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Procrastinar Também é Viver

Blogue sobre trivialidades, actualidades e outras nulidades. E livros.

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Vocês sabem quem é A Louca da Casa?

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Primeiro, adorei. Depois, estranhei. Finalmente, entendi.

 

A Louca da Casa não é um livro fácil, desafiando convenções do que é um género literário, ora registo autobiográfico, de memórias; ora ficção, invenções sem fim, enredos românticos e romanceados; ora ensaio sobre a vida de escritora, a escrita, o mistério da criatividade e imaginação (a tal "louca da casa").

 

Passei a leitura das duzentas e tal páginas a querer confiar em Rosa Montero, a querer que ela me dissesse: isto aconteceu mesmo, isto não. Mas não foi possível arranjar caixinhas. O objectivo de Rosa Montero foi quebrar essa definição tão rígida e explorar as potencialidades de géneros que podem ser distantes, mas que são mais próximos do que os julgamos.

 

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Afinal, o que nos garante que uma autobiografia é isenta e que conta tudo tal como aconteceu? Aliás, como cheguei à conclusão através da leitura, ao ouvir outras pessoas e na minha própria terapia: cada vez que tentamos contar uma história, acabamos por contar uma história diferente. É sempre, idealmente, a mesma história, só que a vida muda, a nossa perspectiva muda, acrescentamos um ou outro detalhe, real, imaginado ou tão bem fabricado que achamos verídico. A autora prova-o, por exemplo, usando a história de como conheceu M., um actor famoso. Não direi mais nada, para que possam descobrir do que se trata ao vosso ritmo.

 

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Ao longo deste livro, somos lembrados de que, até quando queremos contar a verdade mais pura sobre as nossas vidas, é inevitável contarmos outra coisa qualquer, e que os escritores contam a verdade sem querer, enquanto podem não ser totalmente verdadeiros quando tem de acontecer de propósito. Sem o leitor saber, e até sem eles mesmo se aperceberem, podem embelezar as suas histórias de vida, puxar a brasa à sua sardinha, tornar os pormenores mais interessantes, concentrar-se mais no que lhes convém e esquecer agruras várias que poriam em causa a opinião alheia e a sua reputação.

 

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Assim sendo, o leitor é convidado a sentir incómodo à conta da exploração do conceito de verdade. Queremos, sempre, a verdade. E nada mais do que a verdade, mesmo que ela seja uma verdade só de boca, irremediavelmente coxa, apenas idealizada e não necessariamente isenta. Por isso, temos de aprender a conviver com a inquietação e a dúvida, aceitando que os limites entre o mundo real e o mundo irreal numa obra literária de cariz (supõe-se) autobiográfico se encontram naturalmente esbatidos, nebulosos.

 

Quanto a mim e à minha experiência de leitora, fiquei especialmente intrigada com os acontecimentos da vida de Rosa Montero, uma vez que me ando a interessar por ler e ouvir sobre vidas de mulheres escritoras, qual a sua experiência de vida enquanto artistas. Por isso, tive, também eu, de aprender a aceitar que as partes mais inventadas poderiam ser tão verdadeiras, à sua maneira, quanto as outras. Que também elas são capazes de revelar o que há de mais íntimo para contar, apenas não do modo literal que eu pretendia.

 

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No final, este é o livro certo para quem procura uma exploração e divagação (sim, uma longa e intricada divagação!) sobre o poder das palavras e o ofício que é escrever.

 

Este livro é um trabalho um pouco meta e metafórico, sem deixar de nos impelir a ler um e outro capítulo, mesmo quando já nos sentimos prontos para fazer uma pausa. Não há muitas pausas possíveis, porque, tal como a escrita, a leitura é de igual forma um acto que absorve, consome e agarra quando assim tem de ser. Chega o momento e precisamos de entender, estudar e tentar convocar a louca da casa, com a ajuda deste A Louca da Casa.

 

Não acho que as opiniões sejam unânimes, mas, feitas as contas, gostei disto a valer.

 

Nota: preparem-se para ir apontando as referências a outros livros e autores extremamente interessantes, para sublinhar e para ir relendo as páginas anteriores.

 

Nota 2: este livro é mencionado neste episódio do podcast "Meu Inconsciente Coletivo", criação da escritora mais mencionada neste blog, Tati Bernardi.

 

Nota 3: já repararam na associação constante da loucura à criatividade artística, nomeadamente à criação literária? Entre os meus podcasts favoritos, encontra-se "Louco Como Eu" (entrevistas a escritores, com Susana Moreira Marques). A própria Tati Bernardi escreveu o livro Depois a Louca Sou Eu. E, em geral, os meus escritores favorito são quase todos, se não loucos, pelo menos neurodivergentes.

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