Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Sobre as relações de vizinhança: Casos do Beco das Sardinheiras (Mário de Carvalho)

IMG_20190525_161308.jpg

 

Tenho pena de quem nunca tenha experimentado a sensação de ter nos seus vizinhos uma mão extra quando falta, a companhia suplente para os grandes eventos, o ingrediente que falta ou as ofertas inesperadas dum bolo, uma fruta trazida da terra, os legumes da horta ou uma boleia quando o carro não pega. A vida é tão melhor quando vivemos perto de pessoas cujos nomes sabemos, a quem podemos sorrir logo de manhã ou com quem nos cruzamos no elevador sem grande constrangimento. Os meus vizinhos em Portugal partilham tudo o que cultivam na horta, e até me venderam o carro deles em segunda mão por um preço simpático; e os do outro lado da rua foram como uma extensão à família durante a minha infância e adolescência. Do outro lado do mundo também tive sorte: uma das minhas vizinhas tailandesas em Bangkok trazia-me mangas e fruta-dragão da terra dela, apesar de nem falarmos a mesma língua e a nossa comunicação se basear em pedaços de inglês aqui e ali e em risos e wais descoordenados.


Pareceu-me ser esse o tema do livro Casos do Beco das Sardinheiras, de Mário de Carvalho: a vizinhança com quem se mantém uma relação amor-ódio, que são realmente tudo de bom, mas que de vez em quando também podem ser só gente metediça e inconveniente. À mistura, temos um bairro muito sui generis, que tem tanto de típico, como de paranormal. Eventos estranhos acontecem no Beco das Sardinheiras, ora por culpa dum vizinho, ora por culpa do outro, ora por sabe-se lá que carga de água.

 

Ler os Casos do Beco das Sardinheiras é como abrir um glossário de expressões idiomáticas que os nossos avós usam, ou que pelo menos se ouvem cada vez menos. A cada página, parece que somos surpreendidos por mais uma, que provavelmente nunca ouvimos antes. Ainda bem que há quem tente preservar este espírito que será enterrado à medida que tais expressões caem em desuso! Sempre que descobria uma nova, só pensava "e se alguém tentasse traduzir isto para outras línguas?!". Acho que nem dava, ou seria precisa muita mestria para abarcar a sua riqueza linguística e cultural.

 

IMG_20190527_105140.jpg


Mesmo assim, foi o último dos Casos do Beco das Sardinheiras que realmente me surpreendeu. Não vos vou contar qual é o desfecho, mas prometo que ficarão surpreendidos e que lhe acharão graça.


Se estão à procura dum livro literalmente levezinho escrito por um autor português, talvez porque, tal como eu, se andam a desleixar na leitura da nossa língua nativa, recomendo este. São casos que nos fazem ficar a pensar que, mesmo quarenta anos depois de serem escritos, continuam a fazer sentido neste modo de estar tão português, tão cosmopolita, e simultaneamente tão provinciano.

 

📚 Têm mais alguma sugestão de leitura em português? Esta foi a minha leitura de Maio, com o tema "Flores", para Uma Dúzia de Livros, promovido pela Rita. 

Encontrámo-nos anteontem para discutir as nossas leituras, no sítio do costume -  A Sala, uma cafetaria/espaço de lazer muito acolhedor em São Bento, onde também já organizei um workshop e onde tento ir sempre que possível! O gelado da primeira foto estava delicioso!

 

IMG_20190525_170230.jpg