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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

20/30 (necessidade de mentores)

Quem trabalha numa empresa, organização ou carreira facilmente encontra mentores. É a impressão com que fico. Eu mesma encontrei na minha antiga chefe um exemplo a seguir, caso me tivesse continuado a identificar com a carreira académica naquele momento, e naquelas circunstâncias.

 

Ultimamente, sinto cada vez mais falta de encontrar uma figura que represente um modelo a seguir, alguém mais velho, uma espécie de autoridade, cuja vida profissional me inspire e sob a qual eu possa ir construindo a minha, com quem simultaneamente partilhe interesses e visões do mundo. Sim, eu sou um caso muito específico, o meu trabalho (e qual deles?) não é o mais comum de sempre, mas é mais difícil racionalizar um momento de dúvida acerca do caminho a seguir quando não se conhece ninguém que o tenha calcorreado antes. Como reagir, o que é normal, qual o próximo passo? Serão todas as vidas profissionais criativas diferentes e provocadoras de sentimentos de insegurança relacionados com a fraca identificação ou existência de pares directos?

 

Assim, vou encontrando vários mentores, que não são bem mentores, no sentido de serem pessoas que eu conheça na vida real e com quem possa discutir ideias, mas que são personalidades cujo trabalho respeito. Actualmente, por aproximação e uma certa alucinação, destaco escritores que tenho tentado conhecer melhor (destaco Ann Patchett, Alexander Chee, Susana Moreira Marques ou Tati Bernardi), ou profissionais doutras áreas, como do ensino ou da formação, uns mais anónimos do que outros, que me apresentam, mesmo sem quererem, possíveis trilhos a experimentar na minha longa jornada e princípios que orientaram as suas acções.

 

E precisaremos todos, afinal, desses mentores? Ou será a minha necessidade de me sentir profissionalmente compreendida fruto de um momento mais inquietante, de mudança, transição e questionamento inevitável? E mais: como e onde encontrá-los?

17/30 (se me tivessem dito)

Se me tivessem dito o quão difícil seria, eu nunca teria saído do meu lugar. Se me tivessem dito o quão doloroso seria, eu teria antes continuado a minha vida de todos os dias, uma vida com certeza mais pacata e facilitada. Se me tivessem dito o quanto eu me iria arrepender (para no segundo seguinte só ter espaço para me orgulhar dos meus feitos), eu jamais escolheria cegamente continuar a estudar enquanto trabalho, pelo quase oitavo ano consecutivo.

 

Não sei o que é a vida sem trabalhar e estudar ao mesmo tempo. No máximo, talvez tenha passado seis meses sem o fazer em simultâneo, desde os 18 anos. O que é meio ano, principalmente quando se sabe que é apenas um interregno, umas pequenas férias de fazer imenso, fazendo só muito?

 

Se me tivessem dito o quanto me custa não poder terminar o dia de trabalho e ir fazer o que quer que me apeteça, eu nunca teria decidido ir avante com o primeiro mestrado, aulas ao Sábado e ao Domingo, e a ter por vezes jornadas de 9 horas de aulas para dar nos dias úteis. Mas ninguém me disse, e foi assim que me transformei de estudante-trabalhadora em trabalhadora-estudante. Depois disso, nunca mais parei, antes pelo contrário. Acumulei sempre o trabalho e os estudos pós-graduados, ora mestrados ora uma pós-graduação, e também formação profissional. E tantas outras coisas, que o povo pode chamar de "sarna para me coçar". De qualquer forma, há qualquer coisa assustadora na adrenalina obtida que me obriga a realizar matrículas ano após ano.

 

Fico tão contente quando me aceitam e quando me lançam notas e emitem diplomas, mesmo quando desespero em noites de sexta-feira, achando que não deveria estar a ler sobre teoria da literatura, mas sim a ler outra qualquer literatura numa ocasião como esta. E, antes de adormecer, confirmo: eu gosto mesmo disto, não gosto? Disto que é estar sempre a aprender estruturadamente, de saber que tudo o que sei é imperfeito, e que consigo passar a ser e pensar melhor se a tal me propuser.

 

Se me tivessem dito que aqui continuo, não acho que fosse acreditar. Ainda assim, assim é. Lá vou eu atrás da cenoura da minha montada. Nesta etapa, já não consigo parar a corrida.

11/30 (as mulheres dizem)

As mulheres dizem, os homens negam.

As mulheres dizem que têm medo de andar na rua, de dia ou de noite, os homens negam.

As mulheres dizem que os piropos, assobios e comentários despropositados são atentados contra a sua integridade física e a sua segurança, os homens negam.

As mulheres dizem que são vítimas desde pequenas, os homens negam.

As mulheres dizem que não saíram de relações física ou psicologicamente violentas antes, porque não tinham força, apoio ou sequer noção do que lhes estava a acontecer, e não por falta de desconforto, dor ou trauma, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem ameaçadas por mensagens sexuais não solicitadas que recebem na Internet, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem discriminadas no mercado de trabalho, ora porque ganham menos, ora porque não têm acesso facilitado às mesmas carreiras e oportunidades, ora porque colegas e chefes do sexo masculino as oprimem e adoptam comportamentos no mínimo condescendentes, os homens negam.

As mulheres dizem que há expectativas irrealistas sobre a sua imagem, os homens negam.

As mulheres dizem que ainda são educadas, de modo mais ou menos consciente, para serem subservientes, os homens negam.

As mulheres dizem que têm demasiadas pessoas a meter o nariz na sua vida pessoal, amorosa ou sexual, os homens negam.

As mulheres dizem que a maternidade não é um paraíso e que licença de maternidade não é o mesmo que férias, os homens negam.

As mulheres dizem que se sentem assoberbadas pelo trabalho doméstico e pelas responsabilidades familiares e profissionais simultâneas, os homens negam.

As mulheres dizem que não vivem tão livremente quanto deveriam, os homens negam.

As mulheres dizem que a sociedade não as entende e recusa entender, os homens negam.

As mulheres dizem que há enviesamentos, preceitos e preconceitos invisíveis e enraizados na nossa linguagem e forma de estar, os homens negam.

As mulheres dizem que, no século XXI, até na Europa, ainda vivemos num mundo de homens, e os homens... é claro que negam.

 

Agora, continuem vocês... o que têm as mulheres para dizer?

 

***

 

Ontem, os Fazedores de Letras publicaram um texto da minha autoria que termina assim: Quem sou eu, se mais ninguém estiver a olhar para mim?

 

É um ensaio que, partindo duma reflexão sobre como a mulher é retratada na arte, pretende questionar de que formas ainda é condicionada e vista na vida real. O texto integral pode ser lido AQUI e também vos deixo um excerto:

A mulher do século XXI ainda vive num mundo onde prevalece o olhar masculino, exterior e que não lhe permite olhar para o seu reflexo como se este lhe pertencesse exclusivamente. (...) Mas não interessa se somos mais famosas ou meras anónimas: os padrões, expectativas e pressão existem para todas. Padrões de beleza, de inteligência, de maternidade, de sexualidade, de conjugalidade, de envelhecimento; a pressão e as expectativas sobre a forma como desempenhamos a nossa profissão, a forma como aparecemos na vida pública, a forma como aparecemos nas redes sociais.

9/30 (clientes que não pagam)

Sou trabalhadora independente a tempo inteiro há mais de dois anos. Maioritariamente, dou formação e dou aulas de Português para estrangeiros. Sou muito pontual e peço desculpa até se me atrasar uns míseros dois minutos. Emito e envio faturas atempadamente, muitas vezes antes de receber qualquer pagamento.

 

Por outro lado, enquanto cliente, preocupo-me sempre em pagar os serviços dos quais usufruo mal seja necessário. Mal seja hora de pagar. Mal fique acordado que receberei o serviço. Não fico a dever a ninguém, nem espero por segundo aviso que já passou a hora de pagar. Principalmente quando são negócios pequenos, de empresas familiares ou de outros trabalhadores independentes, sei que todos os cêntimos podem contar para essas pessoas pagarem as suas próprias contas.

 

Por isso, é com alguma incredulidade que ultimamente me tenho deparado com mais do que um caso em que tenho de avisar uma, duas ou três vezes de que a fatura está passada e que ainda nenhuma transferência foi recebida. Sinceramente, não me importo se, por algum motivo, o cliente não pode pagar de imediato e pelo menos me avisa, ou quando me indicam uma data prevista em que terei o dinheiro na conta. Eu confio. Eu percebo. Eu sei como é. O problema é, nos últimos tempos, eu estar a ganhar consciência sobre a injustiça desta situação, a ansiedade adicional que cria em mim e a "descontracção" com que me respondem quando pergunto mais do que uma vez onde pára o meu pagamento, respondendo que terá sido esquecimento.

 

Também tenho uma opinião pouco simpática quanto às desmarcações não remuneradas de última hora, que deixam um horário em branco, assim como a oportunidade de ter arranjado outro cliente para aquele período, quando ainda por cima nem há falta de quem esteja interessado; mas esse subtema teria indignação para um segundo texto.

 

Em suma, o que quero deixar por escrito é uma chamada de atenção para quem ainda não tenha pensado nisto, e um lembrete para quem já tenha: os pequenos negócios dependem da nossa preocupação e conduta para que sejam bem-sucedidos.

 

Por fim, não esquecendo os próprios trabalhadores independentes ou pequenas empresas, gostaria de lhes/vos recomendar: não tenham medo do que os vossos clientes vos respondam, peçam aquilo a que têm direito, insistam e, se não obtiverem a resposta que vos é devida, rejeitem quem desvaloriza o vosso trabalho. Não são poucas as vezes em que tenho dificuldade em lembrar-me destes princípios, mas são indispensáveis para a minha saúde mental e financeira.

8/30 (uma espécie de resgate)

Quando era adolescente, tinha uma ideia sobre quem eu gostaria de me tornar enquanto adulta. Havia uma data de objectivos que eu gostaria de ver cumpridos, certos passatempos que eu imaginava ainda manter, um tipo de relações que idealizava - assim queria ser, uma década depois, por volta da idade que tenho agora.

 

Por alguns anos, acho que perdi tudo isso de vista. Andei a tentar descobrir outros caminhos, outras formas de ver e de fazer - e faz parte. Quis fazer diferente, fugir de todas as check lists que pudesse ter criado aos 14, 15 ou 16 anos.

 

No entanto, uma data de factores tem-me feito regressar a essas referências. Ultimamente, tenho sentido falta de me questionar "o que diria eu quando era adolescente, se soubesse quem sou agora?" Então, lá me forço a relembrar os sonhos que tinha e quem era nessa altura. Ainda serei essa pessoa? Porque, tantos anos depois e mesmo com tanto que fiz e experienciei desde então, tenho muita vontade de revisitar o que fui e de me tornar quem eu me queria tornar.

 

É engraçado como, por volta dos 15 anos, eu já tinha uma noção geral, e que agora considero bastante sensata, de que linhas devem orientar a minha vida aos 25. Quem era eu, antes de outras pessoas, eventos e ruídos se terem atravessado à minha frente? E ainda será possível resgatar-me?

Procrastinação em tempos de pandemia

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Este podia ser apenas mais um texto com uma data de dicas sobre como lidar com a procrastinação enquanto temos de ficar em casa a trabalhar. Mas não é, e acho que devo prevenir a leitora ou leitor de que é provável que eu não escreva nada que já não se saiba. Ainda assim, se tiver um par de minutos para gastar e não sabe como, fique comigo aqui a procrastinar.

 

Então, de que se trata este texto afinal? Respondo já, antes que me apeteça ir lavar a loiça do almoço em vez de me concentrar na escrita: trata-se de não-ficção, é claro. Aspira principalmente a ser crónica, mas acho que é capaz de ficar mais aproximado a um queixume de café (se os cafés estivessem abertos nesta altura, claro está). Em geral, a qualidade literária não é muito melhor do que a já comprovada nas linhas anteriores, as ideias ficarão pela rama, e o leitor guardará sobre mim a impressão de que sou daquelas pessoas irritantes que gosta de se queixar de barriga cheia (e talvez eu seja obrigada a dar-lhe razão).

 

Portanto, vamos ao que interessa. No dia 16 de Março, celebrei um ano de teletrabalho a tempo inteiro. É uma maçada, porque eu gostava mesmo de estar com outras pessoas cara a cara. Por outro lado, aprendi a gostar de estar com elas ecrã a ecrã, e temo ser tarde de mais para me voltar a habituar ao primeiro cenário, até porque me mudei para longe de toda a gente e fica caro e demorado voltar a ir para Lisboa todos os dias. 

 

O único senão desta situação à qual me fui acomodando é ter mais liberdade para passar uma inesculpável parte do dia a fazer coisas que, apesar de úteis no fim de contas, mormente empatam. A minha preferida é preparar comida e comer. Descobri uma grande paixão nestas duas tarefas, que me consomem mais tempo do que eu lhes quero destinar quando acordo de manhã e penso que a jornada tem uma quantidade muito satisfatória de horas para aproveitarmos - se ao menos o soubermos fazer.

 

Mas não sou esquisita com as actividades procrastinatórias a que me entrego de alma e coração.

 

Na verdade, em geral, todas as tarefas domésticas me parecem apelativas, apesar de eu as detestar nas horas vagas, ou seja, aquelas que não estão pré-destinadas ao trabalho. Consequentemente, acabo a ter de trabalhar nessas mesmas horas vagas, e não me queixo, porque é essa a belíssima vantagem em ser trabalhadora independente - o que não me impede de sentir uma dose de culpa desmesurada, que me consome a paciência e a tolerância que reservo para as minhas neuras. Só é lamentável acabar por me aborrecer a mim própria, apesar de conscientemente não me desejar outra coisa senão tudo do bom e do melhor. Como se costuma dizer: por bem fazer, mal haver... e tudo na primeira pessoa.

 

A auto-sabotagem é bastante angustiante. Porque raio insisto em sabotar a minha paz de espírito, em prol dumas trocas e baldrocas no meu horário? Haverá algo mais profundo a analisar, do que o simples ímpeto para a procrastinação? Não será defeito, apenas feitio? Ou vice-versa? Seja como for, esse é um tema para outras incursões e discussões.

 

Como é óbvio, escrevi este texto para procrastinar não sei o quê que tinha de fazer depois de almoço há uns dias, mas seguindo o modelo sugerido pelo nome deste blog, não se esqueçam de que procrastinar também é viver. E que estranha forma de vida é...!

A felicidade da escrita

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Pega na caneta. Pega no caderno. Escreve. Talvez prefiras o computador ou o telemóvel. Talvez gostes de guardar o texto para ti ou de o partilhar com os teus amigos, talvez na Internet. O que interessa é que escrever te faz feliz, não é? Por que será? Que magia tem a palavra materializada no papel?

 

A verdade é que escrever não é coisa de adolescentes, nem de artistas, nem de gente sentimental. Escrever é das terapias mais baratas de sempre, é gratuita. Escrever faz realmente bem à saúde. Ainda por cima, podemos fazê-lo em qualquer lado, a qualquer hora, sozinhos ou acompanhados, na cama antes de dormir, à hora de almoço no meio da cantina, no nosso diário predilecto ou no verso duma folha de rascunho.

 

Tal como a confissão oral, pela conversa ou pelo desabafo, também a confissão escrita tem benefícios para o nosso bem-estar e, mais do que isso, efeitos surpreendentes na condição física humana. Somos mais saudáveis quando nos expressamos, mesmo se o fizermos exclusivamente na nossa própria companhia. Pode ficar tudo só para nós, e mesmo assim sentimos todos esses efeitos.

 

Há mais de 30 anos que se estuda a escrita expressiva: o acto de escrever sobre emoções, pensamentos, eventos, quiçá traumas, ajuda-nos a reorganizar a narrativa pessoal, diminui a sua intensidade emocional (aquele fulgor, aquela obsessão que nos assombra ou que tentamos reprimir) e permite-nos conhecer melhor a nós mesmos. Enquanto pensamos nas melhores palavras, racionalizamos, revisitamos e ordenamos ideias. Escrever é como uma conversa privada em que nos exploramos. Quem somos? O que sentimos? Como o sentimos?

 

James Pennebaker foi o primeiro a descobrir que estes exercícios de escrita diminuem o stress, aliviam a ansiedade, reforçam o sistema imunitário e, por isso, previnem o aparecimento, progressão ou reincidência de certas patologias - por exemplo, tensão alta, cancro, artrite ou ataques cardíacos. Outros investigadores seguiram as suas pisadas (como Laura King e Megan C. Hayes), e agora temos a certeza de que escrevermos sobre emoções, pensamentos e eventos - negativos e também positivos - nos traz um boost ao bem-estar, à semelhança dum bom sumo vitaminado ao pequeno-almoço.

 

Expressar e fazer sentido do que nos vai na mente é o melhor remédio para pararmos de ruminar, resolvermos problemas, dilemas ou simplesmente para apreciar e relembrar os melhores momentos da nossa vida. Afinal, as emoções positivas e a diminuição do stress potenciam a aprendizagem, a atenção, a criatividade e a resiliência.

 

Depois de lerem este texto, convido-vos ao seguinte: peguem na caneta, peguem no caderno, ou liguem o computador ou o telemóvel. Escolham uma (ou várias) propostas que vos deixo aqui: mas escrevam. Escrevam sobre a vossa recordação favorita ou sobre a maior lição de vida que já aprenderam. Escrevam sobre o amor que sentem por alguém. Escrevam sobre o que mais vos inspira. Escrevam sobre a serenidade, a esperança, o orgulho ou a gratidão. E, se não acreditarem que escrever tem este poder incrível, sempre podem pensar que "mal não faz". Vamos a isso?

 

***

 

Para o próximo dia 10 de Outubro (Sábado), eu e a Andreia Esteves estamos a preparar um workshop de Biblioterapia e Diário Positivo. Se estiverem interessados, encontrem toda a informação aqui e inscrevam-se aqui. Também temos um evento no Facebook e no Meetup.

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"Não se queixem, criem!"

 

Às vezes, passo por fases de queixume agudo. Preciso - precisamos todos - de verbalizar, de explorar, de mandar tudo cá para fora. No entanto, nem sempre consigo recuperar e admiro quem recupera (quem não procrastina o resto da vida, por exemplo, depois destes momentos emocionalmente intensos).

 

Claro que não sou sempre assim, ou não andasse a estudar o que ando a estudar, ou não andasse a fazer as mil e uma coisas que faço, mais ou menos bem feitas. Consigo recuperar, seguir em frente, encontrar novas razões de queixa. Nesses "entretantos", gosto de pessoas que me inspiram com ideias e histórias sobre como passar à acção, contrariando a lamentação (não desvalorizando a verdade universal de que é mais fácil falar do que fazer).

 

Assim, hoje venho só dizer que gosto de ouvir a Tina Roth Eisenberg, de quem a Elisa me tem falado imenso. TRE, a criadora das Creative Mornings, descobriu falhas ou faltas no mundo à sua volta e, em vez de se queixar, diz que acabou por criar ela as soluções para os seus problemas. Vejam a palestra que vos deixo aí em cima. 

 

E, na mesma onda, quero partilhar um dos episódios do podcast "The Happiness Lab" (clicar nesta hiperligação), da investigadora Laurie Santos (professora da disciplina mais concorrida de Yale, também no Coursera, "The Science of Well-Being"), episódio no qual se discutem os efeitos dos queixumes no nosso bem-estar, e como modificar esses padrões de comunicação negativa/agressiva, nomeadamente nas redes sociais.

 

A par destas recomendações, deixo outra absolutamente diferente: um compositor português chamado Rui Massena, que tem feito as delícias do meu Spotify. Dos três álbuns disponíveis, o mais recente, III, é o meu favorito.

O trabalho, o tempo, a produtividade e o capital (entre outros)

Quando decidi estudar Línguas e Humanidades na escola secundária, ouvi muitas vezes a ameaça-feita-pergunta "que emprego é que vais ter? Professora?" seguida de sugestões de cursos muito mais proveitosos, como ir para Economia e depois tirar Finanças ou Gestão na universidade, tornar-me solicitadora ou vir a trabalhar numa multinacional tipo Deloitte e ganhar dinheiro (muiiito dinheiro, pelo menos mais dinheiro do que se me tornasse, Deus nos livre, professora).

 

A ditadura do capital e da produtividade esteve presente na minha vida desde cedo. Sempre que expressava as minhas inclinações mais criativas, literárias e artísticas, era incentivada, mas não se isso me impedisse, por exemplo, de seguir Direito, ou mesmo Antropologia, as últimas tentativas de argumento do meu pai. "Porque são disciplinas com nome, não são uma coisa inventada", como quem quer dizer que ficariam bem num currículo.

 

Felizmente, arranjei sempre maneira de fazer valer a minha licenciatura com cheirinho a artes liberais, o meu interesse pelas letras, a minha paixão pela escrita, a minha recusa veemente em ter a cabeça a prémio no jogo da empregabilidade. Apesar de o objectivo inicial ter sido o jornalismo, em breve percebi que a profecia alheia era mesmo uma das minhas paixões: aos 21 anos, fiz-me professora sem dramas ou espinhas, porque, acima de tudo, fui proactiva, fui esforçada, trabalhei,  estagiei e fiz formação profissional durante a licenciatura, e tive boas notas que me puseram um pé na porta nalgumas situações.

 

Desde a infância, a geração dos millennials ouve a ladainha "é pelo teu bem" ou "é pelo teu futuro". A matriz cristã católica está bem enraizada nestas crenças, porque sofrer e fazer sacrifícios só pode ser igual a obter a salvação, ou sucesso. É isso que interessa. Claro que todos os pais querem o melhor para os filhos, mas por que tem de ser este "o melhor" que conseguem imaginar?

 

Hoje, estou em paz por ter decidido não carregar nenhuma cruz. Pessoas felizes são bem-sucedidas e rodeiam-se de pessoas bem-sucedidas - seja lá o que isso do sucesso possa significar.

 

Para mim, sucesso é ocupar-me do que me faz sentir útil e apreciada, não é ganhar montes de dinheiro, mas sim ter tempo, saúde mental e oportunidades de crescimento constante. Tive-o no meu primeiro e único emprego como leitora numa universidade em Banguecoque; quando voltei para Portugal, sempre soube que só o conseguiria nos meus termos se criasse o meu próprio emprego.

 

E assim foi. Não há dinheiro que pague o tempo que tenho para continuar sempre a estudar, a fazer trabalho criativo paralelo, coleccionar projectos profissionais simultâneos e decidir quando tenho férias (na verdade, acabo por ter menos dias de férias, mas isso é porque também posso ter meios dias de trabalho e outras regalias). Tudo isto, sem ter um esgotamento.

 

Para mim, ter sucesso é ter tempo para pensar, experimentar e criar - ou simplesmente não ser produtiva. É ter tempo para estar com as pessoas que amo, conhecer novos sítios, ler, escrever, passear.

 

A ditadura da produtividade é a melhor amiga da ditadura do capital, como se o ser humano só se concretizasse plenamente pelo seu volume de trabalho. E o que é esse trabalho? Muitas vezes, nada muito edificante, como contribuir para o fluxo de burocracia e entropia já existente. Parecer ocupado é o que mais interessa na sociedade que preza a produtividade, não é ocuparmo-nos de algo significativo.

 

Fica mal dizer-se outra coisa que não "tenho estado tão ocupada, que mal consigo respirar". Mais uma vez, temos de provar e alimentar o sacrifício diário. Claro que há pessoas ocupadas, eu mesma também passo por períodos mais cheios de trabalho (como nos próximos meses), mas estar ocupada é diferente de me fazer parecer ocupada.

 

Esta é apenas uma reflexão sobre o modo como vemos o mundo do trabalho. Gostava que as próximas gerações, ou mesmo quem se candidata este ano ao ensino profissional e superior, pudesse ver o seu futuro activo além dos títulos, das horas de trabalho, do prestígio e do dinheiro. Aviso-vos de coração: tenho amigos e colegas mais velhos que passaram anos e anos a trabalhar em indústrias e sectores que não lhes acrescentavam nada à vida, e que, chegados a uma certa idade, acabaram por repensar as suas prioridades, escolhendo o que deveria ter sido sempre escolhido: ser feliz e realizado.

 

Claro que o dinheiro é imprescindível: o bem-estar material precisa de estar minimamente assegurado para que outros objectivos surjam. Claro que o prestígio é importante, desde que seja aquele que nos motiva e permite continuar a evoluir.

 

Ainda assim, acredito que apareçam ambos na quantidade necessária como consequência de um sentimento de plenitude e preenchimento, de espírito de missão de que nos imbuímos quando descobrimos a profissão (ou profissões, ou ocupações) que nos fazem sentir que estamos a contribuir para o mundo da melhor forma, aquela que nos compete e melhor se ajusta, de acordo com os nossos interesses e talentos.

 

É com estas cores que vejo o mundo aos 25. Não digo que jamais mude de ideias, mas não custa ser idealista por um bocadinho.

 

***

 

A ler: How to Do Nothing, Jenny Odell

Considerações sobre o fio da navalha (ou as dificuldades invisíveis dos trabalhadores independentes)

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Sob o pretexto de estarmos à beira duma crise económica, ou de estarmos a atravessar tempos difíceis, há quem se queixe de que os profissionais independentes (como é o caso de professores e formadores, ou seja, o meu caso) estão a cobrar demasiado dinheiro pelos seus serviços. Não podemos cobrar X valores, temos de cobrar Y, porque X é muito para esta época. Temos de baixar os preços, dizem essas pessoas. Temos de ser solidários.

 

Assim, sob um pretexto de falsas boas intenções e hipocrisia, este desprezo dedicado aos trabalhadores independentes, vulgo freelancers, uma classe tão vulnerável quanto qualquer outra, deixa-me bastante desapontada. Não sabe quem reclama dos preços praticados que, com crise ou não, as obrigações fiscais, legais e contributivas continuam a ser as mesmas? Não sabem essas pessoas que o facto de estarmos em teletrabalho não invalida o facto de estarmos a negociar o nosso tempo e a nossa sanidade mental? Não sabem essas pessoas que os trabalhadores por conta própria também vivem no fio da navalha? Não sabem que também estamos expostos à recessão que se adivinha?

 

O meu tempo tem um preço. Os serviços que presto têm um preço. É o meu preço justo e não o aumentei nem diminuí nas últimas semanas. Aliás, continuo a trabalhar com um estoicismo e em tentativa de normalidade que me surpreendem na mesma medida que me deixam ainda mais exausta ao final dum dia à frente do computador, mais do que seria, lá está, normal.

 

Tenho muita sorte, porque acertei numa actividade profissional que vinga, apesar de tudo, no meio da pandemia, e que neste momento até tem algum potencial de desenvolvimento. Contudo, tal como tenho sorte, não me falta engenho. O que me pagam não se justifica apenas pelo meu tempo a trabalhar; uma hora de trabalho não é uma hora. Na minha opinião, o que me pagam deve ser proporcional à formação contínua e ao desenvolvimento de competências e conhecimento nos quais invisto de forma constante. No ano passado, completei quase dez cursos de formação em áreas relacionadas com a minha actividade, além da formação universitária que continuo a frequentar em paralelo. Por esse e tantos outros motivos, não me peçam borlas.

 

Além disso, o que adoptei como vocação e profissão não é um bem ou serviço de primeira necessidade. É, se quisermos, um luxo. Há alternativas, algumas - muitas - delas gratuitas. Os mesmos queixosos que defendem que os professores/formadores por conta própria deveriam cobrar preços mais baixos, porque se pode aprender essas mesmas coisas na Internet, através de apps, sites e programas chapa 0, são os mesmos sujeitos que não utilizam essas ferramentas e que quase exigem ter um criado que sabe coisas ao seu dispor.

 

Correndo já o risco inevitável de enveredar pela personalização da minha mensagem, remato com um apelo: não questionem cegamente quanto custa recorrer ao trabalho de um profissional independente (sim, aquela pessoa dos recibos verdes, que pode ser um canalizador, um professor, um técnico de manutenção, um empregado de limpeza, um consultor, um médico privado ...). Comparem, informem-se, tenham noção, mas não ditem o que outra pessoa deve ganhar sem pensar em tudo isto. Num mundo onde o low cost e a precariedade são banais, apelo a que valorizem a qualidade pelo seu custo justo. Desta forma, se não concordarem com a primeira proposta que receberem, o melhor a fazer é procurar quem vos possa apresentar uma melhor, ou uma mais adequada às vossas necessidades e possibilidades.

 

Quem quer fazer omeletes sem ovos deveria resignar-se ao facto de que tal fenómeno, por norma, não existe. Ainda estou para conhecer um produto ou um profissional de notória qualidade e eficiência que não tenha valido todos os meus cêntimos. É assim que quero que os meus clientes/alunos se sintam: que eu não sou uma profissional low cost, mas que o retorno faz valer a pena - seja em tempos prósperos ou de escassez.

 

E, se o leitor também for trabalhador independente, não se deixe enganar, reduzindo o valor do que faz. Uma coisa é negociar, outra coisa é ser desvalorizado.