Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Aos 23

InFrame_1560781347138.jpg

 

Hoje, no último dia dos 23, uma aluna que conheci pela primeira vez disse-me, ao ver-me, que estava à espera de alguém mais velho.

 

"For some reason...", justificou, visivelmente confusa. Balbuciei "yes, I am quite young". E, sem saber o que mais responder sobre tal assunto, levei a conversa por outros caminhos.

 

As várias questões ligadas ao tempo na minha vida ocupam grande parte das preocupações que realmente me importam no dia-a-dia. Ora tenho sede de devorar o tempo, de chegar mais depressa não sei onde, de conseguir fazer mais e melhor, para saber o que vai acontecer no próximo capítulo; ora o tempo parece nunca mais passar e eu continuo pequenina, migalha esfarelada no universo; ora querendo pará-lo e esticá-lo. Tem de me servir nas medidas.

 

Aos 21, comecei a dar aulas numa universidade do outro lado do mundo, assinei o meu primeiro contrato de arrendamento para um apartamento num também 21º andar, sentindo-me tão crescida, mas mais pequena do que nunca, tão vulnerável e tão pouco credível. Durante mais de ano e meio, evitei revelar aos meus alunos quantos anos - ou meses - me separavam deles. Especularam sempre o previsível, entre 25 e 30, o que eu também não desmentia.

 

Depois, regressei a Portugal e comecei a trabalhar por conta própria, a criar o que desesperada e orgulhosamente chamo "o meu negócio". Mais uma vez, a questão que me assombra - quantos anos tenho? Lá respondo a verdade, sempre recebida com sobrolhos franzidos, pausas para rir ou admirar o quão nova sou. Um bebé, respondo sempre.

 

E as feições e restante paisagem não mentem: cara de bolacha Maria, acne, corpo franzino, sorridente sempre que possível, mesmo nos dias mais difíceis. Poderia ter, sei lá, 15 anos.

 

É o que vos digo. Um misto de orgulho, desespero e desconforto. "Aos 23, eu só pensava era em festas", já me responderam. Hoje, "estava à espera de alguém mais velho... por algum motivo".

 

Tenho tanto medo de não ser credível, de não me mostrar estando ao nível dos desafios, de ser desmascarada de sei lá o quê. Quero tanto fazer tanto, quero aproveitar para fazer muito enquanto sou nova, mas também quero que me levem a sério, não irei ser só a miúda. 


Depois, as pessoas à minha volta a consolarem-me. "És tão nova", dizem-me, enquanto me sinto e sempre me senti uma alma velha, sem me identificar com a maioria das pessoas da minha idade e a procurar abrigo nos mais velhos, logo eu, que ainda por cima passei os primeiros cinco anos de vida sozinha em casa com a minha avó, que nunca me falou como se eu fosse uma criança, mas sim compreendendo-me e argumentando como se eu fosse sempre capaz de acompanhar qualquer discurso. E as conversas de política à hora de jantar, os livros, a televisão. Sou nova, sem o ser. Até o cansaço mental é o de alguém que já viveu mais do que isto - é o que me parece.

 

Chegará um dia em que hei-de querer voltar a ter esta idade, porque também há o reverso da medalha: ser-se demasiado velho. Por agora, não desgosto assim tanto de ser nova. Uma miúda.

 

Por agora, só quero ficar em casa, não gosto de festas, prefiro convívios ao fim-de-semana, gosto de rotinas, silêncio e estabilidade.

 

Assim escrevi no último dia dos 23, 15/06/2019, e corrigi e editei a 17/06/2019.

O luto e a impotência da perda: The Year of Magical Thinking (Joan Didion)

LRM_EXPORT_276497739492560_20190608_131208256.jpeg

 

Life changes fast. Life changes in the instant. You sit down to dinner and life as you know it ends.

 

Já perderam alguém querido de um momento para o outro? Já vos aconteceram situações inesperadas que mudaram a vossa vida para sempre?

 

É este o mote para todo o livro The Year of Magical Thinking, de Joan Didion. Deve ser o livro mais triste, mas também dos mais bonitos que li este ano. Joan Didion é conhecida por ter tido uma carreira completamente ligada à escrita, nomeadamente na Vogue, na revista The New Yorker e como guionista (como o remake de A Star is Born de 1976), mas este é um livro, digamos, de memórias.


Quem também conheceu no trabalho e a acompanhou durante mais de quarenta anos de vida foi o marido, o também escritor John Dunne. The Year of Magical Thinking não é só sobre ele, mas sobre o seu falecimento e o ano que se seguiu. Este é um livro sobre o luto, o que por si só é triste, mas que neste caso tem todo o contexto dum casamento feliz que lhe precedeu.

 

O luto de Didion consiste numa tentativa constante de reconstrução dos factos que levaram ao momento em que John se sentou para jantar e teve um ataque cardíaco, revisitando recordações desde o momento em que se casaram até à noite de 30 de Dezembro de 2003. Por isso, o sentimento de impotência prevalece, mesmo quando são contadas memórias felizes. A autora quer ter respostas que, na verdade, são óbvias. Como e de que morreu o marido? Ela poderia ter feito alguma coisa para o evitar? Como é que poderiam ter tido uma vida ainda melhor? Deveria ter lido melhor os sinais, tanto os sinais médicos quanto os esotéricos? Que entrelinhas lhe falharam?

 

Para mim, o mais importante a reter e a apreciar neste livro é o raciocínio de alguém que perdeu a sua pessoa favorita no mundo, embora não acredite que seja o melhor trabalho escrito fale Didion. O que faz deste livro tão bonito é o carinho omnipresente e a falta que faz a pessoa com quem se escolheu passar a vida.


Por outro lado, a dor. Li a maior parte de The Year of Magical Thinking antes de adormecer e tive quase sempre sonhos relacionados com a perda súbita de alguém, ou com a impotência e casualidade da maioria dos eventos na nossa vida, que não podemos controlar. A procura desse controlo é vã, mas devolve-nos algum conforto, por nos fazer parecer que estamos a tentar tanto quanto possível. No caso de Didion, nada iria mudar o facto de o marido sofrer de problemas cardíacos, com predisposição genética e detectados várias décadas antes da morte, mas mesmo assim a procura incessante de respostas mostra-se tão inevitável quanto a doença (da filha de ambos, Quintana) e a morte.


Assim, se procuram entender melhor o a relação entre os vivos e os mortos, o amor que sobrevive a qualquer um, se perderam um ente querido e precisam de consolo e catarse, se querem ler sobre casamentos e histórias de amor que só a morte separa... The Year of Magical Thinking é o que vos faz falta na estante. Não é uma leitura emocionalmente fácil, mas de certeza que nos enternece.

 

-----

🤯E agora que já terminei este livro fininho, mas pesadote... O que recomendam de mais leve e para a boa disposição das pré-férias, com dias tão bonitos?

Socorro: não consigo fazer planos e não consigo encontrar um propósito!

Por estes dias, andamos todos à procura do nosso "propósito". É uma canseira. Já referi há algumas semanas que me sinto frequentemente assoberbada por estímulos, obrigações e informação, o que me causa ansiedade, mas entretanto tenho conseguido controlar o meu acesso e preocupação no que toca a essas fontes de stress.

 

Nos últimos tempos, parece que há cada vez mais coaches, podcasts, blogs e eventos acerca de ser mais, melhor, tudo. Não desdenhando de toda a investigação e atenção dada a tópicos tão importantes para a nossa sociedade quanto a felicidade, o bem-estar, o desenvolvimento pessoal e o empreendedorismo (até porque o meu mestrado se foca nalguns desses temas e eu adoro estudá-los), sinto que, se não soubermos digerir ou tivermos ferramentas mentais para receber essa informação, acabamos perdidos entre tantas ideias, autores e motivational speakers.


Regressando ao assunto que me leva a escrever este texto, a procura do tal propósito, gostaria de discordar do que tenho lido nas redes sociais. De repente, não há quem não fale de encontrarmos essa agulha no palheiro que é o motivo, a justificação, a motivação para a nossa existência, influência e trabalho. Para mim, o problema não é a procura do propósito. Também eu assino por baixo que é importante termos algumas linhas de orientação em mente para nos concentrarmos no que nos traz satisfação e sermos, em geral, bem-sucedidos. Contudo, o problema é que tenho lido e ouvido vários coaches a defenderem uma espécie de propósito permanente, inflexível, obrigatório, ditatorial. De repente, é como se não prestássemos enquanto pessoas se não tivermos um propósito definido, como se estivéssemos mesmo à procura de falhar redondamente na vida.


Isto é tão errado.


Não, eu não sei qual é o motivo de eu andar por aqui, na Terra, por que nasci. Dou o meu melhor todos os dias para criar algo com significado, nem que seja contribuir para o bem-estar doutra pessoa, mas não me parece necessário escrever uma declaração de intenções acerca disso, pelo menos não uma que tenha de me definir.


Por que é que achas que ainda não encontraste o teu propósito? Li esta pergunta num questionário que me enviaram recentemente. Na altura, respondi de forma curta, mas fiquei a pensar, até chegar a mais ou menos esta conclusão: não encontrei o meu propósito porque ele está sempre a mudar. Não todos os dias, mas sei que todos os meses ele vai sofrendo alterações.


Há dois anos, eu sabia tudo. Quase podia planear a minha vida à semana para os dez anos seguintes. Depois, a vida aconteceu e esses planos, além de terem deixado de fazer sentido, também me deixaram num estado de recriminação constante que se prolonga até hoje e sobre a qual ainda tenho de reflectir e tentar resolver, nomeadamente em sessões de terapia. De vez em quando, ainda penso como é que será possível eu já não ser aquela pessoa, tão cheia de certezas, e como é que eu não fiz X, Y e Z se me tinham dado oportunidade para tal.


Pensar que tinha um propósito e planos a longo prazo foi uma merda para mim. Desde então, passei a planear cada dia, cada semana e cada mês, sem muito mais antecedência, não vá o resto do mundo decidir virar-se e eu ficar de novo na lama por não me ter precavido para tal situação. Uma coisa são projecções, desejos, ideias. Outra coisa é a procura duma definição pessoal enquanto necessidade primária e urgente.


Além disso, qualquer que seja a nossa idade, devemos deixar espaço para as coisas boas. Parece que só tenho falado nas más, mas as boas também podem trocar-nos as voltas e desafiarem todas as crenças que tivéssemos. Podemos conhecer o amor da nossa vida, engravidar ou perder alguém querido, nós ou os nossos companheiros podem arranjar a oportunidade profissional com que sempre sonharam bem longe de onde estamos, podemos adoecer, podemos ter um acidente, podemos descobrir uma vocação inesperada, podemos perder ou ganhar muito dinheiro subitamente, podemos mudar de ideias... Quem sabe...? Então, acredito em estarmo-nos um pouco a lixar para planos que nos limitem, sem criarmos alternativas B, C e Z. Sou pelas alternativas, pelos mil planos diversos, pela dispersão ocasional, pela espontaneidade, pela liberdade de ter um propósito hoje que não terei amanhã. Um dia quero ser professora, no outro quero ter um negócio, a seguir consigo ter os dois, mas daqui a três meses vai-me apetecer viajar pelo mundo, e hei-de encontrar fontes de inspiração diferentes, depois já quero ser escritora, engenheira química, astronauta, estudar tarot ou apostar em corridas de cavalos. Eu sei lá, hoje sou assim, amanhã é que não sei.


Fui educada e vivo numa casa onde se acredita no mote "um dia de cada vez". Combinando essas lições ao que fui adquirindo pela experiência pessoal, penso que planearmos é tão importante quanto permitirmo-nos margem de manobra.

 

Entretanto, também ando a ler O Mundo À Beira de Um Ataque de Nervos, do autor inglês Matt Haig, que me tem ajudado a reflectir e a confirmar que nos encontramos demasiado focados no que seremos e faremos no futuro, uma das principais fontes de ansiedade do nosso tempo, em vez de nos concentrarmos no presente. Em breve, escrevo sobre este livro.


Na altura em que precisei de rever a forma como penso, há pouco mais de um ano, almocei com uns amigos num lugar onde, em cima das mesas, pequenos castiçais tinham sido decorados com mensagens simbólicas. A nossa era "Um plano que não tem espaço para mudanças é um mau plano." Acho que foi uma óptima premissa para o ano que se tem seguido. Sabia lá eu as coisas que me estariam para acontecer em tão pouco tempo...!

 

 

 
 
 
 
 
Ver esta publicação no Instagram
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

Uma publicação partilhada por Beatriz (@beatrizcanasmendes) a

6 lições para ser mais empreendedor: What I Wish I Knew When I Was 20 (Tina Seelig)

LRM_EXPORT_242640375517711_20190425_131211863.jpeg

 

Vi este livro pela primeira vez numa lista de recomendações, não sei se no Goodreads ou no Book Depository. What I Wish I Knew When I Was 20, de Tina Seelig, tem não só um título sugestivo (mais ou menos "o que eu gostaria de ter sabido aos 20 anos"), quanto também uma autora com um percurso profissional e académico impressionante.

 

Não me vou alongar muito, mas o seu currículo inclui o facto de ser professora, neurocientista, consultora, directora do Stanford Technology Ventures Program e membro-fundadora do Hasso Plattner Institute of Design (d.school) da Stanford School of Engineering. Uma vez que ando a estudar empreendedorismo e criatividade neste segundo semestre de mestrado, e aspiro a ser tão multi-tudo quanto a Tina Seelig, ela pareceu-me uma excelente pessoa, um modelo de excelência, para me contar o que é que eu já devia saber aos 20 anos (e mais 3)! Além disso, nestes dias, qualquer inspiração para enfrentar os 20s é bem-vinda!


Mais uma vez, li muito pouca informação adicional antes de começar a ler o livro. O título tinha-me parecido ilustrativo o suficiente, por isso peguei-lhe sem questionar o conteúdo. Então, mais uma vez, fui surpreendida. Afinal, What I Wish I Knew When I Was 20 não é uma narrativa de cariz pessoal ou filosófico (o que eu esperava), mas sim uma reflexão acerca de criatividade e empreendedorismo em faixas etárias jovens.


No entanto, tal como tenho aprendido nas minhas aulas, o empreendedorismo pode antes ser um conjunto de ferramentas e competências úteis para a vida em geral, não só no que toca à concretização de negócios! Aliás, o conteúdo deste livro é inspirado numa lista de lições que Seelig escreveu ao filho quando ele foi para a universidade.


Ao ler What I Wish I Knew When I Was 20, confirmei o que tenho aprendido doutras formas: o empreendedorismo e a criatividade podem ser ensinados e aprendidos, não são atitudes inatas que são inacessíveis a quem não tenha nascido com tal tipo de "dom". Podemos vê-los como atitudes a adoptar para sermos não só bem-sucedidos, mas também felizes.


Por exemplo, destaco algumas que me ocorrem de momento:

 

1. Não devemos ver os problemas que nos surgem como empecilhos, mas sim como uma fonte de experiência e conhecimento;

 

2. Fazer alguma coisa é sempre melhor do que não fazer nada, por isso temos de começar sempre por colocar as nossas ideias em prática e depois logo se vê se corre bem ou não;

 

3. Devemos pensar em ideias viáveis para criar novos projectos, mas as melhores ideias surgirão exactamente do oposto, surgirão das ideias mais absurdas e menos convencionais, que a maioria das pessoas não levaria a sério à primeira vista (foi assim que o Cirque du Soleil surgiu);

 

4. É impossível sermos bem-sucedidos sem falharmos muito mais vezes (tomemos o exemplo das start-ups, que na sua maioria falham, para que no meio de toda essa confusão surja Aquela, a incrível). Por isso, o melhor a fazer é normalizar as falhas enquanto parte inevitável do processo;

 

5. Uma forma de potenciar todos os nossos esforços enquanto estudamos é aproveitando projectos da escola ou da universidade para desenvolver outros paralelos (por exemplo, se temos de escrever um plano de negócios para um seminário, podemos aproveitar essa tarefa para criar uma plano para um negócio real, investigar e experimentar formas de o tornar viável, não deixando apenas a teoria no papel, mas podendo aplicá-la no futuro);

 

6. Devemos encarar todas as pessoas que conhecemos como uma oportunidade para aprender algo ou como uma porta que se abre para novas possibilidades (seja porque se tornam nossos amigos, porque conhecem mais alguém que também deveríamos conhecer ou até porque pode surgir algum tipo de colaboração em projectos futuros).


Para "entrar" na disposição ideal para ler este livro, recomendo o documentário que a Tina Seelig menciona logo nas primeiras páginas, Imagine It!, no qual durante cerca de uma hora, somos relembrados que o empreendorismo não tem de ser apenas sobre a criação de valor monetário, mas também social e cultural, enriquecendo a comunidade de diversas maneiras. Deixo-vos aqui o link para o documentário.

 

Para um primeiro contacto com a autora, também recomendo as Ted Talks da autora, principalmente esta.

 

 Sugerem mais algumas lições que gostariam de ter sabido aos 20?

Diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és!

Nos últimos meses, tenho sentido e dado cada vez mais valor a esta expressão tão popular: diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és! Apesar de ser inútil querermos ser iguaizinhos a alguém, quer física, quer psicologicamente, acredito que as pessoas com quem nos relacionamos - e de quem, idealmente, escolhemos rodear-nos - tem muita influência na forma como pensamos e agimos.


Acho que, em primeiro lugar, é indispensável encontrarmos quem nos sirva de exemplo a seguir. Estar com quem me mostre "como se faz" é meio caminho para me sentir mais motivada a ser e a fazer melhor. Não tenho de procurar sempre alguém para admirar fora do meu alcance imediato, por contar com modelos próximos e que, não sendo os mais ricos, reconhecidos ou irrepreensíveis, me permitem vê-los a uma escala mais humana e real. Em suma, vejo nos meus amigos uma fonte de inspiração e também de apoio - o que me leva ao segundo ponto.


Partilhar interesses, áreas de estudo, ambições, estilos de vida e/ou visões sobre a vida em geral com quem me rodeia é um consolo por poder sentir que não estou sozinha, mesmo à distância. Claro que devemos constituir uma dose saudável de desafio uns para os outros - não é só acenarmos sempre que sim e concordarmos -, mas, no meio de tanta confusão, ansiedade e receio do desconhecido que enfrentamos no dia-a-dia, é indispensável poder contar com alguns focos de apoio e conforto.


Além disto tudo, a positividade que as relações interpessoais me trazem é a garantia de que podemos juntar todos os nossos dias negativos e torná-los suportáveis, quiçá dar-lhes sentido. Sinto que os meus amigos são, neste momento, a família que eu vou escolhendo. No entanto, também a minha família nuclear se insere neste contexto. São pessoas generosas, preocupadas e doces, mas também são, cada um à sua maneira, pessoas lutadoras, a quem a vida nem sempre é facilitada, mas que insistem em fazer e ser melhores sempre que possível.


Escrevo este texto porque tanto eu quanto todas estas pessoas à minha volta estão a passar por fases pessoais, académicas e profissionais particularmente turbulentas. Há quem esteja a começar a carreira, há quem a esteja a tentar consolidar ou a apostar numa nova. Há quem esteja a criar e há quem esteja a refazer a sua vida, há quem precise de qualquer coisa mais. Cada um de nós em áreas diferentes, acabamos por partilhar o facto de andarmos a saltar obstáculos relativamente novos.


Escrevi no início do texto "diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és". No entanto, não sei se sou igual às pessoas com quem ando, mas posso tentar olhar para cima e tentar lá chegar. Não desfazendo nas minhas próprias qualidades, admiro-os bastante. Consigo ver-lhes os defeitos, mas também tantas qualidades que também espero ter e poder oferecer-lhes.


No meio disto tudo, fica a gratidão por saber que estamos a navegar em barcos tão distintos e tão iguais e, ainda assim, nos vejo disponíveis para os outros. Às vezes são almoços ou lanches de meia hora, jantares tardios encaixados em fins de dia caóticos ou uma mensagem desirmanada. Enfim, continuamos por aqui.


E que, depois da tempestade, venha a bonança. Ou, pelo menos, o descanso merecido e a recompensa justa.

Indo eu, indo eu... a caminho do segundo trimestre de 2019

21392698_JBJzQ.jpeg

 

O segundo trimestre de 2019 começou hoje e eu já sei que vai ter de abarcar muita aventura. É como uma mala de viagem: no início não sabemos como, mas no final tem de caber tudo. Tanta coisa parece estar para acontecer ainda antes de o Verão chegar... Por exemplo - e entre outras mil coisas já na lista - hoje mudei-me para um espaço de co-working e foi o primeiro dia em que levei isto do trabalho por conta própria a 100%. Apesar de já o fazer informalmente há um ano, só nos últimos tempos é que tenho pensado em estratégias a médio e longo prazo para levar um negócio meu a bom porto. Tem de dar para mais do que pagar as propinas e a gasolina. Sinto que assumi um compromisso. Então, mas não sou eu a procrastinadora de serviço? Já dizia em 2014 que procrastino tarefas importantes com outras recém-criadas, uma prática obviamente saudável. Ainda em fase de experiências, estou optimista. No entanto, por hoje ter sido "este primeiro dia", parece que ainda nem é real. Ainda não tive oportunidade de assimilar esta pequena, grande alteração na minha forma de estar e pensar, mas lá chegarei.

 

Há cerca de duas semanas, também comecei a escrever no Ano 13. Não sei se é blog, se é site, se é ideia empreendedora ou lá o que os meus professores do mestrado lhe chamariam, mas sei que é algo que me tem feito repensar no que faço pessoal, profissional e academicamente. Ainda está muito incompleto, mas não me importo se lhe derem uma vista de olhos. Que tal?

 

E, depois, todo o buliço do mestrado, estágio, tese ou relatório. Novas ideias todos os dias, mais livros e artigos para ler, autores para descobrir. Entro em qualquer livraria, online ou física, e apetece-me encomendar ou trazer de lá metade da loja. Trabalhos para aqui, apresentações para acolá, e este semestre quase todos os seminários são sobre empreendedorismo e gestão e tudo parece feito para nos levar ao limite do entusiasmo, e eu sinto-me realmente entusiasmada, mas só espero ter energia, e estofo, e fôlego para tanta criatividade, e inovação, e ideias para (mais) negócios, e houvesse mais dinheiro, e horas em cada dia, e vontade de explodir, e vocês haviam de ver se eu não passava tudo do papel para a vida real.

 

Então, como podem verificar por este relato aproximado e apressado, ando um pouco ocupada e muito calma - maaaaas... nunca o suficiente para não tirar um curso em Stress e Relaxamento em Contexto Escolar. AH AH AH! Como diz a minha psicóloga (ou será que fui eu que pensei? ou ambas?), é fácil falar e dizer aos outros o que fazer; mais difícil é fazê-lo nós mesmos. Viva o desafio do que é humanamente possível!

 

O primeiro trimestre de 2019 já se passou. Também não sei como, mas acho que é um sentimento partilhado por algumas pessoas à minha volta. Não dei por nada, os dias correram. Será que o mesmo vai acontecer com os próximos meses? Quantas mudanças cabem em três meses, cerca de 90 dias? Quantas decisões importantes? Quantos compromissos inaugurados? Quantas oportunidades para alterar o curso dos eventos actuais? 

 

Vou dando notícias. Entretanto, se precisarem de aulas de Português ou Inglês em Lisboa, lembrem-se de que eu sou professora dessas línguas e que o meu escritório fica bem no centro da cidade, a cinco minutos de duas estações de Metro. Faço atenções aos leitores procrastinadores, sem códigos de desconto internéticos e tudo.

Creative Mornings Lisboa: uma experiência enriquecedora, desafiante e... criativa

IMG_20190322_120928_748.jpg

 

Há cerca de um mês, escrevi sobre o quanto tinha gostado de ir ao evento das Creative Mornings em Lisboa. No culminar de algum mal-estar pessoal, acerca do que eu achava ser parte da minha personalidade não se andar a revelar, sobre o desconforto de interagir com outras pessoas e de me sentir anormalmente desconfortável em situações sociais, decidi confrontar-me com uma situação nova. Apesar de já frequentar os clubes de leitura, a minha vida social além do contacto com os mesmos amigos, namorado e família costuma ser quase inexistente, por isso talvez fizesse sentido pôr-me outra vez "lá fora".

 

Ainda bem que o fiz e gostei tanto de ir às Creative Mornings, de ter conhecido mais pessoas e de me ter obrigado a desatar a língua, que esta sexta-feira acabei a repetir a experiência. 

 

Para quem não conhece, as Creative Mornings são eventos organizados por voluntários em várias cidades do mundo (e que começaram em Nova Iorque), com o objetivo de reunir uma comunidade internacional (vá, inter-tudo) de indivíduos interessados em partilhar as suas experiências pessoais e profissionais, enquanto ouvem a história de oradores convidados e, de preferência, comem um bom pequeno-almoço. Cada grupo de voluntários, em cada cidade, organiza o evento da forma que melhor lhe parecer, mas normalmente deve haver oportunidade para que os participantes se conheçam e, quiçá, partam para conversas construtivas.

 

Não serei a pessoa mais informada sobre o panorama mundial do assunto, mas não posso deixar de recomendar que, se procuram refrescar as vossas ideias, desafiarem a vossa timidez e conhecerem quem possa partilhar interesses e ideias convosco, experimentem aparecer na próxima manhã criativa que houver em Lisboa (estejam atentos ao Facebook).

 

IMG_25620322_092901.jpg

 

No encontro do mês passado (que, na verdade já foi no dia 1 de Março), a convidada foi a Rita da Nova. Este mês foi a Kaya-Line Knust, que eu não conhecia, nem a sua marca Stop The Water While Using Me, mas que contou imensas coisas giras sobre como criar marcas e produtos que façam sentido para os empreendedores. Todos os meses há um tema diferente, por isso é possível aprender sempre com os convidados.

 

Ficando a sugestão, espero que seja útil para quem também precisa de mudar de ares por umas horas!

Como concretizar todas as ideias que nos aterram na cabeça?

Ultimamente, parece que a minha cabeça anda a mil. Se de vez em quando lá vêm dias em que nem me apetece levantar da cama, noutros nem consigo adormecer, tal é o ruído cerebral gerado pela combustão de ideias, projetos, questões por resolver - e obviamente que toda a gente concorda que as 3 da manhã são as novas 4 da tarde para quem se vê consumido por tal trabalho mental, tardio e temporariamente despropositado, ainda que sempre bem-vindo.

 

Estava eu a dizer que isto me tem acontecido ultimamente. De repente, parece que há tanto por fazer no mundo, e por que raio não hei-de ser eu a fazê-lo, entre tantos biliões de gente? Claro que não sonho em ser eu a erradicar a fome mundial, nem a encontrar cura para o cancro, mas, dentro do meu expectro de conhecimentos e acção, parece que a minha irmã gémea hiperactiva tomou conta das minhas vontades e me quer puxar para todo o lado a fazer dezenas de coisas ao mesmo tempo (infelizmente, ainda não se estendeu ao trabalho semestral que tenho de entregar até ao próximo fim-de-semana, mas até lá não perderei a fé de que irei ser socorrida pela urgência do prazo; também é pena esta irmã gémea ter semelhante preguiça de ir ao ginásio, o que até se justifica, porque parece andar demasiado ocupada a apagar fogos bem longe da mencionada infraestrutura).

 

E como concretizar todas as ideias que nos aterram na cabeça? Isso é que eu adorava saber, pelo menos enquanto as que tenho agora não são vorazmente substituídas por outras.

 

Por hoje é só isto, que tenho de ir dormir. No entanto, se não tivesse de o fazer, tenho a certeza de que este texto se alongaria em longas e filosóficas reflexões. Será dos pólens? Fiquem por aí para o próximo, aposto que não tardará.

Escrever, pôr tudo cá fora: Bullet Journal, journalling, to-do lists e outros estrangeirismos de caneta no papel

IMG_20190319_111852_519.jpg

 

Tenho blocos de notas e ideias desde o primeiro ou segundo ano da faculdade. Ao longo dos anos, fui escrevendo maioritariamente listas de tarefas, pensamentos súbitos, algo de importante que me dissessem, partes de livros que achasse conterem ensinamentos para a vida (a certo ponto, tive a sensação de que teria de copiar todo The Four Loves de C. S. Lewis...). A Inês também desde cedo percebeu o quanto eu comecei a gostar de blocos e bloquinhos, então num Natal ofereceu-me um bloco com uma encadernação tão amorosa que ainda hoje se encontra em branco (tenho pena de o conspurcar com a mundanidade da minha caligrafia desnivelada) e, o que despoletou uma nova mania nos hábitos de escrita, uma caneta Sheaffer que me acompanhou durante dois anos até ter ficado sem tinta e eu me ter conformado à preguiça e esquecimento de comprar uma nova recarga (nota mental: fazê-lo hoje, por fim).


No entanto, perdi um pouco desse hábito quando comecei a viver sozinha e ao mudar-me para o outro lado do mundo. As rotinas ficaram todas trocadas, graças a esse maravilhoso fenómeno de brincar aos adultos e tentar perceber as regras do jogo. Comecei a escrever cada vez menos, até no blog, e a perder pensamentos pelo caminho, sem os anotar e organizar. Não me saía nada, não tinha sequer concentração, apesar de continuar a comprar cadernos, blocos e canetas de forma praticamente compulsiva. Ainda me pergunto de vez em quando se não terá sido essa uma das falhas logísticas que contribuíram para o meu mal-estar. Quem sabe?! No final de 2017, antes de regressar a Portugal, recomecei a escrever, mas em poucos meses essa vontade readquirida voltou a extinguir-se quando a materialização de pensamentos no papel insistia em relembrar-me o quão triste algumas coisas me deixavam e eu preferia não lidar com elas.


Assim, passadas essas fases em que o papel e canetas ficaram arrumados, foi no final de 2018 que recomecei a escrever mais consistentemente à mão e a ter sempre um bloco ou caderno por perto, por influência da ideia do Bullet Journal, o qual conheci através do livro homónimo sobre o sistema.


Apesar de não ter adoptado à risca o sistema original de Bullet Journal, comecei a criar as minhas próprias "colecções" ou secções temáticas. Em primeiro lugar, voltei a escrever e a vigiar listas de tarefas, objectivos e eventos. Três meses mais tarde, também tenho criado repositórios de ideias para projectos pessoais, para o blog e, a pouco e pouco, tento cultivar o hábito de escrever em forma de diário, o que hoje chamam journalling, cujas técnicas mais criativas ainda estou para aprender.


Diz que faz bem à cabeça registar por escrito o que só causa ruído e ocupa espaço desnecessário na memória de trabalho. Diz que faz bem ao coração para diminuir a ansiedade, ganhar distância e, consequentemente, objectividade. Por exemplo, foi-me recomendado pela psicóloga que me começou a seguir fazer listas e mais listas e também um "mapa de emoções", onde registe e me confronte com o que precisa de ser destrinçado, para analisar comportamentos, pensamentos, sentimentos e procurar-lhes padrões e novidades.


É como nas sopas que a minha avó faz: vai tudo lá para dentro, sem receita, é o que houver na altura, o que estiver à mão. Assim escrevo eu no bloco actual. O que interessa é fazê-lo. 

 

***

 

Nota: ao escrever este texto, comecei a procurar outros que ilustram as situações referidas, e é incrível relembrar a longevidade deste blog, o que me levou tão longe quanto 2012 nas minhas recordações, quando parece que escrevi tudo anteontem. Um cliché blogosférico, é o que vos digo!

A vida normal: Eliete (Dulce Maria Cardoso)

LRM_EXPORT_56463411685586_20190312_121312174.jpeg

 

Este ano tem sido óptimo em termos de leituras. Tenho aprendido a ler profundamente (a chamada deep reading), outra vez, com entusiasmo e voracidade. Em parte, isto só é possível graças à sorte de encontrar ou escolher livros que me conseguem chamar a atenção desde o início.


Um deles foi a Eliete, de Dulce Maria Cardoso. Um gosto ligeiramente "maria vai com as outras", mas a verdade é que lhe confirmo todas as virtudes que já outros lhe atribuíram.


A Eliete podia ser uma de nós - há uns anos, daqui a uns anos ou mesmo agora. Outrora foi jovem, teve sonhos, apaixonou-se, cresceu e viveu em sítios por onde também nós já passámos, muitas das personagens da vida dela são as das nossas, tem pensamentos comuns, sofre de males comuns, leva uma vida comum. O título desta Primeira Parte regista: "vida normal".


O primeiro volume da história da Eliete, de Dulce Maria Cardoso, é um daqueles livros criticáveis, por poder ser datado, por ser escrito com uma voz de mulher, por falar bem e mal dos homens, por trazer à literatura portuguesa temas e episódios tão mundanos quanto a instalação duma aplicação de encontros no telemóvel, os emojis, a alienação dos entes queridos pelo nariz enfiado nos telemóveis, os motéis, as ditas crises de meia idade e o golo do Éder.


Por outro lado, a Eliete há-de servir de espelho da mulher madura na segunda década deste milénio. Vejo nele a expressão do que já é corriqueiro no resto da literatura quando exposto do ponto de vista masculino, mas que se lê cada vez mais do ponto de vista feminino, a referir: o sexo, a família, a traição, a perda, a superação, a relação com e entre o corpo e a alma, a transformação.


A ditadura e o 25 de Abril continuam presentes, à semelhança do que li em O Retorno, e fiquei com curiosidade em perceber o que se seguirá depois desta primeira fase do despertar da Eliete.


Penso que não tenho sequer palavras para vos explicar melhor sobre o quanto este livro me agradou. De facto, senti que desde o início não tinha outra alternativa senão continuar a leitura até ao fim, e só comecei a sentir o ritmo de leitura abrandar quando, quase no final, a Eliete se começou a tornar mais previsível.


É provável que já tenham lido a Eliete, ou que seja um dos vossos livros por ler. Se for esse o caso, espero pelas vossas opiniões!