mais de 30 anos que se estuda a escrita expressiva: o acto de escrever sobre emoções, pensamentos, eventos, quiçá traumas, ajuda-nos a reorganizar a narrativa pessoal, diminui a sua intensidade emocional (aquele fulgor, aquela obsessão que nos assombra ou que tentamos reprimir) e permite-nos conhecer melhor a nós mesmos. Enquanto pensamos nas melhores palavras, racionalizamos, revisitamos e ordenamos ideias. Escrever é como uma conversa privada em que nos exploramos. Quem somos? O que sentimos? Como o sentimos?

 

James Pennebaker foi o primeiro a descobrir que estes exercícios de escrita diminuem o stress, aliviam a ansiedade, reforçam o sistema imunitário e, por isso, previnem o aparecimento, progressão ou reincidência de certas patologias - por exemplo, tensão alta, cancro, artrite ou ataques cardíacos. Outros investigadores seguiram as suas pisadas (como Laura King e Megan C. Hayes), e agora temos a certeza de que escrevermos sobre emoções, pensamentos e eventos - negativos e também positivos - nos traz um boost ao bem-estar, à semelhança dum bom sumo vitaminado ao pequeno-almoço.

 

Expressar e fazer sentido do que nos vai na mente é o melhor remédio para pararmos de ruminar, resolvermos problemas, dilemas ou simplesmente para apreciar e relembrar os melhores momentos da nossa vida. Afinal, as emoções positivas e a diminuição do stress potenciam a aprendizagem, a atenção, a criatividade e a resiliência.

 

Depois de lerem este texto, convido-vos ao seguinte: peguem na caneta, peguem no caderno, ou liguem o computador ou o telemóvel. Escolham uma (ou várias) propostas que vos deixo aqui: mas escrevam. Escrevam sobre a vossa recordação favorita ou sobre a maior lição de vida que já aprenderam. Escrevam sobre o amor que sentem por alguém. Escrevam sobre o que mais vos inspira. Escrevam sobre a serenidade, a esperança, o orgulho ou a gratidão. E, se não acreditarem que escrever tem este poder incrível, sempre podem pensar que "mal não faz". Vamos a isso?

 

***

 

Para o próximo dia 10 de Outubro (Sábado), eu e a Andreia Esteves estamos a preparar um workshop de Biblioterapia e Diário Positivo. Se estiverem interessados, encontrem toda a informação aqui e inscrevam-se aqui. Também temos um evento no Facebook e no Meetup.

10outubrofb_header.png