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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Texto à caloira que eu fui

16.09.18 | BeatrizCM

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Minha cara, vou já adiantar que "está tudo bem". Dentro dos possíveis, irias ficar abismada com o que te aconteceu na última meia década. Não sei se to deveria ter dito, mas não quero que fiques a pensar na morte da bezerra, que não ficas, mas há de chegar o momento em que não vais saber para onde te virar e em que te questionarás acerca das opções que se te apresentam. Ainda por cima, nao é como se fosses realmente receber este texto, por isso não faz mal revelar uma ou outra profecia de meia-tigela.

 

Vejamos: está tudo bem. Escolheste bem, mais imprevisto, menos imprevisto. Do teu lado, tiveste quase sempre pessoas maravilhosas, que te deram uma mãozinha sempre que possível, que te proporcionaram aconchego, segurança, liberdade, espaço para cresceres. Tiveste que trabalhar imenso, fazer-te valer das tuas próprias competências, conhecimento, optimismo incurável e grandes doses de estupidez natural, tiveste que provar o teu mérito vezes sem conta, frequentemente sentiste que não andavas a viver a vida duma pessoa da tua idade, mas também tiveste alguma sorte e pudeste colher os frutos desse esforço contínuo.

 

Há sensivelmente cinco anos, comecei a minha licenciatura. Aí estás tu.
Não sei qual a origem da enorme admiração do pai quanto ao facto de ter ido para Letras. Com o ISCTE e a FDUL mesmo à frente, por que raio não queria eu ser uma jornalista com formação de base num qualquer eito ou logia, em vez duma jornalista com uma formação de base genérica e confusa?! Ciências da Cultura, o que é isso?

 

Cinco anos depois, continuo sem conseguir explicar mais do que "estudei línguas, cultura, literatura, história, linguística e comunicação social, tudo num".

 

No entanto, sei muito bem que foi o melhor que eu tinha a escolher na altura. Fizeste bem em escolher a licenciatura da qual mais gostavas e não a mais conveniente, listada em rankings, com o título mais sintético. Tu, bicho irrequieto, que ainda pretendes fazer mais do que "uma coisa" na vida profissional, que lês desordenada e desconcentradamente, com hábitos de trabalho e enriquecimento pessoal desgovernados, terias sido - e eu ter-me-ia tornado - muito menos feliz. E tu sabe-lo, também. Já te conheces de modo a estar consciente do quão irrequieta a tua mente é.

 

O que interessa é que aprendeste imenso, sem te sentires consumida. Tiveste professores que te inspiraram e moldaram - ou agitaram - o pensamento, as crenças, os gostos, alguns dos quais ainda na tua lista de contactos. Por causa do trabalho desenvolvido por eles, chegarás à conclusão de que o jornalismo pode não ser para ti e confirmarás que o ensino deve ser a tua maior vocação. E mais: terás acesso a uma biblioteca maravilhosa onde passarás momentos de satisfatória procrastinação, mas onde também darás por ti a pensar na vida e, surpreendentemente, a ser produtiva.

 

Beatriz, continuas sem perceber claramente como é que a cultura, as línguas e os livros se vão tornar o teu ganha-pão para o resto dos teus dias, mas tens dado a volta ao assunto uma e outra vez. Por agora, tens conseguido. À tua volta, alguns amigos começam igualmente a fazê-lo, o que prova que aquelas conversas aborrecidas sobre a falta de oportunidades, sustento e dignidade nas ciências sociais e humanas, em que muitos te engoliram a paciência durante muitos anos, foram apenas inúteis e desagradáveis.

 

E não nos esqueçamos dessas pessoas que vais conhecer nos próximos dois ou três anos, graças a esse finca-pé de teres insistido em estudar Letras! Apesar de a tua vida social futura ser reduzida, vais fazer grandes amigos. Poucos, mas bons. Provavelmente, conhecerias outros amigos, noutras circunstâncias, mas... não seriam estes, que tanto adoras.

 

Está tudo bem, e vais gostar bastante dos próximos três anos - caóticos, trabalhosos, enriquecedores. Boa sorte!

 

P.S.: daqui a duas semanas vais ser despedida do call-center. Ups.
P.S. 2: não vais gostar da praxe.

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