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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Um elogio à Internet (já agora, este blog completou ontem 9 anos)

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Terminada uma relação, a primeira começada numa idade adulta, reconheci em mim a necessidade de voltar a sentir-me vista. Apreciada. Amada. Desejada. Queria sentir que alguém poderia olhar para mim e pensar "que maravilhoso exemplar feminino da espécie humana", "quanta inteligência e formosura numa só jovem" ou mesmo "comia" (este era o meu grau de exigência, infelizmente, mas melhores dias vieram).

 

Como qualquer millennial dedicada ao seu trabalho, trabalho esse mais solitário, uma millennial que odeia festas e encontros com mais de cinco pessoas, e que já tinha a piscina de "oportunidades imediatas" esgotada, virei-me para o fiel online dating. Cenário familiar do ano anterior, em que, perante o fim duma relação muito mais longa e com um fim três mil vezes mais doloroso do que a presente, as redes sociais para conhecer pessoas com fins de interesse mais ou menos exclusivo já não eram território estrangeiro. No entanto, desta vez descarreguei e experimentei todas as aplicações relacionadas, qual estudo de mercado, o que não me impediu de acabar a usar apenas a do costume, a favorita, aquela que eu recomendo até às pedras da rua: OkCupid.

 

Acredito ferozmente que a Internet e as ferramentas que nos oferece têm o poder de mudar a nossa vida para melhor. Muito melhor. Basta saber seleccionar o que interessa e fazer valer o que nos é oferecido. Ficarei eternamente agradecida a quem teve a brilhante ideia de criar redes sociais, as de matchmaking também. 

 

Se não tivesse sido pela Internet, eu não conheceria pelo menos três amigas a quem cheguei por algum evento que, apesar de ocorrer offline, se divulgou online; e não conheceria o meu ex-namorado, de quem fiquei amiga, e cuja convivência me tem enriquecido emocional e intelectualmente; e não conheceria o meu actual namorado, sobre quem tenho escrito imenso, que me inspira todos os dias e que tem todo o potencial para ser, também, o meu último namorado de sempre ou, pelo menos, por muito tempo.

 

Fico maravilhada ao enfrentar os factos: qual a probabilidade de conhecer estas pessoas que são, hoje, praticamente indissociáveis da identidade que projecto para mim própria? Qual a probabilidade de acordar ao lado dum sujeito chamado João, com quem partilho muito poucos interesses, que cresceu a cinquenta quilómetros de mim? Qual a probabilidade de o João e eu nos termos cruzado, porque estudámos a menos de quinhentos metros durante três anos, mas nada nos ligava à partida, excepto o nome da universidade que ambos apresentamos no currículo?

 

Qual a probabilidade de termos começado a conversar, não fosse eu ter terminado uma relação umas semanas antes dele achar que se deveria concentrar para o grande exame, quase a tornar-se médico e a mudar-se para outra cidade? E se o João não tivesse esperado mais umas semanas, como os pais lhe andavam a recomendar? E se eu tivesse continuado a insistir na minha relação anterior, mesmo que por apenas mais uma quinzena?  E se eu não tivesse ressuscitado a minha conta do OkCupid? E se eu não tivesse publicado uma fotografia com o meu gato que o João veio a comentar, e se o João não tivesse tido uma segunda chance de tentar chegar à fala comigo, apesar de rezar a lenda que eu já ignorara uma mensagem dele antes de apagar a minha primeira conta?

 

A abrangência da Internet e a probabilidade dum grande amor, ou de grandes amizades, convergem aleatoriamente em narrativas que poderiam ter acontecido doutra forma qualquer. Doutra forma qualquer. Mas não assim. É com este pensamento que me permito invadir por uma gratidão infinita pelo efeito borboleta que me trouxe até ao momento presente. Talvez até me sentisse agradecida por outros resultados, se fosse o caso, mas permitam-me questionar: como é que é possível melhorar? Não existe melhor, pois não? Gosto tanto desta realidade como a conheço.

 

A Internet contém uma vida de possibilidades. Tivesse eu nascido uns anos antes, não me identificaria como nativa, não navegaria tão bem os mares da tecnologia que me trouxeram o João e outras pessoas de quem gosto tanto. Sem preconceitos ou amarras, uso ferramentas apenas visíveis através de um ecrã de seis polegadas para construir o mundo como ele é para mim, agora. Porque sei que tenho, de facto, um mundo nas minhas mãos. Um mundo abstracto que se materializa num mundo palpável. Um mundo onde podemos conhecer o amor da nossa vida, onde podemos conhecer amigos que nos trazem tanta bonança, onde podemos encontrar o emprego dos nossos sonhos, onde podemos partilhar as nossas obras, onde podemos aprender e partilhar conhecimento ao qual não teríamos acesso há duas décadas.

 

Estamos a meio de 2020, no meio dum pandemia. Estamos a meio duma vivência crescentemente digital, fugindo do mundo físico e dos encontros cara-a-cara, alimentando uma existência por mensagens escritas e conferências em vídeo. E que existência poderosa pode ser, se aprendermos a retirar o melhor que a Internet tem para nos sugerir! Afinal, considero que o melhor do mundo online é ter o condão de enriquecer o mundo offline, se soubermos orquestrar a transição e a complementaridade. Esta é uma época instrumental para testarmos mais modos de ser e estar num contexto único.

 

Quando abraço o João, lembro-me frequentemente do quão frágil esta realidade - esta, assim - será sempre. Oh, os pequenos acasos que nos fizeram finalmente cruzar - se não na Cidade Universitária, pelo menos num "não-lugar" chamado OkCupid. Um pequeno "se", nada deste abraço. Nada de ter conhecido o João. Nada de tudo o que surgiu. Nem, na verdade, este dia 1 de Julho de 2020 em que me sinto tão satisfeita com o que a Internet me tem dado - incluindo este blog e toda a partilha e procrastinação proporcionadas em - fez ontem - 9 anos.

 

No topo, fotografia tirada ontem, 30 de Junho de 2020, às 21h50 (em jeito de celebração de mais um marco na existência do Procrastinar Também é Viver). A minha janela e o pôr-do-sol estival, tardio, claro. Quase parece anunciar o bem que há-de chegar.

O trabalho, o tempo, a produtividade e o capital (entre outros)

Quando decidi estudar Línguas e Humanidades na escola secundária, ouvi muitas vezes a ameaça-feita-pergunta "que emprego é que vais ter? Professora?" seguida de sugestões de cursos muito mais proveitosos, como ir para Economia e depois tirar Finanças ou Gestão na universidade, tornar-me solicitadora ou vir a trabalhar numa multinacional tipo Deloitte e ganhar dinheiro (muiiito dinheiro, pelo menos mais dinheiro do que se me tornasse, Deus nos livre, professora).

 

A ditadura do capital e da produtividade esteve presente na minha vida desde cedo. Sempre que expressava as minhas inclinações mais criativas, literárias e artísticas, era incentivada, mas não se isso me impedisse, por exemplo, de seguir Direito, ou mesmo Antropologia, as últimas tentativas de argumento do meu pai. "Porque são disciplinas com nome, não são uma coisa inventada", como quem quer dizer que ficariam bem num currículo.

 

Felizmente, arranjei sempre maneira de fazer valer a minha licenciatura com cheirinho a artes liberais, o meu interesse pelas letras, a minha paixão pela escrita, a minha recusa veemente em ter a cabeça a prémio no jogo da empregabilidade. Apesar de o objectivo inicial ter sido o jornalismo, em breve percebi que a profecia alheia era mesmo uma das minhas paixões: aos 21 anos, fiz-me professora sem dramas ou espinhas, porque, acima de tudo, fui proactiva, fui esforçada, trabalhei,  estagiei e fiz formação profissional durante a licenciatura, e tive boas notas que me puseram um pé na porta nalgumas situações.

 

Desde a infância, a geração dos millennials ouve a ladainha "é pelo teu bem" ou "é pelo teu futuro". A matriz cristã católica está bem enraizada nestas crenças, porque sofrer e fazer sacrifícios só pode ser igual a obter a salvação, ou sucesso. É isso que interessa. Claro que todos os pais querem o melhor para os filhos, mas por que tem de ser este "o melhor" que conseguem imaginar?

 

Hoje, estou em paz por ter decidido não carregar nenhuma cruz. Pessoas felizes são bem-sucedidas e rodeiam-se de pessoas bem-sucedidas - seja lá o que isso do sucesso possa significar.

 

Para mim, sucesso é ocupar-me do que me faz sentir útil e apreciada, não é ganhar montes de dinheiro, mas sim ter tempo, saúde mental e oportunidades de crescimento constante. Tive-o no meu primeiro e único emprego como leitora numa universidade em Banguecoque; quando voltei para Portugal, sempre soube que só o conseguiria nos meus termos se criasse o meu próprio emprego.

 

E assim foi. Não há dinheiro que pague o tempo que tenho para continuar sempre a estudar, a fazer trabalho criativo paralelo, coleccionar projectos profissionais simultâneos e decidir quando tenho férias (na verdade, acabo por ter menos dias de férias, mas isso é porque também posso ter meios dias de trabalho e outras regalias). Tudo isto, sem ter um esgotamento.

 

Para mim, ter sucesso é ter tempo para pensar, experimentar e criar - ou simplesmente não ser produtiva. É ter tempo para estar com as pessoas que amo, conhecer novos sítios, ler, escrever, passear.

 

A ditadura da produtividade é a melhor amiga da ditadura do capital, como se o ser humano só se concretizasse plenamente pelo seu volume de trabalho. E o que é esse trabalho? Muitas vezes, nada muito edificante, como contribuir para o fluxo de burocracia e entropia já existente. Parecer ocupado é o que mais interessa na sociedade que preza a produtividade, não é ocuparmo-nos de algo significativo.

 

Fica mal dizer-se outra coisa que não "tenho estado tão ocupada, que mal consigo respirar". Mais uma vez, temos de provar e alimentar o sacrifício diário. Claro que há pessoas ocupadas, eu mesma também passo por períodos mais cheios de trabalho (como nos próximos meses), mas estar ocupada é diferente de me fazer parecer ocupada.

 

Esta é apenas uma reflexão sobre o modo como vemos o mundo do trabalho. Gostava que as próximas gerações, ou mesmo quem se candidata este ano ao ensino profissional e superior, pudesse ver o seu futuro activo além dos títulos, das horas de trabalho, do prestígio e do dinheiro. Aviso-vos de coração: tenho amigos e colegas mais velhos que passaram anos e anos a trabalhar em indústrias e sectores que não lhes acrescentavam nada à vida, e que, chegados a uma certa idade, acabaram por repensar as suas prioridades, escolhendo o que deveria ter sido sempre escolhido: ser feliz e realizado.

 

Claro que o dinheiro é imprescindível: o bem-estar material precisa de estar minimamente assegurado para que outros objectivos surjam. Claro que o prestígio é importante, desde que seja aquele que nos motiva e permite continuar a evoluir.

 

Ainda assim, acredito que apareçam ambos na quantidade necessária como consequência de um sentimento de plenitude e preenchimento, de espírito de missão de que nos imbuímos quando descobrimos a profissão (ou profissões, ou ocupações) que nos fazem sentir que estamos a contribuir para o mundo da melhor forma, aquela que nos compete e melhor se ajusta, de acordo com os nossos interesses e talentos.

 

É com estas cores que vejo o mundo aos 25. Não digo que jamais mude de ideias, mas não custa ser idealista por um bocadinho.

 

***

 

A ler: How to Do Nothing, Jenny Odell

Para que serviu esta quarentena?

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Dum ponto de vista apreciativo, devemos concentrar-nos no que corre bem, ao invés de analisarmos o que corre mal. Mesmo antes de estudar psicologia positiva, já me obrigava a valorizar forças, oportunidades e potencial, tanto as minhas quanto as das pessoas com quem convivo e trabalho, as dos meus alunos e as das situações diárias. Talvez por mania, talvez por ter sido criada por uma optimista incurável, talvez porque é uma das formas que me obriguei a adoptar na esperança de me safar de disposições e estados psicológicos mais adversos nos últimos anos.

 

Um ponto de vista apreciativo não nega o que correu mal. É, em vez disso, um exercício indutor de crescimento, construção e transformação positiva sempre que possível. E este é um texto escrito de barriga cheia, não me esquecendo do que tem acontecido de negativo no país e no mundo, não me esquecendo da gratidão por me encontrar sã e salva, assim como os meus, ainda que com algumas ressalvas a nível profissional/financeiro, não desvalorizando nada disso.

 

Assim sendo, proponho a seguinte reflexão: na vossa opinião, a partir da experiência pessoal de cada um, para que serviu esta quarentena?

 

Começo eu, pode ser...?

 

Desde o primeiro dia que passei em casa por causa da quarentena profilática, tentei ver o lado bom da situação. Ninguém da minha família ou amigos doente; a possibilidade de trabalhar a partir de casa; a actividade profissional que não se esgotou e que, em parte, de multiplicou; muitos livros por ler e encomendar.

 

No entanto, passei várias semanas num estado de confusão permanente. Em casa, como a maior parte dos portugueses, privada da confraternização diária com alunos e amigos, longe do meu namorado, preocupada com ele e com outras pessoas à minha volta que tiveram de continuar a sair para trabalhar. Vi-me presa às redes sociais, insaciável por pistas sobre o futuro, pistas essas que nunca conseguia encontrar; sem ideias para escrever fora do diário pessoal, sem concentração para ler, com frio e um medo disfarçado de mera ansiedade crónica agravada pela meteorologia adversa, enrodilhada em mantas para disfarçar o desconforto. Vivo numa zona ventosa, húmida e onde choveu ou não fez sol durante muitos dos primeiros dias da Primavera. Mas, ao menos, vivo no campo e pude fazer caminhadas quando a melhoria do tempo o permitia.

 

Saber um pouco da teoria do bem-estar e da felicidade não foi o suficiente, mas mal de mim se não a soubesse. Nem todos conhecemos o caminho para o bright side das nossas existências quotidianas, caminho esse especialmente ameaçado nas circunstâncias actuais, e ao menos eu tinha algumas linhas de orientação sobre como encontrar o caminho para o meu.

 

Escrever foi o primeiro passo, também por ser o mais óbvio. Tinha passado os últimos três ou quatro meses a estudar os seus benefícios na saúde mental e física, a ler todos os livros e artigos a que conseguia chegar acerca do assunto, além de ter eu mesma criado um workshop sobre diário positivo que coloquei em prática alguns dias depois do início do estado de emergência.

 

Ler, como já terei referido, não foi uma das actividades predilectas desde o início. Por muito que tentasse, faltava-me a atenção necessária à interpretação de ideias mais complexas do que um tweet, um meme ou, no máximo, um artigo de opinião. Felizmente, fui recuperando alguma em quantidades crescentes ao longo dos dias, motivada por opções de leitura cada vez mais variadas que foram chegando à minha morada.

 

Manter uma rotina de exercício físico não foi logo uma prioridade, por falha de julgamento minha, mas algumas semanas sem ele fizeram-me querê-lo de volta, por isso passei a caminhar sempre que possível e a marcar treinos semanais por chamada de vídeo, mesmo que os presenciais tenham sido suspensos por tempo indeterminado. Nem sempre cumpro com as minhas próprias expectativas, mas estou em modo "qualquer coisinha já é qualquer coisinha" (a foto que ilustra este texto foi tirada depois dum treino bem sucedido, Lord Ennui incluído).

 

Ainda enquanto consequência da falta de concentração, não fui capaz de aprender e apreender novo conhecimento como habitual, como quando tenho a cabeça no devido lugar, mas nunca ouvi tantos podcasts e explorei novos temas quanto agora. Fiz muitos "passeios com podcasts", as tais caminhadas frequentes em que só podia voltar para casa depois de ouvir um episódio com, no mínimo, 20 minutos de duração. Nas primeiras semanas do confinamento, também consegui terminar - a custo - um curso iniciado em Março, mas, encontrando-me em baixo de forma, só fui capaz de voltar a aprender facilmente nos últimos dias (muito entusiasmada com as aulas do Masterclass e o regresso das aulas da pós-graduação). Agora, estou a tentar avançar com outro curso livre, pouco a pouco.

 

Talvez ainda mais do que a parte intelectual das nossas vidas, a parte social importa muito. Claro que já estou farta de chamadas de vídeo, já que a minha actividade profissional passa por elas a 100%, mas tive de as adoptar nas horas de lazer com igual estoicismo. Continuar a organizar O Primeiro Capítulo foi imperativo, ligar a amigos várias vezes por semana, trabalhar acompanhada com alguém do outro lado da rede, e até sestas pelo Zoom já partilhei com o João. Não quero imaginar o que seria passar este período de confinamento sem a tecnologia de comunicação da qual dispomos actualmente...! 

 

Finalmente, a acompanhar o ritmo do desconfinamento e recuperando hábitos de escrita além do diário pessoal como pente que desembaraça ideias e emoções contraditórias, enviei um texto que andava a rascunhar há meses para um concurso literário, estou a preparar um novo texto para outro, voltei a escrever textos mais longos e tenho uma crónica para o P3 a aguardar publicação, assim como a candidatura a um mestrado para a qual tenho de apresentar um portfólio de escrita. Também me tenho forçado a sentar-me diariamente ao computador para ir criando qualquer coisa e a reservar tempo para o trabalho mais criativo, ao invés de esperar que as palavras caiam do céu para aterrarem na página em branco.

 

Não, não estou em forma. Longe disso. Têm sido semanas emocionalmente desafiantes e é normal falharmos, tentarmos, conseguirmos às vezes e noutras vezes não conseguirmos.

 

Contudo, se esta quarentena serviu para alguma coisa, para mim espero que tenha sido para me obrigar a parar, dar um passo atrás, fazer uma limpeza às prioridades e poder seleccionar o que é mais importante no tempo imediato, que se possa reflectir a longo prazo. Antes, eu não tinha chegado a estas conclusões, mas toda a disposição do desconfinamento neste fim de Primavera cheio de sol, da promessa optimista, mesmo que ilusória, tem-me permitido ser também eu mais optimista e apreciativa.

 

Desse lado, não se esqueçam de partilhar ou de apenas pensar, sem vergonhas ou censuras: para que serviu esta quarentena, afinal?

 

(Nem que tenha sido para procrastinar! )

Best of Procrastinar 2018-2020

Ora, bom dia! [Deve ser a primeira vez que inicio um texto desta forma; há uma primeira vez para tudo...]

 

Reconheço que não tenho sido uma companhia muito assídua, mas estes dias são uma amálgama de semanas, então tenho perdido a noção do tempo, assim como uma certa inspiração para escrever. Porém, acompanhando o fim do estado de emergência, conto recomeçar o hábito de publicar qualquer coisa uma vez por semana, seja sobre livros, filmes, séries, eventos ou aleatoriedades.

 

Entretanto, uma vez que as procrastinações estão quase a celebrar os seus 9 anos (em Junho), decidi organizar uma lista de "Best of Procrastinar" dos últimos 2, isto é, entre Março de 2018 e Abril de 2019. Assim, aqui fica o registo ou repositório das minhas 40 publicações preferidas, ordenadas da mais recente à mais antiga. Não vos convido a ler todas, que 40 textos são muita palavra, mas acredito que haja uma ou outra que tenham gostado de ler pela primeira vez e à qual vos apeteça voltar, ou que encontrem algum título desconhecido que vos interesse e assim conheçam um pouco mais do que existe lá para trás, no passado do blog. 

Sem mais demoras...

 

BEST OF PROCRASTINAR 2018-2020

 

  1. O tempo em conflito
  2. O amor e a loiça
  3. Quem é que escreveu o teu texto?
  4. Dá vontade de dizer "forever and ever"
  5. Procrastinar ainda é viver?
  6. São só fotografias
  7. A última romântica
  8. As férias
  9. Gosto tanto de viajar sozinha!
  10. Vistos, ouvidos e validados
  11. A nécessaire da pessoa com quem fui de férias
  12. As dores de um blog
  13. Emprestar livros: uma reflexão simpática
  14. Como concretizar todas as ideias que nos aterram na cabeça?
  15. Escrever, pôr tudo cá fora: Bullet Journal, journalling, to-do lists e outros estrangeirismos de caneta no papel
  16. Sobre quem conversa e quer conversar
  17. Não terminar livros
  18. Há um ano em Portugal
  19. Viver na ditadura da popularidade, criatividade, identidade única e algoritmos
  20. Ler e ser lido; escrever sobre quem escreveu
  21. Eu, Inês
  22. Sabe tão bem comprar um livro novo!
  23. Ser adulto é...
  24. Blogue, baú de memórias, caixinha de recordações
  25. Coisas boas atraem coisas boas, uma explicação científica
  26. 36 perguntas que levam ao amor - a minha experiência pessoal
  27. Vergonha alheia
  28. Modern Romance: como a Internet mudou as nossas relações e vidas amorosas
  29. Este não é um texto sobre estradas
  30. Ainda Alain de Botton e o amor: como 'The Course of Love' também me conquistou
  31. Pensamentos sobre tentar escrever um livro (outra vez), auto-censura e outras inquietações
  32. Há dias
  33. Estar, apenas
  34. O meu novo livro preferido: Essays in Love, de Alain de Botton
  35. Alguma vez estamos preparados para o próximo passo?
  36. As viagens também servem para arejar as ideias
  37. As pessoas não se sentam para beber café
  38. Sobre a felicidade dos outros
  39. Sobre flores (e copos, vá)
  40. Com o que se parece um desgosto?

 

Para mim, procurar o que escrevi nos últimos anos foi um exercício construtivo. A verdade é que serviu para reler alguns textos dos quais já não me lembrava, para perceber a evolução do que escrevo e para revisitar momentos ou pensamentos nos quais, muitas vezes, já nem me reconheço. A memória prega-nos partidas, já escrevia Julian Barnes em The Sense of an Ending, por isso escrever um blog vai atrasando o esquecimento ou, talvez, imortalizando aquilo que me pareceu relevante partilhar.

 

A quem passa por aqui, obrigada pelas procrastinações contínuas e por tornarem o acto da escrita menos solitário!

O tempo em conflito

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Foi da minha relação com o tempo, por vezes conflituosa, que nasceu este blog. Aliás, da minha relação conflituosa com o tempo nasceu tudo o que alguma vez fiz e conquistei, e também tudo aquilo contra o qual luto diariamente – a ansiedade, o pânico, a procrastinação, a impotência, a fraca eficiência, o forte perfeccionismo. A culpa. São muitos os nomes, mas dizem todos o mesmo.

 

Quando tinha 17 ou 18 anos, li um dos únicos livros que me fez pensar que essa minha relação cada vez mais conflituosa com o tempo poderia eventualmente conhecer a paz: How to Be Idle, de Tom Hodgkinson. Continua a ser, na minha cabeça, um dos livros de que mais gostei na vida, mesmo sem nunca ter arranjado coragem para o reler desde então. No entanto, continuo a seguir o trabalho do autor e tenho a certeza: pode haver tempo para tudo, há melhores filosofias sobre a gestão do tempo que eu tenho adoptado durante os meus primeiros anos de vida adulta, sem sequer me aperceber.

 

Sem sequer me aperceber, absorvi o que ensina esse modo de estar, o modo que não condena o prazer e o lazer. Há que fazer o máximo de trabalho, no mínimo de tempo, alcançando os melhores resultados. Não pretendo ser mais rica ou famosa, se isso significar que trabalho mais do que seis ou sete horas por dia, se isso me impede de continuar a estudar e de arranjar mil e um projectos paralelos que tanto me preenchem, se isso me impede de desfrutar duma vida familiar e duma vida social ricas. Não há margem para perfeccionismos, pais e mães de morais pouco generosas.

 

Por outro lado, é também dessa procura de equilíbrio constante que parte o resto do conflito. (A culpa, os hábitos enraizados, a moral partilhada, a sociedade…) Misturo, constante e inevitavelmente, trabalho e lazer. Chego a sentir-me obcecada pela gestão do tempo útil, ora pela produtividade, ora pelos resultados, ora por querer alcançar um El Dorado do nada fazer, essa sensação de despreocupação que raramente desce em mim. Canso-me imenso, desnecessariamente, a ligar e a desligar a ficha. Faz-me falta a fruição e o flow, esses estados de espírito de quem vive leve, mesmo que ocupado, imerso no mundo.

 

Procrastinar também é viver, porque sempre disse que procrastino umas tarefas com outras, umas obrigações com outras, uns passatempos com outros, mas, quase a bater os 25 anos, vejo-me forçada a repensar o significado dessa prática na minha vida neste momento. Já não sou adolescente, começo a ter cada vez mais deveres aos quais não posso fugir, e recuso-me a trabalhar por conta de outrém, pois dificilmente me desabituo ao trabalho por conta própria.

 

E é ao trabalhar por conta própria que ainda mais aprofundo aquele conflito sobre o qual vos contava, ainda que seja aí que também procuro uma solução mais activamente. Costumo brincar com a situação ao dizer “a minha chefe nunca me dá férias” ou “a minha chefe é que manda”, para expressar esta dualidade oscilatória entre sentir-me cheia de liberdade, porque nestas condições posso fazer o que me apetecer, e sentir-me muito responsável, demasiado responsável, pelas minhas finanças, pelo meu negócio, pelas minhas actividades. Sei bem que posso morrer tanto da cura, quanto poderia morrer da doença. Que ética de trabalho? Mas que ética para o resto da vida?

 

Por agora, concluo: está quase tudo relacionado com o vocabulário e a narrativa com os quais descrevo este conflito com o tempo: procrastinar também é viver, relembro. Procrastinar é aceitável, relembro. Viver concretiza-se, no meu contexto pessoal e específico, nas condições que melhor me parecerem.

 

Procrastinar também é viver. Serei a única com mantras aos quais tenho de voltar, uma e outra vez, para voltar a encontrar o meu lugar no mundo? A plasticidade das narrativas pessoais fascina-me (daí interessar-me tanto por psicologia e educação). A reinvenção do que nos define traz poder. Que histórias contamos sobre nós mesmos, a nós mesmos?, perguntam investigadores como James Pennebaker ou escritores como Will Storr. E como é que essas histórias nos descrevem uns aos outros?

 

A minha história confessa que, neste momento, batalha contra o tempo, mas simultaneamente com ele. Afinal, a ansiedade, o pânico, a procrastinação, a impotência, a fraca eficiência, o forte perfeccionismo… tudo isso não pode ocupar a totalidade do meu espectro de atenção disponível. O tempo em conflito pode dar tréguas.

 

(A fotografia deste post foi tirada perto da minha casa, a 18 de Abril de 2020, um dia de céu muito limpo, com a Serra da Arrábida a espreitar lá ao fundo. É em dias de céu limpo que pensamos melhor.)

Considerações sobre o fio da navalha (ou as dificuldades invisíveis dos trabalhadores independentes)

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Sob o pretexto de estarmos à beira duma crise económica, ou de estarmos a atravessar tempos difíceis, há quem se queixe de que os profissionais independentes (como é o caso de professores e formadores, ou seja, o meu caso) estão a cobrar demasiado dinheiro pelos seus serviços. Não podemos cobrar X valores, temos de cobrar Y, porque X é muito para esta época. Temos de baixar os preços, dizem essas pessoas. Temos de ser solidários.

 

Assim, sob um pretexto de falsas boas intenções e hipocrisia, este desprezo dedicado aos trabalhadores independentes, vulgo freelancers, uma classe tão vulnerável quanto qualquer outra, deixa-me bastante desapontada. Não sabe quem reclama dos preços praticados que, com crise ou não, as obrigações fiscais, legais e contributivas continuam a ser as mesmas? Não sabem essas pessoas que o facto de estarmos em teletrabalho não invalida o facto de estarmos a negociar o nosso tempo e a nossa sanidade mental? Não sabem essas pessoas que os trabalhadores por conta própria também vivem no fio da navalha? Não sabem que também estamos expostos à recessão que se adivinha?

 

O meu tempo tem um preço. Os serviços que presto têm um preço. É o meu preço justo e não o aumentei nem diminuí nas últimas semanas. Aliás, continuo a trabalhar com um estoicismo e em tentativa de normalidade que me surpreendem na mesma medida que me deixam ainda mais exausta ao final dum dia à frente do computador, mais do que seria, lá está, normal.

 

Tenho muita sorte, porque acertei numa actividade profissional que vinga, apesar de tudo, no meio da pandemia, e que neste momento até tem algum potencial de desenvolvimento. Contudo, tal como tenho sorte, não me falta engenho. O que me pagam não se justifica apenas pelo meu tempo a trabalhar; uma hora de trabalho não é uma hora. Na minha opinião, o que me pagam deve ser proporcional à formação contínua e ao desenvolvimento de competências e conhecimento nos quais invisto de forma constante. No ano passado, completei quase dez cursos de formação em áreas relacionadas com a minha actividade, além da formação universitária que continuo a frequentar em paralelo. Por esse e tantos outros motivos, não me peçam borlas.

 

Além disso, o que adoptei como vocação e profissão não é um bem ou serviço de primeira necessidade. É, se quisermos, um luxo. Há alternativas, algumas - muitas - delas gratuitas. Os mesmos queixosos que defendem que os professores/formadores por conta própria deveriam cobrar preços mais baixos, porque se pode aprender essas mesmas coisas na Internet, através de apps, sites e programas chapa 0, são os mesmos sujeitos que não utilizam essas ferramentas e que quase exigem ter um criado que sabe coisas ao seu dispor.

 

Correndo já o risco inevitável de enveredar pela personalização da minha mensagem, remato com um apelo: não questionem cegamente quanto custa recorrer ao trabalho de um profissional independente (sim, aquela pessoa dos recibos verdes, que pode ser um canalizador, um professor, um técnico de manutenção, um empregado de limpeza, um consultor, um médico privado ...). Comparem, informem-se, tenham noção, mas não ditem o que outra pessoa deve ganhar sem pensar em tudo isto. Num mundo onde o low cost e a precariedade são banais, apelo a que valorizem a qualidade pelo seu custo justo. Desta forma, se não concordarem com a primeira proposta que receberem, o melhor a fazer é procurar quem vos possa apresentar uma melhor, ou uma mais adequada às vossas necessidades e possibilidades.

 

Quem quer fazer omeletes sem ovos deveria resignar-se ao facto de que tal fenómeno, por norma, não existe. Ainda estou para conhecer um produto ou um profissional de notória qualidade e eficiência que não tenha valido todos os meus cêntimos. É assim que quero que os meus clientes/alunos se sintam: que eu não sou uma profissional low cost, mas que o retorno faz valer a pena - seja em tempos prósperos ou de escassez.

 

E, se o leitor também for trabalhador independente, não se deixe enganar, reduzindo o valor do que faz. Uma coisa é negociar, outra coisa é ser desvalorizado.

Um elogio ao "Quotidiano Instável" (Maria Teresa Horta)

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"Nunca cheguei a saber o que me atraía nele: os olhos? As mãos compridas e magras? O ar fechado e triste? A hostilidade quase terna, toda ela aparente? (...) E todavia há uma dormência feliz que não compreendo, ou que talvez não queira compreender, como também nunca consegui entender até onde ia a sua timidez, a sua severidade, ou a sua indiferença por mim."

 

Quotidiano Instável era o nome da coluna d'A Capital e, agora, é o nome duma coletânea com algumas dessas crónicas escritas, há 50 anos (1968-1972), pela jornalista e escritora Maria Teresa Horta. Acima de tudo, mais do que crónicas, estes textos não são só palavras - são formas de estar, pensar e sentir. Acredito que só quem já amou, com paixão, dor, alegria, provação e ternura consiga entender, mesmo que superficialmente, o que se passa nestas páginas. São muitas as palavras que MTH escreve sobre quem mais a inspirou desde sempre, o seu marido Luís, uma autêntica musa no masculino.

 

Se o olhar desgastasse o papel, este livro estaria feito em fiapos. As crónicas são curtas, como mini-contos, mas bastante complexas, rebentando de significado, metáforas, um vai-e-vem entre o sujeito "eu" e uma terceira pessoa. São textos que desafiam as barreiras entre o real e o imaginário, através da narração da paixão, da sensualidade, da sexualidade, da família e das relações em geral numa voz que eleva o amor à condição de mito real, pela sacralização das imagens e raciocínios invocados. Tive de ler cada crónica várias vezes, para recolher tanta informação quanto possível, informação essa que alimenta os sentidos de variadas formas, imagens ricas. Mesmo assim, sei que, cada vez que releio alguma, consigo retirar mais um pouco do que antes... Porque é prosa, mas poderia ser poesia, o que MTH escreve é um fio de consciência que nos cabe destrinçar, que não se sabe bem como ou onde começa.

 

(Senti-me quase sempre a ler cada texto como um sonho...)

 

Paralelamente, aconselho esta entrevista a Maria Teresa Horta no podcast "A Beleza das Pequenas Coisas" (também disponível no Spotify), que complementa a informação disponibilizada no prefácio de Quotidiano Instável por Ana Raquel Fernandes. As crónicas fazem ainda mais sentido à luz da experiência de vida de Maria Teresa Horta - política, jornalística, pessoal... (Não nos podemos esquecer que o erótico feminino, a liberdade implícita, a expressão do desejo, a emancipação, o protagonismo dado à mulher - tudo isto é lindo, um dado adquirido na contemporaneidade, mas não durante a ditadura de Salazar e de Marcelo Caetano.)
Além disso, ouvir MTH é uma delícia. Tem tantas lições para nos ensinar...! Então, aqui fica outra sugestão: Maria Teresa Horta em entrevista no podcast "Biblioteca de Bolso".

 

Quem gosta de crónicas e/ou contos vai adorar este livro, Quotidiano Instável. Quem gosta de poesia vai adorar este livro. Quem gosta da máxima "quantidade não é qualidade" vai adorar este livro curto e tão concentrado.

 

Dadas as nossas circunstâncias actuais, não vos aconselharia particularmente a fazer encomendas, e muito menos a sair de casa para adquirir bens não essenciais; no entanto, se já tiverem este maravilhoso livro na vossa estante, aconselho-vos a darem-lhe uma oportunidade, ou a fazê-lo assim que possível depois deste susto na saúde colectiva. Mesmo que gostem mais dumas crónicas do que doutras, tenho a convicção de que não se vão arrepender.

Nota breve

Eu já me importei se o meu blog aparecia nas primeiras páginas do Google, ou não. Escrever para blogs doutras pessoas e empresas, para pagar a licenciatura, viciou-me em mesquinhices de SEO e marketing digital. E funcionou. Hoje em dia, se estiver a calhar, boa. Se não calhar, não forço.

 

Sei que há relativamente poucas pessoas a lerem o que escrevo, mas sei que o fazem por gosto. Voltam, não porque o algoritmo de um motor de busca os encaminhou para aqui, mas porque gostam genuinamente de cá estar (espero eu). Por isso, ao longo dos anos, vejo, muitas vezes, as mesmas caras. É bonito. Obrigada. Para que escreve uma pessoa, senão para ser lida?

 

Não sou a pessoa mais-tudo do mundo, mas sei que tenho as minhas qualidades. Sou muita coisa, mas ultimamente quero aprender a ser mais autêntica e generosa. Quero seguir os meus verdadeiros interesses, e não o que alguém ditou, ou sequer sugeriu, para mim. Em troca, espero também ter tempo e disponibilidade mental para os outros, transmitir serenidade (tanto quanto possível), e isto sem nunca abdicar da minha identidade e daquilo que me interessa. Sei que ambos são compatíveis.

 

No blog, na escrita ou na vida, por agora estou (sou?) assim.

Ainda a despenalização da eutanásia

No outro dia, a minha avó disse-me uma das coisas mais dolorosas de sempre. A minha avó disse-me que, no dia em que se vir sem liberdade de movimentos, sem conseguir garantir a sua independência e autonomia, com dores físicas (e principalmente uma grande dor interior), vai pensar em suicidar-se.


No que toca a esta discussão sobre a despenalização da eutanásia em Portugal, confesso que me poderão faltar argumentos técnicos, médicos ou legais. No entanto, o que não me falta é a sensibilidade de alguém que ama e pretende proteger os seus entes queridos de qualquer dor, até ao fim dos seus dias, não importa quando ou porquê. Quero que vivam por gosto, não por obrigação. Mas não é fácil chegar a consenso nestes assuntos, pois não?


A minha avó é a minha heroína. Quando me faltou uma mãe, foi ela que se chegou à frente para ocupar essa função. É a pessoa mais generosa, abnegada e também senhora do seu nariz e da sua liberdade que conheço. A minha avó tem 78 anos, mas pega no carro e nas suas pernas e lá vai ela a todo o lado, principalmente pelos outros. Claro que a idade pesa e não vai para trás, por isso também sente que a agilidade e a rapidez do corpo de outrora já não são as mesmas. As pessoas não são eternas, o corpo humano é falível.


A minha avó é a pessoa mais importante da minha vida e eu não quero que a pessoa mais importante da minha vida vá dormir a pensar que, se sofrer um envelhecimento incapacitante, a única solução para terminar os seus dias com a dignidade que acha necessária (o que inclui a sua individualidade, a sua liberdade, a sua saúde e conforto) passará por morrer sozinha e de sabe-se lá que forma, em segredo, por desespero.


E, assim como no toca à minha avó, não quero que nenhum português tenha de ouvir da boca dos seus familiares ou amigos que, um dia que percam as condições necessárias para viver com a dignidade que consideram necessária, por motivos de falta de saúde, pretendam suicidar-se, ou que sequer pensem nisto.
Infelizmente, há outro lado. Eu também não quero que a alternativa a esse fim aconteça sem lei, sem garantias de suporte psicológico, sem consenso entre médicos, sem condições hospitalares, sem fundamentação, sem garantias, sem mecanismos que possam proteger as famílias que assim escolhem. Tomar uma decisão colectiva seria só o primeiro passo: e o resto?


No fundo, o que me preocupa é que a sociedade e o horizonte político do país ainda não estejam preparados para um passo tão significativo como a legalização da eutanásia. Nem a lei, nem as pessoas me parecem ter os recursos e o entendimento necessário para levar esta decisão e respectivas consequências avante. Se eu gostava que estivéssemos protegidos e pudéssemos confiar nas autoridades médicas e legais, caso alguém que amamos já não tenha assegurada a condição humana intacta? Caso esteja em tamanha dor física e/ou psicológica que mantê-lo vivo seria pura crueldade? Gostava muito.


Mas será possível confiar que erros de julgamento e diagnóstico, buracos na legislação e na discussão filosófica e societal não vão ocorrer, mesmo que por acidente? Disso já não tenho a certeza. Por isso, sobra-me pensar que a discussão sobre a legalização da eutanásia nos deveria fazer dar as mãos e unir esforços, em vez de nos colocar nos extremos da bancada. Este não é um assunto de esquerda, de centro ou de direita. É um assunto de humanidade, que pede tolerância, cautela e muita cooperação na procura de respostas. Afinal, não se brinca com a vida (e a morte) humana. Sim, eu sou a favor da possibilidade de eutanásia, mas talvez não num país como o Portugal de hoje. A minha avó merece melhor.

 

***

Entretanto, depois de eu ter escrito este texto, o parecer do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida foi divulgado: aqui.

O amor e a loiça

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O João gosta de lavar loiça. Mal acabamos de comer, lá vão os pratos todos para a pia, os talheres retinem no fundo, o lixo é separado. O João recicla. O João não deixa entupir os canos. O João guarda o plástico e o vidro num caixote especial que se leva ao ecoponto mais tarde, mais o lixo comum.

 

Depois, se o abraço e lhe agradeço, o João diz que me ama. Eu aceito sem reservas, e só espero poder compensá-lo para o resto da nossa vida a dois, por tudo e mais alguma coisa - e em particular pela quantidade de loiça que ele há-de lavar, opondo-se convictamente à compra duma máquina, e insistindo que um electrodoméstico não o faria tão bem quanto as mãos dum homem, uma esponja e água quente.


Eu e o João conhecemo-nos numa app de engate. Escrevo “app de engate" porque "app para encontrar o amor" parece demasiado redutor. Ele poderia ter só encontrado alguém que gosta de falar de psicologia positiva, eu poderia ter só encontrado alguém que gosta de falar de realismo imaginário. Trocaríamos impressões sobre estes interesses vagos e aquele chocolate quente nas Picoas teria sido um intervalo bem-vindo durante o meu primeiro dia de trabalho a seguir das férias. A seguir, eu contar-lhe-ia a desculpa do costume: que ele era muito bom rapaz, mas que afinal eu concluíra que ainda estava a recuperar do meu último desgosto, recente; não sentia que fosse justo continuarmos a conversar, não fosse eu, e o meu caos, magoá-lo. Blá blá blá.

 

(Quando lhe disse isto, o João abanou a cabeça e disse “És tão engraçada, e a tua vida parece saída dum filme.” Fiz dele o protagonista, só para aprender a lição.)

 

Ainda bem que o João não quer saber das minhas desculpas.


Nesta vida, tive três namorados e todos eles são donos de casa invejáveis. Há quem atraia malucos. Há quem atraia sacanas. Há quem atraia meninos da mamã. Há quem atraia ricos. Ou pobres. Ou forretas. Há quem atraia homens mais velhos. Eu atraio homens que não suportam uma cozinha por arrumar. Aliás, até vou ao ponto de dizer que adoram fazê-lo.


Eu digo que é sorte ou coincidência; o João diz que é porque eu sou aquele tipo de mulher que atrai esse tipo de homem, um padrão, ponto final. Ora, esta crença dele obriga-me a esforçar-me por merecer o padrão. Tenho de me esforçar por merecer o João, a pessoa que me diz que eu mereço que me lavem a loiça. (Aposto que nunca ouviram uma coisa tão romântica, nem no dia dos Namorados, pois não?)

 

O João é trabalhador. É esforçado e focado. É poupado. É gentil com toda a gente. É expressivo, interessado e bom conversador. O João lê o que eu escrevo e e ainda envia aos pais.

- Tudo isto, e mais a loiça! 


Acredito que haja coisas bem piores na vida, a partir do momento em que confirmo: por trás da atrapalhação partilhada durante a exposição dos sujeitos como que numa montra do talho (idade, check, profissão, check, sem suspeitas psicopatas, check, à procura de relação séria, check, cheira bem, check...), existe de facto uma pessoa que espera um dia partilhar connosco a sua cama, os seus dias, a sua loiça lavada e a sua ADSE.

 

Isto é amor, ou lá o que é, João, não é?

 

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Texto escrito originalmente paraO Primeiro Capítulo de Fevereiro. No dia anterior ao encontro, decidi escrever outro, por ainda não estar contente com este.