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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Observações sobre os hábitos de leitura dos escoceses - ao sol

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Princes Street Gardens, Edimburgo

 

Durante a minha viagem à Escócia, que está prestes a terminar enquanto vos escrevo isto, fiquei maravilhada com o seguinte: os escoceses lêem imenso. Não posso falar pelo resto do Reino Unido, porque só estive no Norte de Inglaterra há quatro anos, mas tanto em Edimburgo quanto Glasgow  (e nos comboios entre as duas cidades) fui notando que há imensa gente com livros na mão, seja onde for: na fila para o autocarro, nos transportes públicos em geral, nos parques, nos cafés... Coisa linda de se ver. Até me senti mais inspirada para ler (e, ao contrário de todas as minhas auto-promessas, comprei cinco - CINCO! - livros nos últimos três dias de viagem, quando finalmente sucumbi à pressão da disponibilidade imediata de paperbacks com cheiro a papel reciclado intocado. Adoro paperbacks. Não há como não fazer todos os esforços humanamente possíveis para que caiba mais um, e mais outro, na mala de cabine. Ou na mochila. Ou em sacos extra.

 

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 Kelvingrove Park, Glasgow

 

Parece-me que este é um povo com hábitos de leitura - mais uma achega a contribuir para o meu amor por este país. Além de verde e cheia de história, a Escócia tem livros por todo o lado e gente que gosta deles.

 

Enterneceu-me especialmente o facto de também os escoceses adorarem livros e verde. Nos dias em que fiquei em Glasgow e Edimburgo, esteve quase sempre sol (apesar dum frio bem irritante, mas uma pessoa desculpa o Mar do Norte), por isso os parques públicos, os jardins e os jardins botânicos (mais especificamente, todos os bancos ou bocadinhos de relva disponíveis) estavam sempre cheios de pessoas a comer, a passar tempo com a família e os amigos, a jogar, a dormir a sesta... e a ler. Mal se via um raiozinho de sol... os relvados inundavam-se de pessoas de t-shirt (enquanto eu, friorenta do burgo, fazia frente à brisa cortante com uma camisola interior, uma sweat-shirt e um casaco de Inverno). 

 

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 Jardim Botânico de Glasgow

 

Fico mesmo com vontade de importar estes hábitos saudáveis para Lisboa. Já! Imediatamente! Mal eu aterre hoje à hora de jantar!

Porque é que subir o Arthur's Seat em Edimburgo é uma experiência de superação

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Vista panorâmica no cume do Arthur's Seat.

 

Embora esta seja uma actividade a que imensos turistas e locais se entregam às centenas por dia, subir o Arthur's Seat foi, para mim, uma experiência especial de superação. O facto de o ter feito sozinha, e tendo em conta a minha fraca adoração por alturas, só torna o meu dia de ontem ainda mais inesquecível. Sinto-me bastante orgulhosa por ter subido o Arthur's Seat, um dos três pontos mais altos da cidade de Edimburgo, na Escócia. Como o nome indica, também está ligado ao mito do rei Artur, por ser apontado como a localização provável do Castelo de Camelot. Assim mais a nível pessoal, é ainda um dos locais simbólicos para os protagonistas do meu romance favorito, One Day (escrito por David Nicholls), o ponto de encontro dos amantes, a celebração do início dum grande amor e amizade (alerta foleirada, não me julguem).

 

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Como podem confirmar pela minha expressão de felicidade ao chegar ao cume do Arthur's Seat, este foi um dos feitos do meu ano, até agora. Desde o primeiro dia na Escócia que andava a ganhar coragem para me pôr a andar lá para cima. Ontem, finalmente esgotei as desculpas e a pressão de o tempo da viagem se estar a esgotar ainda contribuiu mais um extra para investir nesta empreitada.

Antes de me ter decidido a subir o Arthur's Seat, ainda subi ao Calton Hill, outro dos três pontos mais altos de Edimburgo (o terceiro é Castle Hill, onde fica o castelo), e avaliei, a partir de lá, todo o percurso íngreme, irregular e pedregoso a que me iria comprometer.

 

Esta era a vista do Calton Hill para o Arthur's Seat, ali ao fundo:

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A acrescentar a todos os motivos já enumerados que me faziam hesitar, tenho contado com uma aparente tendinite no pé direito, que me tem infernizado a viagem com uma dor que, não sendo lancinante, é incómoda q.b.. Por isso, ao olhar para o horizonte, em direcção aos rochedos que me aprontava para subir, só pensava que completar esta aventura só me traria mais confiança ou, em última análise, ficaria presa nos penhascos e teriam de me ir buscar de helicóptero, o que é sempre um pensamento muito engraçado que se tornaria uma história para a vida.

 

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Enquanto subia o Arthur's Seat, como factor de motivação a adicionar, fui relatando a experiência nas stories do Instagram. Entretanto, pu-las em destaque, para ficarem como recordação, por isso podem lá ir vê-las. O tempo também ajudou: a subida começou com um céu escuro e terminou com sol (se bem que o vento se manteve do início até ao fim do dia). É poético, não é?

 

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O que acabou por me aterrorizar mais foi a descida. Enquanto subimos, raramente temos de olhar para trás. Ao descermos, somos obrigados a controlar o que nos aparece por baixo dos pés. Confesso que sou grande fã da técnica refinada de sku, sem a qual dificilmente teria sobrevivido ao Arthur's Seat. Crianças de dois e três anos corriam pelos pedregulhos abaixo... eu arrastava-me. 

 

Dito isto, subir o Arthur's Seat foi uma experiência de superação. Sinceramente, não estava sequer à espera de conseguir subi-lo até ao cume. Pensava que era quase certo eu ficar-me pelo caminho, dada a tendinite, as vertigens, o vento e temperatura agreste no início da caminhada, o cansaço do dia anterior e uma noite de sono interrompida por trabalho (sim, aqui a workaholic não conseguiu livrar-se do trabalho por mais de cinco dias), estar sozinha por minha conta. Mas consegui. Consegui não só subir tudo até ao fim, quanto também consegui descer - sem um arranhão, apenas com as calças ligeiramente sujas. Todas as dificuldades que se apresentavam inicialmente só me deixam ainda mais satisfeita com o que fiz. Não caibo em mim de orgulho. A sério. Tenho a auto-confiança em níveis máximos, pelo menos no que toca à superação de obstáculos aparentemente intransponíveis.

 

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Se eu consegui isto, consigo mais. Se os outros conseguem, eu também consigo. Se eu consegui, todos conseguem. Porque não? Porque não tentar? E, no final da descida, pode ser que haja um oásis como o que encontrei ontem, ou um paraíso com lagos, flores, relva e cisnes.

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As viagens também servem para arejar as ideias

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 Porta da Edinburgh Central Library, foto minha (não me querendo gabar, está catita)

 

Planeei esta viagem à Escócia, não só por ser um dos meus destinos de sonho, não só por ser uma terra verde que representaria um novo começo depois da Banguecoque caótica e cinzenta, mas também porque era uma viagem que eu precisava de fazer para arejar as ideias depois de quase dois anos incríveis, mas extenuantes e muito confusos.

 

Vir à Escócia e estar nesta cidade maravilhosa e mágica de Edimburgo, ir a sítios que não pensava visitar tão cedo (Loch Ness, por exemplo) tem-me permitido sair do meu ponto de vista habitual e tomar uma nova perspectiva, exterior, sobre o que me vai acontecendo.

 

Viajar permite-nos ganhar um novo olhar, porque deixamos o nosso "eu" de sempre em casa e, ao estar em sítios novos, passamos a vê-lo de fora, de maneira renovada. Ganhamos um olhar mais objectivo que nos ajuda a reflectir melhor sobre o que deixámos em Portugal.

 

Viajar sozinha pode parecer estranho a muita gente, mas a mim não me faz impressão, talvez porque já vivi assim antes durante algum tempo. Antes pelo contrário, aproveito estas oportunidades para estar só e apenas na minha própria onda, sincronia e vontade. Por vezes, gostaria de partilhar o que vivo com mais pessoas, mas haverá hipótese de o fazer no futuro, pelo que não me sinto pressionada a sentir a falta de ninguém neste momento. Há coisas que temos de fazer sozinhos. Ir à Escócia é a minha.

 

Este silêncio, que só se quebra com o ruído dos locais, dos turistas, dos guias e das colegas de quarto, é um descanso. Adoro estar assim, principalmente porque sei que tenho o oposto em Portugal. Só daria valor a um e a outro cenário, tendo os dois. É o caso.

 

Também nunca tinha viajado com esta disponibilidade de orçamento antes. É um alívio estar entregue aos meus planos e à minha carteira, mesmo com as suas limitações do costume. Adoro tomar decisões assim.

 

E viajar é ainda melhor quando se deixam amigos fantásticos em Portugal, uma família que só nos surpreende, um ambiente cheio de energias positivas, gente de bem com a vida... De facto, há sempre linhas por encarrilar, mas existirá tempo para o fazer.

 

Não querendo agoirar, esta viagem (e as suas condições de silêncio, aventura, desconhecido, desejado)  tem-me feito sentir ainda mais optimista e tem-me realmente ajudado a reflectir no que pode ser feito e continuar quando o bem bom das férias de Primavera improvisadas tiver um fim. A ser possível, até guardava um pedaço deste optimismo momentâneo, porque na volta ainda hei-de precisar de me lembrar dele.

 

Se eu tivesse que nomear apenas uma lição que vou tentar levar bem reflectida daqui, nomearia aquela ideia da serendipity, ou serendipidade (anglicismo feio, soa melhor no original). É deixar andar, não ceder às preocupações, fazer por liderar o que nos compete porque quase nada cai do céu, mas na volta aceitar também que há acasos, coincidências e simples acontecimentos sobre os quais não temos grande hipótese senão ceder, acontecem e pronto, até de forma feliz, mesmo que não andemos à procura deles (um bocado a forma como tenho planeado, ou deixado de planear, esta viagem). É desfrutar desses ares involuntários que sopram, dessa descontracção de quem não deve a mais ninguém, desse take it easylet it flow. Acho que já andei demasiado tempo a tentar controlar o incontrolável. 

 

Isto das viagens deixa uma pessoa ligeiramente filosófica, não deixa? Não liguem. 

Quando viajo

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Quando viajo para o estrangeiro, normalmente não quero saber. Viajo de cara lavada. Não me preocupo em arranjar o cabelo e visto roupa elástica. Umas calças de ganga e uma camisola ou uma t-shirt servem para o efeito. Muitas vezes, deixo as lentes de contacto na caixa, vou de óculos e acabou. Não me preocupo demasiado em parecer perfeita nas fotos, para as publicar nas redes sociais. Se me apetecer publicá-las, seguem sem acessórios ou filtros. Para mim, viajar e ser-se turista é adoptar a filosofia do pragmatismo, principalmente porque o costumo praticar sem quem faça questão de me ver linda e maravilhosa. É preciso poupar no espaço e peso da bagagem e no tempo gasto na casa-de-banho, que podem ser todos utilizados noutras coisas a que dou mais valor quando tenho oportunidade para as apreciar.

 

Por isso, não entendo quem se arranja como se fosse para o baile de debutantes, enquanto vai ali subir o Arthur's seat!

 

Talvez eu mude com o tempo e com as situações. Nem sempre sou, nem sempre viajo, assim como vos escrevo. Também sei fazê-lo, nomeadamente, com maquilhagem no nécessaire, vestidos e mais de dois pares de sapatos. No entanto, por agora, sinto-me muito "turista de fato-de-treino", less is more. Sinto-me turista acorda-e-sai. Já tenho as fotos do LinkedIn e do Tinder para provar que uma pessoa pode ser o que quiser, para quem quiser, de acordo com os contextos. Por agora, viajar é não querer saber de muito (excepto comida e paisagens) e procurar alguma sensação de libertação que possa surgir.

 

Aliás, é para isso que servem as sweat-shirts das nossas faculdades, certo? #teamfluldesde1911

Paris há três anos

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Estive em Paris há três anos. Foi a minha primeira viagem "de crescida" (será lamechice escrever isto?). Na altura fiquei muito orgulhosa por fazê-la, uma vez que também fui eu que a paguei e organizei. Quero muito lá voltar, depois de algumas outras viagens que ainda me faltam cumprir. Na altura, fui com a Inês e foi muito especial poder ir com ela. Aos 12 anos, combinámos que haveríamos de fazer um cruzeiro aos 18. Foi mais um cruzeiro de avião, mas... água não faltou!

 

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A visita a Versalhes foi a minha parte favorita. Fiquei deslumbrada e fiquei sempre a pensar "e se tivesse ido num dia menos movimentado, será que teria aproveitado mais?". Estava imenso frio e vento, mas esteve quase sempre sol e pudemos visitar todos os sítios que queríamos - e mais alguns, visto que apanhámos uma greve dos aeroportos franceses e ficámos mais um dia ou dois do que o previsto.

 

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Também adorei a Ópera Garnier, mais do que o Louvre, e ainda me sinto ofuscada por tanto ouro, mesmo depois deste tempo todo! Há sítios e imagens que nos ficam na cabeça.

 

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Tenho pensado... como assim, já passaram três anos? Até parece estranho. As viagens quase que servem de marcos na vida. Entre esta viagem e aquela, aconteceu tal e tal. Desde que vim daqui e dali, isto e isto deu-se. Portanto, há que encher a vida de viagens! Para mim, são como os pregos que sustêm as fiadas de eventos na sucessão dos dias. Mal posso esperar pela próxima. Até lá, ficam as memórias das anteriores.

 

E vocês, quais foram, são ou seriam as vossas viagens de sonho?

Como a perturbação do regresso, ou síndrome do retorno, tem afectado a minha vida

O que será a perturbação do regresso - também conhecida por síndrome do retorno e outros nomes - e como afecta a vida de quem a sente? Nunca tinha ouvido tal coisa até uma prima, que também vive fora do país, ter partilhado um artigo sobre este assunto no Facebook. 

 

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 (A vista da janela do meu quarto, um cenário que, passem os anos que passem, e mesmo quando construíram as casas no horizonte, parece nunca mudar... Um cenário que me fascina e me faz sentir, realmente, em casa.)

 

No passado...

Sempre senti a perturbação do regresso depois de regressar das minhas viagens de curta duração (o máximo foi duas semanas há três anos e meio, quando fiz duas semanas de intercâmbio em Newcastle), mas nunca juntei todos os sintomas para chegar a um resultado conclusivo, sumário. Sentia-me mais do que cansada da viagem, sentia-me exausta, tinha alguma necessidade de estar sozinha enfiada na cama. No entanto, este estado letárgico durava apenas um ou dois dias e depois a vida retomava o seu ritmo.

Obviamente, não há comparação entre essas emoções e sensações depois de viagens tão curtas e a grande viagem que foi a minha vida em Banguecoque. Desta vez, penso que, seja lá o que isso for, a perturbação do regresso não só me tocou, como me deu um chapadão com mão rija. Mais dum mês depois, ainda não me sinto completamente refeita deste susto.

 

Mas a perturbação do regresso é uma coisa a sério?

Parece que esta perturbação do regresso pode não ser um fenómeno médico/mental/psicológico com muita literatura científica na qual nos possamos basear para afirmar tudo com muita certeza e clareza. No entanto, sinto que este conceito faz sentido e que até me ajuda a organizar o que sinto e penso. Talvez outros o percebam da mesma forma. 

 

O que sinto eu, realmente?

Que é reconfortante, consolador, perceber que este avalanche de sentimentos e pensamentos tem uma razão de ser, não sendo uma anormalidade no planeta. Que haverá por aí mais gente com o mesmo. Que esta desorientação tem uma origem... e, por consequência, um fim à vista. Depois de tantos estímulos ininterruptos por tanto tempo, depois de tanto desconforto e adaptação, desconforto e adaptação... Depois de tanto entusiasmo e grandes expectativas acerca do regresso... Depois de tantas experiências que não pude partilhar... Depois de tudo o que vivi... Depois de tanto tempo longe das pessoas mais próximas, mesmo que sempre em contacto à distância...

Depois de tudo isto, ficou-me a sensação de aborrecimento sem causa, de incompreensão, de desconforto até nos lugares que me deixariam mais à vontade em circunstâncias normais (em casa, por exemplo), de despertença, de desconhecimento até das pessoas que melhor conheço e até o contrário: as pessoas que me rodeiam sentem também este afastamento. E, ainda depois de tudo isto, fica o sentimento de culpa exactamente pelo que sinto, que é descabido! (Afinal, eu queria era voltar para casa! E agora, que voltei, qual é o meu problema???) 

 

Só quem volta o sente?

Pessoalmente, acho que todos os envolvidos no dia-a-dia de quem vai e regressa acabam por sentir um certo choque. Há alterações na interacção, nos encontros, por causa do que aconteceu dos dois lados entretanto. Nem que seja pelo hábito ou pela falta de hábito, todos sentimos surpresa, apreensão, incompreensão...

 

Essa perturbação é para sempre?

Claro que tudo isto é irracional. Aos poucos, a normalidade dos dias vai-se reconstituindo. Já comecei a estar com mais amigos. Mesmo tendo recomeçado a trabalhar uns dias depois de voltar, agora começo a fazê-lo aproveitando-o. A perturbação do regresso não existe para sempre. Qualquer coisa chamada síndrome do retorno só pode existir após... o retorno. Há que pensar que isto é o que chamamos simplesmente "o choque inicial".

 

O que fazer para ultrapassar a parte difícil do regresso?

Além disso, arranjei estratégias para combater emoções menos positivas relacionadas com esta síndrome do retorno. Tenho-me tentado desafiar, trabalhando com pessoas diferentes, tentando pensar em projectos pessoais, investindo em formação em áreas profissionais com as quais não lidei ultimamente, mas relacionadas com a minha formação anterior (como o jornalismo). Até me inscrevi numa pós-graduação, mas não abriu por falta de candidatos. Em Setembro, começo o meu mestrado, e até lá vou-me entretendo com trabalho e outros estudos paralelos. Quanto à parte humana do assunto... É tentar levar as reaproximações com calma. Tudo há-de voltar ao seu sítio de antes, ou, em alternativa, de encontrar novas posições e alinhamentos. 

 

Estou mesmo a tentar ver o copo meio cheio, pode ser que funcione!

 

E vocês, têm alguma experiência semelhante ao que se descreve sobre a perturbação do regresso? Já passaram pelo mesmo? Têm algumas dicas para quem está a levar com esta bomba no momento?

Os meus sítios favoritos na Tailândia #3: Bangkok Art and Culture Center (BACC)

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Tenho uma predilecção por galerias e museus bem iluminados, como é o caso do Bangkok Art and Culture Center (BACC). Não gosto daqueles com todas as entradas de luz vedadas, com tectos baixos e paredes escuras. Se não houver janelas, pelo menos que haja outras fontes de iluminação e tectos altos. Assim, gosto do BACC, por ser arejado, minimalista, arrumadinho, cheio de vida.

 

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O BACC é um centro cultural e de arte contemporânea enorme. Tem mais de sete andares (acho que oito ou nove, mas não tenho a certeza), intelrigados por escadas rolantes ou, a partir do sétimo andar, por uma rampa contínua. Há exposições permanentes, outras temporárias. Enquanto visitante, consigo perceber que o objectivo é juntar a tradição ao mais recente, entre fotografia, desenho, pintura, artesanato, escultura e tantos outros tipos de arte. Um dos motivos mais recorrentes é, obviamente, a figura do rei Rama IX, falecido em Outubro de 2016, mas ainda (provavelmente, para sempre) adorado pelo povo.

 

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Inclusivamente, uma das exposições que visitei é a das fotografias que o rei Bhumibol (o nome de Rama IX), um indivíduo versátil e com interesses artísticos variados, principalmente música e fotografia, tirou ao longo da sua vida. Curiosidades acerca desta exposição: uma secção inteiramente dedicada à sua cadela favorita, outra secção só com fotos da rainha (desde os 20 até aos 80 anos), outra com fotos dos filhos e alguns netos... O destaque dado a estas figuras na sua vida só demonstram o grande homem que, imagino, foi.

 

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Dito isto, resta-me recomendar que, caso passem por Banguecoque, possam também visitar o Bangkok Art and Culture Center (BAAC), com ligação ao sky train e com toda a luz, conforto, criatividade e ausência de hordas de gente de que todos precisamos para sermos felizes numa galeria de arte!

 

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Bateu a nostalgia de quem vai voltar a Portugal em menos de dois dias

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 (Há bocadinho, quando cá cheguei.)

 

Na literatura e no cinema, ou apenas na nossa imaginação, existe uma pergunta omnipresente: se soubesses que irias morrer amanhã, o que farias hoje?

Felizmente, não conto morrer tão depressa. No entanto, saber que me vou mudar dum país a 10 000 km de volta para Portugal, e que aqui poderei não voltar tão rapidamente, traz-me uma nostalgia indescritível. Aliás, vou tentar descrevê-la agora, mas não tenho a certeza se me farei entender tão bem quanto desejo.

 

Tenho quase completa certeza de que voltarei a Banguecoque ou à Tailândia no futuro. Quero, pelo menos, mostrar ao meu namorado onde vivi, já que a minha família nuclear cá me foi visitando. O que me causa nostalgia é saber que Banguecoque é uma cidade em mutação acelerada e o que eu conheço hoje já poderei desconhecer daqui a um ano (é verdade). Só na minha avenida, prevêem a conclusão da nova linha de sky train entre este e o próximo ano). Além disso, há sítios aos quais sei que muuuuuito dificilmente poderei regressar, como é o caso do meu estúdio (aquela unidade particular onde vivi durante onze meses e meio) ou do meu condomínio (terei muitas saudades da minha piscina e do ambiente verde e tons de terra dum lado e, do outro, as torres brancas e cinzentas).

 

Deste modo, fiquei com vontade de regressar ou visitar muitos sítios onde não tive tempo de ir, ou porque me senti forreta ou por falta de planeamento. O meu falecimento para Banguecoque e para a Tailândia como os conheço é já daqui a 36 horas e eu não completei a minha bucket list. Nem a meio cheguei. Na semana passada pensei "se morresses agora, ou no mínimo sabendo que vais regressar a Portugal, onde irias?" e fiz imensos planos, mas a vida quotidiana aconteceu e fiquei pela rama. 

 

Seja como e onde for, esta nostalgia deve-se, em grande parte, a saber que este tempo já não volta, porque eu sou agora uma pessoa que se vai apagar no momento em que o avião descolar em direcção à Europa. Não desdenho a pessoa que penso ser aqui na Tailândia, mas sei que também quero experimentar outras versões de mim. Os primeiros quase dois anos da minha vida adulta pós-estudos foram passados aqui, onde tive o meu primeiro emprego, onde vivi sozinha, experimentei muitas coisas novas (comida, pessoas "aspas aspas que é como quem diz", sentimentos, roupa, forma de pensar e estar)... Mas sei que não quero continuar a ser a mesma que sou neste lado, quero antes encontrar um equilíbrio entre o que sou agora, dia 29 de Janeiro de 2018, quem era no dia 22 de Junho de 2016 e quem me vejo sem no futuro.

 

Divago. Voltando ao que me apetece partilhar...

Enquanto escrevo, estou à beira da minha piscina, a tal piscina do condomínio onde vivo (é relativamente normal e barato para alguém da classe média tailandesa viver num condomínio com condições e infraestruturas semelhantes). Custa um pedacinho chorudo da alma sair desta espreguiçadeira onde me encontro sentada, sabendo bem que é provável que nunca mais eu venha a estar neste preciso ponto do globo. Eu sou dada a nostalgias, é um facto que tenho aprendido a aceitar, mas eu tenho quase a certeza que nunca mais vou estar neste sítio, muito menos a esta hora (vou devolver a chave amanhã à tarde), com esta vista nocturna, mas calorosamente iluminada e reflectida na água.

 

E estou a escrever-vos, presentemente no telemóvel, porque não conheço outra forma de lidar com este luto alegre de quem sabe que se está bem aqui, mas que há momentos para tudo na vida, estando eu especialmente entusiasmada por poder partilhá-los com aqueles que mais amo, em vez de o fazer em regime semi-solitário, o que - convenhamos - é bem melhor.

 

Então, pronto. Daqui a 48 horas já estarei com um pé a apontar para Lisboa e, quando assim for, esta nostalgia há-de se encontrar bem enterrada em sonhos e expectativas mais europeias e invernais.

 

(Uma certeza eu tenho: quando puser o nariz fora do avião em Lisboa, hei-de sofrer com saudades do bafo de poluição e humidade De Banguecoque... mas só momentaneamente, que uma pessoa nunca tem fôlego nesta terra!) 

 

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(Agora mesmo.) 

PERIGO: relações à distância são nocivas à saúde

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No outro dia, durante o almoço, a estagiária (de Hong Kong) que está a trabalhar na minha faculdade (em Bangkok) declarou que estava tentada a experimentar uma relação à distância com um rapaz indiano (outro antigo estagiário que já foi para casa). Parece que já se conheciam antes de virem e, enquanto cá estiveram os dois, o "clique" foi óbvio. Ainda assim, não iniciaram nenhuma relação, nem deu tempo para isso.

 

Segundo a minha experiência, provavelmente ela estava à espera que eu lhe dissesse qualquer coisa como "Força nisso! Tu consegues! Vai doer, mas vai valer a pena!".

 

Pois... NÃO!

 

Se puderem evitar relações a distância, evitem. Aliás, fujam delas como o diabo da cruz! Não se metam em aventuras! As relações à distância dão trabalho, dão que pensar, exigem os nossos melhores dias todos os dias e são um grande sacrifício. Estar longe das pessoas de quem gostamos não é a ideia romântica que vemos nos filmes. Na minha opinião, a de quem está deste lado, não é uma coisa "que se tente", desde início, só porque se sente ali um friozinho na barriga.

Se querem arriscar ter uma relação à distância ou encorajar alguém a tentar uma, avaliem a situação. É uma relação à distância desde início (o caso da minha colega estagiária) ou um acaso na vida de duas pessoas que já eram um casal antes? Há um plano ou nem por isso? Como vão ser os encontros? Com que frequência? Onde? Quem vai ter com quem? E a médio prazo, já imaginaram o que vai acontecer? Que sacrifícios estão em cima da mesa? Para quem? Há forma de negociar? E partilham-se as mesmas ideias, objectivos e visões acerca da vida em geral? Há entendimento, não só agora, mas também até daqui a uns tempos?

 

Estas são apenas algumas das questões que coloquei à minha colega e que decidi deixar à vossa consideração. São o mero resultado desta experiência que estou a viver. Só desejo uma relação à distância a quem tiver respostas suficientes. Não pretendo desencorajar ninguém, porque cada caso é um caso, mas não quero que sejam a minha colega, que não tem resposta para nada, não sabe nada, só sabe que "gostaria de tentar, para depois não se arrepender" (palavras dela). Se querem tentar, assegurem as perguntas e as respostas necessárias.

 

E, quando refiro "relações à distância", refiro desde o semestre Erasmus à oportunidade de emprego de sonho sem termo, a milhares de quilómetros. Repito: nada é um filme romântico, no qual é quase certo os protagonistas acabarem num beijo em grande plano.

Seja como for, há que dar graças a todos os santinhos pelas vídeo-chamadas gratuitas.

A viver há um ano na Tailândia

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Viver na Tailândia é uma aventura. Sei que o deve ser para quem vive longe dos centros urbanos ou turísticos, ou povoados de farangs (estrangeiros) e viver em Bangkok também é uma aventura, porque esta é a capital, vivem milhões de pessoas em apenas 600km2, é uma cidade de contrastes, gente muito rica e gente muito pobre, gente de todo o mundo enfiada em condomínios fechados, apartamentos decrépitos, complexos de moradias, casas de madeira ou alumínio à beira dos canais ou torres de quarenta andares - todos a conviverem no mesmo espaço.
Se é um caos?
É.
Mas é um caos a que nos habituamos e que acaba por nos dar a experiência das nossas vidas.

Não existe um único português a viver em Bangkok (que eu conheça) que não goste de cá estar, mesmo que todos tenhamos saudades de Portugal. Temos saudades de Portugal, mas na Tailândia é quase sempre possível levar uma vida muito mais descontraída, mesmo dentro duma selva de cimento e filas de trânsito infinitas.

Pessoalmente, adoro a comida de rua. Ou comida, em geral, barata e fácil de encontrar em qualquer lado. A chave para a minha felicidade é intercalar os meus cozinhados sofridos com a comida tradicional tailandesa. Esta última é rica em vegetais e, à parte os fritos, livre de gordura. Há muito açúcar pelo meio, mas a quantidade e variedade de fruta a que temos acesso servem para equilibrar a nossa alimentação.

As rendas, tal como o preço dos imóveis, é muito mais baixo do que em Portugal. Pago o equivalente a 200€ por um estúdio com kitchenette, num condomínio com piscina, ginásio, sala comum, guardas em peso e estacionamento. Caso quisesse comprar um destes estúdios no meu condomínio (construído em 2013), pagaria cerca de 50 mil euros.

Não me canso de dizer que os tailandeses são uns amores, boas pessoas e com integridade. Muitos dos crimes cometidos na "land of smiles" têm autoria estrangeira. Sinto-me segura a andar na rua à noite. Os tailandeses até podem corresponder aos estereótipos de "mal ou sub-escolarizados, materialistas, vaidosos, taxistas exploradores de turistas", mas raramente ouvirão falar dum tailandês que não tente comunicar convosco num Inglês desafiante, amanhado no momento, e principalmente cheio de boa vontade. Adoram falar com estrangeiros, dar indicações e, se trabalharmos com eles, pagar-nos o almoço.

Viver na Tailândia é um desafio, mas um que vale a pena aceitar. Viver em Bangkok é recorrer ao Google Maps, levar sempre um mapa dos transportes públicos connosco, descobrir onde nos levam os autocarros (com ou sem ventoinha, com ou sem ar condicionado, quase todos dos anos 70/80), fazendo sightseeing autónomo, é aceitar que Bangkok é uma cidade de turismo de compras e que não há assim tanto para visitar. É aceitar que há muita gente e que quem é dado a claustrofobia deveria viver nos subúrbios (eu).

Viver em Bangkok é como viver debaixo da chuva inglesa, misturada com temperaturas lisboetas em Julho, a humidade da Amazónia... Viver em Bangkok é viver em vários sítios ao mesmo tempo!

Por tudo isto e mais uns tostões, há piores sítios para se emigrar...