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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

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Vamos escrever e ler sobre ansiedade: Depois a Louca Sou Eu (Tati Bernardi)

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Dar nome às coisas é terapêutico, e até há bem pouco tempo eu não sabia que essa coisa da ansiedade tinha nome e fama. Pensava que "sofrer dos nervos", ter momentos off, estar em baixo e ter o coração nas mãos do nada era só mais um problema entre tantos, e raramente crónico ou generalizado.

Há cerca de um ano, comecei a ler e a falar cada vez mais sobre o assunto. Afinal, havia outras pessoas à minha volta a passarem pelo mesmo, ou pior, e também pessoas que admiro, incluindo escritores. Curiosamente, apesar de já ter visto o livro que vos apresento hoje à venda no site da editora Tinta da China, decidi comprá-lo depois de ter sido recomendado pela Ana Garcia Martins no Instagram.

Tati Bernardi, argumentista da Globo, também é uma dessas pessoas que quer normalizar a ansiedade, sem a ostracizar, como fica claro em Depois a Louca Sou Eu, um relato autobiográfico sobre a sua experiência como alguém que também foi descobrindo como lidar com essa nuvem constante, desde os momentos em que o peito fica pesado, até à incapacidade de sair de casa e conviver com outras pessoas, passando pelo estigma, incompreensão e descrédito. É verdade que quem tem dessas coisas é que é visto como "louco", mas a autora acaba por concluir que, de facto, há gente ainda mais louca do que ela sem assim ser rotulado.

 

O melhor deste livro é, sem dúvida, o sentido de humor (ainda por cima, com a expressividade do Português do Brasil), sem desvalorizar a seriedade com que o tema é tratado - de tal forma que, se lesse o livro antes de dormir, me sentia agitada. Tati Bernardi conta-nos como tem sido viver refém da ansiedade desde criança até à idade adulta. Depois a Louca Sou Eu está dividido em pequenos capítulos, cada um sobre um momento ou uma situação decorrente desta condução: a necessidade de isolamento, a falta de ar, os ataques de pânico surpresa, o medo de sair à rua, as viagens de avião e nos transportes públicos, a racionalidade ao reflectir na irracionalidade das suas próprias acções e emoções, as relações falhadas, a família igualmente disfuncional, o gap geracional porque as gerações mais velhas não falam sobre saúde mental, a evolução profissional e os deveres sociais, a antiga dependência e a recém-descoberta independência de fármacos...

 

À parte o último ponto, e não sofrendo tanto quanto ela, consegui rever-me em quase tudo o que é contado. Aliás, senti-me bastante aliviada por ler sobre o que também é a minha saga de evitação de espaços apertados e barulhentos, e sobre a dificuldade que por vezes tenho até a enviar um e-mail ou mensagem de texto a outra pessoa, e sobre a fuga constante de planos em grande grupo, e sobre a forma como a ansiedade molda ou influencia as minhas relações pessoais.

 

Gosto muito de saber que a nossa saúde mental está a ganhar espaço nas prateleiras e estantes deste mundo. Não temos de ser loucos, se calhar somos todos ligeiramente abananados do miolo, mas falar sobre as diferentes tonalidades do que sentimos não é queixume, é apenas partilha. Talvez nos comecemos a sentir mais à vontade para o fazer se os meios de comunicação social, os produtos de entretenimento e as manifestações culturais, as celebridades e pessoas que admiramos forem as nossas referências na normalização da procura de bem-estar interior.

 

📚Há algumas semanas, também escrevi sobre O Mundo à Beira de Um Ataque de Nervos. Na minha opinião, ler experiências pessoais de quem também tenta encontrar respostas e calma é catártico e consola-me. Raramente estamos sozinhos nas encruzilhadas humanas, há sempre mais alguém a passar pelo mesmo - não é?

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