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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades.

Viver na ditadura da popularidade, criatividade, identidade única e algoritmos

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A Internet também me traz ansiedade. A volatilidade da informação e da forma como circula assusta-me: a rapidez vertiginosa com que as regras são alteradas, o tipo de discurso, as mil e uma artimanhas que surgem todos os dias para se ter o blog ou site mais lido ou o produto mais popular.


Como dizia Bauman, é tudo tão líquido. Quando sinto que estou, finalmente, a habituar-me a um tipo de linguagem e objectivos na Internet, eis que o jogo dá outra vez a volta. Também não sentem que, muitas vezes, vivemos submissos ao poder dos algoritmos e da manipulação da mente dos outros? Temos de ter as fotos de Instagram mais XPTO, definir uma paleta de cores pessoal, as palavras-chave certas, os títulos que causam mais sensação... E onde ficam a honestidade, simplicidade e autenticidade nisto tudo?


Já não nos representamos a nós mesmos. Representamos uma marca - agora, somos uma marca. Temos de investir em branding, porque, dizem, há que mostrar aquilo que nos distingue de todos os outros, mas, atenção, sempre seguindo regras estéticas, e de marketing, e de linguagem, e de não sei o quê que tem de ser feito, senão nunca sairemos da cepa-torta da produção caseira e amadora.


Como se houvesse mal nisso!


Para mim, alguns blogs e perfis continuam a ser um reduto do que eu esperava que toda a Internet continuasse a ser. Felizmente, nem toda a gente foi contaminada pelo jargão empresarial que retira a alegria de criar um projecto pessoal desinteressado.


A gestão de redes sociais fascina-me e, ao mesmo tempo, faz-me sentir pequenina. Fascina-me enquanto negócio, fascina-me que as empresas tentem acompanhar o ritmo dos dias e que tenham de se reinventar para sobreviver no mercado. Mas, então... e as pessoas? As pessoas também têm de se vender como se fossem empresas? Eu sei que há quem, realmente, seja uma empresa (o seu ganha-pão assim o determina), mas, então... e os outros?


Há dez anos que crio blogs só porque sim, porque gosto de escrever, de partilhar, de desabafar. Este foi criado há sete anos e meio e por aqui fiquei, e pode ter mudado muita coisa deste lado, mas o que não mudou foi a intenção de escrever mais e melhor enquanto desafio pessoal e de superação, sem olhar demasiado a números. Embora os números me digam quantas pessoas andam por aqui (o que é gratificante) continuo sempre a manter este espaço por gosto e não por quaisquer expectativas ou contrapartidas mercantilistas.


Um dia, pode ser que engula estas palavras e me renda a parcerias, estatísticas, dividendos. Quem sabe...? A verdade é que até o meu trabalho e ambições profissionais futuras dependem um pouco da Internet. No entanto, hoje não é esse dia. Por enquanto, o meu blog, Instagram e Facebook são meros passatempos, nos quais invisto sem ter em vista mais do que a diversão que me permitem ter e, quiçá, oferecer. São o meu laboratório de experiências, ocupam o tempo que não gasto a olhar para as paredes ou a consumir-me em aborrecimentos vários. Há quem faça miniaturas, há quem coleccione moedas, há quem catalogue passarinhos. Eu ando por aqui a debitar sobre coisas aleatórias que me interessam.


Os meus blogs e perfis preferidos continuam a ser aqueles que têm "gente dentro", e que não se vendem por tuta e meia. Não julgo quem se vende, mas sim o facto de que, hoje em dia, sinto que estão todos a vender-se e que é tudo mais do mesmo.


No outro dia, dizia um professor meu que "as tendências estão a mudar, ser-se criativo começa a ser exactamente não ter criatividade". E eu não digo que tenhamos de deixar de ser totalmente criativos, mas neste momento já me é muito difícil acompanhar tanta "criatividade". Fico cansada, desgastada pela produção constante, pela urgência das mensagens, pelo conceito de storytelling a ser usado para tudo e mais alguma coisa, em nome da popularidade e da tal "identidade única" que procuramos. Na esperança de estabelecermos um monopólio sobre a nossa auto-imagem, gritamos que somos diferentes de todos os outros, mas depois fazemos quase o mesmo, andamos pelas modas.


Estes são alguns motivos pelos quais me tenho tentado afastar das redes sociais. O desfile de histórias inspiradoras que vendem e que se vendem, do networking, da luta pelo primeiro lugar num mural de rede social alheio pedem de mim energia que não tenho. Até duma perspectiva empresarial e profissional, por mais quanto tempo aguentaremos tamanhas avalanches? Ainda será possível viver e ser-se relevante offline?


Serve este texto como desabafo e reflexão da própria.

2 comentários

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    BeatrizCM 28.01.2019 21:07

    Obrigada pela partilha, Luísa! Também acho que muitos bloggers perderam qualidades das quais eu gostava em nome duma linha mais comercial. Talvez algumas pessoas, em protesto contra esta onda, se mantenham fiéis aos seus princípios ou continuem a criar projectos autênticos.
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